sexta-feira, novembro 13, 2009

“Admirável Mundo Novo”



Receio que uma vez mais o título da crónica de hoje tenha criado falsas expectativas ao leitor. “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley é uma obra maior da literatura do século XX, onde Huxley “imagina” um modelo de sociedade futura, condicionada em termos genéticos e psicológicos, e onde denuncia os perigos que ameaçam a humanidade. Uma leitura que considero imprescindível.


De forma mais modesta, o meu “mundo novo” da crónica de hoje, resume-se apenas à vontade de partilhar convosco uma cena a que assisti há dias e que me impressionou bastante.


Não muito longe do lugar em que eu me encontrava, uma mulher tinha uma das mãos junto da face, enquanto que a outra mão gesticulava furiosamente em vários sentidos e agitava os dedos em rituais estranhos. Disfarçadamente olhei para a mulher sem compreender. Parecia louca.


Percebi então que “falava” ao telemóvel, através de uma vídeo-chamada. Aquela mulher estava a comunicar gestualmente com outra pessoa. Todos aqueles esgares e movimentos faziam sentido para quem não podia transmitir ou receber os sons de forma tradicional.


Era gente que não ouve (e que não fala a maior parte das vezes) a comunicar entre si através de um simples telefone portátil, independentemente das distâncias.


“Admirável mundo novo”, pensei.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Teste


Proponho-vos hoje um texto. Um texto e um teste. Leiam-no e adivinhem quem o escreveu.



“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,

Fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
Aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
Sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
Pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
Um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem,
Nem onde está, nem para onde vai;
Um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
E guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
Um lampejo misterioso da alma nacional,
Reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,

Não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
Sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
Descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
Capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
Da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa
Sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos,
Absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;

Este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
Tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política,

Torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,

Incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e
Pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
Iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
E não se malgando e fundindo, apesar disso,
Pela razão que alguém deu no parlamento,
De não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Não, erraram redondamente. Não foi Medina Carreira. O magnífico e contundente texto que transcrevemos foi escrito por Guerra Junqueiro em 1896. Repito, este texto foi escrito pelo deputado, jornalista, escritor e poeta GUERRA JUNQUEIRO em 1896.

Passados estes anos todos, verificamos que nada mudou.

Como dizia Guerra Junqueiro “Alguém tem dúvidas que o povo é imbecil? O problema é que a Raça é fraca”.



quarta-feira, novembro 11, 2009

Até que enfim!


A rebaldaria das viagens acabou. Pelo menos acabou a forma como eram utilizadas até agora. Jaime Gama, Presidente da Assembleia da República decidiu que a partir desta legislatura, doravante e para o futuro, os deputados não vão poder desdobrar bilhetes de avião nem usar em proveito próprio as milhas percorridas em deslocações oficiais.


Eu sei que dava um certo jeito prescindir da utilização da classe executiva para poder viajar com um acompanhante em classes inferiores. Era simpático dar-se aos deputados da nação a possibilidade de alguém viajar com ele e à conta, sem que o Estado pagasse mais por isso. Era o chamado dois em um em que todos ganhavam. Só que, esse esquema, ainda que legal, era em si mesmo imoral e destituído de ética.


Mas não sei se a medida não poderia ter ido um pouco mais além. Afinal, se os Deputados não se importavam de viajar em classe económica só para levar consigo uns familiares ou amigos, será que o regulamento não deveria obrigar a que todas as viagens fossem efectuadas com bilhetes mais baratinhos? Afinal, muitos desses senhores até já o faziam.


Eu sei que a honorabilidade dos cargos exige certos formalismos mas, caramba, o país não está propriamente no melhor dos momentos e esse sacrifício (?) bem poderia ser suportado por pessoas que não devem ser das mais desfavorecidas da nossa sociedade. Pelo menos nas viagens de curto e médio curso. Não concordam?

terça-feira, novembro 10, 2009

Vinte anos depois … e muitos muros por derrubar


Há umas horas atrás, em Berlim, um dominó gigante desmoronou-se perante milhares de berlinenses e dezenas de líderes políticos de todo o mundo. E os principais canais de televisão mostraram em directo a cerimónia comemorativa dos vinte anos da queda do muro de Berlim.


Duas décadas depois, embora felizes pelo derrube de um dos símbolos mais visíveis da guerra fria entre o Ocidente e o Bloco de Leste regido pela União Soviética, há muros que teimam em erguer-se altaneiros para separar países e famílias em várias partes do mundo.


E todos eles justificados por motivos tão díspares como o combate à violência, à imigração ilegal ou à propagação de doenças infecciosas ou para delimitar terreno às comunidades de diferentes religiões, etnias ou políticas. O resultado prático é sempre o mesmo: isolar. Tal como fizeram em Berlim em 1961.


E a lista de muros e cercas que continuam a existir é extensa. Por exemplo, quinhentos quilómetros de cercas eléctricas de alta voltagem separam o Botsuana e o Zimbabué. Foram construídos muros por Israel na Cisjordânia. Grande parte da fronteira do Uzbequistão está fechada por cercas de arame farpado. Quase três mil quilómetros de fronteira entre a Índia e o Paquistão têm muros, cercas e fortificações e na região de Caxemira a fronteira é reforçada com minas. Há barreiras a separar os Estados Unidos e o México. Em volta das favelas do Rio de Janeiro estão a ser construídos muros.


Vinte anos depois estamos em festa pá, como na canção do Chico Buarque. Comemoram-se os vinte anos da queda do muro de Berlim. Mas, pergunta-se, e os outros muros – igualmente brutais, cheios de ódio e intolerância - daqui a quando anos é que poderemos também comemorar a data do seu derrube? É que continuam muitos muros por derrubar.







segunda-feira, novembro 09, 2009

A queda da Ministra


Mesmo antes do actual governo tomar posse, já se vaticinava que esta legislatura não deverá chegar ao fim. Segundo alguns comentadores a sua queda será inevitável.


Como que a agourar tal destino, a nova Ministra do Trabalho, Helena André, já se encarregou de protagonizar “a queda”, tendo, ela própria, tomado a iniciativa de cair em plenos Passos Perdidos da Assembleia da República no dia em que se debateu o Programa do Governo. E caiu não uma mas duas vezes.


Dizem que o encerado do chão foi o responsável por tão aparatosos “espalhanços”, mas a verdade é que estas duas quedas podem sugerir algo de premonitório.


Para já, o que se sabe é que a Ministra não se magoou e mostrou grande agilidade a levantar-se, o que pode ser um bom sinal (político) para o Governo a que pertence.


Cá para mim, no entanto, e dado o passado sindical de Helena André, o que o trambolhão significa mesmo é que ela tem queda para a política.

sexta-feira, novembro 06, 2009

O gesto


Olhei por acaso para o cantoneiro (não sei se é assim que se chama ao funcionário que antigamente era conhecido por varredor) que empurrava o carrinho do lixo ao longo da rua. Aqui e ali parava, apanhava o lixo do chão, colocava-o na pá que, depois, despejava num dos baldes do carrinho. Enquanto trabalhava, o cigarrito que lhe servia de companhia ficava dependurado na boca.


Os gestos repetiam-se, o cigarro ia-se extinguindo e a calçada ficava mais limpa. Até que o cigarro se tornou beata e o varredor acabou por a atirar para o chão que acabara de limpar.


Nesse momento não pude deixar de pensar no que teria levado aquele homem, responsável pela limpeza da rua, ser - ele próprio – o causador do emporcalhamento da mesma. Nesse círculo vicioso do suja, limpa e suja, só consegui imaginar duas razões para o gesto: Descuido ou distracção.


A não ser que, ainda que inconscientemente, quisesse garantir o seu próprio posto de trabalho …

quinta-feira, novembro 05, 2009

O cai-cai


O título da crónica de hoje poderia sugerir que eu iria escrever sobre aqueles vestidos mais versáteis e sexy que, sem alças, parecem querer cair a qualquer momento. Não, lamento desiludir os meus Amigos, mas o tema que vos trago é bem menos agradável.


O cai-cai a que me refiro é o da perda de qualidade em duas áreas específicas que devem merecer a nossa atenção.


A primeira, Portugal caiu (o primeiro cai) 14 posições no ranking da liberdade de imprensa. Segundo a organização “Repórteres Sem Fronteiras” o nosso país passou do 16º posto para o 30 lugar na lista dos países que mais respeitam o trabalho dos jornalistas. Apesar de Portugal, em termos mundiais, continuar numa posição razoável, mesmo assim, considero que uma queda tão acentuada no que respeita … ao respeito pela liberdade de imprensa é, no mínimo, preocupante.


A segunda escorregadela (o outro cai) tem a ver com as desigualdades entre homens e mulheres no acesso a recursos e oportunidades. Em 2006 Portugal estava em 33º lugar, em 2007 caiu para 37º e em 2008, pelo terceiro ano consecutivo, voltou a cair agora para a 39º posição. Outra descida que nos deve preocupar.


Convenhamos que todo este cai-cai é demasiado. Também nestas áreas o nosso país vai ficando mais longe dos outros. Porquê?





terça-feira, novembro 03, 2009

A grande questão


Já aqui reflectimos diversas vezes sobre a tão falada crise de valores, acabando quase sempre – face aos múltiplos desvios comportamentais verificados - por nos interrogarmos onde é que, afinal, falhámos.


Será que nós, enquanto pais e educadores, não soubemos transmitir aos nossos filhos as tais regras de conduta fundamentais que regem a vivência em sociedade? Ou será que foi a própria sociedade, nomeadamente o Estado (que dá sempre jeito culpar porque não tem rosto) que não pôs á nossa disposição os meios necessários para que as novas gerações tenham hoje valores idênticos aos que nos foram legados?


Não sendo fácil obter uma resposta cabal nem, tão-pouco, conseguir afastar um sentimento de culpa que acaba por estar sempre presente, será talvez mais inteligente tentarmos analisar a questão de uma outra forma. E a nova resposta poderia ser a que foi dada num congresso sobre vida sustentável:


“Todos pensam em deixar um planeta melhor para os nossos filhos. Quando é que começaremos a pensar em deixar filhos melhores para o nosso planeta?”


Será que, de alguma forma, temos dado demasiada protecção aos nossos jovens? Será que a maneira de os educar foi a melhor? Não seria pedagogicamente mais adequado torná-los mais conscientes e responsáveis? Tenho pensado muitas vezes sobre o assunto mas interrogações permanecem.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Que “sucata” de país


A notícia rebentou. Um vasto esquema de corrupção montado por um sucateiro "apanhou", com a sua rede tentacular, altos, médios e pequenos quadros de empresas públicas, funcionários de Câmaras Municipais, agentes de forças policiais e antigos titulares de cargos políticos entre outros. Um puzzle complexo em que dezenas de pessoas foram corrompidas e se trocaram favores por dinheiro e prendas caras.


A investigação da Judiciária, designada por “Face Oculta”, ainda não está concluída. Contudo, alguns dos nomes envolvidos já foram anunciados. Por exemplo, o de Armando Vara, ex-ministro socialista, ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos e Vice-Presidente do BCP, o maior Banco privado português. O mesmo que foi apanhado numa escuta a pedir dez mil euros ao tal sucateiro para que, através da sua influência, se escancarassem as portas para os negócios com a EDP, Petrogal, Refer, Galp Energia e outras empresas públicas e privadas.


Enfim, a marosca está a ser deslindada. Enquanto isso, gostaria de transcrever as palavras de Joe Berardo, um dos principais accionistas do BCP:


“não tenho informação suficiente para comentar. No entanto, acho invulgar o que está a acontecer. Não dá para acreditar que pessoas tão bem remuneradas se sujeitem a isto por causa de 10 000 euros. Quando se fala de milhões ainda pode haver a tentação. Mas o montante é ridículo …


Por outras palavras, “todo o homem tem o seu preço".


Vergonhoso, digo eu. Quando se tenta passar a ideia de que o crime compensa … a partir de uma dada importância, quando a cultura da aldrabice parece estar instalada na sociedade, o desespero parece desabar sobre nós e só podemos manifestar a nossa indignação dizendo


“Que sucata de país este”!

quinta-feira, outubro 29, 2009

Como o tempo passa


Parece que foi ontem e, sem darmos por isso, já passaram 40 anos. De tão presente que está na nossa vida, quase somos capazes de jurar que sempre tivemos ao nosso dispor esta magnífica “ferramenta” que dá pelo nome de e-mail. A fórmula mágica que nos permite enviar e receber mensagens a toda a hora, independentemente do lugar em que estejamos.


Pois é. Faz hoje 40 anos (29.10.1969) que foi enviada a primeira comunicação entre dois computadores situados em locais distantes.


Para além do significado relevante do facto, o curioso é que o texto dessa primeira mensagem electrónica continha apenas duas letras e um ponto – “LO.” – isto porque o sistema foi abaixo a meio da transmissão, antes mesmo do emissor conseguir escrever a palavra “LOGIN”.


Quarenta anos passaram. Apesar disso, o e-mail é cada vez mais importante em todo o Mundo quer pela facilidade de utilização quer pela possibilidade que dá em poder anexar ficheiros às mensagens.


Facilidade essa que, ao contrário de outros meios tecnológicos que entretanto surgiram, permitiu a adesão maciça de pessoas com vários tipos de instrução e, sobretudo, com as mais diferentes idades.


O e-mail faz hoje quarenta anos. Esta é a efeméride que queremos sublinhar. Ah, e já agora, já pensaram se conseguiriam sobreviver caso não tivessem internet e e-mail?

quarta-feira, outubro 28, 2009

A diferença

Se calhar não repararam. Talvez até nem se recordem do que aconteceu há quatro anos. Provavelmente não é importante.

Mas eu lembro que em 2005, aquando da tomada de posse do primeiro Governo chefiado por José Sócrates, enquanto os membros do Governo cessante e os representantes dos órgãos de soberania assistiram à cerimónia sentados, o então Presidente da República, Jorge Sampaio, e os membros do novo executivo, ficaram de pé.

Esta semana, porém, e pela primeira vez na História, os presentes na tomada de posse do XVIII Governo Constitucional, também liderado por Sócrates, todos estiveram sentados, todos mesmo, incluindo o Presidente da República e o Primeiro-Ministro.

Achei sensata esta medida e eles terão achado mais cómodo e … mais prudente. É que as emoções destes actos às vezes pregam partidas. Que o diga Cavaco Silva quando, precisamente numa cerimónia destas, se sentiu mal e desmaiou.

terça-feira, outubro 27, 2009

Violência


O Governo agora empossado tem pela frente tarefas bem difíceis para resolver. E urgentes. E não só na área económica.


A intervenção na justiça é, claramente, prioritária. Se até agora tem sido demasiado lenta e com enormíssimos problemas corporativos para resolver, a partir de ontem, e logo depois do jogo em que o Benfica bateu o Nacional da Madeira por 6 a 1, o Ministro Alberto Martins, recém-chegado ao Governo, tem pela frente uma dificuldade acrescida, um novo tipo de “criminalidade” que vem anunciado nas primeiras páginas dos jornais de hoje.


“Benfica arrasa com um bom Nacional”.


“… em que o Nacional foi bom … mas o Benfica é violento”


Mais, segundo revelou recentemente um jornal diário, as hostes da Luz, lideradas por Jorge Jesus prometem atacar de novo. E as expressões não deixam dúvidas:


“O Benfica 2009-10 devia ter um aviso à volta a dizer: atenção, perigo de explosão"


“Jorge Jesus (o actual treinador) vai lidar com a mesma dinamite com que Hagan (treinador entre 1972 e 1974) lidou”


“O Movimento das Forças Armadas já lá vai e agora Jesus tenta combater com armas para implodir qualquer defesa”


Perante estas ameaças, e mesmo contando com a solidariedade institucional manifestada ontem por Cavaco Silva no discurso de posse do novo Governo, José Sócrates vai ter que se esforçar muito. Urge acabar com tamanha e tão desproporcionada violência. A ver vamos.

segunda-feira, outubro 26, 2009

O ambiente agradece

Todos sabemos que a água é um bem escasso e que temos que a usar parcimoniosamente. E, em minha opinião, as pessoas já vão tendo alguma consciência dessa necessidade.

Porém, quando se toma conhecimento que uma ONG brasileira – a SOS Mata Atlântica – incentiva a prática do chichi durante o duche, é natural que alguns de nós possamos ficar um tanto ou quanto surpresos.

Digo alguns porque, segundo o resultado de um inquérito realizado na internet, cerca de 75% dos entrevistados admitiram que costumam fazer chichi enquanto tomam duche.

A grande questão, portanto, está em avaliar se com medidas deste tipo estamos, ou não, a preservar o ambiente. Dizem os especialistas que cada descarga de autoclismo chega a gastar 12 litros de água e que, consequentemente, seriam utilizados qualquer coisa como 4 380 litros de água potável por pessoa e por ano. Isto se cada cidadão se limitasse a um único chichi por dia, o que é altamente improvável.

Ainda que os tais peritos garantam que o chichi na banheira é inofensivo, embora o recomendem no início do duche, a verdade é que, culturalmente, não estamos para aí virados.

Quem sabe se a solução não passa por novos mecanismos de fluxos de água nos autoclismos ou pelo reaproveitamento de águas já utilizadas em banhos anteriores?

A propósito, lembro-me de uma antiga colega, recém-divorciada, a quem o ex-marido deixou duas filhas e uma longa lista de dívidas para pagar que, perante as dificuldades em satisfazer os compromissos, teve que “meter” um empréstimo ao Banco. Recusado o pedido deram-lhe, no entanto, algumas dicas para diminuir as despesas e poder começar a satisfazer os compromissos. Uma delas, a sugestão para que ela e as filhas só tomassem banho uma vez por semana.

Ora aí está uma boa maneira de pouparmos água. O ambiente agradece. A higiene pessoal é que não.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Escândalos


Hoje trago-vos um inédito de Cesário Verde, de Agosto de 1874, que vi publicado no “Expresso” há uns tempos.


Dizia o semanário: “Aqui se transcreve, ipsis verbis (apesar de arrepios ortográficos, sobretudo no derradeiro e cínico verso, em resposta à mulher de fogo):



Escândalos



Fallava-lhe ella assim:

Não sei porque me odeia,

Não sei porque despreza a luz dos meus olhares,

Se o adoro com fervor, se não me julgo feia,

E o meu olhar eguala as chammas singulares

Do incêndio de Pompeia!


Instiga-me o aguilhão do vício fatigante,

E crava-me o capricho os vigorosos dentes,

Não quero o doce amor platónico de Dante

E sinto vir a febre as pulsações frequentes

Ao vel-o, ó meu amante!


As ancias, as paixões, os fogos, os ardores,

Allucinada e louca, eu vejo que abomina,

E ignoro com que fim, em tempos anteriores,

Enchia-me de gosto a bôca purpurina,

E o seio de calores!


E elle ao vel-a excitante, hysterica, exaltada,

Volveu lhe glacial, britannico, insolente:

“A tua exaltação decerto não me agrada,

E, ó minha libertina! eu quero-te somente

Para mecher salada!”


quarta-feira, outubro 21, 2009

Pregões


Ontem tive que me deslocar ao Porto e, deixem-me que lhes diga, não podia ter escolhido melhor dia para viajar. Apanhei chuva intensa todo o caminho, para lá e para cá, ventos fortes e vários acidentes graves. Um mimo para andar na estrada.


Durante a viagem e embora com toda a atenção que a condução exigia, o meu espírito foi divagando. Vá lá saber-se porquê (o tempo estava agreste e cheguei a ter frio), fui lembrar-me de gelados. E, claro está, não pude deixar de recordar outros tempos quando a alternativa, em termos de sabores, aos gelados de chocolate, de morango e de baunilha eram precisamente o chocolate, o morango e a baunilha.


Nessa época só se comia gelados no Verão e o sítio mais apropriado para o fazer era, naturalmente, a praia, depois de um belo banho de mar, de preferência daqueles em que os “banheiros” nos davam uns quantos mergulhos (que nós detestávamos) que eram obrigatórios porque os nossos papás acreditavam que os tais mergulhos nos protegeriam de várias maleitas, nomeadamente ao nível das vias respiratórias.


E quando o pregão do homem dos gelados irrompia pelos ares enchendo a praia, os nossos corações de crianças ficavam naturalmente sobressaltados.


“Olha o gelado fresquinho”, ou


“Fruta ou chocolate”, ou ainda


“Rajá fresquinhoooooooooo! olha o Rajá”


Rajá, para quem não tem essa memória, era uma das poucas marcas de gelados existentes no mercado da época e que por ser a mais conhecida, levava as pessoas a pedirem um Rajá, ainda que aquela não fosse a marca que estava perante nós ou que o gelado fosse tão artesanal que nem sequer tivesse qualquer marca.


Mas o pregão do vendedor dos gelados era, nesse tempo, tão aliciante, tão saborosamente desejado por miúdos e graúdos como os anúncios, também eles apelativos, de


“Bolos, olha os bolos fresquinhos”, ou


“Bola de Berlim, olha o Pastel de Nata”


Bolos que saíam do interior de caixas de folha branca, que os vendedores carregavam penosamente sobre a areia, muitas vezes demasiado quente, e quase sempre em equilíbrios instáveis sobre as cabeças.


Um outro pregão que desatinava toda a gente era


“Língua da sogra, olha a língua da sogra estaladiça”


Para muitos, a “língua da sogra” que se vendia na praia, era a única coisa boa que existia, em termos de sogra. Mas o que era, afinal? Era, ao fim e ao cabo, uma massa que faz lembrar a do actual cone de gelado mas redonda e menos dura.


O vendedor trazia a tiracolo uma caixa vermelha cilíndrica e de dentro dela tirava a quantidade de unidades que eram pedidas pelos clientes. Algumas dessas caixas tinham uma particularidade. Na parte exterior da tampa havia uma espécie de roleta, que o comprador fazia girar e cujo resultado determinava o número de “línguas da sogra” a que teria direito.


Outros tempos. Tempos em que o marketing e a publicidade eram substituídos pela ingenuidade e pelo capricho dos veraneantes e onde não havia sequer estudos de mercado. Outros tempos em que os vendedores de praia nem sequer necessitavam gritar


“Chora, chora, que o papá compra!”


terça-feira, outubro 20, 2009

Triste sina


Há dias vi um artigo que dizia que o número de portugueses que emigrava era infinitamente maior do que os estrangeiros que pediam acolhimento no nosso país.


No Expresso do último sábado foi publicada uma notícia que referia que mais de 100 licenciados deixam o país todos os meses. Falta de saídas profissionais, trabalho mal remunerado ou mesmo não remunerado fazem emigrar centenas de jovens licenciados para outros países onde vão encontrar o conforto de um salário superior ao que poderiam encontrar por cá e um reconhecimento que no seu país também não encontrariam.


E a fuga de jovens qualificados, de todas as áreas, é cada vez maior. Segundo o Banco Mundial, Portugal é o terceiro país da OCDE mais afectado pela debandada, apenas atrás da Irlanda e da Nova Zelândia. Da Irlanda que está ainda pior do que nós e para onde, curiosamente, o nosso país tanto “exporta” estes jovens talentos.


Quanto aos que não querem ou não podem “dar o salto” vão tentando sobreviver com empregos precários em call centers, balcões de cafés ou pastelarias ou, para os mais sortudos, com a ajuda familiar.


Eu sei que não existem lugares que cheguem para todos. Mas será que, quando tanto se fala em melhorar o crescimento económico e em mais e melhor educação, nos podemos dar ao luxo de desprezar uma mais-valia desta importância? Tanto mais que apenas 9,6 por cento dos portugueses têm habilitação superior, um dos valores mais baixos da OCDE.


Pois é, não só temos muito poucos licenciados como nem sequer a estes conseguimos dar-lhes trabalho capaz. Por outras palavras, desprezamos o investimento que é feito e vamo-nos preparando para ver partir os nossos jovens. Triste sina esta.




segunda-feira, outubro 19, 2009

Bloqueios


Acreditem que o assunto de hoje nada tem a ver com o facto de muitos Amigos nossos não poderem aceder ao meu blogue “Baú” a partir dos seus locais de trabalho. Isto porque o blogue só apresenta vídeos do YouTube, cujo acesso não é autorizado em muitas empresas.


E a questão das empresas permitirem ou não que os seus colaboradores utilizem – durante o trabalho - as denominadas redes sociais é altamente polémica. A meu ver, pode até acontecer que todas as partes tenham pelo menos um bocadinho de razão. Tal como os partidos em dia de eleições, em que todos ganham.


Vejamos, então, os argumentos.


Dizem as empresas – quer as do sector privado quer as do público - que, pelo facto dos trabalhadores andarem a “viajar” pelos blogues, no twitter, no Messenger e quejandos, a produtividade é reduzida e pode até provocar problemas de segurança no que respeita à protecção de dados. Daí que estejam a adoptar, cada vez mais em todo o mundo, o bloqueamento das páginas da chamada Web 2.0, a internet dos blogues e das redes sociais.


Por outro lado, dizem os trabalhadores, e há um estudo da Universidade de Melbourne que vai no mesmo sentido, que a possibilidade de estarem “ligados” é fundamental para o bem-estar e equilíbrio dos funcionários.


E se a proibição é defensável, quando se sabe que as PME portuguesas suportam cerca de 1,5 milhões de euros por ano pela utilização da net por cinco minutos diários gastos pelos seus trabalhadores, custo esse que pode chegar aos 18 milhões se o tempo passar dos cinco minutos para uma hora, há também quem defenda que 20% do tempo passado no escritório, se gasto com a internet, pode fazer recuperar a concentração dos colaboradores e aumentar a produtividade.


Ainda bem que não tenho que decidir a contenda. Tanto mais que ainda sou do tempo em que o horário de trabalho – de oito e mais tarde de sete horas – eram mesmo para trabalhar com apenas breves instantes de intervalo, os suficientes para beber um café e para almoçar. E ninguém pensava, como alguns agora proclamam, que mais de 20 minutos seguidos de concentração são uma violência para o nosso cérebro.


A sensatez é um bem inestimável. Seria bom que todos pensassem em colocar-se, um bocadinho que fosse, na pele da parte contrária.


Bom senso e diálogo poderão ser as palavras-chave para a resolução do problema. E, claro, regras de funcionamento prévia e convenientemente estabelecidas.


Ah, e quanto a acederem ao “Baú”, se não podem fazê-lo enquanto estão a trabalhar, façam-no pelo menos quando chegarem a casa. São capazes de gostar.



sexta-feira, outubro 16, 2009

Inacreditável




Candidato nas listas do PSD por Braga, João de Deus Pinheiro renunciou ao mandato de deputado, logo no primeiro dia de trabalhos do Parlamento. Aliás, ao fim da manhã do primeiro dia.


Por motivos pessoais, disse ele ao Expresso. Não duvido que essas razões tenham sido muito fortes já que fez uma campanha para ser eleito, já que convenceu os eleitores a elegerem-no, já que não se importou em defraudar as expectativas de quem o elegeu nem a confiança da líder do seu partido que o nomeou para cabeça de lista pelo Distrito.


Cansou-se cedo demais de uma Assembleia que se prevê animada nos próximos tempos. E por cansaço, desilusão, desinteresse ou pelos tais motivos pessoais fortes, anunciou rapidamente a renúncia. Há quem diga que o verdadeiro motivo foi outro, a promessa de Manuela Ferreira Leite em dar-lhe a Presidência do Parlamento caso o PSD ganhasse as legislativas, o que não veio a acontecer.


Inacreditável, de qualquer forma. Mais um golpe que desprestigia a classe política portuguesa, já tão debilitada perante a opinião pública. E, neste caso, mesmo que ele tivesse todas as razões para ter dado o passo atrás, a vergonha e o brio do ex-ministro e ex-deputado europeu deveriam tê-lo obrigado a seguir aquele ditado brasileiro:


“Ajoelhou, tem que rezar”


Seria mais digno.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Transtornos


Há tempos que o assunto me inquietava. Como poderia continuar a aceitar a uma situação tão injusta que afectava centenas de trabalhadores, ainda por cima trabalhadores que ganham salários tão baixos (cerca de seis mil euros mensais mais 298 euros de “diária”)? Felizmente imperou o bom senso e a coisa resolveu-se. Ainda bem.


Na verdade, não era admissível, não era justo, que os eurodeputados há pouco eleitos continuassem a passar pelos incómodos provocados pelos tempos perdidos nas viagens. Até que foi decidido compensá-los por isso. Como? Dando-lhes mais uns trocos. Um denominado subsídio de “tempo perdido”, aquilo a que eles próprios chamam o “subsídio de transtorno”. E sabemos bem como as viagens causam imensos transtornos.


A solução que, naturalmente, peca por tardia, em termos económicos não teve grande impacto. Ao que sabemos, a rubrica orçamental teve um pequeno aumento de 32 milhões. Nada de especial, portanto, apenas um acréscimo de trinta e dois milhõeszitos de euros no orçamento para compensar os tais sacrifícios. Um pequeno aumento que ninguém estranha mesmo sabendo que na presente legislatura há menos 49 deputados do que na anterior.


Para mais não nos devemos esquecer que uma viagem até Bruxelas ou Estrasburgo pode durar, consoante o local de origem dos deputados, umas duas horas em média. O mesmo tempo que eu levo em dias de chuva e de tráfego completamente impossível para me deslocar até ao emprego que dista uns curtos 20 quilómetros da minha casa. Só que eu não recebo subsídios de compensação que me comprem uma reles embalagem de calmantes. Mas, também, o meu salário não se compara nada ao dos senhores eurodeputados. Infelizmente.

quarta-feira, outubro 14, 2009

"Olvidame"


Nunca fui muito chegado ao uso de t-shirts com desenhos ou frases estampados na frente ou no verso das camisetas, quando não em ambos os lados. Umas de tipo turístico, do género “Recuerdo de Punta Cana”, “Amo-te Ericeira” ou “Já fui muito feliz na Praia do Meco”. Outras com cariz puramente informativo como “Cada povo tem o Governo que merece” ou “Eu não votei no PS”. Outras ainda com chancelas publicitárias ou com assuntos a puxar pela imaginação mais ou menos criativa de cada um.


Como aquelas que vi num concorrido restaurante algarvio “A inveja mata, a sardinha trata” e “Já vou, Porra!!!” Ou aquela outra que era vestida por um jovem que dizia “Eu fui feito numa Bimby”.


Mas embasbacado mesmo foi como fiquei quando dei de caras com uma miúda muito, muito gira, que vestia uma t-shirt de um verde lindo sobre o qual tinha estampada a palavra “OLVIDAME”. Surpreendido primeiro, apalermado depois, o certo é que não consegui desviar o olhar daquele conjunto tão, como dizer, tão harmonioso.


O verde era magnético e as letras divinais. Bem desenhadas, fortes, desafiadoras e bem colocadas num enquadramento perfeito. O design não podia ter sido melhor conseguido e as letras O e E estavam, como percebem, e como diriam “nuestros hermanos”, “em su sítio”.


Um espanto, um desafio, uma provocação!


“OLVIDAME”, apesar da falta do hífen (melhor seria olvida-me) era claramente um pedido a que ninguém poderia obedecer. Mesmo que quisesse.


terça-feira, outubro 13, 2009

O Prémio Nobel


A atribuição do Prémio Nobel ao Presidente Americano fez-me lembrar um colega meu, por sinal um tipo inteligente mas pouco amigo de trabalhar e a quem não se podia pedir que cumprisse prazos que, em determinada altura, reclamava uma promoção ao nosso Director.


E porque ninguém lhe enxergava mérito suficiente para que ele fosse promovido por … mérito, ele argumentava que o prémio dever-lhe-ia ser entregue não pelo trabalho desenvolvido mas pelas suas (reconhecidas) capacidades.



Barack Obama ganhou o Nobel mas não obteve o aplauso unânime. Muita gente em todo o mundo pensou que menos de um ano de mandato à frente do país mais poderoso do universo não é tempo suficiente para justificar um galardão desta natureza. Pelo menos por enquanto. Talvez mais tarde …


Há quem, no entanto, afirme que a distinção pode ser interpretada como uma “mensageira de paz”, inspiradora, quiçá, de rumos mais consistentes na pacificação de certas regiões que teimam em sobressaltar as nossas existências.


O Afeganistão, o Irão, o conflito entre Israel e a Palestina são apenas exemplos de situações que já mereceram tomadas de posição firmes da Administração Americana. Mas os resultados são ténues ou ainda inexistentes.


Daí a minha convicção de que os esforços de Obama, embora meritórios e denotando uma grande coragem e determinação, são por ora insuficientes para que sejam merecedores desta tão alta distinção.



Por uma questão de princípio, sempre considerei que os prémios devem ser atribuídos aos que vencem e não aos que se limitam a ser jeitosos ou que, eventualmente, possam vir a ter sucesso.


Razão tinha o meu Director quando achou que não deveria promover o tal colega só porque tinha imensas capacidades. A promoção chegaria no dia em que ele resolvesse desenvolvê-las capazmente.