sexta-feira, abril 09, 2010

Que vergonha, rapazes!


Mais um delicioso poema de Alexandre O’Neill


Que vergonha, rapazes!


Que vergonha, rapazes! Nós práqui

Caídos na cerveja ou no uísque,

A enrolar a conversa no “diz que”

E a desnalgar a fêmea (Vist’? Viii!)


Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito

É esta videirunha à portuguesa,

Que às vezes me soergo no meu leito

E vejo entrar a quarta invasão francesa.


Desejo recalcado, com certeza …

Mas logo desço à rua, encontro o Roque

(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)

E desabafo: Ó Roque, com franqueza:


Você nunca quis ver outros países?

- Bem queria, sr. O’Neill! E … as varizes?

quinta-feira, abril 08, 2010

Casa vende-se



Em primeiro lugar devo pedir desculpa porque nunca sei se o anúncio deve ser “Vendo Casa”, simplesmente “Vendo” ou “Casa Vende-se” (não vá ela, de seu moto próprio, pôr-se à venda). Adiante.



Pois é, vou ter que vender a minha casa para comprar outra um pouco maior. Eu sei que tenho um T3, o mesmo em que já vivia quando cá moravam os meus dois filhos. Perguntar-se-á, então, uma vez que eles já saíram, o espaço não é agora mais do que o suficiente para o casal? E a resposta é sim e … não.



Eu explico, de facto o espaço desocupado permitiu rearranjar a casa, em termos de melhor arrumação das coisas e deu-nos a possibilidade de ter “os nossos cantinhos” onde agora podemos, de forma mais tranquila, ler, escrever, ouvir música e reflectir. Organizámo-nos e estamos satisfeitos com o resultado. E, desse ponto de vista, sim, temos espaço suficiente.



Mas a resposta não, vem logo de seguida quando pensamos no monte de coisas que temos que separar para reciclagem e o espaço que isso nos obriga a ter. Começámos por arranjar recipientes próprios para alojar “papéis e cartão”, passámos ao “vidrão” e às “embalagens” e veio a reboque o “pilhão”. Sugeriram-nos, então, que separássemos também as garrafas de plástico e as respectivas rolhas, estas também à parte, depois foram os óleos de fritar e agora as cápsulas do café.



Face aos sacos e todo o tipo de utensílios que reservámos para a separação de toda a reciclagem doméstica, e ao espaço que toda esta logística ocupa, não vemos outra alternativa que não seja mudar para uma casa bastante mais espaçosa. Até porque não sabemos que tipo de objectos nos vão sugerir que separemos em seguida.



Temos a consciência de que com o nosso esforço e a nossa responsabilidade cívica estamos a contribuir para melhorar o ambiente. Mas temos um problema. O de saber onde podemos encontrar o melhor spread da Banca para contrair um empréstimo para a nova casa.






quarta-feira, abril 07, 2010

Os dois pês: Pobreza e Preocupação


Ontem, quando escrevia sobre as dificuldades sentidas pelos cidadãos para conseguirem trocar de carro, estava, evidentemente, a referir-me àqueles que ainda vislumbram um horizonte onde vão cabendo alguns “luxos”, como esse tão banal de ter um carrinho novo.


Hoje a minha atenção recai naquela imensa faixa da população que sente na pele os enormíssimos apertos da crise económica que nos apoquenta, que já não consegue suportar o custo das necessidades básicas, e nomeadamente, o da compra de alimentação. Estou a pensar nas 280 mil pessoas que têm que recorrer ao Banco Alimentar.


Em 2009 houve um acréscimo de 37 592 pessoas em relação ao ano anterior. É cada vez maior o número de famílias que se encontra em situação desesperada. E as listas de espera nas Instituições que distribuem os alimentos engrossam assustadoramente. Não há alimentos que cheguem para tanta gente, não há estruturas que consigam suportar tamanha corrida, apesar de toda a boa vontade e dedicação que, por vezes, fazem milagres.


Mas, ao contrário da solução que encontrámos para a crónica de ontem, não há, neste caso, a possibilidade de “remendar o pano”. Para a pobreza (a profunda e a envergonhada), o sobreendividamento, o desemprego, o emprego precário, os baixos salários e a instabilidade económica e social em que vivem muitos concidadãos parece não haver alternativas credíveis que permitam dar a volta a este estado de coisas.


Pode-se passar sem o carro novo mas não sem o alimento do dia-a-dia. E se para uns, quando chega a hora de apertar o cinto, podem deixar de comer um naco de carne mas ainda assim têm pão com manteiga para enganar os estômagos, para outros, já não existe manteiga nem, muitas vezes, o próprio pão.





terça-feira, abril 06, 2010

“Remenda o teu pano e dura mais um ano”

Ouvi num noticiário de sexta-feira passada que a venda de automóveis ligeiros em Portugal, no mês de Março, cresceu 73,6 % relativamente ao período homólogo do ano passado. É uma subida significativa e que, à primeira vista, parece indicar que o pior da crise já lá vai e que empresas e cidadãos conseguiram sair do sufoco em que se encontravam.


Pura ilusão, uns e outros continuam a debater-se com enormes dificuldades. O que acontece é que, por um lado, 2009 foi um ano particularmente mau para a venda de carros e, por isso, qualquer pequena subida provoca (como sucedeu) uma dimensão desproporcionada e enganosa e, por outro, a renovação das frotas, as de aluguer e as de algumas empresas, deram uma ajuda significativa neste crescimento.


E se para as empresas a coisa não está nada fácil, para os cidadãos pior um pouco. Vontade para comprarem carro novo não falta, mas mesmo nos casos das carripanas com mais de oito anos, em que podem (ainda) beneficiar do denominado “incentivo ao abate de veículos em fim de vida”, a decisão de comprar/trocar de carro vai sendo adiada por mais uns tempos. Afinal, contas feitas, acabam por seguir à risca o provérbio antigo que diz “Remenda o teu pano e dura mais um ano”.


segunda-feira, abril 05, 2010

Equilíbrios


Passou relativamente despercebida a notícia de que a Grécia acabou por comprar um submarino alemão que não queria e vai, ainda, ter que adquirir à Alemanha mais dois submarinos. Um custo adicional e imprevisto (e provavelmente desnecessário) para os gregos, de milhares de milhões de euros. Apesar da situação crítica do défice orçamental e da dívida pública do país, esta foi a fórmula que o primeiro-ministro George Papandreou teve que aceitar para conseguir o apoio de Berlim na ajuda que os gregos tanto necessitam para sair da situação difícil em que se encontram.


O “caso dos submarinos” em Portugal “emergiu” de novo e em boa hora para o Governo e para o Partido Socialista. Perante os novos dados que vieram da Alemanha e das suspeitas de corrupção em que estarão envolvidas pessoas ligadas aos partidos (PSD/CDS) do Governo de então, Sócrates deve ter suspirado de alívio ao receber de mão beijada o contrapeso para as preocupações em que anda enleado com o caso Freeport. Certamente que ninguém no PSD/CDS estará agora interessado em dar uma estocada final no desgastado primeiro-ministro quando, eles próprios, sentem em cima de si a sombra de uma adaga ameaçadora.


Afinal, os escândalos mais recentes ou com novos desenvolvimentos, acabam por “fazer esquecer” os que estavam até agora na ordem do dia. Tudo continua por esclarecer em ambos os casos mas as nuvens sucedem-se e encobrem as anteriores.


Ao fim e ao cabo, como na vida, é tudo uma questão de equilíbrios.


quarta-feira, março 31, 2010

Boa Páscoa


Tinha pensado que o texto de hoje seria escrito apenas para desejar a todos uma Páscoa Feliz. Já lá vamos. Antes disso, porém, achei que deveria chamar a vossa atenção para a história do coelhinho da Páscoa e dos seus ovos de chocolate.


Como sabem (e se não sabem deviam fazer como eu que fui à wikipédia), há diversas explicações para esta tradição. A que mais me encanta, no entanto, é aquela que conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos de galinha e escondeu-os para oferecer aos filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram os ovos, um coelho passou correndo e isto foi o suficiente para que se espalhasse a história de que tinha sido o coelho a trazer os ovos.


Esta é a lenda. A verdade, porém, é que os coelhos não põem ovos e, assim sendo, porque se iriam dar ao trabalho de carregar objectos assaz delicados? E porquê só na Páscoa? E ainda que houvesse os ovos, porque é que eles iriam ser de chocolate e não de outra coisa qualquer? Perante tais e inquietantes dúvidas há que ter atenção aos coelhinhos e aos ovos da Páscoa.


E pronto, agora sim, é a altura de vos desejar uma Boa Páscoa.

terça-feira, março 30, 2010

Afinal, o crime compensa


Hoje apetece-me contar uma história. Era uma vez um senhor que para ganhar uns concursos de obras públicas “oferecia” (desinteressadamente, já se vê) uns dinheiritos a quem lhe facilitasse a vida, entregando-lhe o negócio de mão beijada, com prejuízo de outros concorrentes. Ou seja, corrompia quem podia decidir. O tal senhor era, portanto, o corruptor e os funcionários, mestres-de-obras, arquitectos, directores-gerais e quejandos os corrompidos. E a vida lá foi passando sem grandes sobressaltos. Todos eram felizes.


Até que um dia, qual João Ratão movido pela curiosidade que o levou a cair no caldeirão, o senhor tentou corromper um determinado autarca que, pessoa séria, não aceitou a tentativa de suborno e denunciou-o. Houve julgamento e o dito senhor – o corruptor – foi condenado ao pagamento de uma multa de cinco mil euros por corrupção activa.


Só que o advogado do autarca, numa entrevista que concedeu, terá apelidado o tal senhor de “corrupto e vigarista”. Está bem de ver que “quem não se sente não é filho de boa gente” e o visado – o corruptor que embirrava com quem lhe chamava corrupto – acusou o advogado por difamação. No novo julgamento, o tribunal achou que a acusação era forte de mais (embora o tal senhor já tivesse sido condenado por corrupção) e condenou o “patife do advogado” a pagar à “vítima” 13 mil euros pela prática de crime de difamação agravada e danos morais.


Vitória, vitória, acabou-se a história.


Não, não acabou ainda. Falta dizer que a história é verídica e o tal senhor, empresário e corruptor assumido, dá pelo nome de Domingos Névoa (o tal do negócio da Braga Parques/Parque Mayer) e o advogado do autarca chama-se Ricardo Sá Fernandes.


E falta também referir que a história tem uma moral: “Afinal, o crime compensa”. É que o malandro do corruptor condenado a pagar cinco mil euros pelo crime que cometeu, conseguiu depois sacar treze mil “a quem o ofendeu tão injustamente”. Com tudo isto, a tenebrosa figura de Domingos Névoa lucrou oito mil euros e deve estar ainda a rir-se a bandeiras despregadas à custa da justiça do nosso país.

segunda-feira, março 29, 2010

“Portuguese way of life”


Eu sei que me estou a repetir e peço-vos desculpa por isso. Mas que querem, não consigo ficar indiferente perante a notícia de que certos gestores públicos portugueses ganham vencimentos substancialmente maiores do que algumas figuras de proa da cena mundial. Pessoas com um tipo de responsabilidade e visibilidade muito superiores às dos nossos executivos e que comandam países e instituições de uma outra dimensão.


Segundo o líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, em 2009, Santos Ferreira (Presidente do BCP) e Armando Vara (Vice-Presidente do BCP com mandato suspenso) ganharam o dobro do salário de Barack Obama, enquanto que Rui Pedro Soares (o “boy” do PS e Ex-Administrador da PT), auferiu oito vezes mais do que o Presidente Norte-Americano.


A ser verdade - e não me admira nada que seja - trata-se de mais uma prova do estado a que isto chegou. Já sabíamos que Vítor Constâncio (ainda Governador do Banco de Portugal e próximo Vice-Presidente do Banco Central Europeu) ganha duas vezes e meia mais do que o Presidente da Reserva Federal Americana e, ficámos a saber agora, que Obama ganha muito mal em comparação com muitos dos nossos gestores públicos.


Dir-me-ão que o problema é que Obama recebe pouco. Pode ser que sim, mas acreditem que não estou minimamente interessado em saber se Obama ganha bem ou ganha mal. O que me interessa (e revolta) são os tais salários obscenos e completamente desajustados, ganhos por uns quantos, num país em dificuldades e em que a esmagadora maioria dos portugueses mal-pagos é chamado a contribuir para que Portugal saia do fosso em que se encontra.


Mas interessa-me também (e receio que isso venha a acontecer) a possibilidade de que em breve tenhamos alguns políticos americanos a bater-nos à porta para pedir emprego. É que aqui, pelos vistos – e nalguns estratos - cultiva-se a “Portuguese way of life”.



sexta-feira, março 26, 2010

Então, estás a viver dos rendimentos?


Esta semana encontrei um antigo companheiro de trabalho que, como eu, está reformado. Não nos víamos há tempos e, como é natural nestes casos, perguntámos pelo estado de saúde do outro, pela família, o que fazíamos agora, blá-blá-blá, blá-blá-blá. As coisas banais que nestas circunstâncias, e na maioria das vezes, é comum querer saber-se, mais por falta de assunto do que por verdadeiro interesse.


Até que ele, finório, perguntou “Ah, então estás a viver dos rendimentos?”.


Não lhe dei resposta, claro, mas a pergunta (que está completamente fora de moda) fez-me viajar até há muitos anos atrás quando era costume ouvi-la, justificada então pelo facto de haver muita gente que vivia (sobrevivia na maior parte dos casos) à conta dos juros que as suas parcas economias rendiam no banco.


Outros tempos em que as pessoas suavam as estopinhas para fazer um pé-de-meia que os descansasse de algum azar que viessem a ter e em que as taxas de juro eram minimamente apetecíveis para criar a ilusão de que o dinheiro conseguia multiplicar-se.


Hoje, as coisas são diferentes e nenhuma das premissas atrás referidas se verifica. Pelo que, a pergunta deixou de ter razão de ser. Já ninguém consegue viver dos rendimentos. Perdão, a esmagadora maioria das pessoas não consegue. Provavelmente nem os gestores públicos que viram ontem o Conselho de Ministros decidir o congelamento por dois anos dos seus “ricos” bónus, vulgo prémios de desempenho. E agora, como vai ser?

quinta-feira, março 25, 2010

Belas Refeições


Uma das minhas interrogações de há muito é, simplesmente, saber o que é que leva as pessoas a querer ser diferentes. Melhor do que os outros até entendo, mas diferentes, porquê, com que intuito?


Bem, conto convosco para me ajudar a perceber o fenómeno. Por agora, dou-vos conta de uma “original” cadeia de restaurantes – a Modern Toilet – já com sete estabelecimentos abertos na Tailândia e dois em Hong Kong.


A excentricidade não se fica apenas pelo nome. Também “curiosas” são as decorações das casas e a própria comida. Por exemplo, bancos e travessas têm a forma de sanita, mini-urinóis servem de copos e quanto à comida (deliciosa por certo) o cardápio é sugestivo: “diarreia com fezes secas”, “disenteria verde” e, nas sobremesas, pontifica o gelado de chocolate em forma de fezes.


Tirando a originalidade dos feitios, dizem que a comida é um pitéu, verdadeiras iguarias asiáticas, vegetariana e com base em frango.


O “porém” da coisa está no aspecto. Mas o que é que isso interessa, afinal? Eles quiseram ser diferentes, conseguiram-no e a moda parece ter pegado por aquelas paragens, embora não tenha a certeza que por cá – se os proprietários pensarem em vir a explorar a pacovice lusitana – venha a ter grande sucesso. E daí …

quarta-feira, março 24, 2010

Não havia necessidade


Há muito que eu acho que certos formalismos ainda existentes na nossa sociedade estão um tanto ou quanto desajustados aos novos tempos. Um bom exemplo disso são os termos jurídicos abundantemente usados pelos nossos tribunais e advogados, que parecem não ter sido alterados desde os tempos em que foram criados.


Outro exemplo é a forma regimental ainda em vigor que tem que ser cumprida sempre que alguém se dirige ao plenário da Assembleia da República. Continuam a existir fórmulas de intervenção que bem poderiam ter sido já alteradas sem que isso pusesse minimamente em causa o respeito pela Instituição Parlamento ou pelos senhores Deputados.


E quando um político mais nervoso ou estreante nas lides se esquece delas ou simplesmente está a milhas de achar que aquilo é relevante, corre o risco de ouvir o Presidente da Assembleia da República dizer que não pode fazer a sua intervenção porque a tal figura regimental não foi cumprida.


Como aconteceu ao novel Secretário de Estado da Educação, João Torcato da Mata que inexperiente, nervoso, desconcentrado e confundido cometeu, de uma assentada, uma mão cheia de crimes de lesa-regimento. Começou por tentar falar sentado e, já de pé, quis dizer ao que ia mas não evocou as palavras mágicas: “Sr. Presidente, Senhoras e Senhores Deputados”.


Entre o enfiar as mãos nos bolsos, o apertar e o desapertar do botão do casaco e o entrelaçar dos dedos das mãos, o desorientado membro do governo procurava desesperado por alguém que o fizesse sair daquela situação tão embaraçosa e humilhante.


Ir ao Parlamento enfrentar o hemiciclo que interroga e argumenta já deve ser uma dura experiência. Mas não é tudo, ainda há os formalismos. Torcato da Mata não se esquecerá disso tão cedo.


E se bem que eu questione a manutenção de tanta formalidade, percebo, também, que o Presidente não poderia tolerar os desvios legais que a forma regimental exige. O que acho é que Jaime Gama poderia ter usado um tom mais benevolente e menos ríspido. Não havia necessidade de envergonhar o rapaz daquela maneira.



Se ainda não viram, passem por

http://www.youtube.com/watch?v=niRX5PeRSyU&NR=1


terça-feira, março 23, 2010

E tudo continua na mesma


A velha questão dos pais ralharem repetidamente aos filhos pelas mesmíssimas razões de sempre deve-se, tão-somente, ao facto dos filhos persistirem em fazer aquilo que lhes dá na gana a contragosto dos progenitores. Ou seja, na prática está mal, ralha-se, os petizes não ligam peva e continua tudo na mesma.


É o que também acontece quando inúmeras personalidades (nós próprios aqui no “Por Linhas Tortas”também fazemos parte do grupo), teimam em manifestar a revolta que nos vai na alma perante os salários obscenos de certos gestores. Ninguém nos ouve ou lê e tudo continua na mesma.


Refiro-me, naturalmente, aos gestores públicos porque, dos particulares - embora aufiram rendimentos muitíssimo acima dos demais portugueses - é uma coisa que tem a ver apenas com quem manda nas empresas, patrões e/ou accionistas.


O que me incomoda à séria são aqueles senhores que gerem empresas públicas e em que está em causa o dinheiro dos contribuintes. Salários altíssimos, mordomias exageradas e prémios igualmente altos e a maior parte das vezes injustificáveis. E não me venham com aquela desculpa abstrusa de que tem que ser assim porque temos que reter os melhores gestores em Portugal. Acham que o ex-Administrador da PT, Rui Pedro Soares, uma pessoa sem currículo, um dos muitos que vivem à sombra dos partidos, merecia o milhão e meio que ganhava? Ou que os Administradores da PT deveriam ter um prémio de desempenho de 12 salários e que, agora, em nome da crise, do PEC ou da vergonha que alguns sentem, vão ficar, apenas, - coitados – com um bónus de uns míseros seis meses de salários?


Reconheçamos que os políticos, de uma forma geral, são mal pagos (depois há a questão de saber se alguns deles merecem aquilo que ganham, mesmo sendo pouco). Não se questionam os (poucos) gestores que são pagos a peso de ouro, como aconteceu a Paulo Macedo quando foi para Director-Geral dos Impostos porque se reconhecia nele características fundamentais para o bom desempenho do cargo. Que ele provou ter.


O que se põe em causa é a forma indiscriminada e injusta como são nomeados estes gestores públicos e a panóplia de benesses a que têm direito, independentemente se merecem ou não. Para além de, naturalmente, ter que se interrogar se é justa a disparidade de vencimentos entre o que uns quantos ganham e o que recebe a esmagadora maioria da população, ainda por cima num país em crise que vai voltar a pedir os maiores sacrifícios aos mesmos de sempre. É injusto, não é?





segunda-feira, março 22, 2010

Animais


Desculpem mas, hoje, vai ser curto e grosso. Para os energúmenos que compõem as claques dos grandes clubes de futebol apenas posso considerá-los de “animais”. Isso mesmo, salvaguardando as devidas e honrosas excepções, já se vê.


Ontem deveria ter sido um dia de festa. Disputava-se uma final de uma competição em que milhares de adeptos, de ambas as equipas, rumaram ao sul do país para assistir ao jogo e apoiar as suas equipas. Jovens e anciãos, famílias com miúdos, senhoras, pacíficos cidadãos que pretendiam apenas ver o futebol e sentir todo aquele ambiente do Estádio do Algarve cheio de gente.


Mas aqueles fanáticos, não satisfeitos, ainda, pelo rasto de destruição que foram deixando pelas áreas de serviço por onde passaram, lançaram pedras e ódio nos parques de estacionamento do Estádio e houve confronto físico entre os adeptos de ambos os clubes. A carga policial foi inevitável. Já dentro do Estádio arrancaram e arremessaram cadeiras para dentro do relvado, provavelmente para atingir os jogadores adversários. Selvagens!


Do jogo propriamente dito, do ponto de vista disciplinar, não houve grandes problemas mas, sejamos honestos, o capitão do FCP, Bruno Alves – que devia ser uma referência - foi demasiado violento e as suas entradas claramente “a matar” incendiaram ainda mais os elementos da claque que apoiava a sua equipa.


O futebol é um jogo muito bonito quando bem jogado e quando há desportivismo. As próprias claques são interessantes quando os seus cânticos e os gritos de incitamento suscitam o entusiasmo das suas equipas. Dão vida ao espectáculo e os estádios têm, seguramente, outro encanto. Seria desejável, por isso, que os clubes, a polícia, as estruturas do futebol ou os políticos pusessem termo, de uma vez por todas, a esta onda de violência que não dignifica o desporto e não serve a ninguém.


sexta-feira, março 19, 2010

Apesar de tudo, senti ternura


Um dia destes fui ver um filme numa sala quase vazia. Não é a primeira vez que isso acontece mas, desta feita, a coisa foi diferente. Muito perto de mim estava sentado um casal já com alguma idade que, perante tamanho desafogo, ia comentando em voz alta as cenas que iam passando na tela. Pior, antecipavam as cenas seguintes, do género “queres ver que ele agora vai dar com ela …” ou “tá-se mesmo a ver que no fim eles …”.


Enfim, viam, comentavam, interagiam entre eles de forma natural, tão natural como se estivessem em casa defronte da televisão.


E se este tipo de comportamento habitualmente me irrita, a ponto de já por diversas vezes ter enviado um sonoro “SHIUUUUUUUUUUU!” para que ninguém ficasse com dúvidas que estavam a incomodar as pessoas, desta vez, senti uma certa ternura em assistir ao diálogo que se ia desenrolando aqui e ali.


É verdade que, durante a sessão, o “ruído” me aborreceu por vezes. Ao mesmo tempo, porém, achei delicioso observar um casal bem maduro que teima em sair de casa para ir ver cinema no cinema e que é capaz de continuar a comunicar um com o outro. Nos tempos que correm, é obra.


Como disse, apesar de tudo, senti ternura.


quinta-feira, março 18, 2010

Buracos dissuasores


Vi no Facebook uma chamada de atenção sobre uma coisa que nos pode acontecer. O de cair com o carro em buracos na via pública e o que devemos fazer para sermos reembolsados pelos estragos.


Muito genericamente, e ao que li, deve-se chamar a polícia, procurar testemunhas e tirar fotografias (apesar de estas não servirem como prova em tribunal) e fazer-se um requerimento. São duas reclamações: uma pedindo a reparação do carro e outra a reclamar a resolução do buraco. Depois é fazer chegar a queixa à Aca-m (Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados) e à Deco que remete o requerimento para a Câmara".


Basicamente são estes os procedimentos para que possamos ser ressarcidos da nota preta que vamos pagar pelas reparações. Mas o que eu achei piada nesta notícia foi uma justificação (?????) dada pelo próprio presidente da Aca-m, que dizia esta “pérola”:


“Como o investimento da Câmara de Lisboa para reparar as vias públicas é escasso, “os buracos funcionam como redutores de velocidade e acalmia do trânsito, embora não seja esse o propósito", tendo concluído desta forma brilhante “Não se deve tirar os buracos sem antes se colocarem outros meios para reduzir a velocidade".


Boa! Agora é que se vai acabar com a sinistralidade nas nossas estradas. Quem superintende sobre o estado das estradas, nacionais ou camarárias, mais não tem que espalhar uns quantos buracos pelas ditas e pronto. Os veículos são obrigados a circular com todos os cuidados e os acidentes “viste-los”, como dizia o outro.


Para mim, a questão deveria colocar-se precisamente ao contrário: sem buracos melhorar-se-ia a segurança rodoviária. Agora, essa de plantar buracos com a finalidade de serem redutores de velocidade, não lembra ao diabo.


Enfim, colocada a questão deste jeito, começo a pensar que é bem capaz de ser a mesma coisa de que comer um pastel de nata … sem nata, para não fazer mal ao colesterol. Ou melhor ainda, um pastel de nata sem pastel mesmo. É que a massa costuma ter tanta gordura.

quarta-feira, março 17, 2010

Citações


Desconfio sempre dos eternos bem-falantes que empregam muitos termos estrangeiros ou dos que se socorrem de inúmeras citações de personagens mais ou menos ilustres. Desconfio, sobretudo, destes últimos. Sinto um arrepio na pele e tenho a sensação de que estou a ser levado.


Como saber se muitas daquelas citações estão correctas, se foram proferidas pelas pessoas invocadas ou se, estas, são credíveis ou até existem ou existiram.


Por isso não pude deixar de sorrir quando ontem li uma notícia que dizia que o meio intelectual francês ficou estupefacto porque um dos mais conhecidos filósofos da actualidade, Bernard-Henry Lévy acaba de publicar um livro onde cita outro pensador francês, Jean-Baptiste Botul. Qual o mal disso, perguntarão? Nenhum, se o tal Botul algum dia tivesse vivido. Mas não, esse “famoso pensador” nunca existiu.


Na falta de certezas absolutas, quando se pretende fazer citações, é capaz de ser mais seguro não atribuí-las a alguém em concreto. Ou seja, o melhor será não mencionar quem, hipoteticamente, as terá dito. Limitem-se a dizer a expressão que vos vier à cabeça e depois rematem com um sempre convincente “Como diz o outro …”.


terça-feira, março 16, 2010

Os tabefes



Não é para me gabar mas sempre fui um aluno bastante razoável e, por isso, nunca tive problemas com as malfadadas reguadas ou ponteiradas com que alguns professores mimoseavam quem se portava mal ou, simplesmente, falhava. Para os mais novos essa coisa de, no ensino primário e mesmo no secundário, os alunos serem castigados com punições físicas pode até parecer história mas, afianço-lhes, que era assim mesmo. Os tempos eram outros e, não sei se bem ou se mal, o método em uso era aplicado sistematicamente e a maioria de nós tentava esforçada e desesperadamente não falhar para não sofrer as consequências.


“Erraste a conta de multiplicar? Vais levar duas reguadas e vais fazer o exercício mais duzentas vezes”. O simples olhar para a janela ou a conversa em surdina com o colega do lado, podia ser o suficiente para que um ponteiro “voasse” rapidamente até a um braço (ou à cabeça) para fazer o aluno retornar ao mundo dos vivos. Aquilo funcionava mesmo e fazia voltar a concentração.


Talvez a forma não fosse a melhor, por certo que o exagero era condenável, mas a verdade é que os alunos não levantavam grandes problemas aos “profs”. Até porque, depois de terem levado a sua dose na escola, os pais (que davam sempre razão aos professores) em casa se encarregavam de complementar o castigo, juntando mais um par de estalos, quando não se lembravam de outra penitência mais dolorosa.


Outros tempos, como disse. Os alunos, as famílias e a sociedade, mudaram e são agora mais problemáticos. O respeito (nem que fosse provocado pelo medo) foi-se, a autoridade dos professores e dos pais desapareceu e a indisciplina nas escolas é total.


E quando um ingénuo professor teve a ideia peregrina de que uns “tabefes ligeiros” poderiam ser a solução para travar os seus alunos mais irrequietos, e se lembrou de pedir aos pais autorização para pôr em prática a aplicação dos tabefes, o Ministério da Educação decidiu instaurar um processo disciplinar ao professor. E isto não é história, passou-se mesmo numa escola de Azeitão.


É caso para recordar o velho provérbio “Quem meu filho beija, a minha boca adoça”, que, actualizado e adaptado ao que estamos a tratar, pode ser dito desta maneira:


“Quem ao meu filho dá tabefes, tem que ser castigado”



segunda-feira, março 15, 2010

Não está na altura de estabelecer alguns limites?


Já devem ter reparado que os fins-de-semana parecem não me fazer lá muito bem. Isto porque, nalgumas segundas-feiras, as minhas crónicas transparecem algum azedume, quando não, uma ira profunda.


É que, às vezes, os casos são de arrepiar. Vejam só se alguém pode ficar indiferente perante a atitude intolerante dos pilotos da TAP que querem fazer greve se não lhes derem um aumento acima dos 8%. Mais concretamente, 8,88% para os comandantes e 8,55% para os restantes pilotos.


Tenho muito respeito pelos pilotos e deposito neles toda a confiança quando viajo nos aviões que conduzem. Mas isso não adormece o meu espírito crítico nem me impede de ver que no nosso país, onde a maioria dos trabalhadores não vai ter aumentos este ano (e alguns não os têm há anos), estes senhores querem um “aumentão” claramente desproporcionado relativamente aos demais concidadãos e ao estado das finanças públicas portuguesas. Sim, porque não podemos esquecer que a TAP é uma empresa que é detida integramente pelo Estado.


Perguntar-me-ão, mas os pilotos não deveriam ganhar muito bem porque são profissionais altamente preparados e têm um grande risco e responsabilidade? Respondo com um rotundo SIM. Mas não nos devemos esquecer das outras áreas de actividade onde os respectivos trabalhadores têm igualmente grande risco e responsabilidade e os seus vencimentos não se comparam, em nada, aos dos pilotos.


Já agora, sabem quanto ganham por mês os pilotos da TAP? Ganham, em média, 8.600 euros (os mais novos 5.000 euros e os comandantes seniores 10.000 euros)? E sabem qual é o vencimento médio em Portugal? Qualquer coisa como 894 euros.


Por isso me revolto. É indigno que em Portugal, numa empresa pública onde os restantes trabalhadores da mesmíssima empresa vão ter um aumento de 1,8%, os senhores pilotos ameacem fazer uma greve de seis dias (cirurgicamente na altura da Páscoa) se não forem satisfeitas as suas reivindicações. Uma greve que poderá causar à TAP um prejuízo de 30 milhões de euros.


Será que de empresa tecnicamente falida quererão uma empresa que vá mesmo à falência?


sexta-feira, março 12, 2010

O que é Simpatia (a uma menina)


Um poema do poeta brasileiro Casimiro de Abreu (1839 - 1860)


Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atracção.

Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gémeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Os dois poemas iguais.

Simpatia - meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'Agôsto,
É o que m'inspira teu rosto ...
- Simpatia - é - quase amor!

quinta-feira, março 11, 2010

Quando e como dar um presente

No passado fim-de-semana recebi um presente de aniversário. Lembro-lhes que faço anos em Dezembro. Portanto, quase três meses depois do dia certo, um familiar que já não via há tempos, entregou-me o bendito presente que, de resto, muito apreciei. Mas independentemente de quando ou o que recebi, a questão que me merece a reflexão de hoje é o presente em si mesmo. O que eu quero dizer com isto é que quando damos qualquer coisa a alguém, nos aniversários ou fora deles, devemos ter presentes certos critérios e não o:

- tenho que comprar qualquer coisa, por isso vou ali à FNAC (por exemplo) e trago o primeiro livro/disco que me vier à mão;
- vou ser diferente e vou comprar uma coisa completamente inédita, quiçá uma gravata com a fotografia de um jogador do Glorioso, mesmo que saiba de antemão que ela nunca vai ser usada porque o aniversariante é de um clube rival; ou
- vou levar uma coisa de que eu gosto e pronto.

E o busílis coloca-se exactamente porque:

- não basta comprar uma coisa qualquer porque, afinal, é a intenção que conta;
- se sabemos à partida que a prenda vai ser inútil, mais vale que se perca algum tempo extra para escolher uma coisa mais adequada ou que, pelo menos, tenha algum préstimo;
- não se definiu claramente a quem é que a oferta tem que agradar mais, se a quem a oferece ou a quem a recebe.

O que pretendo dizer é que, na minha perspectiva, tem que haver alguma imaginação, alguma inovação, algum trabalho de pesquisa, algum interesse em surpreender o destinatário da oferta. É a ele que a prenda tem que agradar ou ser útil. Só ser diferente é pouco. Ficamos pela metade se conseguimos apenas surpreender ou se a prenda agradar mais a nós do que a quem se oferece.

Claro que não estou a referir-me em concreto à pessoa que me deu o presente de aniversário. De quem veio, eu sei que todos os anos, há muitos anos, eu recebo exactamente a mesma coisa, sem tirar nem pôr. Esperem, não estou a ser justo, às vezes a coisa muda de marca.

O que não muda é o facto de eu adorar receber os cumpimentos de parabéns no próprio dia em que faço anos e, se possível, logo de manhã. Nem tão-pouco muda a minha ideia de que a oferta dos presentes deve ser efectuada nesse mesmo dia e, de preferência, que venham ao encontro da minha personalidade e dos meus gostos.

A mensagem está dada.