terça-feira, fevereiro 15, 2011

A decisão é sua …

Não fossem as idiossincrasias (bem, como eu gosto de dizer esta palavra) dos portugueses e até era capaz de acreditar que esta história tinha tudo para dar certo. Mas a nossa cultura e as nossas características bem conhecidas, fazem-me pensar que esta iniciativa não durará muito.
Mas, afinal, do que é que estamos a falar?

Pois bem, um restaurante lisboeta recentemente inaugurado, apresenta como novidade a possibilidade dos clientes pagarem as suas refeições de acordo com o seu grau de satisfação. Ou seja, os fregueses podem pagar o preço que acharem mais justo pelo que comeram. O critério é deles. Vou exemplificar: os preços das sopas variam entre os dois euros e cinquenta e os cinco euros, as carnes entre os seis e os doze euros e as sobremesas vão dos dois aos seis euros. É ainda o cliente que decide se deve deixar, ou não, entre dois a quatro euros de gratificação pelo serviço de atendimento.

Os responsáveis da “Cantina da Estrela”, assim se chama o novo espaço, confiam que este novo conceito pode resultar. Aliás, dizem os psicólogos que as pessoas são mais razoáveis quando lhes é dada a responsabilidade de avaliar. Noutros países a coisa funcionou. Noutros … nem tanto.

As características dos portugueses, e se calhar dos povos latinos, não são iguais às dos da Europa Central ou dos Nórdicos. Ao contrário destes, provavelmente não nos comportaríamos lá muito bem se tivéssemos que deixar umas moedinhas em troca de um exemplar de um jornal colocado numa caixa aberta. O mais certo, digo eu, é que desaparecessem os jornais e … o dinheiro. E no tempo em que os bolos-reis traziam uma fava, quantos é que a engoliam para que não fossem “obrigados” a pagar o próximo?

Pode ser que resulte, vamos ver. Mas tenho dúvidas que a maioria das pessoas, perante a escolha de poder pagar entre seis e doze euros, seja de tal forma séria que pague os doze euros. Ou dez … ou oito …


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Uma idosa chamada Augusta

A notícia da descoberta do cadáver de uma senhora que morreu há nove anos na sua casa, comoveu toda a gente. Comoveu, chocou e levantou toda uma série de questões.

E a primeira é a de percebermos que tipo de sociedade é esta em que vivemos, sobretudo nas grandes urbes, em que a desumanização é total. Ninguém sabe e ninguém quer saber quem são e como vivem as pessoas que moram no andar do lado, no de cima ou no debaixo porque todos estão demasiado preocupados apenas com a sua vidinha. Como ouvi alguém dizer “esta é uma sociedade porco-espinho, em que vivemos enrolados sobre nós próprios”.

Mas neste caso (que tomámos conhecimento pela comunicação social), houve pessoas que se preocuparam com a ausência da senhora. Uma vizinha tentou várias vezes junto da GNR que investigassem o caso mas riram-se-lhe na cara como se estivesse louca. Não havia cheiro a cadáver, portanto … Um primo da senhora deslocou-se treze vezes ao Tribunal de Sintra para que alguém entrasse na habitação na tentativa de saber se a prima estaria lá. Em vão, responderam com um argumento idêntico e … nada fizeram.

E o que me revolta é que quer a GNR quer o Tribunal, aparentemente por não haver indícios de morte ou por não haver leis explícitas para este tipo de casos, descurou a possibilidade de acudir a tempo uma pessoa e, quem sabe, salvá-la. Tão-pouco a Segurança Social investigou porque razão os vales da sua reforma foram devolvidos. Todos esses serviços públicos que, supostamente, deviam estar atentos, se alhearam pura e simplesmente.

Mal vai um país em que tenha que existir legislação que contemple todas as situações. As leis devem ser entendidas como referenciais e, como tal, não é por se registar a falta de alguma que se deve deixar de actuar. Falharam, pois, as entidades que deveriam fazer diligências para descobrir o que tinha acontecido à senhora. Só não falhou o Fisco que, face a uma dívida existente, cuidou diligentemente de penhorar a casa e vendê-la. Só foi pena de não ter tido a curiosidade de saber o porquê do não pagamento.

A senhora chamava-se Augusta, teria hoje 96 anos, morreu em sua casa há 9 anos e morava na Rinchoa.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

E a história repete-se


Hoje vou partilhar convosco uma história que me contaram - um diálogo - que se teria passado em França, no tempo de Luís XIV, entre o Cardeal Mazarino e Colbert. Não tenho a certeza da sua veracidade mas, face ao que se tem observado ao longo dos tempos, não me custa acreditar que tivesse acontecido.

No século dezassete, o Cardeal Mazarino, embora nascido em Itália, foi primeiro-ministro de França no tempo do Rei Luís XIV e Colbert seu ministro do Estado e da Economia.

Então, o alegado diálogo terá sido mais ou menos assim:

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.
Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.


Não acham que entre este “diálogo provável” e o que temos assistido na governação de há muitos anos a esta parte existem muitas “coincidências”? E são tão óbvias que não teríamos dificuldade em substituir os nomes de Mazarino e de Colbert por outros políticos bem mais recentes. Curioso, não é?

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Tudo como dantes …


Ao longo dos anos a vida foi-me mostrando que os mais novos têm sempre a sensação de que a maioria dos males que os afligem, e à sua geração, apareceram de repente, vindos sei lá de onde, única e exclusivamente para os prejudicar. Como se não tivessem já acontecido anteriormente. Mas não é assim.

Parece, portanto, que aquilo a que passámos a chamar de mercados e agências de notação, são os tais agentes do demónio que opinam, tratam de números e estudam dossiers de países que não conhecem e estabelecem critérios que são aplicados cegamente. Tudo com um único propósito, o de lesar esses países e os seus habitantes.

Mas, como referi, o fenómeno não é de agora. Lembro-me, por exemplo, de que há uns anos uma das maiores firmas de consultoria do mundo foi contratada pelo grupo financeiro onde eu trabalhava para, segundo eles, reestruturar (palavra adocicada que esconde as verdadeiras intenções) as nossas empresas. Dito de outro modo, a sua missão era emagrecer essas empresas, ou seja, eles estavam lá para mandar embora pessoas. E, como se isso não fosse suficientemente trágico, utilizavam um método assaz eficaz e perverso. Instigavam os empregados a sugerir melhorias nos seus serviços para que fossem mais eficientes. Pretendiam, portanto, mais e melhor produção com menores recursos. Tão simples como isso, com a ajuda das sugestões dos próprios empregados das empresas, os serviços tenderiam a melhorar e o número de postos de trabalho a diminuir. E o curioso (tristemente curioso) é que muitos embarcaram no engodo e os objectivos foram alcançados. As mirabolantes ideias que apareceram fizeram com que, na prática, colegas de trabalho despedissem os seus companheiros.
Aliás, em muitos casos, eram as próprias chefias intermédias, desejosas de “ficar bem na fotografia”, que sugeriam alterações espantosas em que antes nunca tinham pensado e de que resultaram o afastamento de mais uns quantos empregados.

Isto aconteceu há uns bons anos, numa altura em que ninguém falava em globalização, em mercados e ainda menos em agências de rating. Podem, por isso, imaginar como o processo foi doloroso para os trabalhadores e muitos não aguentaram tamanha instabilidade. Vi homens maduros e dedicados às empresas onde laboravam há décadas chorarem como crianças quando souberam da extinção dos seus postos de trabalho e a consequente passagem à reforma. Afinal, era a primeira vaga de um mundo novo que ninguém estava preparado para receber.

Seguindo a máxima de Lavoisier “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, temos que admitir que muitos dos problemas com que nos confrontamos hoje podem ter novas roupagens e novas designações, mas o cerne das questões é exactamente o mesmo daqueles outros problemas que aconteceram no passado. E, curiosamente, os que mais são atingidos também são os mesmos.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Ao meu falecido irmão Manuel Maria Barbosa du Bocage

José Carlos Pereira Ary dos Santos (1936 – 1984) foi um extraordinário poeta e declamador português.
Todos os grandes cantores o interpretaram. A obra de Ary dos Santos permanece na memória de todos e, estranhamente (ou talvez não), muitos dos seus poemas continuam actualizados.
De Ary dos Santos, o poema “Ao meu falecido irmão Manuel Maria Barbosa du Bocage”


Meu sacana de versos! Meu vadio.
Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.
E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.
São uns merdosos que nos pedem esmola.
Aos vinte anos cheiram a bafio
têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões nosso padrinho
ou o Primo Fernando que acarinho
como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho
ainda se encontram alguns pés de linho
crescendo não sei como na estrumeira!

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

“Parva Que Sou”


Já ninguém tem dúvidas sobre o poder das redes sociais. A sua força é de tal modo avassaladora que a divulgação de determinada causa ou acção pode ter resultados inesperados. O caso dos “Deolinda” é exemplar. O efeito mediático conseguido com a canção “Parva Que Sou” fez com que um simples trabalho musical se tornasse num hino de várias gerações de jovens, que nele vêem espelhadas as frustrações perante uma vida a que faltam horizontes e esperança.

Feliz ou infelizmente já passei por várias gerações onde a contestação dos jovens se fazia sentir também através das chamadas canções de protesto. Ouvi e cantei Bob Dylan como o fiz também com José Afonso e Sérgio Godinho. E já era a hora de aparecerem novos trovadores que corporizem todas as ansiedades e angústias dos jovens de agora que vivem de mãos dadas com o desemprego, com a precariedade e com a insegurança de uma vida que não conseguem estruturar.

Daí frases da canção como “Sou da geração sem remuneração”, “Porque isto está mal e vai continuar/já é uma sorte eu poder estagiar” ou “Para ser escravo é preciso estudar”.

Pese embora a letra me pareça um pouco frágil e dando o necessário desconto a alguma demagogia que este tipo de versos sempre acarreta, proponho-me, eu que já sou um “jovem menos jovem” voltar a juntar a minha voz aos “Deolinda” para cantar a nova canção-hino da juventude. Uma “canção de protesto” ou uma “canção da crise” que, da net das redes sociais e dos blogues, se está a transformar rapidamente num movimento de massas.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Não é defeito … é feitio

Não resisto a transcrever o texto de uma mensagem que recebi. No fundo, trata-se de um conjunto de expressões comuns mas que, contextualizados no mundo globalizado em que vivemos, veio “dar razão” a uma série de frases que costumamos dizer no dia-a-dia. Vejam-se alguns exemplos:

“. Se tem um problema intrincado... vê-se grego;
. Se não compreende alguma coisa..."aquilo" é chinês;
. Se trabalha de manhã à noite...trabalha como um mouro;
. Se vê uma invenção moderna...é uma americanice;
. Se alguém fala muito depressa... fala como um espanhol;
. Se alguém vive com luxo...vive à grande e à francesa;
. Se alguém quer causar boa impressão... é só para inglês ver;
. Se alguém tenta regatear um preço...é pior que um cigano;
. Se alguém é agarrado ao dinheiro … é pior que um judeu;
. Se vê alguém a divertir-se...está a gozar que nem um preto;
. Se vê alguém vestindo um fato claro...parece um brasileiro;
. Se vê uma loura alta e engraçada...parece uma autêntica sueca;
. Se quer um café curtinho... pede uma italiana;
. Se vê horários serem cumpridos...trata-se de pontualidade britânica;
. Se vê um militar bem fardado...parece um soldado alemão;
. Se uma máquina funciona bem...é como um relógio suíço;
Porém, quando qualquer coisa corre mal... isso é mesmo à PORTUGUESA!”

A brincar, a brincar, esta é a forma como vemos as coisas. Mas não se preocupem, “Não é defeito … é feitio”

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Do que é que vamos falar então?


Muitos dos silêncios que hoje “se escutam” nas famílias, entre colegas de trabalho e até entre amigos são também uma consequência do mundo globalizado em que vivemos, onde a informação é imensa e extremamente rápida.

Quando não havia internet e tantos canais de televisão que hoje nos permitem mergulhar em mundos inimagináveis até há uns anos, a nossa conversa centrava-se basicamente nos programas (da televisão única) a que tínhamos assistido na véspera e que formatavam as cabeças e as vidinhas de todos. Isto, claro está, para além de algumas tertúlias intelectuais mais ou menos toleradas pelo regime. As discussões travavam-se à volta do último festival da canção, dos chamados programas recreativos e dos concursos que eram, afinal, o foco principal da nossa atenção, para além de se falar dos problemas das famílias e, em particular, dos filhos. Ah, e havia também as touradas, os programas de fados e guitarradas e, naturalmente, o futebol.

O nosso mundo era muito pequeno e as nossas “preocupações” localizadas.

Hoje nota-se alguma dificuldade em conversar porque os interesses dos presentes são muito diversificados. Não quer dizer que não falem, mas, a meu ver, tornou-se mais difícil manter uma boa cavaqueira durante uma tarde ou uma noite.

Por muito interessantes que sejam as personalidades presentes, é arriscado falar-se, por exemplo, sobre literatura ou cinema porque a cultura de alguns, nessas matérias, pode não ser a melhor. E de política? Arriscadíssimo, acho eu. É muito provável que não se passe da repetição do que ouviram nos telejornais ou dos chavões mais utilizados pelos políticos mais conhecidos. Análise crítica ou ideológica seria pedir demasiado.

A verdade é que há hoje um universo de informação extremamente acessível e rápido. E se isso é bom, não podemos, por outro lado, deixar de nos questionar se essa mais-valia pode vir a tornar-se excessiva. É que se corre o risco de que a mensagem que se pretende transmitir não chegue por inteiro aos seus destinatários.

Como conciliar interesses, como dialogar? Do que é que vamos falar então?


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Trocos … são trocos, senhores

Bem sei que a situação foi já resolvida pela nova Administração da empresa mas, mesmo assim, não quero deixar de dar destaque a uma aldrabice, mais uma das que se vão descobrindo por aí sem que os responsáveis sofram qualquer castigo. Ainda por cima num tempo de crise económica em que continuam a verificar-se fraudes, corrupção e tráfico de influências.

Por isso me custa a entender como é que no Taguspark nove dos seus quadros conseguiram ter no último ano aumentos escandalosos e o salário de um assessor de um administrador não-executivo tenha crescido 98%. Leram bem, este senhor – um assessor – quase duplicou o seu vencimento. Que explicação há para isto? Que país é este?

Não fosse a auditoria mandada executar pela nova Administração e lá tinha passado despercebida mais uma escandaleira. Coisa pouca, concedamos. Afinal, o que é isso quando comparado com o facto do Presidente da nossa TAP ganhar o dobro do salário do Presidente dos Estados Unidos? A bem dizer, nada.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

“Nas aulas a congelar nem conseguimos pensar”


Fiquei perplexo ao ouvir a indignação exacerbada de uns quantos alunos de uma escola de Vila Real que, perante as câmaras de televisão sedentas de notícias incendiárias, se queixavam do frio intenso que sentiam nas salas de aula. E o protesto veemente levou-os em marcha até ao Governo Civil onde levantaram bem alto cartazes onde se podia ler, por exemplo, “nas aulas a congelar nem conseguimos pensar”.

Muito embora lhes assista todo o direito de reivindicar melhores condições para eles e para a sua escola, acho que, neste caso, o direito à indignação (sentimento que eu tanto prezo) desta vez foi mal utilizado. E porquê? Porque o que aconteceu é que a caldeira de aquecimento avariou de vez e tiveram que encomendar uma outra que virá de Itália, coisa que acontecerá, segundo a Direcção da Escola, dentro de uma semana. Enquanto isso, os aquecedores a óleo postos nas salas de aula tentarão minimizar o frio mas, pelos vistos, não calarão os estudantes.

Por muito frio que faça – e faz certamente - quero acreditar que umas luvas, uns gorros e umas roupas mais quentinhas, peças que as gentes daquela região está habituada há muito, poderão suster por mais alguns dias o griso deste inverno rigoroso. E também quero acreditar que esse desconforto não vai impedir os estudantes de continuar a pensar. Pensem nisso.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Beba café mas … com cuidado

Para aqueles que se costumam interrogar sobre o perigo que a ingestão do café possa causar à saúde – eu que sou um fiel amante do mesmo – diria que se tomado com equilíbrio, ele só faz bem. Excluindo, naturalmente, os casos em que doenças específicas assim o desaconselhem.

Mas vejam só. A cafeína de duas ou três bicas por dia fornece a energia e o alento intelectual necessário para que possamos enfrentar os maiores desafios do dia-a-dia. Mais ou menos, já se vê. Só é preciso não abusar e é fundamental que se beba com cuidado.

Cuidado em todos os sentidos, saliente-se. Por exemplo, cuidado para não acontecer o mesmo que ao piloto de uma companhia aérea norte-americana que entornou inadvertidamente o cafezinho sobre o painel de controlo que, por sua vez, accionou o alarme de sequestro.

Calculem a confusão que se deve ter gerado. O aparelho que voava de Chicago para Frankfurt teve que aterrar de urgência no aeroporto mais próximo para resolver uma situação que, afinal, nem sequer tinha acontecido.

Por analogia com um conhecido slogan da prevenção rodoviária bem se poderá dizer “se pilotares um avião não bebas … café”.

Sim, por que pior (muito pior) do que o café ser derramado nos instrumentos de um avião só um avião cair numa chávena de café.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

As leis, os dirigentes e a impunidade


Receio tornar-me chato por abordar, uma vez mais, este tema. Na verdade, não é a primeira vez que aqui critico o incumprimento generalizado das leis. A começar pelos cidadãos e pelas empresas que não cumprem as suas obrigações mas indigna-me ainda mais quando os prevaricadores são altos dirigentes do país que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo.

Como aconteceu no caso de uma lei de 2005 que determina que as aplicações financeiras das empresas públicas devem ser feitas exclusivamente dentro do Tesouro. E é esse o procedimento dos respectivos gestores? Não, essas aplicações vão direitinhas para a banca comercial.

Portanto, a lei existe mas, a exemplo do que acontece vezes de mais no nosso país, ela foi tão bem pensada que se esqueceram da chamada legislação sancionatória - aplicável a quem prevarica - que só foi feita em meados de 2010. “Esquecimentos” que permitem que se branqueiem cinco anos de irregularidades bem como as responsabilidades de quem gere essas empresas. Aliás o Tribunal de Contas chegou a sugerir que esses gestores fossem demitidos mas, como a lei é recente, o Governo achou por bem não actuar.

E este incumprimento não é um pormenor. Muitas das leis são habilidosamente torneadas e só em pouquíssimos casos os gestores faltosos são sancionados quer política quer criminalmente. “Dura Lex Sed Lex”? Não, de todo …

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Triste-Feia e … Pobre




Não fazia a mínima ideia que aquela rua por onde passei tantas vezes tinha o nome de “Triste-Feia”. Singular designação, no mínimo, mas certamente com uma história.

E a verdade é que, segundo apurei, há uma lenda que deu nome à rua. Ao que se conta, moravam naquele local três irmãs. Duas delas de aparência normal e a terceira de feições pouco agradáveis à vista dos rapazes que, quando passavam, fugiam comentando: “que focinho de porca”, ou ainda “que medonha seresma”.

A rapariga até era simpática mas, de facto, para mal dos seus pecados, era feia. E, por isso, triste. E daí, sabe-se lá, ter ficado sozinha na vida. Estava sempre sentada à porta, numa melancolia doente.

Porém, depois de morrer, ninguém a esqueceu. De tal modo que a população quis homenageá-la, dando à rua em que viveu, não o seu nome mas a denominação dos atributos que lhe eram mais evidentes - ser feia e triste. E assim aquela artéria passou a chamar-se “Triste-Feia”.

Só não consegui descobrir se ela era pobre. Se foi, quedaram-se pelo estigma de ser feia e triste. É que na placa bem poderia ler-se “Triste, Feia e Pobre”.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Saiu-nos cara a campanha para a Presidência

E pronto. Já lá vão a pré-campanha, os debates, as arruadas, os comícios, os cartazes e bandeirinhas, a propriamente dita campanha eleitoral, a votação e já temos o novo Presidente que, por acaso, é o mesmíssimo que já lá estava. E ficámos satisfeitos? Não, não estou a falar da pessoa que ganhou, isso tem a ver com as convicções de cada um. Perguntava se estavam satisfeitos com o facto de para podermos assistir a todo este trolaró o Estado ter desembolsado quase doze milhões de euros. Doze milhões, repito!

É que é difícil de aceitar que, sempre que há uma campanha eleitoral, se esbanje tanto dinheiro que, certamente, devia ter melhor utilização. Reparem que eu não estou a sugerir que o melhor seria não haver eleições. Longe disso, sou republicano, amo a democracia e acho indispensável que o povo seja chamado a escolher os seus representantes. Não vejo é necessidade deste folclore todo a que já poucos ligam e quase nada acrescenta. Ainda mais numa campanha para a Presidência da República. Então, o que fazer?

Quanto a mim, o custo da democracia deveria ser repensado. O recurso à internet, os debates na televisão pública e os sítios de cada candidato deveriam ser mais do que suficientes para esclarecer o povo. Já todos percebemos que os actuais métodos cativam muito pouco e a prova está na campanha que acabámos de viver. Não serviu para nada e gastou-se dinheiro de mais.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Um "cê" a mais


Enquanto a isso não for obrigado, não utilizarei aqui no blogue a nova grafia imposta pelo Novo Acordo Ortográfico (não confundir com “A cor do horto gráfico”). Não por teimosia mas por coerência. Continuo a achar que a maior parte das alterações não faz qualquer sentido nem acrescenta qualquer evolução à nossa língua quer para nós portugueses, nem para os outros povos que a falam. Houve, então, interesses que levaram a este resultado? Penso que sim. Mas adiante.

No entanto, nesta minha posição, não estou só. Aliás, estou muito bem acompanhado de personalidades reconhecidas do meio académico e intelectual que se têm manifestado repetidamente contra o Acordo ao longo dos últimos anos.

É o caso de Manuel Halpern, jornalista, escritor e crítico literário que escreveu o delicioso texto que gostaria de partilhar convosco e que passo a transcrever:
“Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.”

Em consciência, digam lá se eu tenho ou não razão para continuar a escrever de acordo com ortografia antiga?

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Às vezes os comentários são “perigosos”


Muitas vezes confunde-se a simples opinião com o ataque pessoal. Não estar de acordo com alguém não significa que estejamos a atacar pessoalmente, apenas quer dizer que não se concorda com as ideias de outrem ou a forma como elas são levadas à prática. Tão simples como isso. Porém, nem todos pensam desta maneira.

Vejam o caso que foi relatado há dias pela imprensa. Um pintor da construção começou a ser julgado pelo crime de difamação por ter feito um comentário sobre Alberto João Jardim. O cidadão participou um fórum on-line e à questão “Acha que AJJ vai abandonar o cargo em 2011?” o homem teve o “desplante” de responder “Oxalá! Essa coisa de defender madeirenses é tudo treta, ele defende mas é alguns madeirenses: subsidiodependentes, empresários gananciosos que tudo querem ganhar à custa dos que pagam impostos”.

Perante isto, hediondo de delito de opinião, como poderia reagir o Presidente do Governo Regional. Obviamente mover a respectiva acção judicial contra o “criminoso”.

Esta história fez-me recuar uns trinta e tal anos quando um simples sussurro era mais do que suficiente para nos mandar directamente para a prisão.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Se calhar a água da torneira não é suficientemente boa para os deputados …

Quando se pedem tantos sacrifícios aos cidadãos e se fala insistentemente na redução da despesa do Estado, pareceu-me fazer todo o sentido a iniciativa de uns quantos deputados de um grupo parlamentar para que na Assembleia da República passasse a ser servida água da torneira (em jarro) em vez de água mineral. Tanto mais que a qualidade da água da Companhia é reconhecidamente de boa qualidade. Gostei da iniciativa e pensei (ingenuamente) que os nossos representantes no Parlamento estavam a dar um sinal claro de que certos privilégios sem sentido estavam a desaparecer. Afinal, quando nós queremos beber água engarrafada pagamos.

Mas não, por proposta da Secretária-Geral da AR (aceite pelo respectivo Conselho de Administração), invocando argumentos que poucos perceberão, foi determinado que a água que será servida aos senhores deputados continuará a ser mineral. E a mais importante das razões aduzidas (e aquela que eu não entendo mesmo) é que se a troca proposta fosse avante, a poupança gerada seria, em 2011, apenas de 7 500 euros. Pouca coisa para tão grande “sacrifício”.

Espero, contudo, que outros departamentos do Estado não tenham o mesmo tipo de raciocínio. É que, como diz o adágio, “grão a grão enche a galinha o papo” e é (também) de pequenas poupanças, feitas aqui e ali, que se conseguem equilibrar os orçamentos.

terça-feira, janeiro 18, 2011

“A tradição continua a ser (mais ou menos) o que era”


Embora tanta vez se diga que “a tradição já não é o que era”, eu achava que ainda havia tradições “à maneira antiga”. A da ceia do Natal, por exemplo. É mesmo a mais paradigmática, aquela que ao longo dos anos e dos desvios mais ou menos significativos da fé de cada um e do desmultiplicar das famílias que se vão formando, a consoada continua a ser a festa (a reunião) da família. Nem que seja uma vez por ano, aquela é a noite da família, do bacalhau, dos fritos, do bolo-rei (embora aqui haja particularidades gastronómicas que não convergem) e da troca de prendas, trazidas antes pelo Menino Jesus e agora, com a função delegada, pelo Pai Natal.

Mas o que eu não sabia mesmo é que a noite de 24 de Dezembro é hoje em dia uma das mais rentáveis do ano em bares e discotecas. Ao que parece, cumprida a “formalidade” do jantar e das prendas, os jovens (e não só) saem para ir arejar e beber uns copos com os amigos. Virou moda trocar o serão familiar por uma noite de convívio fora de portas.

Do mal, o menos. Prescinda-se, então, da tradição de ficar em casa com a família mas preserve-se, pelo menos, o hábito do jantar e, já agora, das prendinhas que devem vir embrulhadas de afectos.

Voltemos à frase com iniciámos esta crónica para actualizá-la: “A tradição continua a ser (mais ou menos) o que era”.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A reforma da mulher do candidato não chega aos 800 euros


Em Ponte de Lima, em plena acção da campanha eleitoral que está a decorrer, um candidato à Presidência da República foi interpelado por uma idosa que lhe pediu ajuda para conseguir uma reforma, embora reconhecesse que nunca tinha descontado qualquer importância. Querem saber se houve uma palavra de esperança, de conforto ou de genuíno interesse pela situação da senhora? Pois muito bem, a resposta dada foi a seguinte:

“Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda. Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, nunca descobriram a reforma dela. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda”.

Os meus Amigos acham este tipo de resposta normal? Não é, pois não? É que foi dada por um candidato a Presidente da República que, por acaso, já é Presidente da República há cinco anos. Palavras para quê?


sexta-feira, janeiro 14, 2011

Esquecimentos


Certamente que já vos aconteceu ter lapsos de memória. Sucede a todos. Esquecimentos momentâneos de nomes, datas ou situações, nada de muito importante. Diria mesmo que isso é comum, embora isso aconteça mais a uns do que a outros.

Até é natural (e frequente) a partir de determinada idade (não digo qual que é para não ficarem preocupados). Faz parte do processo de envelhecimento.

Mas o que é preocupante mesmo é a falta de memória para determinados factos que mais parecem ser de conveniência.

Como o que aconteceu ao recém-demitido Presidente dos CTT, Estanislau Mata Costa. Então não é que este senhor, que antes tinha sido quadro da PT, recebia dois ordenados, um de Presidente dos Correios (15 000 euros) e outro pelas suas anteriores funções na PT (23 000 euros), empresa com a qual fez um acordo de suspensão de contrato, embora “estranhamente” sem perda de remuneração.
Enquanto durou este lapso de memória - cerca de dois anos – recebeu quase 40 mil euros por mês até que uma auditoria da Inspecção-Geral de Finanças descobriu que ali havia coisa. Uma coisa que pode até ser legal (?) mas que do ponto de vista ético é altamente reprovável.

É caso para pensar que há “esquecimentos” providenciais.