quinta-feira, setembro 09, 2010

Voltámos ao frango … sem piripíri

Não há uma só vez que vá ao Algarve que não almoce ou jante num restaurante chamado “Churrasco” que fica na Guia, ali perto de Albufeira.

Mas eu falei em restaurante? Se calhar exagerei, porque um restaurante tem normalmente uma ementa, uma carta, um folheto, uma lista, uma ardósia, seja o que for, com a discriminação dos diversos pratos, os do dia, as especialidades e os que não sendo do dia se podem mandar confeccionar no momento.

Pois àquele estabelecimento, as pessoas vão propositadamente para comer o conhecido “Frango da Guia”, que vem sempre acompanhado de batatas fritas e salada. Não há que enganar.

Não quer dizer que não haja alternativas ao frango. Há, de facto, mas a especialidade da casa é o frango assado da Guia, e quase me atreveria a dizer que mais de 90% dos pedidos vão para o frango. De tal maneira isto é assim que há uns anos, íamos a entrar e um empregado atirou-nos de supetão e sem aviso prévio “É com ou sem?...”. Soubemos mais tarde que no seu linguajar, a criatura queria apenas saber se nós queríamos o frango com ou sem piripíri.

Como já perceberam, o restaurante (lá estou eu) é o mais informal que se possa imaginar e não existem ali aquelas (pequenas) coisas que poderíamos apelidar de cortesia, ou de simpatia ou, muito simplesmente, de bom atendimento. Pelo menos quando a freguesia é muita.

Já sabíamos isso quando lá fomos no Verão do ano passado mas, mesmo assim, insistimos na dose. Ao entrar o patrão atirou-nos em jeito de aviso “olhe que hoje isto está um bocado demorado”. E estava, realmente. Na verdade, não se deviam criar grandes expectativas num dia 16 de Agosto, em que havia muita gente a começar as férias e outros a terminar. Apesar de tudo, arranjaram-nos uma mesa quase de imediato. O pior viria a seguir.

Sem que alguém tivesse culpa disso (sejamos justos) é preciso que se diga que tivemos algum azar com os vizinhos de uma mesa comprida que ficava junto à nossa. Toda a gente falava ao mesmo tempo e, para se ouvirem bem, berravam. Os miúdos que ora gritavam, ora choravam, ora corriam entre as mesas dando safanões nas cadeiras mais próximas (as nossas), estavam numa de tocar toda a espécie de “instrumentos” que os paizinhos lhes tinham posto à disposição para se distraírem.

Como se percebe, barulho e confusão não faltaram enquanto esperávamos que nos servissem. Bem, o patrão já tinha avisado que o serviço estava demorado. Mas lá trouxeram umas “azeitonitas”, pão e umas imperiais.

Esperávamos o mais pacientemente que conseguíamos, olhando “enlevados” para o concerto a quatro mãos que mãe e filho executavam com determinação na pele ressequida de um tambor, de onde saiam sons profundos e ensurdecedores.

Por fim, lá veio o frango – sem piripiri, como pedíramos – e aproveitámos para encomendar mais uma rodada de imperiais. Ou seja, encomendar, encomendámos, por diversas vezes e a diversos empregados, mas ninguém nos ligou a mínima, pelo que acabámos por comer os franganitos até ao fim e a seco.

Os empregados corriam entre as mesas, demonstrando muito boa preparação física mas nenhuma eficácia. Os dois filhos dos donos andavam mais ou menos a ajudar a família, mas os resultados eram praticamente inexistentes. Era a confusão generalizada e a perplexidade de quem esperava ser servido.

Quando vi a patroa aproximar-se, retive-a delicadamente e disse-lhe “Isto hoje está um bocado desorganizado, não está?”, ao que ela respondeu “Não me diga nada. Tem sido um entra e sai das pessoas que acabam as férias e as outras que as começam agora e, a juntar a isso, como hoje choveu, as pessoas não foram para a praia e lembraram-se de vir para aqui”

Pois é, não tinha pensado nisso. Ter que aturar todos aqueles infelizes que se lembraram de ir almoçar ao seu restaurante só porque as praias estavam molhadas não lembraria ao diabo. Pobre senhora.

A vida é assim! Então, aquela gentinha de mau feitio não podia ter ido para o cinema, ou para o supermercado? Não, parece que foi combinado e foram todos apoquentar a pobre da proprietária que tem um restaurante aberto ao público e que, supostamente, deveria ter ficado muito contente de ouvir a caixa registadora a facturar mais do que inicialmente previra.

Não querendo abusar da presença dela ali junto de mim, pedi-lhe o favor de nos trazer a carta das sobremesas. Resposta: “O melhor é você ir ali ao balcão para ver ao vivo e a cores as sobremesas que temos”.

E pronto, cá o “você” levantou-se e foi ao tal balcão escolher as sobremesas.

Faltavam ainda os cafés. Com jeitinho, não fosse ele ofender-se, a minha sogra disse ao empregado que passava que queríamos três cafés ao que o rapaz respondeu “Minha senhora, também eu quero muita coisa ... mas como é para a senhora...”

Paga a conta, saímos dali o mais depressa que pudemos, saturados de tanto barulho, confusão e mau serviço e safámo-nos para o ar fresco. Aliviados sim, mas, ao mesmo tempo convictos que iríamos voltar...

E este ano voltámos de novo.

terça-feira, setembro 07, 2010

Quando nunca há culpados


Já depois de ter escrito o post anterior, li no “Expresso” um artigo escrito pelo jornalista João Garcia, que começava assim:


“Quando as coisas correm mal na Justiça, responsabiliza-se quem? O Ministro da Justiça não, que não tem qualquer ascendente sobre juízes e procuradores e as leis fundamentais são da Assembleia da República; os conselhos superiores das magistraturas também não, pois as suas áreas de intervenção são limitadas; o PGR muito menos, quanto mais não seja porque nunca se consegue perceber se a culpa é das leis, dos tribunais, dos procuradores ou das polícias …”


Estão a ver? Para além do ritmo (lento) da justiça, também não se conseguem assacar quaisquer responsabilidades aos seus principais agentes, quer pelas demoras, quer pelo mau trabalho executado ou pelos prejuízos pessoais e colectivos que provocaram. Enfim, nunca há culpados. Perante isto quem é que acredita de que “a culpa não pode morrer solteira”?


segunda-feira, setembro 06, 2010

Uma inevitabilidade?


Por ter estado de férias, ainda não tive a oportunidade de comentar a brilhante conclusão do relatório feito por dois procuradores do Ministério Público àquela história tão badalada do “Freeport”. Mas, uma vez que estamos em plena época de “rentrées”, acho que ainda vou a tempo de recordar o assunto dado que não se desvaneceu completamente a grande desilusão de muito boa gente. Afinal, depois de tantos processos de intenção, não conseguiram provar o que quer que fosse contra o primeiro-ministro. Após seis longos anos de investigação, o MP limitou-se a concluir que não havia matéria para acusar o primeiro-ministro. Os procuradores apenas referiram que gostariam de ter ouvido José Sócrates mas não tiveram tempo. Meus Senhores, não tiveram tempo em seis anos?


Acabada (?) que está a questão, duas dúvidas porém permanecem. Será que não houve mesmo o dedinho de Sócrates naquela salganhada toda? E será que, nas últimas eleições, José Sócrates não terá perdido a sua segunda maioria absoluta, justamente porque ele era suspeito de corrupção?


Por estas e por outras é que não posso aceitar como normal a lentidão da nossa justiça. Ao contrário do que parece passar-se com o Presidente da República que afirmou “termos que aceitar o ritmo da Justiça”, como se estivéssemos perante uma inevitabilidade. E não me parece que tenha que ser assim. Não será certamente.


sexta-feira, setembro 03, 2010

Uma côdea que me custa a “engolir”

O preço do pão aumentou recentemente. A carne, o leite e os ovos também já estão mais caros. Outros produtos de primeiríssima necessidade deverão levar o mesmo rumo e já se fala que o café e o cacau poderão ser os próximos. E por já estarmos demasiado habituados a sucessivos aumentos (como se de uma fatalidade se tratasse) é frequente ouvirem-se em entrevistas de rua pessoas simples afirmarem, de forma igualmente simples e de sorriso resignado, que “é normal que aconteça, tudo sobe, não é?”.


Pode até ser. Na verdade, ao subirem os preços das matérias-primas os produtos que delas derivam são também mais caros. Mas, como costumo dizer, se o preço do whisky subir que nem que seja dez euros por garrafa o incómodo que provocam é quase nada. No entanto, se a carcaça custar mais um cêntimo e meio (como agora aconteceu) dá uma mossa dos diabos nos orçamentos de quem vive com mais dificuldade.


E o pior é que, também eu, já começo a achar que é normal que os preços das coisas subam todos os anos. Mas não tem que ser assim.


Basta o mercado de futuros de Chicago anunciar que o preço do trigo vai aumentar (devido a um facto qualquer que muitas vezes nada tem a ver com o mau ano agrícola, as chuvas, as secas ou as pragas de gafanhotos) para que esse aumento se sinta de imediato (muitas vezes ainda na mesma semana) no preço do pão em Portugal.


É, mais uma vez, a velha questão da especulação. E essa é a côdea que me custa a “engolir”.


quinta-feira, setembro 02, 2010

Os “franciús”


Sobre os portugueses emigrados em França, os “franciús como lhes chamo, a que eu fiz referência na última crónica, gostaria, ainda, de dizer o seguinte. É que se aqui há uns anos eu dava um certo desconto ao ar emproado que ostentavam quando vinham passar férias à “santa terrinha”, pavoneando-se em carros vistosos de boas marcas e tentando impressionar os pategos cá do burgo com umas quantas palavras francesas – as “vacances”, as “fenêtres” das “maisons” e as “voitures” - hoje não tenho a mínima pachorra para os aturar. Os tempos são outros e as pessoas também são outras.


Dantes eram os emigrantes de primeira geração que regressavam todos os anos a tempo de assistir às festas das suas aldeias. Tinham, maioritariamente, pouca instrução e, porque a vida lhes correu de feição lá fora, exprimiam uma certa vaidade em fazer sentir aos de cá que tinham triunfado na vida. A esses, achava-os provincianos mas admirava-lhes a coragem de terem dado o salto e de terem trabalhado duramente para conseguirem melhorar de vida.


Hoje, porém, os “franciús”, já constituem a segunda, a terceira e até a quarta geração de emigrantes. Já nasceram lá, já tiveram oportunidades semelhantes aos franceses de gema, já estudaram, já tiveram acesso a empregos mais qualificados que os seus familiares mais velhos. Tinham obrigação de serem mais civilizados e mais inteligentes a ponto de não se quererem passar por aquilo que realmente não são. Nota-se, em muitos casos, uma arrogância profunda que, quiçá, assimilaram dos próprios franceses. Até compreendo que falem sobretudo o francês – afinal já nasceram ou estão por lá há séculos - mas custa-me aceitar que usem a língua unicamente para tentarem impressionar. Só que, às vezes, o tiro sai pela culatra. Como nesta história verdadeira que se passou ali para os lados de Aveiro.


O automóvel com matrícula francesa estava estacionado em lugar não permitido. O agente da GNR estava a passar a respectiva multa quando apareceu o proprietário do veículo que tentou, em francês, dissuadir o guarda. Gesticulava muito e falou sempre em francês até que, por falta de resposta do GNR que aparentemente não o percebia, exclamou em português “estou a ver que vai mesmo multar-me…”.

Resposta imediata do agente “Oui, oui”.


quarta-feira, setembro 01, 2010

Diálogo improvável


Em Agosto o Algarve está sempre impossível. Tem demasiada gente para meu gosto, muitos portugueses, muitos estrangeiros (este ano um pouco menos) e muitos “franciús”. Franceses (dos originais, dos puros) também, mas os “franciús” a que me refiro são, como perceberam, os emigrantes portugueses radicados nos países francófonos que, nesta altura, pululam por lá como formigas e que fazem questão de nos encher os ouvidos com uma singular e barulhenta misturada linguística onde as palavras em francês se alternam e sobrepõem desordenadamente com o português.

A acrescer a toda esta confusão o calor insuportável só veio desajudar. Por isso não admira que quem trabalha em contacto com o público se desoriente um pouco mais do que é recomendável e … aceitável.

Daí que aconteçam conversas tão estranhas como esta:

Na padaria

Eu – quero um pão algarvio, por favor

Empregada – não sei se temos, às vezes os pães vêm do Alentejo

Eu – Bem, se não há pão algarvio, levo um alentejano

Outra empregada que devia ser a encarregada (em tom firme, a roçar a grosseria) – aqui todos os pães são algarvios

Empregada (a que me estava a atender) – afinal só temos pães algarvios. Quer algum?

Eu – Sim, se faz favor, a minha ideia é essa desde que aqui entrei …

O diálogo (verídico) seria improvável noutra época. Mas, com todo este calor, já não sei o que diga …



terça-feira, agosto 31, 2010

Hoje temos festa


Recuperadas as forças, volto ao vosso convívio neste dia em que o “Por Linhas Tortas” inicia o seu 6º. ano de vida.


Devo confessar que a minha ideia era manter este nosso encontro durante 5 anos. Tive sérias dúvidas se devia continuar para além disso. Porém, devido às palavras de incentivo de muitos Amigos, ao número de leitores que continuam a ter a paciência de nos acompanhar e, por que não confessar, à minha teimosia, aqui estou para comemorar mais um aniversário e dar início a um novo ano de actividade.


Cheio de ânimo, já se vê. Aqui no “Por Linhas Tortas” e também no “Baú” (http://www.bau-demascarenhas.blogspot.com/), o meu blogue mais novo, que hoje celebra o seu primeiro aniversário.


Então, vamos lá. Conto com a vossa presença.


quarta-feira, julho 28, 2010

Vão ser apenas uns dias de férias


“O blogue segue dentro de momentos …”


Como é habitual, fazemos a nossa pausa para férias.


Em 31 de Agosto o “Por Linhas Tortas” faz anos. Estaremos aqui para festejar a data.


Espero que fiquem bem.


Té já!



terça-feira, julho 27, 2010

Se vão para férias …


Estamos no Verão. Para muitas pessoas falar em Verão é exactamente o mesmo que falar em férias e em viagens. Isto é, se calhar para muitas pessoas mas, infelizmente, não para a maioria dos portugueses.

Se fazem parte do imenso número de portugueses que reservaram uma deliciosa estadia na vossa varanda de casa ou no fresco da vossa garagem, não se sintam infelizes por isso. Pensem no lado bom da coisa. Vão gastar muito menos dinheiro e nada de anormal lhes vai acontecer.

Se, por outro lado, pertencem à classe dos “sortudos” que ainda conseguiram dispor de uns trocos para viajar até à estranja, então, que gozem bastante mas, por favor, tenham cuidado com algumas leis (muitas delas absurdas e excêntricas) dos países para onde vão viajar.

Por exemplo, se forem até Singapura saibam que atirar a pastilha elástica para o chão vos pode custar uma multa de 465 euros. Aqui ao menos é de borla.

Em Vigevano, perto de Milão, é proibido sentar-se à sombra de um monumento local. A coima é de 160 euros por pessoa. No Algarve só não podem ficar encostados às falésias porque elas estão em risco de ruir.

É proibido beijar em público no Dubai, coisa que o nosso Governo ainda não se lembrou de taxar.

Atenção, se tiver a ideia de ir caçar ratos no Estado da Califórnia saiba que é necessário ter licença de caçador para usar ratoeiras. Mas, aqui para nós, quem é que lhe passa pela cabeça ir apanhar ratos para tão longe?

Pense bem, talvez seja melhor não arriscar. Passar férias por cá é capaz de ser uma boa opção. Em Portugal, apesar de tudo, já sabemos com o que podemos contar. Já temos uma ideia de como isto funciona … menos no que diz respeito ao aumento dos impostos.



segunda-feira, julho 26, 2010

O género nos cabeçalhos …


Sob um título igualzinho ao desta crónica, li num blogue concorrente que muito prezo, a “revolta” da autora sobre o facto de nos nossos dias a correspondência oficial (e também a outra) continuarem a serem endereçadas ao “Exmo(a) Senhor(a)” e não à “Exma(o) Senhora(o).


Tendo por certo que as mulheres são em maior número do que os homens e que a sociedade mudou, que razão justificará ainda a manutenção de hábitos que vêm dos tempos em que as mulheres tinham um papel muito pouco significativo nessa mesma sociedade? Para além, obviamente, de serem as esposas dedicadas (e sacrificadas), as mães exemplares e os pilares fundamentais das estruturas familiares. Quanto ao resto, pouco contavam. Esta era a realidade nua e crua de épocas não muito distantes.


Hoje, porém, com as tecnologias disponíveis, é fácil arranjar uma forma que permita endereçar correctamente a correspondência. Será a adequação natural à vida contemporânea, em que coexistem, de facto, os homens e as mulheres (ou as mulheres e os homens, se preferirem), numa perspectiva social, administrativa, económica e financeira, sem diferenciação.


Como dizia a autora do texto que citei “Não será altura de mudar de cabeçalhos?”.

sexta-feira, julho 23, 2010

Prognósticos só no fim do jogo


A frase que dá título à crónica de hoje ficou famosa quando foi proferida, há uns anos, por um distinto profissional do ponta pé na bola. Não me lembro qual era o jogo sobre o qual os jornalistas pretendiam saber qual era o vaticínio do jogador mas, presumo, que fosse daqueles que o mais acertado fosse marcar uma tripla. Daí ele dizer que “Prognósticos só no fim do jogo”.


Mas ainda que ele tivesse adiantado um resultado, e tivesse errado, não viria grande mal ao mundo. Outros, porventura mais qualificados, também erraram nas suas previsões. Vejam os casos de:


- Thomas Watson, presidente da IBM, em 1943


“Acredito que haverá um mercado mundial para talvez uns cinco computadores”;


- Darryl Zanuck, produtor de cinema da 20th Century Fox, em 1946


“A televisão não vai conseguir manter durante seis meses nenhum dos mercados onde penetrar. As pessoas vão fartar-se de olhar para uma caixa de madeira todas as noites”; e


- Ken Olson, presidente da empresa de computadores Digital Equipment Corporation, em 1977


“Não há razão para alguém querer ter um computador em casa”



Todos tiveram falta de visão. Todos erraram e, contudo, o mundo continuou a existir.

quinta-feira, julho 22, 2010

Paciência de Job

Costumo dizer de mim mesmo que tenho uma “paciência de Job”. Não é pretensiosismo, acreditem, mas acho-me muito tolerante e com grande paciência para aturar certas coisas, provavelmente na mesma linha da heróica paciência de Job, um homem justo que teria vivido no tempo dos patriarcas.

Claro que a minha paciência não é permanente e não contemporizo com todas as situações. Reconheço, contudo, que, relativamente a amigos meus, é incomparavelmente maior do que a deles. E aqui poderia pedir o testemunho de gente que eu cá sei …

Mas esta conversa não se destina a falar de mim. O que eu quero dizer é que numa destas tardes em que eu desafiava o tempo, numa imensa zona de refeições de uma grande superfície, à espera de … alguém – imbuído da tal paciência de Job de que falava – fui reparando nas pessoas que iam (ao longo das horas) povoando as mesas próximas.

E vi como os jovens empregados e passantes iam utilizando a sua hora de almoço. Como tinha tempo, observava as suas posturas e a sua forma de estar à mesa. Nem me escaparam os tiques mais evidentes, como um rapaz bem engravatado (mas com necessidade absoluta de arranjar urgentemente uma boa assessora de imagem) que de 30 em 30 segundos olhava para o relógio mas que, desconfio, não estava objectivamente a ver a quantas andava.

Vários foram aqueles que entre cada garfada, pegavam no telemóvel e tentavam uma ligação ou mandavam uma mensagem. Uma refeição inquieta, pensei, onde os alimentos se ingeriam sem mastigação porque o tempo não é elástico e havia pressa em comunicar com os amigos com mais uns SMS’s.

Assisti a uma mãe jovem que estava acompanhada de duas filhas, uma teria uns seis anos anafados e a outra não teria mais de três. Mãe e filhas atacavam com entusiasmo uma piza enorme, movidas pela fome, seguramente, mas sobretudo pela gulodice que estava bem patente no olhar das miúdas. Mas o que mais me impressionou foi o ar da mãe. Por um lado, satisfeita por proporcionar às filhas o desejado (e quiçá prometido) pitéu mas, por outro, preocupada com as montanhas de gordura da piza, que ela sabia não ser a melhor refeição para as crianças. Terrível dilema aquele. Tive vontade de lhe dizer “Oh mulher, dias não são dias, isso é apenas um almoço, não se sinta tão culpada …”.

Podia contar-vos outros casos mas a crónica já vai longa. A terminar, deixo-vos uma sugestão. Em lugares públicos, olhem em redor e vejam se lobrigam uns seres com ar de boas pessoas mas com aspecto meio esquisito e totalmente atento. Se os virem, cuidado, podem ser os tais que têm “paciência de Job”.

quarta-feira, julho 21, 2010

Já ouviram falar em boa gestão?



Lá porque a “Netjets Europe” lidera o sector da aviação executiva na Europa e tem como clientes 1600 daqueles que são considerados “a nata” dos empresários europeus, não é por isso que a companhia tem uma política empresarial mais frouxa, digamos assim. Não, nada disso, para eles os executivos da empresa quando se deslocam em serviço usam quase exclusivamente, não os seus jactinhos de luxo, mas as companhias aéreas de baixo custo.

Provavelmente, penso eu, porque acham que o dinheiro custa a ganhar e deve haver alguma contenção nas despesas. É estranho, não é?

Embora não esteja a insinuar nada em concreto, estou desconfiado que, cá em Portugal, haverá por aí muitas empresas públicas/fundações onde medidas deste tipo bem se poderiam aplicar …

terça-feira, julho 20, 2010

Dá para entender?


Somos bombardeados a toda a hora com os números da crise. Sentimos nas carteiras o peso cada vez maior da carga fiscal. Damos conta, no dia-a-dia, que a nossa economia caseira está cada vez mais debilitada Como compreender, então, que a venda de automóveis de luxo em Portugal esteja a subir em flecha?


A Porsche cresceu 52,4%. Só nos primeiros seis meses deste ano vendeu 192 automóveis, cujo custo por unidade oscila entre os 66 e os 273 mil euros. Também a Jaguar vendeu no primeiro semestre 156 viaturas.


Por isso, o cidadão comum tem muita dificuldade em aceitar que as tão propaladas assimetrias na distribuição dos rendimentos continuem a verificar-se de forma tão ostensiva e repugnante. E não é por inveja, entenda-se. É mesmo por uma questão de (in)justiça social.


Há uma crise profunda que ameaça liquidar pessoas, empresas e até mesmo países. No entanto, em Portugal, está em franca ascensão o mercado dos carros de luxo e não se sente qualquer retracção na venda de apartamentos que custam muitos milhões de euros.


Dá para entender? Não, não dá.

segunda-feira, julho 19, 2010

Se houvesse controlo …


Quando nos últimos dias a comunicação social trouxe a público - de resto com enorme sensacionalismo - que o Estado iria cortar os apoios para almoços aos ATL’s, toda a gente se agitou de indignação. Então, aqueles malandros da Segurança Social vão tirar o pão às pobres crianças, que é como quem diz vão tirar-lhes justamente aquilo que, para muitas delas, é a única refeição quente do dia?


Agastamento sobejamente justificado pelo facto de sabermos bem de mais que os diversos serviços do Estado nem sempre fazem as coisas da melhor forma. Umas vezes por pura incompetência, outras porque sim.


No entanto, desta vez, o que aconteceu não se deve, como se julgava, a qualquer (má) decisão do Governo, justificada por medidas de contenção orçamental da Segurança Social.


O que parece ter acontecido – e eu digo parece porque nestas coisas nunca se sabe - é que os serviços constataram que muitas dessas crianças que andam na escola e vão depois para os ATL’s “almoçavam duas vezes”. Melhor dizendo, era-lhes atribuído dois subsídios para almoço, um pago às escolas e outro pago aos ATL’s das Instituições Particulares de Solidariedade Social. Ou seja, por cada criança havia dois subsídios.


Verificada a duplicação, o Estado cortou – e, desta vez, bem – o apoio que estava a ser concedido indevidamente a uma das entidades.


Só que a precipitação de alguns quase gerou um levantamento popular. Por boas razões, é certo, já que estavam em causa benefícios a cerca de 90 mil crianças que se encontram em situação de carência alimentar.


Mas, precipitações e exageros à parte, a verdade é que houve um erro grave. Pergunta-se pois, há quanto tempo se verifica esse erro e quanto é que isso nos custou? E pergunta-se, também, se não haverá um órgão que controle se as verbas entregues às instituições são mesmo para custear almoços efectivamente servidos? É que o mau uso dos dinheiros públicos é crime.


sexta-feira, julho 16, 2010

Intranquilidade

O que aconteceu no BPN e no BPP e os rumores sobre o que se passa no BCP, embora os casos sejam diferentes uns dos outros, leva a que fiquemos preocupados com a segurança do nosso dinheiro depositado nos bancos. E a dúvida – legítima – sobre se corremos o perigo de podermos ficar sem o dinheiro angustia-nos.

Tanto mais que se soube que a agência de notação financeira Moody’s cortou o rating da dívida portuguesa em dois níveis (de Aa2 para A1) e o de oito bancos portugueses e que se tem ouvido falar nos últimos dias num tal “stress test” que foi feito aos 26 maiores bancos da Europa (os nossos maiores bancos incluídos).

Repito, as nossas dúvidas são legítimas. Temos receio que, de um dia para o outro, as coisas descambem e lá se percam as economias que tanto custaram a juntar.

Porém, é preciso ter calma. Em minha opinião não haverá motivos para tanta preocupação, embora saibamos que na vida tudo pode acontecer. Para já é preciso dizer que este “stress test” aos bancos constitui uma rotina e que, embora os resultados deste que foi feito agora não tivessem sido oficialmente divulgados, sabe-se já que a banca portuguesa é considerada robusta. E é bom, também, que tenhamos a consciência de que uma corrida aos bancos para levantar o que lá temos – vontade que já tenho visto e ouvido por aí – é a pior coisa que poderia acontecer. Aí sim, a situação poder-se-ia degradar.

Com os problemas que o país atravessa, com as angústias e ansiedades que daí decorrem, resta-nos ter esperança que esta crise – a exemplo de outras que já atravessámos – vai também ser superada. E nada melhor para levantar a nossa moral do que o humor. Como aquele que o cartoon que me foi enviado por e-mail revela: “Como os Bancos foram inventados”.

quinta-feira, julho 15, 2010

Ainda sobre o Mundial – Custos que poucos entenderão


À minha crónica de ontem reagiram alguns Amigos que, embora não tivessem utilizado o blogue para o efeito, me fizeram chegar e-mails onde expressavam a sua indignação sobre os prémios que foram atribuídos à selecção portuguesa de futebol. Houve até quem dissesse (glosando a forma como eu tinha terminado o texto desse post) que o “rosto” do Mundial não tinha sido o tal polvo mas sim os rostos incrédulos dos contribuintes portugueses perante o despautério de tamanhos gastos.


E na realidade, ao sabermos (pelo menos os números que quiseram que nós soubéssemos) quanto custou a nossa participação na África do Sul, só podemos ficar perplexos perante o prejuízo suportado por um país que está a ser fustigado por fortes dificuldades económicas e sociais.


Os responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol e próprio Governo bem podem aduzir uma dúzia de argumentos, nomeadamente que a representatividade do país, qualquer que ela seja, é considerada sempre um custo muito embora, às vezes, se torne num investimento.


Podemos até aceitar essa tese mas o que já é mais difícil de “engolir” é que se tenha gasto tanto dinheiro numa equipa que se conseguiu classificar com extrema dificuldade para a fase final do Mundial e, aí chegada, só tenha alcançado os oitavos-de-final com uma performance demasiado modesta que se traduziu numa vitória, dois empates e uma derrota. Foi muita minhoca para tão escassa pescaria.


É que, vendo bem, a Federação Portuguesa de Futebol gastou nestes últimos dois meses cerca de 4 milhões de euros só para a preparação da equipa para o campeonato e vai pagar agora mais de 3 milhões de euros em prémios à equipa técnica e aos jogadores. Até àqueles – como Nani – que abandonaram a África do Sul antes mesmo do Mundial ter começado. Só ao treinador Carlos Queiroz estão destinados 720 mil euros. Prémios cuja lógica ninguém entende.


Convenhamos que é muito dinheiro gasto para tão pouco proveito. O prejuízo da Federação cifra-se em um milhão de euros. E se ao saldo negativo das contas juntarmos o saldo também negativo da nossa prestação desportiva, o mínimo que podemos dizer é que se exigia maior contenção no primeiro caso e mais rigor e ambição no segundo.

quarta-feira, julho 14, 2010

Acabou-se o Mundial de Futebol


Mesmo para quem, como eu, gosta de futebol, assistir a tantos jogos em tão curto espaço de tempo, é dose. Não fossem os “fait-divers” que sempre acontecem à margem das competições, eu teria sucumbido aos jogos propriamente ditos, aos comentários dos jornalistas (aos que estavam lá e aos que cá ficaram), aos telejornais que quase só falavam do Mundial, aos programas especiais sobre o mesmo e às transmissões directas, algumas bem emocionantes como ver o autocarro da nossa selecção chegar à porta de um hotel, como dizia o Ricardo Araújo Pereira. Querem coisa mais emotiva?

Mas, agora que acabou o Mundial de Futebol – e continuando a não falar sobre futebol - gostaria de deixar duas notas finais enquanto apreciador da modalidade:

A primeira é que, mesmo com todos os “ses” e “poréms” que mantemos e cultivamos em relação aos nossos vizinhos espanhóis (é uma coisa que nos vai na alma, queiramos ou não), penso que a Espanha ganhou bem. Não falo do tipo de jogo que faz (deixo a outros essa função), refiro-me tão-somente à determinação que sempre vi nos seus jogadores, à raça com que encararam os jogos e ao modo como os verdadeiros vencedores olham para os seus objectivos. E neste capítulo, mesmo descontando os conhecidos exageros patrióticos de “nuestros hermanos”, acho que foram uma vez mais um exemplo em que nós, portugueses, deveríamos reflectir.

A segunda nota tem a ver com a um dos símbolos do campeonato. O maior entre os maiores. Não, não estou a falar da vuvuzela, aquele “instrumento” que nos infernizou os ouvidos durante todo este tempo e que é tão malquista que quer os ingleses em Wimbledon e nos próximos Jogos Olímpicos de Verão, em Londres, em 2012, quer os neo-zelandeses do râguebi já a proibiram de entrar nos seus estádios. Eles lá sabem porquê.

Estou a referir-me, como devem ter percebido, à “figura” incontornável de “Paul” o magnífico polvo adivinhador que conseguiu acertar em todos os vencedores de determinadas partidas. Mortos de inveja por tal concorrente tentacular, bem apareceram periquitos, cães, macacos e até reputados analistas de futebol a tentarem superá-lo, mas Paul foi-lhes superior e não se enganou uma só vez. Ele é, de facto, o “rosto” deste Mundial de Futebol realizado na África do Sul.


terça-feira, julho 13, 2010

Exibicionismos à parte

No areal quente de uma praia algarvia um grupo de senhoras conversava animadamente. Como estava ainda distante não ouvi o que diziam mas, as revistas cor-de-rosa espalhadas sobre as toalhas, fizeram-me acreditar que falavam sobre o Ronaldo, o filho do Ronaldo e os doze milhões que o Ronaldo teve que desembolsar para ter esse filho.

Graças a uma das vozes que soou mais alto, percebi que, afinal, não era disso que estavam a falar. O que se comentava era a ideia (“genial e nunca antes vista”) da marca Code convidar pessoas a irem completamente nuas à sua loja no centro comercial Porto Gran Plaza. Como contrapartida, prometiam oferecer às primeiras vinte um conjunto de peças - vestuário e calçado - no valor de 250 euros.

Para além do picaresco da situação, a pergunta que dançava na minha cabeça era porque razão 17 homens e 3 mulheres se despiram de qualquer pudor e apareceram na loja como vieram ao mundo. Exibicionismo ou vontade de ganhar de borla umas roupitas janotas?

Provavelmente as duas respostas estarão correctas. Se por um lado, se sabe que 20% dos portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza e que se não fossem as ajudas do Estado esse número passaria para os 40% (donde umas roupas novas vêm sempre a calhar), por outro, há por aí muita boa gente mortinha por dar nas vistas nem que para isso tenha que expor publicamente e sem constrangimentos as respectivas vergonhas.

Vá lá saber-se!

segunda-feira, julho 12, 2010

Intemporal … que baste


Lá porque estive ausente uns dias não é motivo para julgarem que o “Por Linhas Tortas” vai fechar e eu vou, enfim, retirar-me. Nada disso, não comecem já a esfregar as mãos de contentes por que, dessa, estão vocês livres.


Para além de um problema (que persiste) com o meu computador esta curta ausência deveu-se a um estado mais ou menos depressivo que sofri quando li que a maioria dos jovens portugueses considera que a velhice começa aos 51 anos. Tanto mais que tenho consciência que essa mesma rapaziada dá pouca atenção e valoriza ainda menos a experiência e o conhecimento dos “velhos”.


De facto, passou-me pela cabeça emigrar para um qualquer país oriental onde o respeito pelos velhos faz parte da sua cultura ou até mesmo para a Europa onde a juventude da generalidade dos países considera que o começo da velhice se dá aos 72 anos. Ao contrário do que normalmente acontece, em que as coisas chegam a Portugal com muitos anos de atraso, quanto à idade da velhice, ela instala-se precocemente por cá e só vinte anos depois atravessa as nossas fronteiras rumo à Europa.


Claro que a culpa desta situação não cabe inteiramente aos jovens. Provavelmente os maiores culpados serão os média, os muitos políticos inexperientes e todos aqueles que cultivam e divulgam que a suprema essência do ser está no culto da juventude, do belo e do magro. Logo, aos 51 anos, o prazo de validade termina.


E depois há ainda a constatação directa, em que os jovens observam no dia-a-dia a forma como a sociedade “esquece” os seus velhos. Que melhor exemplo poderiam ter?


Bem, eu nem sei o que é que me deu para estar a falar deste assunto. Afinal, como sabem os que me conhecem, eu não corro o risco de atingir tão provecta idade. Sendo intemporal, não tenho idade. Apenas vou acumulando experiências.

sexta-feira, julho 02, 2010

Os amantes se amam cruelmente



De Carlos Drummond de Andrade,



Os amantes se amam cruelmente”




Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, reflectido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.


quinta-feira, julho 01, 2010

Um momento mágico

A semana passada assisti às cerimónias comemorativas do aniversário de uma instituição de solidariedade social que apoia idosos. Já se sabe que este tipo de festas tem um sem número de formalidades que fazem todo o sentido para os dirigentes, para as pessoas que lá trabalham e para os utentes dessas instituições. Para os convidados nem tanto.

Mas há excepções. Foi o que aconteceu quando houve a apresentação de um grupo coral composto por pessoas com idades muito respeitáveis, alguns com problemas motores que tinham que cantar sentados e outros cuja voz quase se não ouvia.

Sem pretender fazer qualquer tipo de apreciação à qualidade do grupo, o que seria descabido, o que mais me impressionou naquelas pessoas foi a sua atitude. Percebia-se-lhes o gosto de manifestar a sua determinação, a vontade de fazer parte de um projecto comum, de mostrarem como se sentiam vivos.

Sensibilizou-me muito o olhar brilhante daqueles velhinhos, felizes por exibirem o seu trabalho empenhado e generoso. E comoveu-me, sobretudo, na hora em que eclodiram os aplausos da assistência, ver as expressões de felicidade que inundaram aqueles rostos.

Não estavam ali cantores, estava ali gente. Pessoas que se sentiam felizes pelo simples facto de terem alguém perto deles que os ouvia e que lhes dispensava atenção.

Foi um momento mágico que, por minha vontade, se teria eternizado.


quarta-feira, junho 30, 2010

O tremendo embuste


Esta é mais uma crónica em que proponho que não se fale de futebol. Não sendo eu treinador de bancada nem, tão-pouco, grande conhecedor da arte de bem jogar, que mexe com tácticas e estratégias que não domino, contento-me em ser um observador do fenómeno que se deixa levar por puros instintos racionais.


É por isso, agora que acabou o sonho lusitano de vir a conquistar o Mundial da África do Sul, ainda cheio de tristeza por assistir ao naufrágio dos nossos “navegadores” aos pés de um Adamastor chamado Espanha, que eu achei que tinha chegado a hora de pedir aos meus concidadãos para abrirem um pouco mais os olhos para a realidade.


Viram, por acaso, neste jogo com a Espanha, um jogador que já foi considerado o melhor do mundo, que recebe muitos milhões pelos seus contratos, que já tem a sua figura em cera no Museu da Madame Tussauds em Londres e que continua a ser idolatrado por multidões até ao absurdo? Sim, estou a referir-me ao CR7, ao Ronaldo, ao Cristiano, ao Cristiano Ronaldo, ao tal que disse que agora é que ia ser, que ia “explodir” neste mundial. Pois é claro que o viram. Pelo menos deram com ele quando toda a equipa cantava o hino nacional. Todos não. O Cristiano Ronaldo não abriu a boquinha uma só vez, provavelmente para não se cansar, quem sabe se por desconhecimento da letra do hino, quiçá porque aquilo que era comum a todos os seus colegas (onde se incluía o luso-brasileiro Pepe) – a “raça”, o querer, a firme vontade de servir – não lhe caber por inteiro.


Depois, quando o jogo começou, devem tê-lo perdido algures, nunca mais ninguém o viu em todo o campo. Nem neste jogo nem nos outros que tem feito ao serviço da selecção. Os fantásticos golos e as extraordinárias jogadas que protagonizou ao serviço do Manchester e do Real Madrid nunca serviram de modelo para outras tantas em representação de Portugal.


E viram-no, finalmente, quando saiu apressado pela zona de entrevistas rápidas, respondendo com ar enfadado que as perguntas deveriam ser endereçadas ao treinador Carlos Queiroz. Uma resposta cheia de insinuações – quais farpas afiadas - próprias de uma pessoa de mau carácter que não sabe perder. Logo ele que é o capitão da “equipa de todos nós”.


Daí a minha estupefacção em assistir à continuada glorificação de um jogador de quem dizem ser mago e que, se calhar por isso mesmo, sempre nos deu ilusão em vez de futebol. Mas a isso eu não chamo magia, chamo embuste.







terça-feira, junho 29, 2010

Só queria compreender …


É já no dia 1 de Julho que entrarão em vigor as novas taxas do IVA. Em todas elas registar-se-á um aumento de 1% pelo que, a partir da próxima quinta-feira, teremos 6% na taxa mínima, 13% na intermédia e 21% na taxa máxima.


Embora satisfeito por, desta forma – pagando mais – poder contribuir ainda mais empenhadamente para combater a crise, gostaria apenas, se não fosse muito incómodo, que me explicassem duas coisas. Se é que alguém está interessado nisso …


1 – Por que razão o Nestum vai pagar a taxa máxima quando a Cerelac será taxada pela mínima? Estamos a falar de duas papas, não é? Então por que é que pela primeira se vai pagar 21% e pela segunda 6%? Haverá alguma racionalidade nisto?


2 – Fará algum sentido que produtos como as bolachas Maria e Torrada e o papel higiénico vão pagar 21% enquanto que outros produtos tão essenciais (diria mesmo fundamentais) à vida das famílias –como o “foie gras” e os patés - pagarão apenas 12%?


Desculpar-me-ão, só queria compreender …





segunda-feira, junho 28, 2010

De novo, o “Novo Acordo Ortográfico”


Tem sido penosa a leitura do Expresso do último sábado. Não pela falta de artigos e crónicas com interesse, mas pela grafia que o semanário decidiu passar a adoptar (adotar, é que é) a partir deste número – a do novo acordo ortográfico. Com as honrosas excepções (exceções, claro está) de Miguel Sousa Tavares e José Cutileiro que continuam a escrever de acordo com a “antiga ortografia”


Já por diversas vezes aqui tenho manifestado a minha discordância por termos “embarcado” nesta aventura cujo interesse é, no mínimo, duvidoso. Os países que falam o português sempre se entenderam ao longo dos anos e não foram certamente as especificidades próprias da escrita de cada país que nos impediram de ler os seus textos nem de celebrar acordos e tratados. Isto é, nunca houve problemas com esse facto (quero dizer, fato).


A partir de agora a coisa vai ser mais complicada. É que estamos a falar da alteração da forma de escrever de, nada menos, 3 900 palavras. É obra! Daí a minha lentidão em ler o Expresso. Quantas vezes parei numa palavra por julgar ter detectado (o certo será detetado) um erro ortográfico ou por ter achado que a interpretação do que estava a ler não fazia sentido. E o voltar a reler as muitas linhas cansou-me.


A indignação já não me serve para nada, o acordo está celebrado e até 2014 tem mesmo que estar implementado no nosso país. O que não me impede de continuar a escrever tal como o fazia até agora. Por isso, meus caros companheiros, peço a vossa compreensão para esta forma de prosseguir a minha luta pela língua que é a nossa e de que não temos que nos envergonhar. E não me venham com a velha história de que a língua é dinâmica e que a minha teimosia não passa de um saudosismo bacoco. A esses argumentos eu poderia responder com uma dúzia de outras razões igualmente válidas, o que não vou fazer, para os não maçar.


A partir do início deste Verão (perdão verão) certamente começarei a ter mais trabalho nas minhas leituras habituais mas, no “Por Linhas Tortas”, e até ver, vai continuar-se a escrever como se escrevia até aqui. Não por teimosia, tão-somente por princípio.