sexta-feira, maio 06, 2011

As poucas palavras


De Eugénio de Andrade “As poucas palavras”



Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.


quinta-feira, maio 05, 2011

“Um almoço de trabalho”


No último post dei-vos conta de dois exemplos (verdadeiros) de má gestão dos dinheiros públicos, coisa que, infelizmente, continua a acontecer um pouco por todo o país.


Hoje quero relatar um caso que presenciei. Eu estava lá e ouvi tudo aquilo que se passou.


Almocei num restaurante simpático, algures na Serra da Lousã. As instalações eram agradáveis, acolhedoras e podia-se desfrutar através das janelas largas uma bonita vista para a floresta. Por que era um dia de semana estava pouca gente, apenas um casal numa mesa e numa outra sentavam-me quatro homens. Fiquei na mesa ao lado deles.


Nem a vista da paisagem nem o prazer da gastronomia que nos foi apresentada me impediu de ir ouvindo o que se passava nessa mesa. Durante todo o repasto, os quatro senhores falaram sobre futebol, sobre as peripécias e intrigas em que os dirigentes de certos clubes andavam metidos, sem esquecer, naturalmente, os aspectos mais sórdidos. Falaram muito e falaram alto, riram bastante e o tema foi sempre o futebol. No final, já depois dos uísques (que repetiram), um deles pediu a conta, dizendo ao empregado que queria uma factura em nome do IFP (Instituto de Formação Profissional) com a indicação de 3 almoços de trabalho. De trabalho? Fiquei espantado, mas pior fiquei quando ouvi um dos presentes perguntar ao primeiro: “Vais meter isto (o custo com os almoços) em ajudas de custo ou em despesas de representação?”. “Não, nada disso”, respondeu o que ia pagar a conta. “Não te preocupes, hei-de encontrar uma rubrica …”


Deste “almoço de trabalho”, em que não houve qualquer trabalho, constatei como, à revelia dos propósitos anunciados oficialmente, o “sistema” – o malfadado “sistema” - continua a funcionar sem que alguém lhe ponha cobro. É um fartar vilanagem. E vai durar enquanto o plano oficial de contas e a falta de vergonha de muitos conseguirem encontrar uma rubricazinha pronta para albergar os desmandos.

PS: tenho a certeza de que a azia que senti toda a tarde nada teve a ver com a magnífica gastronomia da região.


quarta-feira, maio 04, 2011

Laxismo ou corrupção?


Quando, amiúde, se fala no despesismo do Estado e no descontrolo das obras públicas, nomeadamente as da responsabilidade das autarquias, não sabemos muito bem a que é que nos estamos a referir em concreto.
Pois em concreto, aqui estão dois exemplos – apenas dois – de despesas detectadas pelo Tribunal de Contas e que, no mínimo, suscitam muitas dúvidas. Vejamos:


- Município de Beja - Fornecimento de 1 fotocopiadora, "Multifuncional do tipo IRC3080I", para a Divisão de Obras Municipais: 6.572.983,00 €;
- Administração Regional de Saúde do Alentejo, I.P. – Aquisição de 1 armário persiana; 2 mesas de computador; 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas: 97.560,00€.

Pode ser que haja explicações plausíveis para tamanhos gastos. E espero bem que haja por que, relativamente ao primeiro caso, uma fotocopiadora daquele tipo custa à volta sete mil e setecentos euros. Qual a justificação para se terem gasto mais de seis milhões e meio de euros?
Quanto ao material de escritório adquirido pela Administração Regional de Saúde do Alentejo, ninguém acredita que o valor de mercado daquele tipo de equipamento possa custar quase cem mil euros.


Laxismo ou corrupção? Uma pergunta para a qual certamente não obteremos resposta mas que intuímos que as duas proposições possam coexistir. E se assim for, estamos em presença de crimes cujos responsáveis têm que ser (deveriam ser) devidamente castigados. Nós, cidadãos, temos o direito de exigir a responsabilização efectiva de quem gere dolosamente a coisa pública.


terça-feira, maio 03, 2011

Miséria, disse ele …

Diogo Leite de Campos, dirigente do PSD, é um ilustre licenciado e doutorado em Direito e em Economia. É também Professor Catedrático e sócio de uma conhecida sociedade de advogados. É, pois, um homem inteligente e bem sucedido.


Há uns tempos vi um vídeo em que ele explicava um conceito interessante sobre o que não é um rico e o que é a miséria em Portugal. Desta forma:


“O ministro das finanças, salvo erro, disse que ricos são aqueles que têm mais de 10 000 euros por mês. Mas se nós levarmos em conta que sobre estes dez mil euros incidem cerca de 42%, isto significa que estas pessoas ficam reduzidas a 5 800 euros. Será que se pode dizer que 5 800 euros por mês, para casa, roupa lavada, comida, instrução dos filhos, doença e tudo é muito? Cinco mil e oitocentos euros por mês, em qualquer país europeu é classe média baixa. Será que são estes os ricos portugueses. 5 800 euros não chega sequer para o consumo. É evidente que as pessoas que ganham 1 000 euros por mês acham isto enorme mas mil euros por mês não é classe média, é miséria”.

Embora o senhor possa estar coberto de razão, penso que é chocante para a maioria dos portugueses ouvirem dizer que os 5 800 euros líquidos não chegam sequer para o consumo, quando se sabe que o salário médio em Portugal não chega aos 800 euros, o salário mínimo não atinge os 500 e ainda há muitas reformas abaixo dos 300 euros.

Portanto, e para resumir, quem ganha 10 000 não é considerado rico. E os milhares de trabalhadores que auferem menos de 1 000 euros por mês e, com essa miséria de vencimento, têm que pagar casa, transportes, alimentação, vestuário, custos vários e, ainda, na maior parte dos casos, têm que providenciar a educação dos filhos ou a segurança dos pais, são o quê?

Como referi, o Dr. Diogo Leite de Campos até pode ter razão naquilo que diz mas esquece uma coisa fundamental. É que Portugal é dos países que pior paga a quem trabalha e onde existe uma enorme diferença salarial entre os que mais ganham e os que menos recebem. Esquecimento, afinal, que até pode ser desculpável se atendermos a que ele acumula uma reforma de 3 240,93 € com outra do Banco de Portugal de 5 000 € e os lucros de uma sociedade de advogados.


segunda-feira, maio 02, 2011

Em defesa da gramática

Admiro há muito a obra do escritor peruano Mário Vargas LLosa e sigo naturalmente com interesse a sua actividade política. Os livros do Prémio Nobel da Literatura de 2010, reflectem bem a sua luta pela liberdade individual perante a realidade opressiva que teima em existir no seu país.

Mas Vargas Llosa para além dos aspectos políticos e sociais transmitidos nos seus livros tem a preocupação de escrever bem, respeitando as regras que uma boa literatura exige.

Daí que face aos atropelos constantes e despudorados com que hoje se encara a arte de escrever, Mário Vargas Llosa veio a terreiro dizer o seguinte:

“os jovens que abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS pensam como macacos, …. a net liquidou a gramática, gerando uma espécie de barbárie sintáctica”. E justifica “se escreves assim, é porque falas assim, se falas assim é porque pensas assim e, se pensas assim, pensas como um macaco. Isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes do que os seres humanos. Não sei.”

Em defesa da gramática, acho que Llosa tem razão. Felizmente para ele, não tem o problema de um acordo ortográfico a pairar sobre a sua cabeça e, por isso, mais não disse. Sim, porque se o tivesse, tenho a certeza de que iria bastante mais longe nas suas críticas.


sexta-feira, abril 29, 2011

A verdade nua e crua



As estratégias políticas e as frases que lhes estão associadas são como as modas. Aparecem, resistem durante algum tempo e são substituídas por outras mais sonantes e convenientes logo que surge uma nova conjuntura. Ainda há pouco se ouvia até à exaustão “Cada partido assumirá as suas responsabilidades”, agora é a vez de “Todos têm que dizer a verdade aos portugueses”, frase que é proclamada patrioticamente como se essa – a verdade - fosse a coisa que os portugueses realmente mais necessitam.


Esta ânsia de saber a verdade lembra-me aquelas situações em que alguns doentes com graves enfermidades esperam ouvir do seu médico a verdade nua e crua, o veredicto final sobre o seu estado, enquanto que outros preferem a ilusão de uma mentira piedosa que lhes permita acalentar a esperança da cura.


Para aqueles que são adeptos da verdade verdadeira e que querem realmente saber aquilo que os espera enquanto cidadãos e enquanto famílias, como irão viver daqui para a frente, permito-me transcrever uma parte do artigo de Nicolau Santos, publicado no Expresso do último sábado. Dizia ele:

“… trocar de carro de quatro em quatro anos? Esqueça. Viagens a sítios exóticos nas férias? Esqueça. Jantar fora uma ou duas vezes por semana? Esqueça. Gastar em medicamentos não essenciais? Esqueça. Comprar livros, CD e DVD com regularidade? Esqueça. Ir ao cinema com frequência? Esqueça. Assinar a Sport TV, canais de filmes e outros pacotes televisivos? Esqueça. Pagar as quotas do seu clube do coração? Esqueça. Comprar com regularidade uns camarões, uns patés, uns bons vinhos lá para casa? Esqueça. Alugar uma casinha no campo ou na praia? Esqueça. Aumento de ordenado e das poupanças no banco? Esqueça. Um bom emprego para os filhos que tiraram um curso superior? Esqueça…”

Então, estão mais satisfeitos agora? Já ficaram com uma ideia de como vai ser a nossa vida, pelo menos, e segundo Nicolau Santos, durante 10 anos? Já tínhamos percebido que o país está numa situação gravíssima, que não há dinheiro, que não há emprego e que a riqueza gerada é escassa. Mas por muito que tenhamos consciência dessa situação e por muito que nos preparemos para enfrentar as dificuldades que nos batem à porta, nunca saberemos bem em que parte vamos ser mais atingidos e o que é que teremos de mudar, se ainda tivermos capacidade para tanto.


A verdade nua e crua é, na maioria das vezes, inimiga da esperança. E viver sem esperança, meus Amigos, não é viver.



quinta-feira, abril 28, 2011

De que planeta é que saiu o homem?

A história que hoje vos trago passou um pouco despercebida na imprensa, o que não é de admirar. Normalmente dá-se o devido destaque a quem consegue ludibriar a lei, a quem não cumpre com as suas obrigações, aos “chico espertos” da vida que, pela sagacidade que demonstram, são elevados à categoria de heróis. Desta vez, e um pouco estranhamente, noticia-se a história de um homem vertical, com valores, e que – espantem-se - só quer cumprir com aquilo que considera justo.

Conto em duas linhas:


“ era uma vez uma jovem que viajava num comboio, cujo título de transporte se comprava no próprio comboio. Porém, era dia de greve dos revisores e, por isso, o bilhete não pôde ser adquirido. Resultado, a jovem viajou de borla.
Quem não ficou satisfeito com isto foi o pai da rapariga que achou que tendo a CP prestado um serviço era credora do respectivo pagamento. Tanto mais que não pretendia contribuir para agravar a situação deficitária da companhia. A justeza da sua reivindicação levou-o a contactar a CP e perante a recusa da empresa em cobrar o bilhete porque os agentes (os revisores) estavam de greve naquele dia, o homem – o otário, o ingénuo, dirão alguns deste país de espertos – ameaça avançar para os tribunais. É que, segundo ele, o seu a seu dono”.

Tempos estranhos estes em que vivemos, em que a fuga às responsabilidades, a “habilidade” e o oportunismo campeiam. Bem diferentes daqueles em que o decoro e a honradez constituíam valores absolutos e inquestionáveis.


quarta-feira, abril 27, 2011

Os judocas portugueses contra a troika

Já aqui escrevemos que a nossa margem de manobra relativamente ao processo que está a ser liderado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI é muito curta. Praticamente não há espaço para negociações e o que vai haver, isso sim, são restrições à nossa forma de viver. E, como sempre, a força está do lado dos credores. Nós, com a pipa de massa que devemos, estamos demasiado fragilizados para pedir o que quer que seja.


A não ser que os vençamos pela força. E nem sequer estou a pensar naquela notícia que ouvi ontem que Portugal é o líder virtual do “ranking” da União Europeia de Futebol. Provavelmente os fulanos até nem gostam de futebol. O que estou mesmo a pensar é na força (à séria) do … judo.


Não será o caso de pormos à porta dos lugares onde esses senhores estão a trabalhar o nosso campeão europeu de Judo, João Pina, e as duas vice-campeãs europeias da modalidade, Telma Monteiro e Joana Ramos? É que os três atletas destacaram-se de tal forma no Campeonato da Europa de Judo que decorreu em Istambul, na Turquia, que bem poderiam servir como dissuasores de algumas medidas de austeridade que estejam a ser preparadas. Apenas por precaução, já se vê.


Quem sabe? Era só uma ideia…


terça-feira, abril 26, 2011

A famosa “ponte da Páscoa”

Embora passados alguns dias, acho que ainda vou a tempo de dizer alguma coisa sobre a polémica “ponte da Páscoa”. Quero referir, sobretudo, que achei lamentáveis as posições assumidas pela nossa classe política. Um bando de irresponsáveis que se entretêm com meras jogadas eleitorais e de poder e se esquecem do que de facto interessa. Isto quanto aos políticos, mas nós, cidadãos, também não estamos isentos de responsabilidades.


O que é que justifica, então, que se faça uma ponte na 5ª feira santa? O sermos um país de tradição católica? O ser habitual conceder-se a pontezinha aos servidores do Estado? Ou será o facto de já estarmos em campanha eleitoral e de dar jeito tentar apanhar mais uns quantos votos?


E a resposta a estas interrogações é simples: se é verdade que somos um país de tradição católica é necessário, também, ter presente que o Estado é laico e, portanto, não faz qualquer sentido que seja o próprio Estado a conceder um tempo destinado ao retiro e reflexão de uma qualquer religião. Quanto ao estarmos habituados a que haja mais uma tarde de folga na semana santa, isso é uma coisa que sabe bem, sem dúvida, mas temos que ser realistas. O país atravessa uma situação caótica e ninguém perceberá que, estando assim, ainda se trabalhe menos, muito menos quem nos empresta o dinheiro. Finalmente, há que ter em conta que se o governo não concedesse a tolerância, bem podia dizer adeus a muitos votos de funcionários públicos.


E, entre a tradição e a demagogia, venha o diabo e escolha. Medida polémica sei que foi e sei, também, que aquela bendita tarde da ponte custou nada menos que 20 milhões ao país. E sei ainda que os senhores que estão em Portugal a estudar se, e como, poderemos vir a receber a “ajuda” internacional ficaram chocados por ver que um país suicidário e sem rumo continua a gastar sem rei nem roque. Mas a verdade é que para quem está a necessitar de tantos milhares de milhões que falta fazem uns reles 20 milhões de euros?


A oportunidade e o simbolismo da medida não podiam ser mais desajustados. Na tarde da última quinta-feira, os funcionários folgaram e tiveram tempo para poderem preparar os quatro dias de descanso que iam ter de seguida. A produtividade e a competitividade bem puderam esperar mais uns dias.



segunda-feira, abril 25, 2011

25 de Abril – e já passaram 37 anos



“Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
na esperança de um só dia”.

Manuel Alegre


Com todos os altos e baixos, com todas as crises financeiras e outras, com todos os desmandos e aldrabices que se atravessaram nestes 37 anos, mesmo assim, olhando para tudo isso, o balanço é deveras positivo. Somos hoje um país diferente e melhor. E mantemos um bem a que muitas vezes não damos o real valor – a liberdade.


quarta-feira, abril 20, 2011

Coisas que me chateiam …

Em época de Páscoa, juro que não me apetecia nada escrever sobre mais uma escandaleira que eu soube há dias. Mas, que querem, chateia-me ver como se delapidam os dinheiros públicos, ainda por cima quando tantos sacrifícios são exigidos aos cidadãos.

Temos o caso de mais uma empresa pública, a Carris, mais uma que é completamente deficitária – teve no ano passado um buraco financeiro de 776,6 milhões – e que, apesar disso teve o descaramento de ter atribuído ao seu presidente e a três dos seus administradores viaturas de topo de gama. E nem me interessa se os veículos foram adquiridos a “el contado” ou em sistema de ALD. Para mim continua a ser uma pouca-vergonha. Em tempo de crise enoja-me ainda mais.

Mas como se não fosse o suficiente e apesar dos cortes salariais aplicados na administração pública, a Companhia de Carris de Ferro de Lisboa – a Carris - teve a desfaçatez de aumentar substancialmente os vencimentos dos seus quadros superiores, um aumento que se traduziu em quase 33 mil euros a mais em comparação com 2009.

Não aceito que a justificação para os carros novos e para os aumentos seja um simples “tinha que ser, fazia parte do contrato”. Então e os funcionários públicos que tinham um salário contratualizado e que, sem apelo nem agravo, tiveram uma redução dos ordenados?

Onde estão a moral e o decoro? Até quando vão continuar estas situações?




terça-feira, abril 19, 2011

Portugal e a “ajuda externa”

Para acrescentar um pouco mais de confusão à já baralhada cabeça de muitos portugueses, trago-vos hoje uma parte de um artigo publicado no New York Times, escrito por Robert M. Fishman, professor de sociologia da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Segundo ele, a exemplo do que muitos outros têm já afirmado, Portugal não precisava assim tanto de ajuda. Pelo menos, daquela inevitabilidade de ajuda externa defendida por um sem número de especialistas.

“O pedido de ajuda de Portugal nada tem a ver com o seu défice. «Portugal teve uma performance económica forte nos anos 90 e estava a gerir a recuperação da recessão global melhor do que muitos países da Europa.


Como foi dito há alguns meses, e silenciado cada vez mais com o aperto crescente dos mercados, Portugal ficou sob pressão injusta e arbitrária de negociantes de obrigações, especuladores e analistas de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo.


Mercados que são um perigo, uma vez que deixados sem regulamentação estas “forças” ameaçam eclipsar a capacidade democrática dos governos (quem sabe mesmo dos EUA) de tomar as suas próprias decisões sobre os impostos.


Em Portugal a crise é completamente diferente da instalada na Grécia e na Irlanda. As instituições económicas e políticas não falharam e conseguiram importantes vitórias, antes de sermos submetidos às ondas de ataques dos especuladores.


O resgate que aí vem não irá resgatar Portugal, mas sim empurrá-lo para uma política de austeridade impopular que atinge quem mais precisa. São as bolsas estudantis, as reformas, o combate à pobreza e os salários de funcionários públicos que vão sentir na pele o resgate.


A dívida portuguesa está bem abaixo de países como a Itália e o défice tem diminuído “rapidamente” com os esforços do Governo. No primeiro trimestre de 2010, Portugal teve uma das melhores taxas de recuperação económica, acompanhando ou mesmo ultrapassando os vizinhos do Sul e até mesmo a Europa Ocidental.


As razões do ataque a Portugal são então duas. Por um lado, um cepticismo no modelo de economia mista de Portugal. «Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação em Portugal - o que evitou uma bolha imobiliária e preservou a disponibilidade de baixo custo de rendas urbanas - a assistência de renda para os pobres. Por outro lado, a falta de perspectiva histórica é outra explicação. O crescimento do país nos anos 90 levou a uma melhoria nos padrões de vida e a uma taxa de desemprego das mais baixas da Europa.


Os ataques dos mercados condicionam não só a recuperação económica de Portugal, mas também a sua liberdade política. Se o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma “onda democratização que varreu o mundo”, a entrada do FMI em Portugal, em 2011, pode ser o início de uma onda de invasão da democracia, sendo que as próximas vítimas poderão ser a Espanha, a Itália, ou a Bélgica.”


Confusos ou mais confusos ainda? De qualquer forma é sempre bom analisarmos as várias teorias possíveis. Qualquer que seja a verdadeira uma coisa é certa, a inevitabilidade das medidas muito austeras que vamos ter que suportar.




segunda-feira, abril 18, 2011

Benditas férias da Páscoa

Irritam-me as análises superficiais e o modo ligeiro como se debatem determinadas matérias - sem a ponderação devida - e como se chega a certas conclusões. Mesmo quando se trata de textos meus que padecem desse mesmo mal que eu condeno. E irritam-me igualmente as opiniões em que se aplicam julgamentos implacáveis a pessoas que não agem ou pensam da mesma forma do que a maioria considera razoável.

Vem isto a propósito das notícias que têm saído nos últimos dias sobre as férias que muitos portugueses se preparam para fazer nesta Páscoa. Férias, gastar uma data de massa num tempo em que estão prestes a desabar (para muitos já começou) sobre as nossas cabeças as medidas de austeridade que o FMI vai determinar? Então em tempo de crise ainda pensam no trolaró?

Para que conste, eu não vou sair nos tempos mais próximos mas acho muitíssimo bem que aqueles que têm condições para fazê-lo possam gastar o seu dinheiro da maneira que melhor acharem. Férias no Algarve, no Brasil ou nas Caraíbas? Óptimo, e que lhes façam muito bom proveito, que gozem o máximo por que têm todo o direito e ninguém tem nada a ver com isso.

Mas a questão tem o outro lado, aquele em que geralmente pouco se pensa. É que estas viagens e estadias dos que se propõem fazê-las dão a possibilidade a muitos milhares de pessoas a manterem ou a voltarem a ter um emprego, a ganhar dinheiro, a sustentar famílias, a dinamizar a economia.

Quantos hotéis e restaurantes vão ser reabertos por uns dias que seja e vão ter que chamar trabalhadores para mantê-los? Quantas pessoas estão envolvidas em todo este sistema de comércio e de lazer, desde os que trabalham nas agências de viagens, nos aviões, nos restaurantes, nos postos de gasolina, nos que comercializam todo o tipo de alimentos e bebidas, nos que vendem artesanato, enfim, em todos os que sucumbiriam caso não houvesse este fluxo migratório que gera riqueza e que, para muitos, constitui o necessário balão de oxigénio que lhes permitem continuar a sonhar?

Bem podem torcer o nariz - sobretudo aqueles que não pertencem à Europa do Sul onde existe sol, e mais ainda aqueles que nos emprestam o dinheiro de que necessitamos – e tecer todo o tipo de críticas a estes portugueses loucos que estão a queimar os últimos cartuchos antes de se lançarem no precipício. Assiste-lhes, certamente, alguma razão. Eles que têm uma cultura de rigor muito diferente da nossa esquecem-se (ou não percebem), porém, da outra face da moeda onde estão incluídos milhares de trabalhadores que sobrevivem graças à “loucura” dos que, nesta Páscoa, estão a esgotar os destinos de férias.


sexta-feira, abril 15, 2011

Falavam-me de Amor

De Natália Correia "Falavam-me de Amor"


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

quinta-feira, abril 14, 2011

E o burro sou eu?

Não pude deixar de me lembrar da “histórica” pergunta de Scolari quando li na imprensa que o juiz que preside ao julgamento do caso BPN é inflexível no cumprimento das pausas quer para almoço quer durante as manhãs e as tardes.

Independentemente das horas a que comecem as sessões e dos atrasos verificados, o tempo para o almoço é sagrado e é para se cumprir à hora certa, à uma em ponto, e os intervalos a meio da manhã e da tarde são obrigatórios. Porquê? Por que as matérias são cansativas e há que aliviar a tensão bebendo uns cafezinhos e fumando uns cigarros.

Pois é, durante anos a fio, trabalhei intensamente, a maioria das vezes entrando cedo e saindo muito tarde e, para mim, a paragem para “almoço” era um simples compasso de espera de uns quantos minutos em que comia qualquer coisa enquanto pensava como dar andamento aos assuntos que tinha em mãos. Stress e ansiedade? Claro que tinha e também problemas para resolver que, por vezes, não eram nada fáceis. Mas, para além de alguns cafés (às vezes demasiados) não me dava ao luxo de fazer pausas institucionais e prolongadas.

Daí que, face à divergência entre os ritmos de trabalho, tenha ocorrido questionar-me: “Ah, então, durante todos estes anos o burro fui eu?”


quarta-feira, abril 13, 2011

Alto e pára o baile

Ainda não tinha tido tempo de desabafar convosco sobre este assunto, mas de hoje não escapa.

Eu sei que a vida deve ser dinâmica, caso contrário correm-se grandes riscos. É assim com as empresas, é assim na política e é assim com as nossas próprias vidas. Mas, há limites.

Confesso que não achei piada àquela ideia peregrina de um colunista do Financial Times sobre a possibilidade de Portugal ser “anexado” pelo Brasil. Num texto curto, intitulado “Portugal e Brasil, inversão de papéis”, texto que pretendia ser gracioso (?), Edward Hadas, o tal jornalista, sugeria que face às grandes dificuldades financeiras em que o nosso país se encontra, seria bem melhor para nós se ficássemos sob a alçada dos nossos irmãos brasileiros, actualmente um gigante emergente do poder mundial e que cresce a bom ritmo. Ou seja, seríamos mais uma província brasileira, esta (Portugal,Portugália ou coisa do género) situada como ponta-de-lança na velha Europa, o que constituiria uma vantagem enorme para … o Brasil.

Ganhava o Brasil, ganhava Portugal e ganhava a Europa. Todos ganhavam. Só que, ainda que o nosso país tirasse vantagens reais desta “colonização” sem sentido, ainda assim, eu (e a maioria dos portugueses, certamente) não estaríamos de acordo. E acreditem que penso desta forma não por mero nacionalismo bacoco mas por que não faz qualquer sentido. Somos apenas países irmãos, com uma língua comum e com muito passado histórico que nos une. Aliás costuma dizer-se que apenas o oceano nos separa. E, por também não fazer sentido, nem se coloca a questão (acho eu) de uma eventual vingança brasileira pela colonização lusa de tantos séculos.

A hipótese levantada pelo jornalista quis, como referi, ter graça. Mas se não foi esse o seu pensamento, certamente que imaginava que Portugal só poderia sair do buraco em que se encontra se fizesse parte de uma nação em franca ascensão económica e social. Assim sendo, a questão poder-se-ia colocar da seguinte forma:

Portugal teria vantagem se fosse uma província brasileira? Se calhar teria … mas não seria a mesma coisa.


terça-feira, abril 12, 2011

Afinal foi ontem

Quando esperávamos que só hoje chegassem as nossas visitas especiais, elas resolveram aparecer ontem. Formalmente “aterraram” em Portugal ontem, dia 11 de Março de 2011, muito embora, na verdade, elas já andassem por aí há algum tempo. A partir de agora vamos ter connosco equipas do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu que se preparam para as negociações sobre o plano de resgate financeiro a Portugal. Acho que de negociações vai haver muito pouco e o que certamente acontecerá é que começaremos a saber (e a sentir) que tipo de sacrifícios nos vão ser impostos, o que, como já todos percebemos, vão ser muitíssimo duros. Porém, como não se pode remar contra a maré, consolemo-nos pelo menos com a expectativa de que as medidas a adoptar não durem demasiado tempo.

A vinda da (indesejável) troika dá-nos, pelo menos, a esperança de que Portugal possa vir a ter o dinheiro suficiente para poder cumprir a dívida que se vence até Junho (nada menos que nove mil milhões de euros) e, já agora, que traga também uma varinha mágica que meta algum bom senso nas cabeças dos nossos políticos, o que, convenhamos, não vai ser fácil.

E se conseguirmos a dinheirama necessária para pagarmos aos nossos credores em Junho, seguramente poderemos gozar com muito mais tranquilidade o mês de Julho que vai ser muito especial. Um mês que vai ter ter cinco sextas-feiras, cinco sábados, cinco domingos e duas luas novas, uma conjugação que raramente acontece.



segunda-feira, abril 11, 2011

Entre o passeio, a “ajuda” e o futebol

Antes de mais quero expressar o meu agradecimento a todos os Amigos que me contactaram por e-mail ou por telefone ao constatarem que não publiquei qualquer post a semana passada. Certamente que não o fizeram pela falta dos textos mas, tão-só, por estarem preocupados com a minha ausência. Obrigado pelo vosso cuidado. Felizmente nada aconteceu, a não ser … a não ser a decisão de querer mudar de ares por uma semana. E foi isso que aconteceu. Passeei-me na última semana numa bela cidade, “a dos Doutores” – Coimbra.

Uma semana em cheio, diria. Houve o passeio que referi e, na quarta-feira, houve também o nosso pedido de ajuda externa para tentar fugir à situação eminente de bancarrota. Ajuda? É uma força de expressão, já se vê, que, aliás, pagaremos bem caro.

Mas foi também a semana, logo no dia seguinte ao pedido do tal empréstimo, em que as nossas equipas do pontapé na bola nos deram a satisfação e o orgulho de conseguirem bons resultados na Liga Europa.

Se relativizarmos as coisas, bem podemos dizer que pela “ajudinha” vamos ter que penar por muitos e bons anos. Já pelos resultados dos futebóis a nossa euforia vai esvair-se num instante. Resta-nos gozar intensamente esse momento.



sexta-feira, abril 01, 2011

Custa-me a aceitar

Na última quarta-feira no programa de José Gomes Ferreira “Negócios da Semana”, na SIC Notícias, discutiam-se os problemas e os buracos das famigeradas “Parcerias Público-Privadas”. Às tantas, quando se falava da enorme dívida externa do país, um dos convidados, o Professor de Economia e Gestão Avelino de Jesus, abordou a necessidade da reestruturação da dívida.

Gomes Ferreira exclamou: “mas isso é dizer aos credores que uma parte não lhes vai ser paga”.

Resposta do Professor: “Claro, isso é conhecido. 30 a 50% da dívida vai ter que ser perdoada … serão os próprios credores a fazer essa proposta porque já perceberam que nós não conseguimos pagar … não pagar uma parte não é nada de escandaloso, isso permitirá reescalonar a dívida remanescente com um prazo mais alongado e com juros mais razoáveis”.

Percebo o argumento mas custa-me a aceitar a ideia de que não é escandaloso deixar de cumprir os nossos compromissos. É uma questão de ética e de valores que, a serem aceites, põem definitivamente em causa a relação de confiança entre as partes.

“O dever acima de tudo” dizia-me o meu pai. Sei bem que “o dever” a que ele se referia significava tão-somente honestidade, obrigação e integridade de carácter. Coisas que parecem estar esquecidas hoje em dia.


quinta-feira, março 31, 2011

Os máximos históricos

Antigamente, quando eu ouvia falar em máximos históricos pensava, por exemplo, em coisas como Aljubarrota onde as tropas portuguesas derrotaram as castelhanas. Ou pensava nas vezes que os nossos atletas subiram ao primeiro lugar do pódio em Jogos Olímpicos. Ou, ainda, nos vários portugueses que conquistaram Prémios Nobel. Para mim, esses é que eram os “máximos históricos”.

Hoje navegamos em outras águas, porventura muito mais “agitadas” do que aquelas que os nossos navegadores enfrentaram quando partiram à descoberta do mundo. E a expressão “máximo histórico” tem agora um significado diferente e é usada todos os dias. Não pelos feitos heróicos alcançados pelos nossos compatriotas mas porque os juros dos empréstimos contraídos por Portugal não param de subir.

E, de máximo em máximo, em breve chegaremos à bancarrota final.



quarta-feira, março 30, 2011

Portagens, multas e pagamentos … pesados

Há uns anos, a propósito do aumento das portagens, gerou-se um movimento que levou os automobilistas a fazerem os seus pagamentos com moedas de baixo valor. Recordo-me que para pagar uns quantos euros, os desgraçados dos portageiros eram obrigados a contar as montanhas de moedas que lhes eram entregues. Era uma espécie de vingança que se fazia contra o Governo e cujo efeito recaía em cima dos pobres funcionários.

Mais recentemente foram os representantes da Associação Académica de Coimbra que, como forma de protesto contra o novo regime jurídico das instituições do Ensino Superior, demoraram mais de uma hora a pagar a portagem em Alverca. E fizeram-no exemplarmente pagando o custo exigido com cinquenta mil moedas de um cêntimo, no culminar de uma marcha lenta que só terminou na Assembleia da República.

Pois desta vez conhece-se a história de um cidadão, arquitecto de profissão, que estacionou o carro onde não podia e a Polícia Municipal do Porto passou-lhe a multa respectiva, pela infracção propriamente dita e pelo reboque da viatura. Pois o senhor arquitecto “arquitectou” a forma de cumprir integralmente as suas responsabilidades e pagou a quantia de 75 euros. Só que usou moedas de um e dois cêntimos dentro de um saco que pesava nada menos de 16,125 quilos.

As portagens e as multas já são pesadas. Mas o que dizer destas formas de pagamento?




terça-feira, março 29, 2011

Souto Moura, o nosso Nobel da Arquitectura

Quando as agruras provocadas pelos “nossos problemas” nos asfixiam faz-nos bem podermos sentir orgulho de nós e dos nossos. Foi o sentimento que experimentámos quando soubemos que o arquitecto Eduardo Souto de Moura foi distinguido com o Prémio Pritzker, considerado o Nobel da Arquitectura. Ainda por cima por se tratar de um prémio americano que é concedido a um arquitecto de um pequeno país desconhecido, arrumado a um canto da Europa e que tem sido ultimamente muito falado pelas piores razões.

Souto Moura, discípulo de Siza Vieira – também ele galardoado com o Pritzker em 1992 – ganhou este prémio pelo seu “rigor e precisão” bem patenteados no conjunto das suas obras. O mercado municipal de Braga, a ponte Dell'Accademia, em Veneza, a reconversão do Convento de Santa Maria do Bouro numa pousada, em Amares, e o Estádio Municipal de Braga são alguns dos seus principais projectos.

Não se trata de um nacionalismo bacoco. Trata-se tão-somente da mais genuína sensação de vaidade de ver atribuído – por decisão unânime do júri - o prémio mais importante da arquitectura (a nível mundial) a um português.


segunda-feira, março 28, 2011

O Precipício

Peço desculpa a quem veio aqui na última Sexta-Feira e não encontrou o “texto do dia” (quando o “produto” é bom a freguesia aparece, não é?). Faltei nesse dia e a justificação é simples. Estava (e ainda estou) a digerir o chumbo do PEC feito pela Oposição na Quarta-Feira. Mesmo já se estando à espera que o fizesse – eu próprio o tinha escrito na crónica que aqui publiquei nessa mesma Quarta – acho que ainda tinha a esperança que isso não acontecesse. Não, em particular, pela saída deste Governo e deste Primeiro-Ministro mas por que se adivinhavam uma série de outras preocupações que a queda do Executivo viriam acrescentar às já existentes.

Embora haja vários responsáveis não me interessa, neste momento, discutir quem são os culpados por esta crise política e pelas suas consequências. O que sei é que é o país e os seus cidadãos que vão sofrer com isso. Talvez aos senhores políticos lhes tenha escapado essa minudência, mas o que verdadeiramente deveria estar em causa é, tão-só, o país e os cidadãos e não as suas querelas políticas e os seus ódios pessoais.

E a resposta ao derrube do Governo veio de imediato. Aliás, não era difícil de prever. As nossas amigas agências de rating trataram de nos descer dois níveis na cotação (e ameaçam mais para breve), os juros da dívida subiram para números históricos e os “donos” da Europa puxaram pelos seus galões e admoestaram-nos. E se já estávamos mal, mais enfraquecidos ficámos.

Pronto, temos agora um Governo de Gestão, umas eleições à vista e um Governo que será empossado e que, independentemente da sua cor política, irá executar na íntegra o PEC 4 reprovado - com umas medidas adicionais e mais penalizadoras - que a Senhora Merkel já determinou.

E o pior é que todos os cenários que se desenham sobre a constituição do futuro Governo não conseguem tranquilizar-nos nem sequer permitem vislumbrar a possibilidade de uma maioria sólida no Parlamento. Há nos nossos políticos demasiados ressentimentos e falta de respeito. Sente-se que, muitos deles, zelam apenas pelas suas carreiras e pelos partidos que os apoiam e esquecem o fundamental. Que são os nossos representantes e, como tal, têm que trabalhar em prol do país e de quem os elegeu.

Estávamos à beira do precipício. Agora, já só falta um empurrãozinho.


quinta-feira, março 24, 2011

Artur Agostinho

Nasci 30 anos depois de Artur Agostinho. Cresci com a sua companhia e habituei-me à sua presença. Primeiro através da rádio e, mais tarde, do cinema e da televisão. Os relatos de futebol deixavam-me com o ouvido colado ao transístor e a emoção e a clareza com que “narrava” as partidas faziam-me seguir as jogadas e “ver” os meus ídolos como se estivesse no próprio campo.

Apresentou inúmeros concursos na televisão (ainda hoje se recorda o “Quem sabe, sabe”, o primeiro concurso a sério da RTP), foi apresentador de tantos e tantos espectáculos e dos famosos “Serões para Trabalhadores”, que eram feitos ao vivo e retransmitidos pela Emissora Nacional, em que também animava os espectadores contando anedotas. Foi aquilo a que se chamava na altura uma “vedeta da rádio”, o que não o impediu de ser reconhecido noutras actividades que também abraçou. Fez informação desportiva e publicidade, foi actor, escritor e entrevistador.

Artur Agostinho morreu aos 90 anos mas a sua cabeça tinha a lucidez e as capacidades dos 50.

Era uma figura popular, um homem bom, simpático, excelente comunicador e de quem gostávamos. Vamos sentir a sua falta.

quarta-feira, março 23, 2011

É hoje!

A confirmarem-se as previsões de que a nova versão do PEC - muito provavelmente já aprovada pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu - terá a reprovação dos partidos da oposição com assento na Assembleia da República, hoje é o dia em que o Governo começa a fazer as malas para se ir embora e em que se vislumbram no horizonte próximo novas eleições. Não terá que ser assim, é certo, mas esse é o cenário mais provável, apesar dos insistentes apelos proferidos por respeitáveis figuras da nossa República.

Vamos, pois, gastar uma pipa de massa com as eleições, vamos assistir a uma campanha eleitoral muito “emocionante” e cheia de acusações de uns contra os outros e em que as alocuções vão conter muitos “É mentira” e “Vocês, sim, foram irresponsáveis por …” e vamos chegar, enfim, ao novo Primeiro-Ministro que trará (???) a salvação às nossas contas públicas e ao endividamento externo e que, sobretudo, fará dos portugueses uns tipos finalmente felizes. A não ser que Sócrates seja substituído por Sócrates, o que pode vir a acontecer. Aí, gastou-se a massaroca desnecessariamente e tudo segue o seu curso normal.

Mas, meus Amigos, mesmo que o vencedor seja outro, é bom que moderem as vossas expectativas. Penso que ninguém acredita que o novo Governo, seja ele de que partidos ou coligações forem, vai trazer no curto/médio/muito médio/longo prazo quaisquer benefícios aos cidadãos. Estamos de tal forma atolados em dívidas que só para pagar os juros e, talvez, algum capital, teríamos que produzir bastante mais e não vejo bem como isso poderá acontecer. Por outro lado a recessão económica e a falta de confiança dos hipotéticos investidores não nos dão grandes esperanças que o emprego aumente e que a nossa vida melhore.

É hoje. Como diz a canção, “Hoje é o primeiro dia …”. Vamos ver.

terça-feira, março 22, 2011

Realidade e Ficção

A reflexão de hoje não tem a ver necessariamente com a situação política que se vive em Portugal. De qualquer forma, temos como certo de que a realidade é, pura e simplesmente, a existência de factos. A ficção, por outro lado, será a fábula, a invenção.

Mas onde é que está a fronteira entre ambas? Qual melhor retrata as fantasias, as injustiças e a felicidade que poderão estar contidas numa ou noutra?

A frase não é minha mas é a que melhor encontrei para definir a situação:

“A diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tem que fazer sentido!”.

segunda-feira, março 21, 2011

Quando eles não se preocupam com os problemas do país


Estamos em vésperas de saber se o Governo de Sócrates sempre vai cair. E, se cair, existem já desenhados vários cenários possíveis de um novo Governo que venha a resolver a crise política instalada. O que para mim continua a ser um mistério é saber quem é que vai ter a coragem de derrubar o Governo, justamente numa fase em que se falharmos aquilo com que nos comprometemos com a Europa poderemos cair num buraco sem fundo. Mas adiante …

O que me trás cá hoje são os alegados motivos para afastar o Primeiro-Ministro, insistentemente aduzidos pelos partidos da oposição e por milhares de cidadãos comuns. E eles (os motivos) são tantos que nem me atrevo a enumerá-los. Apenas vou referir (por que me convém para prosseguir este texto) a acusação que fazem a José Sócrates de lhe interessar apenas a estratégia pessoal e partidária e de não se preocupar com os problemas do país. Coisa pouca e … repetidamente vista através dos tempos.

Recordo o episódio acontecido em finais do século dezanove, em plena monarquia, quando os republicanos acusaram o Rei D. Carlos precisamente de não se preocupar com os problemas do país. Pois Sua Alteza, num gesto magnânimo digno da Sua Alta Majestade, tomou uma iniciativa que, de certo modo, pretendia contrariar os seus opositores – doou uma parte da renda que lhe estava atribuída.

Enfim, as crises os buracos orçamentais e as “incompreensões” perante os governantes atravessam épocas e até regimes políticos. E sempre com um protagonista sofredor comum: os cidadãos.

PS: D. Carlos, na sua mensagem, não utilizou o novo acordo ortográfico.

sexta-feira, março 18, 2011

Mário Crespo e os blogues

Num dos seus últimos escritos, o jornalista Mário Crespo disse ser frequentemente abordado por pessoas que lhe pedem que escreva nos seus blogues. Ele ouve-os apenas e presumo que lhes negue qualquer texto uma vez que afirma:

“… Porque não vale a pena. Não serve para nada. Normalmente o que os blogues contêm não passa de enunciados do que é óbvio, pontilhados com escolhas mais ou menos rebuscadas de insultos pouco imaginativos. O que se faz num blogue é gritar impropérios contra a ventania de inverno no Cabo da Roca. Pode aliviar momentaneamente a raiva e a insegurança da impotência repetida. Mas acaba por causar uma inflamação na garganta e ninguém nos ouve … a verdade é que o que se faz num blogue tem tanto efeito social como 872 anos depois da fundação de Portugal descobrirmos que somos uma nação voltada para o mar …”

Claro que estou em desacordo com Mário Crespo no que concerne à utilidade dos blogues. Há blogues e blogues. Cada um tem os seus âmbitos e objectivos, há os bons e os maus, os que, de facto, são meros veículos das frustrações e desencantos daqueles que os escrevem mas existem também os que nos dão textos muitíssimo bem elaborados e poemas que nos fazem vibrar as almas.

Quanto ao “não servirem para nada” (na sua opinião), penso que é um sentimento demasiado redutor. Servem muitas vezes para propagar ideias, dar a conhecer causas, contar histórias e divulgar cultura.

No caso do “Por Linhas Tortas”, este foi o espaço que escolhi para publicar comentários (de política ou de cidadania), interrogações e indignações, relatos, desabafos, ficção, poesia. E assim continuarei até decidir o contrário.

Uma coisa vos posso assegurar. Se o encontrar, não pedirei a Mário Crespo que se dê ao incómodo de escrever no meu blogue “Porque não vale a pena. Não serve para nada”.

quinta-feira, março 17, 2011

Portugal – a falência

A crise política que se avizinha, a descida do “rating” da nossa República decidida ontem pela Moody’s e o ping-pong a que se assiste diariamente sobre se vem ou não vem o FMI fazem-nos pensar que estamos à beira do fim. Aliás, já se antevê que o precipício – a falência - está mesmo diante de nós.

Aquietem-se, contudo, as almas mais perturbadas por que nem tudo está perdido - a bancarrota não é o fim do mundo. Para que saibam, em média, em cada ano, há um país que fica sem dinheiro para pagar as suas dívidas. Em pouco mais de 200 anos registaram-se 290 crises bancárias e 70 bancarrotas. E não pensem que isso só aconteceu a países pobrezinhos como o nosso. A Espanha, neste espaço de tempo, faliu 14 vezes, a França 4 vezes em cem anos e a poderosa Alemanha 6 vezes.

E nós? Pois Portugal já faliu 7 vezes. Comparativamente com os nossos vizinhos espanhóis estamos até numa situação bem confortável, embora por lá, ao que dizem, ainda se consiga viver melhor do que por cá.

E para os que já têm alguns aninhos lembrem-se do que aconteceu em 1976 em que a nossa falência esteve eminente e só nos safámos graças ao Dr. Mário Soares e às suas influências na Europa. E recordem-se dos loucos anos 80 em que o FMI se instalou de armas e bagagens cá em Portugal para nos impor uma receita que foi extremamente violenta - grande desvalorização do escudo, galopada da inflação para quase 30%, aumento dos impostos e o crescimento do desemprego. Não foi nada fácil.

Mas nada de angústias extemporâneas. É preciso ter esperança. As coisas vão-se resolver, só não sei como … nem quando.

quarta-feira, março 16, 2011

Onde está a racionalidade?

Na situação actual do país e dos seus desesperados cidadãos gostaria de saber se por acaso se justifica que:

- todas as actividades desportivas – incluindo as desenvolvidas nos ginásios - estejam sujeitas à taxa máxima do IVA (23%), quando os praticantes de golfe apenas pagam 6% de imposto? Ou que

- os proprietários dos iates de luxo paguem o gasóleo a 80 cêntimos o litro enquanto que a generalidade dos outros utilizadores têm que suportar o combustível a 1 euro e quarenta cêntimos?

São perguntas a que ninguém quer responder. O que sabemos, isso sim, é que pela fruta e pelos produtos hortícolas desembolsamos 23% de IVA e o congelamento das pensões baixas vai vigorar em 2011, 2012 e 2013 (até ver).

Por acaso percebem isto? Que raio de racionalidade é esta?

terça-feira, março 15, 2011

Camionistas, o “Déjà Vu”

Andamos sempre à volta da velha questão: Será que é possível que alguns (sempre os mesmos) consigam arranjar “argumentos tão convincentes” que derrotem sistematicamente quem se lhes opõe? Que forças são essas? É que, enquanto idosos e desempregados não têm forma de se fazerem ouvir (a não ser por umas quantas arruadas que, na prática, de pouco valem), existem corporações que são tão poderosas que os efeitos dos seus protestos podem afectar seriamente o país.

Como perceberam estou a falar concretamente dos camionistas (dos patrões dos camionistas, melhor dito) que pararam na primeira hora de segunda-feira, e por tempo indeterminado, por não terem ainda sido aceites as suas reivindicações, nomeadamente, as compensações pela subida do preço dos combustíveis e pelo pagamento das ex-SCUTS.

Depois dos bloqueios que fizeram em 2008 que quase fizeram parar o país, e por acharem pouco o que então lhes foi concedido pelo Governo – aumento das deduções fiscais no custo dos combustíveis e redução das portagens no período nocturno - voltam agora à luta ameaçando (de novo) paralisar o país.

Aí está o efeito das decisões (mal) tomadas a partir de 1986 (recordo que Cavaco Silva era na altura o primeiro-ministro). Ou seja, investiu-se sobretudo nas estradas em detrimento do transporte ferroviário e marítimo. Resultado? Ficámos na mão de quem controla o comércio de transportes rodoviários em Portugal. E, como de costume, eles exigem e o Estado - nós contribuintes - paga.

segunda-feira, março 14, 2011

“Geração em Luta”

Não me juntei aos muitos mil que desfilaram na Avenida da Liberdade em Lisboa no último sábado mas, provavelmente, fiz mal. Como o apelo tinha sido feito em nome da “Geração à Rasca”, entendi que, pela idade que tenho, já não faria parte dessa Geração. Ainda assim, devia ter ido. Se bem que ache o “À Rasca” uma expressão um tanto ou quanto grosseira. Mas isso são detalhes.

A verdade, meus Amigos, é que pertenço a uma geração que está perfeitamente enquadrada no espírito dos que agora se sentem à rasca. É certo que quando entrámos no mercado de trabalho não havia nem falta de empregos nem precariedade laboral mas, em compensação, havia uma guerra que matava e deixava muitos jovens destruídos quer física quer psicologicamente e que desfazia as perspectivas de vida de famílias inteiras. E o que dizer de quem viveu as agruras de uma ditadura que, ao menor sinal de contestação, encarcerava e torturava sem qualquer apelo? Quanto à exploração, não é fenómeno novo. Passámos por isso e sofremos também.

E chegámos aqui, a um tempo em que julgávamos ser de tranquilidade. Mas não, voltaram muitas das “velhas” preocupações e inquietudes pela nosso futuro e pelo dos nossos filhos. Afinal, estudaram, preparam-se melhor e estão diante de um buraco de que não se consegue avaliar a profundidade. Um desespero tamanho e sem soluções à vista.

A minha Geração sente-se, pois, atingida pelo corte das pensões, pelo aumento dos impostos e, sobretudo, pela frustração de ver os nossos filhos sem trabalho e sem esperança. Como não havemos de nos rever na “Geração em Luta” (gosto mais desta designação, deixem lá o “à rasca”)?

Tenho, porém, uma outra preocupação. No sábado houve manifestações e desfiles que mostraram o descontentamento reinante. Mas eu pergunto, acham que isso basta? Pensam mesmo que, pelo facto de protestarem, os governantes vão ser substituídos de imediato e que todas as políticas vão mudar de repente de maneira a fazerem “chover” empregos bem remunerados? Sabemos que as coisas não funcionam assim.

Depois do último sábado toda aquela energia, bem patenteada por jovens de várias gerações, deveria ser aproveitada para continuar a lutar – dentro e no respeito das normas democráticas - por um futuro melhor. Como? É uma questão que nos compete decidir.


sexta-feira, março 11, 2011

Fala!



“Fala!” de Alexandre O' Neill

Fala a sério e fala no gozo
fa-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala a miúda mas fala bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala franciú fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

quinta-feira, março 10, 2011

A Paródia

Foi, no mínimo, inesperado. Eu que nos últimos anos não tenho assistido aos Festivais da Canção por que os achava enfadonhos e falhos da qualidade mínima exigível, a este, e por mero acaso, vi-o todinho, de uma ponta à outra. E quando, no meio de bocejos, deparei com uns tipos que eu conheço vagamente porque costumam gozar com tudo e com todos, despertei definitivamente e prestei a atenção devida.

Os “Homens da Luta”, Neto e Falâncio (e mais uns quantos amigos), saltaram a terreiro para, no seu jeito habitual, interpretarem “A Luta é Alegria”, uma canção que bem poderia (poderá) ser de intervenção, muito ao jeito do saudoso PREC e que se destinava simplesmente (ou talvez não) a animar a malta e a acordar as plateias da sonolência provocada pelas outras canções concorrentes mais ou menos chochas e descoloridas.

E cumpria-se o programa. Analisadas as formas estéticas e musicais pelo júri nacional, a “A Luta é Alegria” quedava-se algures pelo lado de baixo da tabela, com a dita alegria entregue apenas aos seus intérpretes. A certa altura porém …ouviu-se a voz de um povo que em troca de chamadas a 0.60€ mais IVA votou massivamente no grupo que empunhava um megafone e uns cartazes mais ou menos “revolucionários”. E porque o povo é quem mais ordena, a canção ganhou.

Apesar da vontade popular, de imediato surgiram as críticas e os temores. “Parece mentira, eles vão representar Portugal na Alemanha, o que é que a Europa vai pensar de nós?” Sosseguem que ninguém vai pensar pior de nós do que já pensa agora. A verdade é que já não nos têm em grande conta e aquilo é só um concurso. Quanto ao que for dito, eles não vão entender patavina, quanto à performance podem pensar que nós até somos uns tipos alegres apesar de estarmos à beira da bancarrota.

A canção pode não ter uma qualidade musical por aí além, mas a verdade é que há anos que nos queixamos dessa mesma falta de qualidade. Ou será que ficámos incomodados por alguém ter tido o desplante de nos apresentar uma canção política, quando muito de protesto? Não creio em nada disso, acho-a mais uma canção de mera irreverência, de contestação à política (à política de uma forma geral, tanto a feita pela direita como pela esquerda) em que já ninguém acredita e ao desespero dos cidadãos pelo sentimento de tantas promessas falhadas desde a revolução dos cravos. Ou até, talvez, uma contestação ao próprio festival. Acima de tudo é uma canção bem-disposta e até razoavelmente construída do ponto de vista musical. Mas é sobretudo uma canção de troça, de gozo, de paródia interpretada pela dupla humorista e rebelde que nasceu, faz tempo, na SIC Radical. Nada mais!

quarta-feira, março 09, 2011

O Carnaval das tolerâncias


Não sei se já vos aconteceu mas comigo sucede muitas vezes sentir-me bem-disposto num momento e, logo de seguida, completamente “em baixo”. Se calhar é da idade ou … das aberrações desta vida.

Então não é que ouço os políticos dizerem, nomeadamente os que nos governam, que o país tem que ter maior produtividade para ser mais competitivo e, por outro lado, quando se vislumbra a possibilidade de haver uns dias de folga adicionais, vá de fazer uma “ponte” e lá vamos nós cantando e rindo? Claro que me passo. Sobretudo quando é o próprio Governo que promove esses diazinhos de férias a mais.

Para além da gracinha de vermos as crianças mascaradas (que muitas vezes satisfazem mais os pais do que os próprios rebentos) digam-me lá o que é que justifica que se conceda uma tolerância de ponto aos trabalhadores da função pública e dos institutos públicos, tanto mais que a terça-feira de carnaval até nem consta na lista dos feriados obrigatórios estipulados por lei?

Eu sei que a folga sabe muito bem mas, meus caros, ouçam o que os distintos economistas se fartam de avisar: estamos num país que tem uma economia tão débil que só uma ajuda divina será capaz de salvá-lo.

Porém, nós que somos crentes mas acima de tudo folgazões, achamos que é melhor não ligar a esses dois dias seguidos de trabalho que se perdem - a terça (devido à tal tolerância) e a segunda (porque se fez uma ponte que é para isso que elas servem). Depois logo se vê.

Será que estamos a pensar em direitos adquiridos ou em estratégia política? É que – dizem - há eleições à vista … e não convém facilitar. Lembrem-se do que aconteceu há alguns anos com Cavaco Silva, quando quis acabar com a terça de Entrudo e empurrar os feriados para os fins-de-semana mais próximos. Por “coincidência” nas eleições que se realizaram a seguir, foi apeado.

sexta-feira, março 04, 2011

Bica e pastel de nata sujeitos a factura. Agora é que vai ser …

Há muito que defendo que os prestadores de serviços devem passar facturas. E faço-o naturalmente em nome da equidade que deve existir entre os cidadãos. Fará algum sentido que eu tenha que pagar todos os impostos possíveis e imaginários e um restaurante, por exemplo, só os pague pelas 50 refeições que, presumivelmente, serviu num dia quando, na verdade, foram servidas 150? Daí que, mesmo não necessitando das facturas, não prescinda nunca de as pedir em qualquer estabelecimento. É verdade que muitos deles já as fornecem espontaneamente mas ainda se ouve com frequência aquela pergunta irritante “E vai desejar factura?”. E eu desejo sempre porque acho que toda a gente deve pagar os impostos devidos.

Como o país necessita desesperadamente de aumentar as receitas, do IVA neste caso, foi avançado agora pelo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais que o Governo pretende avançar rapidamente com a obrigatoriedade de todos os sectores de actividade passarem facturas". Até que enfim. Só tenho dúvidas se o controlo a aplicar será exequível. Há uns anos, lembro-me que as facturas da restauração apresentadas pelos cidadãos eram dedutíveis em sede de IRS mas parece-me que o Governo não irá abrir mão dessa receita na totalidade.

Restaurantes e cafés estão agora na mira da factura obrigatória. E o que acontecerá com os técnicos das reparações de automóveis ou de electrodomésticos quando fazem os orçamentos e levantam a questão “Quer com ou sem IVA”? Bem, aí há que ponderar. É que, por exemplo, num arranjo de 500 euros, 115 euros de IVA já pesa um bocado e, se o não pagarmos, já dá para ir jantar a um bom restaurante onde – fatalmente – iremos pedir factura.
Deu para perceber?

quarta-feira, março 02, 2011

É urgente! Queremos mais e mais canções de protesto


Para aqueles que não são muito amigos de ouvir música é bom que (pelo menos) tenham consciência que ela serve para alguma coisa além, naturalmente, de poder fazer estremecer as paredes da casa ou pôr os vizinhos à beira de um ataque de nervos quando o som tem uns quantos decibéis a mais.

A música alimenta e enriquece o espírito, faz-nos sonhar e, quantas vezes, tem o condão de nos despertar para certas realidades da vida. Como no caso das chamadas músicas de intervenção, que parecem ter voltado à ribalta e que julgávamos terem sido arquivadas após os tempos da ditadura e da gloriosa época do PREC. Já aqui nos referimos aos Deolinda e àquela super-super “canção de protesto” – “Parva que sou” - que se tornou o hino da geração actual. Pois parece que resultou (e não levou muito tempo … convenhamos). Apesar dos versos apenas expressarem “Porque isto está mal e vai continuar, já é uma sorte eu poder estagiar” o Governo já anunciou a interdição dos estágios profissionais não remunerados.
Acho muitíssimo bem. A exploração da rapaziada é chocante e é inaceitável. Há muito que medidas deste tipo deveriam ter sido tomadas. Porém …

Porém, há a necessidade urgentíssima de ecoar pelas salas e pelas praças deste país e, também, pela Assembleia da República, outras canções de protesto e de desespero que lembrem aqueles que são menos jovens mas que são igualmente ignorados ao perderem prematuramente os seus empregos e lançados numa situação que não desejaram e sem qualquer tipo de apoio.

E, já agora, para os idosos e para os pensionistas, cuja luz ao fundo do túnel jamais verão e que não têm associações nem sindicatos que defendam os seus direitos e acalmem as suas angústias. Também para esses é necessário que se soltem canções de protesto, murmuradas/interpretadas pelos Deolinda, pelos Manuela ou pelo Chico dos Anzóis. Tanto me faz.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A qualidade dos deputados

Li há dias num jornal que aquele palhaço brasileiro que foi eleito em Dezembro passado deputado federal por São Paulo, que dá pelo nome (artístico) de Tiririca, se enganou na votação sobre as propostas sobre o salário mínimo e acabou por votar a favor da oposição. Votou e … acabou por marcar um golo na sua própria baliza. Só que Tiririca não desarmou e, ao reconhecer que se tinha enganado, até afirmou com humor “Ih, então eu votei não e saiu sim …”

Pois é, lá como cá, muitas vezes o que se questiona é a qualidade dos deputados. Que se traduz, basicamente, na sua preparação, sensatez, habilidade política e honestidade. E numa altura em que tanto se fala na redução do número de deputados na nossa Assembleia, talvez fosse boa ideia sermos mais exigentes na escolha dos nossos representantes, que podem até ser em menor número mas têm que ser os melhores. O que acham?

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Quando o feitiço se vira contra o ...

A crónica publicada ontem, encaixa-se bem na galeria de “bonecos” que tantas vezes encontramos no nosso quotidiano.

Na história narrada, o protagonista é um taxista (já descobri grandes filósofos nesta classe profissional), mas a personagem bem poderia ser desempenhada por um “barman”, um cabeleireiro ou outra pessoa com profissão diversa.

É que, às vezes, por força das circunstâncias ou das características dos indivíduos que temos pela frente, os serviços que deles esperávamos, traduzem-se, afinal, em saber ouvir-nos, opinar e aconselhar. Nada mais (e não é pouco).

E há ainda aqueles que em vez de nos prestarem determinado serviço, acabam por usar a nossa experiência e saber, deixando-nos não na situação de utilizadores, mas de prestadores de serviços que não esperávamos executar.

Foi o que me aconteceu, há uns anos, numa consulta com o urologista que me acompanhava na época. A determinada altura, o médico considerou que a minha profissão não era susceptível de me provocar um “stress” causador de outras maleitas, ao que eu lhe respondi que não era bem assim, uma vez que a minha função de auditor me provocava um ...

Já nem ouviu o que eu ainda tinha para dizer. “Ah, você é auditor, ora ainda bem que conheço um porque tenho um problema financeiro para resolver e gostaria que me desse um parecer”.

Mais de uma hora depois, quando a consulta terminou, saí deixando-o satisfeito, com a resolução do seu problema encaminhada. E o curioso é que, ao deixar o consultório, paguei qualquer coisa como 85,00 euros por meia dúzia de minutos de confabulações sobre o que me levara lá, enquanto que o “meu parecer financeiro” ao senhor professor foi completamente gratuito.

É aquilo a que eu chamo o “virar-se o feitiço contra o feiticeiro”.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

A filosofia do taxista

Trago-vos hoje um texto de humor (e não só), do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo. Espero que gostem.


"Entrou no táxi parado no ponto e pediu:
- Rua tal, número tal.
O motorista virou-se para encará-lo e perguntou:
- Tem a certeza?
-Como “tem a certeza”? Tenho sim. Vamos lá.
- O senhor sabe como está o trânsito naquela zona?
- Muito ruim, é?
- Péssimo. E não é só naquela zona. É em toda a cidade. Tudo parado.
- Eu sei, eu sei. Mas eu preciso ir.
- Precisa mesmo?
- Olha aqui, meu amigo, se você não quer me levar...
- Não, pense bem. Precisa mesmo? Certeza absoluta?
- Claro. Tenho uma reunião importantíssima.
- Importantíssima?
- Bom... Importante.
- Importante?
- Está certo. Não é questão de vida ou morte. Pensando bem, nada é uma questão de vida ou morte. A não ser a morte.
- E a vida.
- Como assim?
- A única coisa vital da nossa vida é a nossa vida. O senhor concorda?
- Não sei se eu...
- Tome o seu caso. Correndo para ir a uma reunião importante que não é tão importante assim. Enfrentando trânsito que não anda, se irritando, enfim, se matando. Transformando uma questão que não é vital numa questão de vida e morte. É ou não é?
- É, mas...
- Eu sei. O senhor precisa ganhar dinheiro. Tem que sustentar a família. É casado?
- Estou me separando...
- Então. Precisa de dinheiro. Eu também. Não posso ficar parado. Mas o dinheiro não compra a vida. Pelo contrário, a gente gasta a vida para ter dinheiro. É uma troca em que sempre se sai perdendo. Qual foi o problema?
- Como?
- A separação.
- Ah. Pois é. Foi isso. Eu vivo irritado com essa loucura toda, ela vive irritada, nós acabamos só nos irritando mais um ao outro. Mas foi ela que quis se separar.
- E não tem jeito mesmo?
- Sei lá. Por mim, teria. Mas ela diz que eu não consigo me desligar do meu trabalho e das minhas preocupações. Que eu estou sempre ligado, que viver comigo é como viver com uma caixa 24 horas.
- Faça o seguinte. Quando chegar em casa hoje, gire um botão imaginário, ou torça o seu próprio nariz, e diga que está se desligando. Que nada é mais importante na sua vida do que o amor dela, e do que ficar com ela.
-É, pode dar certo.
- Eu sei que vai dar.
- De onde você tirou tanta sabedoria?
- Dos engarrafamentos. Trancados no trânsito o dia inteiro, temos duas opções. Ou nos transformamos em neuróticos com fantasias assassinas, ou aproveitamos o tempo parado para filosofar. Eu escolhi a filosofia.
- Talvez você possa me ajudar com outro problema...
- Só um instante. Se o senhor não se importar, vou ligar o taxímetro durante a sessão.
- Tudo bem".

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Já naqueles tempos os cigarros “queimavam”


Em Portugal, entre Novembro de 1937 e 1970, qualquer cidadão que usasse um isqueiro para acender o tabaco tinha que ter uma licença.

Uma licença de utilização, passada pelas Finanças, todos os anos, nada barata e, para cúmulo, era passada nominalmente. Ou seja, um isqueiro não podia ser utilizado por outra pessoa que não aquela cujo nome estava na licença. E para controlar a sua utilização havia a polícia e uma caricata “profissão” denominada de “fiscal de isqueiros” que, em caso de prevaricação, aplicavam uma multa e apreendiam o isqueiro.

Recordo-me, a propósito, de uma tarde em que o meu pai me levou ao futebol, quando ele pretendia fumar um cigarro, e porque estava vento, acendeu o isqueiro levantando o cotovelo para proteger a chama. Como por acaso, apareceu do nada um fiscal que interpretando o gesto como estar a querer esconder a acção, logo perguntou pela famigerada licença.

Dado que a imagem não é suficientemente nítida, reproduzo o texto da “Licença Anual Para Uso de Acendedores e Isqueiros” em que gostaria de chamar a vossa atenção para uma palavra lá existente: delinquente. Nem mais!

“É proibido o uso ou simples detenção de acendedores ou isqueiros que estejam em condições de funcionar quando os seus portadores não se achem munidos da licença fiscal.
Os infractores serão punidos com a multa de 250$00 além da perda dos acendedores ou isqueiros, que serão apreendidos, salvo as excepções reguladas pelo respectivo decreto-lei.
Se o delinquente for funcionário do Estado, civil ou militar, ou dos corpos administrativos, a multa será elevada ao dobro e o facto comunicado à entidade que sobre ele tiver competência disciplinar.
Das multas pertencerão 70 por cento ao Estado e 30 por cento ao autuante ou participante.
Havendo denunciante, pertencerá a este metade da parte que compete ao autuante.
Outras disposições consultar os respectivos decretos”.

Para quem não sabia ou já não se lembrava, aqui está a memória não muito longínqua de uma prática existente no nosso país. De repressão, sim, mas também de caça a mais um imposto.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

E o vencedor é …

Na noite chuvosa de sexta-feira passada decidi duas coisas: fui ao cinema e, na sequência, atribuí o meu voto a um filme concorrente aos Óscares de Hollywood do próximo dia 27. É certo que não faço parte do júri nem sequer sou especialista em cinema e é também verdade que não vi ainda todos os filmes que estão nomeados, mas a minha resolução está tomada.

O “Discurso do Rei” encheu-me as medidas, como se costuma dizer. Baseado na história verídica do Rei Jorge VI, um monarca tímido que lutava contra a gaguez, o filme tem uma óptima realização e está extraordinariamente interpretado. Colin Firth (o rei) e Geoffrey Rush (o terapeuta) são magistrais e os diálogos estão muito bem construídos.

Não se trata de uma reconstituição de época nem, tão-pouco, pretende mostrar uma visão detalhada sobre os meandros da governação de um reinado que ocorreu num período difícil, no início da II Guerra Mundial, mas assisti a uma história comum (que por acaso se passou com a família real inglesa), comovente e tocante. Uma história de pessoas muito diferentes que se encontraram pelos caprichos do acaso e acabaram ligados por laços de amizade que duraram até à morte.

Não é por acaso que o filme está nomeado para 11 estatuetas, entre as quais o de melhor filme, o de melhor actor principal (Colin Firth) e o de melhor actor secundário (Geoffrey Rush).

Eu gostei. Daí que eu diga “... and the winner is”: “The King’s Speech”, “O Discurso do Rei”.