quarta-feira, maio 11, 2011

Tenho duas notícias. Querem saber primeiro a boa ou a má?

Quando há duas notícias para dar – uma boa e outra má – é costume perguntar se querem ouvir primeiro a boa ou a má? E o habitual (pelo menos nos filmes é assim que acontece) é que em primeiro lugar a preferência vai para a má notícia para que, de seguida, a boa notícia possa, de alguma forma, amenizar o estado de alma.


Pois bem, então, primeiro a má notícia.
O resgate a Portugal (a tal ajuda dos 78 mil milhões de euros que pedimos à comunidade internacional) foi aprovado pela Comissão Europeia, embora ainda tenha que ser ratificado pelos ministros da zona euro. Vamos pagar o empréstimo ao longo de 13 anos mas - e é aqui que reside o busílis - a taxa de juro prevista situar-se-á entre os 5,5 e os 6%. Taxa que é considerada por muitos economistas demasiado alta. Tão alta que se questiona se o país conseguirá cumprir com as suas obrigações. Aparentemente a notícia da aprovação foi boa mas o diabo da taxa de juro deixa-nos com o credo na boca.


A boa notícia é que o Finantial Times que elege anualmente os 65 melhores programas de formação de executivos, tem em Portugal, para além da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica (que continua a ser uma das 50 melhores escolas do mundo para gestores), as escolas de Gestão da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade do Porto que acabaram de entrar para o grupo restrito das melhores em todo o mundo. Resta esperar que o país saiba aproveitar essas competências e lhes dêem as condições necessárias para ficarem por cá.

terça-feira, maio 10, 2011

Demitam os partidos


Acabei de ver o programa “Prós e Contras” da RTP1 e fiquei completamente desanimado em constatar, uma vez mais, que não existe qualquer possibilidade de entendimento entre os responsáveis dos partidos do arco do governação (como agora se diz) que permita a que este desgraçado país venha a ter um governo forte que possa executar o programa elaborada pela troika internacional. E seria bom que os políticos pensassem a sério na trapalhada em que andam metidos, porque se não cumprirem o programa eles não nos vão emprestar o dinheiro para solucionar os nossos problemas imediatos e de médio prazo. Não vão mesmo.


São as trocas de acusações, é a agressividade desmedida, são os reiterados juramentos que com aquele ou aqueles políticos e/ou partidos não há possibilidade de entendimento. Já não há pachorra. É uma vergonha que deveríamos sentir enquanto cidadãos e uma imagem que damos à Europa que reforça a ideia que já têm de nós que nos devem olhar com desconfiança.


Razão tinha um dos participantes quando afirmou que a única forma de resolver esta situação era demitir os partidos. Estou quase a concordar com ele.

segunda-feira, maio 09, 2011

As vítimas de sempre


Neste início de semana tinha pensado escrever sobre a relutância colocada pelo Reino Unido em ajudar Portugal. Aquele mesmo país que é nosso parceiro na aliança diplomática mais antiga do mundo (1373) e que continua ainda em vigor, vá lá saber-se porquê. Ou escrever sobre a Finlândia que já mostrou idêntica resistência. Justamente esse país a quem nós, povo atrasado e periférico, não negámos solidariedade quando em 1940 fizemos uma das maiores campanhas voluntárias de sempre para oferecer aos também (nessa altura) pobres e periféricos finlandeses toneladas de roupas e cereais. Mas não, não é sobre esses países e sobre as suas opções solidárias que eu me vou debruçar hoje.


Hoje gostaria de me referir, ainda que brevemente, à comunicação ao país do Presidente da República. Mais uma comunicação anunciada com solenidade e que a maioria dos portugueses julgava ser sobre o acordo estabelecido entre o Governo e a troika de instituições internacionais. E foi, mas, uma vez mais, Cavaco Silva nada disse de novo. Pelo menos, nada que não soubéssemos já.


Houve, porém, um ponto do seu discurso que valeria a pena salientar. Foi quando disse:


“… Não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades, a gastar mais do que aquilo que produzimos e a endividar-nos permanentemente perante o estrangeiro.
Tem de haver um aumento significativo da poupança interna. Muitos portugueses terão de alterar os seus padrões de consumo, evitando gastos supérfluos …”.


Cavaco falou em “muitos portugueses” mas não se sabe, em concreto, a que franja da população ele se estava a referir. Acredito que não se estivesse a dirigir à maioria dos portugueses que ganha menos de mil euros e que não aufere o suficiente para poupar. Portugueses que nem necessitam de pensar em evitar os tais gastos supérfluos uma vez que o dinheiro apenas chega para o essencial.


O que todos temos como certo, isso sim, é que existe pela frente um caminho árduo a percorrer, onde vamos ter que assumir um “espírito patriótico e de unidade”, de acordo com as palavras do Presidente. Isto é, um caminho cheio de sacrifícios onde, não custa adivinhar, as vítimas vão continuar a ser as de sempre.


sexta-feira, maio 06, 2011

As poucas palavras


De Eugénio de Andrade “As poucas palavras”



Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.


quinta-feira, maio 05, 2011

“Um almoço de trabalho”


No último post dei-vos conta de dois exemplos (verdadeiros) de má gestão dos dinheiros públicos, coisa que, infelizmente, continua a acontecer um pouco por todo o país.


Hoje quero relatar um caso que presenciei. Eu estava lá e ouvi tudo aquilo que se passou.


Almocei num restaurante simpático, algures na Serra da Lousã. As instalações eram agradáveis, acolhedoras e podia-se desfrutar através das janelas largas uma bonita vista para a floresta. Por que era um dia de semana estava pouca gente, apenas um casal numa mesa e numa outra sentavam-me quatro homens. Fiquei na mesa ao lado deles.


Nem a vista da paisagem nem o prazer da gastronomia que nos foi apresentada me impediu de ir ouvindo o que se passava nessa mesa. Durante todo o repasto, os quatro senhores falaram sobre futebol, sobre as peripécias e intrigas em que os dirigentes de certos clubes andavam metidos, sem esquecer, naturalmente, os aspectos mais sórdidos. Falaram muito e falaram alto, riram bastante e o tema foi sempre o futebol. No final, já depois dos uísques (que repetiram), um deles pediu a conta, dizendo ao empregado que queria uma factura em nome do IFP (Instituto de Formação Profissional) com a indicação de 3 almoços de trabalho. De trabalho? Fiquei espantado, mas pior fiquei quando ouvi um dos presentes perguntar ao primeiro: “Vais meter isto (o custo com os almoços) em ajudas de custo ou em despesas de representação?”. “Não, nada disso”, respondeu o que ia pagar a conta. “Não te preocupes, hei-de encontrar uma rubrica …”


Deste “almoço de trabalho”, em que não houve qualquer trabalho, constatei como, à revelia dos propósitos anunciados oficialmente, o “sistema” – o malfadado “sistema” - continua a funcionar sem que alguém lhe ponha cobro. É um fartar vilanagem. E vai durar enquanto o plano oficial de contas e a falta de vergonha de muitos conseguirem encontrar uma rubricazinha pronta para albergar os desmandos.

PS: tenho a certeza de que a azia que senti toda a tarde nada teve a ver com a magnífica gastronomia da região.


quarta-feira, maio 04, 2011

Laxismo ou corrupção?


Quando, amiúde, se fala no despesismo do Estado e no descontrolo das obras públicas, nomeadamente as da responsabilidade das autarquias, não sabemos muito bem a que é que nos estamos a referir em concreto.
Pois em concreto, aqui estão dois exemplos – apenas dois – de despesas detectadas pelo Tribunal de Contas e que, no mínimo, suscitam muitas dúvidas. Vejamos:


- Município de Beja - Fornecimento de 1 fotocopiadora, "Multifuncional do tipo IRC3080I", para a Divisão de Obras Municipais: 6.572.983,00 €;
- Administração Regional de Saúde do Alentejo, I.P. – Aquisição de 1 armário persiana; 2 mesas de computador; 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas: 97.560,00€.

Pode ser que haja explicações plausíveis para tamanhos gastos. E espero bem que haja por que, relativamente ao primeiro caso, uma fotocopiadora daquele tipo custa à volta sete mil e setecentos euros. Qual a justificação para se terem gasto mais de seis milhões e meio de euros?
Quanto ao material de escritório adquirido pela Administração Regional de Saúde do Alentejo, ninguém acredita que o valor de mercado daquele tipo de equipamento possa custar quase cem mil euros.


Laxismo ou corrupção? Uma pergunta para a qual certamente não obteremos resposta mas que intuímos que as duas proposições possam coexistir. E se assim for, estamos em presença de crimes cujos responsáveis têm que ser (deveriam ser) devidamente castigados. Nós, cidadãos, temos o direito de exigir a responsabilização efectiva de quem gere dolosamente a coisa pública.


terça-feira, maio 03, 2011

Miséria, disse ele …

Diogo Leite de Campos, dirigente do PSD, é um ilustre licenciado e doutorado em Direito e em Economia. É também Professor Catedrático e sócio de uma conhecida sociedade de advogados. É, pois, um homem inteligente e bem sucedido.


Há uns tempos vi um vídeo em que ele explicava um conceito interessante sobre o que não é um rico e o que é a miséria em Portugal. Desta forma:


“O ministro das finanças, salvo erro, disse que ricos são aqueles que têm mais de 10 000 euros por mês. Mas se nós levarmos em conta que sobre estes dez mil euros incidem cerca de 42%, isto significa que estas pessoas ficam reduzidas a 5 800 euros. Será que se pode dizer que 5 800 euros por mês, para casa, roupa lavada, comida, instrução dos filhos, doença e tudo é muito? Cinco mil e oitocentos euros por mês, em qualquer país europeu é classe média baixa. Será que são estes os ricos portugueses. 5 800 euros não chega sequer para o consumo. É evidente que as pessoas que ganham 1 000 euros por mês acham isto enorme mas mil euros por mês não é classe média, é miséria”.

Embora o senhor possa estar coberto de razão, penso que é chocante para a maioria dos portugueses ouvirem dizer que os 5 800 euros líquidos não chegam sequer para o consumo, quando se sabe que o salário médio em Portugal não chega aos 800 euros, o salário mínimo não atinge os 500 e ainda há muitas reformas abaixo dos 300 euros.

Portanto, e para resumir, quem ganha 10 000 não é considerado rico. E os milhares de trabalhadores que auferem menos de 1 000 euros por mês e, com essa miséria de vencimento, têm que pagar casa, transportes, alimentação, vestuário, custos vários e, ainda, na maior parte dos casos, têm que providenciar a educação dos filhos ou a segurança dos pais, são o quê?

Como referi, o Dr. Diogo Leite de Campos até pode ter razão naquilo que diz mas esquece uma coisa fundamental. É que Portugal é dos países que pior paga a quem trabalha e onde existe uma enorme diferença salarial entre os que mais ganham e os que menos recebem. Esquecimento, afinal, que até pode ser desculpável se atendermos a que ele acumula uma reforma de 3 240,93 € com outra do Banco de Portugal de 5 000 € e os lucros de uma sociedade de advogados.


segunda-feira, maio 02, 2011

Em defesa da gramática

Admiro há muito a obra do escritor peruano Mário Vargas LLosa e sigo naturalmente com interesse a sua actividade política. Os livros do Prémio Nobel da Literatura de 2010, reflectem bem a sua luta pela liberdade individual perante a realidade opressiva que teima em existir no seu país.

Mas Vargas Llosa para além dos aspectos políticos e sociais transmitidos nos seus livros tem a preocupação de escrever bem, respeitando as regras que uma boa literatura exige.

Daí que face aos atropelos constantes e despudorados com que hoje se encara a arte de escrever, Mário Vargas Llosa veio a terreiro dizer o seguinte:

“os jovens que abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS pensam como macacos, …. a net liquidou a gramática, gerando uma espécie de barbárie sintáctica”. E justifica “se escreves assim, é porque falas assim, se falas assim é porque pensas assim e, se pensas assim, pensas como um macaco. Isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes do que os seres humanos. Não sei.”

Em defesa da gramática, acho que Llosa tem razão. Felizmente para ele, não tem o problema de um acordo ortográfico a pairar sobre a sua cabeça e, por isso, mais não disse. Sim, porque se o tivesse, tenho a certeza de que iria bastante mais longe nas suas críticas.


sexta-feira, abril 29, 2011

A verdade nua e crua



As estratégias políticas e as frases que lhes estão associadas são como as modas. Aparecem, resistem durante algum tempo e são substituídas por outras mais sonantes e convenientes logo que surge uma nova conjuntura. Ainda há pouco se ouvia até à exaustão “Cada partido assumirá as suas responsabilidades”, agora é a vez de “Todos têm que dizer a verdade aos portugueses”, frase que é proclamada patrioticamente como se essa – a verdade - fosse a coisa que os portugueses realmente mais necessitam.


Esta ânsia de saber a verdade lembra-me aquelas situações em que alguns doentes com graves enfermidades esperam ouvir do seu médico a verdade nua e crua, o veredicto final sobre o seu estado, enquanto que outros preferem a ilusão de uma mentira piedosa que lhes permita acalentar a esperança da cura.


Para aqueles que são adeptos da verdade verdadeira e que querem realmente saber aquilo que os espera enquanto cidadãos e enquanto famílias, como irão viver daqui para a frente, permito-me transcrever uma parte do artigo de Nicolau Santos, publicado no Expresso do último sábado. Dizia ele:

“… trocar de carro de quatro em quatro anos? Esqueça. Viagens a sítios exóticos nas férias? Esqueça. Jantar fora uma ou duas vezes por semana? Esqueça. Gastar em medicamentos não essenciais? Esqueça. Comprar livros, CD e DVD com regularidade? Esqueça. Ir ao cinema com frequência? Esqueça. Assinar a Sport TV, canais de filmes e outros pacotes televisivos? Esqueça. Pagar as quotas do seu clube do coração? Esqueça. Comprar com regularidade uns camarões, uns patés, uns bons vinhos lá para casa? Esqueça. Alugar uma casinha no campo ou na praia? Esqueça. Aumento de ordenado e das poupanças no banco? Esqueça. Um bom emprego para os filhos que tiraram um curso superior? Esqueça…”

Então, estão mais satisfeitos agora? Já ficaram com uma ideia de como vai ser a nossa vida, pelo menos, e segundo Nicolau Santos, durante 10 anos? Já tínhamos percebido que o país está numa situação gravíssima, que não há dinheiro, que não há emprego e que a riqueza gerada é escassa. Mas por muito que tenhamos consciência dessa situação e por muito que nos preparemos para enfrentar as dificuldades que nos batem à porta, nunca saberemos bem em que parte vamos ser mais atingidos e o que é que teremos de mudar, se ainda tivermos capacidade para tanto.


A verdade nua e crua é, na maioria das vezes, inimiga da esperança. E viver sem esperança, meus Amigos, não é viver.



quinta-feira, abril 28, 2011

De que planeta é que saiu o homem?

A história que hoje vos trago passou um pouco despercebida na imprensa, o que não é de admirar. Normalmente dá-se o devido destaque a quem consegue ludibriar a lei, a quem não cumpre com as suas obrigações, aos “chico espertos” da vida que, pela sagacidade que demonstram, são elevados à categoria de heróis. Desta vez, e um pouco estranhamente, noticia-se a história de um homem vertical, com valores, e que – espantem-se - só quer cumprir com aquilo que considera justo.

Conto em duas linhas:


“ era uma vez uma jovem que viajava num comboio, cujo título de transporte se comprava no próprio comboio. Porém, era dia de greve dos revisores e, por isso, o bilhete não pôde ser adquirido. Resultado, a jovem viajou de borla.
Quem não ficou satisfeito com isto foi o pai da rapariga que achou que tendo a CP prestado um serviço era credora do respectivo pagamento. Tanto mais que não pretendia contribuir para agravar a situação deficitária da companhia. A justeza da sua reivindicação levou-o a contactar a CP e perante a recusa da empresa em cobrar o bilhete porque os agentes (os revisores) estavam de greve naquele dia, o homem – o otário, o ingénuo, dirão alguns deste país de espertos – ameaça avançar para os tribunais. É que, segundo ele, o seu a seu dono”.

Tempos estranhos estes em que vivemos, em que a fuga às responsabilidades, a “habilidade” e o oportunismo campeiam. Bem diferentes daqueles em que o decoro e a honradez constituíam valores absolutos e inquestionáveis.


quarta-feira, abril 27, 2011

Os judocas portugueses contra a troika

Já aqui escrevemos que a nossa margem de manobra relativamente ao processo que está a ser liderado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI é muito curta. Praticamente não há espaço para negociações e o que vai haver, isso sim, são restrições à nossa forma de viver. E, como sempre, a força está do lado dos credores. Nós, com a pipa de massa que devemos, estamos demasiado fragilizados para pedir o que quer que seja.


A não ser que os vençamos pela força. E nem sequer estou a pensar naquela notícia que ouvi ontem que Portugal é o líder virtual do “ranking” da União Europeia de Futebol. Provavelmente os fulanos até nem gostam de futebol. O que estou mesmo a pensar é na força (à séria) do … judo.


Não será o caso de pormos à porta dos lugares onde esses senhores estão a trabalhar o nosso campeão europeu de Judo, João Pina, e as duas vice-campeãs europeias da modalidade, Telma Monteiro e Joana Ramos? É que os três atletas destacaram-se de tal forma no Campeonato da Europa de Judo que decorreu em Istambul, na Turquia, que bem poderiam servir como dissuasores de algumas medidas de austeridade que estejam a ser preparadas. Apenas por precaução, já se vê.


Quem sabe? Era só uma ideia…


terça-feira, abril 26, 2011

A famosa “ponte da Páscoa”

Embora passados alguns dias, acho que ainda vou a tempo de dizer alguma coisa sobre a polémica “ponte da Páscoa”. Quero referir, sobretudo, que achei lamentáveis as posições assumidas pela nossa classe política. Um bando de irresponsáveis que se entretêm com meras jogadas eleitorais e de poder e se esquecem do que de facto interessa. Isto quanto aos políticos, mas nós, cidadãos, também não estamos isentos de responsabilidades.


O que é que justifica, então, que se faça uma ponte na 5ª feira santa? O sermos um país de tradição católica? O ser habitual conceder-se a pontezinha aos servidores do Estado? Ou será o facto de já estarmos em campanha eleitoral e de dar jeito tentar apanhar mais uns quantos votos?


E a resposta a estas interrogações é simples: se é verdade que somos um país de tradição católica é necessário, também, ter presente que o Estado é laico e, portanto, não faz qualquer sentido que seja o próprio Estado a conceder um tempo destinado ao retiro e reflexão de uma qualquer religião. Quanto ao estarmos habituados a que haja mais uma tarde de folga na semana santa, isso é uma coisa que sabe bem, sem dúvida, mas temos que ser realistas. O país atravessa uma situação caótica e ninguém perceberá que, estando assim, ainda se trabalhe menos, muito menos quem nos empresta o dinheiro. Finalmente, há que ter em conta que se o governo não concedesse a tolerância, bem podia dizer adeus a muitos votos de funcionários públicos.


E, entre a tradição e a demagogia, venha o diabo e escolha. Medida polémica sei que foi e sei, também, que aquela bendita tarde da ponte custou nada menos que 20 milhões ao país. E sei ainda que os senhores que estão em Portugal a estudar se, e como, poderemos vir a receber a “ajuda” internacional ficaram chocados por ver que um país suicidário e sem rumo continua a gastar sem rei nem roque. Mas a verdade é que para quem está a necessitar de tantos milhares de milhões que falta fazem uns reles 20 milhões de euros?


A oportunidade e o simbolismo da medida não podiam ser mais desajustados. Na tarde da última quinta-feira, os funcionários folgaram e tiveram tempo para poderem preparar os quatro dias de descanso que iam ter de seguida. A produtividade e a competitividade bem puderam esperar mais uns dias.



segunda-feira, abril 25, 2011

25 de Abril – e já passaram 37 anos



“Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
na esperança de um só dia”.

Manuel Alegre


Com todos os altos e baixos, com todas as crises financeiras e outras, com todos os desmandos e aldrabices que se atravessaram nestes 37 anos, mesmo assim, olhando para tudo isso, o balanço é deveras positivo. Somos hoje um país diferente e melhor. E mantemos um bem a que muitas vezes não damos o real valor – a liberdade.


quarta-feira, abril 20, 2011

Coisas que me chateiam …

Em época de Páscoa, juro que não me apetecia nada escrever sobre mais uma escandaleira que eu soube há dias. Mas, que querem, chateia-me ver como se delapidam os dinheiros públicos, ainda por cima quando tantos sacrifícios são exigidos aos cidadãos.

Temos o caso de mais uma empresa pública, a Carris, mais uma que é completamente deficitária – teve no ano passado um buraco financeiro de 776,6 milhões – e que, apesar disso teve o descaramento de ter atribuído ao seu presidente e a três dos seus administradores viaturas de topo de gama. E nem me interessa se os veículos foram adquiridos a “el contado” ou em sistema de ALD. Para mim continua a ser uma pouca-vergonha. Em tempo de crise enoja-me ainda mais.

Mas como se não fosse o suficiente e apesar dos cortes salariais aplicados na administração pública, a Companhia de Carris de Ferro de Lisboa – a Carris - teve a desfaçatez de aumentar substancialmente os vencimentos dos seus quadros superiores, um aumento que se traduziu em quase 33 mil euros a mais em comparação com 2009.

Não aceito que a justificação para os carros novos e para os aumentos seja um simples “tinha que ser, fazia parte do contrato”. Então e os funcionários públicos que tinham um salário contratualizado e que, sem apelo nem agravo, tiveram uma redução dos ordenados?

Onde estão a moral e o decoro? Até quando vão continuar estas situações?




terça-feira, abril 19, 2011

Portugal e a “ajuda externa”

Para acrescentar um pouco mais de confusão à já baralhada cabeça de muitos portugueses, trago-vos hoje uma parte de um artigo publicado no New York Times, escrito por Robert M. Fishman, professor de sociologia da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Segundo ele, a exemplo do que muitos outros têm já afirmado, Portugal não precisava assim tanto de ajuda. Pelo menos, daquela inevitabilidade de ajuda externa defendida por um sem número de especialistas.

“O pedido de ajuda de Portugal nada tem a ver com o seu défice. «Portugal teve uma performance económica forte nos anos 90 e estava a gerir a recuperação da recessão global melhor do que muitos países da Europa.


Como foi dito há alguns meses, e silenciado cada vez mais com o aperto crescente dos mercados, Portugal ficou sob pressão injusta e arbitrária de negociantes de obrigações, especuladores e analistas de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo.


Mercados que são um perigo, uma vez que deixados sem regulamentação estas “forças” ameaçam eclipsar a capacidade democrática dos governos (quem sabe mesmo dos EUA) de tomar as suas próprias decisões sobre os impostos.


Em Portugal a crise é completamente diferente da instalada na Grécia e na Irlanda. As instituições económicas e políticas não falharam e conseguiram importantes vitórias, antes de sermos submetidos às ondas de ataques dos especuladores.


O resgate que aí vem não irá resgatar Portugal, mas sim empurrá-lo para uma política de austeridade impopular que atinge quem mais precisa. São as bolsas estudantis, as reformas, o combate à pobreza e os salários de funcionários públicos que vão sentir na pele o resgate.


A dívida portuguesa está bem abaixo de países como a Itália e o défice tem diminuído “rapidamente” com os esforços do Governo. No primeiro trimestre de 2010, Portugal teve uma das melhores taxas de recuperação económica, acompanhando ou mesmo ultrapassando os vizinhos do Sul e até mesmo a Europa Ocidental.


As razões do ataque a Portugal são então duas. Por um lado, um cepticismo no modelo de economia mista de Portugal. «Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação em Portugal - o que evitou uma bolha imobiliária e preservou a disponibilidade de baixo custo de rendas urbanas - a assistência de renda para os pobres. Por outro lado, a falta de perspectiva histórica é outra explicação. O crescimento do país nos anos 90 levou a uma melhoria nos padrões de vida e a uma taxa de desemprego das mais baixas da Europa.


Os ataques dos mercados condicionam não só a recuperação económica de Portugal, mas também a sua liberdade política. Se o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma “onda democratização que varreu o mundo”, a entrada do FMI em Portugal, em 2011, pode ser o início de uma onda de invasão da democracia, sendo que as próximas vítimas poderão ser a Espanha, a Itália, ou a Bélgica.”


Confusos ou mais confusos ainda? De qualquer forma é sempre bom analisarmos as várias teorias possíveis. Qualquer que seja a verdadeira uma coisa é certa, a inevitabilidade das medidas muito austeras que vamos ter que suportar.




segunda-feira, abril 18, 2011

Benditas férias da Páscoa

Irritam-me as análises superficiais e o modo ligeiro como se debatem determinadas matérias - sem a ponderação devida - e como se chega a certas conclusões. Mesmo quando se trata de textos meus que padecem desse mesmo mal que eu condeno. E irritam-me igualmente as opiniões em que se aplicam julgamentos implacáveis a pessoas que não agem ou pensam da mesma forma do que a maioria considera razoável.

Vem isto a propósito das notícias que têm saído nos últimos dias sobre as férias que muitos portugueses se preparam para fazer nesta Páscoa. Férias, gastar uma data de massa num tempo em que estão prestes a desabar (para muitos já começou) sobre as nossas cabeças as medidas de austeridade que o FMI vai determinar? Então em tempo de crise ainda pensam no trolaró?

Para que conste, eu não vou sair nos tempos mais próximos mas acho muitíssimo bem que aqueles que têm condições para fazê-lo possam gastar o seu dinheiro da maneira que melhor acharem. Férias no Algarve, no Brasil ou nas Caraíbas? Óptimo, e que lhes façam muito bom proveito, que gozem o máximo por que têm todo o direito e ninguém tem nada a ver com isso.

Mas a questão tem o outro lado, aquele em que geralmente pouco se pensa. É que estas viagens e estadias dos que se propõem fazê-las dão a possibilidade a muitos milhares de pessoas a manterem ou a voltarem a ter um emprego, a ganhar dinheiro, a sustentar famílias, a dinamizar a economia.

Quantos hotéis e restaurantes vão ser reabertos por uns dias que seja e vão ter que chamar trabalhadores para mantê-los? Quantas pessoas estão envolvidas em todo este sistema de comércio e de lazer, desde os que trabalham nas agências de viagens, nos aviões, nos restaurantes, nos postos de gasolina, nos que comercializam todo o tipo de alimentos e bebidas, nos que vendem artesanato, enfim, em todos os que sucumbiriam caso não houvesse este fluxo migratório que gera riqueza e que, para muitos, constitui o necessário balão de oxigénio que lhes permitem continuar a sonhar?

Bem podem torcer o nariz - sobretudo aqueles que não pertencem à Europa do Sul onde existe sol, e mais ainda aqueles que nos emprestam o dinheiro de que necessitamos – e tecer todo o tipo de críticas a estes portugueses loucos que estão a queimar os últimos cartuchos antes de se lançarem no precipício. Assiste-lhes, certamente, alguma razão. Eles que têm uma cultura de rigor muito diferente da nossa esquecem-se (ou não percebem), porém, da outra face da moeda onde estão incluídos milhares de trabalhadores que sobrevivem graças à “loucura” dos que, nesta Páscoa, estão a esgotar os destinos de férias.


sexta-feira, abril 15, 2011

Falavam-me de Amor

De Natália Correia "Falavam-me de Amor"


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

quinta-feira, abril 14, 2011

E o burro sou eu?

Não pude deixar de me lembrar da “histórica” pergunta de Scolari quando li na imprensa que o juiz que preside ao julgamento do caso BPN é inflexível no cumprimento das pausas quer para almoço quer durante as manhãs e as tardes.

Independentemente das horas a que comecem as sessões e dos atrasos verificados, o tempo para o almoço é sagrado e é para se cumprir à hora certa, à uma em ponto, e os intervalos a meio da manhã e da tarde são obrigatórios. Porquê? Por que as matérias são cansativas e há que aliviar a tensão bebendo uns cafezinhos e fumando uns cigarros.

Pois é, durante anos a fio, trabalhei intensamente, a maioria das vezes entrando cedo e saindo muito tarde e, para mim, a paragem para “almoço” era um simples compasso de espera de uns quantos minutos em que comia qualquer coisa enquanto pensava como dar andamento aos assuntos que tinha em mãos. Stress e ansiedade? Claro que tinha e também problemas para resolver que, por vezes, não eram nada fáceis. Mas, para além de alguns cafés (às vezes demasiados) não me dava ao luxo de fazer pausas institucionais e prolongadas.

Daí que, face à divergência entre os ritmos de trabalho, tenha ocorrido questionar-me: “Ah, então, durante todos estes anos o burro fui eu?”


quarta-feira, abril 13, 2011

Alto e pára o baile

Ainda não tinha tido tempo de desabafar convosco sobre este assunto, mas de hoje não escapa.

Eu sei que a vida deve ser dinâmica, caso contrário correm-se grandes riscos. É assim com as empresas, é assim na política e é assim com as nossas próprias vidas. Mas, há limites.

Confesso que não achei piada àquela ideia peregrina de um colunista do Financial Times sobre a possibilidade de Portugal ser “anexado” pelo Brasil. Num texto curto, intitulado “Portugal e Brasil, inversão de papéis”, texto que pretendia ser gracioso (?), Edward Hadas, o tal jornalista, sugeria que face às grandes dificuldades financeiras em que o nosso país se encontra, seria bem melhor para nós se ficássemos sob a alçada dos nossos irmãos brasileiros, actualmente um gigante emergente do poder mundial e que cresce a bom ritmo. Ou seja, seríamos mais uma província brasileira, esta (Portugal,Portugália ou coisa do género) situada como ponta-de-lança na velha Europa, o que constituiria uma vantagem enorme para … o Brasil.

Ganhava o Brasil, ganhava Portugal e ganhava a Europa. Todos ganhavam. Só que, ainda que o nosso país tirasse vantagens reais desta “colonização” sem sentido, ainda assim, eu (e a maioria dos portugueses, certamente) não estaríamos de acordo. E acreditem que penso desta forma não por mero nacionalismo bacoco mas por que não faz qualquer sentido. Somos apenas países irmãos, com uma língua comum e com muito passado histórico que nos une. Aliás costuma dizer-se que apenas o oceano nos separa. E, por também não fazer sentido, nem se coloca a questão (acho eu) de uma eventual vingança brasileira pela colonização lusa de tantos séculos.

A hipótese levantada pelo jornalista quis, como referi, ter graça. Mas se não foi esse o seu pensamento, certamente que imaginava que Portugal só poderia sair do buraco em que se encontra se fizesse parte de uma nação em franca ascensão económica e social. Assim sendo, a questão poder-se-ia colocar da seguinte forma:

Portugal teria vantagem se fosse uma província brasileira? Se calhar teria … mas não seria a mesma coisa.


terça-feira, abril 12, 2011

Afinal foi ontem

Quando esperávamos que só hoje chegassem as nossas visitas especiais, elas resolveram aparecer ontem. Formalmente “aterraram” em Portugal ontem, dia 11 de Março de 2011, muito embora, na verdade, elas já andassem por aí há algum tempo. A partir de agora vamos ter connosco equipas do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu que se preparam para as negociações sobre o plano de resgate financeiro a Portugal. Acho que de negociações vai haver muito pouco e o que certamente acontecerá é que começaremos a saber (e a sentir) que tipo de sacrifícios nos vão ser impostos, o que, como já todos percebemos, vão ser muitíssimo duros. Porém, como não se pode remar contra a maré, consolemo-nos pelo menos com a expectativa de que as medidas a adoptar não durem demasiado tempo.

A vinda da (indesejável) troika dá-nos, pelo menos, a esperança de que Portugal possa vir a ter o dinheiro suficiente para poder cumprir a dívida que se vence até Junho (nada menos que nove mil milhões de euros) e, já agora, que traga também uma varinha mágica que meta algum bom senso nas cabeças dos nossos políticos, o que, convenhamos, não vai ser fácil.

E se conseguirmos a dinheirama necessária para pagarmos aos nossos credores em Junho, seguramente poderemos gozar com muito mais tranquilidade o mês de Julho que vai ser muito especial. Um mês que vai ter ter cinco sextas-feiras, cinco sábados, cinco domingos e duas luas novas, uma conjugação que raramente acontece.