sexta-feira, fevereiro 05, 2010

A Máquina de Fazer Espanhóis


De importante, importante mesmo, o que eu hoje quero dizer-vos é que o Museu Nacional de Arte Antiga vai acolher no próximo dia 10 de Fevereiro o lançamento do quarto romance de valter hugo mãe (isso mesmo, escreve-se com letras minúsculas), o vencedor do prémio Saramago em 2007.


O livro tem um título sugestivo: “A Máquina de Fazer Espanhóis”. Um livro que promete tanto mais que, como afirma Lobo Antunes, “a maior parte dos livros são escritos para o público, este é um livro escrito para os leitores”.



Mas esta referência ao lançamento deste livro “A Máquina de Fazer Espanhóis” não é inocente. Sem conhecer ainda o romance, a simples ideia de uma máquina que pode fabricar espanhóis apavora-me. Claro que nada tenho contra os “nuestros hermanos”. O que me preocupa é se a tal máquina começa a produzir espanhóis do tipo Joaquín Almunia, o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos que é espanhol e que, como bom vizinho que é, acaba de nos dar uma mãozinha para nos afundar ainda mais, como se isso fosse necessário.


Depois das opiniões das agências de rating só nos faltava o Sr. Almunia e as suas declarações sobre a competitividade e o endividamento de Portugal, numa tentativa (bem conseguida) de nos pôr ao mesmo nível dos gregos.


Não necessitávamos dessa ajuda. Já sabíamos que a coisa estava mal mas a intervenção do Comissário teve um efeito de tal modo negativo e imediato nos mercados internacionais que o preço do crédito concedido ao nosso país subiu num ápice.


Bem podem os nossos governantes bradarem que “as declarações de Almunia foram infelizes e enganadoras”. Aliás, a Comissão Europeia já veio esclarecer que, afinal, “nunca pretendeu comparar a situação económica de Portugal com a da Grécia”. Mas o mal está feito e as consequências aí estão.


A desconfiança sobre Portugal está lançada. E, como se não bastasse tudo o que aconteceu, os políticos nacionais, de todos os quadrantes, fizeram questão de demonstrar com arrebatadora irresponsabilidade, que podiam piorar ainda mais a situação com uma inesperada crise política por causa da Lei das Finanças Regionais e, concretamente – sejamos claros – por causa da Região Autónoma da Madeira.


Não merecíamos tanto!



quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Imaginação

Rosa Lobato Faria morreu na última terça-feira. Para além de actriz, escritora, compositora e poetisa de grandes méritos era uma mulher de extrema simpatia e afabilidade.

Em 23 de Janeiro de 2008 tinha aqui sido publicado um poema seu “E de novo a armadilha dos abraços”.

Hoje, e como singela homenagem a Rosa Lobato Faria, um outro lindíssimo poema



“Imaginação”



A imaginação é magia e é arte

que nos faz inventar, sonhar e viajar.

Com imaginação podemos ir a Marte

ou ao centro da Terra, ou ao fundo do mar.

Com imaginação nunca estamos sozinhos.

A imaginação é um voo, um lugar

onde temos amigos, onde há outros caminhos

nos quais, sem te mexeres, podes ir passear.

Inventa uma cantiga, um poema, um desenho

um arco-íris, um rio por entre malmequeres;

esse lugar é teu, sem limite ou tamanho.

A esse teu lugar, só vai quem tu quiseres.


quarta-feira, fevereiro 03, 2010

As “calhandrices”

Não tivesse o caso contornos que podem revelar-se muito graves e que têm a ver com a liberdade de expressão, diria que esta é mais uma manobra que serve para nos distrair da periclitante situação em que se encontra o país.


Mas o que aconteceu merece a devida reflexão. Um jornalista (Mário Crespo) escreveu um artigo de opinião sobre uma conversa que decorreu num restaurante entre o Primeiro-Ministro, dois outros Ministros e um alto funcionário da SIC em que, alegadamente, terá sido dito que Crespo seria um "débil mental" e que constituiria um "problema" que tem de ter "solução".


Essa crónica devia ter sido publicada na segunda-feira no Jornal de Notícias e não foi. Por censura? Por falta de contraditório? Não sabemos, o curioso, porém, é que o JN não quis publicá-la mas a crónica acabou por ser tornada pública, aparentemente sem o autor saber disso, nos sites do jornal Público e no do Instituto Sá Carneiro que é do PSD. Ele há coincidências …


Coincidências à parte, a verdade é que a conversa decorreu em privado e o que lá foi dito só foi “ouvido” por terceiros. Não existem provas que confirmem o que quer que seja.


Assim, não é de estranhar que as dúvidas surjam de todos os quadrantes.


Por um lado, sabe-se que o prestígio de Mário Crespo foi conquistado por ser um jornalista competente e sério. Eu próprio gosto da maioria dos seus trabalhos e considero-o independente. No entanto, temos que reconhecer que ele tem sido nos últimos tempos muito crítico em relação ao governo socialista e ao seu líder.


Por outro lado, ninguém esquece os casos recentes de alegado silenciamento da comunicação social – dirigidos a Manuela Moura Guedes e José Manuel Fernandes - em que, suspeita-se, tenha havido o dedo de Sócrates que, é voz corrente, lida muito mal com as críticas da comunicação social.


E o Governo a “este processo de intenções” responde simplesmente que “não se ocupa de casos fabricados com base em calhandrices". As tais calhandrices!


Enfim, enquanto se espera pela reunião do organismo regulador dos media (a ERC) que vai discutir hoje, quarta-feira, a posição a tomar face ao artigo de Mário Crespo com acusações ao Governo, a fogueira vai crepitando com alguma intensidade.


terça-feira, fevereiro 02, 2010

As apressadas opiniões das Agências de Rating

Acho que ainda vou a tempo de escrever mais uma coisinha sobre o Orçamento para 2010. Ou melhor, sobre as apressadas opiniões sobre o OE divulgadas pelas agências de rating que foram tão lestas em manifestar-se.


Pouquíssimas horas depois de Teixeira dos Santos ter entregue o cartãozinho electrónico com o OE na Assembleia da República, já os diligentes elementos dessas agências estavam a dar o seu abalizado parecer sobre o mesmo. Sem sequer terem tido a preocupação de considerar o estabelecido no PEC (o Programa de Estabilidade e Crescimento) que o Governo vai entregar em breve em Bruxelas e onde vão ser indicadas as medidas a adoptar para equilibrar as contas públicas portuguesas e, consequentemente, a forma como se pretende baixar o deficit até 2013.

Competente esta gente!


Apesar dessa competência, todos nos lembramos de assistir ao imenso falhanço das suas previsões quando atribuíram notações altas a economias de certos países que, pouco depois, se desmoronaram como castelos de cartas. Apesar disso, continuam a ser tidos em conta pelos investidores e são as suas opiniões que prevalecem e fazem tremer os Estados.


Com o seu apressado juízo sobre o OE acabado de apresentar, sem considerarem as medidas que vão ser propostas no PEC, o que o mais elementar bom senso recomendaria, algumas dessas agências que “não esperaram para ver” começaram desde logo a dificultar as já difíceis condições do nosso país no acesso ao crédito e ao preço que terá que pagar quando o conseguir. É que advertências extemporâneas deste género podem causar danos irreparáveis à nossa economia.





segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Orçamento de Estado para 2010 – A minha contribuição


Nestes últimos dias não se tem falado de outro assunto que não seja o Orçamento de Estado para 2010. Não é, pois, de estranhar que este humilde cidadão queira igualmente dar uns palpites sobre a coisa. Farei isso com todo o gosto mas hoje, dado o adiantado da hora, não alongarei muito as minhas lúcidas teorias de comentador atento e contribuinte venerador e obrigado.


O Orçamento acabou por passar como era óbvio, com a abstenção do PSD e do CDS. Há muito que se adivinhava que a vontade daqueles partidos era mesmo a de deixar passar o orçamento, em nome de uma pretensa responsabilidade para com o país mas afirmando, todavia, a firme discordância com as políticas do Governo. Ou seja, depois de três meses de empatas, os dois partidos de direita disseram que não concordavam com o OE mas, apesar disso, viabilizaram-no com a abstenção de ambos. Com uma “abstenção construtiva” como lhe chamou o CDS.


Embora não me tenham pedido opinião sobre o assunto, e dado que a coisa vai mesmo para frente, patriota como sou, quero estar na primeira linha dos que vão ajudar a que este exercício orçamental se cumpra e seja um sucesso. E desejo que a minha contribuição seja inscrita, naturalmente, do lado da receita.


Assim, nos “Impostos Indirectos” penso alinhar em quase todos: no IVA, sobre os produtos petrolíferos (ISP), sobre o álcool e bebidas e sobre os de circulação. Nos “Impostos Directos” não escaparei ao IRS (com muito gosto, claro) e para os que são incluídos nas “Outras Receitas Correntes” farei um esforço para não defraudar as expectativas que os meus queridos governantes depositam nos seus explorados contribuintes.


Foi por essa razão que paguei ontem uma multa de (mau) estacionamento, de trinta euros que irão integrar os 734,4 milhões de euros previstos neste orçamento. É pouco, eu sei mas, grão a grão, enche a rubrica “Taxas, multas e outras penalidades” o papo.


Paguei a multa, repito, mas apenas e só porque, como disse, sou patriota (ou parvo, como quiserem). É que o Papa em breve estará de visita a Portugal e o mais certo é que haja uma amnistia que “limpe” uma série de multas deste tipo, como costuma acontecer.


Contudo, o curioso da história é que os meus trinta euritos que vão ser contabilizados este ano dizem respeito a uma (possível) infracção ocorrida em 2008. Mas isso é outra questão que poderei voltar a ela em próximo capítulo.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Depois de casa roubada …


Passei há dias por uma rua de Lisboa onde dois trabalhadores sem identificação estavam a abrir um buraco de todo o tamanho. Aliás, nem sequer se via qualquer placa indicativa de quem era o dono da obra e a que é que ela se destinava. Imediatamente me lembrei de uma história que me contaram e que foi publicada recentemente num jornal inglês. Dizia mais ou menos isto:



No exterior do England 's Bristol Zoo existe um parque de estacionamento para 150 carros e 8 autocarros. Durante 25 anos, a cobrança do estacionamento foi efectuada por um simpático cobrador.


Um dia, sem aviso prévio, e sem qualquer falta ao trabalho durante a vida, o cobrador não apareceu.

A administração do Jardim Zoológico escreveu para a Câmara Municipal a solicitar que enviassem um outro cobrador e a resposta veio célere: o estacionamento do Zoo não era, nem nunca tinha sido, da responsabilidade da Câmara que nunca tinha pago a qualquer funcionário para desempenhar aquela tarefa.

Ou seja, durante 25 anos um senhor, como se disse muito simpático, provavelmente munido de um boné de arrumador que lhe conferia uma autenticidade que de facto não tinha, cobrou tranquilamente taxas de estacionamento estimadas em cerca de 560 euros diários.

Só que o afável senhor terá resolvido que era a altura de se retirar e de gozar uma merecida reforma, algures num lugar paradisíaco, bem longe de preferência.

As autoridades ficaram com um problema sério para resolver. Não tanto o saber para onde homem se sumira mas antes como iriam arranjar rapidamente alguém para ocupar o lugar do antigo cobrador. E, já agora, uma pessoa que fosse igualmente simpática.

Tenho a certeza de que a partir desse momento começou a haver a preocupação de controlar o novo funcionário. É que depois de casa roubada …

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Estava a ler quando reparei num homem …


Estava a ler dentro do carro. Distraidamente, enquanto “saboreava” as últimas palavras que acabara de ler, olhei por cima das páginas do livro e reparei num homem que caminhava lentamente não muito longe dali. Teria mais de setenta anos mas ostentava, ainda, uma pose distinta. Alto e direito de postura, espraiava o olhar ao redor como que a chamar silenciosamente o bando de pombos que já o cercava.


Baixei o livro e interessei-me pela figura. Tinha bom aspecto. Vestia uma gabardina que o agasalhava da tarde fria e usava casaco, camisa e gravata. Via-se-lhe o aprumo e a dignidade.


A princípio não entendi porque é que uma das mãos tanto remexia o interior de um saco de plástico de supermercado. Percebi depois que esfarelava pão que ia espalhando com gestos largos na direcção dos pombos.


O jeito de andar dos pombos e o seu ar patusco, distraíram-me por momentos do homem. Quando voltei a olhar para ele, notei que dobrava cuidadosamente o saco como que a guardá-lo para outra utilização.


Enquanto se afastava do local do festim, tão lentamente como chegara, ia olhando para trás na direcção dos pombos, como que a certificar-se de que eles se comportavam direitinho e comiam a refeição que lhes fora dada. Ou, quem sabe, a “dizer-lhes” que voltaria no dia seguinte.


Fui acompanhando com a vista os passos do homem até que dobrou a esquina. Mesmo depois de desaparecer do meu horizonte visual, continuei a “vê-lo”. Quem seria? Que mistérios guardaria?


Prossegui com a minha leitura. Porém, e inexplicavelmente, a figura daquele desconhecido alto, direito de postura e de pose distinta, teimou em sobrepor-se ao amontoado de letras que se alinhavam à minha frente.


quarta-feira, janeiro 27, 2010

Responsabilidade Social


Já repararam no modo como muitas empresas “enchem a boca” ao atirar aos quatro ventos que têm políticas de responsabilidade social? E a verdade é que, muitas delas, têm mesmo (úteis mas ainda incipientes) embora sirvam, sobretudo, outros propósitos, nomeadamente, a visibilidade das próprias marcas. Mas agora não tenho tempo para aprofundar o assunto. Ficará para um outro dia.


O que me interessa hoje abordar é aquilo a que eu chamo a socialização dos centros comerciais. Como sabem, quase todos eles, sobretudo os maiores, têm pequenas ilhotas com bancos e sofás onde se pode descansar um pouco dos afazeres que nos levam lá. Nesses lugares costumam sentar-se pessoas com alguma idade, muitos deles reformados, gente que procura enganar a solidão vendo e sentindo outra gente que passa. Ali estão, a ler os jornais gratuitos que manhã bem cedo estão à disposição, a consultar as brochuras publicitárias dos supermercados e das lojas instaladas no centro e a fazer sonecas tranquilas ou a olhar sem pressa o que gira à sua volta.


E é a essa acção de pôr os tais bancos e sofás em grandes centros comerciais - que proporcionam a “companhia” a tanta gente que está só - que eu considero que bem pode englobar-se na denominada responsabilidade social dessas empresas. Certamente que os Belmiros, os Jerónimos e alguns mais não terão pensado nisso quando ergueram essas grandes catedrais do consumo mas, inconscientemente, fizeram-no. E, provavelmente - digo eu - não tardarão a fazer reflectir essa “responsabilidade” nos respectivos Balanços Sociais.


terça-feira, janeiro 26, 2010

Um erro que persiste

Sempre achei louvável que países e cidades homenageiem aqueles que lá nasceram ou viveram e que, de alguma forma, se destacaram nas suas actividades. É um reconhecimento importante, embora com o passar dos tempos as placas pouco ou nada digam aos mais jovens. Ainda assim, um prémio justo.


Esta semana ao visitar a Guarda, ao passar por uma rua do seu centro histórico, dei de caras com uma placa que indicava que ali tinha nascido um seu muito ilustre filho – Rui de Pina - cronista e diplomata, nascido em 1440 e falecido em 1522.


Só que – e repararem bem na imagem (que não é famosa) – a data da morte inscrita na placa é 1940.


Enalteço o reconhecimento que o Município quis fazer a tão ilustre personagem mas, convenhamos, por muito bom (e saudável) que fosse, Rui de Pina certamente não conseguiu viver 500 anos.


E a placa lá continua, sabe-se lá desde quando, sem que a autarquia tenha tido o cuidado de rectificar o erro. Ainda por cima no centro do Centro Histórico da Cidade da Guarda.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Chamem-lhe milagre …


Isso, se não tiverem outro nome, chamem “milagre” ao facto de, ao fim de onze dias após o terrível sismo que devastou o Haiti, ter sido retirado dos escombros um homem com vida.


Já depois das operações de busca terem sido oficialmente suspensas, a teimosia e a obstinação da família (que disse ter ouvido a sua voz) e da equipa de socorrista que o salvou foram determinantes para o resgate de Wismond Exantus.


Este jovem de 25 anos resistiu onze dias, façanha nada comum neste tipo de tragédias, e sobreviveu, segundo ele, porque bebeu Coca-Cola e cerveja e comeu bolachas a que conseguiu chegar nas ruínas de uma mercearia onde ficou soterrado, num pequeno buraco onde mal se podia mover.


“Não gritei, simplesmente rezei”, disse.


Perante tamanha perseverança e fé não posso deixar de acreditar que, neste caso, realmente aconteceu um milagre.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Distracções


Há dias num restaurante reparei que um senhor sentado perto de mim limpava cuidadosamente o prato, os talheres e o copo com um guardanapo, provavelmente para assegurar que todos os utensílios iriam ficar irrepreensivelmente imaculados antes de começar a almoçar. Só que, pouco depois, vi que limpava a boca ao mesmíssimo guardanapo que tinha utilizado para a loiça. Distracção do senhor, pensei.


Numerosas pessoas ao espirrar colocam a mão em frente do nariz e da boca para proteger quem lhes está próximo. Porém, imediatamente a seguir, essas pessoas tão cuidadosas são capazes de cumprimentar alguém com a mesmíssima mão conspurcada que tinha acabado de receber a saraivada de bactérias provenientes do espirro. Por distracção, digo eu.


Mas para quem pense que as distracções são apanágio das pessoas simples e sem história, recordo uma outra história que se conta de Albert Einstein, o célebre físico alemão (Prémio Nobel da Física em 1921) que ficou conhecido por ter inventado e desenvolvido a teoria da relatividade.


Pois Einstein era, como quase todos os génios, muito distraído. Conta-se que num certo jantar, tinha como sobremesa umas belas cerejas e, para lavá-las, pediu uma taça com água. Einstein lavou demoradamente as cerejas, comeu-as e, uns minutos depois, bebeu toda a água da taça.

Para que vejam. Até os génios não são imunes a estas abstracções.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Gourmet para quê?


Devo confessar que o título da crónica de hoje me foi sugerido pelo meu filho, muito embora eu tivesse já pensado escrever alguma coisa sobre o assunto.


Ao longo dos anos, e de forma intuitiva, fui-me apercebendo que muitos dos produtos que me queriam impingir (leia-se vender) eram completamente falhos de substância mas, no entanto, vinham muito bem apresentados e, muitas vezes, rotulados com um nome estrangeiro. Um pouco o que tem acontecido ultimamente com os chamados "produtos gourmet". Mesmo sabendo o que essa palavra significa não dispensei a consulta à wikipédia que me disse exactamente o que eu estava à espera. Que “Gourmet é o nome que se dá à cozinha ou produto alimentar (incluindo bebidas) que estejam associadas à alta cozinha”. Melhor dizendo, e para sermos rigorosos, os produtos ligados à “Haute Cuisine”. Assim é que é.


E isto ajusta-se a quase tudo. O conteúdo pode ser o mesmíssimo mas o que interessa é a forma, a roupagem, a apresentação da coisa.


Uma simples marmelada, se apresentada numa embalagem de plástico é apenas mais uma marmelada. No entanto, se dentro de um frasco com um design sugestivo e vestido com um lacinho a condizer, passa à categoria de marmelada gourmet. A mesma marmelada mas apresentada de um outro jeito e, claro, com um outro preço.


Até já há vinhos gourmet. E águas, calculem, as águas que jorram das mesmas fontes mas que são engarrafadas em recipientes vulgares ou em garrafas sofisticadas. Lá dentro, porém, a água é rigorosamente igual.


Chegou-se ao ponto – a loucura tomou conta da rapaziada – de já haver quem compre casas só porque têm varandas gourmet. Se não perceberam, eu repito, varandas gourmet que são assim como … não sei bem explicar.


Balelas, puro snobismo. Experimentem os “experts” da nossa praça fazer uma prova cega dos produtos, um normal e outro gourmet, e vejam se conseguem distingui-los. Claro que não. Não, não conseguem diferenciá-los. Como não conseguem dizer, depois de os saborear, qual a “flute” que contem Moet & Chandon e a que tem o nosso Murganheira. Como não conseguem fugir à fúria incontrolada da moda que os empurra para os tais artigos gourmet.


Calculem que um outro dia numa loja gourmet de um centro comercial, vi uma desprotegida banana, uma reles e pequeníssima banana da Madeira com uma etiqueta ao lado a dizer “Banana Gourmet”.


Oh meus amigos, poupem-me!

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Sócrates, “o atum”

Já chamaram todas as coisas ao homem, disseram dele cobras e lagartos, implicaram-no em processos, uns atrás dos outros. O que é que querem mais, o que mais vão inventar para o crucificar?


TUDO. As mentes perversas não estão completamente satisfeitas e foram, desta vez, um pouco mais além. Fizeram de Sócrates (o primeiro-ministro, o José) “atum em posta”. Triste fado! Ter que acabar enlatado em óleo vegetal, ainda que em caixa de abertura fácil. Quem poderia imaginar tal crueldade?


Tanta gente, acreditem. Agora, para além de marcas tradicionais como o Tenório e o Ramirez (este último tão apreciado que chegaram a ser encontradas latas de conserva na despensa de Hitler) também podemos encontrar no comércio o “atum em posta Sócrates”.


“Melhor a morte que tal sorte”, digo eu. Mal por mal antes associá-lo ao homónimo ateniense que foi um dos fundadores da actual Filosofia Ocidental. Teria, pelo menos, maior glória.






terça-feira, janeiro 19, 2010

Urgentemente


Eugénio de Andrade (1923 – 2005), pseudónimo de José Fontinhas, é um dos grandes poetas portugueses.



Um belo poema de Eugénio de Andrade, “Urgentemente”



É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

A Portugal ou ao Estado?

Não tive oportunidade de ler o artigo de Medeiros Ferreira publicado no Correio da Manhã da última quinta-feira mas, através de um blogue que costumo acompanhar, deduzi que a ideia que ele propunha para o combate ao endividamento do nosso país é, espero não estar a dizer algum disparate, levar os portugueses a investir as suas poupanças em certificados de aforro ou num qualquer outro produto de dívida pública.


E porquê? Basicamente porque as notações das agências de rating não têm sido favoráveis e o crédito que Portugal consegue no exterior está cada vez mais caro e difícil de obter. Então, porque é que Portugal não começa a pedir empréstimos aos próprios portugueses através da emissão de dívida pública? Nomeadamente de certificados de aforro ou de obrigações do tesouro, com taxas atractivas que possam superar as dos depósitos a prazo bancários. Seria uma forma viável de fugirmos um pouco aos financiamentos externos e a um preço porventura bem mais em conta.


Mas, atenção, a ideia de Medeiros Ferreira era, segundo penso, que os portugueses emprestassem a Portugal e não ao Estado que, reconheçamos, não tem dado grandes provas no que concerne à gestão das massas públicas. A tal ponto, que já há quem considere que o Estado “não é uma pessoa de bem”.


Acho a ideia óptima, sou até capaz de fazer um esforço para tentar arranjar uns trocos para ajudar o meu país mas, antes, gostaria que alguém me esclarecesse duas questões:


- Afinal qual é a diferença entre emprestar a Portugal ou ao Estado? Portugal não é um Estado, uma Nação que tem um Governo cujas instituições administram o bem público? Se emprestarmos dinheiro a Portugal quem é que o vai gerir, qual o Ministério, Instituto ou Fundação que o vai administrar? O tal empréstimo a Portugal não se transformaria, na prática, num empréstimo ao Estado?


- E como iria reagir a banca (a quem os Governos tanto temem e veneram) - face à debandada dos depósitos a prazo que tem em carteira - à nova opção de poupança dos portugueses? Que contrapartidas exigiria aos seus clientes e ao Estado (ele, uma vez mais)?






sexta-feira, janeiro 15, 2010

Desassossegos


Hoje vou ser politicamente incorrecto e, de certeza, ignorante. E tudo porque não me entra na cabeça que uma pessoa que é ameaçada e roubada e que, em legítima defesa, responde para proteger a sua integridade e os seus bens, seja acusada de crime e se arrisque a ir parar à choldra.



Foi o que aconteceu, há dias, a um certo ourives que viu invadida a sua loja por um grupo de meliantes e que teve a “infeliz” ideia de resistir às ameaças e ao roubo do ouro que tinha para venda. Reagiu com a sua caçadeira aos tiros disparados pelos assaltantes e atingiu um dos bandidos que veio a falecer.



O que sobressai desta história é que a quadrilha em questão fez um assalto, ameaçou, roubou a ourivesaria e dois carros por carjacking e o Ministério Público acusou os quatro patifes por três crimes de roubo agravado e posse de arma proibida, ficando três em prisão preventiva e um em prisão domiciliária.


Já o pobre ourives foi acusado de homicídio privilegiado, um crime previsto na lei para os casos em que a actuação surge num estado de “emoção violenta e desespero” e que é punível com prisão entre um a cinco anos.


E a minha estupefacção é tal que me interrogo como deverei agir se um dia vier a ser assaltado ou puserem em risco a minha vida, dos meus familiares ou amigos? Deverei ficar quietinho à espera que os malandros sejam apanhados e condenados a uma pesada pena … suspensa, ou posso pensar - se tiver coragem e meios suficientes para tanto - em dar uma valente sova a esses indivíduos?


Como disse, não me conformo com este tipo de situações. Pessoas que não pediram para ser assaltadas, molestadas, violentadas a serem condenadas a penas que, no limite, podem ser mais pesadas ainda das que as dos próprios assaltantes e agressores.


E vocês, meus amigos, não ficam inquietos?


quinta-feira, janeiro 14, 2010

Desencontros de palavras


Chiste é uma daquelas palavras de que eu gosto e que, certamente, será incluída no rol de uma secção de palavras especiais, caso um dia me proponha a fazê-la.


E lembrei da palavra porque me recordo quando, noutros tempos, se oferecia, por exemplo, um sabonete, ainda que muito perfumado e bem engalanado de laçarotes, a pessoa que recebia o presente dizia, como chiste, como pilhéria (outra palavra que poderá fazer parte da tal lista): “Sabonete, hum … estás a insinuar que não costumo lavar-me?”


Era uma graça que fez escola e que se tornou habitual em certa época mas que não significava nada mais do que isso – uma graça. Porém, os “desencontros” de palavras sempre foram muito comuns e não perderam a actualidade. Se bem me lembro, já aqui escrevi sobre os tão banais desencontros de palavras, bem demonstradas pelo cumprimento “Viva, como está?” em que a resposta é, quase sempre, “Então, viva como está?”.


Hoje, ouvi outra situação que me pareceu bem demonstrativa desse desencontro ou da simples distracção das pessoas. Ia a passar quando ouvi duas senhoras, já em fim de conversa, a despedirem-se: dizia uma “Dona Ermelinda tenha um muito bom ano” ao que a outra respondeu “Muito obrigada, um bom fim-de-semana também para a Senhora”.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Pobreza e Desperdício

Há anos que faço voluntariado e conheço razoavelmente o nível de pobreza (alimentar e não só) que atinge cada vez mais pessoas no nosso país. E sei também que ao mesmo tempo que existem pessoas comprovadamente carenciadas, continua a haver muito desperdício.


Vejo isso no dia-a-dia mas, mesmo assim, fico chocado quando são publicados na imprensa os números que reflectem essa mesma miséria e aquilo que não se faz, e devia fazer, para minorar a injustiça social.


Em Portugal, em 2009, o Banco Alimentar Contra a Fome apoiou instituições que distribuíram ajuda alimentar a 267 mil pessoas, mais 18 mil do que no ano anterior.


E, enquanto essas pessoas – e o número está a aumentar assustadoramente - necessitam tanto dessa ajuda, continua a verificar-se o desperdício de alimentos em boas condições de consumo que vão parar ao lixo onde muitos vão depois vasculhar, tentando assegurar a sua sobrevivência.


A falta de legislação específica para a doação de bens por parte das empresas e a ausência de consciência social de uma boa parte do tecido empresarial, preocupado como está com questões que têm a ver com a sua própria continuidade, são os principais factores apontados para a existência desta situação. Os excedentes de produção, aqueles bens que não chegam a ser comercializados, são para os agentes económicos apenas lixo enquanto que, se devidamente encaminhados, seriam fundamentais para outros.


Segundo as Nações Unidas mais de 50% dos produtos alimentares produzidos no mundo não são vendidos e acabam por ser deitados fora. O suficiente para alimentar cerca de 50 milhões de pessoas.


É urgente encontrar soluções. Estados, organizações não-governamentais, a sociedade, cada um de nós, todos temos a obrigação de tentar dar a volta a esta calamidade. Não se pode continuar a assistir ao desperdício diário de alimentos quando tantos continuam a preencher e a engrossar o denominado “mapa da fome”.



terça-feira, janeiro 12, 2010

Melhor do que ser Ministro …



Diz-se por aí – e os exemplos são tantos que é capaz de ser verdade – que melhor do que ser Ministro é ser Ex-Ministro.


Na política nacional, o caso mais recente tem como protagonista a Ex-Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que foi nomeada por José Sócrates para presidir à Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, uma instituição de prestígio que visa fomentar as relações entre Portugal e os Estados-Unidos, promovendo o desenvolvimento económico, social e cultural português.


Não quero comentar a nomeação. Pretendo apenas registar o facto e dizer que embora não veja em Maria de Lurdes Rodrigues um perfil especialmente talhado para o cargo, ela saberá naturalmente estar à frente da instituição e com muito menos problemas e preocupações como as que a atormentavam quando tutelava o Ministério da Educação.


Lá por fora o panorama não é diferente. Soube-se agora que o Ex-Primeiro-Ministro inglês Tony Blair vai ser o próximo assessor do grupo de luxo Louis Vuitton, controlado pelo empresário francês Bernard Arnault. Não se preocupem, portanto, com a eventual situação financeira difícil de Blair. Não é caso para tanto. Tony Blair é já assessor do Banco JPMorgan Chase, do qual recebe 2,2 milhões de euros anuais e também assessor do Zurich Financial onde factura 555 mil euros por ano, fora os elevados valores que recebe pelas palestras que dá. E ele deve ter muitas coisas para dizer.


Portanto, meus Caros, melhor do que ser Ministro é ser Ex-Ministro ou Ex-Primeiro-Ministro. Não têm dúvidas, pois não?


Se, entretanto, souberem de alguma assessoria para um ex-trabalhador, agradeço que me avisem.


segunda-feira, janeiro 11, 2010

Afinal de contas …


Apesar das imensas preocupações com o deficit e com o endividamento externo parece que, afinal, o nosso país não está tão mal como isso. Segundo a revista “Internacional Living” e de acordo com padrões como o custo de vida, cultura e lazer, saúde, liberdade e segurança, Portugal é o 21º melhor país para se viver, numa lista de 194, melhor classificado até do que – pasmem-se - o Reino Unido, a Grécia, o Mónaco, a Suécia, a Polónia e o Japão. Os três países que estão no topo da classificação são a França, a Austrália e a Suíça.


A revista assegura ainda que Portugal dispõe de um dos melhores climas e é considerado um país livre, muito seguro e dono de um excelente sistema de saúde.


A verdade, porém, é que esta honrosa classificação, em que o nosso país obteve 73 pontos em 100 possíveis, apenas menos 9 pontos do que a vencedora França, não nos garante um melhor nível de vida nem nos deixa mais confiantes quanto a uma melhor justiça e educação ou um menor desequilibro entre ricos e pobres. No entanto, transmite-nos uma visão que vem de fora para dentro e que nos indica que nem tudo é mau por cá, como tantas vezes julgamos (“ah! isto só em Portugal” ou “se fosse noutro país …”) e que temos muitas coisas boas que nem sempre valorizamos.


E, reparem, que nos critérios tidos em conta pela “Internacional Living” não foram incluídas sequer coisas tão importantes como a gastronomia (vinhos e comidas do melhor do mundo) e a simpatia, hospitalidade e generosidade das nossas gentes.


Afinal de contas …

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Optimista?


Algumas pessoas têm-me perguntado quais são as minhas expectativas para o ano que agora se iniciou. Se estou, ou não, optimista quanto ao nosso futuro colectivo, já que algumas das crónicas aqui publicadas parecem dar a ideia de algum pessimismo. E a minha resposta é clara – apenas tento ser realista. Limito-me a analisar o que vejo, e aquilo que julgo ver, e o que concluo é que não tenho grandes razões para estar optimista.


Apesar disso, considero que sou, como diz a canção, um “optimista céptico”.


O mais certo, porém, é admitir que me revejo mais naquilo que Albert Schweitzer, teólogo, músico, filósofo e médico alsaciano (1875 – 1965) dizia ser o seu sentir:


A quem me pergunta se sou pessimista ou optimista,

respondo que o meu conhecimento é de pessimista,

mas a minha vontade e a minha esperança são de optimista”

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Ou tudo ou nada …


Ao ler as declarações recentemente proferidas por Cristiano Ronaldo, não pude deixar de pensar como, também o futebol, a vida é injusta. Glorificam-se os avançados que marcam golos, adoram-nos como Deuses porque são eles que contribuem definitivamente para o triunfo das suas equipas e raramente se enaltecem os defesas que dificultam o avanço dos adversários e, menos ainda, os guarda-redes que tentam impedir que os avançados contrários marquem golos. Sim, porque os avançados do outro lado também atiram para o golo.


E naquilo que deveria funcionar como uma equipa, afinal um todo, com glórias e derrotas conjuntas, o que normalmente acontece é que se louvam os avançados e culpam-se os que não marcam golos. Enfim, injustiças da vida.


Quanto às tais declarações do nosso geniozinho do pontapé na bola, resta destacar que a sua ambição passa apenas por “voltar a ganhar a Bola de Ouro” e a ser “o melhor futebolista da história”.


Assim é que é falar. A ser-se ambicioso não devemos ficar pelas meias tintas, deve-se querer o máximo. Como dizia a minha mãe “ou tudo ou nada, mulher do diabo”.



quarta-feira, janeiro 06, 2010

O Novo Acordo Ortográfico - Aviso

2010 foi o ano definido pelo Governo para o início do novo acordo ortográfico. Para se começar a escrever conforme o acordado, digo eu, muito embora me pareça que a maioria das populações dos vários países que assinaram o acordo, não faça a mínima ideia disso. Eu sei da intenção, mas desde já aviso que não tenciono cumpri-la, pelo menos nos tempos mais próximos. A não ser que qualquer inspecção (aqui já deveria ter escrito “inspeção”) do Ministério da Cultura a tanto me obrigue.


Mas estas mudanças escritas a que eu - felizmente em muito boa e numerosa companhia - tenho manifestado discordância, deviam ter sido iniciadas logo na primeira edição do Diário da República deste ano. Pois não foram. O texto do DR veio, todo ele, em português vernáculo, daquele que se usava no longínquo ano de 2009 e, portanto, cheio de erros ortográficos, face à nova realidade.


Penso que a confusão vai generalizar-se e os erros vão ser mais que muitos. O que, de resto, pode trazer até algum benefício. É que vai ser difícil saber quem é que dá erros de ortografia à luz do novo acordo ou, simplesmente, quem os dá porque nunca soube escrever correctamente.


Ao fim e ao cabo, há males que vêm por bem.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Pobreza e exclusão social


2010 é o Ano Europeu da Luta Contra a Pobreza e Exclusão Social. Este é o ano em que, supostamente, vai haver um maior empenhamento dos governos para actuar contra este flagelo que cresce vertiginosamente. Em cada ano, um milhão de novos pobres junta-se aos já existentes. É urgente que sejam tomadas medidas realmente eficazes para dar condições de vida dignas a tantos seres humanos, a começar pela criação de mais e melhor emprego.


No nosso país existem cerca de dois milhões de pobres. Um em cada cinco portugueses é pobre ou vive no limiar da pobreza.


Portugal vai gastar 700 mil euros para colocar o tema na agenda. Temo, porém, que colocar na agenda não baste. É preciso mais, muito mais.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Esperança para 2010


Ora bem, aqui estamos de novo, no início de mais um ano que, temos esperança, nos vai trazer tudo aquilo que mais ansiamos.


E bem necessitamos que nos aconteçam coisas boas. Não basta ouvir o Primeiro-Ministro dizer insistentemente que tem esperança em nós – nos portugueses e no país – que confia nas nossas capacidades e na vontade que nos assiste para vencer os desafios, é preciso algo mais. É urgente que descubramos petróleo algures no país e é imperioso que as políticas consigam vencer a aparente (?) letargia em que nos encontramos e que parece estar a atirar-nos para o abismo.


Enquanto isso não acontece, resta-nos a esperança, a tal que é a última a morrer, que a crise vá ser definitivamente afastada e que a economia comece a crescer a sério. Há já pessoas que acreditam nisso. Um bom exemplo desses crentes é o do Presidente da Câmara de Paredes que se prepara para comemorar condignamente o primeiro centenário da implantação da República e, para isso, vai erigir um mastro gigantesco onde ondulará uma enorme bandeira nacional que seja visível a 30 quilómetros de distância.


O porém, é que essa bandeirinha (que é bastante grande) vai custar aos munícipes qualquer coisa como um milhão de euros.


Dir-se-á que atendendo à data que se pretende comemorar e da visibilidade que dará ao concelho, o investimento até é justificável. Não sei. Apesar de só se ir gastar um reles milhão de euros a dúvida que baila na cabeça de muita gente é a de saber para que é serve realmente uma obra de pura fachada.


A ser verdade que as autarquias se debatem com imensa falta de recursos e a ir por diante o projecto de senhor Presidente, não nos admira mesmo nada que muito em breve o mesmo autarca venha a solicitar a possibilidade de se endividar junto da Banca para fazer face a umas outras despesas com obras de saneamento ou arruamentos.


Enfim, o dinheiro não é tudo e a comemoração de um novo centenário só se realiza daqui a muito tempo.