segunda-feira, janeiro 24, 2011

Saiu-nos cara a campanha para a Presidência

E pronto. Já lá vão a pré-campanha, os debates, as arruadas, os comícios, os cartazes e bandeirinhas, a propriamente dita campanha eleitoral, a votação e já temos o novo Presidente que, por acaso, é o mesmíssimo que já lá estava. E ficámos satisfeitos? Não, não estou a falar da pessoa que ganhou, isso tem a ver com as convicções de cada um. Perguntava se estavam satisfeitos com o facto de para podermos assistir a todo este trolaró o Estado ter desembolsado quase doze milhões de euros. Doze milhões, repito!

É que é difícil de aceitar que, sempre que há uma campanha eleitoral, se esbanje tanto dinheiro que, certamente, devia ter melhor utilização. Reparem que eu não estou a sugerir que o melhor seria não haver eleições. Longe disso, sou republicano, amo a democracia e acho indispensável que o povo seja chamado a escolher os seus representantes. Não vejo é necessidade deste folclore todo a que já poucos ligam e quase nada acrescenta. Ainda mais numa campanha para a Presidência da República. Então, o que fazer?

Quanto a mim, o custo da democracia deveria ser repensado. O recurso à internet, os debates na televisão pública e os sítios de cada candidato deveriam ser mais do que suficientes para esclarecer o povo. Já todos percebemos que os actuais métodos cativam muito pouco e a prova está na campanha que acabámos de viver. Não serviu para nada e gastou-se dinheiro de mais.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Um "cê" a mais


Enquanto a isso não for obrigado, não utilizarei aqui no blogue a nova grafia imposta pelo Novo Acordo Ortográfico (não confundir com “A cor do horto gráfico”). Não por teimosia mas por coerência. Continuo a achar que a maior parte das alterações não faz qualquer sentido nem acrescenta qualquer evolução à nossa língua quer para nós portugueses, nem para os outros povos que a falam. Houve, então, interesses que levaram a este resultado? Penso que sim. Mas adiante.

No entanto, nesta minha posição, não estou só. Aliás, estou muito bem acompanhado de personalidades reconhecidas do meio académico e intelectual que se têm manifestado repetidamente contra o Acordo ao longo dos últimos anos.

É o caso de Manuel Halpern, jornalista, escritor e crítico literário que escreveu o delicioso texto que gostaria de partilhar convosco e que passo a transcrever:
“Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.”

Em consciência, digam lá se eu tenho ou não razão para continuar a escrever de acordo com ortografia antiga?

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Às vezes os comentários são “perigosos”


Muitas vezes confunde-se a simples opinião com o ataque pessoal. Não estar de acordo com alguém não significa que estejamos a atacar pessoalmente, apenas quer dizer que não se concorda com as ideias de outrem ou a forma como elas são levadas à prática. Tão simples como isso. Porém, nem todos pensam desta maneira.

Vejam o caso que foi relatado há dias pela imprensa. Um pintor da construção começou a ser julgado pelo crime de difamação por ter feito um comentário sobre Alberto João Jardim. O cidadão participou um fórum on-line e à questão “Acha que AJJ vai abandonar o cargo em 2011?” o homem teve o “desplante” de responder “Oxalá! Essa coisa de defender madeirenses é tudo treta, ele defende mas é alguns madeirenses: subsidiodependentes, empresários gananciosos que tudo querem ganhar à custa dos que pagam impostos”.

Perante isto, hediondo de delito de opinião, como poderia reagir o Presidente do Governo Regional. Obviamente mover a respectiva acção judicial contra o “criminoso”.

Esta história fez-me recuar uns trinta e tal anos quando um simples sussurro era mais do que suficiente para nos mandar directamente para a prisão.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Se calhar a água da torneira não é suficientemente boa para os deputados …

Quando se pedem tantos sacrifícios aos cidadãos e se fala insistentemente na redução da despesa do Estado, pareceu-me fazer todo o sentido a iniciativa de uns quantos deputados de um grupo parlamentar para que na Assembleia da República passasse a ser servida água da torneira (em jarro) em vez de água mineral. Tanto mais que a qualidade da água da Companhia é reconhecidamente de boa qualidade. Gostei da iniciativa e pensei (ingenuamente) que os nossos representantes no Parlamento estavam a dar um sinal claro de que certos privilégios sem sentido estavam a desaparecer. Afinal, quando nós queremos beber água engarrafada pagamos.

Mas não, por proposta da Secretária-Geral da AR (aceite pelo respectivo Conselho de Administração), invocando argumentos que poucos perceberão, foi determinado que a água que será servida aos senhores deputados continuará a ser mineral. E a mais importante das razões aduzidas (e aquela que eu não entendo mesmo) é que se a troca proposta fosse avante, a poupança gerada seria, em 2011, apenas de 7 500 euros. Pouca coisa para tão grande “sacrifício”.

Espero, contudo, que outros departamentos do Estado não tenham o mesmo tipo de raciocínio. É que, como diz o adágio, “grão a grão enche a galinha o papo” e é (também) de pequenas poupanças, feitas aqui e ali, que se conseguem equilibrar os orçamentos.

terça-feira, janeiro 18, 2011

“A tradição continua a ser (mais ou menos) o que era”


Embora tanta vez se diga que “a tradição já não é o que era”, eu achava que ainda havia tradições “à maneira antiga”. A da ceia do Natal, por exemplo. É mesmo a mais paradigmática, aquela que ao longo dos anos e dos desvios mais ou menos significativos da fé de cada um e do desmultiplicar das famílias que se vão formando, a consoada continua a ser a festa (a reunião) da família. Nem que seja uma vez por ano, aquela é a noite da família, do bacalhau, dos fritos, do bolo-rei (embora aqui haja particularidades gastronómicas que não convergem) e da troca de prendas, trazidas antes pelo Menino Jesus e agora, com a função delegada, pelo Pai Natal.

Mas o que eu não sabia mesmo é que a noite de 24 de Dezembro é hoje em dia uma das mais rentáveis do ano em bares e discotecas. Ao que parece, cumprida a “formalidade” do jantar e das prendas, os jovens (e não só) saem para ir arejar e beber uns copos com os amigos. Virou moda trocar o serão familiar por uma noite de convívio fora de portas.

Do mal, o menos. Prescinda-se, então, da tradição de ficar em casa com a família mas preserve-se, pelo menos, o hábito do jantar e, já agora, das prendinhas que devem vir embrulhadas de afectos.

Voltemos à frase com iniciámos esta crónica para actualizá-la: “A tradição continua a ser (mais ou menos) o que era”.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A reforma da mulher do candidato não chega aos 800 euros


Em Ponte de Lima, em plena acção da campanha eleitoral que está a decorrer, um candidato à Presidência da República foi interpelado por uma idosa que lhe pediu ajuda para conseguir uma reforma, embora reconhecesse que nunca tinha descontado qualquer importância. Querem saber se houve uma palavra de esperança, de conforto ou de genuíno interesse pela situação da senhora? Pois muito bem, a resposta dada foi a seguinte:

“Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda. Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, nunca descobriram a reforma dela. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda”.

Os meus Amigos acham este tipo de resposta normal? Não é, pois não? É que foi dada por um candidato a Presidente da República que, por acaso, já é Presidente da República há cinco anos. Palavras para quê?


sexta-feira, janeiro 14, 2011

Esquecimentos


Certamente que já vos aconteceu ter lapsos de memória. Sucede a todos. Esquecimentos momentâneos de nomes, datas ou situações, nada de muito importante. Diria mesmo que isso é comum, embora isso aconteça mais a uns do que a outros.

Até é natural (e frequente) a partir de determinada idade (não digo qual que é para não ficarem preocupados). Faz parte do processo de envelhecimento.

Mas o que é preocupante mesmo é a falta de memória para determinados factos que mais parecem ser de conveniência.

Como o que aconteceu ao recém-demitido Presidente dos CTT, Estanislau Mata Costa. Então não é que este senhor, que antes tinha sido quadro da PT, recebia dois ordenados, um de Presidente dos Correios (15 000 euros) e outro pelas suas anteriores funções na PT (23 000 euros), empresa com a qual fez um acordo de suspensão de contrato, embora “estranhamente” sem perda de remuneração.
Enquanto durou este lapso de memória - cerca de dois anos – recebeu quase 40 mil euros por mês até que uma auditoria da Inspecção-Geral de Finanças descobriu que ali havia coisa. Uma coisa que pode até ser legal (?) mas que do ponto de vista ético é altamente reprovável.

É caso para pensar que há “esquecimentos” providenciais.


quinta-feira, janeiro 13, 2011

Conservem o lado bom das coisas


O ano que agora começou não vai ser fácil. Aquietem-se, contudo, os que nos lêem, porque para anúncio das desgraças que aí vêem (incluindo a possível entrada em Portugal de um diabo chamado FMI), já bastam os políticos, os economistas, os analistas, os jornalistas e outros quejandos. Aconselho-os, pois, como terapia contra todos esses males, que passem a olhar de uma outra forma para as coisas a que hoje não dão grande valor. Pelo menos para evitar que venham mais tarde a admitir que “eram tão felizes e não sabiam”.

Curiosamente, uma sugestão que foi feita pelo agora cessante embaixador britânico em Lisboa, Alexander Ellis, que propõe, como contrapartida ao pessimismo reinante na nossa sociedade, que reflictamos sobre as coisas boas que existem no nosso país e que ele gostaria que nunca mudassem. Por exemplo:

“- A ligação intergeracional. Portugal é um país em que os jovens e os velhos conversam - normalmente dentro do contexto familiar. O estatuto de avô é altíssimo na sociedade portuguesa - e ainda bem. Os portugueses respeitam a primeira e a terceira idade, para o benefício de todos.

- O lugar central da comida na vida diária. O almoço conta, não uma sandes comida com pressa e mal digerida, mas com uma sopa, um prato quente etc., tudo comido à mesa e em companhia. Também aqui se reforça uma ligação com a família.

- A variedade da paisagem. Não conheço outro país onde seja possível ver tanta coisa num dia só, desde a imponência do rio Douro até à beleza das planícies do Alentejo, passando pelos planaltos e pela serra da Beira Interior.

- A tolerância. Nunca vivi num país que aceita tão bem os estrangeiros. Não é por acaso que Portugal é considerado um dos países mais abertos aos emigrantes pelo estudo internacional MIPEX.

- O café e os cafés. Os lugares são simples, acolhedores e agradáveis; a bebida é um pequeno prazer diário, especialmente quando acompanhado por um pastel de nata quente.

- A inocência. É difícil descrever esta ideia em poucas palavras sem parecer paternalista; mas vi no meu primeiro fim-de-semana em Portugal, numa festa popular em Vila Real, adolescentes a dançar danças tradicionais com uma alegria e abertura que têm, na sua raiz, uma certa inocência.

- Um profundo espírito de independência. Olhando para o mapa ibérico parece estranho que Portugal continue a ser um país independente. Mas é e não é por acaso. No fundo de cada português há um espírito profundamente autónomo e independentista.

- As mulheres. O Adido de Defesa na Embaixada há quinze anos deu-me um conselho precioso: "Jovem, se quiser uma coisa para ser mesmo bem-feita neste país, dê a tarefa a uma mulher". Concordei tanto que me casei com uma portuguesa.

- A curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo. A influência de "lá" é evidente cá, na comida, nas artes, nos nomes. Portugal é um pais ligado, e que quer continuar ligado, aos outros continentes do mundo.”

Como vêem, temos boas condições para resistir. Com dificuldade, admito, mas, ainda assim, mais do que suficientes para vencer. FELIZ 2011!

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Quando eu nasci


Durante as férias natalícias fiz anos. É uma data que teimo em celebrar e da qual, garanto-vos, não pretendo desistir tão cedo. Que querem, manias de gente que insiste em gostar de aniversariar e de receber os cumprimentos (e abraços) dos amigos. E não me venham com a velha história de que isso é coisa de crianças por que, de facto, não é. Algo muda, naturalmente, com o passar dos anos, sobretudo pela ausência das pessoas que já partiram, mas os afectos continuam. E eu dou muito valor a isso.

Mas, hoje, sou eu que vos trago uma prenda. A propósito de aniversários, eis um belo poema de José Régio, “Quando eu nasci”


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Mourinho, um “orgulhoso português”



Já vão longe os tempos em que me emocionava quando via a bandeira portuguesa a ondular num mastro de qualquer cidade estrangeira.

Também me emocionei quando, anos depois, vi o Carlos Lopes e a Rosa Mota subirem aos mais altos lugares dos pódios das maiores competições internacionais de atletismo. Emocionei-me de novo quando ouvi José Saramago discursar em português ao receber o Nobel da Literatura. Tornei a emocionar-me há horas ao assistir à consagração de José Mourinho ao ser eleito pela FIFA o melhor treinador do ano.

E, desta vez, não foi apenas pelo facto de ser um compatriota a conquistar tal prémio, ele que de facto teve em 2010 uma caminhada tão gloriosa que conquistou tudo o que um treinador de um clube de futebol pode ambicionar ganhar. Não, a minha emoção foi sobretudo por ele ter feito um curto mas significativo discurso em … português (tal como o fizera Saramago) e ter afirmado convicto que falava em português por que era um “orgulhoso português”.

José Mourinho voltou a ser o “Special One” e, momentaneamente, deixámos de falar em “mercados” e em crise. Que mais poderíamos desejar?

Sei lá porquê, fui lembrar-me de uma pergunta feita há meses pelo jornal espanhol “Marca”:

“Qual a diferença entre Deus e Mourinho?” E a resposta óbvia e inteligente foi dada na hora:

“Deus nunca se sentiu Mourinho”.

Para bom entendedor …

segunda-feira, janeiro 10, 2011

1000 posts publicados



Neste início de ano tenho o gosto de publicar o post número mil do “Por Linhas Tortas”. É um número redondo, bem sei, que provavelmente pouco dirá a quem nos acompanha mas que é importante para mim. Desde logo por que já são muitos mas, sobretudo, por que representam, de algum modo, a minha “teimosia” em continuar. E a verdade é que nunca pensei chegar tão longe.

Apesar de este blogue ser generalista (tento, quanto possível, escrevinhar sobre assuntos variados, seria muito mais fácil se se tratasse de um blogue temático), nunca senti a angústia de me faltar um tema. A velha história do jornalista frente à sua máquina e o vazio da folha por escrever. Quem sabe se por imaginar que isso pudesse vir a acontecer, recebi, logo no início, uma mensagem em que um Amigo me dizia:

“Lá virá o tempo em que por falta de melhor tema/assunto se discutirão estes magnos problemas”.

E a que problemas é que se referia este meu Amigo? É que ele achava que a palavra “Despretensiosa” que estava a usar em determinada frase, ficaria mais graciosa e elegante se em vez de usar um s, antes se escrevesse com um c, pelo que a palavra ficaria a ser “Despretenciosa”.

Não tenho quaisquer preferências por uma ou por outra forma, se bem que a segunda – Despretenciosa – ainda não exista oficialmente na nossa língua. E, ao que sei, o novo acordo ortográfico também não alterou a situação. Fico, portanto, na dúvida se a palavra, como pretendia o meu Amigo, ficaria mais graciosa e elegante se escrita com um c.

Incapaz de opinar por uma das duas, decido-me, no entanto, pelo modelo que é hoje oficialmente aceite, isto é “despretensiosa”, não correndo assim o risco de me chamarem a atenção por ter cometido um imperdoável erro ortográfico.

E, em jeito de remate, já que estamos a falar de palavras que têm – ou poderiam vir a ter – cês, deliciem-se com este pequeno poema de um autor conhecido pelo pseudónimo de “Romântico Analfabeto”


E disse o piloto à sua amada
“eu escreveria o seu nome
mil vezes no céu com o
rasto do meu jacto,
Cecília,
Se não fosse tão difícil
Fazer a cedilha”

terça-feira, dezembro 21, 2010

Boas Festas

Cumprimento todos os que nos têm feito companhia ao longo do tempo e, nesta época de festas, desejo que tenham

SAÚDE

PAZ e

AMOR

E que 2011 vos traga tudo de bom

BOAS FESTAS!
BOM ANO NOVO!

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Do que eu falaria hoje se não estivéssemos no Natal


Estou já tão imbuído do espírito natalício que não me sentiria bem se hoje me pusesse a comentar “certas coisas” que andam por aí. Estamos na época em que os corações estão mais sensíveis e são palavras como saúde, paz, amor, compreensão e fraternidade que mais gostamos de dizer e de ouvir.

Não fosse assim e certamente especularia sobre a forma peculiar como Cavaco Silva tem promulgado uma série de leis. Isto é, não gosta delas, nunca as faria, acha que os seus efeitos irão ser nefastos mas, ainda assim, assina-as. Dá-lhes, portanto, o seu aval muito embora faça questão de justificar que não está de acordo com elas. Insólito, no mínimo. O normal seria estar de acordo e vamos a isso ou não gosto e devolvo.

Não fosse o Natal e provavelmente estaria aqui a meditar sobre o ano que se aproxima e sobre as dificuldades que vamos sentir. 2011 para além das penalizações salariais das famílias trar-nos-á o aumento significativo dos bens essenciais como o pão (12%), os transportes (3,5 a 4,5%) e a electricidade (3,8%) para além do IVA, claro. Mas a época desaconselha-me a tal.

Não fosse a enorme dose de generosidade própria da época e dissertaria sobre os países onde o nosso Governo anda à procura de financiamentos mais em conta do que aqueles que conseguimos nos chamados “mercados”. Na China, na Líbia, no Brasil ou nos Emiratos onde, certamente, vamos obter os empréstimos que necessitamos com taxas mais baixas mas com contrapartidas ainda desconhecidas. Sim, por que alguns desses “países amigos” não são propriamente democracias e vão querer que estejamos do seu lado em certas votações. Mas, como se costuma dizer, “em tempo de guerra não se limpam armas”.

Não fosse esta quadra, comentaria certamente os 500 milhões de euros (mais 500 milhões) que o Estado vai injectar no BPN.

Mas é Natal e o melhor será falar-vos em esperança. É uma coisa que, por enquanto, não paga imposto e, de certa forma, aconchega-nos a alma. É bom termos esperança e é muito bom acreditar no futuro. Como o nosso Manuel de Oliveira que aos 102 anos continua a realizar filmes e a receber prémios e o de uma senhora inglesa com 103 anos que é a mais velha utilizadora do Facebook. Exemplos que, sem dúvida, nos devem inspirar. Bom Natal!

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Emprego e Desemprego do Poeta

Do Poeta e ensaísta português Ruy Belo (1933 – 1978)

“Emprego e Desemprego do Poeta”


Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Tive sorte


A rua era larga e de passeios largos. O trânsito diminuto. Parei o carro em cima do passeio (largo) para ir à loja que ficava em frente. Questão de minutos, pensava eu. Ainda assim, com a preocupação de que pudesse causar algum incómodo aos transeuntes, assomava constantemente à porta para verificar que não havia problema.

Numa das vezes, não teriam passado mais de dez minutos, vi que me tinham bloqueado o carro e, para o tornar ainda mais bonito, tinham-lhe colocado uma fita multicor ao seu redor. Percebi que a multa já cá cantava.

A carrinha da Polícia Municipal estava a cerca de 20 metros. Tudo se tinha passado num ápice. Corri até eles. Para ser sincero nem sequer tive vontade de justificar a minha infracção, achei que não valia a pena. Só lhes disse, em tom de desabafo (ainda que com ironia), “foram eficazes”.

Explicaram-me que incorria em três “crimes”: estacionamento em cima do passeio, impedimento de passagem de peões e de cadeiras de rodas ou carrinhos de bebés e obstrução à saída dos veículos estacionados. Tudo junto eram 90 euros para resolver a situação. Porém, como se aperceberam (!!!) que eu tinha aparecido umas quantas vezes à porta da loja, só me penalizaram pelas duas primeiras infracções. Assim, “apenas” paguei 30 euros de coima e mais 30 por me bloquearem/desbloquearem o carro.

Tive sorte, apesar de tudo. “Poupei” os 30 euros da multa que me perdoaram e “poupei” o telefonema para virem desbloquear o automóvel. Ah, e ainda tive a sorte de ter pela frente um polícia simpático e conversador que fez questão de me dar todas as explicações.

Depois de ter apertado a mão ao polícia, entrei no carro (já sem a tal fitinha) e saí dali com o sentimento que o Natal é uma época de paz e compreensão.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

A saúde em Portugal – bem, mal ou nem por isso?

Sou acérrimo defensor de uma total transparência na vida pública. Afinal o Estado somos todos nós e temos o direito de saber se a coisa pública está, ou não, a ser bem administrada. Só que a avaliação poderá ficar distorcida se as sucessivas notícias do que corre mal não tiverem como contrapartida tudo aquilo que se faz bem (sim, por que há também muitas coisas que são boas). E isso pode gerar um sentimento negativo nos cidadãos, o qual assenta, muitas vezes, no puro desconhecimento do que realmente acontece.

No caso da saúde, por exemplo, diz-se amiudadamente que é um sector que não funciona, é desorganizado e onde não podemos confiar. Mas será que é mesmo assim?

Pois a confiar no estudo levado a cabo pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) que conclui que o Serviço Nacional de Saúde está degradado e é insustentável, somos capazes de admitir que o fim se aproxima e que aquilo que os portugueses julgavam ser uma conquista e um direito para sempre, está à beira de acabar.

Só que, desta vez, existe a tal contrapartida de que falávamos. Através de um outro estudo, este da OCDE, ficámos a saber que Portugal é dos mais eficientes (entre os 29 países mais desenvolvidos) na despesa que faz com a saúde. Ou seja, no nosso país a despesa pública com a saúde não tem grandes desperdícios e será difícil ser muito mais eficiente. E, para os ganhos em saúde da população, os gastos até nem dispararam. O relatório nada diz quanto à sustentabilidade do sistema mas um
facto que parece relevante é o de 76,9% dos portugueses estarem insatisfeitos com o SNS.

Face à aparente divergência dos resultados obtidos nestes dois estudos, é legítima a interrogação: será que os portugueses que se manifestaram descontentes com o Serviço Nacional de Saúde foram exactamente os mesmos que acharam que, entre todos os operadores de transportes de Lisboa, o Metro é aquele que tem melhor ar condicionado? É que o Metropolitano de Lisboa não tem qualquer sistema de ar condicionado e apenas utiliza ventilação sem refrigeração...

terça-feira, dezembro 14, 2010

E o elogio não deveria fazer parte da prática política?



Independentemente da cor política do partido que está no poder, o que tenho assistido ao longo dos anos dentro e fora do Parlamento é um contínuo bota abaixo das oposições a respeito de tudo. Pelo que se faz, pelo que se deixa de fazer ou pelo que se faz mal. De qualquer jeito, o mote é “vocês erraram” e “prontos”! E isso irrita-me solenemente. É que alguma coisa de certo os governos farão.

Daí que tenha ouvido com agrado as palavras do líder parlamentar do PSD que elogiou as medidas apresentadas pelo Primeiro-Ministro para a educação, nomeadamente, o reforço de programas para o sucesso escolar, o estudo acompanhado da matemática, português e ciências no ensino básico e a criação de uma "tutoria digital" para estas disciplinas.

Miguel Macedo considerou ainda que "o país está numa direcção certa" em matéria de educação, destacando a melhoria de resultados dos alunos portugueses observados no relatório PISA da OCDE.

Até que enfim. Considero que numa democracia a sério tem que haver regras básicas. Nomeadamente que haja discussão de ideias, exercício da crítica profunda e rigorosa e reconhecimento do que se faz bem. Isto, a acontecer, só engrandeceria os políticos e enriqueceria a própria democracia.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Como se pode ficar insensível ao que se passa?

Muito se fala nas desigualdades que colocam Portugal no pódio dos países onde existem maiores diferenças entre os que mais ganham e os que menos recebem. Falamos mas a maior parte das vezes nem nos apercebemos bem da verdadeira dimensão dessas assimetrias. Os exemplos, porém, ajudam-nos a entendê-las um pouco melhor.

Com um desemprego que estará na casa dos 11,7% da população activa (cerca de 650 mil pessoas), em que 22% dos que têm emprego estão com contratos a prazo, com uma remuneração média que andará pelos 800 euros e com a maioria pensões que têm valores idênticos ao salário mínimo (475,00 €), não podemos ficar indiferentes quando constatamos que muitos gestores não executivos, aqueles que não têm funções de gestão, chegam a ganhar 7 400 euros por reunião.

Sem demagogias e sem pretender atacar pessoalmente quem quer que seja, dou-vos um exemplo (e poderia dar-vos bastantes mais) desses gestores de topo que são pagos principescamente. Não está em causa se o merecem ou não nem, tão-pouco, se pretende avaliar as suas capacidades e experiências. O que parece relevante sublinhar é o exagero do que alguns recebem, sobretudo quando enquadrados num país como o nosso onde há fome e a maioria das pessoas sentem grandes dificuldades para sobreviver.

E o exemplo que quero dar é o do Dr. Daniel Proença de Carvalho, por quem tenho o maior respeito, que é um dos responsáveis com mais cargos entre os administradores não executivos das empresas cotadas no PSI-20 e também o mais bem pago. É Presidente do Conselho de Administração da ZON, membro da comissão de remunerações do BES, Vice-Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da CGD, Presidente da Mesa da GALP Energia e desempenha funções semelhantes em mais 30 empresas. Recebeu em 2009 (só nas empresas cotadas em Bolsa) 252 mil euros por ter participado em 16 reuniões, ou seja, 15,8 mil euros por reunião.

Não acham escandaloso? Por muito e magnífico trabalho que tenha desenvolvido (e não tenho dúvidas que o fez) na preparação dessas reuniões, durante as mesmas e até mesmo depois, e ainda que tenha pago todos os impostos devidos, não acham excessivo que só nas tais 16 reuniões uma pessoa receba 252 mil euros, ou seja, o correspondente a 18 mil euros por mês, catorze meses por ano?

É chocante, não é? E isto passa-se em Portugal, precisamente o país que ainda esta semana foi noticiado como tendo o segundo valor mais alto no índice de desigualdade social da União Europeia.Como se pode ficar insensível a isto?

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Banda desenhada no Facebook? Boa!...

Para que a vida não se torne demasiada monótona, inventam-se de tempos a tempos novas modas. Desde há algumas semanas as pessoas que frequentam o Facebook lembraram-se de substituir as suas fotografias (que lá estavam escarrapachadas para melhor serem reconhecidas) por figuras de banda desenhada.

Pergunto, tinham vergonha de mostrarem as vossas caras larocas ou o intuito foi a mera segurança e privacidade de cada um? Eu acho que o que originou isto foi um movimento lançado no próprio Face mas olhem que esse já era e saiu tão rapidamente como entrou. E ainda que eu prefira os bonequinhos de BD aos “vultos” que não identificam nem distinguem a quem pertencem, como poderei continuar a “encontrar-me” convosco sem ter a certeza se estou de facto perante um de vós ou simplesmente a olhar para o Mickey?

É uma fase? Muito bem, esperarei que ela passe. Depois, e uma vez terminada a exposição das crianças que têm dentro de vós e todas essas recordações de tempos idos, por favor voltem às fotos com expressão, àquelas que nos deixam olhar nos olhos e saber que vocês estão desse lado.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

O apelo de Eric Cantona

Os amantes de futebol recordam-se certamente de Cantona - Eric Cantona - o francês que brilhou nos relvados ao serviço da selecção francesa e do Manchester United na década de noventa. Cantona foi um jogador de um talento indiscutível e foi mesmo considerado o melhor jogador da história do Manchester.

Mas, reconheçamos, o génio do jogador ultrapassava as quatro linhas do campo e dava corpo a atitudes que assumia fora dos relvados, muitas delas excêntricas, quando não reprováveis.

Pois Cantona, o agora actor, fotógrafo, dinamizador de causas sociais e seleccionador francês de futebol de praia, voltou à ribalta para apelar, através da internet, a que as pessoas corram aos bancos para levantar o dinheiro que lá têm. "Se 20 milhões de pessoas forem ao banco levantar o dinheiro, o sistema afunda-se e a revolução faz-se sem armas nem sangue, é tudo muito simples", dizia Cantona no vídeo, onde acrescentava que esta era a melhor maneira de se ver a revolta popular. “Depois, as pessoas vão ouvir-nos”, concluiu.

Claro que esta “finta” do antigo futebolista, apesar de ter já uns largos milhares de apoiantes no espaço cibernético, não vai ter acolhimento por aí além e, se tivesse, seria perigoso. Todos sabemos que uma corrida em massa aos bancos, por destruir a confiança que as pessoas têm no sistema bancário poderia pôr em causa o seu funcionamento por falta de liquidez.

Aliás, a criação dos Bancos Centrais e dos Fundos de Garantia aconteceu exactamente para responder aos cenários de pânico e corridas aos bancos que aconteceram no início do século passado.

Uma coisa é estar danado com os banqueiros e com a forma como conseguem pagar menos impostos do que as outras empresas e, nesse sentido, percebe-se a animosidade popular contra a banca. Outra é desejar a falência do sector bancário, o que, creio, ninguém quer.

Como aqui tenho referido por diversas vezes, uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa. Quanto ao Eric Cantona, eu sempre o considerei genial como … futebolista.