sexta-feira, julho 08, 2011

Nada me faltará

Penso que todos, e de todos os quadrantes políticos, são unânimes na admiração que tinham por Maria José Nogueira Pinto. Sempre a considerei uma mulher íntegra e de convicções que, independentemente das ideologias, lutava por aquilo em que acreditava. Ela morreu. Presto-lhe uma singela homenagem transcrevendo a última crónica que escreveu, publicada no Diário de Notícias. Uma crónica de grande dignidade e coragem:


“Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.”


quinta-feira, julho 07, 2011

Uma idosa teve direito a um acréscimo de 1 euro por mês na sua pensão

A história que vos recordo hoje, está na ordem do dia e só prova, a quem dúvidas tivesse, que o Estado é pessoa de bem. Conta-se em duas palavras.


Joana Sampaio é uma senhora de 88 anos que vive na freguesia de Delães, perto da Marinha Grande. Por ter toda a vida trabalhado na agricultura recebe agora uma merecida e generosa pensão de … 299 euros. Mas a Segurança Social, sempre atenta, informou a senhora que teria direito a receber o chamado Complemento Solidário de Reforma, bastando para isso que iniciasse um processo de candidatura que devia incluir as declarações de IRS dos seus seis filhos. Nada mais fácil, pois, para poder acrescentar aos seus rendimentos o simpático montante de 1 (um) euro. Leram bem, a D. Joana poderia assim, de um momento para o outro, receber de mão beijada e sob sugestão da própria Segurança Social, mais 1 euro todos os meses. Mas …


Como em outras histórias, esta também tem um lamentável mas. Como se não fosse, já de si, ridícula a verba atribuída, a Segurança Social só efectuará o pagamento quando o valor atingir um mínimo de cinco euros. Quer dizer, de cinco em cinco meses vai ser enviado um chorudo cheque de 5 euros. Uma fortuna. Se bem que, após ter iniciado o processo de candidatura, em Fevereiro de 2008, ainda não tivesse recebido qualquer cheque. Quer dizer, regras são regras mas o raio das burocracias às vezes tem destes imponderáveis.


De qualquer forma, apraz-me registar duas coisas: a primeira é que, como já referi, o Estado, mesmo em contenção, não esquece os seus cidadãos e, a outra, é que o mesmo Estado está atento aos exageros que os cidadãos cometem quando o dinheiro abunda. Daí que dê mas parcimoniosamente. Como neste caso, em que algum responsável de pacotilha deve ter pensado: “D . Joana tome lá mais um euro por mês mas cuidado, não se alambaze”.


quarta-feira, julho 06, 2011

As falsas receitas médicas

Há dias quando conversava com um médico amigo falei-lhe, à laia de provocação, no caso das falsas receitas médicas, do crime de milhões de euros que está ainda a ser investigado. Ele não me deu grande saída, disse que em relação às vinhetas elas são facilmente falsificáveis mas percebi que a situação não lhe era confortável porque toda a classe médica estava sob suspeita, ele incluído.

Sobre a fraude em si mesma espero que os peritos consigam chegar a conclusões mas, como cidadão, não posso deixar de me espantar com a inexistência de controlos ou, a existirem com a sua falta de eficácia que permite que aconteçam coisas absolutamente extraordinárias, como por exemplo, a de um só médico ter passado 2400 receitas por mês, ou seja, 120 por cada dia útil, num total de 32 mil por ano.

Falha de controlo essa que admite também que médicos partilhem o mesmo número de cédula profissional, ou que médicos tenham 3 cédulas profissionais com números diferentes ou, ainda, que médicos que já morreram continuem a passar receitas. E o que dizer das vendas de medicamentos fictícias a doentes já falecidos?

Um conjunto de ilegalidades que levam a que, só em 2010, a fraude tenha atingido nada menos do que 40% da despesa do Estado com medicamentos. É obra.

Mas se não pretendo usar a ironia para realçar a magnífica performance de um médico que, só à sua conta, consegue prescrever 120 receitas por dia nem para me dizer perfeitamente atónito com a capacidade de clínicos já falecidos que continuam a passar receitas, quero, todavia, manifestar a minha mais profunda indignação por constatar que este tipo de fraudes continua a verificar-se apesar da existência de sistemas informáticos sofisticados. Até quando?

terça-feira, julho 05, 2011

Uma alforreca chamada Passos



Acredito que todos saibam o que é uma alforreca. O que não sei é se saberão quem é João Gonçalves, o actual adjunto político de Miguel Relvas, o Ministro dos Assuntos Parlamentares. Eu não sabia, confesso.

Pois João Gonçalves é o autor de um blogue muito conhecido que escreve umas coisas um tanto ou quanto “inconvenientes” e que lhe poderiam causar alguns amargos de boca. Neste caso, porém, não se deu mal.

Vejamos, então, alguns dos comentários (que transcrevo do Expresso desta semana) que fez sobre o actual Primeiro-Ministro:

Quando há nove meses Passos Coelho apresentou uma proposta de revisão constitucional, João Gonçalves escreveu: “Insensível ao curso da realidade, tal qual uma alforreca perdida com a mudança das marés e das correntes. Passos deu à costa com um tema perfeitamente escusado, mal explicado e sem o menor interesse. Passos já vai na terceira ou quarta oportunidade e ainda não conseguiu uma primeira boa impressão. Palpita-me que tem um lindo futuro atrás dele”.
Em 2010, depois de ver uma entrevista de Passos Coelho à RTP, Gonçalves desabafava: “dói-me a tola. Passos provoca enxaqueca porque aquilo é Sócrates sem os anos de palco que Sócrates leva … oscila entre o velho cacique da jota e o antigo candidato à Câmara da Amadora, numa gravitas que cheira a falso”.
Numa outra entrevista em Dezembro de 2009, comentou: “Reparem na clareza dos lugares-comuns facilmente parafraseáveis por um qualquer Secretário de Estado da nomenclatura de Sócrates. Reparem na subtileza digna de um mediano treinador de futebol”.

Ao longo dos tempos, João Gonçalves foi bastante agressivo com Pedro Passos Coelho e com o próprio Miguel Relvas, de quem agora depende. Mas a verdade é que a vida dá muitas voltas e os “encontrões” que Passos Coelho levou do bloguista parecem não o ter ofendido, nem sequer quando lhe chamou alforreca. Afinal as alforrecas vivem no mar e Portugal é um país de marinheiros …

segunda-feira, julho 04, 2011

Necessito ver resultados. Só a mudança de tom não chega



Já se via por aí muita gente a bater palmas ao novo Governo. Provavelmente pela forma discreta como se organizaram, pela juventude dos seus membros que deixava antever a ausência de vícios que se conheciam aos anteriores e, sobretudo, pela esperança de uma mensagem que apontasse para uma maior transparência. A tal “verdade ao povo” que o povo tanto ansiava.

Mas as palmas têm vindo a diminuir desde o debate do programa de Governo que foi efectuado na Assembleia da República na semana passada. Não porque esse primeiro encontro tivesse sido marcado por toda aquela crispação a que nos habituámos nos últimos anos. Ao contrário, houve uma calma e uma civilidade muito grande e uma enorme mudança de tom. Possíveis, penso eu, pela expectativa da oposição mas, também, pela postura que os novos ministros apresentaram. Muitos deles tão serenos que pareciam pedir desculpa por estarem ali.

Mas, então, por que é que as palmas têm vindo a abrandar? Principalmente porque a mudança de tom não é, por si só, suficiente e as “mentirinhas” que já conhecíamos a outros executivos começaram a aparecer. Pois não foi este Primeiro-Ministro que garantiu há poucos meses que, a aumentar os impostos só o faria sobre aqueles que penalizassem o consumo e nunca os dos rendimentos? Pois foi e aí está, preto no branco, o imposto extra sobre o subsídio de Natal que vai afectar uns largos milhões de portugueses. Na senda de Guterres, de Durão Barroso e de Sócrates, também Passos Coelho prometeu e não cumpriu.

Mas há uma coisa que me deixa ainda mais perplexo. Como justificar que se tenha aberto uma crise política e derrubado um governo a pretexto de que o famosíssimo PEC 4 não resolvia os problemas do país e, nomeadamente, com o argumento de que não havia motivos para que um pacote daqueles viesse a castigar ainda mais os portugueses? E o que se verifica, é que a nova maioria, uma vez no poleiro, apresenta um programa (chamemos-lhe PEC 5) que responde ao memorando assinado com a troika (pudera, tinha que ser) mas é ainda mais arrojado e mais penalizador para os cidadãos do que o outro que tinha sido rejeitado.

Até agora, o único apontamento positivo (se é que se pode considerar assim) consiste na mudança de tom. Aparentemente há mais serenidade e maior abertura para responder aos adversários mas, quanto ao resto, fico à espera. É que eu, ao contrário de muito boa gente, não costumo avaliar as pessoas apenas pela simpatia ou pela escolha das gravatas ou dos adereços que utilizam. Necessito ver resultados e esses (para além do 13º) ainda levam algum tempo a chegar. É que a procissão ainda vai no adro…


sexta-feira, julho 01, 2011

A minha tragédia




Do poeta português Al Berto (1948 – 1997) “A minha tragédia”


Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

quinta-feira, junho 30, 2011

TGV – O desastre anunciado



Ainda há pouco, o Governo de José Sócrates jurava a pés juntos que o TGV iria mesmo ser construído, desse por onde desse, tanto mais que os espanhóis estavam já a construir a ligação de Madrid até Badajoz. Que não, que não, gritava a oposição, que não tínhamos dinheiro para tais desvarios e que isso seria um desastre completo.

Vieram as eleições e agora, com Passos Coelho, o programa de Governo, que irá ser discutido na Assembleia da República hoje e amanhã, contempla a decisão de “Suspender o projecto de “Alta Velocidade Lisboa – Madrid”. Ora, com a possível suspensão imediata do projecto em Portugal e a continuação da construção do lado espanhol, não se correrá o enorme risco dos TGV’s virem a toda a velocidade de Madrid e travarem de repente junto a Badajoz. Já imaginaram o desastre?

Pronto, estalou a bronca e como seria de esperar “nuestros hermanos” vão-nos pedir explicações sobre a suspensão do TGV em Portugal. Tanto mais que esta decisão acontece a poucos meses da União Europeia decidir sobre as novas linhas transeuropeias prioritárias e, calculem lá, a linha entre Lisboa e Madrid é precisamente uma dessas linhas prioritárias.

Perante isto, digam lá se eu tenho ou não razão para dizer que o TGV é um desastre anunciado?

quarta-feira, junho 29, 2011

Silêncio quebrado



Há poucos dias li no Jornal de Notícias um artigo de Manuel António Pina - jornalista e escritor, galardoado este ano com o Prémio Camões – em que escreve sobre o famoso caso do “copianço do CEJ”, assunto sobre o qual publicámos um texto na sexta-feira dia 17 de Junho.

Dizia Manuel António Pina:


“Ao contrário do que foi dito quando veio a público o escândalo do "copianço" no CEJ, o caso não é "pontual". Acompanhei de perto um curso anterior em que o "copianço" era frequente e a política seguida por certos (insisto: certos) dos então responsáveis do CEJ a de esconder esse lixo debaixo do tapete.
Alguns professores abandonavam as salas durante os testes confiando a vigilância à honestidade de cada formando. O problema era que a honestidade de alguns (hoje nos tribunais a acusar e julgar casos de fraude) nem sempre era a expectável em futuros magistrados.
Existem nos arquivos do CEJ documentos demonstrando o que aconteceu a uma formanda que quebrou a lei da "omertá" e se referiu ao assunto durante um encontro na presença do desembargador coordenador da sua formação. Na sequência disso (decerto por coincidência), passou a ser sujeita a humilhações e discriminações de toda a ordem e "avaliada", em relatórios escritos, por coisas como fumar, almoçar sozinha, ter "pré-juízos" em relação às leis de protecção animal (pois teria gatos) e a direitos de autor (pois publicara obras literárias), culminando tudo num relatório final do mesmo desembargador, feito com base em quatro (repito: quatro) trabalhos, escolhidos a dedo entre os mais de 500 que realizara, que a forçou à desistência.
Talvez a formação de futuros magistrados seja coisa séria de mais para estar entregue a certos actuais magistrados”.


Preocupante, no mínimo …


terça-feira, junho 28, 2011

Estado esconde pensões políticas



Quem costuma aparecer por aqui, no “Por Linhas Tortas”, já deve ter reparado que, amiúde, escrevo sobre a (falta de) transparência da vida pública. Não é defeito, é feitio. A verdade é que fico danado quando sei de situações em que os dinheiros públicos são mal geridos, mal gastos ou quando nos querem tomar por parvinhos.

Como aconteceu agora com esta história do Estado não querer divulgar as pensões políticas. Que raio de ideia foi esta? Quem foi o iluminado que determinou que devem ficar secretos os nomes dos políticos que pedem ao Estado a atribuição da pensão mensal vitalícia?

Aliás, eu até sei de onde isto veio, foi uma determinação da Comissão Nacional de Protecção de Dados, um organismo que é presidido por uma pessoa eleita pelos deputados da Assembleia da República. O que não sei é a razão que levou a CNPD a esconder os nomes dos políticos que beneficiam da pensão vitalícia, os que têm subsídio de reintegração (aqueles que cessam as suas funções e ficam no desemprego) e qual o valor desses subsídios.

Não seria bom, a exemplo do que faz a Caixa Geral de Aposentações que publicita o nome de todos os funcionários que se aposentam e a pensão com que ficam, que fossem divulgados os nomes dos políticos que beneficiam de pensões ou subsídios? Ou será que há alguma coisa que não queiram que se saiba? Que segredos são esses? É por estas e por outras que escrevo tanto sobre a transparência da coisa pública.



segunda-feira, junho 27, 2011

Não havia necessidade …

Quando Passos Coelho afirmou em tom firme que nas deslocações à Europa ele e o seu governo passariam a utilizar a classe económica dos aviões, o país bateu as mãos de contente e disse “até que enfim, temos um Primeiro-Ministro que começa por dar o exemplo nas poupanças”. Via-se nesta atitude um bom começo. Afinal, pedem-nos permanentemente sacrifícios e sabe bem ver que o exemplo vem de cima.

Só que Passos Coelho se esqueceu dum pequeníssimo pormenor. É que, ao contrário dos tempos da outra senhora em que todas as notícias eram escamoteadas pelo lápis azul da censura, hoje tudo vem a público, mais cedo ou mais tarde. E assim ficou-se a saber que a TAP dispensa os ministros e secretários de Estado de qualquer despesa em deslocações oficiais. O que, de resto, já acontecia com todos os membros do anterior Governo. Ou seja, embora o PM pretendesse mostrar que a moralização e contenção das despesas começava por ele próprio ao trocar, na ida a Bruxelas para participar no seu primeiro Conselho Europeu, a classe executiva pela económica, a verdade é que ele trocou o nada pagar pelo não pagar nada. Poupou zero.

Teria sido um sinal, dirão alguns. Marketing político, digo eu que já estou, há muito, acostumado a esquemas deste tipo. Habituado e farto de viver “na terra dos sonhos”, como na canção do Jorge Palma ou “na terra das trapaças” como sentimos todos nós.

Mas, se querem saber, interessa-me pouco se a rapaziada viaja em executiva ou não. Preocupam-me mais as medidas que vão ser anunciadas em breve e que, essas sim, vão ser o sinal de como vamos sofrer as agruras da austeridade anunciada. O resto é o costumado populismo das afirmações, o entusiasmo de quem se entretém na discussão das coisas pequenas.

Ainda assim, o que se passou, leva-me a colocar duas questões:
1 – Justificar-se-á que a TAP não seja paga pelas passagens dos governantes? Eu sei que o custo sairia dos cofres do Estado para entrar nas contas da TAP (igualmente do Estado). Mas, apesar disso, se tudo se passasse como se o Governo fosse “um cliente normal”, e as verbas fossem imputadas nos sítios certos, estou em crer que haveria maior transparência e rigor nas despesas efectuadas por cada organismo. O controlo seria mais eficaz.
2 – Para que é que Passos Coelho anunciou uma medida que, na prática, já era seguida? Isto é, Passos não poupou dinheiro porque o Governo não paga bilhetes na TAP. Que coisa foi esta, então? É que não havia necessidade …

quarta-feira, junho 22, 2011

Chumbos só com a autorização dos paizinhos

Bem, eu nem queria acreditar quando li no “Diário de Notícias”: "Chumbar duas vezes só com autorização dos pais”. Tanto mais que o texto explicitava que “Para reter um aluno mais do que uma vez no mesmo ciclo, os encarregados de educação têm de autorizar”.

O quê, então os alunos estão-se a borrifar para os professores e para o que eles ensinam e os meninos, mesmo assim, vão-se safar do chumbo porque contam com a almofada de segurança dos paizinhos? Está tudo doido, é o que é.

E embora os representantes dos encarregados de educação digam que “os encarregados de educação devem ser escutados e responsabilizados pelos filhos”, o que se compreende e aplaude, já não consigo entender por que é que as escolas têm dificuldade em chumbar os alunos (que o merecem) caso os encarregados de educação não autorizem os ditos. Parece-me haver uma grande contradição. E há mesmo uma questão de princípio que eu gostaria de ver clarificada. São os encarregados de educação que devem ser escutados ou são eles que têm que ouvir o que os professores têm para dizer dos seus filhos – as críticas, as chamadas de atenção e as sugestões que entendam necessárias fazer?

E, naturalmente, surge a pergunta: E este imbróglio acontece porquê? Por medo, por cobardia ou, simplesmente, pelo facto de quererem atingir os objectivos a qualquer custo?

Com procedimentos destes já não fico admirado com o que aconteceu com o copianço generalizado dos alunos do curso de auditores de Justiça do Centro de Estudos Judiciários, a que nos referimos na passada sexta-feira. É que os exemplos já vêm de há muito.


terça-feira, junho 21, 2011

O voto obrigatório



Agora que um novo governo vai assumir funções e que não há eleições à vista (espera-se) é tempo de reflectir sobre se o voto deve ser, ou não, obrigatório. E, como sabem, há por aí quem defenda que deve ser. Se calhar está mesmo na hora das pessoas (do povo) dizerem o que querem de facto para o seu país, de assumirem a responsabilidade da escolha dos seus representantes em vez de andarem permanentemente a dizer mal dos políticos e das medidas que eles tomam. Seria interessante iniciar o debate em torno do voto obrigatório.

Mas há um porém. Em consciência, e face aos consecutivos resultados eleitorais conhecidos, poderemos acreditar que os eleitores exercem o seu direito de forma consciente? Inúmeras reportagens apresentadas nos meios de comunicação parecem inferir que não. Muitos das pessoas desconhecem quem concorre, que partidos representam e que programas propõem. Apesar disso votam. Porque os candidatos são simpáticos? Porque falam bem e dizem as coisas que nós queremos ouvir? Porque votando neste, apenas estão a afastar o outro? Como explicar que aqueles que são economicamente mais desfavorecidos, depois de ouvidos os debates e de terem participado em comícios, votem em partidos da direita liberal, a mesma direita que nos atirou para o atoleiro em que nos encontramos? Por fezada, por convicção, por ideologia ou por inconsciência?


Gostaria que se promovesse o tal debate. Mais, gostaria que o voto fosse obrigatório com sanções previstas para quem não o exercesse. E gostaria muito que cada eleitor fosse sujeito a um processo de certificação. Como se faz nas empresas. É o mínimo que se exige. Só certificado, o eleitor poderia votar. Pelo menos para que perante certas cenas a que assistimos não continuássemos a perguntar: “O quê, mas este tipo também vota?”


segunda-feira, junho 20, 2011

Será que os Deuses estão loucos?

A Academia Brasileira de Letras é uma instituição que remonta ao final do século dezanove e é composta, desde sempre, por escritores e intelectuais brasileiros e por sócios estrangeiros com nomes sonantes como é o caso do moçambicano Mia Couto ou da nossa Agustina Bessa-Luís. Como se percebe, é uma instituição muito respeitável apesar de – e no melhor pano cai a nódoa – nunca lá terem sido acolhidos personalidades tão distintas como Carlos Drumond de Andrade, Vinícius de Moraes ou Eríco Veríssimo.

Olhando, portanto, a sua História, a natureza das suas actividades e o alto gabarito dos elementos que a integram, todos ficámos estupefactos com a atribuição da sua mais alta distinção ao futebolista Ronaldinho Gaúcho, perdão ao Doutor Ronaldinho. Um jogador de futebol que é, sem dúvida, um excelente executante do seu mister mas que, quanto a letras, basta dizer que ele próprio admitiu que não gosta lá muito de ler.

Podiam tê-lo condecorado por ser o melhor jogador de futebol do Brasil, por ser um exemplo para a juventude, por ser o tipo mais simpático e com o sorriso mais cativante do Universo. Mas não, deram-lhe a medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, a mais alta distinção da “inteligência brasileira”.

O prémio oferecido ao craque não faz qualquer sentido e constitui até um desencorajamento para escritores, pensadores e para quem gosta da língua portuguesa. Ocorre-me perguntar “ Será que os Deuses estão loucos?”.

sexta-feira, junho 17, 2011

Viv’ó o copianço

Provavelmente só uma pequena percentagem de miúdos não terá recorrido ao copianço em testes e exames em alguma fase dos seus estudos e numa ou outra matéria de maior dificuldade. Sempre foi assim ao longo de gerações e sempre se deu um “desconto” à batota que os jovens eram tentados a fazer, por vezes de forma muito engenhosa. Há até quem defenda que, de certo modo, a elaboração dessas cábulas eram, para alguns, a única altura em que estudavam.


Mas para tudo na vida há um tempo. E se existem certas atenuantes para tais artimanhas nos adolescentes, não podemos condescender da mesma forma quando o nível de exigência se encontra num patamar mais alto. Com a evolução dos tempos abandonaram-se as tais cábulas mais ou menos artesanais a que muitos professores faziam vista grossa, para se passar a um processo de copianço generalizado dos alunos, quando não ao plágio puro e duro. Situações que são completamente inaceitáveis.


Como a que foi ontem noticiada, dando a conhecer que alunos do curso de auditores de Justiça do Centro de Estudos Judiciários tiveram um teste em que se verificaram factos estranhos como “a existência de respostas coincidentes em vários grupos”, “respostas muito parecidas ou mesmo iguais” ou que “todos os alunos erraram em certas questões”. Aliás, ao que parece, numa das questões mais difíceis ninguém falhou. Ora aí está, ou houve uma coincidência rara ou registou-se um copianço descarado dos futuros magistrados.


É verdade que, perante tamanha escandaleira, a direcção do CEJ anulou o teste em causa mas … decidiu atribuir aos auditores de Justiça a classificação final de 10 valores em “Investigação Criminal e Gestão de Inquérito”. Isto é, anulou o teste mas passou-os. E passaram também como que uma borracha por cima da fraude que cometeram e ficou tudo bem.


Perante isto, pergunto: admite-se que pessoas que irão ser o garante da justiça nos tribunais sejam exactamente os primeiros a prevaricar e de forma tão soez? E o que dizer da atitude do CEJ? O mínimo que se exigiria é que o teste fosse anulado - e foi, e que o processo voltasse ao início para se proceder a uma correcta avaliação dos formandos - e não foi, por enquanto, embora haja uma proposta para que os magistrados que foram apanhados a copiar tenham que repetir o exame. Mas só para aqueles que foram apanhados em flagrante delito.


Em resumo, para além de termos uma justiça cara, não acessível a todos e lenta, corremos também o perigo de ter profissionais mal preparados. É injusto e é preocupante!


quinta-feira, junho 16, 2011

Pois, pois …



A notícia, apresentada como científica, já foi divulgada há algum tempo mas acho que passou um pouco despercebida. Por desatenção de alguns e por interesse de outros.


Segundo os cientistas da Universidade de Riverside (California, USA), existe uma relação directa entre o trabalho que os homens efectuam em casa e a frequência das relações sexuais. Por outras palavras, quanto mais tarefas domésticas os homens fizerem mais felizes estarão as mulheres e …


Será mesmo verdade ou tudo isto não passa de uma artimanha delas para levá-los a participar nos trabalhos em casa?


Só para que conste, eu lavo a loiça, limpo o pó, aspiro, lavo as casas de banho e cozinho que me farto. Ah, e acho que os cientistas americanos da Universidade de Riverside estão cobertíssimos de razão …


quarta-feira, junho 15, 2011

São rosas, senhores …



O pessoal de cabine da TAP desconvocou a greve que estava anunciada para Junho e Julho. E ainda bem. Independentemente das razões que assistam aos trabalhadores, esta não seria certamente a melhor altura para uma acção de luta desse tipo. São meses em que tradicionalmente viajam muito mais pessoas e, não menos importante, a TAP está a preparar-se para a privatização. Necessita, por isso, de mostrar credibilidade e alguma ordem interna.


Mas se já não há greve porque carga de água é que eu fui buscar o assunto? Simplesmente para recordar a iniciativa de uma companhia aérea concorrente, a Ryanair, que enviou 10 rosas ao Sindicato da Aviação Civil para celebrar os anunciados 10 dias de greve da TAP. Um agradecimento antecipado pela possibilidade dos passageiros da TAP poderem vir a aumentar o negócio da companhia aérea irlandesa ao utilizar os seus aviões.


Resta a dúvida, a acção deveu-se a puro cinismo ou simplesmente a uma original campanha comercial?


terça-feira, junho 14, 2011

Voltemos à terra

Já passaram alguns dias e continuo a ter presente as palavras do Presidente da República em Castelo Branco nas comemorações do 10 de Junho. Não, desta vez, não lhe chamou o “Dia da Raça”, como o fez em 2008, mas aproveitou para exortar os portugueses a voltarem à terra, à agricultura. E com razão, digo eu, tal é o envelhecimento do sector e o facto de sermos muito deficitários em matéria alimentar.


Porém, o que achei curioso é que essas palavras que verdadeiramente traduzem uma das nossas maiores necessidades do ponto de vista económico, fossem proferidas pela boca de Cavaco Silva que era o primeiro-ministro de Portugal logo após a nossa adesão à então CEE, em 1986. O mesmo Cavaco que ajudou a destruir a nossa agricultura em troca de fundos comunitários para a construção de auto-estradas. Um discurso que, segundo alguns, soou um tanto ou quanto a remorso.


A memória é curta, bem sei, e muitos já se terão esquecido disso mas a verdade é que no início da década de 90, não só não se modernizou a agricultura aproveitando os generosos subsídios que recebíamos da Europa como, pelo contrário, se distribuíram tentadores incentivos à sua destruição.


Dizer agora que o sector agrícola é fundamental e é nele que se deve investir para a futura sustentabilidade do país parece-me óbvio. Pena foi que quem nos governava então se tivesse curvado perante outros interesses e não tivesse tido a necessária visão estratégica de futuro. Hoje a coisa seria completamente diferente.

quinta-feira, junho 09, 2011

“Eu adoro-vos”

Para quem julgava que José Sócrates era um homem desprovido de sensibilidade, duro, frio, calculista e egocêntrico tenho a dizer que se enganaram redondamente. Podem ter todas as razões contra ele, podem até ter razão em ter razões mas na terça-feira passada – 7 de Julho de 2011 – ficou inequivocamente demonstrado que o ainda Primeiro-Ministro tem coração e sentimentos. Como ficou provado, aliás, na mensagem curta que proferiu na reunião da Comissão Nacional do Partido Socialista quando deixou aos seus companheiros de partido um emotivo “Eu adoro-vos”.


Foi um balde de água fria para os seus detractores. Vão persistir em dizer que Sócrates continua, como sempre foi, arrogante e a olhar apenas para si próprio? Deixem-se de tretas, engulam as vossas línguas venenosas e concedam, pelo menos desta vez, que ele foi sincero ao dizer como gostava dos seus camaradas. E pensem também que muitas dessas pessoas do partido alguma vez já foram eleitos com os vossos votos. Portanto, Sócrates, disse naquele momento, que também vos adorava.


Conclusão: o “animal feroz” é mesmo um sentimentalão. Não se esqueçam disso e esperem porque … ele vai voltar.

quarta-feira, junho 08, 2011

Entre abelhas e ventos de mudança


Desde que o “Por Linhas Tortas” foi criado, a sua linha editorial, chamemos-lhe assim, nunca privilegiou os meus gostos partidários ou clubísticos. São assuntos meus e, como tal, reservo-os para as minhas próprias reflexões.


Contudo, não me coíbo de comentar ou divulgar factos e aspectos que, mesmo podendo estar no âmbito daquelas matérias, possam suscitar alguma curiosidade. Como os que passo a relatar, ocorridos no último domingo, dia de eleições legislativas.


Na freguesia de Cabril, concelho de Castro Daire, a população, devido ao estado miserável em que se encontra a estrada nacional 225, decidiu boicotar a sala da votação e, assim, barraram a porta do edifício da junta de freguesia com pedras e barrotes de madeira logo depois de terem colocado no interior um enxame de abelhas para impedir o acesso dos eleitores à sala. Bem se poderia dizer, neste caso, que as abelhas que nos dão o mel não gostam lá muito de eleições.


Mas da noite do último domingo a frase de que eu mais gostei não esteve presente nos discursos dos líderes dos partidos concorrentes às eleições. Saiu da boca do conhecido humorista Ricardo Araújo Pereira, no programa “O Governo Sombra” da TSF. Dizia assim:


“… Eu venho para celebrar porque perdeu o partido que pôs Portugal na bancarrota e ganhou o partido que aprovou o Orçamento, o PEC I, II e III do partido que pôs Portugal na bancarrota. Perdeu o partido que se comprometeu com a troika e ganhou o partido que se comprometeu com a troika. O que eu pedia é que fechassem a janela que eu não aguento tanto vento de mudança …”.



terça-feira, junho 07, 2011

O exemplo nem sempre vem de cima


Portugal, à semelhança de outros países periféricos, e não só, tem pela frente, e com calendário já definido, uma montanha de problemas para resolver. Não há dinheiro (não há mesmo, acreditem) e, sem ele, a solução para esses problemas torna-se ainda mais difícil. O novo governo que vai gerir o nosso país vai ter que “inventar” formas de, entre outras (muitas) coisas, pôr a economia a crescer e o emprego a aumentar, ao mesmo tempo que pagamos os milhões que devemos. Mas, meus Amigos, no fundo, no fundo, é connosco que o governo conta. Com o nosso trabalho, com a perda cada vez maior de regalias sociais, com a redução de salários e com o aumento de impostos, directos e indirectos. Não nos iludamos.


Mas perante a inevitabilidade de tão alto grau de sacrifícios e das medidas draconianas pedidas aos cidadãos, como entender que a Comissão Europeia (que não foi lá muito generosa com Portugal na ajuda que nos estão a prestar) se tenha decidido por um aumento de 4,9% no seu orçamento já depois de terem sido tornados públicos os montantes que os seus deputados gastaram despudoradamente em viagens, hotéis, festas e outras despesas de luxo?


Pelos vistos, a Comissão Europeia desconhece o velho provérbio “O exemplo deve vir de cima”.



sexta-feira, junho 03, 2011

Cântico da Esperança



E acabamos a semana com um poema de Rabindranath Tagore (1861 – 1941), um poeta, romancista, músico e dramaturgo indiano. Os seus versos são profundamente sensíveis, frescos e belos. Tagore foi o primeiro não-europeu a conquistar, em 1913, o Nobel da Literatura.


Cântico da Esperança

Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão cobarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso!


quinta-feira, junho 02, 2011

Eufemismos


Nestas últimas semanas e, sobretudo, desde que começou a campanha eleitoral fala-se muito de uma eventual reestruturação da nossa dívida. Reestruturação essa que é defendida por alguns dos partidos que concorrem às eleições do próximo domingo e que poderia passar pelo alargamento de prazos, pela diminuição das taxas ou mesmo pelo não pagamento de uma parte do que se deve. E a reestruturação, de tanto se ouvir, transformou-se numa palavra maldita.


Até que alguém, a propósito da dívida grega (que já todos perceberam que os gregos não vão poder pagar) se lembrou de chamar à reestruturação o re-profiling. E o que é isso? Ao certo, ao certo, ninguém sabe o que é mas todos perceberam já significa exactamente isso - reestruturação. Nem mais.


Foi assim que optaram por “dourar a pílula”, que é como quem diz, a situação é muito má mas adoçando a forma como nos referimos a ela, até nem parece tão preocupante. É exactamente o mesmo que esconder o pó por debaixo da carpete. Ele não se vê mas, de facto, está lá todo.


Re-profiling é a palavra do momento. A que fez esquecer a sua irmã “reestruturação” e a sua parente próxima, a “bancarrota”. Mas, atenção, não nos deixemos impressionar com as palavras. O problema subsiste e é grave. É tudo uma questão de eufemismo.


quarta-feira, junho 01, 2011

Justiça salomónica no caso do euromilhões



Ao fim de quatro anos chegou ao seu termo a mais insólita, disparatada e escusada disputa judicial jamais havida em solo pátrio. Dois jovens que se gostavam o suficiente para namorarem tiveram a desdita de ganhar o primeiro prémio do euromilhões. E como uma “desgraça” nunca vem só, além de “herdarem” uma pipa de massa, desfizeram o namoro … antes mesmo de receberem o dinheiro.


A partir daí foi um corridinho aos tribunais. Ela a reclamar o prémio por inteiro e ele a dizer que era a ele que a quantia era devida integralmente. E ambos achavam que tinham toda a razão. Ela porque tinha sido a autora da chave de sucesso e, portanto, reclamava o pagamento da “propriedade intelectual”. Ele, porque tinha sido quem preencheu o boletim, o entregou e o pagou e, claro está, achava-se como o legítimo legatário de um prémio que não teria saído se o boletim não tivesse sido entregue.


Enorme dilema este. Ela e ele, ambos cobertos de razão e ávidos de receberem os 15 milhões de euros, não pararam um segundo para pensarem que, se calhar, os dois mereceriam o prémio e que, portanto, seria melhor dividir a coisa ao meio. Era capaz de ter sido mais justo e certamente que, há muito, estariam a gozar as mordomias que sete milhões e meio de euros lhes proporcionariam.


Ganância e estupidez, digo eu.


Agora, passados quatro anos, o Tribunal da Relação de Barcelos decidiu justamente dividir em partes iguais os 15 milhões de euros ganhos pelos ex-namorados. Decisão que, felizmente, já não permitirá recurso.


Acabada a história, o que nos faz reflectir é se os motivos que levaram a esta contenda são minimamente justificáveis para a ocupação da máquina judicial durante todo este tempo, meios que seriam decerto muito melhor aproveitados noutros casos. Só espero que as custas judiciais a pagar pelo casal sejam muito penalizadoras. Em minha opinião, mereciam isso.


terça-feira, maio 31, 2011

Protocolos



A Rainha Isabel II de Inglaterra faz-me lembrar um antigo colega de trabalho a quem, “por fatalidade” tudo acontecia de mal. Era certo e sabido que onde ele estivesse alguma coisa ia suceder.


Também Isabel II, no seu já longo reinado, tem algumas histórias bem interessantes, nomeadamente as que aconteceram sempre que o protocolo não foi formalmente cumprido. Recordo três delas.


Na semana passada recebeu Barack Obama. Ao jantar, no final do discurso, Obama ergueu a taça para brindar à soberana quando, de repente, se começou a ouvir o hino britânico. Todos os convidados ficaram imóveis enquanto o Presidente permaneceu de taça na mão, mudo e quedo. Só quando o hino terminou é que os presentes acompanharam Obama no brinde à Rainha. Momentos infindáveis que devem ter sido terríveis.


O mesmo sucedeu quando a Rainha Isabel visitou Portugal e o nosso Presidente da República de então, Mário Soares, ao pretender indicar-lhe o caminho tocou nas costas de Isabel II, mostrando desconhecer o protocolo que diz que na Rainha não se toca nem com uma luva.


Já num jantar na Casa Branca, no tempo de George W. Bush, o Presidente lembrava num discurso a visita de Elizabeth II aos Estados Unidos em … 1776, ou seja, 200 anos antes. Ao que consta, a correcção só foi feita depois de um olhar fulminante da Rainha. Enfim, de Bush já ninguém se admirava de nada e, em matéria de gafes, todos sabem como ele era useiro e vezeiro.


O protocolo, como se percebe, tem destas coisas. Para os que estamos por fora as situações fazem-nos sorrir mas para os seus protagonistas devem ser momentos muito confrangedores.


segunda-feira, maio 30, 2011

Não me digam nada …

Ainda há tempos vos contava que a segunda-feira é o dia em que o meu mau humor mais se sente nas crónicas que aqui publico. Certamente que tem a ver com a ressaca do fim-de-semana ou com a derrota (sempre injusta) do meu clube do coração. Hoje, porém, o meu nervoso e a acidez de espírito estão devidamente identificados.


Ando irritado com o estado e com a falta de expectativas do meu país e pelo baixo nível que, na campanha eleitoral em curso, demonstram os principais líderes partidários, alguns deles que até têm a pretensão de chegar a primeiro-ministro.


Estou chateado porque o meu carro “pifou”, teve que ser rebocado e vou ter que desembolsar uma nota preta para o arranjar.


E, finalmente - e se calhar isto foi o que me fez perder completamente as estribeiras – porque soube que há 20 gestores das maiores empresas portuguesas que têm mil cargos de administração. Ou seja, em média, cada um deles tem 50 empregos mas sabe-se que pelo menos um deles tem 62 empregos e o que mais ganha aufere 2,5 milhões de euros. É obra! E não me venham com a história que estes super-trabalhadores que voam de empresa em empresa são um exemplo para todos nós. Não, não são. O que isto reflecte é a falta de vergonha a que chegámos e a necessidade de lhe pôr cobro rapidamente.



sexta-feira, maio 27, 2011

No próximo fim-de-semana lá estaremos



Marque na sua Agenda: no próximo fim-de-semana tenho que colaborar com o Banco Alimentar.


A Campanha de Recolha de Alimentos em supermercados e superfícies comerciais, levada a efeito pelo Banco Alimentar, realiza-se já no próximo fim-de-semana, dias 28 e 29 de Maio, ou seja, amanhã e domingo.


Milhares de pessoas carenciadas contam consigo.


Participe. Alimente esta ideia.


terça-feira, maio 24, 2011

E quem é que vai aceitar uma proposta destas?



Há muito que sigo com atenção as intervenções do Professor Daniel Bessa. Para além de ser um economista respeitado, admiro a sensatez da maioria das suas posições, embora, ideologicamente, as nossas convicções nem sempre apontem no mesmo sentido.


Vem este intróito a propósito do artigo que ele publicou no Expresso do passado sábado em que analisava as propostas dos partidos em baixar (ou não) a taxa social única (a TSU) como forma de aumentar a competitividade das empresas. A questão não é nada pacífica, a vários níveis, e nomeadamente quando se sabe que o abaixamento da TSU terá que ser compensado pelo agravamento do IVA.


Foi então que o Professor sugeriu a seguinte alternativa: “… aumentar o horário de trabalho em duas horas semanais. O efeito sobre a competitividade das empresas seria equivalente à redução da TSU; e não seria necessário subir o IVA, tirando o poder de compra às pessoas. Não é mais simples? Não seria melhor?”


Parece-me uma proposta equilibrada e exequível mas, meus Amigos, alguém acredita que os sindicatos e os trabalhadores alguma vez iriam aceitar uma coisa destas? Acho altamente improvável que isso acontecesse e o mais certo é que chovessem por aí argumentos do tipo “isso seria encher os bolsos dos patrões à custa dos trabalhadores”. Ainda assim, continuo a pensar que a sugestão do Professor Daniel Bessa poderia ser uma boa opção. Que diabo, duas horas a mais de trabalho por semana não seriam melhor do que pagarmos mais IVA em tudo aquilo que consumimos?


segunda-feira, maio 23, 2011

Chocou-me, pois claro



Fiquei (obviamente) irritado ao saber que no acordo com a troika existe uma medida que prevê que as IPSS vão ter que cobrar IVA aos seus utentes. Um acordo, recorde-se, que foi assinado pelo PS, pelo PSD e pelo CDS, partidos que, todos eles, dizem defender quem mais necessita.


É verdade que o Estado tem tido, há décadas, uma componente fortemente social. Porém, a conjuntura actual veio evidenciar duas coisas: as fortes dificuldades do Estado em poder manter financeiramente as suas responsabilidades, por um lado e, por outro, um número crescente de pessoas muito carenciadas que já não consegue suprir as necessidades mais básicas, nomeadamente o acesso à alimentação. E aqui o papel das IPSS tem sido fundamental na confecção e distribuição de refeições e, também, de outros apoios que, no seu conjunto, têm sido essenciais para minorar a situação de carência de muitos milhares de pessoas.


Pois bem, o Estado não tem condições para assegurar esse papel assistencial desempenhado pelas IPSS e também não consegue aumentar as contribuições para que essas Instituições façam face às despesas crescentes com o número de famílias que não pára de aumentar. Numa palavra, não há dinheiro.


Perante tamanhas dificuldades, como resolver a situação? E a resposta – aquela que foi acordada (ou imposta) pela troika - acabou por aparecer de uma forma completamente falha de sensibilidade social e de lucidez política. Ou seja, em todos os apoios prestados às famílias deve ser cobrado IVA. E a medida já de si injusta por penalizar quem está mais carenciado, ainda se mostra mais perversa quando se sabe que essas ajudas são resultantes de dinheiros dos contribuintes e dos donativos angariados na sociedade civil.


A medida é, pois, chocante. Só espero que o próximo governo arranje as alternativas necessárias para que o que foi acordado com o FMI, a EU e o BCE possa ser alterado. Certamente que com criatividade e bom senso o IVA que pensaram cobrar às IPSS possa vir a ser recolhido noutras fontes.


sexta-feira, maio 20, 2011

O recado



"Todos temos de fazer um esforço, isso é importante, não podemos ter a mesmo moeda, e uns terem muitas férias e outros poucas". Esta foi a advertência da chanceler alemã Angela Merkel aos países que já recorreram à ajuda internacional, a Grécia, a Irlanda e Portugal.


E não se ficou pela crítica ao excesso de férias destes países. Não, também opinou, em jeito de aviso, que a idade da reforma também deveria ser aumentada.


Gostemos ou não da senhora Merkel (ainda por cima uma senhora a quem nunca lhe vimos uma malinha na mão) e gostemos ou não de estar a ser feita mais esta tentativa de ingerência na nossa soberania, o facto é que a Alemanha é o motor da economia europeia e é um dos países que mais contribui para “ajudar” os que agora estão em dificuldade. Claro que aqui também poderíamos lembrar que a Alemanha é um dos principais beneficiários desta conjuntura económica mas, o que interessa recordar neste momento é o que contribuintes alemães pensam sobre nós: que trabalhamos pouco e durante menos anos e que nos fartamos de gozar férias. E desse ponto de vista, acabamos por perceber os seus argumentos.


Porém, bem podem pensar os alemães o que quiserem que a verdade é um pouco diferente e não houve, quanto a mim, razões para nos puxaram as orelhas. Se é verdade que nós temos férias de 22 ou 25 dias úteis, na Alemanha a lei impõe que as empresas concedam aos trabalhadores um mínimo de 20 dias de férias por ano, podendo este período, mercê de acordos colectivos, ser alargado para 30 dias úteis (ou mais) em muitas empresas, quer do sector privado, quer do público.
E quanto à idade da reforma? Em Portugal a reforma está nos 65 anos e na Alemanha … também. O que está previsto é que, naquele país, a idade da reforma passe gradualmente dos 65 para os 67 anos, entre 2012 e 2029. Mas, actualmente, mantém-se nos 65 anos.


Advertências que, certamente, foram injustas. Mas o recado ficou dado.


quinta-feira, maio 19, 2011

À atenção dos empresários e sindicatos


Neste último 25 de Abril, para além da cerimónia oficial que se realizou no Palácio de Belém, houve também uma manifestação de trabalhadores na Avenida da Liberdade.


Uma equipa da televisão nipónica que estava em Portugal a fazer uma reportagem sobre o nosso país aproveitou a data para fazer a cobertura dessa manifestação. Quando o repórter japonês foi questionado por um jornalista sobre o que pensava sobre as greves em Portugal e se elas tinham algumas semelhanças com as que se efectuavam no seu país, ele disse (mais coisa menos coisa) num português muito mal amanhado (mas ainda assim perceptível), entre salamaleques e sorrisos simpáticos:


“no Japão não há greves. Os empresários sabem que sem trabalhadores as empresas não progridem e os trabalhadores sabem que sem empresários e empresas não podem trabalhar. Por isso arranjamos consensos e chegamos sempre a acordo. É uma questão de bom senso”.


À atenção dos empresários e sindicatos.




quarta-feira, maio 18, 2011

Quando a responsabilidade não morre solteira

É raro, diria mesmo que é raríssimo, ver e ouvir os políticos assumirem as suas responsabilidades quando alguma coisa corre mal. Lembram-se de algum que fosse destituído do cargo que ocupa ou que fosse responsabilizado criminal ou politicamente? Não, pois não? Por isso é que se costuma dizer que “a culpa morre solteira”.


A bem dizer, nestas últimas décadas só me recordo de uma situação em que um governante português assumiu as suas responsabilidades. Foi Jorge Coelho, que, na altura, era Ministro das Obras Públicas e que se demitiu por se achar politicamente responsável pela queda da ponte de Entre-os Rios. Gesto digno, sem dúvida, mas que muita gente suspeitou tratar-se de um acto de hipocrisia (não fosse a tragédia em si) já que lhe permitiu deixar de vez a política para ir ganhar uma pipa de massa como CEO de uma empresa privada. Enfim, maledicências. De qualquer forma foi a excepção, pelo menos em políticos ocidentais onde ninguém jamais se reconhece culpado do que quer que seja.


Pois nas culturas orientais a coisa muda de figura. Veja-se o caso recente do Primeiro-Ministro japonês, Naoto Kan, que por causa do que aconteceu na central nuclear de Fukushima declarou que não quer receber o seu salário de Primeiro-Ministro e vai viver com o que ganha como membro do Parlamento. Na prática, Naoto Kan, ao assumir a responsabilidade política do desastre, vai abdicar dos cerca de 14 mil euros que recebia como chefe do governo.


Atitudes como esta são, portanto, raras. E pouco interessará saber qual a justificação que está na sua génese - se ética, questão cultural ou, muito simplesmente, vergonha na cara?



terça-feira, maio 17, 2011

E o Guerra Junqueiro voltou também ...

Para além do Eça de Queirós que evoquei ontem, também Guerra Junqueiro (1850 a 1923), escritor, político e o poeta mais popular e mais panfletário da sua época criticava – em 1896 - a situação Política de Portugal no final do século dezanove.


E vejam como a sua opinião se poderia aplicar aos partidos que temos hoje, nomeadamente aqueles que têm alternado o poder desde há trinta anos. Dizia ele:

“Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."


segunda-feira, maio 16, 2011

E o Eça voltou …

Como, repetidamente, tenho afirmado, sou um grande admirador de Eça de Queirós. Acho-o um escritor intemporal e muitos dos seus livros e textos permanecem actuais, apesar de terem sido escritos no século dezanove.


Daí que, face aos impropérios, desconfianças, ofensas, desconsiderações, faltas de sensatez e de honestidade política que temos ouvido nos últimos tempos aos nossos políticos, por um lado e. por outro, ao estado a que o nosso país chegou, à beira ou a caminho do descalabro financeiro e das condições de vida da população, eu me tenha recordado de um texto publicado por Eça. Vejam lá se concordam comigo. O texto não poderia ter sido escrito hoje?

"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo."


quinta-feira, maio 12, 2011

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se".

No último domingo comemorou-se o primeiro dia em que a Coca Cola foi vendida ao público. Passaram precisamente 125 anos (08.05.1886). Longe de se pensar que viria a ser a bebida que hoje conhecemos, começou a ser vendida numa farmácia como um xarope que fazia bem a uma série de maleitas.


Em Portugal, Salazar proibiu a venda do produto e só em 1976 foi permitida a sua comercialização. Dizem as estatísticas que hoje cada português bebe em média 24 litros de Coca-Cola por ano.


Mas o que acho mais interessante no que à Coca Cola diz respeito é o facto de poder recordar Fernando Pessoa, o poeta genial e o publicitário que também foi. Quando o refrigerante entrou no mercado português, Pessoa criou um slogan que fez as vendas do produto subirem em flecha:


"Primeiro estranha-se, depois entranha-se".


Porém, o regime de Salazar com receio do sucesso que, diziam, poderia esconder uma sociedade secreta, proibiu a sua representação em Portugal. A Direcção de Saúde de então entendeu que a frase publicitária era “o próprio reconhecimento da sua toxidade”.


Novos tempos e outras mentalidades vieram e o que ficou para a História, no entanto, foi uma das mais conhecidas e mais recordadas frases de sempre.

quarta-feira, maio 11, 2011

Tenho duas notícias. Querem saber primeiro a boa ou a má?

Quando há duas notícias para dar – uma boa e outra má – é costume perguntar se querem ouvir primeiro a boa ou a má? E o habitual (pelo menos nos filmes é assim que acontece) é que em primeiro lugar a preferência vai para a má notícia para que, de seguida, a boa notícia possa, de alguma forma, amenizar o estado de alma.


Pois bem, então, primeiro a má notícia.
O resgate a Portugal (a tal ajuda dos 78 mil milhões de euros que pedimos à comunidade internacional) foi aprovado pela Comissão Europeia, embora ainda tenha que ser ratificado pelos ministros da zona euro. Vamos pagar o empréstimo ao longo de 13 anos mas - e é aqui que reside o busílis - a taxa de juro prevista situar-se-á entre os 5,5 e os 6%. Taxa que é considerada por muitos economistas demasiado alta. Tão alta que se questiona se o país conseguirá cumprir com as suas obrigações. Aparentemente a notícia da aprovação foi boa mas o diabo da taxa de juro deixa-nos com o credo na boca.


A boa notícia é que o Finantial Times que elege anualmente os 65 melhores programas de formação de executivos, tem em Portugal, para além da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica (que continua a ser uma das 50 melhores escolas do mundo para gestores), as escolas de Gestão da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade do Porto que acabaram de entrar para o grupo restrito das melhores em todo o mundo. Resta esperar que o país saiba aproveitar essas competências e lhes dêem as condições necessárias para ficarem por cá.

terça-feira, maio 10, 2011

Demitam os partidos


Acabei de ver o programa “Prós e Contras” da RTP1 e fiquei completamente desanimado em constatar, uma vez mais, que não existe qualquer possibilidade de entendimento entre os responsáveis dos partidos do arco do governação (como agora se diz) que permita a que este desgraçado país venha a ter um governo forte que possa executar o programa elaborada pela troika internacional. E seria bom que os políticos pensassem a sério na trapalhada em que andam metidos, porque se não cumprirem o programa eles não nos vão emprestar o dinheiro para solucionar os nossos problemas imediatos e de médio prazo. Não vão mesmo.


São as trocas de acusações, é a agressividade desmedida, são os reiterados juramentos que com aquele ou aqueles políticos e/ou partidos não há possibilidade de entendimento. Já não há pachorra. É uma vergonha que deveríamos sentir enquanto cidadãos e uma imagem que damos à Europa que reforça a ideia que já têm de nós que nos devem olhar com desconfiança.


Razão tinha um dos participantes quando afirmou que a única forma de resolver esta situação era demitir os partidos. Estou quase a concordar com ele.

segunda-feira, maio 09, 2011

As vítimas de sempre


Neste início de semana tinha pensado escrever sobre a relutância colocada pelo Reino Unido em ajudar Portugal. Aquele mesmo país que é nosso parceiro na aliança diplomática mais antiga do mundo (1373) e que continua ainda em vigor, vá lá saber-se porquê. Ou escrever sobre a Finlândia que já mostrou idêntica resistência. Justamente esse país a quem nós, povo atrasado e periférico, não negámos solidariedade quando em 1940 fizemos uma das maiores campanhas voluntárias de sempre para oferecer aos também (nessa altura) pobres e periféricos finlandeses toneladas de roupas e cereais. Mas não, não é sobre esses países e sobre as suas opções solidárias que eu me vou debruçar hoje.


Hoje gostaria de me referir, ainda que brevemente, à comunicação ao país do Presidente da República. Mais uma comunicação anunciada com solenidade e que a maioria dos portugueses julgava ser sobre o acordo estabelecido entre o Governo e a troika de instituições internacionais. E foi, mas, uma vez mais, Cavaco Silva nada disse de novo. Pelo menos, nada que não soubéssemos já.


Houve, porém, um ponto do seu discurso que valeria a pena salientar. Foi quando disse:


“… Não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades, a gastar mais do que aquilo que produzimos e a endividar-nos permanentemente perante o estrangeiro.
Tem de haver um aumento significativo da poupança interna. Muitos portugueses terão de alterar os seus padrões de consumo, evitando gastos supérfluos …”.


Cavaco falou em “muitos portugueses” mas não se sabe, em concreto, a que franja da população ele se estava a referir. Acredito que não se estivesse a dirigir à maioria dos portugueses que ganha menos de mil euros e que não aufere o suficiente para poupar. Portugueses que nem necessitam de pensar em evitar os tais gastos supérfluos uma vez que o dinheiro apenas chega para o essencial.


O que todos temos como certo, isso sim, é que existe pela frente um caminho árduo a percorrer, onde vamos ter que assumir um “espírito patriótico e de unidade”, de acordo com as palavras do Presidente. Isto é, um caminho cheio de sacrifícios onde, não custa adivinhar, as vítimas vão continuar a ser as de sempre.


sexta-feira, maio 06, 2011

As poucas palavras


De Eugénio de Andrade “As poucas palavras”



Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.


quinta-feira, maio 05, 2011

“Um almoço de trabalho”


No último post dei-vos conta de dois exemplos (verdadeiros) de má gestão dos dinheiros públicos, coisa que, infelizmente, continua a acontecer um pouco por todo o país.


Hoje quero relatar um caso que presenciei. Eu estava lá e ouvi tudo aquilo que se passou.


Almocei num restaurante simpático, algures na Serra da Lousã. As instalações eram agradáveis, acolhedoras e podia-se desfrutar através das janelas largas uma bonita vista para a floresta. Por que era um dia de semana estava pouca gente, apenas um casal numa mesa e numa outra sentavam-me quatro homens. Fiquei na mesa ao lado deles.


Nem a vista da paisagem nem o prazer da gastronomia que nos foi apresentada me impediu de ir ouvindo o que se passava nessa mesa. Durante todo o repasto, os quatro senhores falaram sobre futebol, sobre as peripécias e intrigas em que os dirigentes de certos clubes andavam metidos, sem esquecer, naturalmente, os aspectos mais sórdidos. Falaram muito e falaram alto, riram bastante e o tema foi sempre o futebol. No final, já depois dos uísques (que repetiram), um deles pediu a conta, dizendo ao empregado que queria uma factura em nome do IFP (Instituto de Formação Profissional) com a indicação de 3 almoços de trabalho. De trabalho? Fiquei espantado, mas pior fiquei quando ouvi um dos presentes perguntar ao primeiro: “Vais meter isto (o custo com os almoços) em ajudas de custo ou em despesas de representação?”. “Não, nada disso”, respondeu o que ia pagar a conta. “Não te preocupes, hei-de encontrar uma rubrica …”


Deste “almoço de trabalho”, em que não houve qualquer trabalho, constatei como, à revelia dos propósitos anunciados oficialmente, o “sistema” – o malfadado “sistema” - continua a funcionar sem que alguém lhe ponha cobro. É um fartar vilanagem. E vai durar enquanto o plano oficial de contas e a falta de vergonha de muitos conseguirem encontrar uma rubricazinha pronta para albergar os desmandos.

PS: tenho a certeza de que a azia que senti toda a tarde nada teve a ver com a magnífica gastronomia da região.


quarta-feira, maio 04, 2011

Laxismo ou corrupção?


Quando, amiúde, se fala no despesismo do Estado e no descontrolo das obras públicas, nomeadamente as da responsabilidade das autarquias, não sabemos muito bem a que é que nos estamos a referir em concreto.
Pois em concreto, aqui estão dois exemplos – apenas dois – de despesas detectadas pelo Tribunal de Contas e que, no mínimo, suscitam muitas dúvidas. Vejamos:


- Município de Beja - Fornecimento de 1 fotocopiadora, "Multifuncional do tipo IRC3080I", para a Divisão de Obras Municipais: 6.572.983,00 €;
- Administração Regional de Saúde do Alentejo, I.P. – Aquisição de 1 armário persiana; 2 mesas de computador; 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas: 97.560,00€.

Pode ser que haja explicações plausíveis para tamanhos gastos. E espero bem que haja por que, relativamente ao primeiro caso, uma fotocopiadora daquele tipo custa à volta sete mil e setecentos euros. Qual a justificação para se terem gasto mais de seis milhões e meio de euros?
Quanto ao material de escritório adquirido pela Administração Regional de Saúde do Alentejo, ninguém acredita que o valor de mercado daquele tipo de equipamento possa custar quase cem mil euros.


Laxismo ou corrupção? Uma pergunta para a qual certamente não obteremos resposta mas que intuímos que as duas proposições possam coexistir. E se assim for, estamos em presença de crimes cujos responsáveis têm que ser (deveriam ser) devidamente castigados. Nós, cidadãos, temos o direito de exigir a responsabilização efectiva de quem gere dolosamente a coisa pública.


terça-feira, maio 03, 2011

Miséria, disse ele …

Diogo Leite de Campos, dirigente do PSD, é um ilustre licenciado e doutorado em Direito e em Economia. É também Professor Catedrático e sócio de uma conhecida sociedade de advogados. É, pois, um homem inteligente e bem sucedido.


Há uns tempos vi um vídeo em que ele explicava um conceito interessante sobre o que não é um rico e o que é a miséria em Portugal. Desta forma:


“O ministro das finanças, salvo erro, disse que ricos são aqueles que têm mais de 10 000 euros por mês. Mas se nós levarmos em conta que sobre estes dez mil euros incidem cerca de 42%, isto significa que estas pessoas ficam reduzidas a 5 800 euros. Será que se pode dizer que 5 800 euros por mês, para casa, roupa lavada, comida, instrução dos filhos, doença e tudo é muito? Cinco mil e oitocentos euros por mês, em qualquer país europeu é classe média baixa. Será que são estes os ricos portugueses. 5 800 euros não chega sequer para o consumo. É evidente que as pessoas que ganham 1 000 euros por mês acham isto enorme mas mil euros por mês não é classe média, é miséria”.

Embora o senhor possa estar coberto de razão, penso que é chocante para a maioria dos portugueses ouvirem dizer que os 5 800 euros líquidos não chegam sequer para o consumo, quando se sabe que o salário médio em Portugal não chega aos 800 euros, o salário mínimo não atinge os 500 e ainda há muitas reformas abaixo dos 300 euros.

Portanto, e para resumir, quem ganha 10 000 não é considerado rico. E os milhares de trabalhadores que auferem menos de 1 000 euros por mês e, com essa miséria de vencimento, têm que pagar casa, transportes, alimentação, vestuário, custos vários e, ainda, na maior parte dos casos, têm que providenciar a educação dos filhos ou a segurança dos pais, são o quê?

Como referi, o Dr. Diogo Leite de Campos até pode ter razão naquilo que diz mas esquece uma coisa fundamental. É que Portugal é dos países que pior paga a quem trabalha e onde existe uma enorme diferença salarial entre os que mais ganham e os que menos recebem. Esquecimento, afinal, que até pode ser desculpável se atendermos a que ele acumula uma reforma de 3 240,93 € com outra do Banco de Portugal de 5 000 € e os lucros de uma sociedade de advogados.


segunda-feira, maio 02, 2011

Em defesa da gramática

Admiro há muito a obra do escritor peruano Mário Vargas LLosa e sigo naturalmente com interesse a sua actividade política. Os livros do Prémio Nobel da Literatura de 2010, reflectem bem a sua luta pela liberdade individual perante a realidade opressiva que teima em existir no seu país.

Mas Vargas Llosa para além dos aspectos políticos e sociais transmitidos nos seus livros tem a preocupação de escrever bem, respeitando as regras que uma boa literatura exige.

Daí que face aos atropelos constantes e despudorados com que hoje se encara a arte de escrever, Mário Vargas Llosa veio a terreiro dizer o seguinte:

“os jovens que abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS pensam como macacos, …. a net liquidou a gramática, gerando uma espécie de barbárie sintáctica”. E justifica “se escreves assim, é porque falas assim, se falas assim é porque pensas assim e, se pensas assim, pensas como um macaco. Isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes do que os seres humanos. Não sei.”

Em defesa da gramática, acho que Llosa tem razão. Felizmente para ele, não tem o problema de um acordo ortográfico a pairar sobre a sua cabeça e, por isso, mais não disse. Sim, porque se o tivesse, tenho a certeza de que iria bastante mais longe nas suas críticas.


sexta-feira, abril 29, 2011

A verdade nua e crua



As estratégias políticas e as frases que lhes estão associadas são como as modas. Aparecem, resistem durante algum tempo e são substituídas por outras mais sonantes e convenientes logo que surge uma nova conjuntura. Ainda há pouco se ouvia até à exaustão “Cada partido assumirá as suas responsabilidades”, agora é a vez de “Todos têm que dizer a verdade aos portugueses”, frase que é proclamada patrioticamente como se essa – a verdade - fosse a coisa que os portugueses realmente mais necessitam.


Esta ânsia de saber a verdade lembra-me aquelas situações em que alguns doentes com graves enfermidades esperam ouvir do seu médico a verdade nua e crua, o veredicto final sobre o seu estado, enquanto que outros preferem a ilusão de uma mentira piedosa que lhes permita acalentar a esperança da cura.


Para aqueles que são adeptos da verdade verdadeira e que querem realmente saber aquilo que os espera enquanto cidadãos e enquanto famílias, como irão viver daqui para a frente, permito-me transcrever uma parte do artigo de Nicolau Santos, publicado no Expresso do último sábado. Dizia ele:

“… trocar de carro de quatro em quatro anos? Esqueça. Viagens a sítios exóticos nas férias? Esqueça. Jantar fora uma ou duas vezes por semana? Esqueça. Gastar em medicamentos não essenciais? Esqueça. Comprar livros, CD e DVD com regularidade? Esqueça. Ir ao cinema com frequência? Esqueça. Assinar a Sport TV, canais de filmes e outros pacotes televisivos? Esqueça. Pagar as quotas do seu clube do coração? Esqueça. Comprar com regularidade uns camarões, uns patés, uns bons vinhos lá para casa? Esqueça. Alugar uma casinha no campo ou na praia? Esqueça. Aumento de ordenado e das poupanças no banco? Esqueça. Um bom emprego para os filhos que tiraram um curso superior? Esqueça…”

Então, estão mais satisfeitos agora? Já ficaram com uma ideia de como vai ser a nossa vida, pelo menos, e segundo Nicolau Santos, durante 10 anos? Já tínhamos percebido que o país está numa situação gravíssima, que não há dinheiro, que não há emprego e que a riqueza gerada é escassa. Mas por muito que tenhamos consciência dessa situação e por muito que nos preparemos para enfrentar as dificuldades que nos batem à porta, nunca saberemos bem em que parte vamos ser mais atingidos e o que é que teremos de mudar, se ainda tivermos capacidade para tanto.


A verdade nua e crua é, na maioria das vezes, inimiga da esperança. E viver sem esperança, meus Amigos, não é viver.



quinta-feira, abril 28, 2011

De que planeta é que saiu o homem?

A história que hoje vos trago passou um pouco despercebida na imprensa, o que não é de admirar. Normalmente dá-se o devido destaque a quem consegue ludibriar a lei, a quem não cumpre com as suas obrigações, aos “chico espertos” da vida que, pela sagacidade que demonstram, são elevados à categoria de heróis. Desta vez, e um pouco estranhamente, noticia-se a história de um homem vertical, com valores, e que – espantem-se - só quer cumprir com aquilo que considera justo.

Conto em duas linhas:


“ era uma vez uma jovem que viajava num comboio, cujo título de transporte se comprava no próprio comboio. Porém, era dia de greve dos revisores e, por isso, o bilhete não pôde ser adquirido. Resultado, a jovem viajou de borla.
Quem não ficou satisfeito com isto foi o pai da rapariga que achou que tendo a CP prestado um serviço era credora do respectivo pagamento. Tanto mais que não pretendia contribuir para agravar a situação deficitária da companhia. A justeza da sua reivindicação levou-o a contactar a CP e perante a recusa da empresa em cobrar o bilhete porque os agentes (os revisores) estavam de greve naquele dia, o homem – o otário, o ingénuo, dirão alguns deste país de espertos – ameaça avançar para os tribunais. É que, segundo ele, o seu a seu dono”.

Tempos estranhos estes em que vivemos, em que a fuga às responsabilidades, a “habilidade” e o oportunismo campeiam. Bem diferentes daqueles em que o decoro e a honradez constituíam valores absolutos e inquestionáveis.


quarta-feira, abril 27, 2011

Os judocas portugueses contra a troika

Já aqui escrevemos que a nossa margem de manobra relativamente ao processo que está a ser liderado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI é muito curta. Praticamente não há espaço para negociações e o que vai haver, isso sim, são restrições à nossa forma de viver. E, como sempre, a força está do lado dos credores. Nós, com a pipa de massa que devemos, estamos demasiado fragilizados para pedir o que quer que seja.


A não ser que os vençamos pela força. E nem sequer estou a pensar naquela notícia que ouvi ontem que Portugal é o líder virtual do “ranking” da União Europeia de Futebol. Provavelmente os fulanos até nem gostam de futebol. O que estou mesmo a pensar é na força (à séria) do … judo.


Não será o caso de pormos à porta dos lugares onde esses senhores estão a trabalhar o nosso campeão europeu de Judo, João Pina, e as duas vice-campeãs europeias da modalidade, Telma Monteiro e Joana Ramos? É que os três atletas destacaram-se de tal forma no Campeonato da Europa de Judo que decorreu em Istambul, na Turquia, que bem poderiam servir como dissuasores de algumas medidas de austeridade que estejam a ser preparadas. Apenas por precaução, já se vê.


Quem sabe? Era só uma ideia…