sexta-feira, novembro 11, 2011

Eça, de novo – a intemporalidade do escritor e político



Como sabem, não me canso de manifestar a minha admiração por Eça de Queiroz. Sobretudo pela sua escrita fácil e pela contemporaneidade da sua obra. O que, de resto, sentimos facilmente quando espreitamos os seus escritos com mais de 100 anos. Há ideias e frases que permanecem actuais.


Recentemente têm “navegado” na internet excertos de textos que nos fazem recordar a intemporalidade de Eça. Como quando, em 1872, escreveu nas “Farpas”:


"Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito".


Então, já Eça “criticava as elites e as suas debilidades, a incapacidade total de sermos respeitados internacionalmente, um desprestígio internacional que só perde para a Grécia". Mais ou menos como acontece agora.


Entre o tempo em que Eça de Queiroz viveu e os dias de hoje quase tudo mudou e poucas coisas são comparáveis. O mundo de Eça era a de um país com profundos atrasos e, hoje, Portugal, mesmo com uma crise financeira e social preocupante, é um país completamente diferente. Contudo …


Contudo, convém recordar as palavras do escritor e político num artigo publicado no “Distrito de Évora”, em 1867, em que dizia “Hoje, que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução".


Era uma mensagem que adivinhava um futuro sem futuro. Porém, cento e tal anos depois, continuamos – melhor ou pior - a sobreviver. E, quem sabe, se durante muitos anos mais.


quarta-feira, novembro 09, 2011

Um exemplo a seguir?



Veio há dias na imprensa que na Eslováquia, um país da União Europeia e do Euro, o salário dos políticos está indexado ao salário médio nacional e ao défice. Se o salário médio dos eslovacos subir, o salário dos políticos também sobe, se a meta do défice não for atingida, o salário dos políticos desce.


Obviamente que não estava a pensar em nada em concreto. Mas …


terça-feira, novembro 08, 2011

Com todo o respeito

Pelo título desta crónica devem ter pensado que ia escrever sobre o novo disco de originais do Jorge Palma. Não, não vou. Já estou como a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que disse de forma clara - quando a Europa, para resolver os problemas europeus, mostrou a intenção de mendigar dinheiro aos países emergentes - “se os europeus não põem lá o dinheiro deles, por que é que nós havemos de lá pôr o nosso?”. Tal qual, comprem o disco do Jorge, ouçam-no e (agora digo eu) apreciem-no.

A minha reflexão de hoje tem a ver com a falta de líderes de qualidade na Europa. Que saudades tenho de Willy Brandt, de Helmut Kohl, de François Mitterrand ou do nosso Mário Soares. Políticos que tinham uma ideologia, um caminho, um sonho. Dos actuais dirigentes, porém, apenas se vislumbra a sua insensatez e a incapacidade para levar por diante a consolidação de um projecto Europeu que se pretendia forte.

Por cá, Passos Coelho quis mostrar ao mundo que podíamos ser ainda melhores do que aquilo a que os nossos credores nos obrigam. E vá de arranjar medidas drásticas, sufocantes e desesperantes para as pessoas (ainda é capaz de haver por aí quem se lembre que, no meio disto tudo, existe gente?). Medidas que foram, de resto, incluídas na proposta de Orçamento de Estado para 2012 onde, entre tanta tragédia, sobressai o corte dos subsídios de férias e de Natal.

Afinal, e ao que veio agora dizer o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, um dos subsídios talvez possa ser mantido, como o Partido Socialista pretende. No que é que ficamos? Havia ou ainda há margem de manobra para não castigar demasiado os portugueses? Se havia porque é que o OE foi tão severo? Para experimentar a rapaziada, para fazer um teste à nossa reacção? Cuidado que essas experiências às vezes dão maus resultados.

Ouvindo Passos Coelho defender que Portugal só conseguirá sair da actual crise "empobrecendo" e o Ministro da Juventude e do Desporto incitar os jovens a emigrar dá a ideia que o nosso Governo já desistiu de Portugal. É o que sente um número crescente de portugueses. E eu também penso assim. Com todo o respeito.


sexta-feira, novembro 04, 2011

Não sei onde é que ele vai buscar estas ideias!



Com o fim-de-semana à vista e enquanto as leis laborais continuam a ser discutidas e não nos obrigam a ir trabalhar aos sábados, vamos fazer um esforço adicional para ultrapassar as dificuldades. COM HUMOR! Nesse sentido, (só não sei se é mesmo humor ou …) transcrevo, com a devida (e divertida) vénia um excerto de uma crónica publicada recentemente por Ricardo Araújo Pereira. Dizia assim:


“… Ufa! Que sorte. Portugal livrou-se de um primeiro-ministro que dava o dito por não dito, faltava às promessas e impunha sucessivas medidas de austeridade, cada uma mais dura que a anterior. É bom olhar para trás, recordar esses tempos longínquos e suspirar de alívio. Para o substituir, os portugueses escolheram um primeiro-ministro que dá o dito por não dito, falta às promessas e impõe sucessivas medidas de austeridade, cada uma mais dura que a anterior. Trata-se de um conceito de governação tão diferente que, por vezes, parece que estamos a viver num país novo.
Quem vive em democracia tem de estar preparado para estas mudanças radicais”.


Não sei onde é que o Ricardo foi buscar estas ideias!


quinta-feira, novembro 03, 2011

As boas e as más notícias


Enquanto esperamos pelos resultados do anunciado referendo na Grécia se, entretanto, não cair o Governo, e já que no fim-de-semana passado mudou a hora e o relógio atrasou 60 minutos, é altura de colocarmos as “nossas realidades” em perspectiva.

E o cartoonista Henrique Monteiro definiu bem, e com humor, esse espírito



quarta-feira, novembro 02, 2011

Boquiaberto



A crise tem servido para justificar tudo, as muitas dificuldades mas também as enormes incompetências. E eu, na minha boa-fé (que já começa a ser burrice), pensava que quem governa tem que (pelo menos) procurar alternativas para ultrapassar os obstáculos. Tentar de uma forma inteligente, isto é, pôr em prática estratégias adequadas e mais os planos A ou B, ou o abecedário todo. Mas parece que não é bem assim.


Pelo que li, o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, um senhor que eu não conhecia e que dá pelo nome de Alexandre Miguel Mestre, disse, em São Paulo, que “o jovem português desempregado em vez de ficar na "zona de conforto" deve emigrar”. E disse mais “o país não pode olhar a emigração apenas com a visão negativista da fuga de cérebros. Se o jovem optar por permanecer no país que escolheu para emigrar, poderá dignificar o nome de Portugal e levar know-how daquilo que Portugal sabe fazer bem".


Pois foi, fiquei boquiaberto. Então, em vez do governo aliciar os jovens para saírem para o exterior, não era a sua obrigação tentar a todo custo promover mais trabalho no nosso país? Não deveria aproveitar ao máximo todo o conhecimento que os jovens adquiriram em Portugal e que foi pago, na maior parte dos casos, com o dinheiro dos contribuintes? E depois, sair para onde, se a taxa de desemprego lá por fora também já é alta? E, já agora, que raio de “zona de conforto” é que os jovens desempregados têm? Estaria o senhor secretário de Estado a pensar no subsídio de desemprego que dura enquanto dura?


Compreendo que por falta de alternativas muitos jovens (e não só) tentem a sua sorte no Estrangeiro, mas ouvir um membro do governo apelar para que se vão embora, parece-me completamente descabido. Fez-me lembrar a velha frase “se o povo não está satisfeito com o governo, então que se mude o povo”.


segunda-feira, outubro 31, 2011

A noite de Halloween



Estamos em 31 de Outubro. Esta vai ser a noite do Halloween. E o que é que é isso ao certo, perguntarão alguns dos meus Amigos. Dei-me ao trabalho de ir à Wikipédia e lá diz que “O Dia das Bruxas (Halloween é o nome original na língua inglesa de um evento tradicional e cultural, que ocorre nos países anglo-saxónicos, com especial relevância nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações dos antigos povos. Não existem referências de onde surgiram essas celebrações)”.


Apesar de Portugal não se encaixar nos países anglo-saxónicos, o que temos constatado é que parece haver uma certa adesão à noite do Halloween. Mas, digam-me lá, se não é uma tradição portuguesa por que carga de água é que se comemora? Digamos que – e esta é a minha opinião - por moda e, especialmente, por razões comerciais, como que um aquecimento para outra época também ela muito comercial que é o Natal. Ou seja, antes das árvores de Natal, dos pais natais, das estrelinhas, brinquedos e doces vários, vá de começar a “época de caça às bolsas” com abóboras, morcegos e máscaras. Ao fim e ao cabo, o 31 de Outubro é o ponto de partida para os 55 dias de uma época marcadamente comercial.


O que nos leva a reflectir se não deveríamos, sobretudo em tempos tão difíceis como os que vivemos, pensar nos dias 31 de Outubro como sendo o Dia Mundial da Poupança. Deu para entender?


sexta-feira, outubro 28, 2011

Ser Poeta

Da poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930)

“Ser Poeta”


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

quinta-feira, outubro 27, 2011

Havaianas, sandálias & Cª. Lda.



Desculpem-me a franqueza mas tenho que dizer que já estava farto de ver tanto pé (des)calçado com havaianas, sandálias & Cª. Lda. Felizmente o tempo está mais frio, já chove e as havaianazitas vão ter que ficar arrumadas até à próxima primavera.

Provavelmente a culpa nem será das próprias havaianas ou de quem as inventou, mas a verdade é que eu tenho um sério problema com a fixação do olhar em certos pontos-chave das pessoas que passam por mim. Saltam-me imediatamente aos olhos, os olhos, os lábios, as mãos e, desnecessariamente, os pés.

Quanto aos olhos, lábios e mãos eles são como um cartão-de-visita e definem muitas vezes que tipo de pessoa é que temos pela frente. E o calçado também. Os pés não, olhar para esses desgraçados não dará seguramente para penetrar no íntimo das pessoas. Mas, na minha modesta opinião, dará para avaliar o grau de estética e elegância de uma criatura.

Se os pés são bonitos e bem-feitos todas as sandálias, havaianas e “pés descalços” ficam bem. Dá gosto olhar para eles.

O pior é quando eles são feios, deformados, com dedos encarquilhados e sobrepostos e tortos, as unhas demasiado compridas ou curtas ou sujas ou com o verniz a cair ou negras de pisadas, os joanetes e as calosidades nos dedos e nos calcanhares, a sujidade espalhada por tudo quanto é sítio. E quando o barulho incessante e incomodativo do bater das chinelas aperta, então, é o descalabro total.

E se em tempo de praia, enfim, são desculpáveis os maus gostos de cada um, noutras estações e nas cidades as chineladas são perfeitamente intoleráveis. Chegou-se mesmo ao ponto em que se usam havaianas com smoking ou fato de noite. Vejam só!

Eu sei que a comodidade do pé à-vontade supera em muito a estética da coisa. Mas, que querem? Um pé mal-amanhado completamente à mostra faz-me lembrar um corpo anafado vestido de lycra em que as gorduras teimam em fazer pregas.

Perguntarão, mas o que é que os outros têm a ver com o que cada um veste ou calça? Os outros não sei mas, no que me diz respeito, não gosto e não acho elegante, apesar de considerar que as pessoas que os usam (e que têm os pés feios) têm todo o direito de o fazer.

Nestas modas de Verão, eu já não gostava das “mules” e dos “shocks”. Começou-se a usar e zás, poucos escaparam à tentação de entrar também na procissão. Mas ficavam-lhes bem, condiziam com o seu tipo de corpo e de pé? Não, usavam por que era moda e isso bastava-lhes.

Felizmente a chuva e o frio trouxeram de volta os sapatos fechados e as botas, o calçado mais elegante e democrático que servem, igualmente, os pés bonitos e os outros. Como vêm o mau tempo não nos trás apenas desconforto.


quarta-feira, outubro 26, 2011

“Isto só acontece em Portugal”



Não sei se alguma vez vos falei do Sr. Rodrigues, um dos donos de um café que frequentei durante vários anos. O Sr. Rodrigues, um homem a atirar para o obeso e de bigode farfalhudo, é o típico português do bota a baixo, um ás do queixume, que sempre acaba qualquer tentativa de conversa com um “isto só acontece em Portugal”. Mais um cidadão que fundamenta as suas doutas opiniões na ignorância do que se passa lá fora.


Não vejo o Sr. Rodrigues há algum tempo mas, certo de que não terá mudado, quase podia jurar que o corte dos subsídios de férias e de Natal dos próximos dois anos lhe poderia sugerir o tal “isto só acontece em Portugal”, dito de forma inflamada e absolutamente inquestionável.


Enganar-se-ia, porém, mais uma vez.


De facto, nem todos os países têm essa prática. Se é verdade que países como a Espanha, a Itália, a França e a Holanda têm esses subsídios, se bem que os valores não sejam em todos os casos do mesmo montante dos ordenados mensais, outros há que esse tipo de benesses não existem. É o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da Irlanda. Já na Alemanha existe uma gratificação - que não é um direito – cujos montantes não são fixos. Ainda há casos como a Hungria, em que nunca houve um 14º mês mas o 13º já existiu e foi retirado em 2009, precisamente quando o país foi “ajudado” pelo FMI. Isto para já não falar dos inúmeros países que nunca ouviram falar em vencimentos adicionais.


Esta é a realidade do que se passa lá fora e que mostra que, afinal, não estamos tão mal como isso. O que não invalida que sintamos um mal-estar pelo corte parcial do subsídio de Natal deste ano e com o corte dos dois, nos dois próximos anos (pelo menos). Mal-estar, desolação, incomodidade, o que lhe queiram chamar. Mas o fundamental da questão nem é, na minha perspectiva, retirarem-nos dois meses de salário em cada ano. O que nos deve preocupar mesmo é o baixo nível salarial da maioria dos portugueses e o desemprego. Mas isso levar-nos-ia a outras reflexões …


terça-feira, outubro 25, 2011

Tolerâncias

Uma das (más) características dos portugueses é a de raramente cumprirem horários. Ao contrário do que acontece com outros povos, para nós existe sempre uma margem para o atraso. A prova disso está – recordam-se? – na tolerância oficial de quinze minutos que antigamente (penso que hoje já não é assim) era uma prática dos funcionários públicos. Em vez de entrarem às 9 horas, chegavam até às nove e um quarto.

Aliás, ainda é frequente marcarem-se encontros, para as dez, dez e meia. Ora, isso não é uma combinação, ou se marca para as dez, ou para as dez e um quarto ou para as dez e meia. Entre as e as, é que não é nada. Ou antes, é falta de organização.

Há uns anos, quando a minha empresa foi reprivatizada, o presidente, homem do mundo e com outros hábitos, marcou a primeira reunião com todos os Directores para as oito da manhã. Claro que ficou esperando que as pessoas convocadas chegassem … a pouco e pouco e para além da hora agendada. Aqueles senhores estavam tão habituados às tais tolerâncias que não gostaram mesmo nada quando o presidente lhes disse, de uma forma firme e definitiva que, a partir daquele momento, as horas deveriam ser respeitadas. Segundo sei, nunca mais alguém chegou atrasado.

O mesmo se passou recentemente no dia da apresentação do Orçamento de Estado para 2012. O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, no seu estilo pausado e rigoroso, começou a falar à hora aprazada. Quem não achou piada a esse “excesso de rigor” foram alguns jornalistas que iam cobrir o acontecimento e chegaram mais tarde.

Dir-me-ão: “Nem tanto ao mar nem tanto à terra”. Pois sim, mas a condescendência para com os atrasados também tem limites.


segunda-feira, outubro 24, 2011

Precaução



Sigo com interesse as crónicas do jornalista/escritor/viajante Gonçalo Cadilhe. Especialmente aquelas que transmitem outras vivências e “cheiros” das regiões mais desconhecidas ou exóticas.

Numa que ouvi na rádio na semana passada, Gonçalo falava sobre a Indonésia, a sua dispersão geográfica e as suas religiões e companhias de aéreas.

A República da Indonésia é um grande país localizado entre o Sudoeste Asiático e a Austrália, composto pelo maior arquipélago do mundo, qualquer coisa como 18 mil ilhas. Daí que as deslocações inter-ilhas tenham que ser feitas por aviões pertencentes a uma das muitas companhias aéreas existentes. Porém, como quase todas são de tão má qualidade, os acidentes são constantes e quase sempre fatais para quem viaja. Aliás, quase todas essas companhias estão proibidas de operar no espaço europeu. Mas, internamente, e sem alternativas, a única solução é embarcar e ter fé em Deus.

E já que falamos em Deus, diga-se que a Indonésia, para além de grande, tem um leque de religiões bastante diverso. Mais de 80% do povo é muçulmano, 10% são cristãos e há uma miríade de outras religiões entre as quais o Budismo e o Hinduísmo.

Mas houve uma coisa que achei muito curiosa nesta crónica do Gonçalo Cadilhe. Devido à falta de segurança da maior parte dos aviões, as operadoras aéreas decidiram distribuir folhetos com orações (das várias religiões) aos passageiros.

Precaução? Talvez! À cautela, porém, os viajantes sempre vão lendo as orações enquanto não chegam ao seu destino.

Sintomático e preocupante, não acham?


sexta-feira, outubro 21, 2011

Discretamente ...



Sempre gostei de pessoas discretas. Admiro aqueles que, sendo bons naquilo que fazem, não se põem em bicos de pés, à espera dos aplausos. Como acontece com a Elvira Fortunato, a cientista portuguesa de micro-electrónica, uma das melhores do mundo. Ou com o arquitecto Souto Moura que recebeu há pouco o “Nobel” da Arquitectura. Percebem o quero dizer? Vêm de mansinho e são verdadeiras sumidades.

Mas também há dos outros. Os que – discretamente – tentam driblar as leis esquecendo-se que ainda existem auditorias independentes que, mais dia, menos dia, vão pôr a nu as irregularidades que cometeram.

Foi o que sucedeu com o Director-Nacional da PSP, três Directores-Adjuntos e o Inspector Nacional que decidiram aumentar as suas próprias remunerações. No ano passado estes directores de topo da PSP passaram a vencer pelo novo regime remuneratório da corporação enquanto que a esmagadora maioria dos efectivos desta força de segurança, passado mais de um ano, ainda não conseguiu transitar para a nova tabela. E, em segredo (não existe forma mais discreta), autorizaram a sua “promoção” que custou ao Estado mais uns míseros 24 mil euros.

A auditoria da Inspecção Geral de Finanças apurou ainda, para além destas apressadas promoções, outros procedimentos irregulares e ilegalidades relacionados com abonos salariais e contratações.

Não sei se, neste caso, podemos falar de desonestidade pura e dura. Mas houve, claramente, falta de ética. A não ser que estes quadros superiores da PSP tivessem querido demonstrar aos seus subordinados que as promoções – tal como os exemplos - começam por cima.


quinta-feira, outubro 20, 2011

O cavalo do inglês



Conta-se que dois amigos britânicos conversavam sobre a “experiência científica” que um deles estava a fazer com o seu cavalo, a quem, a cada dia, dava um pouco menos de ração, sem que se reflectisse no seu desempenho. Porém, um dia, ao lhe perguntarem como estavam os resultados da experiência, o dono do animal, lamentou-se: “Aconteceu uma infelicidade, justamente quando o cavalo já quase não comia, caiu pró lado e... morreu”!!!

Temo que ao país venha a acontecer o mesmo que ao cavalo. É que continuo sem perceber, com as medidas de austeridade que têm sido anunciadas, como vamos conseguir gerar riqueza. De uma forma muito simplista, pode-se dizer que os cortes dos rendimentos (de salários, subsídios, etc.) provocam dois efeitos: um, as pessoas não conseguem poupar, dois, há retracção no consumo. Ora se não se gasta nas lojas, nos restaurantes, se não compram equipamentos, se não vão a espectáculos, enfim, se não há consumo, esses estabelecimentos começam por reduzir o pessoal e, muitos deles, acabam por encerrar portas. Com mais falências e mais desempregados o Estado fica com dois problemas nas mãos: por um lado deixa de receber as receitas provenientes dos impostos (IVA, IRS, IRC) e os descontos dos trabalhadores e, por outro, fica com um acréscimo de encargos, nomeadamente com mais subsídios de desemprego.

Ou seja, o Estado vê a sua economia a definhar. As receitas caem drasticamente enquanto as despesas tendem a subir por via dos encargos sociais. A não ser que estes últimos venham, também, a ser progressivamente retirados.

Outra coisa que me faz confusão, e também ainda não vi isso explicado, é porque é que os bancos não querem recorrer aos 12 mil milhões de euros que faz parte do programa de assistência a Portugal. Em princípio, essa verba destinar-se-ia ao financiamento das empresas e, dessa forma, a dinamizar a economia. Que motivo será esse?

Por isso digo que a recessão que o Ministro das Finanças prevê que possa alcançar 2,8% no próximo ano faz lembrar a história do cavalo do inglês. De tanta austeridade, o mais provável é que o país – sem a economia a funcionar – enfraqueça gradualmente e venha a morrer.


quarta-feira, outubro 19, 2011

Preocupação e Desespero

Na passada segunda-feira assinalou-se o dia mundial contra a pobreza extrema e foram divulgados pelo Eurostat os seguintes dados: só na Europa existem cerca de 43 milhões de pessoas que não têm meios para pagar uma refeição diária, 79 milhões que vivem abaixo do limiar da pobreza e 30 milhões que sofrem de subnutrição.


Com o trabalho empenhado dos 240 Bancos Alimentares em 21 países europeus conseguiu-se distribuir no ano passado 360 mil toneladas de produtos alimentares a Instituições de Solidariedade Social. Mais de metade do total dos alimentos entregues vieram do Programa Europeu de Apoio Alimentar a Carenciados (PCAAC) que ajudou 18 milhões de pessoas consideradas mais necessitadas.


Mas a crise e os consequentes cortes de verbas estão a pôr em risco a continuidade do Programa e, assim, Portugal pode deixar de receber as 18 toneladas de alimentos que todos os anos nos chegam, ou seja, um quinto do que tem recebido. O que quer dizer que mais de 400 mil portugueses podem vir a ser afectados. Cidadãos que, na maioria dos casos, só sobrevivem porque têm este apoio alimentar.


Sabemos que a preocupação e desespero – de utentes e instituições - tem vindo a crescer e vai-se agravar nos próximos tempos. O número de pessoas carenciadas continua a aumentar e as soluções tardam em aparecer.


terça-feira, outubro 18, 2011

Provisórios



As coisas têm vindo a piorar. Todos os dias vamos sabendo de novos impostos, de perdas (que dizem ser temporárias mas que sabemos se irão prolongar sei lá até onde), algumas que julgávamos há muito serem um direito adquirido. As condições de vida estão a deteriorar-se significativamente e a angústia e o desespero está a atingir proporções preocupantes. A vida de todos nós está a ficar insuportável.


Nos últimos meses, então, sempre que alguém anuncia uma nova medida de austeridade, acrescenta-lhe que será provisória durante ou até uma data qualquer.


Este ano vamos ficar sem cerca de 50% do 13º mês. Um corte provisório. Já depois de termos digerido este anúncio, fizeram-nos saber que em 2012 e 2013 os nossos subsídios de férias e de Natal irão à vida. Mais um corte provisório que pode, no entanto, “eternizar-se” durante mais uns anos (embora o Ministro das Finanças tenha dito ontem, em entrevista à RTP, que estas medidas não poderão perpetuar-se por motivos legais. Só que as leis mudam). E temo (fico arrepiado só de imaginar) que a partir de dois mil e qualquer coisa, algum Governante pense na possibilidade de começarmos a pagar – não sei se de forma provisória ou já definitiva – ao Estado o correspondente aos subsídios que agora nos foram esbulhados. Entenderam bem, não é não irmos receber, é sermos nós a pagar. E certamente que o faremos sentindo, palavra por palavra, os versos do Sérgio Godinho “com uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes”.


É que, para mim, os “Provisórios” eram, até há uns anos, apenas uma marca de tabaco.


Bem que os pacotinhos de açúcar do Café Nicola já andavam a mentalizar-nos: “Um dia ficamos sem subsídios de férias e de Natal”. E não é que tinham razão?


segunda-feira, outubro 17, 2011

Afogar as mágoas



Na última sexta-feira o meu filho espantava-se comigo porque que estava à espera de encontrar aqui no blogue um texto que disparasse em todas as direcções por causa do corte dos subsídios de férias e de Natal do próximo ano. Segundo ele, dava a ideia de que eu – ao escrever sobre a Fada do Dente, coisa que neste momento não interessa a ninguém – estava-me perfeitamente nas tintas para o que se tinha passado.


Expliquei-lhe que não tinha sido bem assim. Na verdade, depois de ouvir a comunicação de Passos Coelho ao país, sobre as novas (e duríssimas) medidas de austeridade e enquanto todos nós lá em casa tentávamos assimilar e digerir tudo aquilo - calados, revoltados e assustados - eis que, em vez de espernear, fui ao frigorífico e surgi na sala (aparentemente com uma expressão descontraída) com uma garrafa de espumante acabada de abrir e umas quantas flutes.


Percebi a confusão que se instalara naquelas cabecinhas e a certeza de que as medidas anunciadas tinham conseguido acabar comigo de vez. E percebi, também, que se questionavam sobre o que iríamos comemorar se estávamos à beira de saltar para o precipício.


Nada mais simples. É que, penso eu, para além de se dever beber na comemoração das vitórias é importante que também o façamos quando queremos afogar as mágoas. E, perante a hecatombe …


sexta-feira, outubro 14, 2011

A Fada do Dente



Já que nos últimos dias tenho “viajado” um pouco pelo mundo da fantasia, do encantamento e das “modas”, aqui vai mais uma opinião pessoal (já começo a jogar à defesa) sobre uma moda que, nos últimos anos, tem tido mais visibilidade. Refiro-me à “Fada do Dente”, a tal que troca “dentes de leite” colocados por debaixo dos travesseiros das criancinhas por moedas ou presentes.

Embora ninguém saiba a data em que se descobriu que existia uma Fada tão boa, consta que a coisa já vem do tempo dos vikings, um povo nórdico que invadiu e colonizou grandes áreas do que é hoje a Europa, entre os séculos VIII e o XI. No entanto, são muitas as histórias que circulam desde o início do século XX e que criaram raízes – tradições – primeiro, curiosamente, nos Estados Unidos e no Canadá e, mais tarde, no Reino Unido e até em Portugal.

Mas se é uma tradição já tão antiga porque é que digo que virou moda? Apenas porque eu, já nascido em meados do século XX, nunca ouvi falar em “Fadas do Dente” nem, muito menos, tive qualquer presente quando os primeiros dentes começaram a cair. Fiquei apenas desdentado, acho que guardei por uns tempos “o primeiro” e esperei pacientemente a chegada dos dentes que estavam prontos a despontar.

Os tempos eram bem diferentes então. Para além da Fada do Dente, calculem que nem sequer sabíamos da existência do Pai Natal. Os presentes, para os que tinham a ventura de os receber, eram, tão-somente, uma graça do Menino Jesus. Outros tempos em que uma geração ficava realmente “à rasca” quando sofria com dores de ouvidos e nem tínhamos a mínima noção de que o nosso problema era uma otite.


quinta-feira, outubro 13, 2011

Olá Princesa – 2ª parte



A crónica de ontem suscitou alguma polémica entre muitas Amigas minhas que são mães de lindas princesinhas. Não creio, porém, que haja motivo para tanto. Escrevi apenas aquilo que sinto, ou seja, que esse tratamento mais não é que uma moda. E, acreditem, não estava a pensar em alguém em especial quando me referi às princesinhas e às suas reais mãezinhas. Ficamos, portanto, assim, a questão “das princesinhas” é, para mim, tão-somente, uma questão de moda, uma das tantas que sempre aparecem em cada geração. Mais nada.


Porém, não posso deixar de pensar nos perigos que, em minha opinião, podem surgir provocados por esse tratamento. A sua utilização continuada em detrimento de um nome próprio pode trazer às crianças uma espécie de trauma (chamemos-lhe assim), embora lhe reconheçamos toda a ternura que contém. Num nome há uma identidade própria, uma personalidade, sinais distintivos que qualquer outro tratamento – ainda que afectuoso e da moda - não possui.


Uma Amiga minha (eu sei que me estás a ler) confidenciou-me, certa vez, que muito raramente ouviu o seu pai tratá-la pelo nome. Ou era a “miúda”, ou a “pequena” ou a “minha filha”. E isto, como compreenderão, deixou-lhe pelo menos recordações (continuo a não querer chamar-lhe trauma) que permaneceram até hoje.


quarta-feira, outubro 12, 2011

Olá Princesa



Certamente que quando Clara Pinto Correia escreveu o “Adeus Princesa” e abordou os problemas vividos num Alentejo rural envolvido em conflitos políticos, económicos e sociais, não poderia supor que uns anos mais tarde, não no Alentejo mas em Portugal, iria nascer uma moda que alastrou, e de que maneira.


Tornou-se costume ouvir mãezinhas com filhas pequenas tratar os seus rebentos docemente por “Princesas”. Em cada sítio em que há meninas é um coro de chamamentos “Oh, Princesa, traz-me isto”, “Oh Princesa, vem aqui à mamã”, “Oh Princesa, dá um beijinho à tia”.


Mas, mais do que pensar que se trata apenas de uma moda, embora afectuosa, o que me preocupa – pela omissão – é a forma como os pais tratam os seus filhos homens. Será que lhes dizem simplesmente “Oh puto, anda cá” ou, projectando o seu maravilhoso futuro, chamam-lhes “Oh Cristiano (Ronaldo) vai dizer à tua mãe …”.


E é em coisas tão simples e tão vulgares como estas que se nota, desde cedo, a discriminação nas sociedades.