terça-feira, junho 14, 2011

Voltemos à terra

Já passaram alguns dias e continuo a ter presente as palavras do Presidente da República em Castelo Branco nas comemorações do 10 de Junho. Não, desta vez, não lhe chamou o “Dia da Raça”, como o fez em 2008, mas aproveitou para exortar os portugueses a voltarem à terra, à agricultura. E com razão, digo eu, tal é o envelhecimento do sector e o facto de sermos muito deficitários em matéria alimentar.


Porém, o que achei curioso é que essas palavras que verdadeiramente traduzem uma das nossas maiores necessidades do ponto de vista económico, fossem proferidas pela boca de Cavaco Silva que era o primeiro-ministro de Portugal logo após a nossa adesão à então CEE, em 1986. O mesmo Cavaco que ajudou a destruir a nossa agricultura em troca de fundos comunitários para a construção de auto-estradas. Um discurso que, segundo alguns, soou um tanto ou quanto a remorso.


A memória é curta, bem sei, e muitos já se terão esquecido disso mas a verdade é que no início da década de 90, não só não se modernizou a agricultura aproveitando os generosos subsídios que recebíamos da Europa como, pelo contrário, se distribuíram tentadores incentivos à sua destruição.


Dizer agora que o sector agrícola é fundamental e é nele que se deve investir para a futura sustentabilidade do país parece-me óbvio. Pena foi que quem nos governava então se tivesse curvado perante outros interesses e não tivesse tido a necessária visão estratégica de futuro. Hoje a coisa seria completamente diferente.

quinta-feira, junho 09, 2011

“Eu adoro-vos”

Para quem julgava que José Sócrates era um homem desprovido de sensibilidade, duro, frio, calculista e egocêntrico tenho a dizer que se enganaram redondamente. Podem ter todas as razões contra ele, podem até ter razão em ter razões mas na terça-feira passada – 7 de Julho de 2011 – ficou inequivocamente demonstrado que o ainda Primeiro-Ministro tem coração e sentimentos. Como ficou provado, aliás, na mensagem curta que proferiu na reunião da Comissão Nacional do Partido Socialista quando deixou aos seus companheiros de partido um emotivo “Eu adoro-vos”.


Foi um balde de água fria para os seus detractores. Vão persistir em dizer que Sócrates continua, como sempre foi, arrogante e a olhar apenas para si próprio? Deixem-se de tretas, engulam as vossas línguas venenosas e concedam, pelo menos desta vez, que ele foi sincero ao dizer como gostava dos seus camaradas. E pensem também que muitas dessas pessoas do partido alguma vez já foram eleitos com os vossos votos. Portanto, Sócrates, disse naquele momento, que também vos adorava.


Conclusão: o “animal feroz” é mesmo um sentimentalão. Não se esqueçam disso e esperem porque … ele vai voltar.

quarta-feira, junho 08, 2011

Entre abelhas e ventos de mudança


Desde que o “Por Linhas Tortas” foi criado, a sua linha editorial, chamemos-lhe assim, nunca privilegiou os meus gostos partidários ou clubísticos. São assuntos meus e, como tal, reservo-os para as minhas próprias reflexões.


Contudo, não me coíbo de comentar ou divulgar factos e aspectos que, mesmo podendo estar no âmbito daquelas matérias, possam suscitar alguma curiosidade. Como os que passo a relatar, ocorridos no último domingo, dia de eleições legislativas.


Na freguesia de Cabril, concelho de Castro Daire, a população, devido ao estado miserável em que se encontra a estrada nacional 225, decidiu boicotar a sala da votação e, assim, barraram a porta do edifício da junta de freguesia com pedras e barrotes de madeira logo depois de terem colocado no interior um enxame de abelhas para impedir o acesso dos eleitores à sala. Bem se poderia dizer, neste caso, que as abelhas que nos dão o mel não gostam lá muito de eleições.


Mas da noite do último domingo a frase de que eu mais gostei não esteve presente nos discursos dos líderes dos partidos concorrentes às eleições. Saiu da boca do conhecido humorista Ricardo Araújo Pereira, no programa “O Governo Sombra” da TSF. Dizia assim:


“… Eu venho para celebrar porque perdeu o partido que pôs Portugal na bancarrota e ganhou o partido que aprovou o Orçamento, o PEC I, II e III do partido que pôs Portugal na bancarrota. Perdeu o partido que se comprometeu com a troika e ganhou o partido que se comprometeu com a troika. O que eu pedia é que fechassem a janela que eu não aguento tanto vento de mudança …”.



terça-feira, junho 07, 2011

O exemplo nem sempre vem de cima


Portugal, à semelhança de outros países periféricos, e não só, tem pela frente, e com calendário já definido, uma montanha de problemas para resolver. Não há dinheiro (não há mesmo, acreditem) e, sem ele, a solução para esses problemas torna-se ainda mais difícil. O novo governo que vai gerir o nosso país vai ter que “inventar” formas de, entre outras (muitas) coisas, pôr a economia a crescer e o emprego a aumentar, ao mesmo tempo que pagamos os milhões que devemos. Mas, meus Amigos, no fundo, no fundo, é connosco que o governo conta. Com o nosso trabalho, com a perda cada vez maior de regalias sociais, com a redução de salários e com o aumento de impostos, directos e indirectos. Não nos iludamos.


Mas perante a inevitabilidade de tão alto grau de sacrifícios e das medidas draconianas pedidas aos cidadãos, como entender que a Comissão Europeia (que não foi lá muito generosa com Portugal na ajuda que nos estão a prestar) se tenha decidido por um aumento de 4,9% no seu orçamento já depois de terem sido tornados públicos os montantes que os seus deputados gastaram despudoradamente em viagens, hotéis, festas e outras despesas de luxo?


Pelos vistos, a Comissão Europeia desconhece o velho provérbio “O exemplo deve vir de cima”.



sexta-feira, junho 03, 2011

Cântico da Esperança



E acabamos a semana com um poema de Rabindranath Tagore (1861 – 1941), um poeta, romancista, músico e dramaturgo indiano. Os seus versos são profundamente sensíveis, frescos e belos. Tagore foi o primeiro não-europeu a conquistar, em 1913, o Nobel da Literatura.


Cântico da Esperança

Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão cobarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso!


quinta-feira, junho 02, 2011

Eufemismos


Nestas últimas semanas e, sobretudo, desde que começou a campanha eleitoral fala-se muito de uma eventual reestruturação da nossa dívida. Reestruturação essa que é defendida por alguns dos partidos que concorrem às eleições do próximo domingo e que poderia passar pelo alargamento de prazos, pela diminuição das taxas ou mesmo pelo não pagamento de uma parte do que se deve. E a reestruturação, de tanto se ouvir, transformou-se numa palavra maldita.


Até que alguém, a propósito da dívida grega (que já todos perceberam que os gregos não vão poder pagar) se lembrou de chamar à reestruturação o re-profiling. E o que é isso? Ao certo, ao certo, ninguém sabe o que é mas todos perceberam já significa exactamente isso - reestruturação. Nem mais.


Foi assim que optaram por “dourar a pílula”, que é como quem diz, a situação é muito má mas adoçando a forma como nos referimos a ela, até nem parece tão preocupante. É exactamente o mesmo que esconder o pó por debaixo da carpete. Ele não se vê mas, de facto, está lá todo.


Re-profiling é a palavra do momento. A que fez esquecer a sua irmã “reestruturação” e a sua parente próxima, a “bancarrota”. Mas, atenção, não nos deixemos impressionar com as palavras. O problema subsiste e é grave. É tudo uma questão de eufemismo.


quarta-feira, junho 01, 2011

Justiça salomónica no caso do euromilhões



Ao fim de quatro anos chegou ao seu termo a mais insólita, disparatada e escusada disputa judicial jamais havida em solo pátrio. Dois jovens que se gostavam o suficiente para namorarem tiveram a desdita de ganhar o primeiro prémio do euromilhões. E como uma “desgraça” nunca vem só, além de “herdarem” uma pipa de massa, desfizeram o namoro … antes mesmo de receberem o dinheiro.


A partir daí foi um corridinho aos tribunais. Ela a reclamar o prémio por inteiro e ele a dizer que era a ele que a quantia era devida integralmente. E ambos achavam que tinham toda a razão. Ela porque tinha sido a autora da chave de sucesso e, portanto, reclamava o pagamento da “propriedade intelectual”. Ele, porque tinha sido quem preencheu o boletim, o entregou e o pagou e, claro está, achava-se como o legítimo legatário de um prémio que não teria saído se o boletim não tivesse sido entregue.


Enorme dilema este. Ela e ele, ambos cobertos de razão e ávidos de receberem os 15 milhões de euros, não pararam um segundo para pensarem que, se calhar, os dois mereceriam o prémio e que, portanto, seria melhor dividir a coisa ao meio. Era capaz de ter sido mais justo e certamente que, há muito, estariam a gozar as mordomias que sete milhões e meio de euros lhes proporcionariam.


Ganância e estupidez, digo eu.


Agora, passados quatro anos, o Tribunal da Relação de Barcelos decidiu justamente dividir em partes iguais os 15 milhões de euros ganhos pelos ex-namorados. Decisão que, felizmente, já não permitirá recurso.


Acabada a história, o que nos faz reflectir é se os motivos que levaram a esta contenda são minimamente justificáveis para a ocupação da máquina judicial durante todo este tempo, meios que seriam decerto muito melhor aproveitados noutros casos. Só espero que as custas judiciais a pagar pelo casal sejam muito penalizadoras. Em minha opinião, mereciam isso.


terça-feira, maio 31, 2011

Protocolos



A Rainha Isabel II de Inglaterra faz-me lembrar um antigo colega de trabalho a quem, “por fatalidade” tudo acontecia de mal. Era certo e sabido que onde ele estivesse alguma coisa ia suceder.


Também Isabel II, no seu já longo reinado, tem algumas histórias bem interessantes, nomeadamente as que aconteceram sempre que o protocolo não foi formalmente cumprido. Recordo três delas.


Na semana passada recebeu Barack Obama. Ao jantar, no final do discurso, Obama ergueu a taça para brindar à soberana quando, de repente, se começou a ouvir o hino britânico. Todos os convidados ficaram imóveis enquanto o Presidente permaneceu de taça na mão, mudo e quedo. Só quando o hino terminou é que os presentes acompanharam Obama no brinde à Rainha. Momentos infindáveis que devem ter sido terríveis.


O mesmo sucedeu quando a Rainha Isabel visitou Portugal e o nosso Presidente da República de então, Mário Soares, ao pretender indicar-lhe o caminho tocou nas costas de Isabel II, mostrando desconhecer o protocolo que diz que na Rainha não se toca nem com uma luva.


Já num jantar na Casa Branca, no tempo de George W. Bush, o Presidente lembrava num discurso a visita de Elizabeth II aos Estados Unidos em … 1776, ou seja, 200 anos antes. Ao que consta, a correcção só foi feita depois de um olhar fulminante da Rainha. Enfim, de Bush já ninguém se admirava de nada e, em matéria de gafes, todos sabem como ele era useiro e vezeiro.


O protocolo, como se percebe, tem destas coisas. Para os que estamos por fora as situações fazem-nos sorrir mas para os seus protagonistas devem ser momentos muito confrangedores.


segunda-feira, maio 30, 2011

Não me digam nada …

Ainda há tempos vos contava que a segunda-feira é o dia em que o meu mau humor mais se sente nas crónicas que aqui publico. Certamente que tem a ver com a ressaca do fim-de-semana ou com a derrota (sempre injusta) do meu clube do coração. Hoje, porém, o meu nervoso e a acidez de espírito estão devidamente identificados.


Ando irritado com o estado e com a falta de expectativas do meu país e pelo baixo nível que, na campanha eleitoral em curso, demonstram os principais líderes partidários, alguns deles que até têm a pretensão de chegar a primeiro-ministro.


Estou chateado porque o meu carro “pifou”, teve que ser rebocado e vou ter que desembolsar uma nota preta para o arranjar.


E, finalmente - e se calhar isto foi o que me fez perder completamente as estribeiras – porque soube que há 20 gestores das maiores empresas portuguesas que têm mil cargos de administração. Ou seja, em média, cada um deles tem 50 empregos mas sabe-se que pelo menos um deles tem 62 empregos e o que mais ganha aufere 2,5 milhões de euros. É obra! E não me venham com a história que estes super-trabalhadores que voam de empresa em empresa são um exemplo para todos nós. Não, não são. O que isto reflecte é a falta de vergonha a que chegámos e a necessidade de lhe pôr cobro rapidamente.



sexta-feira, maio 27, 2011

No próximo fim-de-semana lá estaremos



Marque na sua Agenda: no próximo fim-de-semana tenho que colaborar com o Banco Alimentar.


A Campanha de Recolha de Alimentos em supermercados e superfícies comerciais, levada a efeito pelo Banco Alimentar, realiza-se já no próximo fim-de-semana, dias 28 e 29 de Maio, ou seja, amanhã e domingo.


Milhares de pessoas carenciadas contam consigo.


Participe. Alimente esta ideia.


terça-feira, maio 24, 2011

E quem é que vai aceitar uma proposta destas?



Há muito que sigo com atenção as intervenções do Professor Daniel Bessa. Para além de ser um economista respeitado, admiro a sensatez da maioria das suas posições, embora, ideologicamente, as nossas convicções nem sempre apontem no mesmo sentido.


Vem este intróito a propósito do artigo que ele publicou no Expresso do passado sábado em que analisava as propostas dos partidos em baixar (ou não) a taxa social única (a TSU) como forma de aumentar a competitividade das empresas. A questão não é nada pacífica, a vários níveis, e nomeadamente quando se sabe que o abaixamento da TSU terá que ser compensado pelo agravamento do IVA.


Foi então que o Professor sugeriu a seguinte alternativa: “… aumentar o horário de trabalho em duas horas semanais. O efeito sobre a competitividade das empresas seria equivalente à redução da TSU; e não seria necessário subir o IVA, tirando o poder de compra às pessoas. Não é mais simples? Não seria melhor?”


Parece-me uma proposta equilibrada e exequível mas, meus Amigos, alguém acredita que os sindicatos e os trabalhadores alguma vez iriam aceitar uma coisa destas? Acho altamente improvável que isso acontecesse e o mais certo é que chovessem por aí argumentos do tipo “isso seria encher os bolsos dos patrões à custa dos trabalhadores”. Ainda assim, continuo a pensar que a sugestão do Professor Daniel Bessa poderia ser uma boa opção. Que diabo, duas horas a mais de trabalho por semana não seriam melhor do que pagarmos mais IVA em tudo aquilo que consumimos?


segunda-feira, maio 23, 2011

Chocou-me, pois claro



Fiquei (obviamente) irritado ao saber que no acordo com a troika existe uma medida que prevê que as IPSS vão ter que cobrar IVA aos seus utentes. Um acordo, recorde-se, que foi assinado pelo PS, pelo PSD e pelo CDS, partidos que, todos eles, dizem defender quem mais necessita.


É verdade que o Estado tem tido, há décadas, uma componente fortemente social. Porém, a conjuntura actual veio evidenciar duas coisas: as fortes dificuldades do Estado em poder manter financeiramente as suas responsabilidades, por um lado e, por outro, um número crescente de pessoas muito carenciadas que já não consegue suprir as necessidades mais básicas, nomeadamente o acesso à alimentação. E aqui o papel das IPSS tem sido fundamental na confecção e distribuição de refeições e, também, de outros apoios que, no seu conjunto, têm sido essenciais para minorar a situação de carência de muitos milhares de pessoas.


Pois bem, o Estado não tem condições para assegurar esse papel assistencial desempenhado pelas IPSS e também não consegue aumentar as contribuições para que essas Instituições façam face às despesas crescentes com o número de famílias que não pára de aumentar. Numa palavra, não há dinheiro.


Perante tamanhas dificuldades, como resolver a situação? E a resposta – aquela que foi acordada (ou imposta) pela troika - acabou por aparecer de uma forma completamente falha de sensibilidade social e de lucidez política. Ou seja, em todos os apoios prestados às famílias deve ser cobrado IVA. E a medida já de si injusta por penalizar quem está mais carenciado, ainda se mostra mais perversa quando se sabe que essas ajudas são resultantes de dinheiros dos contribuintes e dos donativos angariados na sociedade civil.


A medida é, pois, chocante. Só espero que o próximo governo arranje as alternativas necessárias para que o que foi acordado com o FMI, a EU e o BCE possa ser alterado. Certamente que com criatividade e bom senso o IVA que pensaram cobrar às IPSS possa vir a ser recolhido noutras fontes.


sexta-feira, maio 20, 2011

O recado



"Todos temos de fazer um esforço, isso é importante, não podemos ter a mesmo moeda, e uns terem muitas férias e outros poucas". Esta foi a advertência da chanceler alemã Angela Merkel aos países que já recorreram à ajuda internacional, a Grécia, a Irlanda e Portugal.


E não se ficou pela crítica ao excesso de férias destes países. Não, também opinou, em jeito de aviso, que a idade da reforma também deveria ser aumentada.


Gostemos ou não da senhora Merkel (ainda por cima uma senhora a quem nunca lhe vimos uma malinha na mão) e gostemos ou não de estar a ser feita mais esta tentativa de ingerência na nossa soberania, o facto é que a Alemanha é o motor da economia europeia e é um dos países que mais contribui para “ajudar” os que agora estão em dificuldade. Claro que aqui também poderíamos lembrar que a Alemanha é um dos principais beneficiários desta conjuntura económica mas, o que interessa recordar neste momento é o que contribuintes alemães pensam sobre nós: que trabalhamos pouco e durante menos anos e que nos fartamos de gozar férias. E desse ponto de vista, acabamos por perceber os seus argumentos.


Porém, bem podem pensar os alemães o que quiserem que a verdade é um pouco diferente e não houve, quanto a mim, razões para nos puxaram as orelhas. Se é verdade que nós temos férias de 22 ou 25 dias úteis, na Alemanha a lei impõe que as empresas concedam aos trabalhadores um mínimo de 20 dias de férias por ano, podendo este período, mercê de acordos colectivos, ser alargado para 30 dias úteis (ou mais) em muitas empresas, quer do sector privado, quer do público.
E quanto à idade da reforma? Em Portugal a reforma está nos 65 anos e na Alemanha … também. O que está previsto é que, naquele país, a idade da reforma passe gradualmente dos 65 para os 67 anos, entre 2012 e 2029. Mas, actualmente, mantém-se nos 65 anos.


Advertências que, certamente, foram injustas. Mas o recado ficou dado.


quinta-feira, maio 19, 2011

À atenção dos empresários e sindicatos


Neste último 25 de Abril, para além da cerimónia oficial que se realizou no Palácio de Belém, houve também uma manifestação de trabalhadores na Avenida da Liberdade.


Uma equipa da televisão nipónica que estava em Portugal a fazer uma reportagem sobre o nosso país aproveitou a data para fazer a cobertura dessa manifestação. Quando o repórter japonês foi questionado por um jornalista sobre o que pensava sobre as greves em Portugal e se elas tinham algumas semelhanças com as que se efectuavam no seu país, ele disse (mais coisa menos coisa) num português muito mal amanhado (mas ainda assim perceptível), entre salamaleques e sorrisos simpáticos:


“no Japão não há greves. Os empresários sabem que sem trabalhadores as empresas não progridem e os trabalhadores sabem que sem empresários e empresas não podem trabalhar. Por isso arranjamos consensos e chegamos sempre a acordo. É uma questão de bom senso”.


À atenção dos empresários e sindicatos.




quarta-feira, maio 18, 2011

Quando a responsabilidade não morre solteira

É raro, diria mesmo que é raríssimo, ver e ouvir os políticos assumirem as suas responsabilidades quando alguma coisa corre mal. Lembram-se de algum que fosse destituído do cargo que ocupa ou que fosse responsabilizado criminal ou politicamente? Não, pois não? Por isso é que se costuma dizer que “a culpa morre solteira”.


A bem dizer, nestas últimas décadas só me recordo de uma situação em que um governante português assumiu as suas responsabilidades. Foi Jorge Coelho, que, na altura, era Ministro das Obras Públicas e que se demitiu por se achar politicamente responsável pela queda da ponte de Entre-os Rios. Gesto digno, sem dúvida, mas que muita gente suspeitou tratar-se de um acto de hipocrisia (não fosse a tragédia em si) já que lhe permitiu deixar de vez a política para ir ganhar uma pipa de massa como CEO de uma empresa privada. Enfim, maledicências. De qualquer forma foi a excepção, pelo menos em políticos ocidentais onde ninguém jamais se reconhece culpado do que quer que seja.


Pois nas culturas orientais a coisa muda de figura. Veja-se o caso recente do Primeiro-Ministro japonês, Naoto Kan, que por causa do que aconteceu na central nuclear de Fukushima declarou que não quer receber o seu salário de Primeiro-Ministro e vai viver com o que ganha como membro do Parlamento. Na prática, Naoto Kan, ao assumir a responsabilidade política do desastre, vai abdicar dos cerca de 14 mil euros que recebia como chefe do governo.


Atitudes como esta são, portanto, raras. E pouco interessará saber qual a justificação que está na sua génese - se ética, questão cultural ou, muito simplesmente, vergonha na cara?



terça-feira, maio 17, 2011

E o Guerra Junqueiro voltou também ...

Para além do Eça de Queirós que evoquei ontem, também Guerra Junqueiro (1850 a 1923), escritor, político e o poeta mais popular e mais panfletário da sua época criticava – em 1896 - a situação Política de Portugal no final do século dezanove.


E vejam como a sua opinião se poderia aplicar aos partidos que temos hoje, nomeadamente aqueles que têm alternado o poder desde há trinta anos. Dizia ele:

“Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."


segunda-feira, maio 16, 2011

E o Eça voltou …

Como, repetidamente, tenho afirmado, sou um grande admirador de Eça de Queirós. Acho-o um escritor intemporal e muitos dos seus livros e textos permanecem actuais, apesar de terem sido escritos no século dezanove.


Daí que, face aos impropérios, desconfianças, ofensas, desconsiderações, faltas de sensatez e de honestidade política que temos ouvido nos últimos tempos aos nossos políticos, por um lado e. por outro, ao estado a que o nosso país chegou, à beira ou a caminho do descalabro financeiro e das condições de vida da população, eu me tenha recordado de um texto publicado por Eça. Vejam lá se concordam comigo. O texto não poderia ter sido escrito hoje?

"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo."


quinta-feira, maio 12, 2011

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se".

No último domingo comemorou-se o primeiro dia em que a Coca Cola foi vendida ao público. Passaram precisamente 125 anos (08.05.1886). Longe de se pensar que viria a ser a bebida que hoje conhecemos, começou a ser vendida numa farmácia como um xarope que fazia bem a uma série de maleitas.


Em Portugal, Salazar proibiu a venda do produto e só em 1976 foi permitida a sua comercialização. Dizem as estatísticas que hoje cada português bebe em média 24 litros de Coca-Cola por ano.


Mas o que acho mais interessante no que à Coca Cola diz respeito é o facto de poder recordar Fernando Pessoa, o poeta genial e o publicitário que também foi. Quando o refrigerante entrou no mercado português, Pessoa criou um slogan que fez as vendas do produto subirem em flecha:


"Primeiro estranha-se, depois entranha-se".


Porém, o regime de Salazar com receio do sucesso que, diziam, poderia esconder uma sociedade secreta, proibiu a sua representação em Portugal. A Direcção de Saúde de então entendeu que a frase publicitária era “o próprio reconhecimento da sua toxidade”.


Novos tempos e outras mentalidades vieram e o que ficou para a História, no entanto, foi uma das mais conhecidas e mais recordadas frases de sempre.

quarta-feira, maio 11, 2011

Tenho duas notícias. Querem saber primeiro a boa ou a má?

Quando há duas notícias para dar – uma boa e outra má – é costume perguntar se querem ouvir primeiro a boa ou a má? E o habitual (pelo menos nos filmes é assim que acontece) é que em primeiro lugar a preferência vai para a má notícia para que, de seguida, a boa notícia possa, de alguma forma, amenizar o estado de alma.


Pois bem, então, primeiro a má notícia.
O resgate a Portugal (a tal ajuda dos 78 mil milhões de euros que pedimos à comunidade internacional) foi aprovado pela Comissão Europeia, embora ainda tenha que ser ratificado pelos ministros da zona euro. Vamos pagar o empréstimo ao longo de 13 anos mas - e é aqui que reside o busílis - a taxa de juro prevista situar-se-á entre os 5,5 e os 6%. Taxa que é considerada por muitos economistas demasiado alta. Tão alta que se questiona se o país conseguirá cumprir com as suas obrigações. Aparentemente a notícia da aprovação foi boa mas o diabo da taxa de juro deixa-nos com o credo na boca.


A boa notícia é que o Finantial Times que elege anualmente os 65 melhores programas de formação de executivos, tem em Portugal, para além da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica (que continua a ser uma das 50 melhores escolas do mundo para gestores), as escolas de Gestão da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade do Porto que acabaram de entrar para o grupo restrito das melhores em todo o mundo. Resta esperar que o país saiba aproveitar essas competências e lhes dêem as condições necessárias para ficarem por cá.

terça-feira, maio 10, 2011

Demitam os partidos


Acabei de ver o programa “Prós e Contras” da RTP1 e fiquei completamente desanimado em constatar, uma vez mais, que não existe qualquer possibilidade de entendimento entre os responsáveis dos partidos do arco do governação (como agora se diz) que permita a que este desgraçado país venha a ter um governo forte que possa executar o programa elaborada pela troika internacional. E seria bom que os políticos pensassem a sério na trapalhada em que andam metidos, porque se não cumprirem o programa eles não nos vão emprestar o dinheiro para solucionar os nossos problemas imediatos e de médio prazo. Não vão mesmo.


São as trocas de acusações, é a agressividade desmedida, são os reiterados juramentos que com aquele ou aqueles políticos e/ou partidos não há possibilidade de entendimento. Já não há pachorra. É uma vergonha que deveríamos sentir enquanto cidadãos e uma imagem que damos à Europa que reforça a ideia que já têm de nós que nos devem olhar com desconfiança.


Razão tinha um dos participantes quando afirmou que a única forma de resolver esta situação era demitir os partidos. Estou quase a concordar com ele.