terça-feira, setembro 06, 2011

O vil metal



Quando ontem me referia às afirmações do multimilionário americano Warren Buffet que diz pretender pagar mais impostos para ajudar o seu país, a história fez-me recordar (embora com contornos bem diferentes) aquele caso, acontecido há uns anos, de um industrial da Lousã que quis oferecer – pagando do seu bolso – um jipe a cada um dos seus 160 trabalhadores e a mais 27 funcionários de uma firma associada. Uma operação que lhe custaria qualquer coisa como 2,5 milhões de euros.


Jorge Carvalho, de seu nome, solteiro e sem filhos, homem que gostava de ajudar o próximo – por diversas vezes apoiou financeiramente diversas instituições locais, desportivas, humanitárias, culturais e de solidariedade social – achava que se tinha tido sucesso era justo que compensasse quem o tinha ajudado a lá chegar. Só que os sobrinhos assim não o entenderam e trataram de arranjar maneira de não concretizar a sua vontade. E conseguiram-no.


O vil metal, uma vez mais. Perante esta aparente “inevitabilidade”, regressamos à dúvida de sempre: que é feito de valores como a “humildade”, o “reconhecimento” e a “generosidade”?


segunda-feira, setembro 05, 2011

A fúria de pagar



Acho que toda gente se admirou quando o terceiro homem mais rico do mundo, o americano Warren Buffet, declarou:
“… os nossos dirigentes pediram ‘sacrifícios partilhados’. Mas eu fui poupado a esse pedido. Falei com os meus amigos megarricos para saber quais as aflições de que estavam à espera. Também eles tinham escapado … no ano passado paguei cerca de 17,4% em impostos mas para quem trabalha nos meus escritórios a carga fiscal pagou uma média de 36% … os legisladores parecem sentir-se na obrigação de proteger os super-ricos … Os meus amigos e eu já fomos suficientemente mimados por um Congresso que favorece os multimilionários. Chegou a altura de o Governo levar a sério a partilha dos sacrifícios”.


Espantoso, não é? E, perante isto, a maioria dos portugueses ter-se-á questionado “mas o que é que se está a passar? Então os ricos dizem agora que querem pagar mais?”


Claro que no nosso país nenhum dos poderosos (com excepção de Joe Berardo e mais alguns … poucos) mostraram disponibilidade para pagar mais impostos para ajudar o país a recuperar da crise. Aliás, o homem mais rico de Portugal – Américo Amorim - chegou mesmo a afirmar "Não me considero rico, mas sim trabalhador". Um trabalhador rico, digo eu. E se Amorim não se considera rico, neste país de pobres, nada há para acrescentar. Sim, há. Há falta de decência.


sexta-feira, setembro 02, 2011

Quando os tubarões atacam



Estava de férias no Algarve quando o telemóvel tocou e vi no visor que era o meu amigo Víctor. Admirei-me com a chamada porque quando estamos de férias não costumamos falar e mais admirado fiquei quando lhe percebi o tom de voz alterado, coisa que não é muito comum.


“Então, já encontraste por aí os Tubarões? …” perguntou-me a abrir.


Quando lhe ia responder, atirou a matar “não lhes chegava terem cortado no subsídio de Natal, aumentado brutalmente os transportes públicos e agora vá de aumentar o IVA na electricidade e no gás natural já a partir de Outubro. Ouviste o Professor Marcelo dizer que ‘isto é uma pantufada monumental na classe média’?…”


Tentei falar mas o bombardeamento continuava …


“Impostos, mais impostos e mais impostos, Malandros é que eles são”. A zanga do Víctor era bem perceptível e o tom agreste ia subindo. “Esses tubarões estão a abocanhar tudo e pouco falta para acabar com o que resta da classe média e do estado social. Razão tinha o Zeca quando cantava ‘Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada...’”.


Ainda consegui responder “mas olha que só foram vistos uns quantos tubarões e …” mas senti que a chamada tinha sido cortada.


Não tive sequer tempo de lhe explicar que os tubarões a que eu me referia eram aqueles que apareceram a uma milha da costa algarvia, uns do tipo "cabeça de martelo" que são inofensivos e que este ano vieram em número maior do que o costume. Desconfio, porém, que não era destes tubarões que o meu amigo falava.


quinta-feira, setembro 01, 2011

Confirmação: Alberto João Jardim continua a ter dedo médio



Confesso que estou sempre à espera que alguma coisa aconteça durante a festa anual do PSD Madeira, no Chão da Lagoa, nomeadamente quando “essas novas” têm como protagonista Alberto João Jardim.


Pois este ano Jardim não querendo fugir à tradição da vulgaridade a que nos habituou, brindou os jornalistas com o dedo médio da mão bem levantado, num gesto impróprio conhecido de todos.


Igual a si próprio, continua a ser notícia pelas piores razões. E de uma pessoa com tamanhas responsabilidades e que é o Presidente de um Governo Regional só se pode pensar que o homem endoidou de vez. A não ser assim – e para além do tal gesto - como explicar que, sob sua orientação, as verbas postas à disposição pelo Governo da República para a reconstrução da Madeira aquando do temporal de Fevereiro de 2010 estejam a ser aplicadas em despesas de funcionamento em vez daquilo para que foram destinadas?


Uma coisa é certa, Alberto João Jardim continua a ter dedo médio e continua também a fazer gala de atitudes completamente despropositadas e ordinárias. E, como em outras ocasiões, pergunto: “E não há quem ponha cobro a isto?”


quarta-feira, agosto 31, 2011

Estamos de volta



“E mal nascemos já fizemos sessenta anos” como cantava José Viana. O “Por Linhas Tortas” começou em 31 de Agosto de 2005 e hoje já estamos a comemorar o início do sétimo ano de vida. O tempo voa.


Estamos felizes mas, contudo, tivemos algumas dúvidas em prosseguir esta caminhada. Por isso, reuniu-se a equipa que está por detrás de tudo isto para analisar se as condições eram propícias a continuar. Assim, juntámos o pesquisador dos temas da actualidade (eu próprio), o responsável pela ficção (eu), o analista dos blogues da concorrência e de referência (eu), o elemento que tem a seu cargo a procura e a escolha das fotografias e grafismos publicados (eu), o coordenador da interacção entre o blogue e as redes sociais (eu), o revisor dos textos para que o português escrito contenha o menor número de erros ortográficos e as frases façam sentido do ponto de vista da sintaxe (eu), um supervisor geral (eu) e, finalmente, o escrevinhador de serviço (também eu).


Então, esta vasta equipa discutiu o futuro do “Por Linhas Tortas”, séria e profundamente como se impunha, equacionando as vertentes mais susceptíveis de poder fazer travar a publicação deste blogue, porventura dos mais influentes no país, ainda que os meus amigos não tenham consciência disso. Levámos em conta a crise internacional (e a portuguesa), foi tida em consideração de que a suspensão do blogue iria acrescentar mais uns quantos desempregados ao número considerável que já temos e, por último, mas não menos importante, achámos que seria injusto privar os nossos amigos que nos acompanham, dos textos que fielmente vêm procurar e onde encontram os nossos estados de alma, os desabafos, os comentários, a ironia ou a ficção. Onde cada post é uma espécie daqueles rebuçados que se vendiam dantes nos comboios e que o vendedor apregoava “cada cor seu paladar”. Assuntos tanto ou quanto possível diferentes e actuais. Mas atenção, não tenham a ilusão de que este é um espaço de debate político ou onde os temas são tratados de uma forma imensamente séria (e chata) à procura de soluções. Não, a linha editorial do “Por Linhas Tortas” é bem clara e nunca pretendemos enganar os nossos leitores. Aqui podem encontrar, isso sim, uma diversidade de matérias que tentamos trabalhar de forma despretensiosa e séria. Apenas isso.


E foi exactamente pelos nossos amigos que insistem em aceder a esta página, certamente por falta de outras soluções bem mais interessantes, que decidimos cantar hoje os “Parabéns a Você” e estar presentes no primeiro dia (e nos que se seguem) deste sétimo ano.


Vamos, portanto, em frente enquanto tivermos força e enquanto os manda-chuvas do novo acordo ortográfico não nos impedirem de escrever de acordo com a antiga ortografia.


Tenham a certeza que vamos gostar muito da vossa companhia.


quinta-feira, julho 28, 2011

Uns dias de férias



Como é habitual, fazemos aqui a nossa pausa para férias.
O blogue volta em 31 de Agosto, dia em que o “Por Linhas Tortas” faz anos. Estaremos aqui para festejar a data.
Fiquem bem.
Té já!


quarta-feira, julho 27, 2011

Até que enfim!



Não é todos os dias (aliás, é raríssimo) que um Ministro se disponha a ir a um aeroporto para receber uns quantos portugueses que se destacaram numa competição lá fora. A exemplo, aliás, do que acontece com a maioria da população que, de uma forma geral, se está nas tintas para aqueles que, nas várias actividades, conseguem atingir a excelência fora (e dentro) de fronteiras. A excepção resume-se aos adeptos do futebol que raramente deixam os seus créditos por mãos alheias, isto é, enchem as zonas de chegada dos aeroportos para saudar os seus clubes, nomeadamente a rapaziada do norte que tem tido muito mais razões para festejar do que os do sul.


Como referi, não é normal que um Ministro vá receber uma equipa (ou uma personalidade) vencedora numa competição internacional. Mas às vezes o improvável acontece. Há dias o novo Ministro da Educação e Ciência – Nuno Crato - recebeu no aeroporto de Lisboa a comitiva que concorreu às Olimpíadas Internacionais de Matemática. Uma equipa fantástica que conseguiu uma medalha de ouro e duas de bronze. Feito inédito e valoroso de que nos devemos orgulhar.


E devemos, também, aplaudir, a presença do Ministro. Se para alguns a sua atitude é considerada populista, para mim, ela representa o reconhecimento oficial de um governante que quis publicamente dar o devido relevo ao mérito daqueles jovens. É um estímulo que lhes deve ter sabido bem e que demonstra que, cá no burgo, ainda há quem se preocupe com outras coisas para além do futebol. Até que enfim!


terça-feira, julho 26, 2011

Vivó luxo



Fiquei embasbacado quando ouvi no último domingo na sua habitual crónica da TVI, Marcelo Rebelo de Sousa denunciar que o Ministério da Cultura tinha um apartamento em Veneza para albergar convidados do Estado. Sobretudo, adiantou, aquando da Bienal de Veneza.


O que só prova que o facto de andarmos literalmente de mão estendida à caridade internacional e de, nós contribuintes, sermos sistematicamente sobrecarregados de impostos, não impede, ainda assim, que apresentemos uma fachada de alguma prosperidade. Ou seja, “Está-se bem”, na versão mais moderna ou “Pobretes mas alegretes” como se dizia dantes.


Com que então, um apartamento na maravilhosa Veneza para acolher as distintas personalidades que vão visitar a Bienal de Veneza, a exposição internacional de arte que se realiza desde 1895, de dois em dois anos. Perante isto só me ocorre dizer “Vivó luxo”.


segunda-feira, julho 25, 2011

Poupar? Perante isto continuam a pedir-nos para poupar?



Claro que não se pode confiar em tudo o que é veiculado pela net e, por isso, tenho sempre o maior cuidado em reencaminhar os mails que recebo e abstenho-me de tecer grandes comentários a certos assuntos, sobretudo aqueles que nos causam mais admiração ou maior revolta.
Porém, às vezes, a coisa é mesmo a sério, como aquele que agora veio a público e está a ser amplamente divulgado nas redes sociais, nos blogues e através de mails. A presidente da Assembleia da República - Assunção Esteves – atribuiu a Mota Amaral, na qualidade de ex-presidente do Parlamento, um gabinete, uma secretária, um BMW 320 e um motorista.
Diz o despacho publicado no Diário da República, II Série-E – Número 1, de 24 de Junho de 2011:


“Ao abrigo do disposto no artigo 13.º da Lei de Organização e Funcionamento dos Serviços da Assembleia da República (LOFAR), publicada em anexo à Lei n.º 28/2003, de 30 de Julho, e do n.º 8, alínea a), do artigo 1.º da Resolução da Assembleia da República n.º 57/2004, de 6 de Agosto, alterada pela Resolução da Assembleia da República n.º 12/2007, de 20 de Março, determino o seguinte:
a) Atribuir ao Sr. Deputado João Bosco Mota Amaral, que foi Presidente da Assembleia da República na IX Legislatura, gabinete próprio no andar nobre do Palácio de São Bento;

b) Afectar a tal gabinete as salas n.º 5001, para o ex-Presidente da Assembleia da República, e n.º 5003, para a sua secretária;

c) Destacar para o desempenho desta função a funcionária do quadro da Assembleia da República, com a categoria de assessora parlamentar, Dr.a Anabela Fernandes Simão;

d) Atribuir a viatura BMW, modelo 320, com a matrícula 86-GU-77, para uso pessoal do ex-Presidente da Assembleia da República;

e) Encarregar da mesma viatura o funcionário do quadro de pessoal da Assembleia da República, com a qualificação de motorista, Sr. João Jorge Lopes Gueidão;

Palácio de São Bento, 21de Junho de 2011
A Presidente da Assembleia da República, Maria da Assunção Esteves”


Assim, tal e qual. Esta é a prova provada de que a nossa Assembleia da República, não aplica a si própria a contenção que o governo tem vindo a impor aos portugueses. E o que os portugueses não conseguem entender - e ainda que as leis permitam que as benesses atribuídas às 2ªs figuras do Estado (mesmo quando deixam o cargo) - é que essas leis não sejam imediatamente revogadas, dado o estado actual do país. Tanto mais que é o erário público que suporta esses custos.


Apesar dos “sinais”, como aqui comentávamos há dias, isto não vai lá só com viagens em turística e com a possibilidade de se trabalhar sem gravata. Não, é preciso mais …


sexta-feira, julho 22, 2011

Anomalias do Amor



Eugénio de Castro (1869 – 1944), foi considerado, na sua época, pela crítica em geral como um poeta modesto. No entanto, teve um grande contributo na renovação da literatura em Portugal, aproximando-a das modernas concepções europeias.


De Eugénio de Castro “Anomalias do Amor”


Velhinhos há de coração ardente,
Como há mancebos de alma encanecida;
Cedo anoitece para uns a vida
E para outros não tem fim o poente.


O moço para o amor indiferente
É campa de si mesmo, arrefecida,
E o velho, que ama com paixão dorida,
Dentro do peito um prisioneiro sente.


Um leva o coração, de neve cheio,
Arde o outro em chamas rútilas, inquietas,
E ambos, descalços, vão pisando as brasas…


Qual merece mais dó? Sábios, dizei-o:
O moço que só anda de muletas,
Ou o velho que ainda quer ter asas?



quinta-feira, julho 21, 2011

Uma coisa é a corrupção e outra o amor pelo Glorioso


Há muito que se sabe das “ligações perigosas” entre a indústria farmacêutica e a classe médica, onde a tão badalada corrupção se materializa através de viagens e fins-de-semana em estâncias turísticas (algumas em lugares distantes e paradisíacos e muitas vezes a pretexto de congressos científicos ou acções de formação), cheques-prenda, consolas ou até mesmo “dinheiro vivo” entregue em sobrescritos. Tudo isso e muito mais oferecido a médicos como contrapartida da prescrição dos medicamentos oriundos dos vários laboratórios. Quanto mais embalagens forem receitadas, maior será o valor da contrapartida. E, assim, neste esquema em que não há culpados, lá se tem vivido, com alegria e impunidade. Mas isso já nós sabíamos e condenávamos, e embora seja crime, parece que nos habituámos à ideia.


Agora a novidade é que foram apanhados alguns clínicos que em troca das tais prescrições aceitaram bilhetes para jogos internacionais do Benfica e as respectivas estadas em Lisboa. E este facto – o de virem assistir aos jogos do Glorioso - altera tudo. É que o favorzito, neste caso, nunca poderá ser considerado um crime mas antes a manifestação mais forte de fervor nacional. Provavelmente os senhores doutores pensarão “Ah, é pr’a ir ver o Benfica, então vou receitar uma caterva dos vossos medicamentos”. E, por esta ser uma boa razão, constitui uma atenuante de peso, caso algum mal intencionado advogado se lembre de colocar uma acção contra esse distinto médico benfiquista. Não concordam? É que uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa.

quarta-feira, julho 20, 2011

E se Portugal vendesse o ouro?



Com a escalada do preço do ouro nos mercados internacionais nos últimos dias, logo se equacionou a hipótese de Portugal vender as suas reservas de ouro para amortizar a dívida que tem. Uns (cá de dentro), por pura ignorância dos acordos entre o Banco Central Europeu e os Bancos Centrais dos vários países, outros (os de lá de fora e, sobretudo, os alemães), a colocarem mais lenha na fogueira e a defender que deveríamos vender mesmo o nosso ouro antes de pensar em receber o empréstimo (a ajuda) já combinada com as instâncias internacionais.


E a verdade é que tendo o nosso país uma quantidade apreciável de ouro (382,5 toneladas que faz de nós a sétima nação do mundo com maior reserva de ouro) parece da mais elementar sensatez desfazermo-nos das barras de ouro para liquidarmos as nossas dívidas e acabar com os nossos problemas. Parece mas não é.


E não é por duas razões básicas. A primeira, porque o ouro é propriedade do Banco de Portugal e não do Estado e, portanto, se fosse vendido, o lucro era do BdP que, quando muito, distribuiria, mais tarde, os dividendos ao patrão-Estado. A segunda é que, mesmo que o nosso ouro valha agora 11,6 mil milhões de euros não chega nem de longe para cobrir a nossa dívida pública que é de 159,6 mil milhões de euros e um défice de 14,9 mil milhões.


Daí que, mesmo que isso fosse possível, para quê alienar uma reserva que não iria resolver coisíssima nenhuma? O que faz sentido, isso sim, é que o Estado mude de atitude e promova o necessário para reactivar o seu tecido produtivo a fim de gerar riqueza. Enquanto isso, irá agindo pelo lado da receita fácil, isto é, vai continuar a lançar mais impostos sobre os cidadãos.


Portanto, vão-se preparando para mais impostos que, fatalmente, chegarão e esqueçam a pergunta “e se Portugal vendesse o ouro?”. Como se disse, além de não poder, isso não resolveria os nossos problemas. E, já agora, esqueçam também a velha frase “vão-se os anéis mas fiquem os dedos” porque mesmo que se vendessem os anéis (o ouro), ficaríamos com os dedos (neste caso, as dívidas) ligados a um futuro nada risonho.


terça-feira, julho 19, 2011

“Souvenir de Portugal”



Para ser franco não me impressionou por aí além o facto de uma fabriqueta nacional comprar produtos lá fora para, depois, os vender aos turistas como “Produto de Portugal”. Fiquei indignado, isso sim, quando há uns anos se soube que alguns países andavam a produzir o nosso “vinho do Porto” de uvas que nasciam lá nas suas terras quando o verdadeiro “Porto” é legitimamente um vinho natural e fortificado, produzido exclusivamente a partir de uvas provenientes da região demarcada do Douro, em Portugal. E não é despiciente a forma como é utilizada a palavra “exclusivamente”.


O que se passa com este “produto algarvio” é que a empresa da zona de Torres Vedras que vai comprar a granel os figos secos à Turquia e o miolo de amêndoa aos Estados Unidos (por serem mais baratinhos) embala-os, depois, da mesmíssima forma como sempre se fez no Algarve e vende o produto final como um “Souvenir de Portugal”. Só não se sabe em que parte do mundo foram comprar os cestos e os celofanes.


Poder-se-á dizer que se está a vender gato por lebre. É verdade que sim, mas a verdade também é que o produto (a sua criação) é tradicional cá da terra e provavelmente dá trabalho a alguns portugueses que trabalham na tal fabriqueta. E não deixa de ser também uma lembrança de Portugal, o país onde os estrangeiros (e se calhar os nacionais) adquiriram a mercadoria. Ainda assim, e para aqueles que se mostram mais indignados com a “marosca”, apetece-me perguntar se nunca compraram uma peça de roupa ou de artesanato num determinado país que, mais tarde e depois do regresso a casa, verificaram ter sido feita na China ou na Índia?


O que se questiona verdadeiramente é se em vez de irem comprar a matéria-prima lá fora não o poderiam ter feito cá dentro, no próprio Algarve … terra de maravilhosas praias e de figueiras e amendoeiras. Quanto mais não fosse por uma questão de nacionalismo, num tempo em que o país tanto necessita da ajuda de todos nós.

segunda-feira, julho 18, 2011

Poupanças imprescindíveis?

Quando os Governos tomam posse os cidadãos costumam mostrar alguma condescendência para com quem chega, o período de tempo a que normalmente se chama o “estado de graça”. Com isso, dá-se alguma folga aos novos governantes para que tenham tempo para conhecer os dossiers e os cantos à casa para, só depois, começarem a actuar. Porém, devido à situação em que se encontra o país, este Governo não tem direito ao tal “estado de graça”. As soluções têm que aparecer e já. Mas que soluções, e a que preço? Vejamos duas delas:

1 - Assunção Cristas, responsável pelo super Ministério da Agricultura, Mar e Ordenamento do Território entrou a matar. Para conseguir reduzir as despesas do Ministério, direccionou a sua atenção para o ar condicionado. Assim, e para manter frescos e operacionais os funcionários sem gastar demasiada energia, decidiu que os homens poderão trabalhar sem gravata enquanto que as senhoras poderão envergar trajes um pouco mais ligeiros. O ar condicionado vai continuar ligado mas não poderá estar acima dos 25º. Contudo, para além do aspecto ambiental da medida, fica por saber que ganhos significativos se irão conseguir? Ao que confessou a Ministra, nem ela tem noção disso, pelo que se prevê que, nos próximos meses, para que se registe ainda maior poupança, os homens possam vir a vestir camisolas de alças à camionista e elas bikinis e, claro está, todos eles devem calçar havaianas. Tudo em prol duma factura de energia com valores mais baixos.


2 – Como foi anunciado o Governo encolheu, tem menos Ministérios e um dos que desapareceu e foi substituído por uma Secretaria de Estado foi o da Cultura. Mau sinal, digo eu. Embora os dinheiros devam ser canalizados para sectores considerados prioritários (e a cultura não é seguramente um deles) é pelo menos preocupante que venha ser dada menor atenção às várias iniciativas culturais do país. Preocupação que se tornou ainda maior quando ficámos a saber que o Secretário de Estado da Cultura – Francisco José Viegas – é o único dos três Secretários de Estado que dependem do Primeiro-Ministro que não tem direito a assistir às reuniões do Conselho de Ministros. Não sendo uma desconsideração pelo Secretário de Estado (e acredito que não seja) por que é que a Cultura está impedida de se sentar na mesa do poder? Terão medo que ele fale mesmo sobre cultura ou será apenas para poupar o custo de uma cadeira?


sexta-feira, julho 15, 2011

“Derrapagens”

A notícia já nem surpreende mas, de qualquer forma, regista-se. Então não é que, em dois anos, quatro administradores dos Correios de Portugal (CTT) percorreram, nos carros que lhes estão atribuídos (três Audi e um Mercedes), o número total de quilómetros previstos para quatro anos?

Claro que não se põe em causa as necessidades absolutas de se deslocarem – em serviço – mais do que tinham previsto, tanto mais que a empresa (ou parte dela) faz parte do plano de privatizações anunciadas e, por isso, há muitas voltas a dar. Quando muito pode-se é questionar se o planeamento foi bem pensado.

E questiona-se, também, a razão que leva a empresa a suportar os 12 900 euros adicionais de combustível quando o regulamento interno dos CTT estabelece que os demais funcionários são obrigados a pagar do seu bolso sempre que a quilometragem permitida do seu carro de serviço é excedida.

E a pergunta parece óbvia, porque é que a aplicação das regras relativas a “derrapagens” (já que falamos de carros) é diferente quando se trata de administradores ou de outros empregados?


quinta-feira, julho 14, 2011

Sinais

Sempre achei que as palavras têm uma grande força, um significado próprio, que podem dar, se bem aplicadas, maior realce ao que se pretende transmitir. Quer as palavras ditas quer as escritas. Da mesma forma que em política os sinais dados pelos diversos agentes (no governo ou fora dele) constituem indícios, linhas de orientação daquilo que se propõem fazer. Bem ou mal.


Vem isto a propósito do recente anúncio do Primeiro-Ministro em reduzir ou terminar com certos privilégios que os membros do Governo têm tido até agora. Passos Coelho determinou, por exemplo, que os Ministros deixem de ter direito a carro para uso pessoal (fins-de-semana ou deslocações privadas) e que acabem os cartões de crédito para despesas de representação. Como já tinha decidido, também, que os membros do Governo iam começar a utilizar a classe económica em viagens aéreas dentro da Europa.


Para muitos, medidas como estas não passam de pura demagogia. Para outros, elas são perfeitamente inúteis já que não nos vão tirar da situação difícil em que nos encontramos. Mas, lá está, são os tais sinais (espero que estes sejam bons), que vêm ao encontro de uma vontade que a todos nós assiste há muito. Que o exemplo venha de cima, como que a transmitir que não são apenas os do costume a suportar todos os sacrifícios.


terça-feira, julho 12, 2011

Palíndromo, Tautologia e Cª. Lda.



Ah pois é. A língua portuguesa é tão complexa que, às vezes (muitas vezes), nos deixa completamente boquiabertos.


Eu que sei quase tudo, confesso que não fazia a mínima ideia que houvesse um palíndromo nem, tão-pouco, uma tautologia, termos que, à primeira vista, parecem-me coisas do período paleolítico ou quejando.


De qualquer forma e por via das dúvidas consultei o dicionário e lá estavam as duas palavras - altaneiras, vivas e resplandecentes - como que a troçar da minha cara à banda por tamanha ignorância. Especificando …


Palíndromo – Adjectivo – Diz-se da palavra ou da frase em que o sentido é o mesmo, quer se leia da esquerda para a direita quer da direita para a esquerda.
Exemplos de palavras:
OVO – OSSO – RADAR
De frases:
A DROGA DA GORDA
A TORRE DA DERROTA
O GALO AMA O LAGO
Resumindo um palíndromo é uma palavra ou uma frase que se lê da mesma maneira da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda.

Já a Tautologia é um substantivo feminino que significa a repetição inútil da mesma ideia.
Exemplos:
Subir para cima
Acabamento final
Todos foram unânimes
Criação nova
Ou seja, repetições que são perfeitamente dispensáveis.

Bem, por hoje o caldo de cultura está dado. Fiquemo-nos, então, por aqui antes que haja uma “surpresa inesperada”.
Ohps!!! Será que existirá alguma surpresa esperada?


segunda-feira, julho 11, 2011

Somos LIXO ?????????????????


Bem sei que o comentário feito pelo José ao post publicado na última sexta-feira se integrava num outro contexto, mas à sua pergunta “Unanimidade é coisa que exista?” quase que sou obrigado a responder que sim, que existe, pelo menos em relação à reacção portuguesa e europeia à descida do rating de Portugal para uma categoria considerada "lixo". Classificação essa que nos deixou muito abalados. Ninguém gostou que nos considerassem LIXO! Aliás, esta foi, indiscutivelmente, a palavra mais utilizada na semana passada e, quem sabe, se não será a que mais peso terá nos próximos tempos em Portugal e lá fora.

Na verdade, foi violenta a reacção da maioria dos políticos, dos economistas e da generalidade das pessoas ao considerarem que se tratou de uma medida injustificada face aos compromissos que assumimos com a troika e face às medidas duras já anunciadas pelo recém-empossado governo com maioria parlamentar. Para a maioria dos cidadãos, houve arrogância e análise superficial e ignorante por parte da agência de notação.

Pode até ter havido todas essas coisas mas o que, quanto a mim, está por detrás de tudo isto são os interesses (os ganhos) dos clientes destas agências (e delas próprias) que assentam num princípio bem definido “quanto mais um país e as suas grandes empresas correrem o risco de não pagar, mais estes senhores ganham”. Como disse José Gomes Ferreira num comentário recente “só os ingénuos é que podem pensar que estas descidas de rating têm a ver com critérios puramente técnicos”. Portanto, e sejamos claros, existe especulação pura e dura. Isto, claro está, para além da guerra suja entre o euro e o dólar, em que o primeiro se valoriza consistentemente em relação à moeda americana e, portanto, há que, de uma vez por todas, dar cabo do euro através da liquidação dos alvos mais fáceis, para já a Grécia, a Irlanda e Portugal. E não julguem que estou para aqui a magicar uma teoria da conspiração, porque ela – a conspiração - existe mesmo.

No meio da tormenta, em que parece que toda a gente anda enjoada mas onde ninguém toma medidas, houve uma acção levada a cabo pela agência de publicidade BBDO Portugal a que achei imensa piada. Em protesto contra o corte de notação que nos classificou em “lixo”, os criativos da BBDO encheram um saco de lixo verdadeiro e enviaram-no pelos correios para a sede da Moody’s, nos Estados Unidos. Todo o processo foi gravado em vídeo que está disponível no YouTube - http://www.youtube.com/watch?v=Y3hnH1ezHzY – que é acompanhado pela música 'Fuck You', de Cee Lo Green. Uma nota final para a última imagem do vídeo. Uma frase, uma mensagem bem conseguida, em minha opinião:

“Working to improve our rating

Assinada: Portugal”

sexta-feira, julho 08, 2011

Nada me faltará

Penso que todos, e de todos os quadrantes políticos, são unânimes na admiração que tinham por Maria José Nogueira Pinto. Sempre a considerei uma mulher íntegra e de convicções que, independentemente das ideologias, lutava por aquilo em que acreditava. Ela morreu. Presto-lhe uma singela homenagem transcrevendo a última crónica que escreveu, publicada no Diário de Notícias. Uma crónica de grande dignidade e coragem:


“Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.”


quinta-feira, julho 07, 2011

Uma idosa teve direito a um acréscimo de 1 euro por mês na sua pensão

A história que vos recordo hoje, está na ordem do dia e só prova, a quem dúvidas tivesse, que o Estado é pessoa de bem. Conta-se em duas palavras.


Joana Sampaio é uma senhora de 88 anos que vive na freguesia de Delães, perto da Marinha Grande. Por ter toda a vida trabalhado na agricultura recebe agora uma merecida e generosa pensão de … 299 euros. Mas a Segurança Social, sempre atenta, informou a senhora que teria direito a receber o chamado Complemento Solidário de Reforma, bastando para isso que iniciasse um processo de candidatura que devia incluir as declarações de IRS dos seus seis filhos. Nada mais fácil, pois, para poder acrescentar aos seus rendimentos o simpático montante de 1 (um) euro. Leram bem, a D. Joana poderia assim, de um momento para o outro, receber de mão beijada e sob sugestão da própria Segurança Social, mais 1 euro todos os meses. Mas …


Como em outras histórias, esta também tem um lamentável mas. Como se não fosse, já de si, ridícula a verba atribuída, a Segurança Social só efectuará o pagamento quando o valor atingir um mínimo de cinco euros. Quer dizer, de cinco em cinco meses vai ser enviado um chorudo cheque de 5 euros. Uma fortuna. Se bem que, após ter iniciado o processo de candidatura, em Fevereiro de 2008, ainda não tivesse recebido qualquer cheque. Quer dizer, regras são regras mas o raio das burocracias às vezes tem destes imponderáveis.


De qualquer forma, apraz-me registar duas coisas: a primeira é que, como já referi, o Estado, mesmo em contenção, não esquece os seus cidadãos e, a outra, é que o mesmo Estado está atento aos exageros que os cidadãos cometem quando o dinheiro abunda. Daí que dê mas parcimoniosamente. Como neste caso, em que algum responsável de pacotilha deve ter pensado: “D . Joana tome lá mais um euro por mês mas cuidado, não se alambaze”.


quarta-feira, julho 06, 2011

As falsas receitas médicas

Há dias quando conversava com um médico amigo falei-lhe, à laia de provocação, no caso das falsas receitas médicas, do crime de milhões de euros que está ainda a ser investigado. Ele não me deu grande saída, disse que em relação às vinhetas elas são facilmente falsificáveis mas percebi que a situação não lhe era confortável porque toda a classe médica estava sob suspeita, ele incluído.

Sobre a fraude em si mesma espero que os peritos consigam chegar a conclusões mas, como cidadão, não posso deixar de me espantar com a inexistência de controlos ou, a existirem com a sua falta de eficácia que permite que aconteçam coisas absolutamente extraordinárias, como por exemplo, a de um só médico ter passado 2400 receitas por mês, ou seja, 120 por cada dia útil, num total de 32 mil por ano.

Falha de controlo essa que admite também que médicos partilhem o mesmo número de cédula profissional, ou que médicos tenham 3 cédulas profissionais com números diferentes ou, ainda, que médicos que já morreram continuem a passar receitas. E o que dizer das vendas de medicamentos fictícias a doentes já falecidos?

Um conjunto de ilegalidades que levam a que, só em 2010, a fraude tenha atingido nada menos do que 40% da despesa do Estado com medicamentos. É obra.

Mas se não pretendo usar a ironia para realçar a magnífica performance de um médico que, só à sua conta, consegue prescrever 120 receitas por dia nem para me dizer perfeitamente atónito com a capacidade de clínicos já falecidos que continuam a passar receitas, quero, todavia, manifestar a minha mais profunda indignação por constatar que este tipo de fraudes continua a verificar-se apesar da existência de sistemas informáticos sofisticados. Até quando?

terça-feira, julho 05, 2011

Uma alforreca chamada Passos



Acredito que todos saibam o que é uma alforreca. O que não sei é se saberão quem é João Gonçalves, o actual adjunto político de Miguel Relvas, o Ministro dos Assuntos Parlamentares. Eu não sabia, confesso.

Pois João Gonçalves é o autor de um blogue muito conhecido que escreve umas coisas um tanto ou quanto “inconvenientes” e que lhe poderiam causar alguns amargos de boca. Neste caso, porém, não se deu mal.

Vejamos, então, alguns dos comentários (que transcrevo do Expresso desta semana) que fez sobre o actual Primeiro-Ministro:

Quando há nove meses Passos Coelho apresentou uma proposta de revisão constitucional, João Gonçalves escreveu: “Insensível ao curso da realidade, tal qual uma alforreca perdida com a mudança das marés e das correntes. Passos deu à costa com um tema perfeitamente escusado, mal explicado e sem o menor interesse. Passos já vai na terceira ou quarta oportunidade e ainda não conseguiu uma primeira boa impressão. Palpita-me que tem um lindo futuro atrás dele”.
Em 2010, depois de ver uma entrevista de Passos Coelho à RTP, Gonçalves desabafava: “dói-me a tola. Passos provoca enxaqueca porque aquilo é Sócrates sem os anos de palco que Sócrates leva … oscila entre o velho cacique da jota e o antigo candidato à Câmara da Amadora, numa gravitas que cheira a falso”.
Numa outra entrevista em Dezembro de 2009, comentou: “Reparem na clareza dos lugares-comuns facilmente parafraseáveis por um qualquer Secretário de Estado da nomenclatura de Sócrates. Reparem na subtileza digna de um mediano treinador de futebol”.

Ao longo dos tempos, João Gonçalves foi bastante agressivo com Pedro Passos Coelho e com o próprio Miguel Relvas, de quem agora depende. Mas a verdade é que a vida dá muitas voltas e os “encontrões” que Passos Coelho levou do bloguista parecem não o ter ofendido, nem sequer quando lhe chamou alforreca. Afinal as alforrecas vivem no mar e Portugal é um país de marinheiros …

segunda-feira, julho 04, 2011

Necessito ver resultados. Só a mudança de tom não chega



Já se via por aí muita gente a bater palmas ao novo Governo. Provavelmente pela forma discreta como se organizaram, pela juventude dos seus membros que deixava antever a ausência de vícios que se conheciam aos anteriores e, sobretudo, pela esperança de uma mensagem que apontasse para uma maior transparência. A tal “verdade ao povo” que o povo tanto ansiava.

Mas as palmas têm vindo a diminuir desde o debate do programa de Governo que foi efectuado na Assembleia da República na semana passada. Não porque esse primeiro encontro tivesse sido marcado por toda aquela crispação a que nos habituámos nos últimos anos. Ao contrário, houve uma calma e uma civilidade muito grande e uma enorme mudança de tom. Possíveis, penso eu, pela expectativa da oposição mas, também, pela postura que os novos ministros apresentaram. Muitos deles tão serenos que pareciam pedir desculpa por estarem ali.

Mas, então, por que é que as palmas têm vindo a abrandar? Principalmente porque a mudança de tom não é, por si só, suficiente e as “mentirinhas” que já conhecíamos a outros executivos começaram a aparecer. Pois não foi este Primeiro-Ministro que garantiu há poucos meses que, a aumentar os impostos só o faria sobre aqueles que penalizassem o consumo e nunca os dos rendimentos? Pois foi e aí está, preto no branco, o imposto extra sobre o subsídio de Natal que vai afectar uns largos milhões de portugueses. Na senda de Guterres, de Durão Barroso e de Sócrates, também Passos Coelho prometeu e não cumpriu.

Mas há uma coisa que me deixa ainda mais perplexo. Como justificar que se tenha aberto uma crise política e derrubado um governo a pretexto de que o famosíssimo PEC 4 não resolvia os problemas do país e, nomeadamente, com o argumento de que não havia motivos para que um pacote daqueles viesse a castigar ainda mais os portugueses? E o que se verifica, é que a nova maioria, uma vez no poleiro, apresenta um programa (chamemos-lhe PEC 5) que responde ao memorando assinado com a troika (pudera, tinha que ser) mas é ainda mais arrojado e mais penalizador para os cidadãos do que o outro que tinha sido rejeitado.

Até agora, o único apontamento positivo (se é que se pode considerar assim) consiste na mudança de tom. Aparentemente há mais serenidade e maior abertura para responder aos adversários mas, quanto ao resto, fico à espera. É que eu, ao contrário de muito boa gente, não costumo avaliar as pessoas apenas pela simpatia ou pela escolha das gravatas ou dos adereços que utilizam. Necessito ver resultados e esses (para além do 13º) ainda levam algum tempo a chegar. É que a procissão ainda vai no adro…


sexta-feira, julho 01, 2011

A minha tragédia




Do poeta português Al Berto (1948 – 1997) “A minha tragédia”


Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

quinta-feira, junho 30, 2011

TGV – O desastre anunciado



Ainda há pouco, o Governo de José Sócrates jurava a pés juntos que o TGV iria mesmo ser construído, desse por onde desse, tanto mais que os espanhóis estavam já a construir a ligação de Madrid até Badajoz. Que não, que não, gritava a oposição, que não tínhamos dinheiro para tais desvarios e que isso seria um desastre completo.

Vieram as eleições e agora, com Passos Coelho, o programa de Governo, que irá ser discutido na Assembleia da República hoje e amanhã, contempla a decisão de “Suspender o projecto de “Alta Velocidade Lisboa – Madrid”. Ora, com a possível suspensão imediata do projecto em Portugal e a continuação da construção do lado espanhol, não se correrá o enorme risco dos TGV’s virem a toda a velocidade de Madrid e travarem de repente junto a Badajoz. Já imaginaram o desastre?

Pronto, estalou a bronca e como seria de esperar “nuestros hermanos” vão-nos pedir explicações sobre a suspensão do TGV em Portugal. Tanto mais que esta decisão acontece a poucos meses da União Europeia decidir sobre as novas linhas transeuropeias prioritárias e, calculem lá, a linha entre Lisboa e Madrid é precisamente uma dessas linhas prioritárias.

Perante isto, digam lá se eu tenho ou não razão para dizer que o TGV é um desastre anunciado?

quarta-feira, junho 29, 2011

Silêncio quebrado



Há poucos dias li no Jornal de Notícias um artigo de Manuel António Pina - jornalista e escritor, galardoado este ano com o Prémio Camões – em que escreve sobre o famoso caso do “copianço do CEJ”, assunto sobre o qual publicámos um texto na sexta-feira dia 17 de Junho.

Dizia Manuel António Pina:


“Ao contrário do que foi dito quando veio a público o escândalo do "copianço" no CEJ, o caso não é "pontual". Acompanhei de perto um curso anterior em que o "copianço" era frequente e a política seguida por certos (insisto: certos) dos então responsáveis do CEJ a de esconder esse lixo debaixo do tapete.
Alguns professores abandonavam as salas durante os testes confiando a vigilância à honestidade de cada formando. O problema era que a honestidade de alguns (hoje nos tribunais a acusar e julgar casos de fraude) nem sempre era a expectável em futuros magistrados.
Existem nos arquivos do CEJ documentos demonstrando o que aconteceu a uma formanda que quebrou a lei da "omertá" e se referiu ao assunto durante um encontro na presença do desembargador coordenador da sua formação. Na sequência disso (decerto por coincidência), passou a ser sujeita a humilhações e discriminações de toda a ordem e "avaliada", em relatórios escritos, por coisas como fumar, almoçar sozinha, ter "pré-juízos" em relação às leis de protecção animal (pois teria gatos) e a direitos de autor (pois publicara obras literárias), culminando tudo num relatório final do mesmo desembargador, feito com base em quatro (repito: quatro) trabalhos, escolhidos a dedo entre os mais de 500 que realizara, que a forçou à desistência.
Talvez a formação de futuros magistrados seja coisa séria de mais para estar entregue a certos actuais magistrados”.


Preocupante, no mínimo …


terça-feira, junho 28, 2011

Estado esconde pensões políticas



Quem costuma aparecer por aqui, no “Por Linhas Tortas”, já deve ter reparado que, amiúde, escrevo sobre a (falta de) transparência da vida pública. Não é defeito, é feitio. A verdade é que fico danado quando sei de situações em que os dinheiros públicos são mal geridos, mal gastos ou quando nos querem tomar por parvinhos.

Como aconteceu agora com esta história do Estado não querer divulgar as pensões políticas. Que raio de ideia foi esta? Quem foi o iluminado que determinou que devem ficar secretos os nomes dos políticos que pedem ao Estado a atribuição da pensão mensal vitalícia?

Aliás, eu até sei de onde isto veio, foi uma determinação da Comissão Nacional de Protecção de Dados, um organismo que é presidido por uma pessoa eleita pelos deputados da Assembleia da República. O que não sei é a razão que levou a CNPD a esconder os nomes dos políticos que beneficiam da pensão vitalícia, os que têm subsídio de reintegração (aqueles que cessam as suas funções e ficam no desemprego) e qual o valor desses subsídios.

Não seria bom, a exemplo do que faz a Caixa Geral de Aposentações que publicita o nome de todos os funcionários que se aposentam e a pensão com que ficam, que fossem divulgados os nomes dos políticos que beneficiam de pensões ou subsídios? Ou será que há alguma coisa que não queiram que se saiba? Que segredos são esses? É por estas e por outras que escrevo tanto sobre a transparência da coisa pública.



segunda-feira, junho 27, 2011

Não havia necessidade …

Quando Passos Coelho afirmou em tom firme que nas deslocações à Europa ele e o seu governo passariam a utilizar a classe económica dos aviões, o país bateu as mãos de contente e disse “até que enfim, temos um Primeiro-Ministro que começa por dar o exemplo nas poupanças”. Via-se nesta atitude um bom começo. Afinal, pedem-nos permanentemente sacrifícios e sabe bem ver que o exemplo vem de cima.

Só que Passos Coelho se esqueceu dum pequeníssimo pormenor. É que, ao contrário dos tempos da outra senhora em que todas as notícias eram escamoteadas pelo lápis azul da censura, hoje tudo vem a público, mais cedo ou mais tarde. E assim ficou-se a saber que a TAP dispensa os ministros e secretários de Estado de qualquer despesa em deslocações oficiais. O que, de resto, já acontecia com todos os membros do anterior Governo. Ou seja, embora o PM pretendesse mostrar que a moralização e contenção das despesas começava por ele próprio ao trocar, na ida a Bruxelas para participar no seu primeiro Conselho Europeu, a classe executiva pela económica, a verdade é que ele trocou o nada pagar pelo não pagar nada. Poupou zero.

Teria sido um sinal, dirão alguns. Marketing político, digo eu que já estou, há muito, acostumado a esquemas deste tipo. Habituado e farto de viver “na terra dos sonhos”, como na canção do Jorge Palma ou “na terra das trapaças” como sentimos todos nós.

Mas, se querem saber, interessa-me pouco se a rapaziada viaja em executiva ou não. Preocupam-me mais as medidas que vão ser anunciadas em breve e que, essas sim, vão ser o sinal de como vamos sofrer as agruras da austeridade anunciada. O resto é o costumado populismo das afirmações, o entusiasmo de quem se entretém na discussão das coisas pequenas.

Ainda assim, o que se passou, leva-me a colocar duas questões:
1 – Justificar-se-á que a TAP não seja paga pelas passagens dos governantes? Eu sei que o custo sairia dos cofres do Estado para entrar nas contas da TAP (igualmente do Estado). Mas, apesar disso, se tudo se passasse como se o Governo fosse “um cliente normal”, e as verbas fossem imputadas nos sítios certos, estou em crer que haveria maior transparência e rigor nas despesas efectuadas por cada organismo. O controlo seria mais eficaz.
2 – Para que é que Passos Coelho anunciou uma medida que, na prática, já era seguida? Isto é, Passos não poupou dinheiro porque o Governo não paga bilhetes na TAP. Que coisa foi esta, então? É que não havia necessidade …

quarta-feira, junho 22, 2011

Chumbos só com a autorização dos paizinhos

Bem, eu nem queria acreditar quando li no “Diário de Notícias”: "Chumbar duas vezes só com autorização dos pais”. Tanto mais que o texto explicitava que “Para reter um aluno mais do que uma vez no mesmo ciclo, os encarregados de educação têm de autorizar”.

O quê, então os alunos estão-se a borrifar para os professores e para o que eles ensinam e os meninos, mesmo assim, vão-se safar do chumbo porque contam com a almofada de segurança dos paizinhos? Está tudo doido, é o que é.

E embora os representantes dos encarregados de educação digam que “os encarregados de educação devem ser escutados e responsabilizados pelos filhos”, o que se compreende e aplaude, já não consigo entender por que é que as escolas têm dificuldade em chumbar os alunos (que o merecem) caso os encarregados de educação não autorizem os ditos. Parece-me haver uma grande contradição. E há mesmo uma questão de princípio que eu gostaria de ver clarificada. São os encarregados de educação que devem ser escutados ou são eles que têm que ouvir o que os professores têm para dizer dos seus filhos – as críticas, as chamadas de atenção e as sugestões que entendam necessárias fazer?

E, naturalmente, surge a pergunta: E este imbróglio acontece porquê? Por medo, por cobardia ou, simplesmente, pelo facto de quererem atingir os objectivos a qualquer custo?

Com procedimentos destes já não fico admirado com o que aconteceu com o copianço generalizado dos alunos do curso de auditores de Justiça do Centro de Estudos Judiciários, a que nos referimos na passada sexta-feira. É que os exemplos já vêm de há muito.


terça-feira, junho 21, 2011

O voto obrigatório



Agora que um novo governo vai assumir funções e que não há eleições à vista (espera-se) é tempo de reflectir sobre se o voto deve ser, ou não, obrigatório. E, como sabem, há por aí quem defenda que deve ser. Se calhar está mesmo na hora das pessoas (do povo) dizerem o que querem de facto para o seu país, de assumirem a responsabilidade da escolha dos seus representantes em vez de andarem permanentemente a dizer mal dos políticos e das medidas que eles tomam. Seria interessante iniciar o debate em torno do voto obrigatório.

Mas há um porém. Em consciência, e face aos consecutivos resultados eleitorais conhecidos, poderemos acreditar que os eleitores exercem o seu direito de forma consciente? Inúmeras reportagens apresentadas nos meios de comunicação parecem inferir que não. Muitos das pessoas desconhecem quem concorre, que partidos representam e que programas propõem. Apesar disso votam. Porque os candidatos são simpáticos? Porque falam bem e dizem as coisas que nós queremos ouvir? Porque votando neste, apenas estão a afastar o outro? Como explicar que aqueles que são economicamente mais desfavorecidos, depois de ouvidos os debates e de terem participado em comícios, votem em partidos da direita liberal, a mesma direita que nos atirou para o atoleiro em que nos encontramos? Por fezada, por convicção, por ideologia ou por inconsciência?


Gostaria que se promovesse o tal debate. Mais, gostaria que o voto fosse obrigatório com sanções previstas para quem não o exercesse. E gostaria muito que cada eleitor fosse sujeito a um processo de certificação. Como se faz nas empresas. É o mínimo que se exige. Só certificado, o eleitor poderia votar. Pelo menos para que perante certas cenas a que assistimos não continuássemos a perguntar: “O quê, mas este tipo também vota?”


segunda-feira, junho 20, 2011

Será que os Deuses estão loucos?

A Academia Brasileira de Letras é uma instituição que remonta ao final do século dezanove e é composta, desde sempre, por escritores e intelectuais brasileiros e por sócios estrangeiros com nomes sonantes como é o caso do moçambicano Mia Couto ou da nossa Agustina Bessa-Luís. Como se percebe, é uma instituição muito respeitável apesar de – e no melhor pano cai a nódoa – nunca lá terem sido acolhidos personalidades tão distintas como Carlos Drumond de Andrade, Vinícius de Moraes ou Eríco Veríssimo.

Olhando, portanto, a sua História, a natureza das suas actividades e o alto gabarito dos elementos que a integram, todos ficámos estupefactos com a atribuição da sua mais alta distinção ao futebolista Ronaldinho Gaúcho, perdão ao Doutor Ronaldinho. Um jogador de futebol que é, sem dúvida, um excelente executante do seu mister mas que, quanto a letras, basta dizer que ele próprio admitiu que não gosta lá muito de ler.

Podiam tê-lo condecorado por ser o melhor jogador de futebol do Brasil, por ser um exemplo para a juventude, por ser o tipo mais simpático e com o sorriso mais cativante do Universo. Mas não, deram-lhe a medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, a mais alta distinção da “inteligência brasileira”.

O prémio oferecido ao craque não faz qualquer sentido e constitui até um desencorajamento para escritores, pensadores e para quem gosta da língua portuguesa. Ocorre-me perguntar “ Será que os Deuses estão loucos?”.

sexta-feira, junho 17, 2011

Viv’ó o copianço

Provavelmente só uma pequena percentagem de miúdos não terá recorrido ao copianço em testes e exames em alguma fase dos seus estudos e numa ou outra matéria de maior dificuldade. Sempre foi assim ao longo de gerações e sempre se deu um “desconto” à batota que os jovens eram tentados a fazer, por vezes de forma muito engenhosa. Há até quem defenda que, de certo modo, a elaboração dessas cábulas eram, para alguns, a única altura em que estudavam.


Mas para tudo na vida há um tempo. E se existem certas atenuantes para tais artimanhas nos adolescentes, não podemos condescender da mesma forma quando o nível de exigência se encontra num patamar mais alto. Com a evolução dos tempos abandonaram-se as tais cábulas mais ou menos artesanais a que muitos professores faziam vista grossa, para se passar a um processo de copianço generalizado dos alunos, quando não ao plágio puro e duro. Situações que são completamente inaceitáveis.


Como a que foi ontem noticiada, dando a conhecer que alunos do curso de auditores de Justiça do Centro de Estudos Judiciários tiveram um teste em que se verificaram factos estranhos como “a existência de respostas coincidentes em vários grupos”, “respostas muito parecidas ou mesmo iguais” ou que “todos os alunos erraram em certas questões”. Aliás, ao que parece, numa das questões mais difíceis ninguém falhou. Ora aí está, ou houve uma coincidência rara ou registou-se um copianço descarado dos futuros magistrados.


É verdade que, perante tamanha escandaleira, a direcção do CEJ anulou o teste em causa mas … decidiu atribuir aos auditores de Justiça a classificação final de 10 valores em “Investigação Criminal e Gestão de Inquérito”. Isto é, anulou o teste mas passou-os. E passaram também como que uma borracha por cima da fraude que cometeram e ficou tudo bem.


Perante isto, pergunto: admite-se que pessoas que irão ser o garante da justiça nos tribunais sejam exactamente os primeiros a prevaricar e de forma tão soez? E o que dizer da atitude do CEJ? O mínimo que se exigiria é que o teste fosse anulado - e foi, e que o processo voltasse ao início para se proceder a uma correcta avaliação dos formandos - e não foi, por enquanto, embora haja uma proposta para que os magistrados que foram apanhados a copiar tenham que repetir o exame. Mas só para aqueles que foram apanhados em flagrante delito.


Em resumo, para além de termos uma justiça cara, não acessível a todos e lenta, corremos também o perigo de ter profissionais mal preparados. É injusto e é preocupante!


quinta-feira, junho 16, 2011

Pois, pois …



A notícia, apresentada como científica, já foi divulgada há algum tempo mas acho que passou um pouco despercebida. Por desatenção de alguns e por interesse de outros.


Segundo os cientistas da Universidade de Riverside (California, USA), existe uma relação directa entre o trabalho que os homens efectuam em casa e a frequência das relações sexuais. Por outras palavras, quanto mais tarefas domésticas os homens fizerem mais felizes estarão as mulheres e …


Será mesmo verdade ou tudo isto não passa de uma artimanha delas para levá-los a participar nos trabalhos em casa?


Só para que conste, eu lavo a loiça, limpo o pó, aspiro, lavo as casas de banho e cozinho que me farto. Ah, e acho que os cientistas americanos da Universidade de Riverside estão cobertíssimos de razão …


quarta-feira, junho 15, 2011

São rosas, senhores …



O pessoal de cabine da TAP desconvocou a greve que estava anunciada para Junho e Julho. E ainda bem. Independentemente das razões que assistam aos trabalhadores, esta não seria certamente a melhor altura para uma acção de luta desse tipo. São meses em que tradicionalmente viajam muito mais pessoas e, não menos importante, a TAP está a preparar-se para a privatização. Necessita, por isso, de mostrar credibilidade e alguma ordem interna.


Mas se já não há greve porque carga de água é que eu fui buscar o assunto? Simplesmente para recordar a iniciativa de uma companhia aérea concorrente, a Ryanair, que enviou 10 rosas ao Sindicato da Aviação Civil para celebrar os anunciados 10 dias de greve da TAP. Um agradecimento antecipado pela possibilidade dos passageiros da TAP poderem vir a aumentar o negócio da companhia aérea irlandesa ao utilizar os seus aviões.


Resta a dúvida, a acção deveu-se a puro cinismo ou simplesmente a uma original campanha comercial?


terça-feira, junho 14, 2011

Voltemos à terra

Já passaram alguns dias e continuo a ter presente as palavras do Presidente da República em Castelo Branco nas comemorações do 10 de Junho. Não, desta vez, não lhe chamou o “Dia da Raça”, como o fez em 2008, mas aproveitou para exortar os portugueses a voltarem à terra, à agricultura. E com razão, digo eu, tal é o envelhecimento do sector e o facto de sermos muito deficitários em matéria alimentar.


Porém, o que achei curioso é que essas palavras que verdadeiramente traduzem uma das nossas maiores necessidades do ponto de vista económico, fossem proferidas pela boca de Cavaco Silva que era o primeiro-ministro de Portugal logo após a nossa adesão à então CEE, em 1986. O mesmo Cavaco que ajudou a destruir a nossa agricultura em troca de fundos comunitários para a construção de auto-estradas. Um discurso que, segundo alguns, soou um tanto ou quanto a remorso.


A memória é curta, bem sei, e muitos já se terão esquecido disso mas a verdade é que no início da década de 90, não só não se modernizou a agricultura aproveitando os generosos subsídios que recebíamos da Europa como, pelo contrário, se distribuíram tentadores incentivos à sua destruição.


Dizer agora que o sector agrícola é fundamental e é nele que se deve investir para a futura sustentabilidade do país parece-me óbvio. Pena foi que quem nos governava então se tivesse curvado perante outros interesses e não tivesse tido a necessária visão estratégica de futuro. Hoje a coisa seria completamente diferente.

quinta-feira, junho 09, 2011

“Eu adoro-vos”

Para quem julgava que José Sócrates era um homem desprovido de sensibilidade, duro, frio, calculista e egocêntrico tenho a dizer que se enganaram redondamente. Podem ter todas as razões contra ele, podem até ter razão em ter razões mas na terça-feira passada – 7 de Julho de 2011 – ficou inequivocamente demonstrado que o ainda Primeiro-Ministro tem coração e sentimentos. Como ficou provado, aliás, na mensagem curta que proferiu na reunião da Comissão Nacional do Partido Socialista quando deixou aos seus companheiros de partido um emotivo “Eu adoro-vos”.


Foi um balde de água fria para os seus detractores. Vão persistir em dizer que Sócrates continua, como sempre foi, arrogante e a olhar apenas para si próprio? Deixem-se de tretas, engulam as vossas línguas venenosas e concedam, pelo menos desta vez, que ele foi sincero ao dizer como gostava dos seus camaradas. E pensem também que muitas dessas pessoas do partido alguma vez já foram eleitos com os vossos votos. Portanto, Sócrates, disse naquele momento, que também vos adorava.


Conclusão: o “animal feroz” é mesmo um sentimentalão. Não se esqueçam disso e esperem porque … ele vai voltar.

quarta-feira, junho 08, 2011

Entre abelhas e ventos de mudança


Desde que o “Por Linhas Tortas” foi criado, a sua linha editorial, chamemos-lhe assim, nunca privilegiou os meus gostos partidários ou clubísticos. São assuntos meus e, como tal, reservo-os para as minhas próprias reflexões.


Contudo, não me coíbo de comentar ou divulgar factos e aspectos que, mesmo podendo estar no âmbito daquelas matérias, possam suscitar alguma curiosidade. Como os que passo a relatar, ocorridos no último domingo, dia de eleições legislativas.


Na freguesia de Cabril, concelho de Castro Daire, a população, devido ao estado miserável em que se encontra a estrada nacional 225, decidiu boicotar a sala da votação e, assim, barraram a porta do edifício da junta de freguesia com pedras e barrotes de madeira logo depois de terem colocado no interior um enxame de abelhas para impedir o acesso dos eleitores à sala. Bem se poderia dizer, neste caso, que as abelhas que nos dão o mel não gostam lá muito de eleições.


Mas da noite do último domingo a frase de que eu mais gostei não esteve presente nos discursos dos líderes dos partidos concorrentes às eleições. Saiu da boca do conhecido humorista Ricardo Araújo Pereira, no programa “O Governo Sombra” da TSF. Dizia assim:


“… Eu venho para celebrar porque perdeu o partido que pôs Portugal na bancarrota e ganhou o partido que aprovou o Orçamento, o PEC I, II e III do partido que pôs Portugal na bancarrota. Perdeu o partido que se comprometeu com a troika e ganhou o partido que se comprometeu com a troika. O que eu pedia é que fechassem a janela que eu não aguento tanto vento de mudança …”.



terça-feira, junho 07, 2011

O exemplo nem sempre vem de cima


Portugal, à semelhança de outros países periféricos, e não só, tem pela frente, e com calendário já definido, uma montanha de problemas para resolver. Não há dinheiro (não há mesmo, acreditem) e, sem ele, a solução para esses problemas torna-se ainda mais difícil. O novo governo que vai gerir o nosso país vai ter que “inventar” formas de, entre outras (muitas) coisas, pôr a economia a crescer e o emprego a aumentar, ao mesmo tempo que pagamos os milhões que devemos. Mas, meus Amigos, no fundo, no fundo, é connosco que o governo conta. Com o nosso trabalho, com a perda cada vez maior de regalias sociais, com a redução de salários e com o aumento de impostos, directos e indirectos. Não nos iludamos.


Mas perante a inevitabilidade de tão alto grau de sacrifícios e das medidas draconianas pedidas aos cidadãos, como entender que a Comissão Europeia (que não foi lá muito generosa com Portugal na ajuda que nos estão a prestar) se tenha decidido por um aumento de 4,9% no seu orçamento já depois de terem sido tornados públicos os montantes que os seus deputados gastaram despudoradamente em viagens, hotéis, festas e outras despesas de luxo?


Pelos vistos, a Comissão Europeia desconhece o velho provérbio “O exemplo deve vir de cima”.



sexta-feira, junho 03, 2011

Cântico da Esperança



E acabamos a semana com um poema de Rabindranath Tagore (1861 – 1941), um poeta, romancista, músico e dramaturgo indiano. Os seus versos são profundamente sensíveis, frescos e belos. Tagore foi o primeiro não-europeu a conquistar, em 1913, o Nobel da Literatura.


Cântico da Esperança

Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão cobarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso!


quinta-feira, junho 02, 2011

Eufemismos


Nestas últimas semanas e, sobretudo, desde que começou a campanha eleitoral fala-se muito de uma eventual reestruturação da nossa dívida. Reestruturação essa que é defendida por alguns dos partidos que concorrem às eleições do próximo domingo e que poderia passar pelo alargamento de prazos, pela diminuição das taxas ou mesmo pelo não pagamento de uma parte do que se deve. E a reestruturação, de tanto se ouvir, transformou-se numa palavra maldita.


Até que alguém, a propósito da dívida grega (que já todos perceberam que os gregos não vão poder pagar) se lembrou de chamar à reestruturação o re-profiling. E o que é isso? Ao certo, ao certo, ninguém sabe o que é mas todos perceberam já significa exactamente isso - reestruturação. Nem mais.


Foi assim que optaram por “dourar a pílula”, que é como quem diz, a situação é muito má mas adoçando a forma como nos referimos a ela, até nem parece tão preocupante. É exactamente o mesmo que esconder o pó por debaixo da carpete. Ele não se vê mas, de facto, está lá todo.


Re-profiling é a palavra do momento. A que fez esquecer a sua irmã “reestruturação” e a sua parente próxima, a “bancarrota”. Mas, atenção, não nos deixemos impressionar com as palavras. O problema subsiste e é grave. É tudo uma questão de eufemismo.


quarta-feira, junho 01, 2011

Justiça salomónica no caso do euromilhões



Ao fim de quatro anos chegou ao seu termo a mais insólita, disparatada e escusada disputa judicial jamais havida em solo pátrio. Dois jovens que se gostavam o suficiente para namorarem tiveram a desdita de ganhar o primeiro prémio do euromilhões. E como uma “desgraça” nunca vem só, além de “herdarem” uma pipa de massa, desfizeram o namoro … antes mesmo de receberem o dinheiro.


A partir daí foi um corridinho aos tribunais. Ela a reclamar o prémio por inteiro e ele a dizer que era a ele que a quantia era devida integralmente. E ambos achavam que tinham toda a razão. Ela porque tinha sido a autora da chave de sucesso e, portanto, reclamava o pagamento da “propriedade intelectual”. Ele, porque tinha sido quem preencheu o boletim, o entregou e o pagou e, claro está, achava-se como o legítimo legatário de um prémio que não teria saído se o boletim não tivesse sido entregue.


Enorme dilema este. Ela e ele, ambos cobertos de razão e ávidos de receberem os 15 milhões de euros, não pararam um segundo para pensarem que, se calhar, os dois mereceriam o prémio e que, portanto, seria melhor dividir a coisa ao meio. Era capaz de ter sido mais justo e certamente que, há muito, estariam a gozar as mordomias que sete milhões e meio de euros lhes proporcionariam.


Ganância e estupidez, digo eu.


Agora, passados quatro anos, o Tribunal da Relação de Barcelos decidiu justamente dividir em partes iguais os 15 milhões de euros ganhos pelos ex-namorados. Decisão que, felizmente, já não permitirá recurso.


Acabada a história, o que nos faz reflectir é se os motivos que levaram a esta contenda são minimamente justificáveis para a ocupação da máquina judicial durante todo este tempo, meios que seriam decerto muito melhor aproveitados noutros casos. Só espero que as custas judiciais a pagar pelo casal sejam muito penalizadoras. Em minha opinião, mereciam isso.


terça-feira, maio 31, 2011

Protocolos



A Rainha Isabel II de Inglaterra faz-me lembrar um antigo colega de trabalho a quem, “por fatalidade” tudo acontecia de mal. Era certo e sabido que onde ele estivesse alguma coisa ia suceder.


Também Isabel II, no seu já longo reinado, tem algumas histórias bem interessantes, nomeadamente as que aconteceram sempre que o protocolo não foi formalmente cumprido. Recordo três delas.


Na semana passada recebeu Barack Obama. Ao jantar, no final do discurso, Obama ergueu a taça para brindar à soberana quando, de repente, se começou a ouvir o hino britânico. Todos os convidados ficaram imóveis enquanto o Presidente permaneceu de taça na mão, mudo e quedo. Só quando o hino terminou é que os presentes acompanharam Obama no brinde à Rainha. Momentos infindáveis que devem ter sido terríveis.


O mesmo sucedeu quando a Rainha Isabel visitou Portugal e o nosso Presidente da República de então, Mário Soares, ao pretender indicar-lhe o caminho tocou nas costas de Isabel II, mostrando desconhecer o protocolo que diz que na Rainha não se toca nem com uma luva.


Já num jantar na Casa Branca, no tempo de George W. Bush, o Presidente lembrava num discurso a visita de Elizabeth II aos Estados Unidos em … 1776, ou seja, 200 anos antes. Ao que consta, a correcção só foi feita depois de um olhar fulminante da Rainha. Enfim, de Bush já ninguém se admirava de nada e, em matéria de gafes, todos sabem como ele era useiro e vezeiro.


O protocolo, como se percebe, tem destas coisas. Para os que estamos por fora as situações fazem-nos sorrir mas para os seus protagonistas devem ser momentos muito confrangedores.


segunda-feira, maio 30, 2011

Não me digam nada …

Ainda há tempos vos contava que a segunda-feira é o dia em que o meu mau humor mais se sente nas crónicas que aqui publico. Certamente que tem a ver com a ressaca do fim-de-semana ou com a derrota (sempre injusta) do meu clube do coração. Hoje, porém, o meu nervoso e a acidez de espírito estão devidamente identificados.


Ando irritado com o estado e com a falta de expectativas do meu país e pelo baixo nível que, na campanha eleitoral em curso, demonstram os principais líderes partidários, alguns deles que até têm a pretensão de chegar a primeiro-ministro.


Estou chateado porque o meu carro “pifou”, teve que ser rebocado e vou ter que desembolsar uma nota preta para o arranjar.


E, finalmente - e se calhar isto foi o que me fez perder completamente as estribeiras – porque soube que há 20 gestores das maiores empresas portuguesas que têm mil cargos de administração. Ou seja, em média, cada um deles tem 50 empregos mas sabe-se que pelo menos um deles tem 62 empregos e o que mais ganha aufere 2,5 milhões de euros. É obra! E não me venham com a história que estes super-trabalhadores que voam de empresa em empresa são um exemplo para todos nós. Não, não são. O que isto reflecte é a falta de vergonha a que chegámos e a necessidade de lhe pôr cobro rapidamente.



sexta-feira, maio 27, 2011

No próximo fim-de-semana lá estaremos



Marque na sua Agenda: no próximo fim-de-semana tenho que colaborar com o Banco Alimentar.


A Campanha de Recolha de Alimentos em supermercados e superfícies comerciais, levada a efeito pelo Banco Alimentar, realiza-se já no próximo fim-de-semana, dias 28 e 29 de Maio, ou seja, amanhã e domingo.


Milhares de pessoas carenciadas contam consigo.


Participe. Alimente esta ideia.