quinta-feira, dezembro 15, 2011

Caricaturas à parte …


Na entrevista que concedeu ao programa Sociedade das Nações, da SIC Notícias, Pedro Passos Coelho afirmou “só o tempo pode mostrar se o acordo que saiu do último Conselho Europeu vai servir para aliviar a pressão dos mercados contra países com problemas de défice público ... não é com cimeiras que se resolvem os problemas da Europa …”


E é capaz de ter razão. Se calhar não vão ser as cimeiras que irão resolver os problemas. Seja como for, o que me preocupa mesmo é que o nosso presente (e provavelmente o futuro) está cada vez mais a parecer-se – ainda que de forma caricatural – com o desenho que a seguir publicamos. Infelizmente.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

“Óqueijo”



Sabendo, embora, que muitas das expressões que empregamos no nosso quotidiano são incorrectas ou inexistentes o facto é que continuamos a usá-las.

Como foi o caso de, nos tempos em que aprendi francês, sempre que deveria perguntar “moi?” ter-me habituado (na tentativa de ser espirituoso) a dizer “je?”. Até que na prova oral do exame do último ano do secundário, ter caído no mesmo erro (desta feita não quis ser engraçado) e respondi exactamente da mesma forma – “je?”. Perante o espanto do examinador, ainda por cima um francês de gema, consegui dizer-lhe, no melhor francês que sabia, que a minha resposta tinha sido uma “blague” e tudo acabou da melhor maneira. Para quem, perguntam? – a “je”, respondo!


Foi também o que aconteceu aquando de uma série televisiva dos tempos famosos do Herman, em que uma das personagens – interpretada por Lídia Franco - uma suposta condessa, afirmava sistematicamente “não me chame condensa que me põe tensa”. Então não é que, toda a minha gente apanhou o ar nasalado da Lídia Franco, que tinha uma graça incrível, e começou-se a dizer o condensa, como se fosse um bordão?


Já o OK entrou na nossa linguagem corrente provavelmente por via dos filmes norte-americanos. A partir de certa altura a utilização daquele termo tornou-se tão vulgar que quase não havia uma frase que se prezasse que não incorporasse o OK como elemento, sem o qual a frase não teria sentido. Pelo menos o sentido devido. Mas nós portugueses, quero dizer, alguns de nós, achámos que deveríamos aportuguesar o termo e, quer nas interrogações quer nas afirmações, começámos a utilizar não o conhecido OK, mas a versão lusitana de “óqueijo”. “Então, as coisas estão todas em ordem?”. “Tudo em cima, está tudo “óqueijo”.


Embora conscientes dos erros que vamos dizendo – sim porque este tipo de asneiras só muito raramente as cometemos na escrita – de vez em quanto lá saem. Fruto de alguma história que conhecemos, por que lhes achamos piada ou, simplesmente, por que sim.



terça-feira, dezembro 13, 2011

Ele há coisas que não lembram nem ao diabo …



É claro que as coisas acontecem. Mas há limites, caramba.


Calculem que, no Reino Unido, um português foi contratado para dirigir um sector de uma fábrica e, passado pouco tempo, foi despedido. Porquê? perguntarão. Por ser incompetente ou por não dominar bem a língua inglesa? Nada disso, o homem tinha as competências necessárias e até fala bem quatro línguas, incluindo a de Shakespeare. Então qual teria sido o motivo?


Ele foi dispensado “apenas” porque os 18 trabalhadores polacos que tinha a seu cargo não sabiam falar inglês nem mostraram a mínima vontade de aprender.


Vai daí, a direcção da fábrica inspirada, porventura, em Bertolt Brecht - "mude-se o povo se não se pode mudar o governo" (neste caso, mude-se o chefe se não se consegue convencer os operários) - decidiu afastar o português que dominava, como referi, fluentemente o inglês mas que, por razões que nem consigo imaginar, não falava uma língua tão óbvia e universal como o polaco.


Vejam de que tamanho seria o falatório se isto tivesse acontecido no nosso país?


segunda-feira, dezembro 12, 2011

A Cimeira que deixou tudo mais ou menos na mesma



Embora houvesse uma moderada esperança a verdade é que da cimeira da União Europeia, realizada nestes últimos dias, não saíram conclusões que esclarecessem qual virá a ser o futuro da zona euro e da própria Europa. Mesmo tendo em conta que existe interesse de todos os 27 membros em que a União Europeia continue, o facto é que “as vontades” de alguns estão a abalar a confiança na manutenção desta bonita ideia de uma Europa unida.


Quanto ao euro, tal como hoje existe, parece caminhar para o fim. Como escrevia a semana passada a The Economist, “depois dos países periféricos, os estragos da crise chegam ao epicentro da moeda única, com a Itália e a Espanha a darem os primeiros sinais”. E não ficará por aí, digo eu. É por isso que aquela revista dá apenas algumas semanas de vida ao euro. O que nos faz interrogar: e se o euro acabar? Afinal, há países que não estão no clube e continuam a pertencer à UE. Só que se o euro desaparecer os efeitos catastróficos, sobretudo para as economias mais débeis como a nossa, não se farão esperar.


Voltando à cimeira, apesar das esperanças de alguns, penso que no fundo, no fundo, ninguém acredita que a cimeira tenha resolvido qualquer problema estrutural do euro. E, por isso, todos os países do eurogrupo, a começar pelos mais frágeis, estão derrotados e condenados a optar entre as más e as péssimas soluções para gerirem as suas crises.

De concreto apenas se sabe qual foi a ementa que foi servida na quinta-feira quando se sentaram à mesa para o jantar de trabalho: sopa, bacalhau, bolo de chocolate e gelado. Petisco que, a julgar pelos resultados da cimeira, não foi suficientemente apreciado por todos os membros dos 27 países: um grupo de 17 “tinha ganho” uma nova "união de estabilidade orçamental" (mais uma expressão da nova linguagem), 9 vão ter que consultar os seus parlamentos e 1 (o Reino Unido) – o de sempre - ficou definitivamente de fora.

Curioso, porém, é notar que apesar das dúvidas sobre o futuro do euro e da Europa, há mais um país a aderir à União Europeia. A Croácia assinou agora em Bruxelas, o tratado de adesão e entrará em Julho de 2013. Isto se a Europa ainda existir.


quarta-feira, dezembro 07, 2011

Uma cena única e profundamente emocionante



Fiquei emocionado ao ver e ouvir a Ministra italiana do Trabalho a chorar em público, anunciando, com voz embargada, os sacrifícios que vão ser pedidos aos pensionistas.


Elsa Fornero, uma economista e académica, agora Ministra do Governo de Mário Monti, não conseguiu conter as lágrimas quando revelava as medidas neoliberais que vão tomar para tentar salvar a terceira maior economia da União Europeia. Emocionou-se e chorou. Provavelmente por pensar no que está para vir e como isso vai afectar os cidadãos. Mas sobretudo por saber que poderemos estar perante o princípio do fim de um estado social por que tanto lutámos e que constitui uma das maiores conquistas geracionais das últimas décadas. É que o estado social como nós conhecemos e nos habituámos está-se a desmoronar como um castelo de cartas.


Mesmo percebendo como esta Ministra está distante da política (daquela que os políticos dos últimos anos têm vindo a fazer, sem estratégias, sem ideologias e, principalmente, sem ética), aqueles minutos sofridos denotam uma sensibilidade que não pode deixar de nos tocar. É uma cena única e profundamente emocionante.


Para quem não assistiu, convido-os a aceder a


http://www.youtube.com/watch?v=cLN5tWK2v9w


terça-feira, dezembro 06, 2011

“Suite 605”



Para aqueles que ainda têm dúvidas sobre o que é realmente a zona franca da Madeira (depois de anos a quererem convencer-nos do contrário), sugiro que leiam o livro que o economista João Pedro Martins, especialista em comércio internacional, publicou recentemente. “Suite 605” conta a história secreta de centenas de empresas que cabem numa sala de 100 m2”, instalada no paraíso fiscal da Madeira. Um espaço do tamanho de um mosaico de cozinha atribuído a cada uma dessas empresas fictícias (onde multinacionais coabitam com empresários portugueses) cuja verdadeira actividade se traduz na fuga aos impostos e ao branqueamento de capitais, de forma legal. A chamada “burla legal”.


Segundo o autor há “um ninho de corrupção na Madeira e um viveiro do crime organizado onde a elite corrupta que capturou a economia e o poder político se recusa a pagar impostos”. Mas diz mais, “as máfias russas e italianas estão lá a lavar dinheiro … perante a complacência das autoridades portuguesas, uma responsabilidade que é imputada transversalmente a vários políticos da Madeira e do Continente”.


Contudo, quando se levanta a questão sobre o que é que sucederia se acabasse o offshore da Madeira, a resposta recorrente é que seria um desastre. Mas não é assim. Com tanta aldrabice, o PIB está inflacionado e, assim, o que acontece é que Portugal perde para além de credibilidade, cerca de 500 milhões de euros de fundos comunitários. Quanto à Madeira, com 30% da população a viver abaixo do limiar da pobreza, não tem acesso a fundos comunitários nem a verbas do OE exactamente porque o PIB da Região está também muito inflacionado.


Há dez milhões de milhões de euros que estão estacionados em paraísos fiscais (na Madeira e por todo o mundo). É muito, muito dinheiro.


Em “Suite 605” põe-se o dedo na ferida. Continua, porém, a faltar a coragem política para se acabar com este crime organizado.


segunda-feira, dezembro 05, 2011

Preocupante



A recente recolha de alimentos do Banco Alimentar, embora não tivesse atingido os mesmos números da campanha de Novembro de 2010, ainda assim, mostrou bem como os portugueses continuam a ser solidários e não esqueceram os mais carenciados.


Apesar de todas as dificuldades, nomeadamente a falta ou a precariedade do emprego, os cortes dos subsídios de Natal e os problemas sempre crescentes que todos sentimos, muitos milhares de pessoas aderiram – uma vez mais e de forma generosa - à campanha do BA. Mesmo sabendo que vêm aí dias ainda mais difíceis.


E, neste momento, os números apontam já para um milhão de idosos a viver com menos de 280 euros por mês. Preocupante, na verdade.


quarta-feira, novembro 30, 2011

Expliquem-me lá por que é que o IMI vai aumentar em 2012?



A decisão está tomada pela coligação PSD/CDS. No próximo ano vai aumentar o IMI depois da reavaliação geral de imóveis que começará a ser feita ainda em 2011. Ou seja, o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) entrou em vigor em 2003 e os prédios que não foram transaccionados desde então (dado que não foram reavaliados entretanto) verão o seu valor patrimonial aumentar e, consequentemente, os contribuintes vão pagar mais.

Sinceramente não percebo por que razão, tendo o mercado da habitação desvalorizado (e muito), o valor patrimonial dos prédios vai continuar a aumentar. Dou um exemplo: se comprei uma casa em 2005 por 200 mil euros e ela hoje, em termos de mercado, vale apenas 170 mil, porquê, agora, uma actualização do valor patrimonial? Só se for para descerem esse valor e começar a pagar menos IMI. Será? Não me parece …


terça-feira, novembro 29, 2011

Oito ou oitenta



Não viram neste blogue qualquer comentário aos milhões que a Madeira vai gastar em fogo-de-artifício nas festividades natalícias e na passagem de ano. Achei que era muito dinheiro, é verdade, mas que, feitas as contas, tanto gasto justificar-se-á pelas receitas obtidas pelo turismo.


Mas – e a acreditar no que a imprensa noticiou ontem - não há contas que cheguem para fundamentar o custo do novo automóvel do Ministro Mota Soares. É que custou 86 mil euros! Não acham demasiado? Pedem-se tantos sacrifícios aos cidadãos e há pagamentos a fornecedores que o Estado não consegue cumprir por falta de dinheiro mas, para tamanho luxo, sempre se arranjam alguns trocos.


Logo Mota Soares que, até há pouco, andava de Vespa. Ou seja, o oito e o oitenta. Bem podem agora argumentar que a viatura foi uma herança do Governo anterior. Pode até ser, mas há sempre forma de dar a volta às coisas e é escandaloso gastar tanto quando as dificuldades são muitas. Até por uma questão de exemplo. E, se calhar, a própria Audi poderia fornecer – pelo preço acordado com o “despesista Governo anterior” - em vez de uma viatura de estadão, três outros carros mais baratos mas igualmente dignos.


Não chocaria tanto. Não concordam?


segunda-feira, novembro 28, 2011

Ah fadista!



Mais do que a vitória do último sábado, em que o Benfica cilindrou o Sporting por … um a zero, fiquei bem mais feliz ao saber que o Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) decidiu promover o fado a Património Imaterial da Humanidade.


Fiquei satisfeito, já se vê, mas arrepiei-me todo quando me lembrei que um amigo me disse, a semana passada, que “imaterial” mesmo era o seu ordenado depois do corte do subsídio de Natal deste ano e dos próximos. Porém, depois de consultar a wikipédia fiquei mais descansado ao saber que esse tal Património Imaterial da Humanidade é uma distinção mundial criada em 1997 para a protecção e o reconhecimento de expressões culturais e tradições, tendo em vista as gerações futuras. Pretende-se que permaneçam vivas coisas como os saberes, as formas de expressão, as celebrações, as festas e danças populares, as lendas, as músicas, os costumes e outras tradições. E fiquei a saber também que desde o início até ontem já existiam 90 bens imateriais registados.

Confesso que, como lisboeta e português, fiquei muito contente com o galardão. O fado canta a vida e a “sorte” do nosso povo há cerca de dois séculos. O fado é o destino e é a nossa canção tradicional, a mais urbana das canções portuguesas, um ícone nacional que fala de amor e saudade, que é desgraçado, vadio, aristocrata, que tem amores e ciúme e que tem divulgado os versos dos nossos melhores poetas.


O prémio da UNESCO deixa-nos, pois, orgulhosos e alegres (curiosa contradição de um estilo de música que é associada à tristeza) e, parafraseando o Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, o Fado dá aos portugueses “alegria […] numa altura em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas”. Apesar de, daqui para a frente, o Fado deixar de ser só nosso para ser de todos, da Humanidade.


Então, silêncio que se vai cantar o FADO! Não aqui mas no “Baú”, cujo endereço é http://www.bau-demascarenhas.blogspot.com/


sexta-feira, novembro 25, 2011

Duas sugestões solidárias para o próximo fim-de-semana



A próxima Campanha do Banco Alimentar Contra a Fome para Recolha de Alimentos em supermercados realiza-se em 26 e 27 de Novembro de 2011, ou seja, já no próximo fim-de-semana.

Como de costume, conto com todos os meus Amigos.


E, já agora, uma sugestão para quando fizer a sua doação aos voluntários do Banco Alimentar. Ao encher o seu saquinho de compras inclua produtos enlatados da marca Sicasal, uma empresa portuguesa que sofreu recentemente um incêndio nas suas instalações e que, apesar dos prejuízos avultados, assegurou que a sua laboração vai continuar e ninguém vai ser despedido. Os trabalhadores da Sicasal têm trabalhado arduamente na recuperação e limpeza das suas instalações e bem merecem este acto de solidariedade. E a empresa também.

É o chamado dois em um. Podemos ajudar quem bem o merece entregando os produtos a quem bem o necessita.

Por favor, alimentem esta ideia!


quarta-feira, novembro 23, 2011

Os sem-abrigo



Em algumas das minhas crónicas tenho abordado o problema dos que sofrem por carência alimentar. Mas o desemprego (ou outras circunstâncias adversas da vida) que, em muitos casos, atinge um ou vários elementos dos agregados familiares, causam outros tipos de carências e de pobreza. Nomeadamente, viver na rua.


Sabe-se que existe um número crescente de sem-abrigo – uma situação que não escolhe idade, género, grau académico ou profissão – e, simultaneamente, os centros de acolhimento estão esgotados e o aumento de pedidos às equipas que distribuem alimentos e agasalhos são um desafio cada vez maior para as instituições, algumas já sem capacidade de resposta.


O perfil dos sem-abrigo mudou. Actualmente quem vive na rua já não é apenas o “desgraçado” com um historial de exclusão social. As equipas de apoio já registaram casos de pessoas que estiveram muito bem na vida e que agora passam por momentos terríveis. E têm encontrado também pessoas que trabalham, têm casa, mas não possuem os recursos suficientes para pagar as despesas, recorrendo, por isso, às carrinhas para conseguir alimentos e a outras instituições para receberem roupa.


Portugal tem dois milhões de pobres há três décadas mas a crise veio agudizar as situações de pobreza extrema. E, infelizmente, os próximos anos não vão ser nada fáceis.


terça-feira, novembro 22, 2011

“Curto mas … educado”



Ontem tive a pachorra de ouvir algumas horas de debate (na especialidade) da proposta do Orçamento de Estado para 2012. Foi enfadonho, foi … chato! E devo confessar que fiquei sem perceber qual vai ser o rumo do país no próximo ano. De resto, as frequentes contradições e a pouca habilidade política e oratória de alguns dos intervenientes (mais do Executivo que da Oposição) também não ajudaram.


Como aconteceu com o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, cujo tom de voz é reconhecidamente monocórdico. Não altera um decibel que seja no registo do seu discurso que se mantém igual do princípio ao fim. Monótono e parco de palavras mas muito directo quando envia a mensagem.


Conta-se a propósito que, numa reunião do Conselho de Ministros, o Ministro da Economia apresentava as suas propostas para promover o crescimento económico quando, de forma seca, o seu colega das Finanças comentou “não há dinheiro!”. Perante a insistência de Álvaro Santos Pereira em prosseguir com a apresentação das suas opiniões o ministro das Finanças interrompeu-o de novo perguntando-lhe “Qual das três palavras é que não percebeu?”.

Nestes casos costuma-se dizer que foi “curto e grosso”. Quanto a Vítor Gaspar foi simplesmente “curto mas … educado”.


segunda-feira, novembro 21, 2011

Os Direitos Adquiridos



Há muito que estamos habituados às contradições dos políticos. É confrangedor (e cansativo) ler ou ouvir o que eles dizem em determinado momento e muitas vezes o contrário logo a seguir, um pouco ao sabor dos seus interesses. E são raros os que escapam a este “fado”. Ângelo Correia, esse “magnífico vulto”da nossa história política não foge à regra e aí está o que ele pensa sobre a velha questão dos “direitos adquiridos”.


Em Novembro de 2010, no programa Plano Inclinado da SIC Notícias, Ângelo Correia afirmou que “adquiridos são apenas os direitos como o direito à vida, o direito à liberdade, etc.”. Defendeu que “todos os outros direitos, ou seja, aqueles que custam dinheiro ao Estado, são direitos que não existem, que estão dependentes da solidez da economia”. E concluiu o raciocínio dizendo que “a ideia de direitos adquiridos se trata de uma "burla".


Porém, menos de um ano depois, a 23 de Outubro de 2011, quando questionado por uma jornalista da Antena 1 sobre a possibilidade de, em função do momento difícil que o país atravessa, abdicar da sua subvenção vitalícia de ex-titular de cargo público (quando, ainda por cima, trabalha no sector privado), Ângelo Correia afirmou “não estar disponível, por se tratar de um "direito adquirido" legalmente”.


Em que ficamos senhor engenheiro? Tamanha incoerência deve-se a quê? A lapsos de memória, a falta de ideias firmes sobre o assunto ou a pura desonestidade intelectual?


sexta-feira, novembro 18, 2011

De novo em causa o tormentoso problema da água que se bebe no Parlamento



Em 19 de Janeiro deste ano escrevi aqui que havia a possibilidade dos nossos Deputados virem a beber água da torneira em vez da água engarrafada que lhes era servida no Parlamento. Dava-vos, então, conta que o argumento mais forte para terem chumbado essa proposta foi a pequena dimensão da poupança, que se cifraria, em 2011, nuns reles 7 500 euros.


Pois bem, passados estes meses, o assunto voltou à baila e a Comissão Parlamentar do Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local chumbou agora a proposta do PS para que a água consumida na Assembleia da República fosse da torneira. No entanto, a questão não está ainda encerrada. Foi aprovado um projecto do PSD que encarrega o Conselho de Administração do Parlamento de apresentar um estudo sobre os custos e benefícios da medida (financeiros e ambientais), no prazo máximo de 30 dias.


E a coisa não vai ser fácil. Se quanto à parte financeira, já na anterior legislatura se tinham apurado ganhos de uns escassos (?) 7 500 euros, quanto às eventuais vantagens ambientais, os objectivos não podem ser muito ambiciosos. Ficar-se-iam, tão-somente (!), pela redução de resíduos de embalagens das garrafas ou garrafões de plástico e pela diminuição das emissões poluentes na produção e transporte da água engarrafada. Estão a ver a complexidade do problema?


Por isso é que para se resolver esta questão bicuda (mesmo transcendental) terá que se proceder à elaboração de um estudo aprofundado (capaz de avaliar todos os impactos) que torne possível a tomada de uma decisão que se nos afigura … tão simples.


O que nos deixa uma interrogação. Será que os Deputados encarregues desse estudo não terão para resolver outros assuntos bem mais importantes para o país e para os cidadãos? Eis uma pergunta para a qual todos nós teremos resposta.


quinta-feira, novembro 17, 2011

Corrigiu-se um erro a tempo



Quando no passado dia 19 de Outubro eu escrevia aqui sobre a possibilidade de Portugal vir a receber no próximo ano só uma pequena parte daquilo que o “Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados – PCAAC” nos costuma atribuir, fazia-o deveras preocupado. Por um lado, porque aumentou muito o número de pessoas que recorrem às Instituições de Solidariedade Social para matar a fome e, por outro, porque a quantidade dos alimentos doados tem sido significativamente menor. Pensava-se, na altura, que essa medida poderia vir a afectar mais de 400 mil portugueses.


Felizmente, a minoria de bloqueio formada pela Alemanha (sempre ela), Reino Unido, Suécia, Dinamarca, Holanda e República Checa recuaram na sua intenção de reduzir drasticamente o apoio a milhões de pessoas sem capacidade para satisfazer uma das mais básicas necessidades – a de comer.

O PCAAC vai continuar nos dois próximos anos (para já) e vai abranger 18 milhões de europeus. Corrigiu-se um erro a tempo. Ainda bem.


quarta-feira, novembro 16, 2011

Afinal o mundo não acabou …



Até há poucas horas, os portugueses andavam num desespero. E nem era propriamente por causa da crise, nem sequer pelo desemprego ter subido para os 12,5%. Tão-pouco pelo facto de ficarmos sem os subsídios de férias e de Natal nos próximos anos. O que atormentava mesmo a rapaziada era a possibilidade da nossa selecção não ser apurada para o Europeu de Futebol de 2012. Só isso.


O treinador Paulo Bento bem tinha afirmado na véspera que, caso a equipa não conseguisse estar presente na fase final da prova, a disputar na Ucrânia e na Polónia, a vida iria continuar e ele manter-se-ia casado e com duas filhas. Mesmo assim os portugueses estavam ansiosos e à beira de um ataque de nervos.


Só por volta das onze da noite os corações sossegaram. A nossa equipa ganhou e goleou a Bósnia e Ronaldo, o CR7, voltou a ser o maior. A Selecção Nacional de Futebol tinha-se apurado para o Euro 2012 e reconciliara-se com os adeptos e com o país. A auto-estima do povo subiu em flecha e, apesar das preocupações do dia-a-dia, a vitória por 6 a 2 tornou-nos mais fortes e mais orgulhosos. Afinal o mundo não tinha acabado …


terça-feira, novembro 15, 2011

Engenharia financeira ou embuste?



A propósito do corte (e da supressão nos próximos anos) do 13º mês lembrei-me de um texto que tem sido veiculado pela net e que, mesmo que não corresponda (por inteiro) à verdade, está bem montado e matematicamente certo. E conta-se mais ou menos assim:


O subsídio de Natal, o chamado 13º mês, foi criado em Portugal logo depois do 25 de Abril de 1974. Mas o 13º mês é uma das mais escandalosas mentiras dos donos do poder, quer se intitulem "capitalistas" ou "socialistas", e é justamente aquela em que os trabalhadores mais acreditam.


Eis uma simples demonstração aritmética de como tem sido fácil enganar os trabalhadores.


Suponhamos que alguém ganha € 700,00 por mês. Multiplicando-se esse salário por 12 meses, o total anual é de € 8 400,00. Ou seja, 700,00 x 12 = € 8 400,00.


Mas o Governo, generoso como é, decidiu criar um 13º mês. Um bónus, um suplemento, uma gentileza, um carinho, se quiserem. Aos 8 400,00 auferidos no ano dá ao trabalhador mais um vencimento (700,00). Isto é, 8 400,00 + 700,00 = € 9 100,00.


Só que qualquer trabalhador, habituado a fazer contas para estender o seu magro orçamento até ao fim de cada mês, pode chegar rapidamente à seguinte conclusão: Se ganha 700,00 euros por mês e o mês tem quatro semanas, significa que ganha 175,00 € por semana. Como o ano tem 52 semanas, quer dizer que são 175,00 x 52, o que dá os mesmos 9 100,00 euros.


Oh Diabo! Mas afinal onde é que está o bendito subsídio de Natal que esperamos o ano inteiro? É que até parece que alguém nos anda a enganar. E isto sem falar, claro está, que há meses que têm 30 dias mas outros 31 e que uns meses têm 4 semanas e outros 5.


Resumindo, não existe qualquer pagamento adicional, o que há é a reposição de um dinheiro já ganho e que não foi entregue na altura própria. Tão simples como isso. E não é por acaso que em certos países os trabalhadores recebem semanalmente.


Como classificar, então, esta forma de pagamento? Será um caso de engenharia financeira ou, simplesmente, um embuste?


segunda-feira, novembro 14, 2011

E as comissões? Ainda faltavam as comissões …



Foram muitos os que defenderam que sem a “ajuda” da troika, Portugal rapidamente entraria em banca rota. E, tanto fizeram, que ela foi-nos concedida.

Assim, o plano de ajuda externa ao nosso país, negociado entre o Governo e a troika (CE/FMI/BCE), estabeleceu um empréstimo de 78 mil milhões de euros durante três anos. Portanto, para nos aguentarmos, teremos que suportar sacrifícios inauditos para poder pagar o capital emprestado mais os respectivos juros. Sim, porque os empréstimos não são de borla.


Só que, e este pormenor parece ter passado despercebido a muita gente, para além desse enorme esforço – só em 2012 teremos que pagar em juros 8,8 mil milhões de euros – vão sair dos cofres do Estado até 2014 mais 655 milhões de euros para comissões devidas à troika. Ah, pois é, este ano serão 335 milhões, para o ano 211 milhões, 84 milhões em 2013 e os restantes 25 milhões em 2014. Como vêm, as “ajudas” pagam-se … e bem. E a verdade é que a informação sobre estas comissões – de 655 milhões de euros, repito – passou por entre os pingos da chuva e poucos terão sentido o espanto de saber em quanto é que nos fica a tal “ajudinha”. Agora é esperar que, ao menos, ela sirva para aproveitarmos a oportunidade para se fazerem as tais reformas de que tanto falamos (e necessitamos) há anos. Isto, se conseguirmos sobreviver.


sexta-feira, novembro 11, 2011

Eça, de novo – a intemporalidade do escritor e político



Como sabem, não me canso de manifestar a minha admiração por Eça de Queiroz. Sobretudo pela sua escrita fácil e pela contemporaneidade da sua obra. O que, de resto, sentimos facilmente quando espreitamos os seus escritos com mais de 100 anos. Há ideias e frases que permanecem actuais.


Recentemente têm “navegado” na internet excertos de textos que nos fazem recordar a intemporalidade de Eça. Como quando, em 1872, escreveu nas “Farpas”:


"Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito".


Então, já Eça “criticava as elites e as suas debilidades, a incapacidade total de sermos respeitados internacionalmente, um desprestígio internacional que só perde para a Grécia". Mais ou menos como acontece agora.


Entre o tempo em que Eça de Queiroz viveu e os dias de hoje quase tudo mudou e poucas coisas são comparáveis. O mundo de Eça era a de um país com profundos atrasos e, hoje, Portugal, mesmo com uma crise financeira e social preocupante, é um país completamente diferente. Contudo …


Contudo, convém recordar as palavras do escritor e político num artigo publicado no “Distrito de Évora”, em 1867, em que dizia “Hoje, que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução".


Era uma mensagem que adivinhava um futuro sem futuro. Porém, cento e tal anos depois, continuamos – melhor ou pior - a sobreviver. E, quem sabe, se durante muitos anos mais.