terça-feira, outubro 18, 2011

Provisórios



As coisas têm vindo a piorar. Todos os dias vamos sabendo de novos impostos, de perdas (que dizem ser temporárias mas que sabemos se irão prolongar sei lá até onde), algumas que julgávamos há muito serem um direito adquirido. As condições de vida estão a deteriorar-se significativamente e a angústia e o desespero está a atingir proporções preocupantes. A vida de todos nós está a ficar insuportável.


Nos últimos meses, então, sempre que alguém anuncia uma nova medida de austeridade, acrescenta-lhe que será provisória durante ou até uma data qualquer.


Este ano vamos ficar sem cerca de 50% do 13º mês. Um corte provisório. Já depois de termos digerido este anúncio, fizeram-nos saber que em 2012 e 2013 os nossos subsídios de férias e de Natal irão à vida. Mais um corte provisório que pode, no entanto, “eternizar-se” durante mais uns anos (embora o Ministro das Finanças tenha dito ontem, em entrevista à RTP, que estas medidas não poderão perpetuar-se por motivos legais. Só que as leis mudam). E temo (fico arrepiado só de imaginar) que a partir de dois mil e qualquer coisa, algum Governante pense na possibilidade de começarmos a pagar – não sei se de forma provisória ou já definitiva – ao Estado o correspondente aos subsídios que agora nos foram esbulhados. Entenderam bem, não é não irmos receber, é sermos nós a pagar. E certamente que o faremos sentindo, palavra por palavra, os versos do Sérgio Godinho “com uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes”.


É que, para mim, os “Provisórios” eram, até há uns anos, apenas uma marca de tabaco.


Bem que os pacotinhos de açúcar do Café Nicola já andavam a mentalizar-nos: “Um dia ficamos sem subsídios de férias e de Natal”. E não é que tinham razão?


segunda-feira, outubro 17, 2011

Afogar as mágoas



Na última sexta-feira o meu filho espantava-se comigo porque que estava à espera de encontrar aqui no blogue um texto que disparasse em todas as direcções por causa do corte dos subsídios de férias e de Natal do próximo ano. Segundo ele, dava a ideia de que eu – ao escrever sobre a Fada do Dente, coisa que neste momento não interessa a ninguém – estava-me perfeitamente nas tintas para o que se tinha passado.


Expliquei-lhe que não tinha sido bem assim. Na verdade, depois de ouvir a comunicação de Passos Coelho ao país, sobre as novas (e duríssimas) medidas de austeridade e enquanto todos nós lá em casa tentávamos assimilar e digerir tudo aquilo - calados, revoltados e assustados - eis que, em vez de espernear, fui ao frigorífico e surgi na sala (aparentemente com uma expressão descontraída) com uma garrafa de espumante acabada de abrir e umas quantas flutes.


Percebi a confusão que se instalara naquelas cabecinhas e a certeza de que as medidas anunciadas tinham conseguido acabar comigo de vez. E percebi, também, que se questionavam sobre o que iríamos comemorar se estávamos à beira de saltar para o precipício.


Nada mais simples. É que, penso eu, para além de se dever beber na comemoração das vitórias é importante que também o façamos quando queremos afogar as mágoas. E, perante a hecatombe …


sexta-feira, outubro 14, 2011

A Fada do Dente



Já que nos últimos dias tenho “viajado” um pouco pelo mundo da fantasia, do encantamento e das “modas”, aqui vai mais uma opinião pessoal (já começo a jogar à defesa) sobre uma moda que, nos últimos anos, tem tido mais visibilidade. Refiro-me à “Fada do Dente”, a tal que troca “dentes de leite” colocados por debaixo dos travesseiros das criancinhas por moedas ou presentes.

Embora ninguém saiba a data em que se descobriu que existia uma Fada tão boa, consta que a coisa já vem do tempo dos vikings, um povo nórdico que invadiu e colonizou grandes áreas do que é hoje a Europa, entre os séculos VIII e o XI. No entanto, são muitas as histórias que circulam desde o início do século XX e que criaram raízes – tradições – primeiro, curiosamente, nos Estados Unidos e no Canadá e, mais tarde, no Reino Unido e até em Portugal.

Mas se é uma tradição já tão antiga porque é que digo que virou moda? Apenas porque eu, já nascido em meados do século XX, nunca ouvi falar em “Fadas do Dente” nem, muito menos, tive qualquer presente quando os primeiros dentes começaram a cair. Fiquei apenas desdentado, acho que guardei por uns tempos “o primeiro” e esperei pacientemente a chegada dos dentes que estavam prontos a despontar.

Os tempos eram bem diferentes então. Para além da Fada do Dente, calculem que nem sequer sabíamos da existência do Pai Natal. Os presentes, para os que tinham a ventura de os receber, eram, tão-somente, uma graça do Menino Jesus. Outros tempos em que uma geração ficava realmente “à rasca” quando sofria com dores de ouvidos e nem tínhamos a mínima noção de que o nosso problema era uma otite.


quinta-feira, outubro 13, 2011

Olá Princesa – 2ª parte



A crónica de ontem suscitou alguma polémica entre muitas Amigas minhas que são mães de lindas princesinhas. Não creio, porém, que haja motivo para tanto. Escrevi apenas aquilo que sinto, ou seja, que esse tratamento mais não é que uma moda. E, acreditem, não estava a pensar em alguém em especial quando me referi às princesinhas e às suas reais mãezinhas. Ficamos, portanto, assim, a questão “das princesinhas” é, para mim, tão-somente, uma questão de moda, uma das tantas que sempre aparecem em cada geração. Mais nada.


Porém, não posso deixar de pensar nos perigos que, em minha opinião, podem surgir provocados por esse tratamento. A sua utilização continuada em detrimento de um nome próprio pode trazer às crianças uma espécie de trauma (chamemos-lhe assim), embora lhe reconheçamos toda a ternura que contém. Num nome há uma identidade própria, uma personalidade, sinais distintivos que qualquer outro tratamento – ainda que afectuoso e da moda - não possui.


Uma Amiga minha (eu sei que me estás a ler) confidenciou-me, certa vez, que muito raramente ouviu o seu pai tratá-la pelo nome. Ou era a “miúda”, ou a “pequena” ou a “minha filha”. E isto, como compreenderão, deixou-lhe pelo menos recordações (continuo a não querer chamar-lhe trauma) que permaneceram até hoje.


quarta-feira, outubro 12, 2011

Olá Princesa



Certamente que quando Clara Pinto Correia escreveu o “Adeus Princesa” e abordou os problemas vividos num Alentejo rural envolvido em conflitos políticos, económicos e sociais, não poderia supor que uns anos mais tarde, não no Alentejo mas em Portugal, iria nascer uma moda que alastrou, e de que maneira.


Tornou-se costume ouvir mãezinhas com filhas pequenas tratar os seus rebentos docemente por “Princesas”. Em cada sítio em que há meninas é um coro de chamamentos “Oh, Princesa, traz-me isto”, “Oh Princesa, vem aqui à mamã”, “Oh Princesa, dá um beijinho à tia”.


Mas, mais do que pensar que se trata apenas de uma moda, embora afectuosa, o que me preocupa – pela omissão – é a forma como os pais tratam os seus filhos homens. Será que lhes dizem simplesmente “Oh puto, anda cá” ou, projectando o seu maravilhoso futuro, chamam-lhes “Oh Cristiano (Ronaldo) vai dizer à tua mãe …”.


E é em coisas tão simples e tão vulgares como estas que se nota, desde cedo, a discriminação nas sociedades.


terça-feira, outubro 11, 2011

Uma excepção que se saúda



Fiel ao que prometeu nas eleições de 2008, Carlos César, Presidente do Governo Regional dos Açores, anunciou que não será candidato nas eleições que se realizarão no próximo ano. Assumiu em 2008 que não concorreria novamente e, portanto, vai cumprir. Tudo em nome da palavra política dada, em nome da ética.


Bem podem agora argumentar, como já vi escrito, que o número de eleitores dos Açores é “um pouco maiorzito do que a cidade do Cacém”. Para mim, o que conta é a credibilidade que se atribui à palavra dos políticos e isso é coisa que anda um pouco arredada da nossa vida democrática.


César é, portanto, uma excepção que se saúda.


segunda-feira, outubro 10, 2011

O apelo de Cavaco Silva aos portugueses: poupem mais e evitem gastos desmesurados



Na linha de muitos outros que já lhe ouvimos, Cavaco Silva no discurso do 5 de Outubro disse um conjunto de coisas já sabidas mas que, na prática, nada significam para os cidadãos. No entanto, houve passagens em que ele quis mesmo direccionar o discurso à maioria dos contribuintes e, aí, foi simplesmente lamentável. Como neste pequeno trecho:


"... Portugueses, vivemos tempos muito difíceis… Agora, estamos confrontados com uma situação que irá exigir grandes sacrifícios aos Portugueses, provavelmente os maiores sacrifícios que esta geração conheceu.

… A crise que atravessamos é uma oportunidade para que os Portugueses abandonem hábitos instalados de despesa supérflua, para que redescubram o valor republicano da austeridade digna, para que cultivem estilos de vida baseados na poupança e na contenção de gastos desmesurados…”

Hábitos instalados de despesa supérflua? A que população é que Cavaco se estava a dirigir? Em Portugal o salário mínimo não chega aos 500 euros e o médio anda na casa dos 700 euros. Seria nestes trabalhadores que o Presidente estava a pensar? Ou seria nos cerca de 3,5 milhões de pensionistas (6 em cada 10 trabalhadores no activo), a maior parte deles com débeis com pensões de reforma que mal dão para sobreviver?


Recuso-me a acreditar que a mensagem de Cavaco Silva se destinasse aos portugueses que, com muito sacrifício, conseguiram comprar casa própria e mudar de automóvel durante os últimos 30 anos, uma vez que a maioria estará, por causa disso, endividada até à raiz dos cabelos.


E, a não ser que ele estivesse a falar para uns quantos que puderam comprar carros de luxo (a compra de carros de luxo aumentou 50% em Portugal em 2010. A Porsche liderou com um crescimento de 88%) ou para aqueles que acumulam boas pensões de reforma – como ele próprio – parece-me completamente desajustado o apelo que fez à “poupança e à contenção de gastos desmesurados”. Só se estava a pensar em outros cidadãos de um outro país.


sexta-feira, outubro 07, 2011

Novo imposto?



Se calhar sou eu que tenho razões para desconfiar que algumas iniciativas governamentais são apresentadas sob a capa de uma boa causa e, ao fim e ao cabo, nem são assim tanto. O povo diz que “gato escaldado de água fria tem medo” e a verdade é que, muitas dessas boas intenções a favor de causas nobres, encobrem o verdadeiro propósito: arrecadar mais umas receitas para os cofres do Estado. E isso acontece em Portugal como na maioria dos outros países.


Não acredito, porém, que isso se verifique num país civilizado como a Dinamarca que acabou de se tornar o segundo país do mundo (a Hungria foi o primeiro) a introduzir uma taxa especial sobre a gordura. Ou seja, todos os alimentos que tenham mais de 2,3% de gordura saturada por quilo terão, a partir de Outubro, de pagar uma taxa adicional de 16 coroas (2,15 euros). Para dar um exemplo, um pacote de 250 gramas de manteiga passa a custar mais 25 cêntimos. Num país que tem menos de 10% de obesos clínicos, portanto abaixo da média europeia, esta pode ser apenas mais uma taxa. Só que os cidadãos dinamarqueses confiam que este dinheiro vai ser bem gerido.


A questão é que o aumento da carga fiscal sobre os alimentos menos saudáveis está a ganhar força por toda a Europa e não tarda que por cá o exemplo venha a ser seguido. E, perguntar-se-á, “isso é para defender a saúde pública?” Sim, também, mas, de imediato será, sobretudo, para obter mais receitas de que o Estado tanto necessita.


E a criatividade pode nunca mais parar, tudo em nome de razões perfeitamente entendíveis. Como por exemplo inventarem um imposto para quem tenha menos de dois filhos, ou um imposto para quem deixe as luzes acesas depois das duas da manhã ou, ainda, um imposto a aplicar a quem tenha mais de 60 anos.


Como também diz o povo, “No comer e no coçar o mal está em começar” …


quinta-feira, outubro 06, 2011

Porreiros, Pá



Poucos terão ouvido falar em George Potamianos. Pois digo-vos que o Sr. Potamianos é um armador grego que ficou tão apaixonado pelo paquete português “Funchal”, quando o viu em 1975, então fundeado no Mar da Palha e esquecido há anos pelo Governo, que decidiu fretá-lo e, mais tarde, conseguiu comprá-lo. Por causa deste navio o armador fixou-se em Portugal para onde transferiu a sede da sua companhia de cruzeiros.


Mas o que achei mais curioso nesta história é que quando ele quis fretar o Funchal em 1975, em plena época revolucionária em Portugal, necessitou da ajuda dos seus parceiros suecos. E a resposta foi, provavelmente, a mais lógica de quem nos olhava de fora: “Estás maluco? O país está em revolução”. A resposta do grego foi exemplar: “Venham ver como fazem a revolução aqui. As pessoas protestam na rua com tambores e bandeiras, às 2 horas da tarde param para almoçar e voltam depois. Se têm medo desta gente civilizada, estão errados”. Resultado: os suecos alinharam no negócio.


É a tradicional bonomia dos portugueses ou, simplesmente, “Portugueses? Porreiros, Pá!”


terça-feira, outubro 04, 2011

O que é a Finança?



Provavelmente a história que hoje vos trago já será conhecida de muitos de vós. No entanto, não resisti a publicá-la, especialmente numa altura em que o mundo se interroga sobre como sair do gravíssimo problema económico/financeiro em que se encontra. Tem que haver uma solução, só que tarda em chegar.


A história é esta:


“Imaginem que um casal chega a um hotel da vossa terra e pergunta quanto custa um quarto para o fim-de-semana.
O recepcionista responde: 100 euros pelos 2 dias.
Muito bem. Responde o cavalheiro. Mas gostaríamos de conhecer as vossas instalações antes de reservarmos. Os quartos, a piscina, o restaurante...
- Não há problema, responde o recepcionista. Os srs deixam uma caução de 100 euros e podem visitar as nossas instalações à vontade. Se não gostarem nós devolvemos o dinheiro.
- Combinado, disse o casal.
Deixaram os 100 euros e foram visitar o hotel.
Acontece que:
O recepcionista devia 100 euros à mercearia do lado e foi a correr pagar a dívida.
O merceeiro devia 100 euros na sapataria e foi a correr pagar a dívida.
O sapateiro devia 100 euros no talho e foi a correr pagar a dívida.
O talhante devia 100 euros à agência de viagens e foi a correr pagar a dívida.
O dono da agência devia 100 euros ao hotel e foi a correr pagar a dívida.
Nisto o casal completou a visita e informou que afinal não vão ficar no hotel.
- Não há problema. Tal como lhe disse, aqui tem o seu dinheiro, devolveu o recepcionista.
Conclusão:
Toda a gente pagou a quem devia... sem dinheiro nenhum.
O casal levou os 100 euros que pagaram todas as 5 dívidas no valor total de 500 euros.
Ponham aqui os olhos e percebam que todo o sistema financeiro, desde que inventaram os números negativos, se tornou uma fraude.
Zero euros pagaram 500 em dívida.
E podíamos continuar indefinidamente”.

A história parece dar razão ao Nobel da Economia de 1976, Milton Friedman, a quem se atribui a frase:
"Não perguntem onde está o dinheiro porque ele não está em lado nenhum!"


segunda-feira, outubro 03, 2011

No sítio errado



Considero que o programa da SIC, o “Peso Pesado”, que ontem começou a sua segunda série, para além de um concurso e do entretenimento que o mesmo suscita, constitui uma chamada de atenção para todos aqueles que têm consciência de ter excesso de peso e demasiado sedentarismo. Programas como este podem ser o alerta que pode fazer mudar alguma coisa na vida de cada um e da sociedade. Neste caso, poderá ser o sinónimo de mais saúde e melhor qualidade de vida.


Ficamos, agora, à espera que apareçam outros programas que “ensinem/transmitam” novas atitudes para uma melhor cidadania. Que levem as pessoas a que, por exemplo, não coloquem o lixo num bebedouro em vez de utilizarem um recipiente próprio. Porque, claro está, cada objecto urbano tem a sua função. O caixote do lixo para o lixo e o bebedouro para nos dar água.


É que na foto que se vê em cima, a rapaziada para não dar mais uns passinhos para pôr o lixo “em su sítio” (ao fundo, não muito longe, está um caixote do lixo) puseram-no mesmo na parte superior do bebedouro. Calculo que tivesse sido muito mais prático mas é extremamente inestético e, obviamente, muitíssimo menos higiénico.


Cidadania precisa-se. Já!



sexta-feira, setembro 30, 2011

Adeus

Voltamos hoje à poesia.



De Eugénio de Andrade “Adeus”



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti

quinta-feira, setembro 29, 2011

Isto é que é um país de Capitais …



Há uns anos dizia-se por graça que os Estados Unidos, por ser um país enorme, tinha não uma mas três capitais: Washington (a capital propriamente dita), Nova York (a capital do mundo, a cidade que nunca dorme) e … Hollywood (a capital do cinema).


Com o passar dos anos os portugueses acharam que não deviam ficar atrás dos norte-americanos. E, mesmo atendendo a que somos um país pequeno e periférico, enchemo-nos de brios e vá de arranjar capitais do que quer que fosse. Não as contámos (para não corrermos o risco de nos enganarmos) mas vejam, por vós próprios, a miríade de capitais que encontrámos num território com pouco mais de 92 mil quilómetros quadrados e cerca de dez milhões de habitantes. Os americanos que se cuidem.


Então vejamos. Só de comidas, bebidas e afins temos capitais:


do moscatel (Favaios), do fumeiro (Vinhais), do folar (Valpaços), da alheira (Mirandela), da cereja (Resende), da maçã de montanha (Armamar), do queijo da serra (Celorico da Beira), do leitão (Mealhada), do caracol (Póvoa da Lomba), do espumante (Anadia), da lampreia (Penacova), do arroz (Montemor-o-Velho), da cereja (Fundão), do chícharo (Alvaiázere), do ovo (Ferreira do Zêzere), do chocolate (Óbidos), da pêra rocha (Bombarral), do vinho (Cartaxo), da sopa da pedra (Almeirim), da castanha (Marvão), do azeite alentejano (Moura), do presunto (Barrancos), da batata doce (Rogil), da sardinha (Portimão), do polvo (Santa Luzia), do marisco (Olhão), do cozido à portuguesa (Canal Caveira), do porco (Montijo), do porco alentejano (Ourique), do vinho verde (Ponte de Lima), do calçado e do vinho verde (Felgueiras) , do vinho verde (Penafiel) - reparem como, ricos que somos, já temos três capitais do vinho verde - a capital universal da chanfana e capital nacional do artesanato e da gastronomia (Vila Nova de Poiares) (três em um), da chanfana (Miranda do Corvo) (outra da chanfana), do arinto (Bucelas) e de outras especialidades que haverá por aí.


Mas temos mais capitais:


do automóvel antigo (Vila Nova de Famalicão), do móvel (Paços de Ferreira), do design (Paredes), da cutelaria (Caldas das Taipas), do granito (Vila Pouca de Aguiar), do barroco (Braga), das águas bravas (Castelo de Paiva), a capital ibérica do rafting (Melgaço), do calçado (São João da Madeira e Ponte de Lima, duas, sendo que esta última também é do vinho verde), do parapente (Linhares da Beira), do saber português (Coimbra), do papel e do livro (Lousã), do vidro (Marinha Grande), da onda (Peniche), da cerâmica e do comércio tradicional (Caldas da Rainha), do comboio (Entroncamento), do cavalo (Golegã), do Gótico (Santarém), do mármore (Estremoz), da cortiça (São Brás de Alportel), do circo (Vila do Conde) e outras que não me vieram à memória.


Curioso o facto de possuirmos tantas capitais (algumas ibéricas e universais) enquanto que Lisboa, a capital política e administrativa do país ainda não mereceu ser reconhecida como a capital de qualquer coisa. Apelo, por isso, para que sejam generosos e façam o favor de reconhecer que pelo menos, pelo menos, poderia ser-lhe concedido o título da capital dos Pastéis de Belém, dos pipis, do fado, dos pastéis de bacalhau ou do … Glorioso.


quarta-feira, setembro 28, 2011

Agora é que vou emigrar …



Este fim-de-semana cheguei ao limite. E, desta vez, não foi só por causa de Alberto João Jardim. A minha vontade era bater em alguém, nos políticos preferencialmente. Mas para não desgraçar a minha vida, preferi tomar a decisão de emigrar. Não sei ainda bem para onde mas estou a pensar em países como o Qatar ou, talvez, o Luxemburgo, que sempre fica um pouco mais à mão.


A vida está difícil e cansei-me de perder, continuadamente, o poder de compra. Quando penso que, no início da última década, Portugal era um país que estava no 34º posto do PIB per capita mais alto do mundo, que em 2010 desceu para a 40ª posição e que, segundo as projecções do FMI, iremos por água abaixo até à 45º lugar em 2016 – dentro de 5 anos apenas – atrás de países como a Estónia ou Antigua & Barbados, que ninguém sabe onde ficam, dá-me vontade de arrancar os poucos cabelos que me restam. Fico como se estivéssemos a jogar uma partida de futebol com o Liechtenstein e eles nos dessem uma cabazada. Uma humilhação de todo o tamanho.


A concretizarem-se as tais previsões, teremos descido 11 lugares em poucos anos, o que significa que nós portugueses, teremos que viver com um rendimento médio de uns modestíssimos 25,8 mil dólares enquanto que os habitantes do Quatar vão conseguir “sobreviver” com uns parcos 103 mil dólares. Quase quatro vezes mais, coitados.


Portanto, Amigos, adios, aufiderzin, goodbye . Depois mando postais. Até ao meu regresso …


terça-feira, setembro 27, 2011

Se houvesse burocracia



Um dos motivos que, ao que dizem, “ajudaram” a Grécia a cair na situação em que está foi a falta de registo de todos os terrenos existentes no país. Não se sabia a quem pertenciam, portanto, nunca foram cobrados impostos, portanto, uma total inexistência de receitas desde sempre. Fez-me impressão pensar que um Estado, ainda por cima pertencente à União Europeia, não estava suficientemente organizado.


Mas, quanto a (des)organização, nem sequer é preciso sairmos deste nosso rincão. A comunicação social noticiou que, até agora, os Governos nunca souberam ao certo quantas Fundações existem em Portugal, quanto custam ao Estado e para que servem. Incrível, não acham? Segundo o Tribunal de Contas serão umas 817 mas a Direcção-Geral do Orçamento afirma que não passarão de seis. Certamente que serão muitas mais que a meia dúzia entre as Fundações nacionais e estrangeiras, de direito público ou privado. E obviamente que, há muito, se deveria saber onde é gasto o nosso dinheiro e de que forma.


Quando se fala em burocracia atribuímos ao termo unicamente a sua pior face, a pejorativa. Mas burocracia é outra coisa. É, para usar uma definição da Wikipédia, “a organização ou estrutura organizativa caracterizada por regras e procedimentos explícitos e regularizados …”. Em suma, a burocracia é organização.


Pena foi que este desconhecimento das Fundações que pululam por todo o país – por desorganização, por falta de burocracia – só agora tenha sido descoberto … pela troika.
É mais uma humilhação que dispensávamos, mas que merecemos.


segunda-feira, setembro 26, 2011

Se calhar o melhor é fazer-lhe a vontade



Estou muito preocupado pelo que está a acontecer na Madeira. O Paraíso do Jardim parece querer desmoronar-se à medida que se vão levantando as pontas do tapete e estão a aparecer as dívidas até agora escondidas. E dívidas que foram sendo contraídas apesar dos vários perdões concedidos pelos Governos da República.


Mas a minha preocupação cresce por ter ouvido Jardim dizer, num primeiro momento, que a Madeira não tinha dívida alguma, para depois admitir que a dívida da região poderá situar-se nos cinco mil e tal milhões de euros. Porém, o CDS-Madeira já afirmou que o “buraco” é superior a 7 mil milhões sem contar com as dívidas das Câmaras e das empresas municipais. Isto para já. Um buraco colossal que irá, inevitavelmente, agravar a já periclitante situação do nosso país.


Claro que Jardim desvalorizou o facto e argumentou - de forma despudorada - que o montante da sua dívida é idêntico ao passivo do Metro do Porto e que, já que tanto se fala dos perdões de dívida da Madeira, gostaria de saber quanto é que foi perdoado aos PALOPS. Argumentos deselegantes e desadequados que pretendem apenas esconder a verdadeira questão: para além da dívida, o que está em causa é o facto de a terem ocultado. E isso constitui um crime previsto no nosso ordenamento jurídico.


Para nós portugueses não basta que a Moody’s já tenha cortado o rating da Região e que mantenha as perspectivas de um novo corte para breve. Não, queremos também exigir que aos sacrifícios que nos têm sido pedidos não se venham juntar os outros decorrentes da megalomania irresponsável de Alberto João Jardim.


Mas porque, como já aqui afirmei, é possível que tudo continue mais ou menos na mesma depois das eleições Regionais do próximo dia 9 de Outubro, se Alberto João, para se ver livre dos “gajos do continente”, quer mesmo a independência do Arquipélago, como afirmou de forma inflamada num comício de campanha nos últimos dias, porque não fazer-lhe a vontade? DÊ-SE A INDEPENDÊNCIA À MADEIRA. JÁ! Depois de 30 anos de lhe estendermos a mão – subservientes e temerosos – é tempo dos portugueses do Continente, dos Açores e muitos da própria Madeira, dizerem bem alto – ESTAMOS FARTOS! BASTA!

sexta-feira, setembro 23, 2011

O jogo do prego



Acabo a semana com um toque de saudosismo. Recordo tempos em que miúdos e graúdos gostavam de se entreter na praia com uma coisa a que chamavam o “jogo do prego”. É verdade, outras épocas em que pais, filhos e amigos, para além da bola, gostavam, também, de jogar ao prego. Muitos de vós, possivelmente, nunca terão ouvido falar em tal. “Pregos”, quando muito, serão para comer ou para “pregar” na madeira.


Pois é, os criativos de então pensaram que com um simples prego grande de cerca de 15 a 20 centímetros (conhecido tecnicamente por cavilha) a família poderia divertir-se em conjunto com um jogo que era barato e democrático e que tinha regras muito simples, apenas exigindo alguma habilidade.


E em que é consistia tão rudimentar e primitivo divertimento? Basicamente, cada jogador (aqui havia várias versões, os mais abastados tinham um prego para cada jogador enquanto que os pobrezinhos utilizavam todos o mesmo prego), tentava, à vez e com movimentos pré-estabelecidos, espetar o prego na areia seca ou molhada. Pelo que era necessário ter técnica, imaginação e treino para que cada um somasse mais pontos do que os adversários. Até à vitória final.


Era assim que, durante horas, familiares e amigos se entretinham pacatamente e – isto é muito importante – sem incomodar quem estivesse nas redondezas. Não havia o perigo, como agora acontece, de sermos atropelados por talentosos e irresponsáveis futebolistas de praia nem se ouvia aquele irritante barulho das raquetas a jogar bolas, antes que elas – fatalmente – nos venham atingir.


Enfim, eram outros tempos.


quinta-feira, setembro 22, 2011

Os Imigrantes



Parece que ainda estou a ouvir a indignação dos nossos patrícios quando, há uns anos, começaram a chegar os imigrantes que vinham à procura de um país rico (o nosso) onde esperavam ter as oportunidades que lhes permitissem um melhor nível de vida do que tinham nos seus países de origem. Clamavam, então, contra os ucranianos (e os dos restantes países de leste), contra os africanos e contra os brasileiros que lhes vinham roubar os empregos, os mesmos empregos que nós recusávamos por serem de menor qualificação e pior remunerados. E o tom do descontentamento foi crescendo à medida que o desemprego foi subindo e nós começámos a precisar desses mesmos lugares para os nossos. Esqueceram-se, porventura, que os portugueses, em condições idênticas, também emigraram para a Europa, para as Américas e para o Brasil a partir da década de 60 do século passado onde íamos assegurar os serviços que os de lá não queriam fazer.


Só que o eldorado sonhado foi-se desmoronando e embora ainda cá vivam muitos imigrantes, o número tem decrescido notoriamente, sobretudo no que diz respeito aos brasileiros que regressam ao seu país por sentirem que é lá que poderá estar o seu futuro.


Mas para aqueles que suspiram de alívio com a partida de quem tanto deu á nossa economia e demografia, que pagaram impostos e descontaram para a nossa Segurança Social eu lembro – e falo em particular dos brasileiros – o jeito doce e simpático com que nos atendiam nos cafés e restaurantes, de um modo bem diferente daquele a que estávamos habituados.


Como escrevia recentemente a jornalista Clara Ferreira Alves “Os imigrantes trazem consigo o cheiro da viagem e dos novos costumes e tradições, a integração é um enriquecimento cultural”. Com a sua partida também nós perdemos.


quarta-feira, setembro 21, 2011

E, então, acabar-se-ão os problemas …



Acabei há pouco de ouvir a entrevista que o Primeiro-Ministro Passos Coelho concedeu à RTP. No essencial nada disse de novo. Reafirmou que o país está numa situação difícil, que as soluções não abundam e não disse, mas nós sabemos, que para as medidas que estão a ser avaliadas, ninguém consegue assegurar que venham a ter sucesso. Foi então que …


Sinto acanhamento em falar das ideias brilhantes que me vêm à cabeça, mas tenho que vos dizer que, se calhar, encontrei a “SOLUÇÃO!”.


Na verdade, há muito que percebemos que o número de nascimentos no mundo dito desenvolvido tem vindo a baixar drasticamente. Segundo o “The Economist”, se não houver uma inversão desta tendência, Portugal será um dos países que mais rapidamente chegarão ao grau zero de população. Aliás, depois de Macau e de Malta, lá para o ano 3000 desaparecerão os portugueses. Portanto, já não faltam muitos anos para que se registe a desertificação deste país de longa História, o que, na presente conjuntura, até pode ser considerado um factor positivo. Vejamos:


Renegociam-se já as nossas dívidas, empurram-se os problemas até lá mais para a frente e espera-se de quem cá estiver a partir do ano 3000 – isto é, NINGUÉM – que feche a porta. Afinal, faltam menos de 990 anos e o tempo passa a correr. Não acham uma ideia fantástica?


terça-feira, setembro 20, 2011

Afinal não será bem como dizem …



Quando, nos últimos dias, veio a público que a electricidade ia aumentar 30% a partir do próximo mês de Janeiro, os portugueses arrepiaram-se. Depois de termos sido “assaltados” recentemente com a subida do IVA sobre a electricidade, o anúncio deste novo aumento, ainda por cima sugerido pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), soou-nos a mais uma obscenidade.


Que não, que não, apressou-se a esclarecer a ERSE, “tudo o que dizem é meramente especulativo” porque a proposta de aumento ainda estava em avaliação.


Uns dias depois, o primeiro-ministro Passos Coelho avisou, já no final do debate quinzenal no Parlamento, que "as tarifas da electricidade deverão subir 32% em 2012", caso não sejam tomadas medidas urgentes. Um alerta que, no entanto, passou despercebido à maioria dos portugueses.


Conhecemos bem este filme de tanto o termos visto. Quando se pretende aumentar qualquer coisa, primeiro fala-se numa percentagem muito elevada, depois diz-se que, afinal, os valores não vão ser assim tão grandes e o resultado acaba por ser um aumento significativo, só que não tão alto como o anunciado no início. É ou não é assim? Preparem-se.