quarta-feira, outubro 27, 2010

Literacia financeira


Na semana passada Carlos Costa, o Governador do Banco de Portugal, deu conta dos resultados de um "Inquérito à literacia financeira da população portuguesa" realizado pelo BdP. Inquérito que pretendia avaliar o nível de conhecimentos financeiros dos portugueses.

E as conclusões a que chegaram é que a generalidade das pessoas não faz a mínima ideia do que é uma TAEG ou é pouco sensível à importância de poupar. Sabem, quando muito, o que é um spread mas, mesmo assim, de uma forma muito genérica.

Penso que ninguém ficou surpreendido com as conclusões do inquérito. Obviamente que as pessoas não têm preparação financeira de base e estão pouco preocupadas com uns quantos termos técnicos que pouco lhes dizem. Preocupam-se, isso sim, com o montante que vão ter que pagar mensalmente pelos empréstimos que pediram ao Banco para comprarem as suas casas ou quanto vão receber de juros por uns trocos que conseguiram colocar numa conta a prazo. Expressões como ”Over night” e outras que tais, deixam-nas ao cuidado dos seus gestores de conta que é para isso que eles lá estão.

Quanto à importância de poupar a questão é outra. Segundo o mesmo estudo, os inquiridos consideram importante planear o orçamento familiar, embora só cerca de metade reconheça essa necessidade e confirmem que ainda conseguem amealhar. Mas, sublinhe-se, dos que poupam, a quase totalidade fá-lo para que esse dinheiro possa, uns tempos depois, ser gasto e pouquíssimos têm a preocupação de aforrar para constituir património ou para acumular riqueza.

E percebe-se porquê. Durante décadas gerações de portugueses viveram com imensas dificuldades. A democracia trouxe melhores dias e salários mais justos. Desapertámos, enfim, o colarinho que estava demasiado estreito e começámos a viver. Os Bancos ajudaram à festa ao escancarar as portas e a conceder empréstimos sem entraves nem justificações. Tudo corria bem e os portugueses habituaram-se a isso.

Quando pensávamos que a nossa vidinha iria ser sempre daquele jeito, tiraram-nos o tapete e regressámos aos sobressaltos de antigamente. E, a toda a hora, vão-nos lembrando que dias muito difíceis estão a chegar e é necessário começar a economizar desde já. A angústia voltou a tomar conta de nós, sentimento a que ninguém consegue escapar. Nem mesmo aqueles que, estando mais preparados, não “sofrem” da literacia financeira.


terça-feira, outubro 26, 2010

Será que o mundo (ou alguém) está a ficar louco?


Não me venham outra vez com aquela história de que nas empresas bem geridas a motivação dos trabalhadores aumenta e, com ela, a produtividade. Claro que isso é verdade mas, como todos sabemos, em épocas de crise não é isso que costuma acontecer. Pelo contrário, nas horas de aperto, e a propósito das dificuldades, muitas empresas aproveitam essas mesmas (supostas) dificuldades para fechar as portas, despedir os trabalhadores ou baixar os seus salários.


E exactamente por estar demasiado habituado a esses esquemas é que fiquei “abazurdido” de todo quando soube que na Autoeuropa eles estão a “tramar” algo que não lembraria ao diabo.


Então não é que houve um acordo entre os trabalhadores e a administração para que os salários aumentassem 3,9% nos dois próximos anos, acima até do que a própria comissão de trabalhadores tinha pedido (3,8%)? Mais, a empresa compromete-se a não despedir qualquer trabalhador até 2013 e a tornar efectivos trabalhadores com contratos a prazo. Mais ainda, o subsídio de transportes vai ser aumentado de 5%. E, como se isto não fosse o bastante, os trabalhadores vão ser ainda “castigados” com melhorias no seguro de saúde, as grávidas vão ter um subsídio de 10% do salário base e os trabalhadores com filhos a iniciar o primeiro ano de escolaridade receberão da empresa kits de material escolar básico. E não acrescento mais porque tudo o que explicitei quase não dá para acreditar mas, segundo consta, existem mais incentivos e benesses a conceder.


Face ao conjunto de medidas contratualizadas na Autoeuropa, alguém é capaz de me explicar o que está a acontecer? Justamente quando em toda a Europa (com excepção da Alemanha, claro) a tendência é de crise profunda e de desemprego galopante, temos cá no cantinho da dita, uma empresa (que por acaso também é alemã) que, em contraciclo, se entende com os seus trabalhadores e lhes proporciona motivações bem fortes em que todos (empresa e trabalhadores) ficam a ganhar.


Daí a minha pergunta inicial: Será que o mundo (ou alguém) está a ficar louco?





sexta-feira, outubro 22, 2010

O coleccionador



Gerou-se “pr’á i” uma algazarra de todo o tamanho ao saber-se que o senhor Primeiro-Ministro colocou ao serviço do seu gabinete 12 motoristas. Nem mais. Porém, como ninguém sabe os porquês da medida, o falatório tem sido grande. Pura especulação, digo eu. Será que os que lá estavam colocados se reformaram por atacado ou terá havido apenas a intenção de promover postos de trabalho, no âmbito das “novas oportunidades”, para uma dúzia de motoristas encartados? O que no meio de uma crise profunda só é de louvar, convenhamos.

Para já o que se conhece – até veio publicado no Diário da República (e ainda dizem que a liberdade de expressão anda um tanto ou quanto em crise) – é que uns quantos vieram da PSP, um dos Bombeiros Voluntários de Colares (na falta de Pedro Silva Pereira dá sempre jeito ter um bombeiro à mão para apagar certos fogos), outro do ramo hoteleiro, um da Segurança Social, um da Carris e um da conhecida empresa de consultadoria Deloitte & Touche (um elemento fundamental uma vez que enquanto se deslocam Sócrates sempre pode trocar umas impressões sobre os mercados com o seu motorista).

Portanto, até aqui ainda não vi qualquer problema. A não ser que achem que ter doze motoristas num só gabinete possa parecer que não estamos a falar do Primeiro-Ministro de Portugal mas sim do sultão de um qualquer Emirato.

Mas como continuamos a especular, deixem-me sugerir duas razões para o acontecido:

- a primeira tem a ver com o facto de José Sócrates não gostar de ser comparado com os demais (vejam como ele já quis demarcar-se do PSD e do seu líder) e para que não haja confusões com o outro José (o Mourinho), o “number one”, achou que devia ser conhecido como o “number twelve” (nº 12 em tradução simultânea).

-a outra razão é ainda mais simples. É que Sócrates adora fazer colecções. De tudo, desde bonecos da bola, a selos, a moedas e a … motoristas.

Isto é o que eu penso que poderá ter acontecido. A não ser que, e dadas as dificuldades orçamentais, ele pensasse que à dúzia era mais barato.



quinta-feira, outubro 21, 2010

Cultura laboral


Quando ontem escrevia sobre os horários praticados pela Banca, referia-me, está bem de ver, aos horários das Instituições e não dos empregados. A estes, como se sabe, costuma “pedir-se” que trabalhem para além dos tempos que estão consignados nos respectivos contratos de trabalho. Por exemplo, se saem às 16h30 (oficialmente e para os que têm esse horário) exige-se-lhes que saiam apenas quando tiverem concluído os seus afazeres (o que em muitos casos pode prolongar-se umas horas para além da sua hora) e não antes. Ou no caso de trabalhadores que estejam a atender clientes e que já tenham visto passar a hora em que deviam ter ido almoçar, paciência, comerão qualquer coisa quando acabarem esses atendimentos, isto é, quando puder ser.

Mas neste, como em outros casos, existe uma “cultura laboral” que vem de há muito. “Cultura” que diverge de sector para sector.

Já experimentaram ir a uma oficina de mecânica, mesmo as das marcas mais conhecidas? Se o horário para almoço é das 13h00 às 15h00, ainda que a tarefa supostamente vá acabar uns minutos depois de ter começado a hora de almoço do trabalhador, o cliente vai mesmo ter que aguardar que a sagrada “pausa de refeição” se cumpra.

Ainda não há muito tive que esperar duas horas para me trocarem a bateria do carro porque cheguei à oficina (de uma marca) às vinte para a uma e informaram-me que já não dava tempo porque os serviços fechavam para almoço às 13h00. Um trabalho sem complexidade e que se faz em poucos minutos. E, naquele caso, nem sequer havia a desculpa de estarem todos ocupados. É que ali existe uma outra “cultura laboral”.


quarta-feira, outubro 20, 2010

O horário dos Bancos


A título excepcional, vou violar uma regra de ouro. Aliás, um princípio de que os pais jamais deveriam abdicar: os filhos nunca têm razão. Pronto, agora que a cólera de todos os filhos do mundo – a começar pelos meus, evidentemente - se abateu sobre mim, vou directo à questão de hoje.

Desta vez, Miguel, meu filho, concordo inteiramente contigo. O horário de funcionamento dos Bancos não deveria ser tão “acanhado”. Quando há uns meses perguntaste por que carga de água é que os Bancos fechavam tão cedo, respondi-te que não sabia mas a minha vontade era dizer-te “porque sempre foi assim”. Frase com que, de resto, embirro solenemente.

Na verdade, e já temos falado sobre isto, não há justificação para que os serviços (da Banca, mas não só) não estejam sempre (quase sempre, vá) abertos. A maior parte das pessoas cumprem horários semelhantes aos desses serviços e quando, finalmente, têm um tempinho para ir à sua agência, os Bancos já estão de portas fechadas. E sem dúvida que a vida se prolonga para além das três da tarde.

Claro está que hoje, com as tecnologias disponíveis e com a possibilidade de “irmos ao Banco” pela net ou pelos ATM’s, já não temos tanta necessidade de ir à agência como acontecia dantes. Mas, tens razão, ainda não se pode depositar cheques através do computador. É necessário ir mesmo lá e … a horas de se poder entrar.

Prometi-te que se um dia vier a ocupar um cargo que me permita alterar a hora de fecho ao público, fá-lo-ei sem tibiezas. Receio, porém, que esse dia não chegue. Pelo que, Miguel, terás que ter em atenção de que os Bancos fecham mesmo às 15 horas, quer gostes ou não.



terça-feira, outubro 19, 2010

Desperdício

Pouco passava das duas da tarde quando cheguei ao espaço de refeições de um centro comercial. Percebia-se pela quantidade de bandejas com pratos empilhados em cima das mesas que a “barbárie” tinha passado por ali e que a festança acabara há pouco. O aspecto era desolador. O desarrumo inaceitável.

Mas, mais do que isso, o que me chocou verdadeiramente foi a quantidade de comida que se via abandonada em muitos pratos. Pizas e fatias de carne “jaziam” ali praticamente intactas.

Ao olhar para aquela babilónia não pude deixar de pensar por que é que essa gente desperdiça tanta comida, sem pudor e sem remorso, enquanto milhares de pessoas passam fome.

Podem argumentar que os restos dos alimentos, uma vez decompostos, servem de adubo a outras culturas. Podem até alegar que comida com muito sal e demasiado tempero é razão suficiente para que a deixem de lado. Podem ainda aduzir que o tamanho das doses é exagerado e que há pessoas que não querem ou não podem (por motivos de saúde) ingerir grandes quantidades.

Ainda assim, não podemos ficar indiferentes a tanto desperdício. É altura de pensarmos em como podemos alterar a situação. E a receita parece ser simples. Por exemplo, doses mais pequenas (e menos caras), partilha de doses generosas com outra pessoa ou, ainda, a possibilidade de levar as sobras para casa (já se faz nalguns restaurantes). E para aqueles que comem muito a solução é pedir mais. De qualquer forma, é tempo de dizermos não ao desperdício, de rentabilizar os recursos e distribui-los com maior equidade. Por uma questão de humanidade e justiça.

E ainda que em contexto diferente, parece-me aplicável uma quadra de António Aleixo:

“Entre grandes e pequenos

Ficávamos quase iguais

Dando a uns um pouco menos

E a outros um pouco mais”

segunda-feira, outubro 18, 2010

Aumenta o número de pessoas a necessitar de apoio alimentar


Quer o Orçamento Geral do Estado para 2011 passe ou não na Assembleia da República, os portugueses já perceberam o que o próximo ano vai trazer: um aumento significativo dos impostos e o consequente agravamento do seu dia-a-dia. Ou seja, mais e mais dificuldades. E não nos interessa sequer apurar o que é que deu origem à situação presente nem quem foram os seus responsáveis e muito menos quem é que vai pôr as contas em dia, se o Governo se o FMI. O que nos interessa, isso sim, é que a situação do país é muito grave e que a receita para tentar salvá-lo vai ter que ser absolutamente dura e imediata. Uma “dose de cavalo”, como se costuma dizer, o que me leva a temer que, de tão forte, se possa vir a morrer da cura e não da doença.

Enquanto isso, e antes até de se sentirem os efeitos das medidas agora anunciadas, sabemos que são cada vez mais as famílias a necessitar de apoio alimentar para sobreviver. A maioria são desempregados e idosos cujas pensões ridiculamente baixas não chegam para fazer face às despesas. Mas também famílias da classe média, muitas jovens e com filhos, em que pelo menos um dos elementos do agregado ficou desempregado. Gente que pela idade, pela falta de formação e de empregos desesperam a cada dia, sem perspectivas de um futuro melhor.

A juntar às baixas pensões e ao desemprego, a prevista redução dos apoios sociais fazem recear o pior. Só no primeiro semestre de 2010 mais de 40 mil pessoas juntaram-se às 260 mil já apoiadas pelo Banco Alimentar. O exército dos carenciados aumenta todos os dias e, apesar da generosidade das Instituições de Solidariedade Social, das empresas e de muitos particulares, (quase todos também a braços com as suas próprias dificuldades de subsistência) a inevitável diminuição de custos faz-nos pensar ainda mais naqueles que, sem saída, aguardam sem esperança, mas com dignidade, o apoio de que necessitam.



sexta-feira, outubro 15, 2010

Afinal, do que é que a senhora estava à espera?


O miúdo tinha “pinta”. Não mais que cinco anos e uma cara gira e assaz malandreca, o rapaz não parava sossegado à mesa da esplanada. Até que, agitado como estava, deu um salto da cadeira e afastou-se ligeiro exclamando “Porra!”.

A senhora que estava com ele, presumivelmente a avó, decerto senhora de muitos princípios, chocada mais com a má educação do petiz do que com a crueza da palavra, admoestou-o: “Carlitos, repete lá …”, ao que o miúdo se apressou a exclamar “Porra!”.

A senhora visivelmente incomodada por não ter sido aquela a educação que os pais e os avós lhe tinham dado, puxou o miúdo para si e, com cara franzida e voz de poucos amigos, disse-lhe de novo (como que a querer dizer ao neto que aquela era uma expressão muito feia que não se devia dizer): “Carlitos, repete lá …”

Pois nem mesmo a cara zangada da avó conseguiu demover o Carlos de dizer - pela terceira vez, num tom que bailava entre o inocente, o confuso por não perceber aonde a avó queria chegar e o traquina - a palavra maldita “Porra!”.

Bolas, digo eu que sou um bocadinho mais crescido e conhecedor das conveniências sociais, do que é que a senhora estava à espera? Afinal era ela é que insistia para que o gaiato repetisse a palavra …



quinta-feira, outubro 14, 2010

A rotundazinha


Quantas vezes têm ouvido dizer que a qualidade da terra está na origem das boas colheitas? Frutos e vegetais são normalmente excelentes quando a terra onde foram semeados são também de boa qualidade.

O que com certeza nunca se tinham apercebido é que um bom empedrado pode vir a dar placas de trânsito mais robustas ou mais crescidas. Vá, confessem que essa nunca vos tinha passado pela cabeça.

Pois a prova está aqui. Na mesma cidade, na mesma rotunda pequenina com uma placa central ainda mais pequenina que mal alberga as quatro placas que obrigam a contorná-la, podem ver na fotografia de cima que as placas são todas do mesmo tamanho e, na foto de baixo, tirada um ano depois (embora de ângulo diferente), vejam como algumas delas estão mais espigadotas. Qualidade do empedrado, digo eu.

Os sinais são, de facto, inestéticos. Agora como no ano passado. Mas vejamos as coisas pelo lado positivo. Se não estivessem lá esses sinais desajeitados o que é que a autarquia iria lá “plantar”? A imponente estátua do edil? Não, isso seria impossível em tão pouco espaço.





quarta-feira, outubro 13, 2010

A geração dos “nem-nem”


As várias manifestações de estudantes que tenho visto desfilar pela Baixa nas últimas semanas, com jovens divertidos e compenetrados na realização das suas praxes, deram-me, ao contrário do que seria de esperar, uma sensação de desconforto. Ao olhar para eles não pude deixar de pensar que muitos dos seus sonhos que agora começam a despontar com a entrada para a Universidade poderão vir a constituir verdadeiros pesadelos. Desconforto por eles, pelas dificuldades que a maior parte vai enfrentar nas suas vidas mas também por reconhecer que sucessivas gerações, a minha incluída, não foram capazes de preparar melhores caminhos para o futuro.

É certo que a crise por que passamos veio piorar significativamente a incerteza dos jovens. Com a falta e a precariedade do emprego não é de estranhar que possam vir a estar desmoralizados mas, principalmente, desesperados.

As condições que lhes foram proporcionadas deram-lhes um nível de formação que lhes permitia acalentar um futuro promissor. Estão (em princípio) mais preparados mas, em contrapartida, mais vulneráveis e perdidos. Os empregos escasseiam e uma boa parte dos jovens, para se conseguirem manter, trabalham em actividades para as quais não estudaram e onde ganham miseravelmente. Por isso não existem projectos de vida em que sintam especialmente interessados ou entusiasmados. Mas quando alguns pretendem abrir um negócio, uma empresa que os faça sair do marasmo dominante para dar um rumo à vida, para criar riqueza para si e para o país, aí, surgem todo o tipo de entraves, de burocracias e de desinformação que os faz pensar duas vezes e os convida a desistir.

Esta é a geração dos “nem-nem”. Nem trabalho nem perspectivas. Uma geração que, desorientada e entristecida, já percebeu que a qualidade de vida que a espera será irremediavelmente inferior à que tiveram os seus pais.


terça-feira, outubro 12, 2010

Numerologia - Superstições e crenças


No último domingo foi dia 10 de Outubro de 2010. Ou seja, 10-10-10. Uma repetição de algarismos que em quase todas as civilizações alimenta diversas superstições e crenças populares. E muitos acreditam que sequências numéricas deste género trazem sorte.

Neste caso, há quem diga que o estudo da numerologia permite inferir, entre outras coisas, que o algarismo 1 está associado à energia criativa, à originalidade e ao poder, enquanto que o 0 representa o poder divino e a perfeição.

Todo este fascínio dos povos pelos números e pelo seu significado, que vem desde a Antiguidade, fez com que muitos noivos, em várias latitudes e por causa de tão importantes predicados, tivessem escolhido o domingo passado para se casarem.

Ainda que não seja muito dado a superstições, acho que seria bom estar atento a elas, sobretudo se tiverem um cariz positivo. Às más, deixemo-las sossegadas. Pena é que os nossos políticos não tivessem aproveitado a data para terem tomado umas quantas decisões que são absolutamente necessárias e urgentes. É que a próxima conjugação favorável só se vai dar em 11.11.2011 e, nessa altura, é capaz de ser tarde. Superstições à parte, claro …





segunda-feira, outubro 11, 2010

O Regabofe


Sempre defendi que mesmo nas situações de aperto financeiro não devemos dar uma imagem de miseráveis. Ou seja, mesmo em ocasiões de aflição devemos manter uma postura de dignidade. “Pobretes mas Alegretes”, como diz o povo (o povo diz cada coisa …). E, no que ao nosso país diz respeito, se bem que estamos a atravessar um período difícil (leia-se, sem dinheiro) não temos necessidade de dar a imagem de miserabilismo que muitos gostariam de transmitir. Há que haver sensatez na gestão da coisa pública e é isto que devemos exigir aos responsáveis que têm por missão dirigir os destinos de Portugal.

É consensual que temos que endireitar as contas públicas e reduzir drasticamente o endividamento externo. Pedem-nos, por isso (ainda) mais sacrifícios. Tudo bem, o povão amocha, faz mais uns furos no cinto (que os outros já tinham sido todos utilizados) para pagar mais impostos, para reduzir os seus já parcos salários e para ficar sem alguns dos apoios sociais que tinha e que julgava ser um direito adquirido. Explicaram-lhes (???) os porquês e, mesmo sem perceber as razões do descalabro, dispõem-se a “alinhar”

Porém, quando já assumiram que certas despesas – com a alimentação, com a saúde, com a cultura ou com o lazer – têm que sofrer alguns cortes, como vão entender que certas instituições do Estado gastam milhões em festas, brindes e consultores?

Como acham que se sentem todos aqueles que pagam direitinho os seus impostos e que de manhã à noite ouvem, a toda a hora, a palavra maldita – CRISE – quando sabem que os organismos do Estado, e todos que gravitam à sua volta, vivem em permanente festança sem se preocuparem com o que gastam.

Que acham que podemos sentir quando sabemos que, por exemplo, a ANACOM (a entidade reguladora das comunicações) gastou 150 mil euros na comemoração do seu 20º aniversário? Ou que o ICP (Autoridade Nacional de Comunicações) gastou 130 mil euros numa campanha sobre roaming internacional? Ou, ainda, que o Turismo dos Açores pagaram mais de milhão e meio de euros para organizar a cerimónia das 7 Maravilhas de Portugal? Ou, finalmente, que a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos (aqueles que são responsáveis pela cobrança dos impostos, aqueles mesmos que “nos vão aos bolsos”) gastaram na celebração dos seus 160 anos mais de 220 mil euros (sem contar os custos de pernoita de cerca de 900 pessoas que se deslocaram a Lisboa para participar na festa)? O que acham que nós sentimos perante tal regabofe?

E não venham com o argumento já estafado que estão, desta forma, a estimular a economia por que há empresas que estão a ganhar com isso e que mantêm empregos, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Tretas! Percebemos bem o que está por detrás de tudo isto.

E acabo como comecei. Comemorem o que têm que comemorar. Enalteçam os seus feitos e os seus colaboradores. É justo que o façam. O que queremos é que sejam comedidos nos seus gastos e, porque vivem do dinheiro dos contribuintes, alinhem connosco no esforço que nos está a ser exigido. Será pedir muito?


sexta-feira, outubro 08, 2010

Mário Vargas Llosa - Prémio Nobel de Literatura de 2010

Mário Vargas Llosa, escritor peruano nascido em 28 de Março de 1936, foi o vencedor do Prémio Nobel de Literatura de 2010. Ensaísta e dramaturgo é considerado um dos maiores nomes da literatura em língua espanhola.

“A Casa Verde”, “Lituma nos Andes”, “A Cidade e os Cachorros”, “Pantaleão e as Visitadoras”, “A Festa do Bode” e “Travessuras da Menina Má” são algumas das suas obras mais conhecidas.

Recebeu galardões muito importantes como o Prémio Cervantes em 1994 e o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras, em Espanha, em 1986 e é membro da Real Academia Española desde 1994.

Ao anunciar a distinção, o secretário permanente do Nobel, Peter Englung, destacou que o prémio foi atribuído não só pela qualidade dos seus últimos livros mas também pelo conjunto da sua obra e toda a trajectória literária. Qualificou ainda o escritor como “um contador de histórias divinamente talentoso, cujos livros conseguem tocar os leitores”.

De Mário Vargas Llosa um inédito escrito em Nova Iorque em Novembro de 2001:


POEMA PARA A EXORCISTA


A minha vida aparece sem condão e

monótona

aos que me vêem

no trabalho árduo da oficina

em manhãs apuradas.

A verdade é muito distinta.

Cada noite eu saio e discuto

contra um espírito malévolo

que, se valendo de

máscaras - cão, grilo,

nuvem, chuva, vagabundo,

ladrão - trata de

se infiltrar na cidade

para estragar a vida humana

semeando

a discórdia.

Apesar dos seus disfarces

sempre a descubro

e a espanto.

Nunca conseguiu enganar-me

nem vencer-me.

Graças a mim, nesta cidade

ainda é possível

a felicidade.

Mas os combates nocturnos

deixam-me exausta e ferida.

E para compensar a minha

guerra contra o inimigo,

peço uns restos

de afecto e de amizade.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Qu’a coisa está difícil, lá isso está



Desenganem-se os que julgam que os aumentos do custo de vida e as dificuldades daí resultantes apenas afectam as classes mais desfavorecidas. Não é bem assim, apesar da lamuria costumeira de que são sempre os mesmos a pagar a crise, isto é, os que ganham menos. A verdade, porém, é que toda a gente se sente mal. Mesmo aqueles que têm posições/vencimentos mais confortáveis. A prová-lo, os dois casos verídicos que a seguir se contam:


Há uns dois anos, quando Madona actuou no nosso país, um Magistrado, Procurador Adjunto do Ministério Público, quis vender um bilhete para o concerto por 450 euros, ingresso esse que lhe tinha custado apenas 60 euros. Teve azar, foi apanhado em flagrante e foi suspenso da actividade durante um ano.


Recentemente um deputado eleito por um círculo da província, declarava as suas dificuldades financeiras em se manter em Lisboa, sugerindo mesmo que a cantina da Assembleia da República deveria abrir também à hora de jantar para ver se o orçamento conseguia chegar para o mês inteiro.


Como vêm, estes dois casos, diferentes na sua génese mas que tendem para um mesmo fim - aumentar os rendimentos (ainda que o primeiro fosse de modo ilegal) - foram protagonizados por pessoas que não ganham propriamente uma miséria nem pertencem ao rol dos muitos milhares de portugueses que subsistem com umas poucas centenas de euros.


Ainda que com lágrimas de crocodilo, começo a ter pena de certas pessoas que andam por aí a queixar-se. Parece qu’a coisa está mesmo difícil!



quarta-feira, outubro 06, 2010

Na cozinha, com avental



Terminou no passado fim-de-semana a 4ª edição do Lisboa Week Restaurantes. Uma oportunidade interessante para se conhecerem (ou revisitarem) restaurantes que não são muito acessíveis à maioria das bolsas dos portugueses. Aliás, o conceito subjacente a este evento baseia-se exactamente na democratização do acesso à restauração de qualidade. Para além de se poderem usufruir novos ambientes e receitas gastronómicas, existe ainda uma componente de responsabilidade social. Ou seja, uma parcela do custo da refeição é entregue a instituições públicas. Desta vez cada pessoa pagava 20,00 euros (19,00 para o restaurante e 1,00 para as tais instituições).

Genericamente os restaurantes aderentes à iniciativa apresentam a chamada “cozinha de autor”, donde, o que mais sobressai é a criatividade da ementa - “magret de pato”, “lombinhos de porco sous-vide” ou “demi-cuit com mini legumes à grega, “dip” de gengibre”, por exemplo – quase sempre em doses extremamente diminutas mas ... em pratos enormes. Os nomes são pomposos e a apresentação dos pratos irrepreensível.

Para além da comida, e uma vez que os restaurantes são de uma gama média/alta (alguns bastante alta), tudo é de grande qualidade. Tudo menos o serviço que, muitas vezes, é bastante deficiente, nada a condizer com os pergaminhos do estabelecimento. Claro que, como em tudo, há experiências boas e experiências más. Já apanhámos de umas e de outras.

Mas os meus Amigos que me acompanham há muito, sabem bem das minhas reticências quanto à cozinha de autor. “Os olhos também comem” é apenas meia verdade. Há mais coisas para além do exotismo e da arte da apresentação da iguaria. Há a simplicidade, o sabor e a quantidade necessária que satisfaça o nosso palato e o nosso estômago.

É por isso que eu, sem renegar o conhecimento continuado de novas experiências gastronómicas, continuo a privilegiar a cozinha simples do tipo Mediterrânica. E mais, continuo a confeccionar (sempre de avental posto) – modestíssimo aprendiz de tais artes – o dito trivial. E vejam se as fotografias não são sugestivas. Tudo feitinho por “moi-même”. Para que vejam …





























sexta-feira, outubro 01, 2010

A Bomba Atómica


Ainda que em traços muito gerais foram anunciadas pelo Governo as medidas que pretendem “salvar” o nosso país. Foi a queda de uma bomba atómica que atingiu um povo completamente perdido perante um futuro que se prevê demasiado sombrio: redução de salários, aumento de impostos, mais desemprego e crescimento da insatisfação social (de que não se sabe as consequências).

São medidas muito duras mas que podem ainda não chegar.

E como se a “boa nova” não tivesse sido suficiente, fomos ainda contemplados com as declarações do Presidente do Partido Socialista, Almeida Santos:

"Os sacrifícios que estão a ser exigidos ao povo não são sacrifícios incomportáveis. Oxalá que o país nunca tenha de enfrentar sacrifícios maiores".

"As crises não são só do Governo, são do povo e o povo tem que sofrer as crises como o Governo sofre".

Nem queríamos acreditar.




quinta-feira, setembro 30, 2010

O silêncio das palavras


“…Depois a subida a pé até ao cemitério, em silêncio de palavras … Impressionou-me aquela timidez respeitosa perante a solenidade da morte …”

Tocou-me a descrição que eu vi escrita algures sobre a atitude assumida, durante um funeral, por quem se ia despedir de um ente querido. Talvez porque não estamos habituados a presenciá-la, pelo menos nos centros urbanos. Sempre que vou a velórios ou a funerais, assisto a animadas cavaqueiras de pessoas que já não se encontram há tempos e que aproveitam a oportunidade para pôr a conversa em dia, para contar as últimas ou para tratar de assuntos, porventura importantíssimos, que não tiveram outro tempo ou espaço para serem debatidos. Murmúrios que vão subindo de tom até o deixarem de ser.

Questiono-me muitas vezes sobre tamanho desrespeito. E não compreendo porque se ignora o recolhimento necessário e que aquele é o lugar para homenagear o falecido e a sua família. E deparamos apenas com o ruído (demasiado alegre por vezes) em vez do “silêncio das palavras”. Dá que pensar.


quarta-feira, setembro 29, 2010

Um pódio enganador

Na crónica que aqui escrevi no passado dia 23, intitulada “Afinal, esperamos o quê?”, em que abordava o tema da sustentabilidade do Estado Social não conhecia ainda os números que Nicolau Santos divulgou no Expresso desta semana. Dizia ele:

“… No que toca à generosidade dos apoios concedidos durante cinco anos após se cair na situação de desempregado, Portugal está em sexto lugar entre 29 países desenvolvidos. Não é normal que um país que está sistematicamente na cauda dos indicadores económicos europeus se encontre neste lugar. Menos normal ainda é que estejamos imediatamente à frente da Alemanha, França e Finlândia e só atrás da Noruega, Bélgica, Áustria, Dinamarca e Irlanda. Os Estados Unidos são o último país da lista. Conclusão: somos um país pobre com um apoio aos desempregados de rico. E, como é óbvio, isto não é sustentável”.

É uma conclusão sem contestação. Daí que as últimas medidas conhecidas levaram a que, em Agosto último, 38% dos desempregados já não tenham direito a qualquer apoio. Uma situação que, também ela, não é, obviamente, sustentável.

terça-feira, setembro 28, 2010

O insustentável peso do … endividamento


Neste atormentado momento que vivemos, permitam-me gracejar um pouco que seja, a ver se consigo espantar os maus espíritos. E justamente por brincadeira, atrevi-me a intitular esta crónica com uma espécie de trocadilho do título do belíssimo romance de Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser”.

No romance descrevem-se amores e desamores acontecidos na Europa Central durante os conturbados anos sessenta do século passado (“A insustentável Leveza do Ser”). No texto de hoje voltamos a tratar do também conturbado problema do endividamento nacional e da sua sustentabilidade (“O insustentável peso do endividamento).

Não é que eu traga agora qualquer dado novo sobre a matéria nem, tão-pouco, a forma de a resolver. Lembrei-me apenas de uma teoria que eu sempre ouvi, que é capaz de ter algum fundamento mas que, na situação presente, talvez não se aplique.

Dizia-se: “Dívida, dívida é aquilo que nós pedimos emprestado e não conseguimos pagar. Os empréstimos que contraímos mas que pagamos são apenas investimento. Como quando compramos uma casa que vamos pagar a 30 anos. O dinheiro que devemos ao Banco é apenas um investimento que vamos amortizando, nunca uma dívida.

No caso de Portugal, porém, somos capazes de ter uma dívida de todo o tamanho que não sei se teremos capacidade para pagar. Não façam caso, estou a brincar de novo. Claro que teremos, é só aumentar a receita, isto é, os impostos. Tão a ver?


segunda-feira, setembro 27, 2010

As “Águas de Portugal” meteram água

Precisamente quando o PEC 2 nos obriga a cumprir uma série de medidas que passam pela redução da despesa pública, vem-se a saber que a frota do Estado continua a crescer, sobretudo com o forte contributo das empresas públicas que, ao que parece, ninguém controla.

Não se põe em causa a aquisição ou o aluguer de veículos novos. Temos noção que a maioria são absolutamente necessários para o desenvolvimento/cumprimento das actividades das empresas, quero dizer para o “serviço” propriamente dito. O que se questiona, isso sim, é a política levada a cabo por essas empresas aquando da renovação das respectivas frotas e, em particular, para os veículos de gama alta destinadas ao topo da hierarquia.

Veja-se o exemplo do Grupo Águas de Portugal, cujo parque automóvel é composto por 1190 viaturas de serviço. Tudo bem, devem ser necessárias, não se discute. Mas quem é que percebe que, entre estas, tenham à sua disposição 388 carros topo de gama? Claro que ninguém aceita a justificação que isso acontece porque as viaturas são contratadas em regime de AOV (aluguer operacional de veículos) que podem até ser mais vantajosas para a empresa em alternativa à aquisição mas que têm, obviamente, custos (e altos) a pagar.

A realidade é esta. Obrigámo-nos com Bruxelas a cumprir as directivas aprovadas no Programa de Estabilidade e Crescimento. Pode até ser que as verbas dispendidas com a existência de umas centenas de carros para administradores e outros quadros não tenham uma relevância por aí além nos orçamentos, mas há questões de racionalidade, de bom-senso e de exemplo que não se podem esquecer. E, como se sabe, os mercados estão de olho em nós.

Talvez por isso, o Governo tenha suspendido de imediato a renovação da frota automóvel das Águas de Portugal e tenha decidido que Pedro Serra, o presidente do Grupo Águas de Portugal não será reconduzido quando terminar este mandato, em 31 de Dezembro.

Foi um bom sinal mas apenas um sinalzinho. Há muitos mais para dar e urgentemente.



sexta-feira, setembro 24, 2010

Um país mais elegante


Não é a primeira vez que nas minhas crónicas levanto questões de ordem comportamental para as quais, invariavelmente, procuro respostas. Embora possam parecer meras questões de somenos, a verdade é que ao lançar essas interrogações acalento sempre a esperança de que alguém me consiga aquietar as apoquentações que me vão na (i)alma. E, hoje, volto a fazê-lo.

Agora que o Verão acabou e a praia já não tem o encanto de quando começou o tempo quente, interrogo-me por que é que as pessoas teimam em regressar da praia com a areia agarrada aos pés (às vezes até meio da perna), envergando apenas o biquíni ou os calções (daqueles que são pródigos em realçar os ventres avolumados). E mais ainda porque se passeiam alegremente nesses trajes pelas ruas, pelas lojas e até pelos restaurantes, mesmo os que já estão longe do perímetro das praias.

Será que essa gente não consegue perceber o ridículo das figuras que fazem? É que seria bem mais apropriado que eles envergassem uma t-shirt (não daquelas de alças à camionista, por favor) ou um pólo e elas se cobrissem com um simples “pareo” ou um vestidinho de alças. Também lhes ficaria melhor calçarem umas sandálias ou até umas havaianas (mesmo de contrafacção) depois de sacudidas as areias semi-molhadas dos pés. Ficariam bem melhor fossem eles para onde fossem. E, notem, não estou sequer a sugerir que usem outras toilettes, essas mais adequadas a lugares nocturnos.

Ao fim e ao cabo podemos e devemos andar à vontade, nomeadamente quando estamos em férias. Mas andar à vontade não significa desleixo. A nossa terra mereceria melhor. Embora com montes de dificuldades para resolver, seria certamente um país mais elegante e agradável.



quarta-feira, setembro 22, 2010

“Quando a esmola é grande …”


Quando atendi o telefone ouvi uma voz apática e sumida perguntar se eu era eu. Como disse que sim, a tal voz triste e inexpressiva comunicou-me que eu tinha sido um dos cinco felizes premiados com quinze dias de férias no Algarve. Era um prémio de truz, ganhar quinze dias de alojamento para quatro pessoas numa de várias unidades hoteleiras à escolha, cujos nomes e localização não consegui ouvir. Intuí, contudo, pela voz desanimada que me soava do outro lado, que o prémio deveria ter “algum defeito”.

Por descargo de consciência ainda perguntei o que é que eu tinha feito para ganhar essas férias, assim de mão beijada. Deram-me duas hipóteses, ou tinha preenchido qualquer inquérito num centro comercial ou na net ou, simplesmente, fora escolhido aleatoriamente pelo computador da empresa que promovia a acção. Que sorte! Provavelmente eu não tinha feito mesmo nada para merecer tamanha distinção mas, como sou um tipo de sorte, fui o escolhido, com mais outros quatro felizardos, para passar quinze diazitos no Algarve.

Havia, porém, uma condição. Teria que me deslocar a uma determinada direcção ali para os lados do Restelo, às 21 horas desse dia, a fim de levantar o voucher que me daria direito ao prémio. Mas tinha que ser nesse próprio dia, senão perderia a oportunidade. Informei o meu “entusiasmado” interlocutor que não me era possível comparecer, ao que ele respondeu incrédulo e entristecido “mas olhe que são quinze dias no Algarve para quatro pessoas …”.

Declinei o prémio, agradeci a atenção e desliguei. Imagino que o sujeito tenha ficado ainda mais desolado, quem sabe se com os olhos marejados de lágrimas. Só não sei se por eu ter desperdiçado tão generosa oferta, se por ele não ter podido dizer-me que associado ao prémio havia um produto que a organização pretendia impingir.

Pode ser que o meu suplente na lista tenha querido aproveitar a oferta. Só que a esta hora talvez esteja a pensar por que razão foi assinar um contrato de compra de uma coisa que nunca quis e que farão destas férias algarvias, umas férias demasiado caras.