quarta-feira, julho 06, 2011

As falsas receitas médicas

Há dias quando conversava com um médico amigo falei-lhe, à laia de provocação, no caso das falsas receitas médicas, do crime de milhões de euros que está ainda a ser investigado. Ele não me deu grande saída, disse que em relação às vinhetas elas são facilmente falsificáveis mas percebi que a situação não lhe era confortável porque toda a classe médica estava sob suspeita, ele incluído.

Sobre a fraude em si mesma espero que os peritos consigam chegar a conclusões mas, como cidadão, não posso deixar de me espantar com a inexistência de controlos ou, a existirem com a sua falta de eficácia que permite que aconteçam coisas absolutamente extraordinárias, como por exemplo, a de um só médico ter passado 2400 receitas por mês, ou seja, 120 por cada dia útil, num total de 32 mil por ano.

Falha de controlo essa que admite também que médicos partilhem o mesmo número de cédula profissional, ou que médicos tenham 3 cédulas profissionais com números diferentes ou, ainda, que médicos que já morreram continuem a passar receitas. E o que dizer das vendas de medicamentos fictícias a doentes já falecidos?

Um conjunto de ilegalidades que levam a que, só em 2010, a fraude tenha atingido nada menos do que 40% da despesa do Estado com medicamentos. É obra.

Mas se não pretendo usar a ironia para realçar a magnífica performance de um médico que, só à sua conta, consegue prescrever 120 receitas por dia nem para me dizer perfeitamente atónito com a capacidade de clínicos já falecidos que continuam a passar receitas, quero, todavia, manifestar a minha mais profunda indignação por constatar que este tipo de fraudes continua a verificar-se apesar da existência de sistemas informáticos sofisticados. Até quando?

terça-feira, julho 05, 2011

Uma alforreca chamada Passos



Acredito que todos saibam o que é uma alforreca. O que não sei é se saberão quem é João Gonçalves, o actual adjunto político de Miguel Relvas, o Ministro dos Assuntos Parlamentares. Eu não sabia, confesso.

Pois João Gonçalves é o autor de um blogue muito conhecido que escreve umas coisas um tanto ou quanto “inconvenientes” e que lhe poderiam causar alguns amargos de boca. Neste caso, porém, não se deu mal.

Vejamos, então, alguns dos comentários (que transcrevo do Expresso desta semana) que fez sobre o actual Primeiro-Ministro:

Quando há nove meses Passos Coelho apresentou uma proposta de revisão constitucional, João Gonçalves escreveu: “Insensível ao curso da realidade, tal qual uma alforreca perdida com a mudança das marés e das correntes. Passos deu à costa com um tema perfeitamente escusado, mal explicado e sem o menor interesse. Passos já vai na terceira ou quarta oportunidade e ainda não conseguiu uma primeira boa impressão. Palpita-me que tem um lindo futuro atrás dele”.
Em 2010, depois de ver uma entrevista de Passos Coelho à RTP, Gonçalves desabafava: “dói-me a tola. Passos provoca enxaqueca porque aquilo é Sócrates sem os anos de palco que Sócrates leva … oscila entre o velho cacique da jota e o antigo candidato à Câmara da Amadora, numa gravitas que cheira a falso”.
Numa outra entrevista em Dezembro de 2009, comentou: “Reparem na clareza dos lugares-comuns facilmente parafraseáveis por um qualquer Secretário de Estado da nomenclatura de Sócrates. Reparem na subtileza digna de um mediano treinador de futebol”.

Ao longo dos tempos, João Gonçalves foi bastante agressivo com Pedro Passos Coelho e com o próprio Miguel Relvas, de quem agora depende. Mas a verdade é que a vida dá muitas voltas e os “encontrões” que Passos Coelho levou do bloguista parecem não o ter ofendido, nem sequer quando lhe chamou alforreca. Afinal as alforrecas vivem no mar e Portugal é um país de marinheiros …

segunda-feira, julho 04, 2011

Necessito ver resultados. Só a mudança de tom não chega



Já se via por aí muita gente a bater palmas ao novo Governo. Provavelmente pela forma discreta como se organizaram, pela juventude dos seus membros que deixava antever a ausência de vícios que se conheciam aos anteriores e, sobretudo, pela esperança de uma mensagem que apontasse para uma maior transparência. A tal “verdade ao povo” que o povo tanto ansiava.

Mas as palmas têm vindo a diminuir desde o debate do programa de Governo que foi efectuado na Assembleia da República na semana passada. Não porque esse primeiro encontro tivesse sido marcado por toda aquela crispação a que nos habituámos nos últimos anos. Ao contrário, houve uma calma e uma civilidade muito grande e uma enorme mudança de tom. Possíveis, penso eu, pela expectativa da oposição mas, também, pela postura que os novos ministros apresentaram. Muitos deles tão serenos que pareciam pedir desculpa por estarem ali.

Mas, então, por que é que as palmas têm vindo a abrandar? Principalmente porque a mudança de tom não é, por si só, suficiente e as “mentirinhas” que já conhecíamos a outros executivos começaram a aparecer. Pois não foi este Primeiro-Ministro que garantiu há poucos meses que, a aumentar os impostos só o faria sobre aqueles que penalizassem o consumo e nunca os dos rendimentos? Pois foi e aí está, preto no branco, o imposto extra sobre o subsídio de Natal que vai afectar uns largos milhões de portugueses. Na senda de Guterres, de Durão Barroso e de Sócrates, também Passos Coelho prometeu e não cumpriu.

Mas há uma coisa que me deixa ainda mais perplexo. Como justificar que se tenha aberto uma crise política e derrubado um governo a pretexto de que o famosíssimo PEC 4 não resolvia os problemas do país e, nomeadamente, com o argumento de que não havia motivos para que um pacote daqueles viesse a castigar ainda mais os portugueses? E o que se verifica, é que a nova maioria, uma vez no poleiro, apresenta um programa (chamemos-lhe PEC 5) que responde ao memorando assinado com a troika (pudera, tinha que ser) mas é ainda mais arrojado e mais penalizador para os cidadãos do que o outro que tinha sido rejeitado.

Até agora, o único apontamento positivo (se é que se pode considerar assim) consiste na mudança de tom. Aparentemente há mais serenidade e maior abertura para responder aos adversários mas, quanto ao resto, fico à espera. É que eu, ao contrário de muito boa gente, não costumo avaliar as pessoas apenas pela simpatia ou pela escolha das gravatas ou dos adereços que utilizam. Necessito ver resultados e esses (para além do 13º) ainda levam algum tempo a chegar. É que a procissão ainda vai no adro…


sexta-feira, julho 01, 2011

A minha tragédia




Do poeta português Al Berto (1948 – 1997) “A minha tragédia”


Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

quinta-feira, junho 30, 2011

TGV – O desastre anunciado



Ainda há pouco, o Governo de José Sócrates jurava a pés juntos que o TGV iria mesmo ser construído, desse por onde desse, tanto mais que os espanhóis estavam já a construir a ligação de Madrid até Badajoz. Que não, que não, gritava a oposição, que não tínhamos dinheiro para tais desvarios e que isso seria um desastre completo.

Vieram as eleições e agora, com Passos Coelho, o programa de Governo, que irá ser discutido na Assembleia da República hoje e amanhã, contempla a decisão de “Suspender o projecto de “Alta Velocidade Lisboa – Madrid”. Ora, com a possível suspensão imediata do projecto em Portugal e a continuação da construção do lado espanhol, não se correrá o enorme risco dos TGV’s virem a toda a velocidade de Madrid e travarem de repente junto a Badajoz. Já imaginaram o desastre?

Pronto, estalou a bronca e como seria de esperar “nuestros hermanos” vão-nos pedir explicações sobre a suspensão do TGV em Portugal. Tanto mais que esta decisão acontece a poucos meses da União Europeia decidir sobre as novas linhas transeuropeias prioritárias e, calculem lá, a linha entre Lisboa e Madrid é precisamente uma dessas linhas prioritárias.

Perante isto, digam lá se eu tenho ou não razão para dizer que o TGV é um desastre anunciado?

quarta-feira, junho 29, 2011

Silêncio quebrado



Há poucos dias li no Jornal de Notícias um artigo de Manuel António Pina - jornalista e escritor, galardoado este ano com o Prémio Camões – em que escreve sobre o famoso caso do “copianço do CEJ”, assunto sobre o qual publicámos um texto na sexta-feira dia 17 de Junho.

Dizia Manuel António Pina:


“Ao contrário do que foi dito quando veio a público o escândalo do "copianço" no CEJ, o caso não é "pontual". Acompanhei de perto um curso anterior em que o "copianço" era frequente e a política seguida por certos (insisto: certos) dos então responsáveis do CEJ a de esconder esse lixo debaixo do tapete.
Alguns professores abandonavam as salas durante os testes confiando a vigilância à honestidade de cada formando. O problema era que a honestidade de alguns (hoje nos tribunais a acusar e julgar casos de fraude) nem sempre era a expectável em futuros magistrados.
Existem nos arquivos do CEJ documentos demonstrando o que aconteceu a uma formanda que quebrou a lei da "omertá" e se referiu ao assunto durante um encontro na presença do desembargador coordenador da sua formação. Na sequência disso (decerto por coincidência), passou a ser sujeita a humilhações e discriminações de toda a ordem e "avaliada", em relatórios escritos, por coisas como fumar, almoçar sozinha, ter "pré-juízos" em relação às leis de protecção animal (pois teria gatos) e a direitos de autor (pois publicara obras literárias), culminando tudo num relatório final do mesmo desembargador, feito com base em quatro (repito: quatro) trabalhos, escolhidos a dedo entre os mais de 500 que realizara, que a forçou à desistência.
Talvez a formação de futuros magistrados seja coisa séria de mais para estar entregue a certos actuais magistrados”.


Preocupante, no mínimo …


terça-feira, junho 28, 2011

Estado esconde pensões políticas



Quem costuma aparecer por aqui, no “Por Linhas Tortas”, já deve ter reparado que, amiúde, escrevo sobre a (falta de) transparência da vida pública. Não é defeito, é feitio. A verdade é que fico danado quando sei de situações em que os dinheiros públicos são mal geridos, mal gastos ou quando nos querem tomar por parvinhos.

Como aconteceu agora com esta história do Estado não querer divulgar as pensões políticas. Que raio de ideia foi esta? Quem foi o iluminado que determinou que devem ficar secretos os nomes dos políticos que pedem ao Estado a atribuição da pensão mensal vitalícia?

Aliás, eu até sei de onde isto veio, foi uma determinação da Comissão Nacional de Protecção de Dados, um organismo que é presidido por uma pessoa eleita pelos deputados da Assembleia da República. O que não sei é a razão que levou a CNPD a esconder os nomes dos políticos que beneficiam da pensão vitalícia, os que têm subsídio de reintegração (aqueles que cessam as suas funções e ficam no desemprego) e qual o valor desses subsídios.

Não seria bom, a exemplo do que faz a Caixa Geral de Aposentações que publicita o nome de todos os funcionários que se aposentam e a pensão com que ficam, que fossem divulgados os nomes dos políticos que beneficiam de pensões ou subsídios? Ou será que há alguma coisa que não queiram que se saiba? Que segredos são esses? É por estas e por outras que escrevo tanto sobre a transparência da coisa pública.



segunda-feira, junho 27, 2011

Não havia necessidade …

Quando Passos Coelho afirmou em tom firme que nas deslocações à Europa ele e o seu governo passariam a utilizar a classe económica dos aviões, o país bateu as mãos de contente e disse “até que enfim, temos um Primeiro-Ministro que começa por dar o exemplo nas poupanças”. Via-se nesta atitude um bom começo. Afinal, pedem-nos permanentemente sacrifícios e sabe bem ver que o exemplo vem de cima.

Só que Passos Coelho se esqueceu dum pequeníssimo pormenor. É que, ao contrário dos tempos da outra senhora em que todas as notícias eram escamoteadas pelo lápis azul da censura, hoje tudo vem a público, mais cedo ou mais tarde. E assim ficou-se a saber que a TAP dispensa os ministros e secretários de Estado de qualquer despesa em deslocações oficiais. O que, de resto, já acontecia com todos os membros do anterior Governo. Ou seja, embora o PM pretendesse mostrar que a moralização e contenção das despesas começava por ele próprio ao trocar, na ida a Bruxelas para participar no seu primeiro Conselho Europeu, a classe executiva pela económica, a verdade é que ele trocou o nada pagar pelo não pagar nada. Poupou zero.

Teria sido um sinal, dirão alguns. Marketing político, digo eu que já estou, há muito, acostumado a esquemas deste tipo. Habituado e farto de viver “na terra dos sonhos”, como na canção do Jorge Palma ou “na terra das trapaças” como sentimos todos nós.

Mas, se querem saber, interessa-me pouco se a rapaziada viaja em executiva ou não. Preocupam-me mais as medidas que vão ser anunciadas em breve e que, essas sim, vão ser o sinal de como vamos sofrer as agruras da austeridade anunciada. O resto é o costumado populismo das afirmações, o entusiasmo de quem se entretém na discussão das coisas pequenas.

Ainda assim, o que se passou, leva-me a colocar duas questões:
1 – Justificar-se-á que a TAP não seja paga pelas passagens dos governantes? Eu sei que o custo sairia dos cofres do Estado para entrar nas contas da TAP (igualmente do Estado). Mas, apesar disso, se tudo se passasse como se o Governo fosse “um cliente normal”, e as verbas fossem imputadas nos sítios certos, estou em crer que haveria maior transparência e rigor nas despesas efectuadas por cada organismo. O controlo seria mais eficaz.
2 – Para que é que Passos Coelho anunciou uma medida que, na prática, já era seguida? Isto é, Passos não poupou dinheiro porque o Governo não paga bilhetes na TAP. Que coisa foi esta, então? É que não havia necessidade …

quarta-feira, junho 22, 2011

Chumbos só com a autorização dos paizinhos

Bem, eu nem queria acreditar quando li no “Diário de Notícias”: "Chumbar duas vezes só com autorização dos pais”. Tanto mais que o texto explicitava que “Para reter um aluno mais do que uma vez no mesmo ciclo, os encarregados de educação têm de autorizar”.

O quê, então os alunos estão-se a borrifar para os professores e para o que eles ensinam e os meninos, mesmo assim, vão-se safar do chumbo porque contam com a almofada de segurança dos paizinhos? Está tudo doido, é o que é.

E embora os representantes dos encarregados de educação digam que “os encarregados de educação devem ser escutados e responsabilizados pelos filhos”, o que se compreende e aplaude, já não consigo entender por que é que as escolas têm dificuldade em chumbar os alunos (que o merecem) caso os encarregados de educação não autorizem os ditos. Parece-me haver uma grande contradição. E há mesmo uma questão de princípio que eu gostaria de ver clarificada. São os encarregados de educação que devem ser escutados ou são eles que têm que ouvir o que os professores têm para dizer dos seus filhos – as críticas, as chamadas de atenção e as sugestões que entendam necessárias fazer?

E, naturalmente, surge a pergunta: E este imbróglio acontece porquê? Por medo, por cobardia ou, simplesmente, pelo facto de quererem atingir os objectivos a qualquer custo?

Com procedimentos destes já não fico admirado com o que aconteceu com o copianço generalizado dos alunos do curso de auditores de Justiça do Centro de Estudos Judiciários, a que nos referimos na passada sexta-feira. É que os exemplos já vêm de há muito.


terça-feira, junho 21, 2011

O voto obrigatório



Agora que um novo governo vai assumir funções e que não há eleições à vista (espera-se) é tempo de reflectir sobre se o voto deve ser, ou não, obrigatório. E, como sabem, há por aí quem defenda que deve ser. Se calhar está mesmo na hora das pessoas (do povo) dizerem o que querem de facto para o seu país, de assumirem a responsabilidade da escolha dos seus representantes em vez de andarem permanentemente a dizer mal dos políticos e das medidas que eles tomam. Seria interessante iniciar o debate em torno do voto obrigatório.

Mas há um porém. Em consciência, e face aos consecutivos resultados eleitorais conhecidos, poderemos acreditar que os eleitores exercem o seu direito de forma consciente? Inúmeras reportagens apresentadas nos meios de comunicação parecem inferir que não. Muitos das pessoas desconhecem quem concorre, que partidos representam e que programas propõem. Apesar disso votam. Porque os candidatos são simpáticos? Porque falam bem e dizem as coisas que nós queremos ouvir? Porque votando neste, apenas estão a afastar o outro? Como explicar que aqueles que são economicamente mais desfavorecidos, depois de ouvidos os debates e de terem participado em comícios, votem em partidos da direita liberal, a mesma direita que nos atirou para o atoleiro em que nos encontramos? Por fezada, por convicção, por ideologia ou por inconsciência?


Gostaria que se promovesse o tal debate. Mais, gostaria que o voto fosse obrigatório com sanções previstas para quem não o exercesse. E gostaria muito que cada eleitor fosse sujeito a um processo de certificação. Como se faz nas empresas. É o mínimo que se exige. Só certificado, o eleitor poderia votar. Pelo menos para que perante certas cenas a que assistimos não continuássemos a perguntar: “O quê, mas este tipo também vota?”


segunda-feira, junho 20, 2011

Será que os Deuses estão loucos?

A Academia Brasileira de Letras é uma instituição que remonta ao final do século dezanove e é composta, desde sempre, por escritores e intelectuais brasileiros e por sócios estrangeiros com nomes sonantes como é o caso do moçambicano Mia Couto ou da nossa Agustina Bessa-Luís. Como se percebe, é uma instituição muito respeitável apesar de – e no melhor pano cai a nódoa – nunca lá terem sido acolhidos personalidades tão distintas como Carlos Drumond de Andrade, Vinícius de Moraes ou Eríco Veríssimo.

Olhando, portanto, a sua História, a natureza das suas actividades e o alto gabarito dos elementos que a integram, todos ficámos estupefactos com a atribuição da sua mais alta distinção ao futebolista Ronaldinho Gaúcho, perdão ao Doutor Ronaldinho. Um jogador de futebol que é, sem dúvida, um excelente executante do seu mister mas que, quanto a letras, basta dizer que ele próprio admitiu que não gosta lá muito de ler.

Podiam tê-lo condecorado por ser o melhor jogador de futebol do Brasil, por ser um exemplo para a juventude, por ser o tipo mais simpático e com o sorriso mais cativante do Universo. Mas não, deram-lhe a medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, a mais alta distinção da “inteligência brasileira”.

O prémio oferecido ao craque não faz qualquer sentido e constitui até um desencorajamento para escritores, pensadores e para quem gosta da língua portuguesa. Ocorre-me perguntar “ Será que os Deuses estão loucos?”.

sexta-feira, junho 17, 2011

Viv’ó o copianço

Provavelmente só uma pequena percentagem de miúdos não terá recorrido ao copianço em testes e exames em alguma fase dos seus estudos e numa ou outra matéria de maior dificuldade. Sempre foi assim ao longo de gerações e sempre se deu um “desconto” à batota que os jovens eram tentados a fazer, por vezes de forma muito engenhosa. Há até quem defenda que, de certo modo, a elaboração dessas cábulas eram, para alguns, a única altura em que estudavam.


Mas para tudo na vida há um tempo. E se existem certas atenuantes para tais artimanhas nos adolescentes, não podemos condescender da mesma forma quando o nível de exigência se encontra num patamar mais alto. Com a evolução dos tempos abandonaram-se as tais cábulas mais ou menos artesanais a que muitos professores faziam vista grossa, para se passar a um processo de copianço generalizado dos alunos, quando não ao plágio puro e duro. Situações que são completamente inaceitáveis.


Como a que foi ontem noticiada, dando a conhecer que alunos do curso de auditores de Justiça do Centro de Estudos Judiciários tiveram um teste em que se verificaram factos estranhos como “a existência de respostas coincidentes em vários grupos”, “respostas muito parecidas ou mesmo iguais” ou que “todos os alunos erraram em certas questões”. Aliás, ao que parece, numa das questões mais difíceis ninguém falhou. Ora aí está, ou houve uma coincidência rara ou registou-se um copianço descarado dos futuros magistrados.


É verdade que, perante tamanha escandaleira, a direcção do CEJ anulou o teste em causa mas … decidiu atribuir aos auditores de Justiça a classificação final de 10 valores em “Investigação Criminal e Gestão de Inquérito”. Isto é, anulou o teste mas passou-os. E passaram também como que uma borracha por cima da fraude que cometeram e ficou tudo bem.


Perante isto, pergunto: admite-se que pessoas que irão ser o garante da justiça nos tribunais sejam exactamente os primeiros a prevaricar e de forma tão soez? E o que dizer da atitude do CEJ? O mínimo que se exigiria é que o teste fosse anulado - e foi, e que o processo voltasse ao início para se proceder a uma correcta avaliação dos formandos - e não foi, por enquanto, embora haja uma proposta para que os magistrados que foram apanhados a copiar tenham que repetir o exame. Mas só para aqueles que foram apanhados em flagrante delito.


Em resumo, para além de termos uma justiça cara, não acessível a todos e lenta, corremos também o perigo de ter profissionais mal preparados. É injusto e é preocupante!


quinta-feira, junho 16, 2011

Pois, pois …



A notícia, apresentada como científica, já foi divulgada há algum tempo mas acho que passou um pouco despercebida. Por desatenção de alguns e por interesse de outros.


Segundo os cientistas da Universidade de Riverside (California, USA), existe uma relação directa entre o trabalho que os homens efectuam em casa e a frequência das relações sexuais. Por outras palavras, quanto mais tarefas domésticas os homens fizerem mais felizes estarão as mulheres e …


Será mesmo verdade ou tudo isto não passa de uma artimanha delas para levá-los a participar nos trabalhos em casa?


Só para que conste, eu lavo a loiça, limpo o pó, aspiro, lavo as casas de banho e cozinho que me farto. Ah, e acho que os cientistas americanos da Universidade de Riverside estão cobertíssimos de razão …


quarta-feira, junho 15, 2011

São rosas, senhores …



O pessoal de cabine da TAP desconvocou a greve que estava anunciada para Junho e Julho. E ainda bem. Independentemente das razões que assistam aos trabalhadores, esta não seria certamente a melhor altura para uma acção de luta desse tipo. São meses em que tradicionalmente viajam muito mais pessoas e, não menos importante, a TAP está a preparar-se para a privatização. Necessita, por isso, de mostrar credibilidade e alguma ordem interna.


Mas se já não há greve porque carga de água é que eu fui buscar o assunto? Simplesmente para recordar a iniciativa de uma companhia aérea concorrente, a Ryanair, que enviou 10 rosas ao Sindicato da Aviação Civil para celebrar os anunciados 10 dias de greve da TAP. Um agradecimento antecipado pela possibilidade dos passageiros da TAP poderem vir a aumentar o negócio da companhia aérea irlandesa ao utilizar os seus aviões.


Resta a dúvida, a acção deveu-se a puro cinismo ou simplesmente a uma original campanha comercial?


terça-feira, junho 14, 2011

Voltemos à terra

Já passaram alguns dias e continuo a ter presente as palavras do Presidente da República em Castelo Branco nas comemorações do 10 de Junho. Não, desta vez, não lhe chamou o “Dia da Raça”, como o fez em 2008, mas aproveitou para exortar os portugueses a voltarem à terra, à agricultura. E com razão, digo eu, tal é o envelhecimento do sector e o facto de sermos muito deficitários em matéria alimentar.


Porém, o que achei curioso é que essas palavras que verdadeiramente traduzem uma das nossas maiores necessidades do ponto de vista económico, fossem proferidas pela boca de Cavaco Silva que era o primeiro-ministro de Portugal logo após a nossa adesão à então CEE, em 1986. O mesmo Cavaco que ajudou a destruir a nossa agricultura em troca de fundos comunitários para a construção de auto-estradas. Um discurso que, segundo alguns, soou um tanto ou quanto a remorso.


A memória é curta, bem sei, e muitos já se terão esquecido disso mas a verdade é que no início da década de 90, não só não se modernizou a agricultura aproveitando os generosos subsídios que recebíamos da Europa como, pelo contrário, se distribuíram tentadores incentivos à sua destruição.


Dizer agora que o sector agrícola é fundamental e é nele que se deve investir para a futura sustentabilidade do país parece-me óbvio. Pena foi que quem nos governava então se tivesse curvado perante outros interesses e não tivesse tido a necessária visão estratégica de futuro. Hoje a coisa seria completamente diferente.

quinta-feira, junho 09, 2011

“Eu adoro-vos”

Para quem julgava que José Sócrates era um homem desprovido de sensibilidade, duro, frio, calculista e egocêntrico tenho a dizer que se enganaram redondamente. Podem ter todas as razões contra ele, podem até ter razão em ter razões mas na terça-feira passada – 7 de Julho de 2011 – ficou inequivocamente demonstrado que o ainda Primeiro-Ministro tem coração e sentimentos. Como ficou provado, aliás, na mensagem curta que proferiu na reunião da Comissão Nacional do Partido Socialista quando deixou aos seus companheiros de partido um emotivo “Eu adoro-vos”.


Foi um balde de água fria para os seus detractores. Vão persistir em dizer que Sócrates continua, como sempre foi, arrogante e a olhar apenas para si próprio? Deixem-se de tretas, engulam as vossas línguas venenosas e concedam, pelo menos desta vez, que ele foi sincero ao dizer como gostava dos seus camaradas. E pensem também que muitas dessas pessoas do partido alguma vez já foram eleitos com os vossos votos. Portanto, Sócrates, disse naquele momento, que também vos adorava.


Conclusão: o “animal feroz” é mesmo um sentimentalão. Não se esqueçam disso e esperem porque … ele vai voltar.

quarta-feira, junho 08, 2011

Entre abelhas e ventos de mudança


Desde que o “Por Linhas Tortas” foi criado, a sua linha editorial, chamemos-lhe assim, nunca privilegiou os meus gostos partidários ou clubísticos. São assuntos meus e, como tal, reservo-os para as minhas próprias reflexões.


Contudo, não me coíbo de comentar ou divulgar factos e aspectos que, mesmo podendo estar no âmbito daquelas matérias, possam suscitar alguma curiosidade. Como os que passo a relatar, ocorridos no último domingo, dia de eleições legislativas.


Na freguesia de Cabril, concelho de Castro Daire, a população, devido ao estado miserável em que se encontra a estrada nacional 225, decidiu boicotar a sala da votação e, assim, barraram a porta do edifício da junta de freguesia com pedras e barrotes de madeira logo depois de terem colocado no interior um enxame de abelhas para impedir o acesso dos eleitores à sala. Bem se poderia dizer, neste caso, que as abelhas que nos dão o mel não gostam lá muito de eleições.


Mas da noite do último domingo a frase de que eu mais gostei não esteve presente nos discursos dos líderes dos partidos concorrentes às eleições. Saiu da boca do conhecido humorista Ricardo Araújo Pereira, no programa “O Governo Sombra” da TSF. Dizia assim:


“… Eu venho para celebrar porque perdeu o partido que pôs Portugal na bancarrota e ganhou o partido que aprovou o Orçamento, o PEC I, II e III do partido que pôs Portugal na bancarrota. Perdeu o partido que se comprometeu com a troika e ganhou o partido que se comprometeu com a troika. O que eu pedia é que fechassem a janela que eu não aguento tanto vento de mudança …”.



terça-feira, junho 07, 2011

O exemplo nem sempre vem de cima


Portugal, à semelhança de outros países periféricos, e não só, tem pela frente, e com calendário já definido, uma montanha de problemas para resolver. Não há dinheiro (não há mesmo, acreditem) e, sem ele, a solução para esses problemas torna-se ainda mais difícil. O novo governo que vai gerir o nosso país vai ter que “inventar” formas de, entre outras (muitas) coisas, pôr a economia a crescer e o emprego a aumentar, ao mesmo tempo que pagamos os milhões que devemos. Mas, meus Amigos, no fundo, no fundo, é connosco que o governo conta. Com o nosso trabalho, com a perda cada vez maior de regalias sociais, com a redução de salários e com o aumento de impostos, directos e indirectos. Não nos iludamos.


Mas perante a inevitabilidade de tão alto grau de sacrifícios e das medidas draconianas pedidas aos cidadãos, como entender que a Comissão Europeia (que não foi lá muito generosa com Portugal na ajuda que nos estão a prestar) se tenha decidido por um aumento de 4,9% no seu orçamento já depois de terem sido tornados públicos os montantes que os seus deputados gastaram despudoradamente em viagens, hotéis, festas e outras despesas de luxo?


Pelos vistos, a Comissão Europeia desconhece o velho provérbio “O exemplo deve vir de cima”.



sexta-feira, junho 03, 2011

Cântico da Esperança



E acabamos a semana com um poema de Rabindranath Tagore (1861 – 1941), um poeta, romancista, músico e dramaturgo indiano. Os seus versos são profundamente sensíveis, frescos e belos. Tagore foi o primeiro não-europeu a conquistar, em 1913, o Nobel da Literatura.


Cântico da Esperança

Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão cobarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso!


quinta-feira, junho 02, 2011

Eufemismos


Nestas últimas semanas e, sobretudo, desde que começou a campanha eleitoral fala-se muito de uma eventual reestruturação da nossa dívida. Reestruturação essa que é defendida por alguns dos partidos que concorrem às eleições do próximo domingo e que poderia passar pelo alargamento de prazos, pela diminuição das taxas ou mesmo pelo não pagamento de uma parte do que se deve. E a reestruturação, de tanto se ouvir, transformou-se numa palavra maldita.


Até que alguém, a propósito da dívida grega (que já todos perceberam que os gregos não vão poder pagar) se lembrou de chamar à reestruturação o re-profiling. E o que é isso? Ao certo, ao certo, ninguém sabe o que é mas todos perceberam já significa exactamente isso - reestruturação. Nem mais.


Foi assim que optaram por “dourar a pílula”, que é como quem diz, a situação é muito má mas adoçando a forma como nos referimos a ela, até nem parece tão preocupante. É exactamente o mesmo que esconder o pó por debaixo da carpete. Ele não se vê mas, de facto, está lá todo.


Re-profiling é a palavra do momento. A que fez esquecer a sua irmã “reestruturação” e a sua parente próxima, a “bancarrota”. Mas, atenção, não nos deixemos impressionar com as palavras. O problema subsiste e é grave. É tudo uma questão de eufemismo.