segunda-feira, abril 25, 2011

25 de Abril – e já passaram 37 anos



“Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
na esperança de um só dia”.

Manuel Alegre


Com todos os altos e baixos, com todas as crises financeiras e outras, com todos os desmandos e aldrabices que se atravessaram nestes 37 anos, mesmo assim, olhando para tudo isso, o balanço é deveras positivo. Somos hoje um país diferente e melhor. E mantemos um bem a que muitas vezes não damos o real valor – a liberdade.


quarta-feira, abril 20, 2011

Coisas que me chateiam …

Em época de Páscoa, juro que não me apetecia nada escrever sobre mais uma escandaleira que eu soube há dias. Mas, que querem, chateia-me ver como se delapidam os dinheiros públicos, ainda por cima quando tantos sacrifícios são exigidos aos cidadãos.

Temos o caso de mais uma empresa pública, a Carris, mais uma que é completamente deficitária – teve no ano passado um buraco financeiro de 776,6 milhões – e que, apesar disso teve o descaramento de ter atribuído ao seu presidente e a três dos seus administradores viaturas de topo de gama. E nem me interessa se os veículos foram adquiridos a “el contado” ou em sistema de ALD. Para mim continua a ser uma pouca-vergonha. Em tempo de crise enoja-me ainda mais.

Mas como se não fosse o suficiente e apesar dos cortes salariais aplicados na administração pública, a Companhia de Carris de Ferro de Lisboa – a Carris - teve a desfaçatez de aumentar substancialmente os vencimentos dos seus quadros superiores, um aumento que se traduziu em quase 33 mil euros a mais em comparação com 2009.

Não aceito que a justificação para os carros novos e para os aumentos seja um simples “tinha que ser, fazia parte do contrato”. Então e os funcionários públicos que tinham um salário contratualizado e que, sem apelo nem agravo, tiveram uma redução dos ordenados?

Onde estão a moral e o decoro? Até quando vão continuar estas situações?




terça-feira, abril 19, 2011

Portugal e a “ajuda externa”

Para acrescentar um pouco mais de confusão à já baralhada cabeça de muitos portugueses, trago-vos hoje uma parte de um artigo publicado no New York Times, escrito por Robert M. Fishman, professor de sociologia da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Segundo ele, a exemplo do que muitos outros têm já afirmado, Portugal não precisava assim tanto de ajuda. Pelo menos, daquela inevitabilidade de ajuda externa defendida por um sem número de especialistas.

“O pedido de ajuda de Portugal nada tem a ver com o seu défice. «Portugal teve uma performance económica forte nos anos 90 e estava a gerir a recuperação da recessão global melhor do que muitos países da Europa.


Como foi dito há alguns meses, e silenciado cada vez mais com o aperto crescente dos mercados, Portugal ficou sob pressão injusta e arbitrária de negociantes de obrigações, especuladores e analistas de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo.


Mercados que são um perigo, uma vez que deixados sem regulamentação estas “forças” ameaçam eclipsar a capacidade democrática dos governos (quem sabe mesmo dos EUA) de tomar as suas próprias decisões sobre os impostos.


Em Portugal a crise é completamente diferente da instalada na Grécia e na Irlanda. As instituições económicas e políticas não falharam e conseguiram importantes vitórias, antes de sermos submetidos às ondas de ataques dos especuladores.


O resgate que aí vem não irá resgatar Portugal, mas sim empurrá-lo para uma política de austeridade impopular que atinge quem mais precisa. São as bolsas estudantis, as reformas, o combate à pobreza e os salários de funcionários públicos que vão sentir na pele o resgate.


A dívida portuguesa está bem abaixo de países como a Itália e o défice tem diminuído “rapidamente” com os esforços do Governo. No primeiro trimestre de 2010, Portugal teve uma das melhores taxas de recuperação económica, acompanhando ou mesmo ultrapassando os vizinhos do Sul e até mesmo a Europa Ocidental.


As razões do ataque a Portugal são então duas. Por um lado, um cepticismo no modelo de economia mista de Portugal. «Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação em Portugal - o que evitou uma bolha imobiliária e preservou a disponibilidade de baixo custo de rendas urbanas - a assistência de renda para os pobres. Por outro lado, a falta de perspectiva histórica é outra explicação. O crescimento do país nos anos 90 levou a uma melhoria nos padrões de vida e a uma taxa de desemprego das mais baixas da Europa.


Os ataques dos mercados condicionam não só a recuperação económica de Portugal, mas também a sua liberdade política. Se o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma “onda democratização que varreu o mundo”, a entrada do FMI em Portugal, em 2011, pode ser o início de uma onda de invasão da democracia, sendo que as próximas vítimas poderão ser a Espanha, a Itália, ou a Bélgica.”


Confusos ou mais confusos ainda? De qualquer forma é sempre bom analisarmos as várias teorias possíveis. Qualquer que seja a verdadeira uma coisa é certa, a inevitabilidade das medidas muito austeras que vamos ter que suportar.




segunda-feira, abril 18, 2011

Benditas férias da Páscoa

Irritam-me as análises superficiais e o modo ligeiro como se debatem determinadas matérias - sem a ponderação devida - e como se chega a certas conclusões. Mesmo quando se trata de textos meus que padecem desse mesmo mal que eu condeno. E irritam-me igualmente as opiniões em que se aplicam julgamentos implacáveis a pessoas que não agem ou pensam da mesma forma do que a maioria considera razoável.

Vem isto a propósito das notícias que têm saído nos últimos dias sobre as férias que muitos portugueses se preparam para fazer nesta Páscoa. Férias, gastar uma data de massa num tempo em que estão prestes a desabar (para muitos já começou) sobre as nossas cabeças as medidas de austeridade que o FMI vai determinar? Então em tempo de crise ainda pensam no trolaró?

Para que conste, eu não vou sair nos tempos mais próximos mas acho muitíssimo bem que aqueles que têm condições para fazê-lo possam gastar o seu dinheiro da maneira que melhor acharem. Férias no Algarve, no Brasil ou nas Caraíbas? Óptimo, e que lhes façam muito bom proveito, que gozem o máximo por que têm todo o direito e ninguém tem nada a ver com isso.

Mas a questão tem o outro lado, aquele em que geralmente pouco se pensa. É que estas viagens e estadias dos que se propõem fazê-las dão a possibilidade a muitos milhares de pessoas a manterem ou a voltarem a ter um emprego, a ganhar dinheiro, a sustentar famílias, a dinamizar a economia.

Quantos hotéis e restaurantes vão ser reabertos por uns dias que seja e vão ter que chamar trabalhadores para mantê-los? Quantas pessoas estão envolvidas em todo este sistema de comércio e de lazer, desde os que trabalham nas agências de viagens, nos aviões, nos restaurantes, nos postos de gasolina, nos que comercializam todo o tipo de alimentos e bebidas, nos que vendem artesanato, enfim, em todos os que sucumbiriam caso não houvesse este fluxo migratório que gera riqueza e que, para muitos, constitui o necessário balão de oxigénio que lhes permitem continuar a sonhar?

Bem podem torcer o nariz - sobretudo aqueles que não pertencem à Europa do Sul onde existe sol, e mais ainda aqueles que nos emprestam o dinheiro de que necessitamos – e tecer todo o tipo de críticas a estes portugueses loucos que estão a queimar os últimos cartuchos antes de se lançarem no precipício. Assiste-lhes, certamente, alguma razão. Eles que têm uma cultura de rigor muito diferente da nossa esquecem-se (ou não percebem), porém, da outra face da moeda onde estão incluídos milhares de trabalhadores que sobrevivem graças à “loucura” dos que, nesta Páscoa, estão a esgotar os destinos de férias.


sexta-feira, abril 15, 2011

Falavam-me de Amor

De Natália Correia "Falavam-me de Amor"


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

quinta-feira, abril 14, 2011

E o burro sou eu?

Não pude deixar de me lembrar da “histórica” pergunta de Scolari quando li na imprensa que o juiz que preside ao julgamento do caso BPN é inflexível no cumprimento das pausas quer para almoço quer durante as manhãs e as tardes.

Independentemente das horas a que comecem as sessões e dos atrasos verificados, o tempo para o almoço é sagrado e é para se cumprir à hora certa, à uma em ponto, e os intervalos a meio da manhã e da tarde são obrigatórios. Porquê? Por que as matérias são cansativas e há que aliviar a tensão bebendo uns cafezinhos e fumando uns cigarros.

Pois é, durante anos a fio, trabalhei intensamente, a maioria das vezes entrando cedo e saindo muito tarde e, para mim, a paragem para “almoço” era um simples compasso de espera de uns quantos minutos em que comia qualquer coisa enquanto pensava como dar andamento aos assuntos que tinha em mãos. Stress e ansiedade? Claro que tinha e também problemas para resolver que, por vezes, não eram nada fáceis. Mas, para além de alguns cafés (às vezes demasiados) não me dava ao luxo de fazer pausas institucionais e prolongadas.

Daí que, face à divergência entre os ritmos de trabalho, tenha ocorrido questionar-me: “Ah, então, durante todos estes anos o burro fui eu?”


quarta-feira, abril 13, 2011

Alto e pára o baile

Ainda não tinha tido tempo de desabafar convosco sobre este assunto, mas de hoje não escapa.

Eu sei que a vida deve ser dinâmica, caso contrário correm-se grandes riscos. É assim com as empresas, é assim na política e é assim com as nossas próprias vidas. Mas, há limites.

Confesso que não achei piada àquela ideia peregrina de um colunista do Financial Times sobre a possibilidade de Portugal ser “anexado” pelo Brasil. Num texto curto, intitulado “Portugal e Brasil, inversão de papéis”, texto que pretendia ser gracioso (?), Edward Hadas, o tal jornalista, sugeria que face às grandes dificuldades financeiras em que o nosso país se encontra, seria bem melhor para nós se ficássemos sob a alçada dos nossos irmãos brasileiros, actualmente um gigante emergente do poder mundial e que cresce a bom ritmo. Ou seja, seríamos mais uma província brasileira, esta (Portugal,Portugália ou coisa do género) situada como ponta-de-lança na velha Europa, o que constituiria uma vantagem enorme para … o Brasil.

Ganhava o Brasil, ganhava Portugal e ganhava a Europa. Todos ganhavam. Só que, ainda que o nosso país tirasse vantagens reais desta “colonização” sem sentido, ainda assim, eu (e a maioria dos portugueses, certamente) não estaríamos de acordo. E acreditem que penso desta forma não por mero nacionalismo bacoco mas por que não faz qualquer sentido. Somos apenas países irmãos, com uma língua comum e com muito passado histórico que nos une. Aliás costuma dizer-se que apenas o oceano nos separa. E, por também não fazer sentido, nem se coloca a questão (acho eu) de uma eventual vingança brasileira pela colonização lusa de tantos séculos.

A hipótese levantada pelo jornalista quis, como referi, ter graça. Mas se não foi esse o seu pensamento, certamente que imaginava que Portugal só poderia sair do buraco em que se encontra se fizesse parte de uma nação em franca ascensão económica e social. Assim sendo, a questão poder-se-ia colocar da seguinte forma:

Portugal teria vantagem se fosse uma província brasileira? Se calhar teria … mas não seria a mesma coisa.


terça-feira, abril 12, 2011

Afinal foi ontem

Quando esperávamos que só hoje chegassem as nossas visitas especiais, elas resolveram aparecer ontem. Formalmente “aterraram” em Portugal ontem, dia 11 de Março de 2011, muito embora, na verdade, elas já andassem por aí há algum tempo. A partir de agora vamos ter connosco equipas do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu que se preparam para as negociações sobre o plano de resgate financeiro a Portugal. Acho que de negociações vai haver muito pouco e o que certamente acontecerá é que começaremos a saber (e a sentir) que tipo de sacrifícios nos vão ser impostos, o que, como já todos percebemos, vão ser muitíssimo duros. Porém, como não se pode remar contra a maré, consolemo-nos pelo menos com a expectativa de que as medidas a adoptar não durem demasiado tempo.

A vinda da (indesejável) troika dá-nos, pelo menos, a esperança de que Portugal possa vir a ter o dinheiro suficiente para poder cumprir a dívida que se vence até Junho (nada menos que nove mil milhões de euros) e, já agora, que traga também uma varinha mágica que meta algum bom senso nas cabeças dos nossos políticos, o que, convenhamos, não vai ser fácil.

E se conseguirmos a dinheirama necessária para pagarmos aos nossos credores em Junho, seguramente poderemos gozar com muito mais tranquilidade o mês de Julho que vai ser muito especial. Um mês que vai ter ter cinco sextas-feiras, cinco sábados, cinco domingos e duas luas novas, uma conjugação que raramente acontece.



segunda-feira, abril 11, 2011

Entre o passeio, a “ajuda” e o futebol

Antes de mais quero expressar o meu agradecimento a todos os Amigos que me contactaram por e-mail ou por telefone ao constatarem que não publiquei qualquer post a semana passada. Certamente que não o fizeram pela falta dos textos mas, tão-só, por estarem preocupados com a minha ausência. Obrigado pelo vosso cuidado. Felizmente nada aconteceu, a não ser … a não ser a decisão de querer mudar de ares por uma semana. E foi isso que aconteceu. Passeei-me na última semana numa bela cidade, “a dos Doutores” – Coimbra.

Uma semana em cheio, diria. Houve o passeio que referi e, na quarta-feira, houve também o nosso pedido de ajuda externa para tentar fugir à situação eminente de bancarrota. Ajuda? É uma força de expressão, já se vê, que, aliás, pagaremos bem caro.

Mas foi também a semana, logo no dia seguinte ao pedido do tal empréstimo, em que as nossas equipas do pontapé na bola nos deram a satisfação e o orgulho de conseguirem bons resultados na Liga Europa.

Se relativizarmos as coisas, bem podemos dizer que pela “ajudinha” vamos ter que penar por muitos e bons anos. Já pelos resultados dos futebóis a nossa euforia vai esvair-se num instante. Resta-nos gozar intensamente esse momento.



sexta-feira, abril 01, 2011

Custa-me a aceitar

Na última quarta-feira no programa de José Gomes Ferreira “Negócios da Semana”, na SIC Notícias, discutiam-se os problemas e os buracos das famigeradas “Parcerias Público-Privadas”. Às tantas, quando se falava da enorme dívida externa do país, um dos convidados, o Professor de Economia e Gestão Avelino de Jesus, abordou a necessidade da reestruturação da dívida.

Gomes Ferreira exclamou: “mas isso é dizer aos credores que uma parte não lhes vai ser paga”.

Resposta do Professor: “Claro, isso é conhecido. 30 a 50% da dívida vai ter que ser perdoada … serão os próprios credores a fazer essa proposta porque já perceberam que nós não conseguimos pagar … não pagar uma parte não é nada de escandaloso, isso permitirá reescalonar a dívida remanescente com um prazo mais alongado e com juros mais razoáveis”.

Percebo o argumento mas custa-me a aceitar a ideia de que não é escandaloso deixar de cumprir os nossos compromissos. É uma questão de ética e de valores que, a serem aceites, põem definitivamente em causa a relação de confiança entre as partes.

“O dever acima de tudo” dizia-me o meu pai. Sei bem que “o dever” a que ele se referia significava tão-somente honestidade, obrigação e integridade de carácter. Coisas que parecem estar esquecidas hoje em dia.


quinta-feira, março 31, 2011

Os máximos históricos

Antigamente, quando eu ouvia falar em máximos históricos pensava, por exemplo, em coisas como Aljubarrota onde as tropas portuguesas derrotaram as castelhanas. Ou pensava nas vezes que os nossos atletas subiram ao primeiro lugar do pódio em Jogos Olímpicos. Ou, ainda, nos vários portugueses que conquistaram Prémios Nobel. Para mim, esses é que eram os “máximos históricos”.

Hoje navegamos em outras águas, porventura muito mais “agitadas” do que aquelas que os nossos navegadores enfrentaram quando partiram à descoberta do mundo. E a expressão “máximo histórico” tem agora um significado diferente e é usada todos os dias. Não pelos feitos heróicos alcançados pelos nossos compatriotas mas porque os juros dos empréstimos contraídos por Portugal não param de subir.

E, de máximo em máximo, em breve chegaremos à bancarrota final.



quarta-feira, março 30, 2011

Portagens, multas e pagamentos … pesados

Há uns anos, a propósito do aumento das portagens, gerou-se um movimento que levou os automobilistas a fazerem os seus pagamentos com moedas de baixo valor. Recordo-me que para pagar uns quantos euros, os desgraçados dos portageiros eram obrigados a contar as montanhas de moedas que lhes eram entregues. Era uma espécie de vingança que se fazia contra o Governo e cujo efeito recaía em cima dos pobres funcionários.

Mais recentemente foram os representantes da Associação Académica de Coimbra que, como forma de protesto contra o novo regime jurídico das instituições do Ensino Superior, demoraram mais de uma hora a pagar a portagem em Alverca. E fizeram-no exemplarmente pagando o custo exigido com cinquenta mil moedas de um cêntimo, no culminar de uma marcha lenta que só terminou na Assembleia da República.

Pois desta vez conhece-se a história de um cidadão, arquitecto de profissão, que estacionou o carro onde não podia e a Polícia Municipal do Porto passou-lhe a multa respectiva, pela infracção propriamente dita e pelo reboque da viatura. Pois o senhor arquitecto “arquitectou” a forma de cumprir integralmente as suas responsabilidades e pagou a quantia de 75 euros. Só que usou moedas de um e dois cêntimos dentro de um saco que pesava nada menos de 16,125 quilos.

As portagens e as multas já são pesadas. Mas o que dizer destas formas de pagamento?




terça-feira, março 29, 2011

Souto Moura, o nosso Nobel da Arquitectura

Quando as agruras provocadas pelos “nossos problemas” nos asfixiam faz-nos bem podermos sentir orgulho de nós e dos nossos. Foi o sentimento que experimentámos quando soubemos que o arquitecto Eduardo Souto de Moura foi distinguido com o Prémio Pritzker, considerado o Nobel da Arquitectura. Ainda por cima por se tratar de um prémio americano que é concedido a um arquitecto de um pequeno país desconhecido, arrumado a um canto da Europa e que tem sido ultimamente muito falado pelas piores razões.

Souto Moura, discípulo de Siza Vieira – também ele galardoado com o Pritzker em 1992 – ganhou este prémio pelo seu “rigor e precisão” bem patenteados no conjunto das suas obras. O mercado municipal de Braga, a ponte Dell'Accademia, em Veneza, a reconversão do Convento de Santa Maria do Bouro numa pousada, em Amares, e o Estádio Municipal de Braga são alguns dos seus principais projectos.

Não se trata de um nacionalismo bacoco. Trata-se tão-somente da mais genuína sensação de vaidade de ver atribuído – por decisão unânime do júri - o prémio mais importante da arquitectura (a nível mundial) a um português.


segunda-feira, março 28, 2011

O Precipício

Peço desculpa a quem veio aqui na última Sexta-Feira e não encontrou o “texto do dia” (quando o “produto” é bom a freguesia aparece, não é?). Faltei nesse dia e a justificação é simples. Estava (e ainda estou) a digerir o chumbo do PEC feito pela Oposição na Quarta-Feira. Mesmo já se estando à espera que o fizesse – eu próprio o tinha escrito na crónica que aqui publiquei nessa mesma Quarta – acho que ainda tinha a esperança que isso não acontecesse. Não, em particular, pela saída deste Governo e deste Primeiro-Ministro mas por que se adivinhavam uma série de outras preocupações que a queda do Executivo viriam acrescentar às já existentes.

Embora haja vários responsáveis não me interessa, neste momento, discutir quem são os culpados por esta crise política e pelas suas consequências. O que sei é que é o país e os seus cidadãos que vão sofrer com isso. Talvez aos senhores políticos lhes tenha escapado essa minudência, mas o que verdadeiramente deveria estar em causa é, tão-só, o país e os cidadãos e não as suas querelas políticas e os seus ódios pessoais.

E a resposta ao derrube do Governo veio de imediato. Aliás, não era difícil de prever. As nossas amigas agências de rating trataram de nos descer dois níveis na cotação (e ameaçam mais para breve), os juros da dívida subiram para números históricos e os “donos” da Europa puxaram pelos seus galões e admoestaram-nos. E se já estávamos mal, mais enfraquecidos ficámos.

Pronto, temos agora um Governo de Gestão, umas eleições à vista e um Governo que será empossado e que, independentemente da sua cor política, irá executar na íntegra o PEC 4 reprovado - com umas medidas adicionais e mais penalizadoras - que a Senhora Merkel já determinou.

E o pior é que todos os cenários que se desenham sobre a constituição do futuro Governo não conseguem tranquilizar-nos nem sequer permitem vislumbrar a possibilidade de uma maioria sólida no Parlamento. Há nos nossos políticos demasiados ressentimentos e falta de respeito. Sente-se que, muitos deles, zelam apenas pelas suas carreiras e pelos partidos que os apoiam e esquecem o fundamental. Que são os nossos representantes e, como tal, têm que trabalhar em prol do país e de quem os elegeu.

Estávamos à beira do precipício. Agora, já só falta um empurrãozinho.


quinta-feira, março 24, 2011

Artur Agostinho

Nasci 30 anos depois de Artur Agostinho. Cresci com a sua companhia e habituei-me à sua presença. Primeiro através da rádio e, mais tarde, do cinema e da televisão. Os relatos de futebol deixavam-me com o ouvido colado ao transístor e a emoção e a clareza com que “narrava” as partidas faziam-me seguir as jogadas e “ver” os meus ídolos como se estivesse no próprio campo.

Apresentou inúmeros concursos na televisão (ainda hoje se recorda o “Quem sabe, sabe”, o primeiro concurso a sério da RTP), foi apresentador de tantos e tantos espectáculos e dos famosos “Serões para Trabalhadores”, que eram feitos ao vivo e retransmitidos pela Emissora Nacional, em que também animava os espectadores contando anedotas. Foi aquilo a que se chamava na altura uma “vedeta da rádio”, o que não o impediu de ser reconhecido noutras actividades que também abraçou. Fez informação desportiva e publicidade, foi actor, escritor e entrevistador.

Artur Agostinho morreu aos 90 anos mas a sua cabeça tinha a lucidez e as capacidades dos 50.

Era uma figura popular, um homem bom, simpático, excelente comunicador e de quem gostávamos. Vamos sentir a sua falta.

quarta-feira, março 23, 2011

É hoje!

A confirmarem-se as previsões de que a nova versão do PEC - muito provavelmente já aprovada pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu - terá a reprovação dos partidos da oposição com assento na Assembleia da República, hoje é o dia em que o Governo começa a fazer as malas para se ir embora e em que se vislumbram no horizonte próximo novas eleições. Não terá que ser assim, é certo, mas esse é o cenário mais provável, apesar dos insistentes apelos proferidos por respeitáveis figuras da nossa República.

Vamos, pois, gastar uma pipa de massa com as eleições, vamos assistir a uma campanha eleitoral muito “emocionante” e cheia de acusações de uns contra os outros e em que as alocuções vão conter muitos “É mentira” e “Vocês, sim, foram irresponsáveis por …” e vamos chegar, enfim, ao novo Primeiro-Ministro que trará (???) a salvação às nossas contas públicas e ao endividamento externo e que, sobretudo, fará dos portugueses uns tipos finalmente felizes. A não ser que Sócrates seja substituído por Sócrates, o que pode vir a acontecer. Aí, gastou-se a massaroca desnecessariamente e tudo segue o seu curso normal.

Mas, meus Amigos, mesmo que o vencedor seja outro, é bom que moderem as vossas expectativas. Penso que ninguém acredita que o novo Governo, seja ele de que partidos ou coligações forem, vai trazer no curto/médio/muito médio/longo prazo quaisquer benefícios aos cidadãos. Estamos de tal forma atolados em dívidas que só para pagar os juros e, talvez, algum capital, teríamos que produzir bastante mais e não vejo bem como isso poderá acontecer. Por outro lado a recessão económica e a falta de confiança dos hipotéticos investidores não nos dão grandes esperanças que o emprego aumente e que a nossa vida melhore.

É hoje. Como diz a canção, “Hoje é o primeiro dia …”. Vamos ver.

terça-feira, março 22, 2011

Realidade e Ficção

A reflexão de hoje não tem a ver necessariamente com a situação política que se vive em Portugal. De qualquer forma, temos como certo de que a realidade é, pura e simplesmente, a existência de factos. A ficção, por outro lado, será a fábula, a invenção.

Mas onde é que está a fronteira entre ambas? Qual melhor retrata as fantasias, as injustiças e a felicidade que poderão estar contidas numa ou noutra?

A frase não é minha mas é a que melhor encontrei para definir a situação:

“A diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tem que fazer sentido!”.

segunda-feira, março 21, 2011

Quando eles não se preocupam com os problemas do país


Estamos em vésperas de saber se o Governo de Sócrates sempre vai cair. E, se cair, existem já desenhados vários cenários possíveis de um novo Governo que venha a resolver a crise política instalada. O que para mim continua a ser um mistério é saber quem é que vai ter a coragem de derrubar o Governo, justamente numa fase em que se falharmos aquilo com que nos comprometemos com a Europa poderemos cair num buraco sem fundo. Mas adiante …

O que me trás cá hoje são os alegados motivos para afastar o Primeiro-Ministro, insistentemente aduzidos pelos partidos da oposição e por milhares de cidadãos comuns. E eles (os motivos) são tantos que nem me atrevo a enumerá-los. Apenas vou referir (por que me convém para prosseguir este texto) a acusação que fazem a José Sócrates de lhe interessar apenas a estratégia pessoal e partidária e de não se preocupar com os problemas do país. Coisa pouca e … repetidamente vista através dos tempos.

Recordo o episódio acontecido em finais do século dezanove, em plena monarquia, quando os republicanos acusaram o Rei D. Carlos precisamente de não se preocupar com os problemas do país. Pois Sua Alteza, num gesto magnânimo digno da Sua Alta Majestade, tomou uma iniciativa que, de certo modo, pretendia contrariar os seus opositores – doou uma parte da renda que lhe estava atribuída.

Enfim, as crises os buracos orçamentais e as “incompreensões” perante os governantes atravessam épocas e até regimes políticos. E sempre com um protagonista sofredor comum: os cidadãos.

PS: D. Carlos, na sua mensagem, não utilizou o novo acordo ortográfico.

sexta-feira, março 18, 2011

Mário Crespo e os blogues

Num dos seus últimos escritos, o jornalista Mário Crespo disse ser frequentemente abordado por pessoas que lhe pedem que escreva nos seus blogues. Ele ouve-os apenas e presumo que lhes negue qualquer texto uma vez que afirma:

“… Porque não vale a pena. Não serve para nada. Normalmente o que os blogues contêm não passa de enunciados do que é óbvio, pontilhados com escolhas mais ou menos rebuscadas de insultos pouco imaginativos. O que se faz num blogue é gritar impropérios contra a ventania de inverno no Cabo da Roca. Pode aliviar momentaneamente a raiva e a insegurança da impotência repetida. Mas acaba por causar uma inflamação na garganta e ninguém nos ouve … a verdade é que o que se faz num blogue tem tanto efeito social como 872 anos depois da fundação de Portugal descobrirmos que somos uma nação voltada para o mar …”

Claro que estou em desacordo com Mário Crespo no que concerne à utilidade dos blogues. Há blogues e blogues. Cada um tem os seus âmbitos e objectivos, há os bons e os maus, os que, de facto, são meros veículos das frustrações e desencantos daqueles que os escrevem mas existem também os que nos dão textos muitíssimo bem elaborados e poemas que nos fazem vibrar as almas.

Quanto ao “não servirem para nada” (na sua opinião), penso que é um sentimento demasiado redutor. Servem muitas vezes para propagar ideias, dar a conhecer causas, contar histórias e divulgar cultura.

No caso do “Por Linhas Tortas”, este foi o espaço que escolhi para publicar comentários (de política ou de cidadania), interrogações e indignações, relatos, desabafos, ficção, poesia. E assim continuarei até decidir o contrário.

Uma coisa vos posso assegurar. Se o encontrar, não pedirei a Mário Crespo que se dê ao incómodo de escrever no meu blogue “Porque não vale a pena. Não serve para nada”.

quinta-feira, março 17, 2011

Portugal – a falência

A crise política que se avizinha, a descida do “rating” da nossa República decidida ontem pela Moody’s e o ping-pong a que se assiste diariamente sobre se vem ou não vem o FMI fazem-nos pensar que estamos à beira do fim. Aliás, já se antevê que o precipício – a falência - está mesmo diante de nós.

Aquietem-se, contudo, as almas mais perturbadas por que nem tudo está perdido - a bancarrota não é o fim do mundo. Para que saibam, em média, em cada ano, há um país que fica sem dinheiro para pagar as suas dívidas. Em pouco mais de 200 anos registaram-se 290 crises bancárias e 70 bancarrotas. E não pensem que isso só aconteceu a países pobrezinhos como o nosso. A Espanha, neste espaço de tempo, faliu 14 vezes, a França 4 vezes em cem anos e a poderosa Alemanha 6 vezes.

E nós? Pois Portugal já faliu 7 vezes. Comparativamente com os nossos vizinhos espanhóis estamos até numa situação bem confortável, embora por lá, ao que dizem, ainda se consiga viver melhor do que por cá.

E para os que já têm alguns aninhos lembrem-se do que aconteceu em 1976 em que a nossa falência esteve eminente e só nos safámos graças ao Dr. Mário Soares e às suas influências na Europa. E recordem-se dos loucos anos 80 em que o FMI se instalou de armas e bagagens cá em Portugal para nos impor uma receita que foi extremamente violenta - grande desvalorização do escudo, galopada da inflação para quase 30%, aumento dos impostos e o crescimento do desemprego. Não foi nada fácil.

Mas nada de angústias extemporâneas. É preciso ter esperança. As coisas vão-se resolver, só não sei como … nem quando.