“O blogue segue dentro de momentos …”
Como é habitual, fazemos a nossa pausa para férias.
Em 31 de Agosto o “Por Linhas Tortas” faz anos. Estaremos aqui para festejar a data.
Espero que fiquem bem.
Té já!
Estamos no Verão. Para muitas pessoas falar em Verão é exactamente o mesmo que falar em férias e em viagens. Isto é, se calhar para muitas pessoas mas, infelizmente, não para a maioria dos portugueses.
Se fazem parte do imenso número de portugueses que reservaram uma deliciosa estadia na vossa varanda de casa ou no fresco da vossa garagem, não se sintam infelizes por isso. Pensem no lado bom da coisa. Vão gastar muito menos dinheiro e nada de anormal lhes vai acontecer.
Se, por outro lado, pertencem à classe dos “sortudos” que ainda conseguiram dispor de uns trocos para viajar até à estranja, então, que gozem bastante mas, por favor, tenham cuidado com algumas leis (muitas delas absurdas e excêntricas) dos países para onde vão viajar.
Por exemplo, se forem até Singapura saibam que atirar a pastilha elástica para o chão vos pode custar uma multa de 465 euros. Aqui ao menos é de borla.
Em Vigevano, perto de Milão, é proibido sentar-se à sombra de um monumento local. A coima é de 160 euros por pessoa. No Algarve só não podem ficar encostados às falésias porque elas estão em risco de ruir.
É proibido beijar em público no Dubai, coisa que o nosso Governo ainda não se lembrou de taxar.
Atenção, se tiver a ideia de ir caçar ratos no Estado da Califórnia saiba que é necessário ter licença de caçador para usar ratoeiras. Mas, aqui para nós, quem é que lhe passa pela cabeça ir apanhar ratos para tão longe?
Pense bem, talvez seja melhor não arriscar. Passar férias por cá é capaz de ser uma boa opção. Em Portugal, apesar de tudo, já sabemos com o que podemos contar. Já temos uma ideia de como isto funciona … menos no que diz respeito ao aumento dos impostos.
Sob um título igualzinho ao desta crónica, li num blogue concorrente que muito prezo, a “revolta” da autora sobre o facto de nos nossos dias a correspondência oficial (e também a outra) continuarem a serem endereçadas ao “Exmo(a) Senhor(a)” e não à “Exma(o) Senhora(o).
Tendo por certo que as mulheres são em maior número do que os homens e que a sociedade mudou, que razão justificará ainda a manutenção de hábitos que vêm dos tempos em que as mulheres tinham um papel muito pouco significativo nessa mesma sociedade? Para além, obviamente, de serem as esposas dedicadas (e sacrificadas), as mães exemplares e os pilares fundamentais das estruturas familiares. Quanto ao resto, pouco contavam. Esta era a realidade nua e crua de épocas não muito distantes.
Hoje, porém, com as tecnologias disponíveis, é fácil arranjar uma forma que permita endereçar correctamente a correspondência. Será a adequação natural à vida contemporânea, em que coexistem, de facto, os homens e as mulheres (ou as mulheres e os homens, se preferirem), numa perspectiva social, administrativa, económica e financeira, sem diferenciação.
Como dizia a autora do texto que citei “Não será altura de mudar de cabeçalhos?”.
A frase que dá título à crónica de hoje ficou famosa quando foi proferida, há uns anos, por um distinto profissional do ponta pé na bola. Não me lembro qual era o jogo sobre o qual os jornalistas pretendiam saber qual era o vaticínio do jogador mas, presumo, que fosse daqueles que o mais acertado fosse marcar uma tripla. Daí ele dizer que “Prognósticos só no fim do jogo”.
Mas ainda que ele tivesse adiantado um resultado, e tivesse errado, não viria grande mal ao mundo. Outros, porventura mais qualificados, também erraram nas suas previsões. Vejam os casos de:
- Thomas Watson, presidente da IBM, em 1943
“Acredito que haverá um mercado mundial para talvez uns cinco computadores”;
- Darryl Zanuck, produtor de cinema da 20th Century Fox, em 1946
“A televisão não vai conseguir manter durante seis meses nenhum dos mercados onde penetrar. As pessoas vão fartar-se de olhar para uma caixa de madeira todas as noites”; e
- Ken Olson, presidente da empresa de computadores Digital Equipment Corporation, em 1977
“Não há razão para alguém querer ter um computador em casa”
Todos tiveram falta de visão. Todos erraram e, contudo, o mundo continuou a existir.
Costumo dizer de mim mesmo que tenho uma “paciência de Job”. Não é pretensiosismo, acreditem, mas acho-me muito tolerante e com grande paciência para aturar certas coisas, provavelmente na mesma linha da heróica paciência de Job, um homem justo que teria vivido no tempo dos patriarcas.
Claro que a minha paciência não é permanente e não contemporizo com todas as situações. Reconheço, contudo, que, relativamente a amigos meus, é incomparavelmente maior do que a deles. E aqui poderia pedir o testemunho de gente que eu cá sei …
Mas esta conversa não se destina a falar de mim. O que eu quero dizer é que numa destas tardes em que eu desafiava o tempo, numa imensa zona de refeições de uma grande superfície, à espera de … alguém – imbuído da tal paciência de Job de que falava – fui reparando nas pessoas que iam (ao longo das horas) povoando as mesas próximas.
E vi como os jovens empregados e passantes iam utilizando a sua hora de almoço. Como tinha tempo, observava as suas posturas e a sua forma de estar à mesa. Nem me escaparam os tiques mais evidentes, como um rapaz bem engravatado (mas com necessidade absoluta de arranjar urgentemente uma boa assessora de imagem) que de 30 em 30 segundos olhava para o relógio mas que, desconfio, não estava objectivamente a ver a quantas andava.
Vários foram aqueles que entre cada garfada, pegavam no telemóvel e tentavam uma ligação ou mandavam uma mensagem. Uma refeição inquieta, pensei, onde os alimentos se ingeriam sem mastigação porque o tempo não é elástico e havia pressa em comunicar com os amigos com mais uns SMS’s.
Assisti a uma mãe jovem que estava acompanhada de duas filhas, uma teria uns seis anos anafados e a outra não teria mais de três. Mãe e filhas atacavam com entusiasmo uma piza enorme, movidas pela fome, seguramente, mas sobretudo pela gulodice que estava bem patente no olhar das miúdas. Mas o que mais me impressionou foi o ar da mãe. Por um lado, satisfeita por proporcionar às filhas o desejado (e quiçá prometido) pitéu mas, por outro, preocupada com as montanhas de gordura da piza, que ela sabia não ser a melhor refeição para as crianças. Terrível dilema aquele. Tive vontade de lhe dizer “Oh mulher, dias não são dias, isso é apenas um almoço, não se sinta tão culpada …”.
Podia contar-vos outros casos mas a crónica já vai longa. A terminar, deixo-vos uma sugestão. Em lugares públicos, olhem em redor e vejam se lobrigam uns seres com ar de boas pessoas mas com aspecto meio esquisito e totalmente atento. Se os virem, cuidado, podem ser os tais que têm “paciência de Job”.

Lá porque a “Netjets Europe” lidera o sector da aviação executiva na Europa e tem como clientes 1600 daqueles que são considerados “a nata” dos empresários europeus, não é por isso que a companhia tem uma política empresarial mais frouxa, digamos assim. Não, nada disso, para eles os executivos da empresa quando se deslocam em serviço usam quase exclusivamente, não os seus jactinhos de luxo, mas as companhias aéreas de baixo custo.
Provavelmente, penso eu, porque acham que o dinheiro custa a ganhar e deve haver alguma contenção nas despesas. É estranho, não é?
Embora não esteja a insinuar nada em concreto, estou desconfiado que, cá em Portugal, haverá por aí muitas empresas públicas/fundações onde medidas deste tipo bem se poderiam aplicar …
Somos bombardeados a toda a hora com os números da crise. Sentimos nas carteiras o peso cada vez maior da carga fiscal. Damos conta, no dia-a-dia, que a nossa economia caseira está cada vez mais debilitada Como compreender, então, que a venda de automóveis de luxo em Portugal esteja a subir em flecha?
A Porsche cresceu 52,4%. Só nos primeiros seis meses deste ano vendeu 192 automóveis, cujo custo por unidade oscila entre os 66 e os 273 mil euros. Também a Jaguar vendeu no primeiro semestre 156 viaturas.
Por isso, o cidadão comum tem muita dificuldade em aceitar que as tão propaladas assimetrias na distribuição dos rendimentos continuem a verificar-se de forma tão ostensiva e repugnante. E não é por inveja, entenda-se. É mesmo por uma questão de (in)justiça social.
Há uma crise profunda que ameaça liquidar pessoas, empresas e até mesmo países. No entanto, em Portugal, está em franca ascensão o mercado dos carros de luxo e não se sente qualquer retracção na venda de apartamentos que custam muitos milhões de euros.
Dá para entender? Não, não dá.
Quando nos últimos dias a comunicação social trouxe a público - de resto com enorme sensacionalismo - que o Estado iria cortar os apoios para almoços aos ATL’s, toda a gente se agitou de indignação. Então, aqueles malandros da Segurança Social vão tirar o pão às pobres crianças, que é como quem diz vão tirar-lhes justamente aquilo que, para muitas delas, é a única refeição quente do dia?
Agastamento sobejamente justificado pelo facto de sabermos bem de mais que os diversos serviços do Estado nem sempre fazem as coisas da melhor forma. Umas vezes por pura incompetência, outras porque sim.
No entanto, desta vez, o que aconteceu não se deve, como se julgava, a qualquer (má) decisão do Governo, justificada por medidas de contenção orçamental da Segurança Social.
O que parece ter acontecido – e eu digo parece porque nestas coisas nunca se sabe - é que os serviços constataram que muitas dessas crianças que andam na escola e vão depois para os ATL’s “almoçavam duas vezes”. Melhor dizendo, era-lhes atribuído dois subsídios para almoço, um pago às escolas e outro pago aos ATL’s das Instituições Particulares de Solidariedade Social. Ou seja, por cada criança havia dois subsídios.
Verificada a duplicação, o Estado cortou – e, desta vez, bem – o apoio que estava a ser concedido indevidamente a uma das entidades.
Só que a precipitação de alguns quase gerou um levantamento popular. Por boas razões, é certo, já que estavam em causa benefícios a cerca de 90 mil crianças que se encontram em situação de carência alimentar.
Mas, precipitações e exageros à parte, a verdade é que houve um erro grave. Pergunta-se pois, há quanto tempo se verifica esse erro e quanto é que isso nos custou? E pergunta-se, também, se não haverá um órgão que controle se as verbas entregues às instituições são mesmo para custear almoços efectivamente servidos? É que o mau uso dos dinheiros públicos é crime.
O que aconteceu no BPN e no BPP e os rumores sobre o que se passa no BCP, embora os casos sejam diferentes uns dos outros, leva a que fiquemos preocupados com a segurança do nosso dinheiro depositado nos bancos. E a dúvida – legítima – sobre se corremos o perigo de podermos ficar sem o dinheiro angustia-nos.
Tanto mais que se soube que a agência de notação financeira Moody’s cortou o rating da dívida portuguesa em dois níveis (de Aa2 para A1) e o de oito bancos portugueses e que se tem ouvido falar nos últimos dias num tal “stress test” que foi feito aos 26 maiores bancos da Europa (os nossos maiores bancos incluídos).
Repito, as nossas dúvidas são legítimas. Temos receio que, de um dia para o outro, as coisas descambem e lá se percam as economias que tanto custaram a juntar.
Porém, é preciso ter calma. Em minha opinião não haverá motivos para tanta preocupação, embora saibamos que na vida tudo pode acontecer. Para já é preciso dizer que este “stress test” aos bancos constitui uma rotina e que, embora os resultados deste que foi feito agora não tivessem sido oficialmente divulgados, sabe-se já que a banca portuguesa é considerada robusta. E é bom, também, que tenhamos a consciência de que uma corrida aos bancos para levantar o que lá temos – vontade que já tenho visto e ouvido por aí – é a pior coisa que poderia acontecer. Aí sim, a situação poder-se-ia degradar.
Com os problemas que o país atravessa, com as angústias e ansiedades que daí decorrem, resta-nos ter esperança que esta crise – a exemplo de outras que já atravessámos – vai também ser superada. E nada melhor para levantar a nossa moral do que o humor. Como aquele que o cartoon que me foi enviado por e-mail revela: “Como os Bancos foram inventados”.

À minha crónica de ontem reagiram alguns Amigos que, embora não tivessem utilizado o blogue para o efeito, me fizeram chegar e-mails onde expressavam a sua indignação sobre os prémios que foram atribuídos à selecção portuguesa de futebol. Houve até quem dissesse (glosando a forma como eu tinha terminado o texto desse post) que o “rosto” do Mundial não tinha sido o tal polvo mas sim os rostos incrédulos dos contribuintes portugueses perante o despautério de tamanhos gastos.
E na realidade, ao sabermos (pelo menos os números que quiseram que nós soubéssemos) quanto custou a nossa participação na África do Sul, só podemos ficar perplexos perante o prejuízo suportado por um país que está a ser fustigado por fortes dificuldades económicas e sociais.
Os responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol e próprio Governo bem podem aduzir uma dúzia de argumentos, nomeadamente que a representatividade do país, qualquer que ela seja, é considerada sempre um custo muito embora, às vezes, se torne num investimento.
Podemos até aceitar essa tese mas o que já é mais difícil de “engolir” é que se tenha gasto tanto dinheiro numa equipa que se conseguiu classificar com extrema dificuldade para a fase final do Mundial e, aí chegada, só tenha alcançado os oitavos-de-final com uma performance demasiado modesta que se traduziu numa vitória, dois empates e uma derrota. Foi muita minhoca para tão escassa pescaria.
É que, vendo bem, a Federação Portuguesa de Futebol gastou nestes últimos dois meses cerca de 4 milhões de euros só para a preparação da equipa para o campeonato e vai pagar agora mais de 3 milhões de euros em prémios à equipa técnica e aos jogadores. Até àqueles – como Nani – que abandonaram a África do Sul antes mesmo do Mundial ter começado. Só ao treinador Carlos Queiroz estão destinados 720 mil euros. Prémios cuja lógica ninguém entende.
Convenhamos que é muito dinheiro gasto para tão pouco proveito. O prejuízo da Federação cifra-se em um milhão de euros. E se ao saldo negativo das contas juntarmos o saldo também negativo da nossa prestação desportiva, o mínimo que podemos dizer é que se exigia maior contenção no primeiro caso e mais rigor e ambição no segundo.
Mesmo para quem, como eu, gosta de futebol, assistir a tantos jogos em tão curto espaço de tempo, é dose. Não fossem os “fait-divers” que sempre acontecem à margem das competições, eu teria sucumbido aos jogos propriamente ditos, aos comentários dos jornalistas (aos que estavam lá e aos que cá ficaram), aos telejornais que quase só falavam do Mundial, aos programas especiais sobre o mesmo e às transmissões directas, algumas bem emocionantes como ver o autocarro da nossa selecção chegar à porta de um hotel, como dizia o Ricardo Araújo Pereira. Querem coisa mais emotiva?
Mas, agora que acabou o Mundial de Futebol – e continuando a não falar sobre futebol - gostaria de deixar duas notas finais enquanto apreciador da modalidade:
A primeira é que, mesmo com todos os “ses” e “poréms” que mantemos e cultivamos em relação aos nossos vizinhos espanhóis (é uma coisa que nos vai na alma, queiramos ou não), penso que a Espanha ganhou bem. Não falo do tipo de jogo que faz (deixo a outros essa função), refiro-me tão-somente à determinação que sempre vi nos seus jogadores, à raça com que encararam os jogos e ao modo como os verdadeiros vencedores olham para os seus objectivos. E neste capítulo, mesmo descontando os conhecidos exageros patrióticos de “nuestros hermanos”, acho que foram uma vez mais um exemplo em que nós, portugueses, deveríamos reflectir.
A segunda nota tem a ver com a um dos símbolos do campeonato. O maior entre os maiores. Não, não estou a falar da vuvuzela, aquele “instrumento” que nos infernizou os ouvidos durante todo este tempo e que é tão malquista que quer os ingleses em Wimbledon e nos próximos Jogos Olímpicos de Verão, em Londres, em 2012, quer os neo-zelandeses do râguebi já a proibiram de entrar nos seus estádios. Eles lá sabem porquê.
Estou a referir-me, como devem ter percebido, à “figura” incontornável de “Paul” o magnífico polvo adivinhador que conseguiu acertar em todos os vencedores de determinadas partidas. Mortos de inveja por tal concorrente tentacular, bem apareceram periquitos, cães, macacos e até reputados analistas de futebol a tentarem superá-lo, mas Paul foi-lhes superior e não se enganou uma só vez. Ele é, de facto, o “rosto” deste Mundial de Futebol realizado na África do Sul.
No areal quente de uma praia algarvia um grupo de senhoras conversava animadamente. Como estava ainda distante não ouvi o que diziam mas, as revistas cor-de-rosa espalhadas sobre as toalhas, fizeram-me acreditar que falavam sobre o Ronaldo, o filho do Ronaldo e os doze milhões que o Ronaldo teve que desembolsar para ter esse filho.
Graças a uma das vozes que soou mais alto, percebi que, afinal, não era disso que estavam a falar. O que se comentava era a ideia (“genial e nunca antes vista”) da marca Code convidar pessoas a irem completamente nuas à sua loja no centro comercial Porto Gran Plaza. Como contrapartida, prometiam oferecer às primeiras vinte um conjunto de peças - vestuário e calçado - no valor de 250 euros.
Para além do picaresco da situação, a pergunta que dançava na minha cabeça era porque razão 17 homens e 3 mulheres se despiram de qualquer pudor e apareceram na loja como vieram ao mundo. Exibicionismo ou vontade de ganhar de borla umas roupitas janotas?
Provavelmente as duas respostas estarão correctas. Se por um lado, se sabe que 20% dos portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza e que se não fossem as ajudas do Estado esse número passaria para os 40% (donde umas roupas novas vêm sempre a calhar), por outro, há por aí muita boa gente mortinha por dar nas vistas nem que para isso tenha que expor publicamente e sem constrangimentos as respectivas vergonhas.
Vá lá saber-se!
Lá porque estive ausente uns dias não é motivo para julgarem que o “Por Linhas Tortas” vai fechar e eu vou, enfim, retirar-me. Nada disso, não comecem já a esfregar as mãos de contentes por que, dessa, estão vocês livres.
Para além de um problema (que persiste) com o meu computador esta curta ausência deveu-se a um estado mais ou menos depressivo que sofri quando li que a maioria dos jovens portugueses considera que a velhice começa aos 51 anos. Tanto mais que tenho consciência que essa mesma rapaziada dá pouca atenção e valoriza ainda menos a experiência e o conhecimento dos “velhos”.
De facto, passou-me pela cabeça emigrar para um qualquer país oriental onde o respeito pelos velhos faz parte da sua cultura ou até mesmo para a Europa onde a juventude da generalidade dos países considera que o começo da velhice se dá aos 72 anos. Ao contrário do que normalmente acontece, em que as coisas chegam a Portugal com muitos anos de atraso, quanto à idade da velhice, ela instala-se precocemente por cá e só vinte anos depois atravessa as nossas fronteiras rumo à Europa.
Claro que a culpa desta situação não cabe inteiramente aos jovens. Provavelmente os maiores culpados serão os média, os muitos políticos inexperientes e todos aqueles que cultivam e divulgam que a suprema essência do ser está no culto da juventude, do belo e do magro. Logo, aos 51 anos, o prazo de validade termina.
E depois há ainda a constatação directa, em que os jovens observam no dia-a-dia a forma como a sociedade “esquece” os seus velhos. Que melhor exemplo poderiam ter?
Bem, eu nem sei o que é que me deu para estar a falar deste assunto. Afinal, como sabem os que me conhecem, eu não corro o risco de atingir tão provecta idade. Sendo intemporal, não tenho idade. Apenas vou acumulando experiências.
De Carlos Drummond de Andrade,
“Os amantes se amam cruelmente”
Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, reflectido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.
Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.
A semana passada assisti às cerimónias comemorativas do aniversário de uma instituição de solidariedade social que apoia idosos. Já se sabe que este tipo de festas tem um sem número de formalidades que fazem todo o sentido para os dirigentes, para as pessoas que lá trabalham e para os utentes dessas instituições. Para os convidados nem tanto.
Mas há excepções. Foi o que aconteceu quando houve a apresentação de um grupo coral composto por pessoas com idades muito respeitáveis, alguns com problemas motores que tinham que cantar sentados e outros cuja voz quase se não ouvia.
Sem pretender fazer qualquer tipo de apreciação à qualidade do grupo, o que seria descabido, o que mais me impressionou naquelas pessoas foi a sua atitude. Percebia-se-lhes o gosto de manifestar a sua determinação, a vontade de fazer parte de um projecto comum, de mostrarem como se sentiam vivos.
Sensibilizou-me muito o olhar brilhante daqueles velhinhos, felizes por exibirem o seu trabalho empenhado e generoso. E comoveu-me, sobretudo, na hora em que eclodiram os aplausos da assistência, ver as expressões de felicidade que inundaram aqueles rostos.
Não estavam ali cantores, estava ali gente. Pessoas que se sentiam felizes pelo simples facto de terem alguém perto deles que os ouvia e que lhes dispensava atenção.
Foi um momento mágico que, por minha vontade, se teria eternizado.
Esta é mais uma crónica em que proponho que não se fale de futebol. Não sendo eu treinador de bancada nem, tão-pouco, grande conhecedor da arte de bem jogar, que mexe com tácticas e estratégias que não domino, contento-me em ser um observador do fenómeno que se deixa levar por puros instintos racionais.
É por isso, agora que acabou o sonho lusitano de vir a conquistar o Mundial da África do Sul, ainda cheio de tristeza por assistir ao naufrágio dos nossos “navegadores” aos pés de um Adamastor chamado Espanha, que eu achei que tinha chegado a hora de pedir aos meus concidadãos para abrirem um pouco mais os olhos para a realidade.
Viram, por acaso, neste jogo com a Espanha, um jogador que já foi considerado o melhor do mundo, que recebe muitos milhões pelos seus contratos, que já tem a sua figura em cera no Museu da Madame Tussauds em Londres e que continua a ser idolatrado por multidões até ao absurdo? Sim, estou a referir-me ao CR7, ao Ronaldo, ao Cristiano, ao Cristiano Ronaldo, ao tal que disse que agora é que ia ser, que ia “explodir” neste mundial. Pois é claro que o viram. Pelo menos deram com ele quando toda a equipa cantava o hino nacional. Todos não. O Cristiano Ronaldo não abriu a boquinha uma só vez, provavelmente para não se cansar, quem sabe se por desconhecimento da letra do hino, quiçá porque aquilo que era comum a todos os seus colegas (onde se incluía o luso-brasileiro Pepe) – a “raça”, o querer, a firme vontade de servir – não lhe caber por inteiro.
Depois, quando o jogo começou, devem tê-lo perdido algures, nunca mais ninguém o viu em todo o campo. Nem neste jogo nem nos outros que tem feito ao serviço da selecção. Os fantásticos golos e as extraordinárias jogadas que protagonizou ao serviço do Manchester e do Real Madrid nunca serviram de modelo para outras tantas em representação de Portugal.
E viram-no, finalmente, quando saiu apressado pela zona de entrevistas rápidas, respondendo com ar enfadado que as perguntas deveriam ser endereçadas ao treinador Carlos Queiroz. Uma resposta cheia de insinuações – quais farpas afiadas - próprias de uma pessoa de mau carácter que não sabe perder. Logo ele que é o capitão da “equipa de todos nós”.
Daí a minha estupefacção em assistir à continuada glorificação de um jogador de quem dizem ser mago e que, se calhar por isso mesmo, sempre nos deu ilusão em vez de futebol. Mas a isso eu não chamo magia, chamo embuste.
É já no dia 1 de Julho que entrarão em vigor as novas taxas do IVA. Em todas elas registar-se-á um aumento de 1% pelo que, a partir da próxima quinta-feira, teremos 6% na taxa mínima, 13% na intermédia e 21% na taxa máxima.
Embora satisfeito por, desta forma – pagando mais – poder contribuir ainda mais empenhadamente para combater a crise, gostaria apenas, se não fosse muito incómodo, que me explicassem duas coisas. Se é que alguém está interessado nisso …
1 – Por que razão o Nestum vai pagar a taxa máxima quando a Cerelac será taxada pela mínima? Estamos a falar de duas papas, não é? Então por que é que pela primeira se vai pagar 21% e pela segunda 6%? Haverá alguma racionalidade nisto?
2 – Fará algum sentido que produtos como as bolachas Maria e Torrada e o papel higiénico vão pagar 21% enquanto que outros produtos tão essenciais (diria mesmo fundamentais) à vida das famílias –como o “foie gras” e os patés - pagarão apenas 12%?
Desculpar-me-ão, só queria compreender …
Tem sido penosa a leitura do Expresso do último sábado. Não pela falta de artigos e crónicas com interesse, mas pela grafia que o semanário decidiu passar a adoptar (adotar, é que é) a partir deste número – a do novo acordo ortográfico. Com as honrosas excepções (exceções, claro está) de Miguel Sousa Tavares e José Cutileiro que continuam a escrever de acordo com a “antiga ortografia”
Já por diversas vezes aqui tenho manifestado a minha discordância por termos “embarcado” nesta aventura cujo interesse é, no mínimo, duvidoso. Os países que falam o português sempre se entenderam ao longo dos anos e não foram certamente as especificidades próprias da escrita de cada país que nos impediram de ler os seus textos nem de celebrar acordos e tratados. Isto é, nunca houve problemas com esse facto (quero dizer, fato).
A partir de agora a coisa vai ser mais complicada. É que estamos a falar da alteração da forma de escrever de, nada menos, 3 900 palavras. É obra! Daí a minha lentidão em ler o Expresso. Quantas vezes parei numa palavra por julgar ter detectado (o certo será detetado) um erro ortográfico ou por ter achado que a interpretação do que estava a ler não fazia sentido. E o voltar a reler as muitas linhas cansou-me.
A indignação já não me serve para nada, o acordo está celebrado e até 2014 tem mesmo que estar implementado no nosso país. O que não me impede de continuar a escrever tal como o fazia até agora. Por isso, meus caros companheiros, peço a vossa compreensão para esta forma de prosseguir a minha luta pela língua que é a nossa e de que não temos que nos envergonhar. E não me venham com a velha história de que a língua é dinâmica e que a minha teimosia não passa de um saudosismo bacoco. A esses argumentos eu poderia responder com uma dúzia de outras razões igualmente válidas, o que não vou fazer, para os não maçar.
A partir do início deste Verão (perdão verão) certamente começarei a ter mais trabalho nas minhas leituras habituais mas, no “Por Linhas Tortas”, e até ver, vai continuar-se a escrever como se escrevia até aqui. Não por teimosia, tão-somente por princípio.
A primeira história é a de um senhor que era contabilista numa empresa e, quando se reformou, decidiu que queria ser voluntário numa instituição. E para fazer o quê? Responderão que queria dar continuidade à sua experiência de contabilista, certo? Não, errado, o senhor, já com uma idade respeitável e com as articulações a pregarem-lhe partidas, não queria o aconchego de uma cadeira no escritório a fazer uma coisa que ele bem sabia. O que ele almejava mesmo era ser varredor do pátio. E, apesar das insistências dos responsáveis da instituição para o demover da ideia, prevaleceu a sua vontade. É varredor.
Bem diferente é a outra história, a do inglês Michael Carroll. Em 2002 ganhou 11 milhões de euros na lotaria. Oito anos depois, gasto todo o dinheiro, encontra-se em dificuldades para sobreviver e quer que lhe dêem de volta o seu lugar de varredor. E diz, agora, que aquele foi o melhor emprego que teve na vida. Pena foi que não tivesse consciência disso quando ganhou a fortuna.
Enfim, estas são duas histórias de “varredores”. Distintas uma da outra mas, ambas, dão que pensar.
Duas notas prévias:
1 – Só por uma questão de agenda não publiquei antes esta crónica;
2 – Para que conste, não conheço pessoalmente o senhor sobre quem hoje escrevo nem sou militante ou simpatizante do partido a que ele pertence.
Dito isto, devo confessar que fiquei deveras surpreendido – em sentido positivo, note-se – com o gesto do eurodeputado do Bloco de Esquerda, Rui Tavares.
Pois este senhor, que ganha cerca de 7 500 euros, decidiu retirar 1 500 euros do seu salário mensal para atribuir bolsas a quem se candidate, bastando para isso a apresentação de um projecto numa qualquer área não definida de antemão.
E a decisão sobre o vencedor, vai ser do próprio Rui Tavares. Ele vai doar o dinheiro a quem achar merecedor, desde que, o candidato não seja funcionário do Parlamento Europeu, da Assembleia da República ou do seu próprio partido. E, embora não visse essa indicação explícita, suponho que o prémio também não será atribuído a quem seja seu familiar.
Um gesto exemplar e de grande significado que tenho o prazer de dar, aqui, o devido destaque.