sexta-feira, outubro 15, 2010

Afinal, do que é que a senhora estava à espera?


O miúdo tinha “pinta”. Não mais que cinco anos e uma cara gira e assaz malandreca, o rapaz não parava sossegado à mesa da esplanada. Até que, agitado como estava, deu um salto da cadeira e afastou-se ligeiro exclamando “Porra!”.

A senhora que estava com ele, presumivelmente a avó, decerto senhora de muitos princípios, chocada mais com a má educação do petiz do que com a crueza da palavra, admoestou-o: “Carlitos, repete lá …”, ao que o miúdo se apressou a exclamar “Porra!”.

A senhora visivelmente incomodada por não ter sido aquela a educação que os pais e os avós lhe tinham dado, puxou o miúdo para si e, com cara franzida e voz de poucos amigos, disse-lhe de novo (como que a querer dizer ao neto que aquela era uma expressão muito feia que não se devia dizer): “Carlitos, repete lá …”

Pois nem mesmo a cara zangada da avó conseguiu demover o Carlos de dizer - pela terceira vez, num tom que bailava entre o inocente, o confuso por não perceber aonde a avó queria chegar e o traquina - a palavra maldita “Porra!”.

Bolas, digo eu que sou um bocadinho mais crescido e conhecedor das conveniências sociais, do que é que a senhora estava à espera? Afinal era ela é que insistia para que o gaiato repetisse a palavra …



quinta-feira, outubro 14, 2010

A rotundazinha


Quantas vezes têm ouvido dizer que a qualidade da terra está na origem das boas colheitas? Frutos e vegetais são normalmente excelentes quando a terra onde foram semeados são também de boa qualidade.

O que com certeza nunca se tinham apercebido é que um bom empedrado pode vir a dar placas de trânsito mais robustas ou mais crescidas. Vá, confessem que essa nunca vos tinha passado pela cabeça.

Pois a prova está aqui. Na mesma cidade, na mesma rotunda pequenina com uma placa central ainda mais pequenina que mal alberga as quatro placas que obrigam a contorná-la, podem ver na fotografia de cima que as placas são todas do mesmo tamanho e, na foto de baixo, tirada um ano depois (embora de ângulo diferente), vejam como algumas delas estão mais espigadotas. Qualidade do empedrado, digo eu.

Os sinais são, de facto, inestéticos. Agora como no ano passado. Mas vejamos as coisas pelo lado positivo. Se não estivessem lá esses sinais desajeitados o que é que a autarquia iria lá “plantar”? A imponente estátua do edil? Não, isso seria impossível em tão pouco espaço.





quarta-feira, outubro 13, 2010

A geração dos “nem-nem”


As várias manifestações de estudantes que tenho visto desfilar pela Baixa nas últimas semanas, com jovens divertidos e compenetrados na realização das suas praxes, deram-me, ao contrário do que seria de esperar, uma sensação de desconforto. Ao olhar para eles não pude deixar de pensar que muitos dos seus sonhos que agora começam a despontar com a entrada para a Universidade poderão vir a constituir verdadeiros pesadelos. Desconforto por eles, pelas dificuldades que a maior parte vai enfrentar nas suas vidas mas também por reconhecer que sucessivas gerações, a minha incluída, não foram capazes de preparar melhores caminhos para o futuro.

É certo que a crise por que passamos veio piorar significativamente a incerteza dos jovens. Com a falta e a precariedade do emprego não é de estranhar que possam vir a estar desmoralizados mas, principalmente, desesperados.

As condições que lhes foram proporcionadas deram-lhes um nível de formação que lhes permitia acalentar um futuro promissor. Estão (em princípio) mais preparados mas, em contrapartida, mais vulneráveis e perdidos. Os empregos escasseiam e uma boa parte dos jovens, para se conseguirem manter, trabalham em actividades para as quais não estudaram e onde ganham miseravelmente. Por isso não existem projectos de vida em que sintam especialmente interessados ou entusiasmados. Mas quando alguns pretendem abrir um negócio, uma empresa que os faça sair do marasmo dominante para dar um rumo à vida, para criar riqueza para si e para o país, aí, surgem todo o tipo de entraves, de burocracias e de desinformação que os faz pensar duas vezes e os convida a desistir.

Esta é a geração dos “nem-nem”. Nem trabalho nem perspectivas. Uma geração que, desorientada e entristecida, já percebeu que a qualidade de vida que a espera será irremediavelmente inferior à que tiveram os seus pais.


terça-feira, outubro 12, 2010

Numerologia - Superstições e crenças


No último domingo foi dia 10 de Outubro de 2010. Ou seja, 10-10-10. Uma repetição de algarismos que em quase todas as civilizações alimenta diversas superstições e crenças populares. E muitos acreditam que sequências numéricas deste género trazem sorte.

Neste caso, há quem diga que o estudo da numerologia permite inferir, entre outras coisas, que o algarismo 1 está associado à energia criativa, à originalidade e ao poder, enquanto que o 0 representa o poder divino e a perfeição.

Todo este fascínio dos povos pelos números e pelo seu significado, que vem desde a Antiguidade, fez com que muitos noivos, em várias latitudes e por causa de tão importantes predicados, tivessem escolhido o domingo passado para se casarem.

Ainda que não seja muito dado a superstições, acho que seria bom estar atento a elas, sobretudo se tiverem um cariz positivo. Às más, deixemo-las sossegadas. Pena é que os nossos políticos não tivessem aproveitado a data para terem tomado umas quantas decisões que são absolutamente necessárias e urgentes. É que a próxima conjugação favorável só se vai dar em 11.11.2011 e, nessa altura, é capaz de ser tarde. Superstições à parte, claro …





segunda-feira, outubro 11, 2010

O Regabofe


Sempre defendi que mesmo nas situações de aperto financeiro não devemos dar uma imagem de miseráveis. Ou seja, mesmo em ocasiões de aflição devemos manter uma postura de dignidade. “Pobretes mas Alegretes”, como diz o povo (o povo diz cada coisa …). E, no que ao nosso país diz respeito, se bem que estamos a atravessar um período difícil (leia-se, sem dinheiro) não temos necessidade de dar a imagem de miserabilismo que muitos gostariam de transmitir. Há que haver sensatez na gestão da coisa pública e é isto que devemos exigir aos responsáveis que têm por missão dirigir os destinos de Portugal.

É consensual que temos que endireitar as contas públicas e reduzir drasticamente o endividamento externo. Pedem-nos, por isso (ainda) mais sacrifícios. Tudo bem, o povão amocha, faz mais uns furos no cinto (que os outros já tinham sido todos utilizados) para pagar mais impostos, para reduzir os seus já parcos salários e para ficar sem alguns dos apoios sociais que tinha e que julgava ser um direito adquirido. Explicaram-lhes (???) os porquês e, mesmo sem perceber as razões do descalabro, dispõem-se a “alinhar”

Porém, quando já assumiram que certas despesas – com a alimentação, com a saúde, com a cultura ou com o lazer – têm que sofrer alguns cortes, como vão entender que certas instituições do Estado gastam milhões em festas, brindes e consultores?

Como acham que se sentem todos aqueles que pagam direitinho os seus impostos e que de manhã à noite ouvem, a toda a hora, a palavra maldita – CRISE – quando sabem que os organismos do Estado, e todos que gravitam à sua volta, vivem em permanente festança sem se preocuparem com o que gastam.

Que acham que podemos sentir quando sabemos que, por exemplo, a ANACOM (a entidade reguladora das comunicações) gastou 150 mil euros na comemoração do seu 20º aniversário? Ou que o ICP (Autoridade Nacional de Comunicações) gastou 130 mil euros numa campanha sobre roaming internacional? Ou, ainda, que o Turismo dos Açores pagaram mais de milhão e meio de euros para organizar a cerimónia das 7 Maravilhas de Portugal? Ou, finalmente, que a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos (aqueles que são responsáveis pela cobrança dos impostos, aqueles mesmos que “nos vão aos bolsos”) gastaram na celebração dos seus 160 anos mais de 220 mil euros (sem contar os custos de pernoita de cerca de 900 pessoas que se deslocaram a Lisboa para participar na festa)? O que acham que nós sentimos perante tal regabofe?

E não venham com o argumento já estafado que estão, desta forma, a estimular a economia por que há empresas que estão a ganhar com isso e que mantêm empregos, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Tretas! Percebemos bem o que está por detrás de tudo isto.

E acabo como comecei. Comemorem o que têm que comemorar. Enalteçam os seus feitos e os seus colaboradores. É justo que o façam. O que queremos é que sejam comedidos nos seus gastos e, porque vivem do dinheiro dos contribuintes, alinhem connosco no esforço que nos está a ser exigido. Será pedir muito?


sexta-feira, outubro 08, 2010

Mário Vargas Llosa - Prémio Nobel de Literatura de 2010

Mário Vargas Llosa, escritor peruano nascido em 28 de Março de 1936, foi o vencedor do Prémio Nobel de Literatura de 2010. Ensaísta e dramaturgo é considerado um dos maiores nomes da literatura em língua espanhola.

“A Casa Verde”, “Lituma nos Andes”, “A Cidade e os Cachorros”, “Pantaleão e as Visitadoras”, “A Festa do Bode” e “Travessuras da Menina Má” são algumas das suas obras mais conhecidas.

Recebeu galardões muito importantes como o Prémio Cervantes em 1994 e o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras, em Espanha, em 1986 e é membro da Real Academia Española desde 1994.

Ao anunciar a distinção, o secretário permanente do Nobel, Peter Englung, destacou que o prémio foi atribuído não só pela qualidade dos seus últimos livros mas também pelo conjunto da sua obra e toda a trajectória literária. Qualificou ainda o escritor como “um contador de histórias divinamente talentoso, cujos livros conseguem tocar os leitores”.

De Mário Vargas Llosa um inédito escrito em Nova Iorque em Novembro de 2001:


POEMA PARA A EXORCISTA


A minha vida aparece sem condão e

monótona

aos que me vêem

no trabalho árduo da oficina

em manhãs apuradas.

A verdade é muito distinta.

Cada noite eu saio e discuto

contra um espírito malévolo

que, se valendo de

máscaras - cão, grilo,

nuvem, chuva, vagabundo,

ladrão - trata de

se infiltrar na cidade

para estragar a vida humana

semeando

a discórdia.

Apesar dos seus disfarces

sempre a descubro

e a espanto.

Nunca conseguiu enganar-me

nem vencer-me.

Graças a mim, nesta cidade

ainda é possível

a felicidade.

Mas os combates nocturnos

deixam-me exausta e ferida.

E para compensar a minha

guerra contra o inimigo,

peço uns restos

de afecto e de amizade.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Qu’a coisa está difícil, lá isso está



Desenganem-se os que julgam que os aumentos do custo de vida e as dificuldades daí resultantes apenas afectam as classes mais desfavorecidas. Não é bem assim, apesar da lamuria costumeira de que são sempre os mesmos a pagar a crise, isto é, os que ganham menos. A verdade, porém, é que toda a gente se sente mal. Mesmo aqueles que têm posições/vencimentos mais confortáveis. A prová-lo, os dois casos verídicos que a seguir se contam:


Há uns dois anos, quando Madona actuou no nosso país, um Magistrado, Procurador Adjunto do Ministério Público, quis vender um bilhete para o concerto por 450 euros, ingresso esse que lhe tinha custado apenas 60 euros. Teve azar, foi apanhado em flagrante e foi suspenso da actividade durante um ano.


Recentemente um deputado eleito por um círculo da província, declarava as suas dificuldades financeiras em se manter em Lisboa, sugerindo mesmo que a cantina da Assembleia da República deveria abrir também à hora de jantar para ver se o orçamento conseguia chegar para o mês inteiro.


Como vêm, estes dois casos, diferentes na sua génese mas que tendem para um mesmo fim - aumentar os rendimentos (ainda que o primeiro fosse de modo ilegal) - foram protagonizados por pessoas que não ganham propriamente uma miséria nem pertencem ao rol dos muitos milhares de portugueses que subsistem com umas poucas centenas de euros.


Ainda que com lágrimas de crocodilo, começo a ter pena de certas pessoas que andam por aí a queixar-se. Parece qu’a coisa está mesmo difícil!



quarta-feira, outubro 06, 2010

Na cozinha, com avental



Terminou no passado fim-de-semana a 4ª edição do Lisboa Week Restaurantes. Uma oportunidade interessante para se conhecerem (ou revisitarem) restaurantes que não são muito acessíveis à maioria das bolsas dos portugueses. Aliás, o conceito subjacente a este evento baseia-se exactamente na democratização do acesso à restauração de qualidade. Para além de se poderem usufruir novos ambientes e receitas gastronómicas, existe ainda uma componente de responsabilidade social. Ou seja, uma parcela do custo da refeição é entregue a instituições públicas. Desta vez cada pessoa pagava 20,00 euros (19,00 para o restaurante e 1,00 para as tais instituições).

Genericamente os restaurantes aderentes à iniciativa apresentam a chamada “cozinha de autor”, donde, o que mais sobressai é a criatividade da ementa - “magret de pato”, “lombinhos de porco sous-vide” ou “demi-cuit com mini legumes à grega, “dip” de gengibre”, por exemplo – quase sempre em doses extremamente diminutas mas ... em pratos enormes. Os nomes são pomposos e a apresentação dos pratos irrepreensível.

Para além da comida, e uma vez que os restaurantes são de uma gama média/alta (alguns bastante alta), tudo é de grande qualidade. Tudo menos o serviço que, muitas vezes, é bastante deficiente, nada a condizer com os pergaminhos do estabelecimento. Claro que, como em tudo, há experiências boas e experiências más. Já apanhámos de umas e de outras.

Mas os meus Amigos que me acompanham há muito, sabem bem das minhas reticências quanto à cozinha de autor. “Os olhos também comem” é apenas meia verdade. Há mais coisas para além do exotismo e da arte da apresentação da iguaria. Há a simplicidade, o sabor e a quantidade necessária que satisfaça o nosso palato e o nosso estômago.

É por isso que eu, sem renegar o conhecimento continuado de novas experiências gastronómicas, continuo a privilegiar a cozinha simples do tipo Mediterrânica. E mais, continuo a confeccionar (sempre de avental posto) – modestíssimo aprendiz de tais artes – o dito trivial. E vejam se as fotografias não são sugestivas. Tudo feitinho por “moi-même”. Para que vejam …





























sexta-feira, outubro 01, 2010

A Bomba Atómica


Ainda que em traços muito gerais foram anunciadas pelo Governo as medidas que pretendem “salvar” o nosso país. Foi a queda de uma bomba atómica que atingiu um povo completamente perdido perante um futuro que se prevê demasiado sombrio: redução de salários, aumento de impostos, mais desemprego e crescimento da insatisfação social (de que não se sabe as consequências).

São medidas muito duras mas que podem ainda não chegar.

E como se a “boa nova” não tivesse sido suficiente, fomos ainda contemplados com as declarações do Presidente do Partido Socialista, Almeida Santos:

"Os sacrifícios que estão a ser exigidos ao povo não são sacrifícios incomportáveis. Oxalá que o país nunca tenha de enfrentar sacrifícios maiores".

"As crises não são só do Governo, são do povo e o povo tem que sofrer as crises como o Governo sofre".

Nem queríamos acreditar.




quinta-feira, setembro 30, 2010

O silêncio das palavras


“…Depois a subida a pé até ao cemitério, em silêncio de palavras … Impressionou-me aquela timidez respeitosa perante a solenidade da morte …”

Tocou-me a descrição que eu vi escrita algures sobre a atitude assumida, durante um funeral, por quem se ia despedir de um ente querido. Talvez porque não estamos habituados a presenciá-la, pelo menos nos centros urbanos. Sempre que vou a velórios ou a funerais, assisto a animadas cavaqueiras de pessoas que já não se encontram há tempos e que aproveitam a oportunidade para pôr a conversa em dia, para contar as últimas ou para tratar de assuntos, porventura importantíssimos, que não tiveram outro tempo ou espaço para serem debatidos. Murmúrios que vão subindo de tom até o deixarem de ser.

Questiono-me muitas vezes sobre tamanho desrespeito. E não compreendo porque se ignora o recolhimento necessário e que aquele é o lugar para homenagear o falecido e a sua família. E deparamos apenas com o ruído (demasiado alegre por vezes) em vez do “silêncio das palavras”. Dá que pensar.


quarta-feira, setembro 29, 2010

Um pódio enganador

Na crónica que aqui escrevi no passado dia 23, intitulada “Afinal, esperamos o quê?”, em que abordava o tema da sustentabilidade do Estado Social não conhecia ainda os números que Nicolau Santos divulgou no Expresso desta semana. Dizia ele:

“… No que toca à generosidade dos apoios concedidos durante cinco anos após se cair na situação de desempregado, Portugal está em sexto lugar entre 29 países desenvolvidos. Não é normal que um país que está sistematicamente na cauda dos indicadores económicos europeus se encontre neste lugar. Menos normal ainda é que estejamos imediatamente à frente da Alemanha, França e Finlândia e só atrás da Noruega, Bélgica, Áustria, Dinamarca e Irlanda. Os Estados Unidos são o último país da lista. Conclusão: somos um país pobre com um apoio aos desempregados de rico. E, como é óbvio, isto não é sustentável”.

É uma conclusão sem contestação. Daí que as últimas medidas conhecidas levaram a que, em Agosto último, 38% dos desempregados já não tenham direito a qualquer apoio. Uma situação que, também ela, não é, obviamente, sustentável.

terça-feira, setembro 28, 2010

O insustentável peso do … endividamento


Neste atormentado momento que vivemos, permitam-me gracejar um pouco que seja, a ver se consigo espantar os maus espíritos. E justamente por brincadeira, atrevi-me a intitular esta crónica com uma espécie de trocadilho do título do belíssimo romance de Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser”.

No romance descrevem-se amores e desamores acontecidos na Europa Central durante os conturbados anos sessenta do século passado (“A insustentável Leveza do Ser”). No texto de hoje voltamos a tratar do também conturbado problema do endividamento nacional e da sua sustentabilidade (“O insustentável peso do endividamento).

Não é que eu traga agora qualquer dado novo sobre a matéria nem, tão-pouco, a forma de a resolver. Lembrei-me apenas de uma teoria que eu sempre ouvi, que é capaz de ter algum fundamento mas que, na situação presente, talvez não se aplique.

Dizia-se: “Dívida, dívida é aquilo que nós pedimos emprestado e não conseguimos pagar. Os empréstimos que contraímos mas que pagamos são apenas investimento. Como quando compramos uma casa que vamos pagar a 30 anos. O dinheiro que devemos ao Banco é apenas um investimento que vamos amortizando, nunca uma dívida.

No caso de Portugal, porém, somos capazes de ter uma dívida de todo o tamanho que não sei se teremos capacidade para pagar. Não façam caso, estou a brincar de novo. Claro que teremos, é só aumentar a receita, isto é, os impostos. Tão a ver?


segunda-feira, setembro 27, 2010

As “Águas de Portugal” meteram água

Precisamente quando o PEC 2 nos obriga a cumprir uma série de medidas que passam pela redução da despesa pública, vem-se a saber que a frota do Estado continua a crescer, sobretudo com o forte contributo das empresas públicas que, ao que parece, ninguém controla.

Não se põe em causa a aquisição ou o aluguer de veículos novos. Temos noção que a maioria são absolutamente necessários para o desenvolvimento/cumprimento das actividades das empresas, quero dizer para o “serviço” propriamente dito. O que se questiona, isso sim, é a política levada a cabo por essas empresas aquando da renovação das respectivas frotas e, em particular, para os veículos de gama alta destinadas ao topo da hierarquia.

Veja-se o exemplo do Grupo Águas de Portugal, cujo parque automóvel é composto por 1190 viaturas de serviço. Tudo bem, devem ser necessárias, não se discute. Mas quem é que percebe que, entre estas, tenham à sua disposição 388 carros topo de gama? Claro que ninguém aceita a justificação que isso acontece porque as viaturas são contratadas em regime de AOV (aluguer operacional de veículos) que podem até ser mais vantajosas para a empresa em alternativa à aquisição mas que têm, obviamente, custos (e altos) a pagar.

A realidade é esta. Obrigámo-nos com Bruxelas a cumprir as directivas aprovadas no Programa de Estabilidade e Crescimento. Pode até ser que as verbas dispendidas com a existência de umas centenas de carros para administradores e outros quadros não tenham uma relevância por aí além nos orçamentos, mas há questões de racionalidade, de bom-senso e de exemplo que não se podem esquecer. E, como se sabe, os mercados estão de olho em nós.

Talvez por isso, o Governo tenha suspendido de imediato a renovação da frota automóvel das Águas de Portugal e tenha decidido que Pedro Serra, o presidente do Grupo Águas de Portugal não será reconduzido quando terminar este mandato, em 31 de Dezembro.

Foi um bom sinal mas apenas um sinalzinho. Há muitos mais para dar e urgentemente.



sexta-feira, setembro 24, 2010

Um país mais elegante


Não é a primeira vez que nas minhas crónicas levanto questões de ordem comportamental para as quais, invariavelmente, procuro respostas. Embora possam parecer meras questões de somenos, a verdade é que ao lançar essas interrogações acalento sempre a esperança de que alguém me consiga aquietar as apoquentações que me vão na (i)alma. E, hoje, volto a fazê-lo.

Agora que o Verão acabou e a praia já não tem o encanto de quando começou o tempo quente, interrogo-me por que é que as pessoas teimam em regressar da praia com a areia agarrada aos pés (às vezes até meio da perna), envergando apenas o biquíni ou os calções (daqueles que são pródigos em realçar os ventres avolumados). E mais ainda porque se passeiam alegremente nesses trajes pelas ruas, pelas lojas e até pelos restaurantes, mesmo os que já estão longe do perímetro das praias.

Será que essa gente não consegue perceber o ridículo das figuras que fazem? É que seria bem mais apropriado que eles envergassem uma t-shirt (não daquelas de alças à camionista, por favor) ou um pólo e elas se cobrissem com um simples “pareo” ou um vestidinho de alças. Também lhes ficaria melhor calçarem umas sandálias ou até umas havaianas (mesmo de contrafacção) depois de sacudidas as areias semi-molhadas dos pés. Ficariam bem melhor fossem eles para onde fossem. E, notem, não estou sequer a sugerir que usem outras toilettes, essas mais adequadas a lugares nocturnos.

Ao fim e ao cabo podemos e devemos andar à vontade, nomeadamente quando estamos em férias. Mas andar à vontade não significa desleixo. A nossa terra mereceria melhor. Embora com montes de dificuldades para resolver, seria certamente um país mais elegante e agradável.



quarta-feira, setembro 22, 2010

“Quando a esmola é grande …”


Quando atendi o telefone ouvi uma voz apática e sumida perguntar se eu era eu. Como disse que sim, a tal voz triste e inexpressiva comunicou-me que eu tinha sido um dos cinco felizes premiados com quinze dias de férias no Algarve. Era um prémio de truz, ganhar quinze dias de alojamento para quatro pessoas numa de várias unidades hoteleiras à escolha, cujos nomes e localização não consegui ouvir. Intuí, contudo, pela voz desanimada que me soava do outro lado, que o prémio deveria ter “algum defeito”.

Por descargo de consciência ainda perguntei o que é que eu tinha feito para ganhar essas férias, assim de mão beijada. Deram-me duas hipóteses, ou tinha preenchido qualquer inquérito num centro comercial ou na net ou, simplesmente, fora escolhido aleatoriamente pelo computador da empresa que promovia a acção. Que sorte! Provavelmente eu não tinha feito mesmo nada para merecer tamanha distinção mas, como sou um tipo de sorte, fui o escolhido, com mais outros quatro felizardos, para passar quinze diazitos no Algarve.

Havia, porém, uma condição. Teria que me deslocar a uma determinada direcção ali para os lados do Restelo, às 21 horas desse dia, a fim de levantar o voucher que me daria direito ao prémio. Mas tinha que ser nesse próprio dia, senão perderia a oportunidade. Informei o meu “entusiasmado” interlocutor que não me era possível comparecer, ao que ele respondeu incrédulo e entristecido “mas olhe que são quinze dias no Algarve para quatro pessoas …”.

Declinei o prémio, agradeci a atenção e desliguei. Imagino que o sujeito tenha ficado ainda mais desolado, quem sabe se com os olhos marejados de lágrimas. Só não sei se por eu ter desperdiçado tão generosa oferta, se por ele não ter podido dizer-me que associado ao prémio havia um produto que a organização pretendia impingir.

Pode ser que o meu suplente na lista tenha querido aproveitar a oferta. Só que a esta hora talvez esteja a pensar por que razão foi assinar um contrato de compra de uma coisa que nunca quis e que farão destas férias algarvias, umas férias demasiado caras.



terça-feira, setembro 21, 2010

Ah, então, fico muito mais descansado …



Desde sempre que me lembro do atum Tenório. Era ainda criança e ouvia o meu pai dizer que lá em casa só se comia o atum Tenório porque era o melhor. E a marca foi perpassando os tempos e as gerações e, apesar de terem aparecido muitas outras – portuguesas e estrangeiras – o “Tenório” aí continua a dar cartas, fiel à qualidade que sempre tem mantido e à imagem da embalagem – sempre igual – a que nos habituou.

Mas o que eu nunca tinha reparado, e fi-lo agora por mero acaso, é que num dos topos da embalagem, em letras mais diminutas do que as que figuram nos contratos dos bancos e dos seguros (aquelas que estão lá mas não são para serem lidas), mesmo por cima da cabeça do senhor que deve ter sido o fundador do produto, está patente a seguinte indicação:

“Grande Prémio de Honra na Grande Exposição Industrial Portuguesa 1932”

1932? Mas isso foi há um ror de tempo. Estamos em 2010 e, se não me falham as contas, já passaram 78 anos. E a partir daí o que aconteceu? Tiveram mais prémios ao longo dos anos ou o seu apogeu deu-se exactamente nessa longínqua data do início da década de 30 do século passado? É que se assim for, embora sem mais distinções conseguidas mas também sem manchas que envergonhem o seu passado e o presente, poderei dizer com toda a tranquilidade “Tiveram um prémio há 78 anos? Ah, então, fico muito mais descansado …”



segunda-feira, setembro 20, 2010

Afinal, esperamos o quê?



Estava para escrever sobre este assunto nos próximos dias mas o Director do Expresso, Henrique Monteiro, “antecipou-se” e publicou no último sábado um excelente artigo intitulado “O Estado Social e a Demagogia” (de que transcrevo uma parte) em que reflecte bem o impasse a que se chegou na sociedade quanto ao Estado Social, a exemplo, aliás, do que acontece com as demais matérias que têm a ver com o dia-a-dia das populações e dos países.

“… o grande problema, que quase ninguém entre nós aborda, é este: o Estado social está ameaçado em toda a Europa e não só em Portugal, mas não por uma mirífica direita. Está ameaçado porque concedendo direitos que hoje consideramos inalienáveis, tornou o factor trabalho caro, ao mesmo tempo que a globalização permitiu que países sem regras de humanidade social produzam bens muito baratos, beneficiando de deslocalizações e/ou através de mão-de-obra miseravelmente retribuída. O velho Ocidente endivida-se às mãos de chineses, indianos, brasileiros, angolanos ou russos. Os défices sucessivos vão obrigar-nos a refrear inúmeros direitos e subsídios que agora distribuímos. E este é um problema de hoje que é preciso resolver. Reduzi-lo à simples paróquia da política portuguesa, uma divisão entre bons e maus, é uma demagogia pegada …”

Eu não diria melhor. O diagnóstico está feito há muito e é conhecido de todos. Por isso pergunto, então do que é que estamos à espera para avançar com as soluções. Nós e especialmente a União Europeia a que pertencemos e que deve ser o motor das medidas necessárias para combater a situação.

A maioria de nós reconhecerá que já não temos Estadistas com uma visão estratégica para o país para, pelo menos, cinco ou dez anos. Contudo, ainda acredito que haja por aí alguns políticos inteligentes e sensatos que, em conjunto com uns quantos tecnocratas competentes, possam salvar-nos. É que continuando nesta inércia que nos arrasta para o fundo, alimentando demagogias que a ninguém interessam, só poderemos esperar o pior das ameaças que pairam assustadoramente sobre as nossas cabeças.



sexta-feira, setembro 17, 2010

Até Amanhã


De Eugénio de Andrade “Até Amanhã”


Sei agora como nasceu a alegria,

como nasce o vento entre barcos de papel,

como nasce a água ou o amor

quando a juventude não é uma lágrima.

Primeiro só um rumor de espuma

roda do corpo que desperta,

sílaba espessa, beijo acumulado,

amanhecer de pássaros no sangue.

Subitamente um grito,

um grito apertado nos dentes,

galope de cavalos num horizonte

onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.

De coisas que te dou

para que tu as ames comigo:

a juventude, o vento e as areias.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Cuba, e agora?


Já tinha lido há dias que o ex-presidente cubano Fidel Castro considera que o modelo económico de Cuba "deixou de servir". A declaração é bombástica mas, num país a braços com graves problemas económicos e sem apoios exteriores, só peca por tardia. Apesar do desassombro da afirmação, a “explicação oficial” não tardou e veio esclarecer que “Fidel não estaria a recusar as ideias da revolução, mas simplesmente a reconhecer que o Estado tem um papel excessivo na vida económica do país”. Pois!

Quando, há uns anos, estive em Cuba pude descobrir um país em que cerca de 85% da população era empregada do Estado. Não havia, portanto, desemprego, ainda que para isso houvesse muitas funções em que uma pessoa trabalhava às 2ª e 5ª, outra às 3ª e 4ª e uma terceira às 6ª e sábados. Três em um: um emprego, três trabalhadores. É certo que ganhavam pouco mas todos tinham uma ocupação, um salário, embora só fossem chamados a trabalhar dois dias na semana. Era uma situação confortável para os trabalhadores que se sentiam aconchegados com a ideia da garantia dos seus postos de trabalho mas perfeitamente insustentável para o Estado Cubano. De facto, um modelo peculiar de que o próprio Presidente Raul Castro chegou a afirmar "Temos de acabar com a ideia que Cuba é o único país do mundo onde se pode viver sem trabalhar".

Daí que o Governo de Havana tivesse anunciado agora um plano radical – o mais drástico verificado desde a revolução de 1959 – que se propõe despedir mais de um milhão de funcionários públicos nos próximos três anos, quase metade já até ao fim do ano.

Bem podem as autoridades afirmar que os efeitos desta medida vão ser bastante atenuados pela criação de mais empregos no sector privado ou que a partir de agora vai haver grande desenvolvimento de negócios criados pelos próprios desempregados. Podem dizer o que quiserem mas o facto é que um em cada cinco trabalhadores cubanos vão ficar sem emprego, despedidos pelo próprio Estado, coisa impensável até agora.

E a questão que todos colocam é como vai ser daqui para a frente? Por um lado, para a população, a coisa vai ficar ainda mais difícil porque o “trabalho para toda a vida” acabou. Por outro, o Governo que controlava até aqui quase todos os aspectos da vida no país poderá vir a enfrentar uma tensão social que não se sabe até onde pode ir.

Ao fim de mais de cinquenta anos de regime os próprios responsáveis reconheceram que alguma coisa tinha que mudar e essa mudança foi materializada, para já, no despedimento maciço de mais de um milhão de empregados do Estado, algo que é absolutamente extraordinário e que, inevitavelmente, centrará as atenções do mundo naquilo que possa vir a acontecer num dos últimos bastiões comunistas.


quarta-feira, setembro 15, 2010

A “Carta do Cliente”


Há umas semanas o Diário de Notícias dava conta que as transportadoras (penso que as da área da Grande Lisboa) resolveram publicar um manual de bom comportamento nos transportes públicos, a que deram o nome de “Carta do Cliente”. Basicamente é um conjunto de regras fáceis de apreender e que, em princípio, já deveriam fazer parte das normas de conduta que todos deveríamos ter.


Coisas tão simples como não falar ao telemóvel aos gritos, dar o lugar aos mais idosos, esperar que as pessoas saiam dos transportes para só depois entrar, evitar os volumes demasiado elevados em aparelhos de som e telemóveis ou não pôr os pés em cima dos assentos, por exemplo.


Mas este manual não foi bem aceite por muita gente. Uns indignaram-se porque entendiam que estavam a querer ensinar regras de boa educação a pessoas crescidas (que se sentiram ofendidas por isso) e outros questionavam se essa publicação ia, de facto, alterar alguma coisa.


Na verdade, não creio que as normas agora publicitadas venham alterar substancialmente o vandalismo e a má educação com que nos confrontamos no dia-a-dia. Mas também não me incomoda nada esta tentativa de tornar os cidadãos mais responsáveis e com comportamentos mais cívicos. No limite, e se a irresponsabilidade persistir, esta medida pode levar a que os outros assumam claramente o repúdio por determinados comportamentos. É que a falta de civismo, patenteada pela ausência das mais elementares regras de vivência em sociedade, afecta-nos a todos.


Esta “Carta do Cliente” é, pois, bem-vinda.