terça-feira, dezembro 21, 2010
segunda-feira, dezembro 20, 2010
Do que eu falaria hoje se não estivéssemos no Natal
Estou já tão imbuído do espírito natalício que não me sentiria bem se hoje me pusesse a comentar “certas coisas” que andam por aí. Estamos na época em que os corações estão mais sensíveis e são palavras como saúde, paz, amor, compreensão e fraternidade que mais gostamos de dizer e de ouvir.
Não fosse assim e certamente especularia sobre a forma peculiar como Cavaco Silva tem promulgado uma série de leis. Isto é, não gosta delas, nunca as faria, acha que os seus efeitos irão ser nefastos mas, ainda assim, assina-as. Dá-lhes, portanto, o seu aval muito embora faça questão de justificar que não está de acordo com elas. Insólito, no mínimo. O normal seria estar de acordo e vamos a isso ou não gosto e devolvo.
Não fosse o Natal e provavelmente estaria aqui a meditar sobre o ano que se aproxima e sobre as dificuldades que vamos sentir. 2011 para além das penalizações salariais das famílias trar-nos-á o aumento significativo dos bens essenciais como o pão (12%), os transportes (3,5 a 4,5%) e a electricidade (3,8%) para além do IVA, claro. Mas a época desaconselha-me a tal.
Não fosse a enorme dose de generosidade própria da época e dissertaria sobre os países onde o nosso Governo anda à procura de financiamentos mais em conta do que aqueles que conseguimos nos chamados “mercados”. Na China, na Líbia, no Brasil ou nos Emiratos onde, certamente, vamos obter os empréstimos que necessitamos com taxas mais baixas mas com contrapartidas ainda desconhecidas. Sim, por que alguns desses “países amigos” não são propriamente democracias e vão querer que estejamos do seu lado em certas votações. Mas, como se costuma dizer, “em tempo de guerra não se limpam armas”.
Não fosse esta quadra, comentaria certamente os 500 milhões de euros (mais 500 milhões) que o Estado vai injectar no BPN.
Mas é Natal e o melhor será falar-vos em esperança. É uma coisa que, por enquanto, não paga imposto e, de certa forma, aconchega-nos a alma. É bom termos esperança e é muito bom acreditar no futuro. Como o nosso Manuel de Oliveira que aos 102 anos continua a realizar filmes e a receber prémios e o de uma senhora inglesa com 103 anos que é a mais velha utilizadora do Facebook. Exemplos que, sem dúvida, nos devem inspirar. Bom Natal!
sexta-feira, dezembro 17, 2010
Emprego e Desemprego do Poeta
Do Poeta e ensaísta português Ruy Belo (1933 – 1978)
“Emprego e Desemprego do Poeta”
Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia
Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar
Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão
Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos
“Emprego e Desemprego do Poeta”
Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia
Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar
Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão
Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Tive sorte
A rua era larga e de passeios largos. O trânsito diminuto. Parei o carro em cima do passeio (largo) para ir à loja que ficava em frente. Questão de minutos, pensava eu. Ainda assim, com a preocupação de que pudesse causar algum incómodo aos transeuntes, assomava constantemente à porta para verificar que não havia problema.
Numa das vezes, não teriam passado mais de dez minutos, vi que me tinham bloqueado o carro e, para o tornar ainda mais bonito, tinham-lhe colocado uma fita multicor ao seu redor. Percebi que a multa já cá cantava.
A carrinha da Polícia Municipal estava a cerca de 20 metros. Tudo se tinha passado num ápice. Corri até eles. Para ser sincero nem sequer tive vontade de justificar a minha infracção, achei que não valia a pena. Só lhes disse, em tom de desabafo (ainda que com ironia), “foram eficazes”.
Explicaram-me que incorria em três “crimes”: estacionamento em cima do passeio, impedimento de passagem de peões e de cadeiras de rodas ou carrinhos de bebés e obstrução à saída dos veículos estacionados. Tudo junto eram 90 euros para resolver a situação. Porém, como se aperceberam (!!!) que eu tinha aparecido umas quantas vezes à porta da loja, só me penalizaram pelas duas primeiras infracções. Assim, “apenas” paguei 30 euros de coima e mais 30 por me bloquearem/desbloquearem o carro.
Tive sorte, apesar de tudo. “Poupei” os 30 euros da multa que me perdoaram e “poupei” o telefonema para virem desbloquear o automóvel. Ah, e ainda tive a sorte de ter pela frente um polícia simpático e conversador que fez questão de me dar todas as explicações.
Depois de ter apertado a mão ao polícia, entrei no carro (já sem a tal fitinha) e saí dali com o sentimento que o Natal é uma época de paz e compreensão.
quarta-feira, dezembro 15, 2010
A saúde em Portugal – bem, mal ou nem por isso?
Sou acérrimo defensor de uma total transparência na vida pública. Afinal o Estado somos todos nós e temos o direito de saber se a coisa pública está, ou não, a ser bem administrada. Só que a avaliação poderá ficar distorcida se as sucessivas notícias do que corre mal não tiverem como contrapartida tudo aquilo que se faz bem (sim, por que há também muitas coisas que são boas). E isso pode gerar um sentimento negativo nos cidadãos, o qual assenta, muitas vezes, no puro desconhecimento do que realmente acontece.
No caso da saúde, por exemplo, diz-se amiudadamente que é um sector que não funciona, é desorganizado e onde não podemos confiar. Mas será que é mesmo assim?
Pois a confiar no estudo levado a cabo pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) que conclui que o Serviço Nacional de Saúde está degradado e é insustentável, somos capazes de admitir que o fim se aproxima e que aquilo que os portugueses julgavam ser uma conquista e um direito para sempre, está à beira de acabar.
Só que, desta vez, existe a tal contrapartida de que falávamos. Através de um outro estudo, este da OCDE, ficámos a saber que Portugal é dos mais eficientes (entre os 29 países mais desenvolvidos) na despesa que faz com a saúde. Ou seja, no nosso país a despesa pública com a saúde não tem grandes desperdícios e será difícil ser muito mais eficiente. E, para os ganhos em saúde da população, os gastos até nem dispararam. O relatório nada diz quanto à sustentabilidade do sistema mas um facto que parece relevante é o de 76,9% dos portugueses estarem insatisfeitos com o SNS.
Face à aparente divergência dos resultados obtidos nestes dois estudos, é legítima a interrogação: será que os portugueses que se manifestaram descontentes com o Serviço Nacional de Saúde foram exactamente os mesmos que acharam que, entre todos os operadores de transportes de Lisboa, o Metro é aquele que tem melhor ar condicionado? É que o Metropolitano de Lisboa não tem qualquer sistema de ar condicionado e apenas utiliza ventilação sem refrigeração...
terça-feira, dezembro 14, 2010
E o elogio não deveria fazer parte da prática política?
Independentemente da cor política do partido que está no poder, o que tenho assistido ao longo dos anos dentro e fora do Parlamento é um contínuo bota abaixo das oposições a respeito de tudo. Pelo que se faz, pelo que se deixa de fazer ou pelo que se faz mal. De qualquer jeito, o mote é “vocês erraram” e “prontos”! E isso irrita-me solenemente. É que alguma coisa de certo os governos farão.
Daí que tenha ouvido com agrado as palavras do líder parlamentar do PSD que elogiou as medidas apresentadas pelo Primeiro-Ministro para a educação, nomeadamente, o reforço de programas para o sucesso escolar, o estudo acompanhado da matemática, português e ciências no ensino básico e a criação de uma "tutoria digital" para estas disciplinas.
Miguel Macedo considerou ainda que "o país está numa direcção certa" em matéria de educação, destacando a melhoria de resultados dos alunos portugueses observados no relatório PISA da OCDE.
Até que enfim. Considero que numa democracia a sério tem que haver regras básicas. Nomeadamente que haja discussão de ideias, exercício da crítica profunda e rigorosa e reconhecimento do que se faz bem. Isto, a acontecer, só engrandeceria os políticos e enriqueceria a própria democracia.
segunda-feira, dezembro 13, 2010
Como se pode ficar insensível ao que se passa?
Muito se fala nas desigualdades que colocam Portugal no pódio dos países onde existem maiores diferenças entre os que mais ganham e os que menos recebem. Falamos mas a maior parte das vezes nem nos apercebemos bem da verdadeira dimensão dessas assimetrias. Os exemplos, porém, ajudam-nos a entendê-las um pouco melhor.Com um desemprego que estará na casa dos 11,7% da população activa (cerca de 650 mil pessoas), em que 22% dos que têm emprego estão com contratos a prazo, com uma remuneração média que andará pelos 800 euros e com a maioria pensões que têm valores idênticos ao salário mínimo (475,00 €), não podemos ficar indiferentes quando constatamos que muitos gestores não executivos, aqueles que não têm funções de gestão, chegam a ganhar 7 400 euros por reunião.
Sem demagogias e sem pretender atacar pessoalmente quem quer que seja, dou-vos um exemplo (e poderia dar-vos bastantes mais) desses gestores de topo que são pagos principescamente. Não está em causa se o merecem ou não nem, tão-pouco, se pretende avaliar as suas capacidades e experiências. O que parece relevante sublinhar é o exagero do que alguns recebem, sobretudo quando enquadrados num país como o nosso onde há fome e a maioria das pessoas sentem grandes dificuldades para sobreviver.
E o exemplo que quero dar é o do Dr. Daniel Proença de Carvalho, por quem tenho o maior respeito, que é um dos responsáveis com mais cargos entre os administradores não executivos das empresas cotadas no PSI-20 e também o mais bem pago. É Presidente do Conselho de Administração da ZON, membro da comissão de remunerações do BES, Vice-Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da CGD, Presidente da Mesa da GALP Energia e desempenha funções semelhantes em mais 30 empresas. Recebeu em 2009 (só nas empresas cotadas em Bolsa) 252 mil euros por ter participado em 16 reuniões, ou seja, 15,8 mil euros por reunião.
Não acham escandaloso? Por muito e magnífico trabalho que tenha desenvolvido (e não tenho dúvidas que o fez) na preparação dessas reuniões, durante as mesmas e até mesmo depois, e ainda que tenha pago todos os impostos devidos, não acham excessivo que só nas tais 16 reuniões uma pessoa receba 252 mil euros, ou seja, o correspondente a 18 mil euros por mês, catorze meses por ano?
É chocante, não é? E isto passa-se em Portugal, precisamente o país que ainda esta semana foi noticiado como tendo o segundo valor mais alto no índice de desigualdade social da União Europeia.Como se pode ficar insensível a isto?
sexta-feira, dezembro 10, 2010
Banda desenhada no Facebook? Boa!...
Para que a vida não se torne demasiada monótona, inventam-se de tempos a tempos novas modas. Desde há algumas semanas as pessoas que frequentam o Facebook lembraram-se de substituir as suas fotografias (que lá estavam escarrapachadas para melhor serem reconhecidas) por figuras de banda desenhada.Pergunto, tinham vergonha de mostrarem as vossas caras larocas ou o intuito foi a mera segurança e privacidade de cada um? Eu acho que o que originou isto foi um movimento lançado no próprio Face mas olhem que esse já era e saiu tão rapidamente como entrou. E ainda que eu prefira os bonequinhos de BD aos “vultos” que não identificam nem distinguem a quem pertencem, como poderei continuar a “encontrar-me” convosco sem ter a certeza se estou de facto perante um de vós ou simplesmente a olhar para o Mickey?
É uma fase? Muito bem, esperarei que ela passe. Depois, e uma vez terminada a exposição das crianças que têm dentro de vós e todas essas recordações de tempos idos, por favor voltem às fotos com expressão, àquelas que nos deixam olhar nos olhos e saber que vocês estão desse lado.
quinta-feira, dezembro 09, 2010
O apelo de Eric Cantona
Os amantes de futebol recordam-se certamente de Cantona - Eric Cantona - o francês que brilhou nos relvados ao serviço da selecção francesa e do Manchester United na década de noventa. Cantona foi um jogador de um talento indiscutível e foi mesmo considerado o melhor jogador da história do Manchester.Mas, reconheçamos, o génio do jogador ultrapassava as quatro linhas do campo e dava corpo a atitudes que assumia fora dos relvados, muitas delas excêntricas, quando não reprováveis.
Pois Cantona, o agora actor, fotógrafo, dinamizador de causas sociais e seleccionador francês de futebol de praia, voltou à ribalta para apelar, através da internet, a que as pessoas corram aos bancos para levantar o dinheiro que lá têm. "Se 20 milhões de pessoas forem ao banco levantar o dinheiro, o sistema afunda-se e a revolução faz-se sem armas nem sangue, é tudo muito simples", dizia Cantona no vídeo, onde acrescentava que esta era a melhor maneira de se ver a revolta popular. “Depois, as pessoas vão ouvir-nos”, concluiu.
Claro que esta “finta” do antigo futebolista, apesar de ter já uns largos milhares de apoiantes no espaço cibernético, não vai ter acolhimento por aí além e, se tivesse, seria perigoso. Todos sabemos que uma corrida em massa aos bancos, por destruir a confiança que as pessoas têm no sistema bancário poderia pôr em causa o seu funcionamento por falta de liquidez.
Aliás, a criação dos Bancos Centrais e dos Fundos de Garantia aconteceu exactamente para responder aos cenários de pânico e corridas aos bancos que aconteceram no início do século passado.
Uma coisa é estar danado com os banqueiros e com a forma como conseguem pagar menos impostos do que as outras empresas e, nesse sentido, percebe-se a animosidade popular contra a banca. Outra é desejar a falência do sector bancário, o que, creio, ninguém quer.
Como aqui tenho referido por diversas vezes, uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa. Quanto ao Eric Cantona, eu sempre o considerei genial como … futebolista.
terça-feira, dezembro 07, 2010
Os Açores e as compensações salariais
É curioso como tantas vezes se gastam energias a discutir coisas … pelo lado errado. Então em política isso é muito comum, questionam-se as minudências e esquecem-se do que é verdadeiramente importante.
Tal como está a acontecer agora com as tão badaladas (e politizadas) compensações salariais dos funcionários públicos dos Açores. Na verdade, pouco interessa se essas compensações são ou não inconstitucionais ou se é mais significativo que estes funcionários continuem a receber o seu salário por inteiro ou que os muitos milhares de outros funcionários vejam reduzido o seu vencimento.
O que para mim está em causa é tão-somente uma questão de justiça. Se se pedem sacrifícios aos portugueses, é justo que todos contribuam para esse sacrifício. E medidas que ludibriem este princípio são moralmente condenáveis, ainda que sejam legais.
Políticas à parte, as declarações críticas do Presidente/Candidato Cavaco Silva, embora mal aceites pelo partido que apoia o governo e pelo seu candidato presidencial, têm toda a razão de ser. Ou seja, dentro dos mesmos níveis salariais, os cortes devem ser aplicados a todos de igual forma. Se não, digam-me como acham que se sentem os trabalhadores que são vítimas desta discriminação?
Se estes privilégios – sim, por que é disso que se trata – forem considerados inconstitucionais tanto melhor. Mas sejam ou não, o facto é que estamos perante uma questão de ética e de equidade. E não me venham dizer que 5% sobre 1 750,00 euros é diferente em Vila Nova de Poiares ou em Angra do Heroísmo, porque, de facto, não é.
sexta-feira, dezembro 03, 2010
Até o Eleven mandaram às ortigas …
Posso até entender que a debilidade da nossa economia preocupe tremendamente quem nos empresta dinheiro. A prova é que as taxas de juro não param de aumentar.
Mas já não percebo que esse facto determine e justifique que o famoso Guia Michelin tenha tirado a estrelinha a uma das catedrais da nova burguesia, o Restaurante Eleven, em Lisboa.
A coisa está a ficar feia, meus Amigos. Eu sei que ainda nos resta um restaurante com duas estrelas Michelin (o Vila Joya, em Albufeira) e mais dez com uma estrela, mas não me conformo – eu que até nem frequento o Eleven - que um dos melhores restaurantes da capital e do país, onde os produtos de excelência, a arte e a criatividade eram (e continuam a ser, ao que consta) uma referência tenham sido, pura e simplesmente, esquecidos e mandados às ortigas.
Como diria o Calimero: “É uma injustiça, não é?”
terça-feira, novembro 30, 2010
Eu que me comovo por tudo e por nada
A campanha do Banco Alimentar Contra a Fome que decorreu no último fim-de-semana em muitos supers e hipermercados do país recolheu 3 260 toneladas de alimentos. Um aumento de 30% face ao período homólogo do ano passado. Um balanço que superou em muito as melhores expectativas.
Foi um verdadeiro festival de solidariedade em que muitos milhares de pessoas indiferentes à crise económica (ou exactamente por causa dela) acorreram prontamente à chamada para colaborar com aqueles que mais necessitam. Durante estes dois dias tive a ocasião de observar a forma generosa como quiseram contribuir, chegando mesmo a deslocarem-se propositadamente aos locais só para comprar alimentos destinados à campanha. Pessoas de todas as idades e de condições sociais distintas que, dentro das possibilidades de cada um, se mostraram disponíveis para colaborar E a muitas delas, depois de entregarem os seus sacos de compras, ouvi-as dizer: “Bem hajam pelo vosso trabalho, que Deus vos ajude pelo bem que fazem” ou, simplesmente, “Obrigado”. Tocante, na verdade.
Mas não quero deixar de partilhar duas situações (a que assisti) que achei enternecedoras.
A primeira, a de uma criança dos seus seis anitos que fez questão de oferecer um produto que ela achou ser extremamente importante. Num saco do BA entregou (convicta e orgulhosamente) … uma embalagem de Sugus.
A segunda história foi a de um caixa de supermercado de uma grande superfície que aproveitando a presença de uma voluntária do BA entregou – disfarçadamente - 4 euros para que ela comprasse alguns produtos com que ele pretendia contribuir. A voluntária ainda lhe perguntou por que razão não o fazia directamente mas ele respondeu, como que envergonhado, que não queria dar nas vistas.
É perante casos como estes (e juro que vos podia contar muitas dezenas de outros mais) que me comovo e me curvo. “Eu que me comovo por tudo e por nada”, como dizia o Vitorino.
sexta-feira, novembro 26, 2010
Neste fim-de-semana lá estaremos
A próxima Campanha de Recolha de Alimentos em supermercados e superfícies comerciais, levada a efeito pelo Banco Alimentar, realiza-se no próximo fim-de-semana, dias 27 e 28 de Novembro de 2010.
Milhares de pessoas carenciadas contam consigo!
Participe. Alimente esta ideia.
terça-feira, novembro 23, 2010
Afinal o Governo quer diminuir a despesa
Os comentários políticos e económicos que são feitos em toda a comunicação social, embora dissecados por analistas e peritos muito conhecedores e respeitáveis, pecam muitas vezes por falta de rigor e por não serem inteiramente justos.
Quantas vezes ouviram falar nos últimos tempos que é necessário pôr fim ao despesismo do Estado? Pois bem, se é verdade que a despesa do Estado continua a aumentar, por uma questão de justiça devemos reconhecer que têm sido feitos alguns esforços para se gastar menos.
Como se pôde comprovar, aliás, na semana passada no Congresso das Comunicações, organizado pela APDC, quando o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça, e o seu subordinado, o Secretário de Estado Adjunto, Paulo Campos, leram discursos praticamente iguais. Frases, ideias e intenções ditas por um e repetidas mais tarde pelo outro.
E não me venham com a teoria, de resto adiantada pelo Governo, que os discursos “de tão parecidos” mostram como o Ministro e o seu Secretário de Estado comungam das políticas definidas pelo Governo. Bullshit! Tretas!
Para mim, o lapso aconteceu porque, para pouparem umas massas, mandaram embora alguns assessores e os que lá ficaram, por falta de tempo, rabiscaram um único discurso que desse para os dois. A não ser que, e essa explicação também é plausível, que já não haja coordenação no Ministério e eles andem de cabeça completamente perdida. Será?
segunda-feira, novembro 22, 2010
NATO ou OTAN? Decidam-se …
A semana que agora terminou correu bem a Portugal. Depois da cabazada que demos aos espanhóis no encontro das selecções de futebol tivemos a cimeira da NATO que juntou em Lisboa grandes líderes mundiais e que, ao que dizem, foi histórica porque … porque … ora, leiam os jornais e saibam porquê.
Quanto ao futebol estamos falados (e orgulhosos) por sabermos que, pelo menos nos jogos a feijões, aqueles que não contam para os títulos, somos fantásticos.
No que diz respeito à cimeira, gostava de destacar dois aspectos. O primeiro é que apesar de sermos mestres do desenrasca, especialistas em resolver as coisas à última hora, demonstrámos mais uma vez que somos mesmo bons quando nos pomos a organizar qualquer evento. Tudo correu bem e nada falhou. A outra é que embora se temesse violentas situações de conflito, como aconteceu noutras partes do mundo onde se realizaram outras cimeiras, demonstrámos que somos um povo pacífico e que nem mesmo a presença de activistas porventura mais nervosos foi suficientemente mobilizadora para gerar um chinfrim de montras partidas, carros incendiados e lojas vandalizadas. Tudo foi pacífico, mesmo a manifestação Anti-Nato que não teve distúrbios dignos desse nome.
Ainda sobre manifestações, gostaria de dizer que seria desejável que as pessoas só desfilassem quando soubessem minimamente o que estão a protestar e quais os destinatários que pretendem atingir. É que ouvi em várias reportagens televisivas manifestantes dizerem que estavam ali para protestar contra a NATO. Mas quando lhes perguntavam (com ironia mal disfarçada), então e relativamente à OTAN? Respondiam com um vago sentimento revolucionário “Ah, e contra a OTAN também. Abaixo o capitalismo, a NATO e a OTAN”.
É uma pena que nem todos saibam que a Organização do Tratado do Atlântico Norte, também chamada Aliança Atlântica, é uma organização internacional de colaboração militar que responde pelos nomes de
em inglês, NATO – North Atlantic Treaty Organization, e
em francês, OTAN – Organisation du Traité de L’Atlantique Nord
É o mínimo que se exige a quem se manifesta. E como temos uma greve geral à porta, espero bem que todos saibam os motivos da sua indignação. É que as manifestações não são propriamente centros de dia nem passeatas de socialização entre quem se sente só. Há muito mais em jogo para além disso.
sexta-feira, novembro 19, 2010
O amor é lindo
Eu que sou um eterno romântico, sempre achei que o amor, o amor verdadeiro, é uma coisa maravilhosa. Continuo a olhar enternecido para aqueles casais que, tal como as pilhas de uma certa marca, duram, duram, duram.Mas hoje dou-vos conta de um casal fora do comum. Mark Duffield-Thomas, britânico, e Denise, australiana, já deram o nó 83 vezes. Nem mais. E um com o outro, sublinhe-se.
Já casaram em luxuosos resorts, em praias e piscinas, em cavernas, lagoas e até em masmorras, em países como Inglaterra, Indonésia, Tailândia, Espanha ou Ilhas Maurícias. Sem repetições e sempre com a vontade de surpreender. Mas não só, claro. O casal pretende chegar às 100 cerimónias de casamento e querem (e estão quase a consegui-lo) bater o recorde do Guiness. Isto, claro está (e não menos importante), para além de estarem a promover uma empresa irlandesa de organização de casamentos.
Mas é importante que saibam que Mark e Denise só casaram (pela primeira vez) o ano passado. É que, à velocidade com que renovam os votos, a excentricidade pode tornar-se uma enorme rotina. E aí, ninguém poderá prever se daqui a 17 cerimónias, quando fizerem as cem, essa venha a constituir a antevisão da cerimónia final … a do divórcio.
quinta-feira, novembro 18, 2010
A crise, qual crise?
Há poucas horas assistimos à goleada (4 a 0) imposta pela selecção portuguesa de futebol à sua congénere espanhola. E fê-lo de uma forma alegre, simples e dominadora, jogando com uma determinação a que já nos desabituara. Vencer a Espanha – a actual campeã da Europa e do Mundo - ainda que num encontro particular, faz-nos bem à alma. Somos “hermanos”, é verdade, mas a rivalidade é mais que muita e ninguém gosta de perder nem a feijões.
Foi um jogo frenético e a equipa de todos nós, a mesma (ou quase a mesma) que ainda há meses parecia ter perdido a qualidade que todos sabíamos existir, emergiu poderosa para uma partida de futebol muito bem jogada.
Quatro a zero à Espanha. A resposta (a vingança) à eliminação que a mesma Espanha nos tinha infligido nos oitavos de final do Mundial de Futebol de 2010, há escassos meses na África do Sul.
Perante este banho de futebol, a nossa auto-estima subiu. Pelo menos por umas horas esquecemo-nos dos nossos problemas e da crise. Crise, qual crise?
quarta-feira, novembro 17, 2010
terça-feira, novembro 16, 2010
Como acreditar?
Há anos que os Governos não se cansam de pedir sacrifícios aos portugueses. Em nome das crises, dos deficits, dos endividamentos externos, da continuação do estado social, das ou dos quaisquer pretextos, a palavra de ordem para o Zé-povinho é “vamos ter que apertar o cinto”. E a receita é sempre a mesma, o aumento da carga fiscal que, invariavelmente, penaliza sobretudo aqueles que menos têm.
Perante aquilo que parece ser uma inevitabilidade, o que se podia esperar em troca era que os sacrifícios também fossem assumidos pelo Estado. Dir-me-ão que falar no Estado assim desta maneira é um bocado vago e que os seus funcionários já vão ter cortes nos salários e aumentos no IRS (para além do IVA que, esse, é para todos). Certo, mas não era aos funcionários que eu me referia. O que estava a pensar era nas contratações que estão agora a ser feitas, de 45 novos funcionários por semana para cargos no Governo e na administração directa e indirecta do Estado, já depois de terem sido anunciadas as medidas de austeridade.
Apesar do último PEC apontar para a contenção da despesa pública, assistimos não ao emagrecimento do Estado mas à sua engorda com o inerente aumento de encargos com o pessoal. Eu sei que o Governo já veio justificar que os que estão a entrar vão substituir os que saem e, muitos deles, já transitam de outros lugares do Estado. Será? Temos bons motivos para desconfiar.
E o que pensar sobre o que veio noticiado na imprensa de ontem sobre as mudanças na tributação, propostas no Orçamento para 2011, que deixam de fora os principais milionários da Bolsa portuguesa? A ser verdade, que explicação haverá?
Mas poderia dar muito mais exemplos. Ainda há dias vi passar um administrador (que eu conheço) de uma empresa pública (que todos conhecemos) num carro topo de gama de uma marca conhecida (e muito cara), acabadinho de sair do stand. Não me contaram, eu vi!
Assim sendo, como aceitar os sucessivos apelos de quem nos governa? E como corresponder a eles, perante o que vamos assistindo? Já quase não conseguimos apertar o cinto … por falta de furos.
Como dizia o outro, “Já basta de realidades queremos promessas”.
segunda-feira, novembro 15, 2010
Os habilidosos
Embora as estatísticas vão alternando de semana para semana ao sabor do número de empresas que vão fechando, as últimas que foram divulgadas dão conta que o Distrito de Portalegre é onde se regista maior carência alimentar e o concelho de Mesão Frio onde há mais desemprego.
Para o comum dos cidadãos parece que uma coisa deveria ser a consequência da outra mas, ao que parece, nem sempre é assim.
Mas o que hoje chamou a minha particular atenção foi o desemprego em Mesão Frio, onde existem 400 desempregados no concelho, cerca de 12,2% da população. Mas será que há, de facto, desemprego ou os desempregados, pura e simplesmente, não querem trabalhar?
Fiquei boquiaberto ao assistir ao programa “Linha da Frente” exibido na última semana na RTP, quando uma psicóloga do Gabinete de Inserção Profissional afirmava sem papas na língua:
“Uma cláusula que fazem logo na primeira entrevista é que não querem trabalhar ao fim-de-semana e, se for um trabalho que englobe umas horas nocturnas, tipo dez da noite, nove e meia ou por turnos, não querem. Se for longe de casa é impensável. As pessoas quando se vêm inscrever o que pedem são cursos de formação profissional, em que a bolsa seja considerável e perto de casa. Se for um curso um bocadinho longe já não querem… As mulheres inscritas não procuram nem esperam trabalho. Sabem que por aqui têm acesso a um curso de formação profissional que não requer esforço físico, que pode durar um ou dois anos e com bolsas entre os 200 e 500 euros, não raras vezes acima de um ordenado mínimo nacional. E podem acabar um e começar outro”.
Palavras para quê? Mais claro do que isto é impossível. Afirmações que, de certo modo, vêm dar razão às teorias que um certo líder de um partido da oposição faz questão de repetir até à exaustão. Demagogias à parte, acabamos por ter que lhe dar razão nesta matéria.
Mas cuidado. É perigoso generalizar e o que se passa em Mesão Frio pode não corresponder ao que acontece noutras zonas do país. É absolutamente necessário que haja rigor na análise das situações e que se actue caso a caso. Podemos até perceber que haja razões para que as pessoas não aceitem certos trabalhos mas não devemos condescender com o laxismo que se instalou na nossa sociedade. E, sobretudo, não podemos confundir os habilidosos, os “falsos desempregados”, com os muitos milhares de cidadãos que procuram desesperadamente uma ocupação, perto ou longe de casa, com horários certinhos ou não, fora ou dentro das habilitações académicas e da preparação profissional que possuem.
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