quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Apesar de tudo na província é capaz de ser mais fácil

A onda de choque resultante da notícia da morte da idosa da Rinchoa, a que nos referimos na passada Segunda-Feira, para além da comoção que provocou, gerou um alerta sobre a situação dos que vivem sozinhos e nomeadamente dos mais velhos. Familiares, vizinhos, comerciantes e até autoridades ficaram mais sensibilizados para o acompanhamento dessas pessoas.

Temo, porém, que com o passar do tempo, estes cuidados possam diminuir e tudo volte à estaca zero.

Há que reconhecer, no entanto, que muitas autarquias da província já têm dispositivos de apoio a idosos isolados, com programas específicos criados para o efeito. Só que, como costumo dizer, há província e província. O número de pessoas e a dispersão geográfica duma concelho como Guimarães não é o mesmo de um concelho como Alcoutim. Nos meios maiores é muito mais difícil conseguir o acompanhamento das pessoas que vivem sozinhas.

Na tentativa de ultrapassar essas dificuldades, o Instituto da Segurança Social vai apresentar uma proposta ao Governo que, basicamente, pretende acompanhar as pessoas à distância, por exemplo, através de uma chamada telefónica diária. O problema é que nem todos estarão interessados em aderir, tanto mais que, embora de pouca monta, haverá custos para os utilizadores.

Em Portugal estão sinalizados cerca de 25 mil idosos em risco. Mas quererão todos eles ter alguém que lhes controle os movimentos, ainda que seja para o seu bem? Não podemos esquecer que há pessoas pouco sociáveis, com feitios difíceis e extremamente independentes que querem manter a sua “liberdade”a todo o custo. E embora possamos não compreender as suas motivações, temos que as respeitar.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

A aula de hidroginástica

A crónica de hoje poderia ser dedicada a gente de todas as idades dado que, julgo, todos se reveriam, de uma maneira ou de outra, no que vou contar.

A cena passa-se num dos melhores ginásios da capital e no início de uma aula de hidroginástica.

Desde já gostaria de dizer que esta era a minha primeira aula e que só acedi “alinhar” nesta actividade depois de grandes esforços de familiares para me convencer. Embora a “Hidro” seja aconselhada pelos médicos por ser um bom exercício que visa melhorar a qualidade de vida, confesso, eu que sempre pratiquei desporto de competição, que sempre olhei para aquelas classes como reuniões de pessoas idosas que se juntam para se divertir e para conviver.

É claro que esta actividade é também isso, ou seja, também serve para aumentar a interacção social, para diminuir o isolamento, para melhorar os níveis de independência e autonomia, para ocupar os tempos livres de forma saudável, enfim, para promover o bem-estar geral.

Mas é mais do que isso, é um exercício físico exigente, que faz mexer todas as partes do corpo e que apenas por estarmos dentro de água não nos deixa suar da forma habitual. Ah, e quanto àquela ideia da reunião de pessoas desocupadas e com idade avançada esqueçam, não é nada disso. Comparecem às aulas pessoas de todas as idades que têm um fim comum – fazer exercício.

Mas voltemos à minha primeira aula de “Hidro”. Normalmente, as sessões são acompanhadas de música mexida, cujo ritmo ajuda a execução dos exercícios ministrados pelo professor.

Ora, desta vez, logo no início da aula o aparelho de som avariou. A jovem monitora, impotente para resolver o falhanço da máquina, tratou de “puxar” pelos alunos, começando a entoar canções mais ou menos conhecidas e, claro está, mais ou menos actuais. Como a classe não respondeu a contento, provavelmente por desconhecimento das letras, a jovem recorreu às suas memórias de infância e foi buscar músicas populares e de artistas também populares – do género “atirei o pau ao gato” ou “eu tenho dois amores” - para angariar novas energias e para que a aula decorresse normalmente dentro da anormalidade, o que conseguiu.

Foi então que dei conta que a maioria das minhas companheiras (os participantes são maioritariamente senhoras) entoava com entusiasmo as canções propostas (ou eram elas próprias a sugeri-las) a ponto de se transformar uma aula de “Hidro” num grupo coral a roçar o folclórico.

E, quando olhei ao redor e vi uma boa parte do grupo a entoar de forma entusiástica as canções populares, esquecendo o que os levara ali, percebi que tinha apanhado o comboio errado. Aquilo não era uma aula de hidroginástica mas um autocarro de excursão de seniores animados.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

A decisão é sua …

Não fossem as idiossincrasias (bem, como eu gosto de dizer esta palavra) dos portugueses e até era capaz de acreditar que esta história tinha tudo para dar certo. Mas a nossa cultura e as nossas características bem conhecidas, fazem-me pensar que esta iniciativa não durará muito.
Mas, afinal, do que é que estamos a falar?

Pois bem, um restaurante lisboeta recentemente inaugurado, apresenta como novidade a possibilidade dos clientes pagarem as suas refeições de acordo com o seu grau de satisfação. Ou seja, os fregueses podem pagar o preço que acharem mais justo pelo que comeram. O critério é deles. Vou exemplificar: os preços das sopas variam entre os dois euros e cinquenta e os cinco euros, as carnes entre os seis e os doze euros e as sobremesas vão dos dois aos seis euros. É ainda o cliente que decide se deve deixar, ou não, entre dois a quatro euros de gratificação pelo serviço de atendimento.

Os responsáveis da “Cantina da Estrela”, assim se chama o novo espaço, confiam que este novo conceito pode resultar. Aliás, dizem os psicólogos que as pessoas são mais razoáveis quando lhes é dada a responsabilidade de avaliar. Noutros países a coisa funcionou. Noutros … nem tanto.

As características dos portugueses, e se calhar dos povos latinos, não são iguais às dos da Europa Central ou dos Nórdicos. Ao contrário destes, provavelmente não nos comportaríamos lá muito bem se tivéssemos que deixar umas moedinhas em troca de um exemplar de um jornal colocado numa caixa aberta. O mais certo, digo eu, é que desaparecessem os jornais e … o dinheiro. E no tempo em que os bolos-reis traziam uma fava, quantos é que a engoliam para que não fossem “obrigados” a pagar o próximo?

Pode ser que resulte, vamos ver. Mas tenho dúvidas que a maioria das pessoas, perante a escolha de poder pagar entre seis e doze euros, seja de tal forma séria que pague os doze euros. Ou dez … ou oito …


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Uma idosa chamada Augusta

A notícia da descoberta do cadáver de uma senhora que morreu há nove anos na sua casa, comoveu toda a gente. Comoveu, chocou e levantou toda uma série de questões.

E a primeira é a de percebermos que tipo de sociedade é esta em que vivemos, sobretudo nas grandes urbes, em que a desumanização é total. Ninguém sabe e ninguém quer saber quem são e como vivem as pessoas que moram no andar do lado, no de cima ou no debaixo porque todos estão demasiado preocupados apenas com a sua vidinha. Como ouvi alguém dizer “esta é uma sociedade porco-espinho, em que vivemos enrolados sobre nós próprios”.

Mas neste caso (que tomámos conhecimento pela comunicação social), houve pessoas que se preocuparam com a ausência da senhora. Uma vizinha tentou várias vezes junto da GNR que investigassem o caso mas riram-se-lhe na cara como se estivesse louca. Não havia cheiro a cadáver, portanto … Um primo da senhora deslocou-se treze vezes ao Tribunal de Sintra para que alguém entrasse na habitação na tentativa de saber se a prima estaria lá. Em vão, responderam com um argumento idêntico e … nada fizeram.

E o que me revolta é que quer a GNR quer o Tribunal, aparentemente por não haver indícios de morte ou por não haver leis explícitas para este tipo de casos, descurou a possibilidade de acudir a tempo uma pessoa e, quem sabe, salvá-la. Tão-pouco a Segurança Social investigou porque razão os vales da sua reforma foram devolvidos. Todos esses serviços públicos que, supostamente, deviam estar atentos, se alhearam pura e simplesmente.

Mal vai um país em que tenha que existir legislação que contemple todas as situações. As leis devem ser entendidas como referenciais e, como tal, não é por se registar a falta de alguma que se deve deixar de actuar. Falharam, pois, as entidades que deveriam fazer diligências para descobrir o que tinha acontecido à senhora. Só não falhou o Fisco que, face a uma dívida existente, cuidou diligentemente de penhorar a casa e vendê-la. Só foi pena de não ter tido a curiosidade de saber o porquê do não pagamento.

A senhora chamava-se Augusta, teria hoje 96 anos, morreu em sua casa há 9 anos e morava na Rinchoa.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

E a história repete-se


Hoje vou partilhar convosco uma história que me contaram - um diálogo - que se teria passado em França, no tempo de Luís XIV, entre o Cardeal Mazarino e Colbert. Não tenho a certeza da sua veracidade mas, face ao que se tem observado ao longo dos tempos, não me custa acreditar que tivesse acontecido.

No século dezassete, o Cardeal Mazarino, embora nascido em Itália, foi primeiro-ministro de França no tempo do Rei Luís XIV e Colbert seu ministro do Estado e da Economia.

Então, o alegado diálogo terá sido mais ou menos assim:

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.
Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.


Não acham que entre este “diálogo provável” e o que temos assistido na governação de há muitos anos a esta parte existem muitas “coincidências”? E são tão óbvias que não teríamos dificuldade em substituir os nomes de Mazarino e de Colbert por outros políticos bem mais recentes. Curioso, não é?

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Tudo como dantes …


Ao longo dos anos a vida foi-me mostrando que os mais novos têm sempre a sensação de que a maioria dos males que os afligem, e à sua geração, apareceram de repente, vindos sei lá de onde, única e exclusivamente para os prejudicar. Como se não tivessem já acontecido anteriormente. Mas não é assim.

Parece, portanto, que aquilo a que passámos a chamar de mercados e agências de notação, são os tais agentes do demónio que opinam, tratam de números e estudam dossiers de países que não conhecem e estabelecem critérios que são aplicados cegamente. Tudo com um único propósito, o de lesar esses países e os seus habitantes.

Mas, como referi, o fenómeno não é de agora. Lembro-me, por exemplo, de que há uns anos uma das maiores firmas de consultoria do mundo foi contratada pelo grupo financeiro onde eu trabalhava para, segundo eles, reestruturar (palavra adocicada que esconde as verdadeiras intenções) as nossas empresas. Dito de outro modo, a sua missão era emagrecer essas empresas, ou seja, eles estavam lá para mandar embora pessoas. E, como se isso não fosse suficientemente trágico, utilizavam um método assaz eficaz e perverso. Instigavam os empregados a sugerir melhorias nos seus serviços para que fossem mais eficientes. Pretendiam, portanto, mais e melhor produção com menores recursos. Tão simples como isso, com a ajuda das sugestões dos próprios empregados das empresas, os serviços tenderiam a melhorar e o número de postos de trabalho a diminuir. E o curioso (tristemente curioso) é que muitos embarcaram no engodo e os objectivos foram alcançados. As mirabolantes ideias que apareceram fizeram com que, na prática, colegas de trabalho despedissem os seus companheiros.
Aliás, em muitos casos, eram as próprias chefias intermédias, desejosas de “ficar bem na fotografia”, que sugeriam alterações espantosas em que antes nunca tinham pensado e de que resultaram o afastamento de mais uns quantos empregados.

Isto aconteceu há uns bons anos, numa altura em que ninguém falava em globalização, em mercados e ainda menos em agências de rating. Podem, por isso, imaginar como o processo foi doloroso para os trabalhadores e muitos não aguentaram tamanha instabilidade. Vi homens maduros e dedicados às empresas onde laboravam há décadas chorarem como crianças quando souberam da extinção dos seus postos de trabalho e a consequente passagem à reforma. Afinal, era a primeira vaga de um mundo novo que ninguém estava preparado para receber.

Seguindo a máxima de Lavoisier “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, temos que admitir que muitos dos problemas com que nos confrontamos hoje podem ter novas roupagens e novas designações, mas o cerne das questões é exactamente o mesmo daqueles outros problemas que aconteceram no passado. E, curiosamente, os que mais são atingidos também são os mesmos.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Ao meu falecido irmão Manuel Maria Barbosa du Bocage

José Carlos Pereira Ary dos Santos (1936 – 1984) foi um extraordinário poeta e declamador português.
Todos os grandes cantores o interpretaram. A obra de Ary dos Santos permanece na memória de todos e, estranhamente (ou talvez não), muitos dos seus poemas continuam actualizados.
De Ary dos Santos, o poema “Ao meu falecido irmão Manuel Maria Barbosa du Bocage”


Meu sacana de versos! Meu vadio.
Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.
E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.
São uns merdosos que nos pedem esmola.
Aos vinte anos cheiram a bafio
têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões nosso padrinho
ou o Primo Fernando que acarinho
como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho
ainda se encontram alguns pés de linho
crescendo não sei como na estrumeira!

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

“Parva Que Sou”


Já ninguém tem dúvidas sobre o poder das redes sociais. A sua força é de tal modo avassaladora que a divulgação de determinada causa ou acção pode ter resultados inesperados. O caso dos “Deolinda” é exemplar. O efeito mediático conseguido com a canção “Parva Que Sou” fez com que um simples trabalho musical se tornasse num hino de várias gerações de jovens, que nele vêem espelhadas as frustrações perante uma vida a que faltam horizontes e esperança.

Feliz ou infelizmente já passei por várias gerações onde a contestação dos jovens se fazia sentir também através das chamadas canções de protesto. Ouvi e cantei Bob Dylan como o fiz também com José Afonso e Sérgio Godinho. E já era a hora de aparecerem novos trovadores que corporizem todas as ansiedades e angústias dos jovens de agora que vivem de mãos dadas com o desemprego, com a precariedade e com a insegurança de uma vida que não conseguem estruturar.

Daí frases da canção como “Sou da geração sem remuneração”, “Porque isto está mal e vai continuar/já é uma sorte eu poder estagiar” ou “Para ser escravo é preciso estudar”.

Pese embora a letra me pareça um pouco frágil e dando o necessário desconto a alguma demagogia que este tipo de versos sempre acarreta, proponho-me, eu que já sou um “jovem menos jovem” voltar a juntar a minha voz aos “Deolinda” para cantar a nova canção-hino da juventude. Uma “canção de protesto” ou uma “canção da crise” que, da net das redes sociais e dos blogues, se está a transformar rapidamente num movimento de massas.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Não é defeito … é feitio

Não resisto a transcrever o texto de uma mensagem que recebi. No fundo, trata-se de um conjunto de expressões comuns mas que, contextualizados no mundo globalizado em que vivemos, veio “dar razão” a uma série de frases que costumamos dizer no dia-a-dia. Vejam-se alguns exemplos:

“. Se tem um problema intrincado... vê-se grego;
. Se não compreende alguma coisa..."aquilo" é chinês;
. Se trabalha de manhã à noite...trabalha como um mouro;
. Se vê uma invenção moderna...é uma americanice;
. Se alguém fala muito depressa... fala como um espanhol;
. Se alguém vive com luxo...vive à grande e à francesa;
. Se alguém quer causar boa impressão... é só para inglês ver;
. Se alguém tenta regatear um preço...é pior que um cigano;
. Se alguém é agarrado ao dinheiro … é pior que um judeu;
. Se vê alguém a divertir-se...está a gozar que nem um preto;
. Se vê alguém vestindo um fato claro...parece um brasileiro;
. Se vê uma loura alta e engraçada...parece uma autêntica sueca;
. Se quer um café curtinho... pede uma italiana;
. Se vê horários serem cumpridos...trata-se de pontualidade britânica;
. Se vê um militar bem fardado...parece um soldado alemão;
. Se uma máquina funciona bem...é como um relógio suíço;
Porém, quando qualquer coisa corre mal... isso é mesmo à PORTUGUESA!”

A brincar, a brincar, esta é a forma como vemos as coisas. Mas não se preocupem, “Não é defeito … é feitio”

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Do que é que vamos falar então?


Muitos dos silêncios que hoje “se escutam” nas famílias, entre colegas de trabalho e até entre amigos são também uma consequência do mundo globalizado em que vivemos, onde a informação é imensa e extremamente rápida.

Quando não havia internet e tantos canais de televisão que hoje nos permitem mergulhar em mundos inimagináveis até há uns anos, a nossa conversa centrava-se basicamente nos programas (da televisão única) a que tínhamos assistido na véspera e que formatavam as cabeças e as vidinhas de todos. Isto, claro está, para além de algumas tertúlias intelectuais mais ou menos toleradas pelo regime. As discussões travavam-se à volta do último festival da canção, dos chamados programas recreativos e dos concursos que eram, afinal, o foco principal da nossa atenção, para além de se falar dos problemas das famílias e, em particular, dos filhos. Ah, e havia também as touradas, os programas de fados e guitarradas e, naturalmente, o futebol.

O nosso mundo era muito pequeno e as nossas “preocupações” localizadas.

Hoje nota-se alguma dificuldade em conversar porque os interesses dos presentes são muito diversificados. Não quer dizer que não falem, mas, a meu ver, tornou-se mais difícil manter uma boa cavaqueira durante uma tarde ou uma noite.

Por muito interessantes que sejam as personalidades presentes, é arriscado falar-se, por exemplo, sobre literatura ou cinema porque a cultura de alguns, nessas matérias, pode não ser a melhor. E de política? Arriscadíssimo, acho eu. É muito provável que não se passe da repetição do que ouviram nos telejornais ou dos chavões mais utilizados pelos políticos mais conhecidos. Análise crítica ou ideológica seria pedir demasiado.

A verdade é que há hoje um universo de informação extremamente acessível e rápido. E se isso é bom, não podemos, por outro lado, deixar de nos questionar se essa mais-valia pode vir a tornar-se excessiva. É que se corre o risco de que a mensagem que se pretende transmitir não chegue por inteiro aos seus destinatários.

Como conciliar interesses, como dialogar? Do que é que vamos falar então?


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Trocos … são trocos, senhores

Bem sei que a situação foi já resolvida pela nova Administração da empresa mas, mesmo assim, não quero deixar de dar destaque a uma aldrabice, mais uma das que se vão descobrindo por aí sem que os responsáveis sofram qualquer castigo. Ainda por cima num tempo de crise económica em que continuam a verificar-se fraudes, corrupção e tráfico de influências.

Por isso me custa a entender como é que no Taguspark nove dos seus quadros conseguiram ter no último ano aumentos escandalosos e o salário de um assessor de um administrador não-executivo tenha crescido 98%. Leram bem, este senhor – um assessor – quase duplicou o seu vencimento. Que explicação há para isto? Que país é este?

Não fosse a auditoria mandada executar pela nova Administração e lá tinha passado despercebida mais uma escandaleira. Coisa pouca, concedamos. Afinal, o que é isso quando comparado com o facto do Presidente da nossa TAP ganhar o dobro do salário do Presidente dos Estados Unidos? A bem dizer, nada.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

“Nas aulas a congelar nem conseguimos pensar”


Fiquei perplexo ao ouvir a indignação exacerbada de uns quantos alunos de uma escola de Vila Real que, perante as câmaras de televisão sedentas de notícias incendiárias, se queixavam do frio intenso que sentiam nas salas de aula. E o protesto veemente levou-os em marcha até ao Governo Civil onde levantaram bem alto cartazes onde se podia ler, por exemplo, “nas aulas a congelar nem conseguimos pensar”.

Muito embora lhes assista todo o direito de reivindicar melhores condições para eles e para a sua escola, acho que, neste caso, o direito à indignação (sentimento que eu tanto prezo) desta vez foi mal utilizado. E porquê? Porque o que aconteceu é que a caldeira de aquecimento avariou de vez e tiveram que encomendar uma outra que virá de Itália, coisa que acontecerá, segundo a Direcção da Escola, dentro de uma semana. Enquanto isso, os aquecedores a óleo postos nas salas de aula tentarão minimizar o frio mas, pelos vistos, não calarão os estudantes.

Por muito frio que faça – e faz certamente - quero acreditar que umas luvas, uns gorros e umas roupas mais quentinhas, peças que as gentes daquela região está habituada há muito, poderão suster por mais alguns dias o griso deste inverno rigoroso. E também quero acreditar que esse desconforto não vai impedir os estudantes de continuar a pensar. Pensem nisso.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Beba café mas … com cuidado

Para aqueles que se costumam interrogar sobre o perigo que a ingestão do café possa causar à saúde – eu que sou um fiel amante do mesmo – diria que se tomado com equilíbrio, ele só faz bem. Excluindo, naturalmente, os casos em que doenças específicas assim o desaconselhem.

Mas vejam só. A cafeína de duas ou três bicas por dia fornece a energia e o alento intelectual necessário para que possamos enfrentar os maiores desafios do dia-a-dia. Mais ou menos, já se vê. Só é preciso não abusar e é fundamental que se beba com cuidado.

Cuidado em todos os sentidos, saliente-se. Por exemplo, cuidado para não acontecer o mesmo que ao piloto de uma companhia aérea norte-americana que entornou inadvertidamente o cafezinho sobre o painel de controlo que, por sua vez, accionou o alarme de sequestro.

Calculem a confusão que se deve ter gerado. O aparelho que voava de Chicago para Frankfurt teve que aterrar de urgência no aeroporto mais próximo para resolver uma situação que, afinal, nem sequer tinha acontecido.

Por analogia com um conhecido slogan da prevenção rodoviária bem se poderá dizer “se pilotares um avião não bebas … café”.

Sim, por que pior (muito pior) do que o café ser derramado nos instrumentos de um avião só um avião cair numa chávena de café.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

As leis, os dirigentes e a impunidade


Receio tornar-me chato por abordar, uma vez mais, este tema. Na verdade, não é a primeira vez que aqui critico o incumprimento generalizado das leis. A começar pelos cidadãos e pelas empresas que não cumprem as suas obrigações mas indigna-me ainda mais quando os prevaricadores são altos dirigentes do país que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo.

Como aconteceu no caso de uma lei de 2005 que determina que as aplicações financeiras das empresas públicas devem ser feitas exclusivamente dentro do Tesouro. E é esse o procedimento dos respectivos gestores? Não, essas aplicações vão direitinhas para a banca comercial.

Portanto, a lei existe mas, a exemplo do que acontece vezes de mais no nosso país, ela foi tão bem pensada que se esqueceram da chamada legislação sancionatória - aplicável a quem prevarica - que só foi feita em meados de 2010. “Esquecimentos” que permitem que se branqueiem cinco anos de irregularidades bem como as responsabilidades de quem gere essas empresas. Aliás o Tribunal de Contas chegou a sugerir que esses gestores fossem demitidos mas, como a lei é recente, o Governo achou por bem não actuar.

E este incumprimento não é um pormenor. Muitas das leis são habilidosamente torneadas e só em pouquíssimos casos os gestores faltosos são sancionados quer política quer criminalmente. “Dura Lex Sed Lex”? Não, de todo …

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Triste-Feia e … Pobre




Não fazia a mínima ideia que aquela rua por onde passei tantas vezes tinha o nome de “Triste-Feia”. Singular designação, no mínimo, mas certamente com uma história.

E a verdade é que, segundo apurei, há uma lenda que deu nome à rua. Ao que se conta, moravam naquele local três irmãs. Duas delas de aparência normal e a terceira de feições pouco agradáveis à vista dos rapazes que, quando passavam, fugiam comentando: “que focinho de porca”, ou ainda “que medonha seresma”.

A rapariga até era simpática mas, de facto, para mal dos seus pecados, era feia. E, por isso, triste. E daí, sabe-se lá, ter ficado sozinha na vida. Estava sempre sentada à porta, numa melancolia doente.

Porém, depois de morrer, ninguém a esqueceu. De tal modo que a população quis homenageá-la, dando à rua em que viveu, não o seu nome mas a denominação dos atributos que lhe eram mais evidentes - ser feia e triste. E assim aquela artéria passou a chamar-se “Triste-Feia”.

Só não consegui descobrir se ela era pobre. Se foi, quedaram-se pelo estigma de ser feia e triste. É que na placa bem poderia ler-se “Triste, Feia e Pobre”.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Saiu-nos cara a campanha para a Presidência

E pronto. Já lá vão a pré-campanha, os debates, as arruadas, os comícios, os cartazes e bandeirinhas, a propriamente dita campanha eleitoral, a votação e já temos o novo Presidente que, por acaso, é o mesmíssimo que já lá estava. E ficámos satisfeitos? Não, não estou a falar da pessoa que ganhou, isso tem a ver com as convicções de cada um. Perguntava se estavam satisfeitos com o facto de para podermos assistir a todo este trolaró o Estado ter desembolsado quase doze milhões de euros. Doze milhões, repito!

É que é difícil de aceitar que, sempre que há uma campanha eleitoral, se esbanje tanto dinheiro que, certamente, devia ter melhor utilização. Reparem que eu não estou a sugerir que o melhor seria não haver eleições. Longe disso, sou republicano, amo a democracia e acho indispensável que o povo seja chamado a escolher os seus representantes. Não vejo é necessidade deste folclore todo a que já poucos ligam e quase nada acrescenta. Ainda mais numa campanha para a Presidência da República. Então, o que fazer?

Quanto a mim, o custo da democracia deveria ser repensado. O recurso à internet, os debates na televisão pública e os sítios de cada candidato deveriam ser mais do que suficientes para esclarecer o povo. Já todos percebemos que os actuais métodos cativam muito pouco e a prova está na campanha que acabámos de viver. Não serviu para nada e gastou-se dinheiro de mais.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Um "cê" a mais


Enquanto a isso não for obrigado, não utilizarei aqui no blogue a nova grafia imposta pelo Novo Acordo Ortográfico (não confundir com “A cor do horto gráfico”). Não por teimosia mas por coerência. Continuo a achar que a maior parte das alterações não faz qualquer sentido nem acrescenta qualquer evolução à nossa língua quer para nós portugueses, nem para os outros povos que a falam. Houve, então, interesses que levaram a este resultado? Penso que sim. Mas adiante.

No entanto, nesta minha posição, não estou só. Aliás, estou muito bem acompanhado de personalidades reconhecidas do meio académico e intelectual que se têm manifestado repetidamente contra o Acordo ao longo dos últimos anos.

É o caso de Manuel Halpern, jornalista, escritor e crítico literário que escreveu o delicioso texto que gostaria de partilhar convosco e que passo a transcrever:
“Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.”

Em consciência, digam lá se eu tenho ou não razão para continuar a escrever de acordo com ortografia antiga?

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Às vezes os comentários são “perigosos”


Muitas vezes confunde-se a simples opinião com o ataque pessoal. Não estar de acordo com alguém não significa que estejamos a atacar pessoalmente, apenas quer dizer que não se concorda com as ideias de outrem ou a forma como elas são levadas à prática. Tão simples como isso. Porém, nem todos pensam desta maneira.

Vejam o caso que foi relatado há dias pela imprensa. Um pintor da construção começou a ser julgado pelo crime de difamação por ter feito um comentário sobre Alberto João Jardim. O cidadão participou um fórum on-line e à questão “Acha que AJJ vai abandonar o cargo em 2011?” o homem teve o “desplante” de responder “Oxalá! Essa coisa de defender madeirenses é tudo treta, ele defende mas é alguns madeirenses: subsidiodependentes, empresários gananciosos que tudo querem ganhar à custa dos que pagam impostos”.

Perante isto, hediondo de delito de opinião, como poderia reagir o Presidente do Governo Regional. Obviamente mover a respectiva acção judicial contra o “criminoso”.

Esta história fez-me recuar uns trinta e tal anos quando um simples sussurro era mais do que suficiente para nos mandar directamente para a prisão.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Se calhar a água da torneira não é suficientemente boa para os deputados …

Quando se pedem tantos sacrifícios aos cidadãos e se fala insistentemente na redução da despesa do Estado, pareceu-me fazer todo o sentido a iniciativa de uns quantos deputados de um grupo parlamentar para que na Assembleia da República passasse a ser servida água da torneira (em jarro) em vez de água mineral. Tanto mais que a qualidade da água da Companhia é reconhecidamente de boa qualidade. Gostei da iniciativa e pensei (ingenuamente) que os nossos representantes no Parlamento estavam a dar um sinal claro de que certos privilégios sem sentido estavam a desaparecer. Afinal, quando nós queremos beber água engarrafada pagamos.

Mas não, por proposta da Secretária-Geral da AR (aceite pelo respectivo Conselho de Administração), invocando argumentos que poucos perceberão, foi determinado que a água que será servida aos senhores deputados continuará a ser mineral. E a mais importante das razões aduzidas (e aquela que eu não entendo mesmo) é que se a troca proposta fosse avante, a poupança gerada seria, em 2011, apenas de 7 500 euros. Pouca coisa para tão grande “sacrifício”.

Espero, contudo, que outros departamentos do Estado não tenham o mesmo tipo de raciocínio. É que, como diz o adágio, “grão a grão enche a galinha o papo” e é (também) de pequenas poupanças, feitas aqui e ali, que se conseguem equilibrar os orçamentos.

terça-feira, janeiro 18, 2011

“A tradição continua a ser (mais ou menos) o que era”


Embora tanta vez se diga que “a tradição já não é o que era”, eu achava que ainda havia tradições “à maneira antiga”. A da ceia do Natal, por exemplo. É mesmo a mais paradigmática, aquela que ao longo dos anos e dos desvios mais ou menos significativos da fé de cada um e do desmultiplicar das famílias que se vão formando, a consoada continua a ser a festa (a reunião) da família. Nem que seja uma vez por ano, aquela é a noite da família, do bacalhau, dos fritos, do bolo-rei (embora aqui haja particularidades gastronómicas que não convergem) e da troca de prendas, trazidas antes pelo Menino Jesus e agora, com a função delegada, pelo Pai Natal.

Mas o que eu não sabia mesmo é que a noite de 24 de Dezembro é hoje em dia uma das mais rentáveis do ano em bares e discotecas. Ao que parece, cumprida a “formalidade” do jantar e das prendas, os jovens (e não só) saem para ir arejar e beber uns copos com os amigos. Virou moda trocar o serão familiar por uma noite de convívio fora de portas.

Do mal, o menos. Prescinda-se, então, da tradição de ficar em casa com a família mas preserve-se, pelo menos, o hábito do jantar e, já agora, das prendinhas que devem vir embrulhadas de afectos.

Voltemos à frase com iniciámos esta crónica para actualizá-la: “A tradição continua a ser (mais ou menos) o que era”.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A reforma da mulher do candidato não chega aos 800 euros


Em Ponte de Lima, em plena acção da campanha eleitoral que está a decorrer, um candidato à Presidência da República foi interpelado por uma idosa que lhe pediu ajuda para conseguir uma reforma, embora reconhecesse que nunca tinha descontado qualquer importância. Querem saber se houve uma palavra de esperança, de conforto ou de genuíno interesse pela situação da senhora? Pois muito bem, a resposta dada foi a seguinte:

“Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda. Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, nunca descobriram a reforma dela. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda”.

Os meus Amigos acham este tipo de resposta normal? Não é, pois não? É que foi dada por um candidato a Presidente da República que, por acaso, já é Presidente da República há cinco anos. Palavras para quê?


sexta-feira, janeiro 14, 2011

Esquecimentos


Certamente que já vos aconteceu ter lapsos de memória. Sucede a todos. Esquecimentos momentâneos de nomes, datas ou situações, nada de muito importante. Diria mesmo que isso é comum, embora isso aconteça mais a uns do que a outros.

Até é natural (e frequente) a partir de determinada idade (não digo qual que é para não ficarem preocupados). Faz parte do processo de envelhecimento.

Mas o que é preocupante mesmo é a falta de memória para determinados factos que mais parecem ser de conveniência.

Como o que aconteceu ao recém-demitido Presidente dos CTT, Estanislau Mata Costa. Então não é que este senhor, que antes tinha sido quadro da PT, recebia dois ordenados, um de Presidente dos Correios (15 000 euros) e outro pelas suas anteriores funções na PT (23 000 euros), empresa com a qual fez um acordo de suspensão de contrato, embora “estranhamente” sem perda de remuneração.
Enquanto durou este lapso de memória - cerca de dois anos – recebeu quase 40 mil euros por mês até que uma auditoria da Inspecção-Geral de Finanças descobriu que ali havia coisa. Uma coisa que pode até ser legal (?) mas que do ponto de vista ético é altamente reprovável.

É caso para pensar que há “esquecimentos” providenciais.


quinta-feira, janeiro 13, 2011

Conservem o lado bom das coisas


O ano que agora começou não vai ser fácil. Aquietem-se, contudo, os que nos lêem, porque para anúncio das desgraças que aí vêem (incluindo a possível entrada em Portugal de um diabo chamado FMI), já bastam os políticos, os economistas, os analistas, os jornalistas e outros quejandos. Aconselho-os, pois, como terapia contra todos esses males, que passem a olhar de uma outra forma para as coisas a que hoje não dão grande valor. Pelo menos para evitar que venham mais tarde a admitir que “eram tão felizes e não sabiam”.

Curiosamente, uma sugestão que foi feita pelo agora cessante embaixador britânico em Lisboa, Alexander Ellis, que propõe, como contrapartida ao pessimismo reinante na nossa sociedade, que reflictamos sobre as coisas boas que existem no nosso país e que ele gostaria que nunca mudassem. Por exemplo:

“- A ligação intergeracional. Portugal é um país em que os jovens e os velhos conversam - normalmente dentro do contexto familiar. O estatuto de avô é altíssimo na sociedade portuguesa - e ainda bem. Os portugueses respeitam a primeira e a terceira idade, para o benefício de todos.

- O lugar central da comida na vida diária. O almoço conta, não uma sandes comida com pressa e mal digerida, mas com uma sopa, um prato quente etc., tudo comido à mesa e em companhia. Também aqui se reforça uma ligação com a família.

- A variedade da paisagem. Não conheço outro país onde seja possível ver tanta coisa num dia só, desde a imponência do rio Douro até à beleza das planícies do Alentejo, passando pelos planaltos e pela serra da Beira Interior.

- A tolerância. Nunca vivi num país que aceita tão bem os estrangeiros. Não é por acaso que Portugal é considerado um dos países mais abertos aos emigrantes pelo estudo internacional MIPEX.

- O café e os cafés. Os lugares são simples, acolhedores e agradáveis; a bebida é um pequeno prazer diário, especialmente quando acompanhado por um pastel de nata quente.

- A inocência. É difícil descrever esta ideia em poucas palavras sem parecer paternalista; mas vi no meu primeiro fim-de-semana em Portugal, numa festa popular em Vila Real, adolescentes a dançar danças tradicionais com uma alegria e abertura que têm, na sua raiz, uma certa inocência.

- Um profundo espírito de independência. Olhando para o mapa ibérico parece estranho que Portugal continue a ser um país independente. Mas é e não é por acaso. No fundo de cada português há um espírito profundamente autónomo e independentista.

- As mulheres. O Adido de Defesa na Embaixada há quinze anos deu-me um conselho precioso: "Jovem, se quiser uma coisa para ser mesmo bem-feita neste país, dê a tarefa a uma mulher". Concordei tanto que me casei com uma portuguesa.

- A curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo. A influência de "lá" é evidente cá, na comida, nas artes, nos nomes. Portugal é um pais ligado, e que quer continuar ligado, aos outros continentes do mundo.”

Como vêem, temos boas condições para resistir. Com dificuldade, admito, mas, ainda assim, mais do que suficientes para vencer. FELIZ 2011!

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Quando eu nasci


Durante as férias natalícias fiz anos. É uma data que teimo em celebrar e da qual, garanto-vos, não pretendo desistir tão cedo. Que querem, manias de gente que insiste em gostar de aniversariar e de receber os cumprimentos (e abraços) dos amigos. E não me venham com a velha história de que isso é coisa de crianças por que, de facto, não é. Algo muda, naturalmente, com o passar dos anos, sobretudo pela ausência das pessoas que já partiram, mas os afectos continuam. E eu dou muito valor a isso.

Mas, hoje, sou eu que vos trago uma prenda. A propósito de aniversários, eis um belo poema de José Régio, “Quando eu nasci”


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Mourinho, um “orgulhoso português”



Já vão longe os tempos em que me emocionava quando via a bandeira portuguesa a ondular num mastro de qualquer cidade estrangeira.

Também me emocionei quando, anos depois, vi o Carlos Lopes e a Rosa Mota subirem aos mais altos lugares dos pódios das maiores competições internacionais de atletismo. Emocionei-me de novo quando ouvi José Saramago discursar em português ao receber o Nobel da Literatura. Tornei a emocionar-me há horas ao assistir à consagração de José Mourinho ao ser eleito pela FIFA o melhor treinador do ano.

E, desta vez, não foi apenas pelo facto de ser um compatriota a conquistar tal prémio, ele que de facto teve em 2010 uma caminhada tão gloriosa que conquistou tudo o que um treinador de um clube de futebol pode ambicionar ganhar. Não, a minha emoção foi sobretudo por ele ter feito um curto mas significativo discurso em … português (tal como o fizera Saramago) e ter afirmado convicto que falava em português por que era um “orgulhoso português”.

José Mourinho voltou a ser o “Special One” e, momentaneamente, deixámos de falar em “mercados” e em crise. Que mais poderíamos desejar?

Sei lá porquê, fui lembrar-me de uma pergunta feita há meses pelo jornal espanhol “Marca”:

“Qual a diferença entre Deus e Mourinho?” E a resposta óbvia e inteligente foi dada na hora:

“Deus nunca se sentiu Mourinho”.

Para bom entendedor …

segunda-feira, janeiro 10, 2011

1000 posts publicados



Neste início de ano tenho o gosto de publicar o post número mil do “Por Linhas Tortas”. É um número redondo, bem sei, que provavelmente pouco dirá a quem nos acompanha mas que é importante para mim. Desde logo por que já são muitos mas, sobretudo, por que representam, de algum modo, a minha “teimosia” em continuar. E a verdade é que nunca pensei chegar tão longe.

Apesar de este blogue ser generalista (tento, quanto possível, escrevinhar sobre assuntos variados, seria muito mais fácil se se tratasse de um blogue temático), nunca senti a angústia de me faltar um tema. A velha história do jornalista frente à sua máquina e o vazio da folha por escrever. Quem sabe se por imaginar que isso pudesse vir a acontecer, recebi, logo no início, uma mensagem em que um Amigo me dizia:

“Lá virá o tempo em que por falta de melhor tema/assunto se discutirão estes magnos problemas”.

E a que problemas é que se referia este meu Amigo? É que ele achava que a palavra “Despretensiosa” que estava a usar em determinada frase, ficaria mais graciosa e elegante se em vez de usar um s, antes se escrevesse com um c, pelo que a palavra ficaria a ser “Despretenciosa”.

Não tenho quaisquer preferências por uma ou por outra forma, se bem que a segunda – Despretenciosa – ainda não exista oficialmente na nossa língua. E, ao que sei, o novo acordo ortográfico também não alterou a situação. Fico, portanto, na dúvida se a palavra, como pretendia o meu Amigo, ficaria mais graciosa e elegante se escrita com um c.

Incapaz de opinar por uma das duas, decido-me, no entanto, pelo modelo que é hoje oficialmente aceite, isto é “despretensiosa”, não correndo assim o risco de me chamarem a atenção por ter cometido um imperdoável erro ortográfico.

E, em jeito de remate, já que estamos a falar de palavras que têm – ou poderiam vir a ter – cês, deliciem-se com este pequeno poema de um autor conhecido pelo pseudónimo de “Romântico Analfabeto”


E disse o piloto à sua amada
“eu escreveria o seu nome
mil vezes no céu com o
rasto do meu jacto,
Cecília,
Se não fosse tão difícil
Fazer a cedilha”

terça-feira, dezembro 21, 2010

Boas Festas

Cumprimento todos os que nos têm feito companhia ao longo do tempo e, nesta época de festas, desejo que tenham

SAÚDE

PAZ e

AMOR

E que 2011 vos traga tudo de bom

BOAS FESTAS!
BOM ANO NOVO!

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Do que eu falaria hoje se não estivéssemos no Natal


Estou já tão imbuído do espírito natalício que não me sentiria bem se hoje me pusesse a comentar “certas coisas” que andam por aí. Estamos na época em que os corações estão mais sensíveis e são palavras como saúde, paz, amor, compreensão e fraternidade que mais gostamos de dizer e de ouvir.

Não fosse assim e certamente especularia sobre a forma peculiar como Cavaco Silva tem promulgado uma série de leis. Isto é, não gosta delas, nunca as faria, acha que os seus efeitos irão ser nefastos mas, ainda assim, assina-as. Dá-lhes, portanto, o seu aval muito embora faça questão de justificar que não está de acordo com elas. Insólito, no mínimo. O normal seria estar de acordo e vamos a isso ou não gosto e devolvo.

Não fosse o Natal e provavelmente estaria aqui a meditar sobre o ano que se aproxima e sobre as dificuldades que vamos sentir. 2011 para além das penalizações salariais das famílias trar-nos-á o aumento significativo dos bens essenciais como o pão (12%), os transportes (3,5 a 4,5%) e a electricidade (3,8%) para além do IVA, claro. Mas a época desaconselha-me a tal.

Não fosse a enorme dose de generosidade própria da época e dissertaria sobre os países onde o nosso Governo anda à procura de financiamentos mais em conta do que aqueles que conseguimos nos chamados “mercados”. Na China, na Líbia, no Brasil ou nos Emiratos onde, certamente, vamos obter os empréstimos que necessitamos com taxas mais baixas mas com contrapartidas ainda desconhecidas. Sim, por que alguns desses “países amigos” não são propriamente democracias e vão querer que estejamos do seu lado em certas votações. Mas, como se costuma dizer, “em tempo de guerra não se limpam armas”.

Não fosse esta quadra, comentaria certamente os 500 milhões de euros (mais 500 milhões) que o Estado vai injectar no BPN.

Mas é Natal e o melhor será falar-vos em esperança. É uma coisa que, por enquanto, não paga imposto e, de certa forma, aconchega-nos a alma. É bom termos esperança e é muito bom acreditar no futuro. Como o nosso Manuel de Oliveira que aos 102 anos continua a realizar filmes e a receber prémios e o de uma senhora inglesa com 103 anos que é a mais velha utilizadora do Facebook. Exemplos que, sem dúvida, nos devem inspirar. Bom Natal!

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Emprego e Desemprego do Poeta

Do Poeta e ensaísta português Ruy Belo (1933 – 1978)

“Emprego e Desemprego do Poeta”


Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Tive sorte


A rua era larga e de passeios largos. O trânsito diminuto. Parei o carro em cima do passeio (largo) para ir à loja que ficava em frente. Questão de minutos, pensava eu. Ainda assim, com a preocupação de que pudesse causar algum incómodo aos transeuntes, assomava constantemente à porta para verificar que não havia problema.

Numa das vezes, não teriam passado mais de dez minutos, vi que me tinham bloqueado o carro e, para o tornar ainda mais bonito, tinham-lhe colocado uma fita multicor ao seu redor. Percebi que a multa já cá cantava.

A carrinha da Polícia Municipal estava a cerca de 20 metros. Tudo se tinha passado num ápice. Corri até eles. Para ser sincero nem sequer tive vontade de justificar a minha infracção, achei que não valia a pena. Só lhes disse, em tom de desabafo (ainda que com ironia), “foram eficazes”.

Explicaram-me que incorria em três “crimes”: estacionamento em cima do passeio, impedimento de passagem de peões e de cadeiras de rodas ou carrinhos de bebés e obstrução à saída dos veículos estacionados. Tudo junto eram 90 euros para resolver a situação. Porém, como se aperceberam (!!!) que eu tinha aparecido umas quantas vezes à porta da loja, só me penalizaram pelas duas primeiras infracções. Assim, “apenas” paguei 30 euros de coima e mais 30 por me bloquearem/desbloquearem o carro.

Tive sorte, apesar de tudo. “Poupei” os 30 euros da multa que me perdoaram e “poupei” o telefonema para virem desbloquear o automóvel. Ah, e ainda tive a sorte de ter pela frente um polícia simpático e conversador que fez questão de me dar todas as explicações.

Depois de ter apertado a mão ao polícia, entrei no carro (já sem a tal fitinha) e saí dali com o sentimento que o Natal é uma época de paz e compreensão.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

A saúde em Portugal – bem, mal ou nem por isso?

Sou acérrimo defensor de uma total transparência na vida pública. Afinal o Estado somos todos nós e temos o direito de saber se a coisa pública está, ou não, a ser bem administrada. Só que a avaliação poderá ficar distorcida se as sucessivas notícias do que corre mal não tiverem como contrapartida tudo aquilo que se faz bem (sim, por que há também muitas coisas que são boas). E isso pode gerar um sentimento negativo nos cidadãos, o qual assenta, muitas vezes, no puro desconhecimento do que realmente acontece.

No caso da saúde, por exemplo, diz-se amiudadamente que é um sector que não funciona, é desorganizado e onde não podemos confiar. Mas será que é mesmo assim?

Pois a confiar no estudo levado a cabo pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) que conclui que o Serviço Nacional de Saúde está degradado e é insustentável, somos capazes de admitir que o fim se aproxima e que aquilo que os portugueses julgavam ser uma conquista e um direito para sempre, está à beira de acabar.

Só que, desta vez, existe a tal contrapartida de que falávamos. Através de um outro estudo, este da OCDE, ficámos a saber que Portugal é dos mais eficientes (entre os 29 países mais desenvolvidos) na despesa que faz com a saúde. Ou seja, no nosso país a despesa pública com a saúde não tem grandes desperdícios e será difícil ser muito mais eficiente. E, para os ganhos em saúde da população, os gastos até nem dispararam. O relatório nada diz quanto à sustentabilidade do sistema mas um
facto que parece relevante é o de 76,9% dos portugueses estarem insatisfeitos com o SNS.

Face à aparente divergência dos resultados obtidos nestes dois estudos, é legítima a interrogação: será que os portugueses que se manifestaram descontentes com o Serviço Nacional de Saúde foram exactamente os mesmos que acharam que, entre todos os operadores de transportes de Lisboa, o Metro é aquele que tem melhor ar condicionado? É que o Metropolitano de Lisboa não tem qualquer sistema de ar condicionado e apenas utiliza ventilação sem refrigeração...

terça-feira, dezembro 14, 2010

E o elogio não deveria fazer parte da prática política?



Independentemente da cor política do partido que está no poder, o que tenho assistido ao longo dos anos dentro e fora do Parlamento é um contínuo bota abaixo das oposições a respeito de tudo. Pelo que se faz, pelo que se deixa de fazer ou pelo que se faz mal. De qualquer jeito, o mote é “vocês erraram” e “prontos”! E isso irrita-me solenemente. É que alguma coisa de certo os governos farão.

Daí que tenha ouvido com agrado as palavras do líder parlamentar do PSD que elogiou as medidas apresentadas pelo Primeiro-Ministro para a educação, nomeadamente, o reforço de programas para o sucesso escolar, o estudo acompanhado da matemática, português e ciências no ensino básico e a criação de uma "tutoria digital" para estas disciplinas.

Miguel Macedo considerou ainda que "o país está numa direcção certa" em matéria de educação, destacando a melhoria de resultados dos alunos portugueses observados no relatório PISA da OCDE.

Até que enfim. Considero que numa democracia a sério tem que haver regras básicas. Nomeadamente que haja discussão de ideias, exercício da crítica profunda e rigorosa e reconhecimento do que se faz bem. Isto, a acontecer, só engrandeceria os políticos e enriqueceria a própria democracia.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Como se pode ficar insensível ao que se passa?

Muito se fala nas desigualdades que colocam Portugal no pódio dos países onde existem maiores diferenças entre os que mais ganham e os que menos recebem. Falamos mas a maior parte das vezes nem nos apercebemos bem da verdadeira dimensão dessas assimetrias. Os exemplos, porém, ajudam-nos a entendê-las um pouco melhor.

Com um desemprego que estará na casa dos 11,7% da população activa (cerca de 650 mil pessoas), em que 22% dos que têm emprego estão com contratos a prazo, com uma remuneração média que andará pelos 800 euros e com a maioria pensões que têm valores idênticos ao salário mínimo (475,00 €), não podemos ficar indiferentes quando constatamos que muitos gestores não executivos, aqueles que não têm funções de gestão, chegam a ganhar 7 400 euros por reunião.

Sem demagogias e sem pretender atacar pessoalmente quem quer que seja, dou-vos um exemplo (e poderia dar-vos bastantes mais) desses gestores de topo que são pagos principescamente. Não está em causa se o merecem ou não nem, tão-pouco, se pretende avaliar as suas capacidades e experiências. O que parece relevante sublinhar é o exagero do que alguns recebem, sobretudo quando enquadrados num país como o nosso onde há fome e a maioria das pessoas sentem grandes dificuldades para sobreviver.

E o exemplo que quero dar é o do Dr. Daniel Proença de Carvalho, por quem tenho o maior respeito, que é um dos responsáveis com mais cargos entre os administradores não executivos das empresas cotadas no PSI-20 e também o mais bem pago. É Presidente do Conselho de Administração da ZON, membro da comissão de remunerações do BES, Vice-Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da CGD, Presidente da Mesa da GALP Energia e desempenha funções semelhantes em mais 30 empresas. Recebeu em 2009 (só nas empresas cotadas em Bolsa) 252 mil euros por ter participado em 16 reuniões, ou seja, 15,8 mil euros por reunião.

Não acham escandaloso? Por muito e magnífico trabalho que tenha desenvolvido (e não tenho dúvidas que o fez) na preparação dessas reuniões, durante as mesmas e até mesmo depois, e ainda que tenha pago todos os impostos devidos, não acham excessivo que só nas tais 16 reuniões uma pessoa receba 252 mil euros, ou seja, o correspondente a 18 mil euros por mês, catorze meses por ano?

É chocante, não é? E isto passa-se em Portugal, precisamente o país que ainda esta semana foi noticiado como tendo o segundo valor mais alto no índice de desigualdade social da União Europeia.Como se pode ficar insensível a isto?

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Banda desenhada no Facebook? Boa!...

Para que a vida não se torne demasiada monótona, inventam-se de tempos a tempos novas modas. Desde há algumas semanas as pessoas que frequentam o Facebook lembraram-se de substituir as suas fotografias (que lá estavam escarrapachadas para melhor serem reconhecidas) por figuras de banda desenhada.

Pergunto, tinham vergonha de mostrarem as vossas caras larocas ou o intuito foi a mera segurança e privacidade de cada um? Eu acho que o que originou isto foi um movimento lançado no próprio Face mas olhem que esse já era e saiu tão rapidamente como entrou. E ainda que eu prefira os bonequinhos de BD aos “vultos” que não identificam nem distinguem a quem pertencem, como poderei continuar a “encontrar-me” convosco sem ter a certeza se estou de facto perante um de vós ou simplesmente a olhar para o Mickey?

É uma fase? Muito bem, esperarei que ela passe. Depois, e uma vez terminada a exposição das crianças que têm dentro de vós e todas essas recordações de tempos idos, por favor voltem às fotos com expressão, àquelas que nos deixam olhar nos olhos e saber que vocês estão desse lado.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

O apelo de Eric Cantona

Os amantes de futebol recordam-se certamente de Cantona - Eric Cantona - o francês que brilhou nos relvados ao serviço da selecção francesa e do Manchester United na década de noventa. Cantona foi um jogador de um talento indiscutível e foi mesmo considerado o melhor jogador da história do Manchester.

Mas, reconheçamos, o génio do jogador ultrapassava as quatro linhas do campo e dava corpo a atitudes que assumia fora dos relvados, muitas delas excêntricas, quando não reprováveis.

Pois Cantona, o agora actor, fotógrafo, dinamizador de causas sociais e seleccionador francês de futebol de praia, voltou à ribalta para apelar, através da internet, a que as pessoas corram aos bancos para levantar o dinheiro que lá têm. "Se 20 milhões de pessoas forem ao banco levantar o dinheiro, o sistema afunda-se e a revolução faz-se sem armas nem sangue, é tudo muito simples", dizia Cantona no vídeo, onde acrescentava que esta era a melhor maneira de se ver a revolta popular. “Depois, as pessoas vão ouvir-nos”, concluiu.

Claro que esta “finta” do antigo futebolista, apesar de ter já uns largos milhares de apoiantes no espaço cibernético, não vai ter acolhimento por aí além e, se tivesse, seria perigoso. Todos sabemos que uma corrida em massa aos bancos, por destruir a confiança que as pessoas têm no sistema bancário poderia pôr em causa o seu funcionamento por falta de liquidez.

Aliás, a criação dos Bancos Centrais e dos Fundos de Garantia aconteceu exactamente para responder aos cenários de pânico e corridas aos bancos que aconteceram no início do século passado.

Uma coisa é estar danado com os banqueiros e com a forma como conseguem pagar menos impostos do que as outras empresas e, nesse sentido, percebe-se a animosidade popular contra a banca. Outra é desejar a falência do sector bancário, o que, creio, ninguém quer.

Como aqui tenho referido por diversas vezes, uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa. Quanto ao Eric Cantona, eu sempre o considerei genial como … futebolista.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Os Açores e as compensações salariais



É curioso como tantas vezes se gastam energias a discutir coisas … pelo lado errado. Então em política isso é muito comum, questionam-se as minudências e esquecem-se do que é verdadeiramente importante.

Tal como está a acontecer agora com as tão badaladas (e politizadas) compensações salariais dos funcionários públicos dos Açores. Na verdade, pouco interessa se essas compensações são ou não inconstitucionais ou se é mais significativo que estes funcionários continuem a receber o seu salário por inteiro ou que os muitos milhares de outros funcionários vejam reduzido o seu vencimento.

O que para mim está em causa é tão-somente uma questão de justiça. Se se pedem sacrifícios aos portugueses, é justo que todos contribuam para esse sacrifício. E medidas que ludibriem este princípio são moralmente condenáveis, ainda que sejam legais.

Políticas à parte, as declarações críticas do Presidente/Candidato Cavaco Silva, embora mal aceites pelo partido que apoia o governo e pelo seu candidato presidencial, têm toda a razão de ser. Ou seja, dentro dos mesmos níveis salariais, os cortes devem ser aplicados a todos de igual forma. Se não, digam-me como acham que se sentem os trabalhadores que são vítimas desta discriminação?

Se estes privilégios – sim, por que é disso que se trata – forem considerados inconstitucionais tanto melhor. Mas sejam ou não, o facto é que estamos perante uma questão de ética e de equidade. E não me venham dizer que 5% sobre 1 750,00 euros é diferente em Vila Nova de Poiares ou em Angra do Heroísmo, porque, de facto, não é.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Até o Eleven mandaram às ortigas …

Posso até entender que a debilidade da nossa economia preocupe tremendamente quem nos empresta dinheiro. A prova é que as taxas de juro não param de aumentar.

Mas já não percebo que esse facto determine e justifique que o famoso Guia Michelin tenha tirado a estrelinha a uma das catedrais da nova burguesia, o Restaurante Eleven, em Lisboa.

A coisa está a ficar feia, meus Amigos. Eu sei que ainda nos resta um restaurante com duas estrelas Michelin (o Vila Joya, em Albufeira) e mais dez com uma estrela, mas não me conformo – eu que até nem frequento o Eleven - que um dos melhores restaurantes da capital e do país, onde os produtos de excelência, a arte e a criatividade eram (e continuam a ser, ao que consta) uma referência tenham sido, pura e simplesmente, esquecidos e mandados às ortigas.

Como diria o Calimero: “É uma injustiça, não é?”

terça-feira, novembro 30, 2010

Eu que me comovo por tudo e por nada



A campanha do Banco Alimentar Contra a Fome que decorreu no último fim-de-semana em muitos supers e hipermercados do país recolheu 3 260 toneladas de alimentos. Um aumento de 30% face ao período homólogo do ano passado. Um balanço que superou em muito as melhores expectativas.

Foi um verdadeiro festival de solidariedade em que muitos milhares de pessoas indiferentes à crise económica (ou exactamente por causa dela) acorreram prontamente à chamada para colaborar com aqueles que mais necessitam. Durante estes dois dias tive a ocasião de observar a forma generosa como quiseram contribuir, chegando mesmo a deslocarem-se propositadamente aos locais só para comprar alimentos destinados à campanha. Pessoas de todas as idades e de condições sociais distintas que, dentro das possibilidades de cada um, se mostraram disponíveis para colaborar E a muitas delas, depois de entregarem os seus sacos de compras, ouvi-as dizer: “Bem hajam pelo vosso trabalho, que Deus vos ajude pelo bem que fazem” ou, simplesmente, “Obrigado”. Tocante, na verdade.

Mas não quero deixar de partilhar duas situações (a que assisti) que achei enternecedoras.
A primeira, a de uma criança dos seus seis anitos que fez questão de oferecer um produto que ela achou ser extremamente importante. Num saco do BA entregou (convicta e orgulhosamente) … uma embalagem de Sugus.

A segunda história foi a de um caixa de supermercado de uma grande superfície que aproveitando a presença de uma voluntária do BA entregou – disfarçadamente - 4 euros para que ela comprasse alguns produtos com que ele pretendia contribuir. A voluntária ainda lhe perguntou por que razão não o fazia directamente mas ele respondeu, como que envergonhado, que não queria dar nas vistas.

É perante casos como estes (e juro que vos podia contar muitas dezenas de outros mais) que me comovo e me curvo. “Eu que me comovo por tudo e por nada”, como dizia o Vitorino.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Neste fim-de-semana lá estaremos


A próxima Campanha de Recolha de Alimentos em supermercados e superfícies comerciais, levada a efeito pelo Banco Alimentar, realiza-se no próximo fim-de-semana, dias 27 e 28 de Novembro de 2010.

Milhares de pessoas carenciadas contam consigo!

Participe. Alimente esta ideia.

terça-feira, novembro 23, 2010

Afinal o Governo quer diminuir a despesa


Os comentários políticos e económicos que são feitos em toda a comunicação social, embora dissecados por analistas e peritos muito conhecedores e respeitáveis, pecam muitas vezes por falta de rigor e por não serem inteiramente justos.

Quantas vezes ouviram falar nos últimos tempos que é necessário pôr fim ao despesismo do Estado? Pois bem, se é verdade que a despesa do Estado continua a aumentar, por uma questão de justiça devemos reconhecer que têm sido feitos alguns esforços para se gastar menos.

Como se pôde comprovar, aliás, na semana passada no Congresso das Comunicações, organizado pela APDC, quando o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça, e o seu subordinado, o Secretário de Estado Adjunto, Paulo Campos, leram discursos praticamente iguais. Frases, ideias e intenções ditas por um e repetidas mais tarde pelo outro.

E não me venham com a teoria, de resto adiantada pelo Governo, que os discursos “de tão parecidos” mostram como o Ministro e o seu Secretário de Estado comungam das políticas definidas pelo Governo. Bullshit! Tretas!

Para mim, o lapso aconteceu porque, para pouparem umas massas, mandaram embora alguns assessores e os que lá ficaram, por falta de tempo, rabiscaram um único discurso que desse para os dois. A não ser que, e essa explicação também é plausível, que já não haja coordenação no Ministério e eles andem de cabeça completamente perdida. Será?

segunda-feira, novembro 22, 2010

NATO ou OTAN? Decidam-se …

A semana que agora terminou correu bem a Portugal. Depois da cabazada que demos aos espanhóis no encontro das selecções de futebol tivemos a cimeira da NATO que juntou em Lisboa grandes líderes mundiais e que, ao que dizem, foi histórica porque … porque … ora, leiam os jornais e saibam porquê.

Quanto ao futebol estamos falados (e orgulhosos) por sabermos que, pelo menos nos jogos a feijões, aqueles que não contam para os títulos, somos fantásticos.

No que diz respeito à cimeira, gostava de destacar dois aspectos. O primeiro é que apesar de sermos mestres do desenrasca, especialistas em resolver as coisas à última hora, demonstrámos mais uma vez que somos mesmo bons quando nos pomos a organizar qualquer evento. Tudo correu bem e nada falhou. A outra é que embora se temesse violentas situações de conflito, como aconteceu noutras partes do mundo onde se realizaram outras cimeiras, demonstrámos que somos um povo pacífico e que nem mesmo a presença de activistas porventura mais nervosos foi suficientemente mobilizadora para gerar um chinfrim de montras partidas, carros incendiados e lojas vandalizadas. Tudo foi pacífico, mesmo a manifestação Anti-Nato que não teve distúrbios dignos desse nome.

Ainda sobre manifestações, gostaria de dizer que seria desejável que as pessoas só desfilassem quando soubessem minimamente o que estão a protestar e quais os destinatários que pretendem atingir. É que ouvi em várias reportagens televisivas manifestantes dizerem que estavam ali para protestar contra a NATO. Mas quando lhes perguntavam (com ironia mal disfarçada), então e relativamente à OTAN? Respondiam com um vago sentimento revolucionário “Ah, e contra a OTAN também. Abaixo o capitalismo, a NATO e a OTAN”.

É uma pena que nem todos saibam que a Organização do Tratado do Atlântico Norte, também chamada Aliança Atlântica, é uma organização internacional de colaboração militar que responde pelos nomes de

em inglês, NATO – North Atlantic Treaty Organization, e

em francês, OTAN – Organisation du Traité de L’Atlantique Nord

É o mínimo que se exige a quem se manifesta. E como temos uma greve geral à porta, espero bem que todos saibam os motivos da sua indignação. É que as manifestações não são propriamente centros de dia nem passeatas de socialização entre quem se sente só. Há muito mais em jogo para além disso.


sexta-feira, novembro 19, 2010

O amor é lindo

Eu que sou um eterno romântico, sempre achei que o amor, o amor verdadeiro, é uma coisa maravilhosa. Continuo a olhar enternecido para aqueles casais que, tal como as pilhas de uma certa marca, duram, duram, duram.

Mas hoje dou-vos conta de um casal fora do comum. Mark Duffield-Thomas, britânico, e Denise, australiana, já deram o nó 83 vezes. Nem mais. E um com o outro, sublinhe-se.

Já casaram em luxuosos resorts, em praias e piscinas, em cavernas, lagoas e até em masmorras, em países como Inglaterra, Indonésia, Tailândia, Espanha ou Ilhas Maurícias. Sem repetições e sempre com a vontade de surpreender. Mas não só, claro. O casal pretende chegar às 100 cerimónias de casamento e querem (e estão quase a consegui-lo) bater o recorde do Guiness. Isto, claro está (e não menos importante), para além de estarem a promover uma empresa irlandesa de organização de casamentos.

Mas é importante que saibam que Mark e Denise só casaram (pela primeira vez) o ano passado. É que, à velocidade com que renovam os votos, a excentricidade pode tornar-se uma enorme rotina. E aí, ninguém poderá prever se daqui a 17 cerimónias, quando fizerem as cem, essa venha a constituir a antevisão da cerimónia final … a do divórcio.


quinta-feira, novembro 18, 2010

A crise, qual crise?

Há poucas horas assistimos à goleada (4 a 0) imposta pela selecção portuguesa de futebol à sua congénere espanhola. E fê-lo de uma forma alegre, simples e dominadora, jogando com uma determinação a que já nos desabituara. Vencer a Espanha – a actual campeã da Europa e do Mundo - ainda que num encontro particular, faz-nos bem à alma. Somos “hermanos”, é verdade, mas a rivalidade é mais que muita e ninguém gosta de perder nem a feijões.

Foi um jogo frenético e a equipa de todos nós, a mesma (ou quase a mesma) que ainda há meses parecia ter perdido a qualidade que todos sabíamos existir, emergiu poderosa para uma partida de futebol muito bem jogada.

Quatro a zero à Espanha. A resposta (a vingança) à eliminação que a mesma Espanha nos tinha infligido nos oitavos de final do Mundial de Futebol de 2010, há escassos meses na África do Sul.

Perante este banho de futebol, a nossa auto-estima subiu. Pelo menos por umas horas esquecemo-nos dos nossos problemas e da crise. Crise, qual crise?


terça-feira, novembro 16, 2010

Como acreditar?



Há anos que os Governos não se cansam de pedir sacrifícios aos portugueses. Em nome das crises, dos deficits, dos endividamentos externos, da continuação do estado social, das ou dos quaisquer pretextos, a palavra de ordem para o Zé-povinho é “vamos ter que apertar o cinto”. E a receita é sempre a mesma, o aumento da carga fiscal que, invariavelmente, penaliza sobretudo aqueles que menos têm.

Perante aquilo que parece ser uma inevitabilidade, o que se podia esperar em troca era que os sacrifícios também fossem assumidos pelo Estado. Dir-me-ão que falar no Estado assim desta maneira é um bocado vago e que os seus funcionários já vão ter cortes nos salários e aumentos no IRS (para além do IVA que, esse, é para todos). Certo, mas não era aos funcionários que eu me referia. O que estava a pensar era nas contratações que estão agora a ser feitas, de 45 novos funcionários por semana para cargos no Governo e na administração directa e indirecta do Estado, já depois de terem sido anunciadas as medidas de austeridade.
Apesar do último PEC apontar para a contenção da despesa pública, assistimos não ao emagrecimento do Estado mas à sua engorda com o inerente aumento de encargos com o pessoal. Eu sei que o Governo já veio justificar que os que estão a entrar vão substituir os que saem e, muitos deles, já transitam de outros lugares do Estado. Será? Temos bons motivos para desconfiar.

E o que pensar sobre o que veio noticiado na imprensa de ontem sobre as mudanças na tributação, propostas no Orçamento para 2011, que deixam de fora os principais milionários da Bolsa portuguesa? A ser verdade, que explicação haverá?

Mas poderia dar muito mais exemplos. Ainda há dias vi passar um administrador (que eu conheço) de uma empresa pública (que todos conhecemos) num carro topo de gama de uma marca conhecida (e muito cara), acabadinho de sair do stand. Não me contaram, eu vi!

Assim sendo, como aceitar os sucessivos apelos de quem nos governa? E como corresponder a eles, perante o que vamos assistindo? Já quase não conseguimos apertar o cinto … por falta de furos.

Como dizia o outro, “Já basta de realidades queremos promessas”.

segunda-feira, novembro 15, 2010

Os habilidosos


Embora as estatísticas vão alternando de semana para semana ao sabor do número de empresas que vão fechando, as últimas que foram divulgadas dão conta que o Distrito de Portalegre é onde se regista maior carência alimentar e o concelho de Mesão Frio onde há mais desemprego.

Para o comum dos cidadãos parece que uma coisa deveria ser a consequência da outra mas, ao que parece, nem sempre é assim.

Mas o que hoje chamou a minha particular atenção foi o desemprego em Mesão Frio, onde existem 400 desempregados no concelho, cerca de 12,2% da população. Mas será que há, de facto, desemprego ou os desempregados, pura e simplesmente, não querem trabalhar?

Fiquei boquiaberto ao assistir ao programa “Linha da Frente” exibido na última semana na RTP, quando uma psicóloga do Gabinete de Inserção Profissional afirmava sem papas na língua:
“Uma cláusula que fazem logo na primeira entrevista é que não querem trabalhar ao fim-de-semana e, se for um trabalho que englobe umas horas nocturnas, tipo dez da noite, nove e meia ou por turnos, não querem. Se for longe de casa é impensável. As pessoas quando se vêm inscrever o que pedem são cursos de formação profissional, em que a bolsa seja considerável e perto de casa. Se for um curso um bocadinho longe já não querem… As mulheres inscritas não procuram nem esperam trabalho. Sabem que por aqui têm acesso a um curso de formação profissional que não requer esforço físico, que pode durar um ou dois anos e com bolsas entre os 200 e 500 euros, não raras vezes acima de um ordenado mínimo nacional. E podem acabar um e começar outro”.

Palavras para quê? Mais claro do que isto é impossível. Afirmações que, de certo modo, vêm dar razão às teorias que um certo líder de um partido da oposição faz questão de repetir até à exaustão. Demagogias à parte, acabamos por ter que lhe dar razão nesta matéria.

Mas cuidado. É perigoso generalizar e o que se passa em Mesão Frio pode não corresponder ao que acontece noutras zonas do país. É absolutamente necessário que haja rigor na análise das situações e que se actue caso a caso. Podemos até perceber que haja razões para que as pessoas não aceitem certos trabalhos mas não devemos condescender com o laxismo que se instalou na nossa sociedade. E, sobretudo, não podemos confundir os habilidosos, os “falsos desempregados”, com os muitos milhares de cidadãos que procuram desesperadamente uma ocupação, perto ou longe de casa, com horários certinhos ou não, fora ou dentro das habilitações académicas e da preparação profissional que possuem.