quinta-feira, junho 17, 2010

Tabuadas? … Sim!

Na crónica de ontem falávamos de música e do seu ensino. Hoje volto ao tema do ensino mas da matemática. E, em concreto, refiro-me ao ensino/aprendizagem das contas, da tabuada, enfim.


Aviso prévio. Não, não estou a dirigir esta crónica a alguém em especial. NÃO, juro que não estou!


O problema é que, hoje em dia, quase ninguém sabe as tabuadas. Dir-me-ão, e para que é que serve saber quantos são 9x7 ou 8x8 quando as calculadoras o fazem muito mais rapidamente e sem que tenhamos que desenvolver qualquer esforço mental.


Pois eu acho que saber as tabuadas faz toda a diferença. Na minha opinião, a memorização daquela lengalenga dos 2x2=4 (e por aí adiante), a disciplina e a própria estrutura do estudo agiliza o raciocínio matemático dos jovens. Por outro lado, e não menos importante, indicia que estudar e aprender exige esforço, dedicação e persistência, coisas que estão na base das nossas vidas e que poderão levar-nos a um sucesso futuro. A noção de facilitismo e de falta de rigor no ensino da matemática (e de outras disciplinas) foram sendo transmitidas a sucessivas gerações e deram o resultado que está à vista.


Ainda há pouco tempo li um artigo do Professor Medina Carreira que dizia, nomeadamente, “… eu estava num supermercado, numa bicha para pagar, e estava uma rapariga de umbigo de fora com umas garrafas, e em vez de multiplicar « 6 x 3 = 18 », contava com os dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... Isto não é ensino... é falta de ensino, é uma treta! É o futuro que está em causa!”


Pois se por cá se considera que aprender as tabuadas, as do um, do dois, do três … e a dos dez parecem já não fazer sentido, na Índia, os estudantes são obrigados a saber de cor as tabuadas até aos 19. Por acaso já imaginaram ter que responder de imediato e sem calculadora quantos são 19x17?

quarta-feira, junho 16, 2010

A música, um prazer para o espírito



Em alguns países da Europa Central sente-se a presença da música em cada lugar. Grandes compositores nasceram por aqueles lados e o orgulho que esses povos sentem nos seus músicos vê-se na quantidade de conjuntos e de solistas que tocam nas ruas das principais cidades.


Não admira, por isso, que na Hungria, por exemplo, nos quatro primeiros anos de escolaridade haja disciplinas obrigatórias de música. De aprendizagem da música, de um instrumento e, principalmente, do gostar e entender a música. Não nos surpreendemos, portanto, de que com tais princípios, os jovens comecem desde muito cedo a tocar e a frequentar os concertos que se realizam quase diariamente um pouco por todo o lado.


Aqui em Portugal não há tradição nesta matéria. Houve excepções, certamente, e uma delas, recordo, foi o maestro José Atalaya que durante algum tempo promoveu encontros com os mais jovens onde, com o suporte de uma orquestra, ensinava a ouvir e a trautear música clássica de Betthoven, Mozart, Liszt, Strauss e tantos outros.


Pena foi que essas experiências não tenham prosseguido, pelo menos de forma consistente. Com as condições climáticas que temos, seria muito agradável encontrarmos em algumas ruas e praças das nossas cidades grupos, orquestras ou mesmo solistas a tocar boa música. Seria, certamente, um prazer para o espírito.






terça-feira, junho 15, 2010

Onde é que eu já vi este filme?


A Islândia já foi considerado um país rico e com um alto nível de vida. Só que às vezes, de um momento para o outro, algo corre mal e vai tudo por água abaixo. Primeiro, foi o subprime americano que deu cabo das economias de quase todo o mundo e, como foi o caso, levou a Islândia à falência.


Depois, e como vingança, a Islândia deu luz verde para que o seu vulcão Eyjafjallajokull entrasse em erupção forte, de molde a que as cinzas se espalhassem por uma boa parte da Europa e fossem afectar as economias dos outros países. “Toma para não se ficarem a rir …”, devem ter pensado os islandeses. Ainda por cima, a obrigaram a rapaziada a pronunciar o nome do vulcão o que, convenhamos, não é nada fácil, Eyja … ou lá que é.


Agora a ilha nórdica, virtualmente falida e acossada pelos credores internacionais, achou que tinha chegado a hora de mostrar ao mundo que os tempos estavam a mudar. Longe do estereótipo antigo de que o povo islandês era sombrio e frio, foram muito mais longe. Como? Com a vitória nas eleições autárquicas de um partido cujo programa eleitoral se baseou em três propostas fundamentais: a construção de uma Disneylândia, a compra de um urso polar para o jardim zoológico da capital e a distribuição gratuita de toalhas. Nem mais.


“O Melhor Partido”, assim se chama o partido vencedor, conquistou o eleitorado com uns retumbantes 34,7%. Porém, não se sabe ainda se vai efectivamente assumir o mandato, dado que o resultado obtido pode ter representado apenas o descontentamento dos islandeses pela governação que os levou à situação em que se encontram.


De qualquer forma, se o partido humorista pegar nas rédeas da governação vai querer cumprir a principal promessa eleitoral que o líder do partido, o comediante Jon Gnarr, propalou até à exaustão durante a campanha:


“Vamos prometer o dobro dos outros partidos e cumprir o mesmo: nada!”


Onde é que eu já vi este filme?


segunda-feira, junho 14, 2010

Fins-de-semana graaaaaandes …..


Então, ficaram satisfeitos com os feriados destas duas semanas? Sim, eu sei que ficaram. Bem vistas as coisas, um feriado à quinta-feira dá, pelo menos, quatro dias de descanso com apenas um diazinho de férias. E no caso de quererem ir a algum lado – cá em Portugal, já se vê, porque há que ter em conta a sugestão do Sr. Presidente da República – com oito dias de férias conseguem baldar-se ao trabalho nada menos do que 14 dias. Está bem, já sei que houve os fins-de-semana, mas a verdade é que estiveram aqueles dias todos despreocupados e a gozar dos bons salários que auferem, gastando uns poucos dias das vossas preciosas férias. Sortudos!


Quem parece não gostar tanto desta brincadeira dos feriados que proporcionam as “pontes” são os patrões. E, convenhamos que, em alguns casos, têm motivos para isso. A justificação de que qualquer paralisação de trabalho é causa de perda de produtividade, embora não passe de teoria, não deixa, porém, de conter alguma verdade.


Mas, como em tudo na vida, as coisas que são boas para uns são más para outros. O ideal seria arranjar-se um meio-termo e aqui é que está o busílis:


- Portugal tem 14 feriados nacionais, mais três do que a média da União Europeia, sabendo-se que o descanso destes três dias custa, por dia, 37 milhões de euros. Uma pipa de massa.


- As “tolerâncias de ponto” e as “pontes” também são muitas, pelo que os portugueses podem contar por esta via com 22 dias para além das férias a que justamente têm direito.


Daí a vontade, já prevista no Código de Trabalho mas ainda não regulada, de “empurrar” os feriados de meio da semana para o dia útil mais próximo do fim-de-semana, à excepção do Natal e do Ano Novo, o que já acontece noutros países.


Enquanto se trocam argumentos - falta de produtividade versus direitos adquiridos – e não chega a tal regulamentação que venha alterar este estado de coisas, o melhor é gozarmos os festejos dos santos populares com muita sardinha assada e manjericos. E, claro está, começar já a planear o próximo fim-de-semana graaaaaande ….. Como se costuma dizer “Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”.





quarta-feira, junho 09, 2010

Falando de pobrezas


Li há dias algures "Um país onde se admite a possibilidade de taxar o subsídio de Natal, ou mesmo acabar com ele, mas que gasta de dinheiros públicos para TGV, altares, estádios de futebol, frotas milionárias para gestores públicos, reformas obscenas a quem trabalha meia dúzia de anos ou nem tanto, etc... é um país pobre, de facto. Mas de espírito, antes de mais”.


Subscrevo a afirmação. Mais, revolto-me com a ideia.

Porém, para além desta pobreza (moral e sem ética) existe a outra, a do dia-a-dia, a que sabemos existir sobretudo para os idosos, os desempregados, os sem-abrigo, para todos aqueles a quem a vida foi madrasta e que vemos espelhada nas estatísticas dos que não têm que comer.

A média diária de pessoas que são ajudadas pelo Banco Alimentar ronda as 285 mil. Destas, "33% são crianças" e "mais de 40%" idosos.

Isabel Jonet, presidente do BA, “recusa falar em fome, separando a realidade portuguesa da que existe nos países onde a subnutrição é a principal causa de morte. Prefere aludir a "carências alimentares”, porque, apesar de tudo, as crianças são apoiadas pelas instituições". Mas os casos não deixam de ser graves, já que muitas crianças só comem o que recebem dessas instituições, fazendo apenas uma refeição por dia”.

Uma pobreza que aumenta a cada dia que passa.

Mas ainda há as outras pobrezas, a “envergonhada” e a dos “novos pobres”, onde estão incluídos todos aqueles que, embora trabalhando, não lhes chega o dinheiro para cumprir os seus compromissos quanto mais para comprar comida.

Acho demagógico o agitar de bandeiras de que “quem não trabalha é por que não quer ou não sabe gerir o que tem”. Haverá desses, sim senhor, mas muitíssimos mais não trabalham porque, simplesmente, não há trabalho, porque a precariedade, a exploração e a discriminação são uma realidade, a qual, fatalmente, leva à pobreza.

E, obviamente, estas formas de pobreza entristecem-me, preocupam-me e revoltam-me.

terça-feira, junho 08, 2010

Totalmente inaceitável!


Apesar do país estar a abanar por tudo o que é sítio e de se proclamar aos quatro ventos que a economia está um caos, entendo que há imperativos de solidariedade que não podemos negar a quem necessita, ainda que isso vá pesar no nosso débil orçamento.


O auxílio humanitário, o envio de tropas ao abrigo de acordos internacionais, a contribuição para ajuda de programas específicos – alimentar, de criação de infra-estruturas e outros - tudo isso é justificado pela solidariedade que devemos aos demais países, mesmo que o dinheiro escasseie.


Porém, a noticiazinha despercebida a um canto de jornal, que dava conta que Portugal vai financiar na totalidade as obras de uma aldeia olímpica para os Jogos Africanos de 2011 que se vão realizar em Maputo, essa eu não compreendo de maneira alguma.


Os 114 milhões que vamos dar não se destinam a construir escolas, hospitais ou a projectos de carácter científico ou social. São apenas para se fazerem umas casitas que irão albergar uns quantos desportistas durante um curto período. E, nisto, não vejo sentimentos de generosidade nem de solidariedade que possam sustentar tal oferta, a não ser que haja contrapartidas. Mas, dessas, se existirem, ninguém adiantou o que quer que fosse.


Numa altura em que os contribuintes portugueses estão tão desesperados, sem ânimo e com pouquíssimas perspectivas quanto ao futuro, este apoio é totalmente inaceitável. Ou não?

segunda-feira, junho 07, 2010

A “teimosia” de querer ser solidário



Alguns Amigos admiraram-se de eu não vos ter “desafiado” a participar na campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar Contra a Fome que se realizou no fim-de-semana de 29 e 30 de Maio. É verdade, desta vez, a primeira em muitos anos, não escrevi uma letra que fosse sobre o assunto, apenas, e só, porque não me encontrava no país. Mas sei que, mesmo sem o minha “provocação”, as pessoas estiveram atentas ao chamamento desta obrigação cívica - que é de todos - a favor de quem mais necessita. E a prova é que nesta campanha foram recolhidas 2 006 toneladas de géneros alimentares, mais 3,9% do que tinha acontecido na campanha de Maio de 2009. Apesar de todas as dificuldades e crises, os portugueses insistem em dizer presente. Na verdade, já não me surpreendo!


Mas a generosidade e a solidariedade não se manifestam apenas nas campanhas do Banco Alimentar. Felizmente! Muitas vezes vêem de onde menos se espera, de pessoas que, elas próprias, são extremamente carenciadas.


Ainda há dias ouvi num frente-a-frente da SIC-Notícias a Arquitecta Helena Roseta referir um caso de uma senhora que vivia com muitas dificuldades num bairro pobre de Lisboa e que, apesar disso, deu guarida – abrigo e comida – a uma mulher que vivia na rua com o filho.


É por estas e por outras que eu costumo dizer que há gente que “teima” em ser solidária.

quarta-feira, junho 02, 2010

Punição com mão pesada, já!


Uma coisa que me irrita profundamente é gastar uma pipa de massa para fazer umas férias assim um bocadinho mais ambiciosas e, depois, mal acabado de chegar, não ter tempo de usufruir as boas lembranças dessas férias porque alguma coisa veio perturbar esse bem-estar.


Foi o que me aconteceu agora quando li que a Inspecção-Geral da Administração Local detectou que estavam a ser atribuídos prémios e promoções a funcionários das autarquias sem que, para isso, tivessem tido qualquer avaliação, como determina a lei.


Ao arrepio do que se encontra determinado, certos dirigentes autárquicos entenderam “oferecer” uma série de benesses indevidas, desbaratando assim de forma irresponsável os dinheiros públicos e mostrando uma inequívoca e profunda falta de respeito pela lei e pelos contribuintes.


Por isso, e para esta gentalha, não se pode exigir menos do que uma punição exemplar.

terça-feira, junho 01, 2010

O país ainda não tinha fechado


Depois de uns dias passados no exterior e perante a gravíssima conjuntura económica e social que pairava sobre nós quando parti, confesso que estava com receio de não poder regressar devido à possibilidade do país ter, entretanto, fechado.


Tanto mais que nos lugares por onde andei a informação era praticamente inexistente ou inteligível porque a linguagem, como diria o professor Marcelo, “não lembra nem ao careca”. Por isso, logo que pus o pé em solo pátrio, corri para casa – como se tivesse que ir regar as plantas do FarmVille no Facebook – para tentar saber as últimas de algum telejornal tardio. E as notícias não podiam ser melhores. As manchetes destacavam as afirmações do Cristiano Ronaldo, mergulhavam nos mais ínfimos e inacessíveis enredos da selecção nacional de futebol e enaltecia a transferência multi-milionária de Mourinho. Estava, portanto, tudo na mesma.


Os meus pensamentos mais pessimistas de que a situação financeira do país tivesse piorado, de que tivessem sido decretadas medidas ainda mais severas para os pobres cidadãos (os mesmos de sempre que acabam por ter que pagar todas as crises, ainda que nada – ou pouco - contribuam para elas) ou que, no limite, Portugal tivesse saído no mapa por se ter verificado uma nova investida das empresas de rating ou, pior ainda, por já ter chegado ao ponto de ter entrado decididamente em falência, não chegaram a verificar-se. O país ainda não tinha fechado.

sexta-feira, maio 21, 2010

Desespero



José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 19371984) foi um poeta e declamador de poesia. Poeta de personalidade entusiasta e irreverente, muitos dos seus textos têm um forte tom satírico e até panfletário. Um homem e artista fascinante.





Desespero



Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero





quinta-feira, maio 20, 2010

O Pechiché


“Vai lá dentro ao meu quarto buscar uma tesoura que deixei em cima do pechiché”.


Foram tantos os anos que ouvi falar no pechiché e tantas as gerações que escutaram o termo. Era, então, muito usual. Mas o que era de facto o pechiché? Aposto que muita gente, sobretudo a mais jovem, não faz a mínima ideia.


Pois o pechiché é um móvel bem ao estilo “art déco”, muito em moda nos anos 20 e 30 do século passado, com um espelho a meio, que fazia parte das mobílias de quarto. O da casa dos meus pais era um móvel simpático, largo e sobre o baixo, com três blocos que se ligavam entre si e todos eles com espelhos, sendo que o espelho maior era a do corpo central.


Há quem diga que aquilo que nós conhecíamos como pechiché era, afinal, uma “coiffeuse ou, em português, um toucador, porque, esse sim, tinha três espelhos.


A maior parte das mobílias era simples e, muitas delas, eram feitas de uma madeira que até nem era de grande qualidade. De qualquer modo, na época, qualquer quarto que se prezasse não prescindia de uma cama, duas mesas-de-cabeceira, um guarda-vestidos, às vezes uma cómoda e, claro, um pechiché.


Que saudades! Guardo na memória de tantos anos, viva como se fosse hoje, a lembrança do pechiché (que se calhar até era um toucador) do quarto dos meus pais.


quarta-feira, maio 19, 2010

E porque não?


Todos sabemos que o monopólio norte-americano das agências de rating está engajado a inconfessáveis interesses, designadamente os especulativos. A Moody’s, a Fitch e a S&P opinam - mal como temos visto tantas vezes - e, conforme têm salientado alguns analistas, a sua acção “não é saudável para o mundo e muito menos para a economia europeia”. Por isso, é com grande preocupação que se assiste à vertigem especulativa que tem vindo a penalizar as economias dos países do sul da Europa, nomeadamente a Grécia, Portugal e Espanha.


No caso do nosso país, sabemos que existem enormíssimos problemas estruturais que já deveriam ter sido resolvidos há décadas (e não foram), que a recuperação da economia não se verifica, que o desemprego não pára de subir e que pesa sobre nós a ameaça (de que não podemos prever as consequências) provocada pelo endividamento que se tornou imparável nos últimos anos.


Mas as notações das agências não têm ajudado. O ataque que tem sido feito à Grécia, a Portugal e à Espanha tem sido forte, comparando números que não são comparáveis e emitindo pareceres que devendo fazer parte da solução, são, também eles, uma parte importante do problema. É um ataque duro aos países mas é também um ataque – penso que já ninguém terá dúvidas sobre isso – ao euro que tem vindo a depreciar-se em relação ao dólar. E, acreditem, nada acontece por acaso.


Daí que a iniciativa da União Europeia em criar uma agência de notação europeia tenha sido muito bem acolhida. É urgente dar uma resposta ao ataque violento da especulação. Contudo, seria bem-vindo um organismo que fosse sólido, credível e transparente e não, como referia há dias o Ministro Teixeira dos Santos, “um boneco que esteja nas mãos dos poderes públicos para ser simpático aos governos”.


Uma agência de rating europeia. Porque não?

terça-feira, maio 18, 2010

Afinal em que ficamos?


Ainda na última quarta-feira ouvimos, no Parlamento, o Vice-Presidente da bancada parlamentar do PSD, Miguel Frasquilho, afirmar que “a situação a que chegamos é a consequência dos caminhos seguidos pelo Governo e que contribuiu para que o país e a administração pública continuassem a gastar acima das suas possibilidades. Foi assim no Orçamento para 2010 e no PEC até ir a Bruxelas porque lá ouviu das boas”. Portanto, Frasquilho, cascou forte e feio no Governo.

Pois o mesmo Miguel Frasquilho elaborou um documento para o Banco Espírito Santo onde defende o Governo socialista e afasta um cenário de crise política.

O documento, intitulado “A Economia Portuguesa – Maio de 2010”, e citado pelo Diário de Notícias, tinha como destino potenciais investidores estrangeiros. Nele, Frasquilho sublinha os esforços do Executivo para reduzir o défice e assegura que o país não corre riscos de liquidez.


Afinal em que ficamos? Será que não conseguimos sair da costumada dissonância entre o que se diz hoje e o que se dirá ou disse noutro qualquer dia? Será que é falta de coerência ou simplesmente cegueira política? É por estas e por outras que o povo costuma dizer que eles (os políticos) são todos farinha do mesmo saco.

segunda-feira, maio 17, 2010

Homenagem a Saldanha Sanches


José Luís Saldanha Sanches, Doutor em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, professor universitário e jurisconsulto, notável fiscalista, autor de livros e artigos e comentador da actualidade política e económica morreu há dias aos 66 anos.


Não estranhem por isso que a primeira crónica desta semana seja dedicada à figura e à memória de Saldanha Sanches. E faço-o, sobretudo, pelo grande respeito que a sua grandeza moral, a frontalidade e a coerência que sempre norteou a sua vida me merecem. É que partilhássemos, ou não, da sua ideologia, nunca conseguíamos ficar indiferentes à coragem e à irreverência como defendia as suas ideias. Por certo, ninguém irá esquecer os seus comentários directos e dirigidos a políticos quando estava em causa a corrupção e a defesa do interesse público.


Fernando Rosas recordou-o como “um homem de uma geração de luta e de combate”.


O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, relembrou Saldanha Sanches como "uma das vozes mais livres e exigentes que sempre se bateu com coragem pela liberdade antes e depois do 25 de Abril. Aliás, Saldanha Sanches esteve preso antes do 25 de Abril e já depois de restaurada a democracia e, de ambas as vezes, por defender as suas convicções.


A esposa, a Procuradora-Geral Adjunta Maria José Morgado, disse sobre o marido “ser intolerável com a corrupção, os cobardes e os oportunistas, além de que morreu como sempre viveu – um homem livre”.


Ao lembrar o homem que agora desaparece, não posso deixar de sublinhar – em jeito de homenagem - a sua última crónica (excelente como sempre), a que chamou “Os Papa-Reformas” já ditada do leito do hospital, em que criticava a acumulação de reformas e complementos em algumas empresas públicas, muitas vezes com promoções sem trabalho. Dizia também que o aumento do IVA e a tributação das mais-valias de nada servem se o Estado continuar a esbanjar dinheiro como o tem feito até aqui. Atacou as obras públicas e disse que por estas razões o Estado vive agrilhoado a compromissos políticos, arranjinhos, promessas e vassalagens, sendo uma verdadeira esquizofrenia que nada se faça contra esta situação num momento economicamente difícil para o país.


Mesmo nos derradeiros momentos, José Luís Saldanha Sanches fez jus ao respeito que lhe tínhamos há muito: por ser um homem livre, honesto, coerente e desassombrado.


quinta-feira, maio 13, 2010

Nunca digas desta água não beberei


E já que nestes últimos dias tenho falado em champanhes, e para que não me acusem, como o fizeram, que ainda estou “ébrio” de alegria com a vitória do Benfica, escolhi para fazer parte do título da crónica de hoje uma palavra sem álcool - água. Apenas por uma questão de temperança.

Na semana passada José Sócrates afirmou num liceu de Paris que "nunca quis ser primeiro-ministro" e que “recorda a vontade de ser deputado e, depois de estar no Governo, a apetência para executar políticas sobretudo na área ambiental".

Coerente, já em Março de 1998, o então ministro-adjunto, em entrevista à revista “Política Mesmo”, garantia que ser primeiro-ministro não estava no seu horizonte e era até pretensão de mais”. E secretário-geral do PS? “Nunca, nem nunca pensarei nisso” … “acho até que não tenho o talento, as qualidades, nem os méritos que um líder do PS deve ter”.

Como se sabe, Sócrates foi eleito secretário-geral do PS em Setembro de 2004 e eleito primeiro-ministro em 2005 e 2009.

É que esta história de intenções, promessas e juramentos políticos tem destas coisas. Já em 1996 Marcelo Rebelo de Sousa perante a possibilidade de vir a ser escolhido para dirigir o PSD tinha jurado a pés juntos “Não! Não e Não! Nem que Cristo desça à terra!”. Pois Cristo não desceu à terra e o Professor Marcelo foi mesmo eleito líder social-democrata.

Por estas e por outras é que o melhor é mesmo seguir o ditado antigo “Nunca digas desta água não beberei”.


quarta-feira, maio 12, 2010

Mais Champanhe


Então, só para terminar este tema, é bom que se diga que quando me refiro ao champanhe não estou a pensar apenas nos excelentes vinhos que são produzidos na região de Champagne, em França, estou também a contemplar os vinhos espumantes, nomeadamente os portugueses, que os temos e bons.


Quando ontem escrevi que o champanhe é uma fonte de saúde, aludia ao facto de já há muitos anos os médicos pensarem que o vinho tinha poderes curativos. A prova disso é que o Larousse-médico, de 1920, afirmava que “este poderoso anti-infeccioso” destrói o bacilo da febre tifóide em dez minutos. Com este aval, o “poderoso medicamento” começou a ser rotulado de “Fonte da Juventude” ou de “Tisana dos Convalescentes” e a ser mais facilmente encontrado nas farmácias do que em caves.


Um último apontamento sobre esta magnífica bebida. Até agora, ainda não consegui encontrar uma explicação aceitável para, uma vez aberta a garrafa, um simples talher (um garfo ou uma colher de sobremesa) enfiado no respectivo gargalo impedir que o gasoso se perca. E garanto-vos que isto funciona mesmo, ainda que se leve dois ou três dias a esvaziar a garrafa do precioso néctar, o que eu acho um pecado.


E, já agora, expliquem-me porque é que nas comemorações de qualquer coisa, a rapaziada se lembra de agitar furiosamente a garrafa do champanhe para fazer saltar a tampa (e o líquido), perdendo-se, assim, uma grande parte do vinho? PORQUÊ? Para além do mais há que ter em conta a “guerra contra o desperdício”


Resumindo para concluir. Mais do que uma boa taça (uma flute, vá lá) de bom champanhe ou espumante, o que vale mesmo a pena é beber mais uma. Ainda que com a moderação necessária. Uma SAÚDE para todos.



terça-feira, maio 11, 2010

Hip, Hip, Hurraaaaah!


Pelo título devem julgar que tanta alegria provém do facto do meu Benfica se ter consagrado campeão da forma brilhante como o conseguiu – a jogar bem . Mas não é o caso. Estou satisfeito, sim (e vivó Benfica), mas a crónica de hoje nada tem a ver com isso.


Quem me conhece sabe que me pélo por um bom champanhe. E não só para comemorar o que quer que seja, gosto mesmo de bebê-lo a acompanhar uma refeição, uma boa conversa ou a propósito de nada.


Mas o gosto ficou ainda mais reforçado (como se isso fosse necessário …) quando li algures que o champanhe contém seiscentas variedades de moléculas. Por exemplo, magnésio e sais de carbonato que previnem a indigestão, lítio que combate a depressão e enxofre – depurativo e desintoxicante – que combate a fixação do colesterol nas paredes vasculares. O selénio (já de si um verdadeiro banho de juventude) e o fósforo transmitem a alegria que umas taças de champanhe sempre nos proporcionam.


Um bouquet óptimo, de alegria e saúde. Que mais podemos pedir?


Mas o champanhe tem ainda que se lhe diga. Amanhã voltaremos ao tema.

segunda-feira, maio 10, 2010

E o país parou


Agora é que é, a crise acabou. Pelo menos tudo indica que deve ter acabado e, com ela, foram-se os problemas que estavam a desabar sobre nós e que ameaçavam levar o país e os cidadãos à indigência.

Não, desta vez não foram José Sócrates nem Teixeira dos Santos que anunciaram que melhores ventos (não são os tais que arrastam as nuvens de cinza do vulcão da Islândia) tinham afastado a crise para longe.

Cheguei a essa conclusão ao ver o espectáculo de milhares de pessoas em todo o país a saltarem de contentes, a soprarem apitos e a agitar bandeiras e cachecóis vermelhos só por que o Glorioso, o seu Benfica, venceu o campeonato nacional de futebol. Vi as lágrimas que se soltavam (agora já não de tristeza mas de uma profunda alegria), os abraços que surgiam espontâneos e sentidos perante a concretização de um feito que todos (quase todos, vá) achavam merecido.

Esqueceram-se as angústias provocadas pela incerteza do nosso futuro e pelos sacrifícios (ainda maiores) que nos vão ser exigidos em breve. O país parou. Os canais televisivos levaram horas e horas a transmitir reportagens de ruas apinhadas de gente feliz e de engarrafamentos colossais. Entrevistas que se repetiam à exaustão a quererem saber qual era o estado de alma que aquelas almas sentiam naquele momento. E tanta era a felicidade que eu suspeito que se pedissem a muita daquela gente se estava na disposição de doar metade do ordenado ao seu clube ou … ao país, eles não hesitariam em dar. O Benfica é campeão, o resto … bem, o resto logo se vê depois da festa.

SLB! SLB! SLB!

sexta-feira, maio 07, 2010

"Porque ..."

Um soneto de Sophia de Mello Breyner Andresen

"Porque ..."

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.




quinta-feira, maio 06, 2010

Um dia vou ajudar quem mais precisa …



Embora não utilize o açúcar no café, tenho sempre curiosidade em ler o que vem escrito nos pacotinhos que acompanham a “bica”. E, por vezes, vêem-se campanhas muito giras que vale a pena acompanhar. Este é um meio magnífico para, por exemplo, se transmitirem mensagens sobre saúde, informações de carácter cultural ou cívica, iniciativas em volta e por causa de uma causa ou, simplesmente, onde se faz publicidade a uma qualquer marca ou produto. Muitas vezes em tom sério, outras com o humor que ajuda a passar o que se pretende de uma forma mais eficaz.

Ontem, ao pedir a habitual bica (em chávena escaldada), o pacotinho de açúcar trazia a frase:

“Um dia vou ajudar quem mais precisa …”

Era uma intenção, uma lembrança, um recadinho. Mas vale a pena tê-la em conta. É que há tanta gente - por vezes bem perto de nós - a necessitar dessa ajuda. E esse apoio, pode ser tão simples de dar e ter um significado enorme para quem o recebe.

“Um dia vou ajudar quem mais precisa …”. Que esse dia venha em breve.

quarta-feira, maio 05, 2010

A Nova Pobreza


Manuel António Pina é jornalista e autor do texto que se segue, que publicou no Jornal de Notícias há umas duas semanas. É visível o sarcasmo que pôs na sua crónica, a que chamou “A Nova Pobreza”. Porém, para os cidadãos, que lidam diariamente com a precariedade de emprego ou mesmo com o desemprego, com os salários demasiado baixos e com as assimetrias tão chocantemente injustas, o texto poderá, evidentemente, provocar-lhes um sorriso mas dificilmente os fará esquecer o desânimo e a depressão em que se encontram.


Ora vejam,


“A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país, fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do BCP que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos os por assim dizer postos de trabalho.

A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90 000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45 000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290 000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145 000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150 000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente.

Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior.

Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem”.


A coisa está a ficar difícil para estes gestores. Tanto mais que para estes 11 “novos pobres” não há sindicatos que os protejam nem manifestações do 1º. de Maio que defendam os seus direitos como trabalhadores. E com as reduções de salário previstas é bem provável que, pelo menos alguns deles, venham a passar dificuldades.

Quanto à sugestão de Manuel António Pina para que o Banco Alimentar Contra a Fome possa vir a apoiar mais estes “carenciados”, vou tentar mexer as minhas influências para que, pelo menos, não lhes falte um bom espumante português e um queijo da serra genuíno. Vamos a ver, não prometo.


terça-feira, maio 04, 2010

A Dúvida

Esta é uma história verdadeira, passou-se comigo. E vou contá-la porque pode servir de aviso às pessoas de boa-fé, que eu sei que ainda há algumas por aí ...


Almoçávamos num simpático restaurante de uma das nossas mais bonitas cidades e eu estava sentado à ponta de uma das mesas. Perto, numa outra mesa, de costas voltadas para mim, estava sentado um senhor que tinha o casaco encavalitado no espaldar de uma cadeira mesmo ao seu lado.


Apreciávamos o petisco quando o senhor jogou a mão ao casaco para tirar a carteira a fim de pagar a conta. Qual quê? Nada de carteira, desaparecera, evaporara-se. Levantou-se num impulso, e com ar de poucos amigos, dirigiu-me um olhar desconfiado. Aliás, ele já nem estava desconfiado, percebia-se claramente que tinha a certeza de que se a carteira tinha sumido o carteirista só podia ser eu. Afinal, era eu que estava mais perto do casaco.


Era um olhar intencional, sem direito a contraditórios, definitivamente fulminante. E senti-o eu e sentiu-o quem estava a meu lado. Sem dúvidas, mas também sem provas, eu era o culpado. Felizmente que o homem não teve a ousadia de me acusar mas eu sabia que ele não pensava outra coisa.


O clima ficou pesado. Perante aquele olhar sem palavras, senti necessidade de dizer alguma coisa. Perguntei-lhe se teria usado a carteira em algum lugar antes de ir ao restaurante. Avancei com a hipótese da carteira ter ficado no emprego ou em casa. Respondeu-me que ainda não a usara naquele dia e lançou-me um último (e desconfiado) olhar antes de sair.


A situação era embaraçosa. O homem estava sentado ao meu lado e o casaco perto de mim. Afinal, se a carteira desaparecera, não faria sentido que ele desconfiasse exactamente de mim? Admiti que sim, mais, até eu já começava a desconfiar de mim. Afinal, uma carteira não se evapora num repente.


Meia hora depois o homem voltou ao restaurante. Vinha com outra cara, sorria e percebia-se claramente que tinha encontrado a carteira. Achara-a no banco de trás do seu carro. Falou em voz alta para o dono do restaurante de modo a que nós também ouvíssemos, chegou mesmo a olhar na nossa direcção. Com outra expressão, claro. Não me pediu desculpas mas a verdade é que também não me tinha culpado (oficialmente) do que quer que fosse.


A história – verdadeira, repito – serviu-me de lição, pelo menos para me precaver em relação a situações futuras. Sentar-me perto de casacos arrumados em costas de cadeiras, nunca mais. Como disse, tudo aquilo foi embaraçoso e ainda hoje tenho bem presente aquele olhar profundo e acusador.


Fica o alerta.


segunda-feira, maio 03, 2010

A verdade desanimadora


Já aqui escrevemos, por diversas vezes, sobre as baixas qualificações dos nossos trabalhadores e empresários. Escritos que nem sempre foram muito bem acolhidos pelos Amigos que nos lêem.


A verdade, porém, goste-se ou não, é que os trabalhadores portugueses são pouco qualificados, e segundo veio agora a público, têm ainda menos competências de que os brasileiros, os turcos ou mesmo os mexicanos Cerca de 60 % da mão-de-obra em Portugal não tem qualquer formação específica. Quanto aos patrões, oito em cada dez não passaram do ensino básico. Tal como o algodão, os números não enganam.


E isto não aconteceu por acaso nem foi de repente. Para este estado de coisas muito contribui um nível de ensino que é nitidamente insatisfatório, que não prepara de forma capaz quem é lançado para o mercado de trabalho e que não motiva os alunos a aprenderem (31 % dos jovens deixam de estudar antes de terminarem o secundário e 3/5 dos nossos alunos sofrem de iliteracia ou, por outras palavras, são analfabetos funcionais). De facto, o futuro não se apresenta muito risonho.


E a nossa tristeza aumenta ainda mais quando somos confrontados com um dado verdadeiramente espantoso: no início deste século XXI, Portugal tem cerca de 10% de analfabetos, a mesma percentagem existente nos países nórdicos … no final do século XIX.


Como enfrentar, assim, a concorrência de países que julgávamos até agora serem mais atrasados do que o nosso, quando, pelo que parece, somos considerados os menos qualificados de toda a Europa?


Apesar de tudo as coisas têm vindo a melhorar mas o panorama continua triste e desanimador. Goste-se ou não, a realidade é esta e, tenho a certeza, ninguém feliz com ela. Há muito para fazer. E depressa.





sexta-feira, abril 30, 2010

Pedintes ou empreendedores?


Braga, como todos sabem, é conhecida pela “Cidade dos Arcebispos”. Para além de ser uma cidade com muita juventude e de estar cada vez mais bonita, Braga distingue-se pelos seus templos. Belos e imponentes, desde a Sé Catedral, a Basílica, Santuários, Mosteiros, Conventos e um sem-número de Igrejas.


Há duas semanas voltei à capital do Minho e, “obrigatoriamente” revisitei algumas dessas Igrejas. E foi com espanto que, numa delas, enquanto decorria uma missa, vi um homem abordar várias pessoas para lhes pedir dinheiro. A celebração não impediu que o pedinte deambulasse pelo templo a seu belo prazer, perante a indiferença da maioria dos presentes e do próprio padre.


Umas horas depois e uns metros mais à frente, numa outra Igreja do centro, dei de caras com um outro pedinte, este sentado nos degraus da escadaria que culminava na porta principal da Igreja, estendendo a mão a quem entrava ou saía do templo. Mas o que me espantou verdadeiramente foi o constatar que sempre que lhe era recusado o óbolo solicitado, o homem desencantava por debaixo de um cobertor que lhe cobria as pernas um objecto que vim a perceber tratar-se de um relógio. Não conseguida a esmola, a acção seguinte era tentar vender um relógio.


Perante tamanho descaramento, tanto num como noutro caso, não pude deixar de pensar que o que ali se passava era, tão-somente, a mais pura manifestação de desenrascanço, sem qualquer espécie de limites e com a manifesta condescendência das autoridades policiais e eclesiásticas. Incrédulo, fiquei com a sensação de que a margem entre o pedinte e o empreendedor era, naqueles casos, muito curta.

quinta-feira, abril 29, 2010

A “Estética do Artifício”



Quando, na crónica de ontem, transcrevi parte de uma declaração da Dr.ª. Maria do Carmo Vieira, em que citava um dos heterónimos de Fernando Pessoa – Bernardo Soares – logo fiquei entusiasmado com a ideia de publicar aqui um pequeno texto do seu O livro do desassossego.


O livro é constituído por fragmentos e é considerado uma das obras fundadoras da ficção portuguesa do século XX.


Deliciem-se, então, com a “Estética do Artifício”


“A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar.


Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza”.




quarta-feira, abril 28, 2010

De novo, o novo acordo ortográfico

Como sabem, o novo acordo ortográfico já entrou oficialmente em vigor mas, até 2012, decorre um período de transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia actual. No entanto, e porque um número crescente de pessoas está em des(acordo) com as alterações introduzidas, é bom que tenhamos consciência que continua a ser possível forçar a revisão da decisão política anteriormente assumida.


E isto de não estar de acordo com este acordo, não é, como querem fazer crer, por pura resistência à mudança. Trata-se tão-somente do repúdio de muitas pessoas pelas regras e princípios que foram aceites, que não fazem qualquer sentido e que foram acertados por uns quantos linguistas brasileiros e portugueses.


Já há dois anos um grupo de cidadãos e personalidades públicas (encabeçadas pelo antigo eurodeputado Vasco Graça Moura) levou ao Parlamento uma petição com 32 mil assinaturas. Apesar do esforço, os deputados acabaram por dar luz verde ao novo acordo. Agora, foi lançado um novo movimento, porventura ainda mais pujante, liderado pela professora de português Maria do Carmo Vieira e pelo tradutor João Pedro Graça que pretende reunir 35 mil portugueses em torno da causa, uma iniciativa que, na prática, e uma vez que chegue ao Parlamento, tem a força de projecto-lei que, caso conte com o apoio da maioria dos deputados pode revogar o acordo ortográfico e fazer voltar à velha ortografia.


Em entrevista, Maria do Carmo Vieira referia “Como Fernando Pessoa diz, através de Bernardo Soares, “a minha pátria é a língua portuguesa”, por isso a minha pátria é o território, tem as suas raízes, tem o tempo, tem os falantes e o Brasil também terá os seus, fez as suas variantes em relação ao português e abençoada a língua que assim é … não podem é, porque nós somos em maior número, como disseram os brasileiros, impor uma série de alterações. Houve até linguistas, os mais radicais brasileiros, que propuseram que em vez de se chamar língua portuguesa se chamasse língua brasileira. Ora isto, historicamente, é um branqueamento inaudito da cultura”.



Porque sou português e amante da minha língua, faço questão de reiterar veementemente a posição que já aqui expressei em crónicas anteriores sobre este assunto. Isto é, por não vislumbrar justificações aceitáveis para uma mudança tão significativa da nossa forma de escrever, continuo a não concordar com o novo acordo ortográfico.