terça-feira, maio 11, 2010

Hip, Hip, Hurraaaaah!


Pelo título devem julgar que tanta alegria provém do facto do meu Benfica se ter consagrado campeão da forma brilhante como o conseguiu – a jogar bem . Mas não é o caso. Estou satisfeito, sim (e vivó Benfica), mas a crónica de hoje nada tem a ver com isso.


Quem me conhece sabe que me pélo por um bom champanhe. E não só para comemorar o que quer que seja, gosto mesmo de bebê-lo a acompanhar uma refeição, uma boa conversa ou a propósito de nada.


Mas o gosto ficou ainda mais reforçado (como se isso fosse necessário …) quando li algures que o champanhe contém seiscentas variedades de moléculas. Por exemplo, magnésio e sais de carbonato que previnem a indigestão, lítio que combate a depressão e enxofre – depurativo e desintoxicante – que combate a fixação do colesterol nas paredes vasculares. O selénio (já de si um verdadeiro banho de juventude) e o fósforo transmitem a alegria que umas taças de champanhe sempre nos proporcionam.


Um bouquet óptimo, de alegria e saúde. Que mais podemos pedir?


Mas o champanhe tem ainda que se lhe diga. Amanhã voltaremos ao tema.

segunda-feira, maio 10, 2010

E o país parou


Agora é que é, a crise acabou. Pelo menos tudo indica que deve ter acabado e, com ela, foram-se os problemas que estavam a desabar sobre nós e que ameaçavam levar o país e os cidadãos à indigência.

Não, desta vez não foram José Sócrates nem Teixeira dos Santos que anunciaram que melhores ventos (não são os tais que arrastam as nuvens de cinza do vulcão da Islândia) tinham afastado a crise para longe.

Cheguei a essa conclusão ao ver o espectáculo de milhares de pessoas em todo o país a saltarem de contentes, a soprarem apitos e a agitar bandeiras e cachecóis vermelhos só por que o Glorioso, o seu Benfica, venceu o campeonato nacional de futebol. Vi as lágrimas que se soltavam (agora já não de tristeza mas de uma profunda alegria), os abraços que surgiam espontâneos e sentidos perante a concretização de um feito que todos (quase todos, vá) achavam merecido.

Esqueceram-se as angústias provocadas pela incerteza do nosso futuro e pelos sacrifícios (ainda maiores) que nos vão ser exigidos em breve. O país parou. Os canais televisivos levaram horas e horas a transmitir reportagens de ruas apinhadas de gente feliz e de engarrafamentos colossais. Entrevistas que se repetiam à exaustão a quererem saber qual era o estado de alma que aquelas almas sentiam naquele momento. E tanta era a felicidade que eu suspeito que se pedissem a muita daquela gente se estava na disposição de doar metade do ordenado ao seu clube ou … ao país, eles não hesitariam em dar. O Benfica é campeão, o resto … bem, o resto logo se vê depois da festa.

SLB! SLB! SLB!

sexta-feira, maio 07, 2010

"Porque ..."

Um soneto de Sophia de Mello Breyner Andresen

"Porque ..."

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.




quinta-feira, maio 06, 2010

Um dia vou ajudar quem mais precisa …



Embora não utilize o açúcar no café, tenho sempre curiosidade em ler o que vem escrito nos pacotinhos que acompanham a “bica”. E, por vezes, vêem-se campanhas muito giras que vale a pena acompanhar. Este é um meio magnífico para, por exemplo, se transmitirem mensagens sobre saúde, informações de carácter cultural ou cívica, iniciativas em volta e por causa de uma causa ou, simplesmente, onde se faz publicidade a uma qualquer marca ou produto. Muitas vezes em tom sério, outras com o humor que ajuda a passar o que se pretende de uma forma mais eficaz.

Ontem, ao pedir a habitual bica (em chávena escaldada), o pacotinho de açúcar trazia a frase:

“Um dia vou ajudar quem mais precisa …”

Era uma intenção, uma lembrança, um recadinho. Mas vale a pena tê-la em conta. É que há tanta gente - por vezes bem perto de nós - a necessitar dessa ajuda. E esse apoio, pode ser tão simples de dar e ter um significado enorme para quem o recebe.

“Um dia vou ajudar quem mais precisa …”. Que esse dia venha em breve.

quarta-feira, maio 05, 2010

A Nova Pobreza


Manuel António Pina é jornalista e autor do texto que se segue, que publicou no Jornal de Notícias há umas duas semanas. É visível o sarcasmo que pôs na sua crónica, a que chamou “A Nova Pobreza”. Porém, para os cidadãos, que lidam diariamente com a precariedade de emprego ou mesmo com o desemprego, com os salários demasiado baixos e com as assimetrias tão chocantemente injustas, o texto poderá, evidentemente, provocar-lhes um sorriso mas dificilmente os fará esquecer o desânimo e a depressão em que se encontram.


Ora vejam,


“A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país, fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do BCP que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos os por assim dizer postos de trabalho.

A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90 000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45 000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290 000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145 000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150 000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente.

Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior.

Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem”.


A coisa está a ficar difícil para estes gestores. Tanto mais que para estes 11 “novos pobres” não há sindicatos que os protejam nem manifestações do 1º. de Maio que defendam os seus direitos como trabalhadores. E com as reduções de salário previstas é bem provável que, pelo menos alguns deles, venham a passar dificuldades.

Quanto à sugestão de Manuel António Pina para que o Banco Alimentar Contra a Fome possa vir a apoiar mais estes “carenciados”, vou tentar mexer as minhas influências para que, pelo menos, não lhes falte um bom espumante português e um queijo da serra genuíno. Vamos a ver, não prometo.


terça-feira, maio 04, 2010

A Dúvida

Esta é uma história verdadeira, passou-se comigo. E vou contá-la porque pode servir de aviso às pessoas de boa-fé, que eu sei que ainda há algumas por aí ...


Almoçávamos num simpático restaurante de uma das nossas mais bonitas cidades e eu estava sentado à ponta de uma das mesas. Perto, numa outra mesa, de costas voltadas para mim, estava sentado um senhor que tinha o casaco encavalitado no espaldar de uma cadeira mesmo ao seu lado.


Apreciávamos o petisco quando o senhor jogou a mão ao casaco para tirar a carteira a fim de pagar a conta. Qual quê? Nada de carteira, desaparecera, evaporara-se. Levantou-se num impulso, e com ar de poucos amigos, dirigiu-me um olhar desconfiado. Aliás, ele já nem estava desconfiado, percebia-se claramente que tinha a certeza de que se a carteira tinha sumido o carteirista só podia ser eu. Afinal, era eu que estava mais perto do casaco.


Era um olhar intencional, sem direito a contraditórios, definitivamente fulminante. E senti-o eu e sentiu-o quem estava a meu lado. Sem dúvidas, mas também sem provas, eu era o culpado. Felizmente que o homem não teve a ousadia de me acusar mas eu sabia que ele não pensava outra coisa.


O clima ficou pesado. Perante aquele olhar sem palavras, senti necessidade de dizer alguma coisa. Perguntei-lhe se teria usado a carteira em algum lugar antes de ir ao restaurante. Avancei com a hipótese da carteira ter ficado no emprego ou em casa. Respondeu-me que ainda não a usara naquele dia e lançou-me um último (e desconfiado) olhar antes de sair.


A situação era embaraçosa. O homem estava sentado ao meu lado e o casaco perto de mim. Afinal, se a carteira desaparecera, não faria sentido que ele desconfiasse exactamente de mim? Admiti que sim, mais, até eu já começava a desconfiar de mim. Afinal, uma carteira não se evapora num repente.


Meia hora depois o homem voltou ao restaurante. Vinha com outra cara, sorria e percebia-se claramente que tinha encontrado a carteira. Achara-a no banco de trás do seu carro. Falou em voz alta para o dono do restaurante de modo a que nós também ouvíssemos, chegou mesmo a olhar na nossa direcção. Com outra expressão, claro. Não me pediu desculpas mas a verdade é que também não me tinha culpado (oficialmente) do que quer que fosse.


A história – verdadeira, repito – serviu-me de lição, pelo menos para me precaver em relação a situações futuras. Sentar-me perto de casacos arrumados em costas de cadeiras, nunca mais. Como disse, tudo aquilo foi embaraçoso e ainda hoje tenho bem presente aquele olhar profundo e acusador.


Fica o alerta.


segunda-feira, maio 03, 2010

A verdade desanimadora


Já aqui escrevemos, por diversas vezes, sobre as baixas qualificações dos nossos trabalhadores e empresários. Escritos que nem sempre foram muito bem acolhidos pelos Amigos que nos lêem.


A verdade, porém, goste-se ou não, é que os trabalhadores portugueses são pouco qualificados, e segundo veio agora a público, têm ainda menos competências de que os brasileiros, os turcos ou mesmo os mexicanos Cerca de 60 % da mão-de-obra em Portugal não tem qualquer formação específica. Quanto aos patrões, oito em cada dez não passaram do ensino básico. Tal como o algodão, os números não enganam.


E isto não aconteceu por acaso nem foi de repente. Para este estado de coisas muito contribui um nível de ensino que é nitidamente insatisfatório, que não prepara de forma capaz quem é lançado para o mercado de trabalho e que não motiva os alunos a aprenderem (31 % dos jovens deixam de estudar antes de terminarem o secundário e 3/5 dos nossos alunos sofrem de iliteracia ou, por outras palavras, são analfabetos funcionais). De facto, o futuro não se apresenta muito risonho.


E a nossa tristeza aumenta ainda mais quando somos confrontados com um dado verdadeiramente espantoso: no início deste século XXI, Portugal tem cerca de 10% de analfabetos, a mesma percentagem existente nos países nórdicos … no final do século XIX.


Como enfrentar, assim, a concorrência de países que julgávamos até agora serem mais atrasados do que o nosso, quando, pelo que parece, somos considerados os menos qualificados de toda a Europa?


Apesar de tudo as coisas têm vindo a melhorar mas o panorama continua triste e desanimador. Goste-se ou não, a realidade é esta e, tenho a certeza, ninguém feliz com ela. Há muito para fazer. E depressa.





sexta-feira, abril 30, 2010

Pedintes ou empreendedores?


Braga, como todos sabem, é conhecida pela “Cidade dos Arcebispos”. Para além de ser uma cidade com muita juventude e de estar cada vez mais bonita, Braga distingue-se pelos seus templos. Belos e imponentes, desde a Sé Catedral, a Basílica, Santuários, Mosteiros, Conventos e um sem-número de Igrejas.


Há duas semanas voltei à capital do Minho e, “obrigatoriamente” revisitei algumas dessas Igrejas. E foi com espanto que, numa delas, enquanto decorria uma missa, vi um homem abordar várias pessoas para lhes pedir dinheiro. A celebração não impediu que o pedinte deambulasse pelo templo a seu belo prazer, perante a indiferença da maioria dos presentes e do próprio padre.


Umas horas depois e uns metros mais à frente, numa outra Igreja do centro, dei de caras com um outro pedinte, este sentado nos degraus da escadaria que culminava na porta principal da Igreja, estendendo a mão a quem entrava ou saía do templo. Mas o que me espantou verdadeiramente foi o constatar que sempre que lhe era recusado o óbolo solicitado, o homem desencantava por debaixo de um cobertor que lhe cobria as pernas um objecto que vim a perceber tratar-se de um relógio. Não conseguida a esmola, a acção seguinte era tentar vender um relógio.


Perante tamanho descaramento, tanto num como noutro caso, não pude deixar de pensar que o que ali se passava era, tão-somente, a mais pura manifestação de desenrascanço, sem qualquer espécie de limites e com a manifesta condescendência das autoridades policiais e eclesiásticas. Incrédulo, fiquei com a sensação de que a margem entre o pedinte e o empreendedor era, naqueles casos, muito curta.

quinta-feira, abril 29, 2010

A “Estética do Artifício”



Quando, na crónica de ontem, transcrevi parte de uma declaração da Dr.ª. Maria do Carmo Vieira, em que citava um dos heterónimos de Fernando Pessoa – Bernardo Soares – logo fiquei entusiasmado com a ideia de publicar aqui um pequeno texto do seu O livro do desassossego.


O livro é constituído por fragmentos e é considerado uma das obras fundadoras da ficção portuguesa do século XX.


Deliciem-se, então, com a “Estética do Artifício”


“A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar.


Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza”.




quarta-feira, abril 28, 2010

De novo, o novo acordo ortográfico

Como sabem, o novo acordo ortográfico já entrou oficialmente em vigor mas, até 2012, decorre um período de transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia actual. No entanto, e porque um número crescente de pessoas está em des(acordo) com as alterações introduzidas, é bom que tenhamos consciência que continua a ser possível forçar a revisão da decisão política anteriormente assumida.


E isto de não estar de acordo com este acordo, não é, como querem fazer crer, por pura resistência à mudança. Trata-se tão-somente do repúdio de muitas pessoas pelas regras e princípios que foram aceites, que não fazem qualquer sentido e que foram acertados por uns quantos linguistas brasileiros e portugueses.


Já há dois anos um grupo de cidadãos e personalidades públicas (encabeçadas pelo antigo eurodeputado Vasco Graça Moura) levou ao Parlamento uma petição com 32 mil assinaturas. Apesar do esforço, os deputados acabaram por dar luz verde ao novo acordo. Agora, foi lançado um novo movimento, porventura ainda mais pujante, liderado pela professora de português Maria do Carmo Vieira e pelo tradutor João Pedro Graça que pretende reunir 35 mil portugueses em torno da causa, uma iniciativa que, na prática, e uma vez que chegue ao Parlamento, tem a força de projecto-lei que, caso conte com o apoio da maioria dos deputados pode revogar o acordo ortográfico e fazer voltar à velha ortografia.


Em entrevista, Maria do Carmo Vieira referia “Como Fernando Pessoa diz, através de Bernardo Soares, “a minha pátria é a língua portuguesa”, por isso a minha pátria é o território, tem as suas raízes, tem o tempo, tem os falantes e o Brasil também terá os seus, fez as suas variantes em relação ao português e abençoada a língua que assim é … não podem é, porque nós somos em maior número, como disseram os brasileiros, impor uma série de alterações. Houve até linguistas, os mais radicais brasileiros, que propuseram que em vez de se chamar língua portuguesa se chamasse língua brasileira. Ora isto, historicamente, é um branqueamento inaudito da cultura”.



Porque sou português e amante da minha língua, faço questão de reiterar veementemente a posição que já aqui expressei em crónicas anteriores sobre este assunto. Isto é, por não vislumbrar justificações aceitáveis para uma mudança tão significativa da nossa forma de escrever, continuo a não concordar com o novo acordo ortográfico.

terça-feira, abril 27, 2010

O ideal


Não vou jurar que é exactamente como me contaram mas sou levado a pensar que a coisa não andará muito longe disso.


Recentemente a RTP promoveu uma enorme campanha a favor das vítimas do temporal da Madeira, que se desenrolava em vários módulos. Um deles era através de chamadas telefónicas em que os participantes pagavam 0,60 € mais IVA. No total desembolsavam 0,72 € por cada chamada. Até aqui nada a dizer. É uma iniciativa louvável e participou quem achou que devia fazê-lo.


O que, no entanto, alguém parece ter esquecido de dizer é que o donativo propriamente dito era apenas de 0,50 €. Ou seja, do custo total das chamaditas deram-se 0,50 € a quem deles necessitava, a PT ficou com 0,10 € e o Estado foi buscar 0,12 € do IVA.


E é neste ponto que as dúvidas me inquietam. Numa campanha deste tipo, que visa a solidariedade, não deveriam a PT e o Estado dispensarem as verbas respeitantes às comissões e aos impostos? É que não me parece aceitável que ambos auferiram lucros adicionais com as chamadas que nunca seriam efectuadas, se as campanhas não se realizassem.


A ser verdade a versão que me foi transmitida, o montante doado atingiu dois milhões de euros mas, ao mesmo tempo, a PT ganhou quatrocentos mil euros e o Estado arrecadou quatrocentos e oitenta mil euros.


Bem podem argumentar que a Portugal Telecom poderá ter desenvolvido, em paralelo, outras acções de solidariedade para com a Madeira e que o Estado fez um esforço adicional estabelecendo protocolos para ajudas extraordinárias à Região Autónoma. Aceito que sim. Mas, em circunstâncias como estas, em que a solidariedade e a generosidade dos cidadãos se expressam de modo tão genuíno, penso que o ideal seria que a doação fosse directa e inteirinha para a finalidade em vista. Ou não será?



segunda-feira, abril 26, 2010

“Basta! Basta! Os portugueses têm de se revoltar”


Depois de há uns anos Mário Soares ter proferido a frase, que fez escola, sobre o direito dos portugueses à indignação, agora foi a vez de Ricardo Sá Fernandes ter retomado o tema para apelar “Basta! Basta! Os portugueses têm de se revoltar contra esta situação. Têm de ter o direito de criticar a Justiça quando ela erra - não se podem calar”.


E é isto que tem faltado tantas e tantas vezes em Portugal. É a pouca coragem dos portugueses em exprimirem o seu descontentamento perante os casos que as altas políticas, os inconfessados (ou talvez não) interesses económicos e pessoais e os artifícios jurídico/legais muitas vezes impõem e a que a maioria tende a resignar-se. Dá a ideia que os cidadãos só se agitam quando estão em causa os seus interesses privados, em concreto os seus salários e os seus “direitos adquiridos”. Infelizmente, digo eu, porque o interesse da coisa pública deveria ser abraçado por todos e a tempo inteiro.


É certo que nos queixamos da justiça, que temos dela uma imagem permanente de guerra entre as associações sindicais, a Ordem dos Advogados, os Juízes e os demais agentes. Por isso mesmo é que não nos podemos calar quando a justiça é lenta e quando, como agora, torna público acórdãos que, do ponto vista legal, podem até ser considerados irrepreensíveis, mas que ferem os mais elementares princípios de bom senso, de ética e de decência.


Como pode o cidadão comum entender que Domingos Névoa, o empresário que – COMPROVADAMENTE – tentou corromper um autarca, depois de ter sido condenado na primeira instância a pagar “a pesada multa de 5 000 euros”, fosse agora ilibado pelo Tribunal da Relação com o argumento de que o vereador que tinha tentado corromper não dispunha de poderes para dar andamento ao que Névoa pretendia?


Ou seja, houve, de facto, uma tentativa de corrupção. Foi, portanto, cometido um crime que é previsto na lei e do qual ninguém parece ter dúvidas. No entanto, como o edil escolhido não tinha poderes suficientes para “entrar no jogo”, não chegou a haver crime, pelo que não pôde haver condenação. Afinal, que raio de justiça é esta?


Ricardo Sá Fernandes tem razão: “Basta! Basta! Os portugueses têm de se revoltar”.

sexta-feira, abril 23, 2010

Temos tão pouco orgulho nas nossas coisas


Eu sei que nestas últimas semanas estávamos demasiado preocupados em saber quem seria o próximo treinador do Sporting. Certamente por isso (na verdade, o assunto é sério) não nos apercebemos que António Mexia (EDP) e Zeinal Bava (PT) foram eleitos pela revista “Institucional Investor” os melhores CEO europeus das respectivas áreas, resultado obtido pela votação de 1094 analistas de todo o mundo, pertencentes a 146 casas de investimento. Constato o facto, independentemente das chocantes remunerações que estes gestores de elite auferem. O assunto já foi aqui abordado e sabem muito bem o que eu penso sobre o assunto. Como disse, apenas constato o facto e fico feliz (como sempre acontece) em ver o reconhecimento do mérito. Uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa.


E ainda demos menos conta que o nosso Siza Vieira acaba de entrar para membro honorário da Academia Americana de Artes e Letras, uma consagração que lhe é atribuída pelo reconhecimento internacional do seu trabalho, o que nos deveria ter deixado, a todos, muito satisfeitos. Um prémio justíssimo que Siza bem merece


Estive toda a semana à espera de manifestações de júbilo mas em vão. Nada, para além de pequenas notícias de rodapé. É típico cá no burgo. Estamos quase sempre tão distraídos com as nossas pequenas maledicências que nos esquecemos de ficar felizes com os sucessos que, aqui e ali, Portugal e os portugueses vão conseguindo.


Aqui fica a expressão do meu orgulho.



quinta-feira, abril 22, 2010

Contem comigo



Os ministros das Finanças da zona euro aprovaram recentemente um plano de 30 mil milhões de euros para ajudar a Grécia, em que Portugal poderá vir a contribuir com cerca de 770 milhões.


Como sou jeitoso para fazer contas deitei a mão à calculadora e cheguei à conclusão que cada um de nós irá pagar qualquer coisa como 75 euros. Paciência, são dois jantares a menos que faço fora. Não é assim tão grave e é por uma boa causa.


Mas nem todos são tão generosos como eu. Já apareceu numa das redes sociais um grupo que sugere que a Grécia venda a Taça que conquistou no Europeu de Futebol em 2004 para amortizar uma dívida monumental (ainda maior do que a nossa) e aliviar-se um pouco de uma crise de dimensões épicas.


Por mim está decidido. Entro na ajuda e já estou a pôr de lado uns trocos para quando for necessário. Contem comigo. Não posso, no entanto, deixar de lembrar que aquela taça europeia foi ganha pela Grécia em Lisboa e que, na final, teve como adversária precisamente a equipa portuguesa. Estragaram-nos a festa sem qualquer consideração e há quem pense que, agora, deveríamos devolver o gesto.


Só gostaria que os dois melhores do futebol europeu de 2004 não fossem, neste momento, os dois piores da Europa em termos económicos, com todas as consequências e dificuldades daí decorrentes a caírem sobre os ombros dos cidadãos.


É que, com bola ou sem bola, vai-se passando. Agora, com um sem-número de restrições que, certamente, nos vão ser impostas, a coisa vai doer à séria.



quarta-feira, abril 21, 2010

O “ponto da impaciência”


A fazer fé no resultado de um estudo – mais um – sobre a menor ou a maior intolerância apresentada pelos jovens que usam e abusam da internet, estamos perante uma constatação muito preocupante. Segundo esse estudo mais de metade dos entrevistados admitiu que se irrita com mais facilidade agora que utilizam a net do que antes. A conclusão parece fazer sentido se atendermos a que a velocidade de resposta da net não tem correspondência à da vida real. Daí a impaciência e a intolerância que geram muitas vezes comportamentos agressivos, quando não violentos. Para além de outros aspectos mais banais que têm a ver, por exemplo, com o alheamento das próprias pessoas.

A internet agiliza a vida de quem a utiliza, as consultas e as respostas são rápidas, estamos ligados a várias coisas ao mesmo tempo e a todas elas estamos atentos em tempo real. O mundo da realidade é mais vagaroso, as conversas são mais demoradas e a exposição verbal de certos raciocínios são enfadonhamente lentos. Quem é que consegue acompanhá-los? Ao fim de poucos minutos, as mentes habituadas a outras velocidades dão um clique e desligam. Ficam as pessoas, permanecem os olhares um tanto perdidos mas os pensamentos foram-se. Já não estão lá.

Curiosamente, e quase ao mesmo tempo, surgiu um outro estudo que aponta no sentido que tanta impaciência se pode dever também ao consumo da chamada “comida plástica”. O “fast food é uma das muitas tecnologias que nos permitem poupar tempo”. O que levou, de resto, um dos investigadores a questionar “o irónico é que, lembrando-nos constantemente da eficiência do tempo, essas tecnologias podem levar-nos a sentir muito mais impaciência”.

E as duas conclusões remetem-nos fatalmente para a velha dúvida “afinal, para que é que corremos tanto e com tanta velocidade? Para chegar aonde e para fazer o quê?

terça-feira, abril 20, 2010

Assim fico muito mais descansado


Entrou ontem em vigor o novo Código de Execução de Penas. E entrou, desde logo, envolto por uma enorme polémica entre os magistrados e o Director-Geral dos Serviços Prisionais uma vez que ninguém sabe (se é que isso interessa para alguma coisa) se a libertação dos presos é feita ao abrigo deste novo código ou se é regulamentada pelo Código Penal.


Na prática, o que vai acontecer é que haverá, a partir de agora, presos que tenham cometido crimes graves (e que estejam a usufruir do chamado regime aberto) postos em liberdade após terem cumprido um quarto da sua pena. E, vejam só, isso será possível através de uma mera decisão administrativa do Director-Geral dos Serviços Prisionais, sem intervenção, portanto, de qualquer juiz. Os presos vão ter autorização para passar o dia fora da prisão, sem qualquer controlo (electrónico ou humano) e regressam à noite ao estabelecimento prisional.


Para se perceber melhor a questão, recorro à fórmula daquela famosa rábula do Ricardo Araújo Pereira sobre Marcelo Rebelo de Sousa, aquando da polémica sobre a despenalização do aborto.


“O criminoso está preso? Está. O Código de Execução de Penas liberta ao fim de um quarto da pena? Não. O criminoso está na rua? Está”.


Ou seja, o que, de facto, o cidadão comum se apercebe é que um criminoso que deveria estar preso durante 25 anos, condenado pela morte de alguém ou por um crime grave contra terceiros, pode, passado pouco tempo, estar cá fora depois de ter cumprido pouco mais de 6 anos de reclusão.


É difícil entender toda esta condescendência para com quem praticou crimes muito graves. Resta-nos, porém, uma consolação. Ao que parece - li isso algures - quando um dos tais presos está para sair com uma parte da pena já cumprida, os Serviços entram em contacto com os ofendidos e comunicam-lhes que o criminoso vai ficar em liberdade. Sem dúvida que é um aviso útil. É que, deste modo, e com medo das eventuais represálias, as vítimas podem ainda ter tempo de mudar de cidade, de país ou mesmo de cara. Assim, sim, acreditem que fico muito mais descansado.



sexta-feira, abril 09, 2010

Que vergonha, rapazes!


Mais um delicioso poema de Alexandre O’Neill


Que vergonha, rapazes!


Que vergonha, rapazes! Nós práqui

Caídos na cerveja ou no uísque,

A enrolar a conversa no “diz que”

E a desnalgar a fêmea (Vist’? Viii!)


Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito

É esta videirunha à portuguesa,

Que às vezes me soergo no meu leito

E vejo entrar a quarta invasão francesa.


Desejo recalcado, com certeza …

Mas logo desço à rua, encontro o Roque

(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)

E desabafo: Ó Roque, com franqueza:


Você nunca quis ver outros países?

- Bem queria, sr. O’Neill! E … as varizes?

quinta-feira, abril 08, 2010

Casa vende-se



Em primeiro lugar devo pedir desculpa porque nunca sei se o anúncio deve ser “Vendo Casa”, simplesmente “Vendo” ou “Casa Vende-se” (não vá ela, de seu moto próprio, pôr-se à venda). Adiante.



Pois é, vou ter que vender a minha casa para comprar outra um pouco maior. Eu sei que tenho um T3, o mesmo em que já vivia quando cá moravam os meus dois filhos. Perguntar-se-á, então, uma vez que eles já saíram, o espaço não é agora mais do que o suficiente para o casal? E a resposta é sim e … não.



Eu explico, de facto o espaço desocupado permitiu rearranjar a casa, em termos de melhor arrumação das coisas e deu-nos a possibilidade de ter “os nossos cantinhos” onde agora podemos, de forma mais tranquila, ler, escrever, ouvir música e reflectir. Organizámo-nos e estamos satisfeitos com o resultado. E, desse ponto de vista, sim, temos espaço suficiente.



Mas a resposta não, vem logo de seguida quando pensamos no monte de coisas que temos que separar para reciclagem e o espaço que isso nos obriga a ter. Começámos por arranjar recipientes próprios para alojar “papéis e cartão”, passámos ao “vidrão” e às “embalagens” e veio a reboque o “pilhão”. Sugeriram-nos, então, que separássemos também as garrafas de plástico e as respectivas rolhas, estas também à parte, depois foram os óleos de fritar e agora as cápsulas do café.



Face aos sacos e todo o tipo de utensílios que reservámos para a separação de toda a reciclagem doméstica, e ao espaço que toda esta logística ocupa, não vemos outra alternativa que não seja mudar para uma casa bastante mais espaçosa. Até porque não sabemos que tipo de objectos nos vão sugerir que separemos em seguida.



Temos a consciência de que com o nosso esforço e a nossa responsabilidade cívica estamos a contribuir para melhorar o ambiente. Mas temos um problema. O de saber onde podemos encontrar o melhor spread da Banca para contrair um empréstimo para a nova casa.






quarta-feira, abril 07, 2010

Os dois pês: Pobreza e Preocupação


Ontem, quando escrevia sobre as dificuldades sentidas pelos cidadãos para conseguirem trocar de carro, estava, evidentemente, a referir-me àqueles que ainda vislumbram um horizonte onde vão cabendo alguns “luxos”, como esse tão banal de ter um carrinho novo.


Hoje a minha atenção recai naquela imensa faixa da população que sente na pele os enormíssimos apertos da crise económica que nos apoquenta, que já não consegue suportar o custo das necessidades básicas, e nomeadamente, o da compra de alimentação. Estou a pensar nas 280 mil pessoas que têm que recorrer ao Banco Alimentar.


Em 2009 houve um acréscimo de 37 592 pessoas em relação ao ano anterior. É cada vez maior o número de famílias que se encontra em situação desesperada. E as listas de espera nas Instituições que distribuem os alimentos engrossam assustadoramente. Não há alimentos que cheguem para tanta gente, não há estruturas que consigam suportar tamanha corrida, apesar de toda a boa vontade e dedicação que, por vezes, fazem milagres.


Mas, ao contrário da solução que encontrámos para a crónica de ontem, não há, neste caso, a possibilidade de “remendar o pano”. Para a pobreza (a profunda e a envergonhada), o sobreendividamento, o desemprego, o emprego precário, os baixos salários e a instabilidade económica e social em que vivem muitos concidadãos parece não haver alternativas credíveis que permitam dar a volta a este estado de coisas.


Pode-se passar sem o carro novo mas não sem o alimento do dia-a-dia. E se para uns, quando chega a hora de apertar o cinto, podem deixar de comer um naco de carne mas ainda assim têm pão com manteiga para enganar os estômagos, para outros, já não existe manteiga nem, muitas vezes, o próprio pão.





terça-feira, abril 06, 2010

“Remenda o teu pano e dura mais um ano”

Ouvi num noticiário de sexta-feira passada que a venda de automóveis ligeiros em Portugal, no mês de Março, cresceu 73,6 % relativamente ao período homólogo do ano passado. É uma subida significativa e que, à primeira vista, parece indicar que o pior da crise já lá vai e que empresas e cidadãos conseguiram sair do sufoco em que se encontravam.


Pura ilusão, uns e outros continuam a debater-se com enormes dificuldades. O que acontece é que, por um lado, 2009 foi um ano particularmente mau para a venda de carros e, por isso, qualquer pequena subida provoca (como sucedeu) uma dimensão desproporcionada e enganosa e, por outro, a renovação das frotas, as de aluguer e as de algumas empresas, deram uma ajuda significativa neste crescimento.


E se para as empresas a coisa não está nada fácil, para os cidadãos pior um pouco. Vontade para comprarem carro novo não falta, mas mesmo nos casos das carripanas com mais de oito anos, em que podem (ainda) beneficiar do denominado “incentivo ao abate de veículos em fim de vida”, a decisão de comprar/trocar de carro vai sendo adiada por mais uns tempos. Afinal, contas feitas, acabam por seguir à risca o provérbio antigo que diz “Remenda o teu pano e dura mais um ano”.