sexta-feira, setembro 30, 2011

Adeus

Voltamos hoje à poesia.



De Eugénio de Andrade “Adeus”



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti

quinta-feira, setembro 29, 2011

Isto é que é um país de Capitais …



Há uns anos dizia-se por graça que os Estados Unidos, por ser um país enorme, tinha não uma mas três capitais: Washington (a capital propriamente dita), Nova York (a capital do mundo, a cidade que nunca dorme) e … Hollywood (a capital do cinema).


Com o passar dos anos os portugueses acharam que não deviam ficar atrás dos norte-americanos. E, mesmo atendendo a que somos um país pequeno e periférico, enchemo-nos de brios e vá de arranjar capitais do que quer que fosse. Não as contámos (para não corrermos o risco de nos enganarmos) mas vejam, por vós próprios, a miríade de capitais que encontrámos num território com pouco mais de 92 mil quilómetros quadrados e cerca de dez milhões de habitantes. Os americanos que se cuidem.


Então vejamos. Só de comidas, bebidas e afins temos capitais:


do moscatel (Favaios), do fumeiro (Vinhais), do folar (Valpaços), da alheira (Mirandela), da cereja (Resende), da maçã de montanha (Armamar), do queijo da serra (Celorico da Beira), do leitão (Mealhada), do caracol (Póvoa da Lomba), do espumante (Anadia), da lampreia (Penacova), do arroz (Montemor-o-Velho), da cereja (Fundão), do chícharo (Alvaiázere), do ovo (Ferreira do Zêzere), do chocolate (Óbidos), da pêra rocha (Bombarral), do vinho (Cartaxo), da sopa da pedra (Almeirim), da castanha (Marvão), do azeite alentejano (Moura), do presunto (Barrancos), da batata doce (Rogil), da sardinha (Portimão), do polvo (Santa Luzia), do marisco (Olhão), do cozido à portuguesa (Canal Caveira), do porco (Montijo), do porco alentejano (Ourique), do vinho verde (Ponte de Lima), do calçado e do vinho verde (Felgueiras) , do vinho verde (Penafiel) - reparem como, ricos que somos, já temos três capitais do vinho verde - a capital universal da chanfana e capital nacional do artesanato e da gastronomia (Vila Nova de Poiares) (três em um), da chanfana (Miranda do Corvo) (outra da chanfana), do arinto (Bucelas) e de outras especialidades que haverá por aí.


Mas temos mais capitais:


do automóvel antigo (Vila Nova de Famalicão), do móvel (Paços de Ferreira), do design (Paredes), da cutelaria (Caldas das Taipas), do granito (Vila Pouca de Aguiar), do barroco (Braga), das águas bravas (Castelo de Paiva), a capital ibérica do rafting (Melgaço), do calçado (São João da Madeira e Ponte de Lima, duas, sendo que esta última também é do vinho verde), do parapente (Linhares da Beira), do saber português (Coimbra), do papel e do livro (Lousã), do vidro (Marinha Grande), da onda (Peniche), da cerâmica e do comércio tradicional (Caldas da Rainha), do comboio (Entroncamento), do cavalo (Golegã), do Gótico (Santarém), do mármore (Estremoz), da cortiça (São Brás de Alportel), do circo (Vila do Conde) e outras que não me vieram à memória.


Curioso o facto de possuirmos tantas capitais (algumas ibéricas e universais) enquanto que Lisboa, a capital política e administrativa do país ainda não mereceu ser reconhecida como a capital de qualquer coisa. Apelo, por isso, para que sejam generosos e façam o favor de reconhecer que pelo menos, pelo menos, poderia ser-lhe concedido o título da capital dos Pastéis de Belém, dos pipis, do fado, dos pastéis de bacalhau ou do … Glorioso.


quarta-feira, setembro 28, 2011

Agora é que vou emigrar …



Este fim-de-semana cheguei ao limite. E, desta vez, não foi só por causa de Alberto João Jardim. A minha vontade era bater em alguém, nos políticos preferencialmente. Mas para não desgraçar a minha vida, preferi tomar a decisão de emigrar. Não sei ainda bem para onde mas estou a pensar em países como o Qatar ou, talvez, o Luxemburgo, que sempre fica um pouco mais à mão.


A vida está difícil e cansei-me de perder, continuadamente, o poder de compra. Quando penso que, no início da última década, Portugal era um país que estava no 34º posto do PIB per capita mais alto do mundo, que em 2010 desceu para a 40ª posição e que, segundo as projecções do FMI, iremos por água abaixo até à 45º lugar em 2016 – dentro de 5 anos apenas – atrás de países como a Estónia ou Antigua & Barbados, que ninguém sabe onde ficam, dá-me vontade de arrancar os poucos cabelos que me restam. Fico como se estivéssemos a jogar uma partida de futebol com o Liechtenstein e eles nos dessem uma cabazada. Uma humilhação de todo o tamanho.


A concretizarem-se as tais previsões, teremos descido 11 lugares em poucos anos, o que significa que nós portugueses, teremos que viver com um rendimento médio de uns modestíssimos 25,8 mil dólares enquanto que os habitantes do Quatar vão conseguir “sobreviver” com uns parcos 103 mil dólares. Quase quatro vezes mais, coitados.


Portanto, Amigos, adios, aufiderzin, goodbye . Depois mando postais. Até ao meu regresso …


terça-feira, setembro 27, 2011

Se houvesse burocracia



Um dos motivos que, ao que dizem, “ajudaram” a Grécia a cair na situação em que está foi a falta de registo de todos os terrenos existentes no país. Não se sabia a quem pertenciam, portanto, nunca foram cobrados impostos, portanto, uma total inexistência de receitas desde sempre. Fez-me impressão pensar que um Estado, ainda por cima pertencente à União Europeia, não estava suficientemente organizado.


Mas, quanto a (des)organização, nem sequer é preciso sairmos deste nosso rincão. A comunicação social noticiou que, até agora, os Governos nunca souberam ao certo quantas Fundações existem em Portugal, quanto custam ao Estado e para que servem. Incrível, não acham? Segundo o Tribunal de Contas serão umas 817 mas a Direcção-Geral do Orçamento afirma que não passarão de seis. Certamente que serão muitas mais que a meia dúzia entre as Fundações nacionais e estrangeiras, de direito público ou privado. E obviamente que, há muito, se deveria saber onde é gasto o nosso dinheiro e de que forma.


Quando se fala em burocracia atribuímos ao termo unicamente a sua pior face, a pejorativa. Mas burocracia é outra coisa. É, para usar uma definição da Wikipédia, “a organização ou estrutura organizativa caracterizada por regras e procedimentos explícitos e regularizados …”. Em suma, a burocracia é organização.


Pena foi que este desconhecimento das Fundações que pululam por todo o país – por desorganização, por falta de burocracia – só agora tenha sido descoberto … pela troika.
É mais uma humilhação que dispensávamos, mas que merecemos.


segunda-feira, setembro 26, 2011

Se calhar o melhor é fazer-lhe a vontade



Estou muito preocupado pelo que está a acontecer na Madeira. O Paraíso do Jardim parece querer desmoronar-se à medida que se vão levantando as pontas do tapete e estão a aparecer as dívidas até agora escondidas. E dívidas que foram sendo contraídas apesar dos vários perdões concedidos pelos Governos da República.


Mas a minha preocupação cresce por ter ouvido Jardim dizer, num primeiro momento, que a Madeira não tinha dívida alguma, para depois admitir que a dívida da região poderá situar-se nos cinco mil e tal milhões de euros. Porém, o CDS-Madeira já afirmou que o “buraco” é superior a 7 mil milhões sem contar com as dívidas das Câmaras e das empresas municipais. Isto para já. Um buraco colossal que irá, inevitavelmente, agravar a já periclitante situação do nosso país.


Claro que Jardim desvalorizou o facto e argumentou - de forma despudorada - que o montante da sua dívida é idêntico ao passivo do Metro do Porto e que, já que tanto se fala dos perdões de dívida da Madeira, gostaria de saber quanto é que foi perdoado aos PALOPS. Argumentos deselegantes e desadequados que pretendem apenas esconder a verdadeira questão: para além da dívida, o que está em causa é o facto de a terem ocultado. E isso constitui um crime previsto no nosso ordenamento jurídico.


Para nós portugueses não basta que a Moody’s já tenha cortado o rating da Região e que mantenha as perspectivas de um novo corte para breve. Não, queremos também exigir que aos sacrifícios que nos têm sido pedidos não se venham juntar os outros decorrentes da megalomania irresponsável de Alberto João Jardim.


Mas porque, como já aqui afirmei, é possível que tudo continue mais ou menos na mesma depois das eleições Regionais do próximo dia 9 de Outubro, se Alberto João, para se ver livre dos “gajos do continente”, quer mesmo a independência do Arquipélago, como afirmou de forma inflamada num comício de campanha nos últimos dias, porque não fazer-lhe a vontade? DÊ-SE A INDEPENDÊNCIA À MADEIRA. JÁ! Depois de 30 anos de lhe estendermos a mão – subservientes e temerosos – é tempo dos portugueses do Continente, dos Açores e muitos da própria Madeira, dizerem bem alto – ESTAMOS FARTOS! BASTA!

sexta-feira, setembro 23, 2011

O jogo do prego



Acabo a semana com um toque de saudosismo. Recordo tempos em que miúdos e graúdos gostavam de se entreter na praia com uma coisa a que chamavam o “jogo do prego”. É verdade, outras épocas em que pais, filhos e amigos, para além da bola, gostavam, também, de jogar ao prego. Muitos de vós, possivelmente, nunca terão ouvido falar em tal. “Pregos”, quando muito, serão para comer ou para “pregar” na madeira.


Pois é, os criativos de então pensaram que com um simples prego grande de cerca de 15 a 20 centímetros (conhecido tecnicamente por cavilha) a família poderia divertir-se em conjunto com um jogo que era barato e democrático e que tinha regras muito simples, apenas exigindo alguma habilidade.


E em que é consistia tão rudimentar e primitivo divertimento? Basicamente, cada jogador (aqui havia várias versões, os mais abastados tinham um prego para cada jogador enquanto que os pobrezinhos utilizavam todos o mesmo prego), tentava, à vez e com movimentos pré-estabelecidos, espetar o prego na areia seca ou molhada. Pelo que era necessário ter técnica, imaginação e treino para que cada um somasse mais pontos do que os adversários. Até à vitória final.


Era assim que, durante horas, familiares e amigos se entretinham pacatamente e – isto é muito importante – sem incomodar quem estivesse nas redondezas. Não havia o perigo, como agora acontece, de sermos atropelados por talentosos e irresponsáveis futebolistas de praia nem se ouvia aquele irritante barulho das raquetas a jogar bolas, antes que elas – fatalmente – nos venham atingir.


Enfim, eram outros tempos.


quinta-feira, setembro 22, 2011

Os Imigrantes



Parece que ainda estou a ouvir a indignação dos nossos patrícios quando, há uns anos, começaram a chegar os imigrantes que vinham à procura de um país rico (o nosso) onde esperavam ter as oportunidades que lhes permitissem um melhor nível de vida do que tinham nos seus países de origem. Clamavam, então, contra os ucranianos (e os dos restantes países de leste), contra os africanos e contra os brasileiros que lhes vinham roubar os empregos, os mesmos empregos que nós recusávamos por serem de menor qualificação e pior remunerados. E o tom do descontentamento foi crescendo à medida que o desemprego foi subindo e nós começámos a precisar desses mesmos lugares para os nossos. Esqueceram-se, porventura, que os portugueses, em condições idênticas, também emigraram para a Europa, para as Américas e para o Brasil a partir da década de 60 do século passado onde íamos assegurar os serviços que os de lá não queriam fazer.


Só que o eldorado sonhado foi-se desmoronando e embora ainda cá vivam muitos imigrantes, o número tem decrescido notoriamente, sobretudo no que diz respeito aos brasileiros que regressam ao seu país por sentirem que é lá que poderá estar o seu futuro.


Mas para aqueles que suspiram de alívio com a partida de quem tanto deu á nossa economia e demografia, que pagaram impostos e descontaram para a nossa Segurança Social eu lembro – e falo em particular dos brasileiros – o jeito doce e simpático com que nos atendiam nos cafés e restaurantes, de um modo bem diferente daquele a que estávamos habituados.


Como escrevia recentemente a jornalista Clara Ferreira Alves “Os imigrantes trazem consigo o cheiro da viagem e dos novos costumes e tradições, a integração é um enriquecimento cultural”. Com a sua partida também nós perdemos.


quarta-feira, setembro 21, 2011

E, então, acabar-se-ão os problemas …



Acabei há pouco de ouvir a entrevista que o Primeiro-Ministro Passos Coelho concedeu à RTP. No essencial nada disse de novo. Reafirmou que o país está numa situação difícil, que as soluções não abundam e não disse, mas nós sabemos, que para as medidas que estão a ser avaliadas, ninguém consegue assegurar que venham a ter sucesso. Foi então que …


Sinto acanhamento em falar das ideias brilhantes que me vêm à cabeça, mas tenho que vos dizer que, se calhar, encontrei a “SOLUÇÃO!”.


Na verdade, há muito que percebemos que o número de nascimentos no mundo dito desenvolvido tem vindo a baixar drasticamente. Segundo o “The Economist”, se não houver uma inversão desta tendência, Portugal será um dos países que mais rapidamente chegarão ao grau zero de população. Aliás, depois de Macau e de Malta, lá para o ano 3000 desaparecerão os portugueses. Portanto, já não faltam muitos anos para que se registe a desertificação deste país de longa História, o que, na presente conjuntura, até pode ser considerado um factor positivo. Vejamos:


Renegociam-se já as nossas dívidas, empurram-se os problemas até lá mais para a frente e espera-se de quem cá estiver a partir do ano 3000 – isto é, NINGUÉM – que feche a porta. Afinal, faltam menos de 990 anos e o tempo passa a correr. Não acham uma ideia fantástica?


terça-feira, setembro 20, 2011

Afinal não será bem como dizem …



Quando, nos últimos dias, veio a público que a electricidade ia aumentar 30% a partir do próximo mês de Janeiro, os portugueses arrepiaram-se. Depois de termos sido “assaltados” recentemente com a subida do IVA sobre a electricidade, o anúncio deste novo aumento, ainda por cima sugerido pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), soou-nos a mais uma obscenidade.


Que não, que não, apressou-se a esclarecer a ERSE, “tudo o que dizem é meramente especulativo” porque a proposta de aumento ainda estava em avaliação.


Uns dias depois, o primeiro-ministro Passos Coelho avisou, já no final do debate quinzenal no Parlamento, que "as tarifas da electricidade deverão subir 32% em 2012", caso não sejam tomadas medidas urgentes. Um alerta que, no entanto, passou despercebido à maioria dos portugueses.


Conhecemos bem este filme de tanto o termos visto. Quando se pretende aumentar qualquer coisa, primeiro fala-se numa percentagem muito elevada, depois diz-se que, afinal, os valores não vão ser assim tão grandes e o resultado acaba por ser um aumento significativo, só que não tão alto como o anunciado no início. É ou não é assim? Preparem-se.


segunda-feira, setembro 19, 2011

A “ocultação” das contas da Madeira



Não se surpreenderão que eu tenha escolhido para hoje o tema que está na ordem do dia. Obviamente que não poderia deixar passar em claro o enorme imbróglio em que se tornaram as contas da Madeira e as dívidas ocultas que provocaram à República um dano que vai ser muito difícil de reparar.


A Madeira, ou melhor, o seu líder Alberto João Jardim, pôs-se nas bocas do mundo pelas piores razões. Como vi escrito algures “A Madeira, a Ilha Trapaceira, um arquipélago pitoresco de 267 mil pessoas, colidiu com Portugal continental espalhando cacos de novos passivos soberanos”. Dívidas e despesas contraídas (e não pagas) pela Administração Regional da Madeira, que não foram registadas nem comunicadas às autoridades de regulação competentes e que agravaram as contas do país em 0,3%. Dívidas que já existem desde 2004 e cuja “omissão” vai obrigar à revisão dos défices de Portugal de 2008 a 2010. Montante a que se juntarmos a “derrapagem” colossal do ano em curso é coisa para atingir mais de 1 600 milhões de euros. Coisa de somenos …


Mas esta trafulhice indigna-me sobretudo por duas razões: a primeira, por constatar que Jardim está-se borrifando para o país e para os portugueses ao afirmar que “rejeita que haja uma dívida oculta porque a situação foi provocada pelos malditos socialistas com a alteração da Lei das Finanças Regionais”. Segundo o próprio Jardim “andou a esconder isto porque se não ainda recebíamos menos dinheiro”. Isto é, não lhe deram o dinheiro que ele precisava mas isso não o impediu de continuar a fazer o que lhe dava na gana.


A outra razão é que com este “buraco”, Jardim pôs em causa a nossa imagem perante a comunidade internacional que, nos últimos dias, tinha sido até elogiada pelas medidas que estavam a ser postas em prática, capazes, porventura, de tirar o país do sufoco em que se encontra.


E agora? Perante a ocultação das contas, uma prática muito grave segundo o INE, o BdP e as instâncias internacionais que nos têm debaixo de olho, ficámos em situação idêntica à da Grécia: a de batoteiros em quem não se pode confiar. Aliás, há por aí quem se questione se não haverá mais contas escondidas?


Esta trafulhice tem que ter uma sanção exemplar. Não basta que se aplique uma multa ridícula de 25 mil euros a Jardim. É que não estamos perante um caso de mera gestão incompetente Este é, notoriamente, um caso de má-fé, de aldrabice, um caso de um político (que até é membro do Conselho de Estado) que deveria ser castigado quer política quer criminalmente.


Do que é que ficamos à espera desta vez? Continuamos, mansamente, “a comer e a calar?” Ninguém põe cobro a tantos e tão graves desmandos? E o pior é que não acredito que as eleições do próximo dia 9 de Outubro na Região tragam mudanças significativas do status-quo. É que há demasiadas dependências e interesses e, portanto, não convém que haja alterações.


sexta-feira, setembro 16, 2011

Inovação Tecnológica



No post que publiquei ontem falava (ainda que vagamente) na tecnologia que hoje temos à disposição. E temos muita. Pois num restaurante do Algarve assisti a uma cena surreal. A empregada que nos atendia ostentava, vaidosa já se vê, um tablet novíssimo onde se preparava para pedir a nossa encomenda. Só que – e as tecnologias pregam destas partidas – a coisa não funcionou como devia e a empregada decidiu-se por arranjar um toalhete de mesa que dobrou em cima do tal tablet e nele escreveu o nosso pedido. Simples, prático e eficiente.


A nossa capacidade de reacção e de desenrasca é inesgotável.


quinta-feira, setembro 15, 2011

Ignorância conveniente



Costumo dividir os incumpridores para com o Estado em dois escalões. O primeiro engloba os que estão de má-fé, os chamados “chico-espertos”, que estão sempre prontos para aproveitar as debilidades das leis e a ineficácia da máquina do próprio Estado. Ao segundo escalão pertencem todos os outros cidadãos que pura e simplesmente desconhecem ou não sabem interpretar as leis. Tentam cumprir as suas obrigações mas (e há sempre um mas), mais tarde ou mais cedo, a malha da legislação que não dominam acaba por penalizá-los.


Atentem neste exemplo (real) de um cidadão que trabalha em regime de recibos verdes e que sabe que tem que pagar IRS, IVA e Segurança Social. Relativamente a este último, o dito cidadão, teve isenção de pagamento no primeiro ano de actividade. Pagaria a partir daí. Mas um ano tem muitos dias e nem toda a gente é tão certinha ao ponto de se lembrar qual a data exacta em que tem que começar a pagar mais uma obrigação. E a vida foi andando até que cinco anos depois a Segurança Social enviou um aviso a informá-lo que tinha uma dívida de 2 078,21 euros, que teria que a pagar num prazo de 30 dias e, caso o incumprimento continuasse, seriam penhorados os seus bens e ordenado.


Assim, e de repente, surgiu do nada uma dívida de 9 meses que não fora paga há … 5 anos. 1 327,82 € (a chamada quantia exequenda) a que se juntaram 750,39 euros, os denominados “Acrescidos”, relativos a custas e juros de mora.


Sei, há muito, que os cidadãos não podem desculpar-se com o desconhecimento das leis. Tão-pouco ponho em causa a verba que não foi paga na altura certa. O que acho estranho, isso sim, é que durante todo este tempo nunca tenha havido um alerta sobre o montante em dívida nem sequer quando o cidadão passou, por duas vezes, pela situação de desemprego e recebeu subsídio do dito, pago pela mesma Segurança Social.


Não houve, portanto, durante todos estes anos um aviso de pagamento da quantia exequenda mas, curiosamente, ele apareceu no limite do prazo de validade e com a verba adicional de 750,39 euros.


Procurada uma explicação na Segurança Social foi dito que as diversas aplicações não estão integradas e, por isso … Numa época em que a tecnologia já não desculpa certas desculpas, tenho todo o direito de pensar que a caça à multa é um objectivo a atingir e que a ignorância dos contribuintes mais não é que uma "Ignorância Conveniente".


quarta-feira, setembro 14, 2011

Atenção às “novas medidas de austeridade”



Ao que foi agora noticiado, e por causa de um buraco detectado na execução orçamental de 2011, a troika decidiu que o Governo terá que adoptar medidas adicionais de austeridade no próximo ano, no valor de 0,6% do PIB, ou seja, cerca de mil milhões de euros. Segundo as autoridades internacionais a maioria dessas medidas serão conseguidas do lado da despesa mas, como estamos tão habituados a ouvir uma coisa e a sentir outra nos nossos bolsos … tememos que venham aí mais impostos.


Se bem que, como alguns dizem, “os limites para os sacrifícios ainda não tenham sido atingidos” (há, portanto, espaço de manobra … podem continuar), o facto é que o cidadão comum percebe cada vez menos que os esses sacrifícios caiam sempre em cima dos mesmos. Os impostos e os cortes nas prestações sociais não param de aumentar e, enquanto isso, continua-se à espera da tão prometida redução da despesa do Estado.


A fúria predadora do Governo é insaciável. Atenção, pois. As “novas medidas de austeridade” estão a chegar. Preparem-se …


terça-feira, setembro 13, 2011

Parlamento vai gastar menos no próximo ano



Eu não digo? Ainda ontem comentava que agora só se ouve falar em cortes da despesa do Estado e, hoje, cá estou eu de novo a abordar o mesmo tema. Desta feita refiro-me ao anúncio de que o Parlamento vai reduzir as suas despesas de funcionamento em 27%. Boa notícia esta.

E nada escapa aos cortes no Orçamento para 2012: a limpeza, os transportes, a publicidade, os combustíveis ou a alimentação. Mas se registo com satisfação essa notável redução da despesa não posso deixar de ficar preocupado ao pensar na forma como se vai conseguir diminuir no próximo ano 69% em “Limpeza e Higiene”. Menos 70 mil euros assim de um momento para o outro? Será que o corte vai ser do lado do papel higiénico ou será que vai haver menos água dos autoclismos? Ou será, ainda, que havia até aqui um despesismo imenso que ninguém controlava?


Esta redução drástica faz-me lembrar aquilo que aconteceu a uma colega minha. Saída de um divórcio complicado, cheia de dívidas (contraídas pelo ex-marido) e com duas filhas para cuidar, pediu apoio à assistente social da empresa. E essa “ajuda” veio em forma de “conselho”: “Olhe, comece por poupar na água. Em vez de tomarem banho todos os dias façam-no apenas uma vez por semana (!)”.


Pode ser que, na Assembleia, não se chegue a tanto. Pode ser que, tal como no cartaz acima, “os Srs. Cavalheiros” tenham cuidado para que a água não venha a inundar as casas de banho. Pode ser.


Mesmo tendo consciência que estes “cortes” não vão resolver o problema das contas públicas, o povo fica um pouco mais tranquilo ao saber que na casa que acolhe os seus representantes também existe a preocupação de poupar.


segunda-feira, setembro 12, 2011

Mais um imposto?



Nos dias de hoje só se ouve falar em “cortes”. Um pouco por todo o lado mas, sobretudo, nas despesas do Estado “cortar” é a palavra de ordem. Mas se nem sempre é fácil atingir os objectivos, na saúde começa a ser quase impossível fazê-lo sem pôr em causa a qualidade dos serviços prestados aos cidadãos.

Daí que se inventem novas fórmulas, muitas vezes, porém, aplicadas de forma cega. Agora foi a vez do Bastonário da Ordem dos Médicos defender a criação de um imposto sobre o “fast-food” e sobre as “dezenas de variedades de outro lixo alimentar”, para financiar o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A ideia até parece ser interessante, sobretudo se pensarmos que se pode conseguir arrecadar mais umas massas para poder sustentar o SNS e, ao mesmo tempo, essa ser mais uma medida de prevenção de doenças cujo tratamento viria, um dia, a ser comparticipado pelo Estado. Basta lembrar que um duplo cheeseburger e um pacote de batatas fritas têm qualquer coisa como 2 200 calorias e que esses excessos pagar-se-ão (aqui duplamente) mais tarde.

Mas, a verdade, verdadinha, é que a sugestão não passa de uma falácia. O que se pretende de facto é arranjar mais dinheiro. Tanto mais que todos sabemos que não é através dos impostos que se mudam hábitos. Para isso existem campanhas de informação. No caso da saúde alimentar, esses movimentos de esclarecimento sobre como ter uma alimentação mais saudável (e mais barata, por vezes) já existem há algum tempo e, nomeadamente, junto dos mais jovens. Só que essa mudança de hábitos leva anos a verificar-se.
E, depois, se a única preocupação fosse a saúde dos portugueses através de uma melhor alimentação, por que não isentar de IVA produtos básicos e saudáveis como o leite, o pão e os ovos, como defende há algum tempo a DECO, em vez de mais um imposto sobre o tal lixo alimentar?

Mas a sugestão do Bastonário da Ordem dos Médicos ainda parece ter menos consistência quando constatamos que o Estado autoriza a venda desses produtos, autoriza a publicidade que leva ao consumo, recebe impostos de tudo isso e, de forma moralista, afirma que o imposto sobre o consumo é para proteger o consumidor. Exactamente como acontece com o tabaco.

Percebo que alguém (nós) tenha que assegurar a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Mas, pergunto, não haverá por aí “outras gorduras”, que não as do ““fast-food”, onde se possam fazer os cortes e onde os contribuintes não sejam chamados, uma vez mais, a arcar com os custos?

sexta-feira, setembro 09, 2011

A cozinha da casa está atrasada ...



Ainda não vos falei de um restaurante algarvio onde vou sempre que posso. A comida é óptima mas, atenção, para irem lá têm que estar devidamente preparados para certas condicionantes. Eu explico:


Mal ultrapassada a porta de entrada, é costume atirarem-nos com um seco “A cozinha está atrasada, se quiserem esperar...”
Claro que queremos esperar, naquelas ocasiões nunca temos pressa porque, o que nos leva ali – a qualidade da sua comida - merece bem o tempo infindo que levam a servir-nos.


A sala não é especialmente bonita, o serviço de mesas é básico e nada atencioso, não existe um pingo de requinte e, na verdade, tudo nos parece tosco. Apesar disso, faz parte do nosso percurso algarvio ir ao Café Correia, em Vila do Bispo, entre Lagos e Sagres.


Na cozinha, ao leme dos tachos e bicos de fogão, tudo é feito com esmero e ao momento por um único homem – o dono do restaurante. E por que tudo começa depois do pedido feito, não se estranha a demora. Aliás será bom até, como nos aconselharam, não demonstrar qualquer impaciência não vá o chefe entrar em stress e o cozinhado não vir apurado.


Em anterior ocasião tínhamos comido umas portentosas lulas recheadas e, desta vez, deliciámo-nos com uma magnífica sopa de peixe com massinhas e uma fabulosa galinha de cabidela. Que vinha “ao ponto”, como se costuma dizer. E, meus amigos, que imagem deliciosa ver pousar na nossa mesa os tachos vindos directamente do fogão.


Para além das iguarias que lhes dei conta ainda podem pedir, entre outras coisas, o coelho guisado, os camarões guisados à moda da casa e o arroz de peixe ou de camarão que, dizem-nos, são verdadeiras obras de arte.


Aqui fica a sugestão. Quando forem para os lados do barlavento algarvio, não deixem de experimentar o “Café Correia”. Levem tempo e paciência mas, depois, digam qualquer coisa.


quinta-feira, setembro 08, 2011

Investimento Estrangeiro em Portugal – as contas que têm que ser feitas



À pergunta se afinal precisamos ou não de captar investimento estrangeiro, a resposta só pode ser: claro que necessitamos porque somos um país pobre. Dele depende a criação e desenvolvimento das empresas e um maior número de postos de trabalho. E para conseguir esse objectivo tem que haver um esforço conjunto das nossas embaixadas e consulados, do AICEP e do governo, em diversas iniciativas que levam a cabo no exterior. A nossa economia agradece.


Porém, deveríamos saber fazer contas. E pelos números que a seguir vos mostro parece que não sabemos lá muito bem.


Reparem, nos primeiros cinco meses deste ano entraram em Portugal 14 146 milhões de euros mas, em contrapartida, saíram 12 771. Ou seja, líquidos entraram realmente 1 375 milhões.
Acontece que os portugueses também investem lá fora e, no mesmo período, colocaram 6 712 milhões de euros e desinvestiram 2 588. Portanto, uma saída líquida de 4 124 milhões.
Feitas as contas o que se verifica é que por cada euro que ganhamos perdemos três. O que nos leva a pensar se não seria mais adequado convencer os investidores nacionais a aplicar o seu dinheiro em Portugal em vez de andarmos atrás do capital estrangeiro? Claro que a resposta parece óbvia. Só que existem outros factores a considerar, nomeadamente, nos aspectos fiscais.


Contas são contas e os resultados têm que ser avaliados.


quarta-feira, setembro 07, 2011

A qualidade paga-se



Álvaro Santos Pereira (o novo Ministro da Economia) e António Vitorino (do PS), para além de homens inteligentes (ou por isso mesmo) pertencem àquela classe (raríssima) de políticos de quem eu estou sempre à espera que digam (e dizem-no), para além das coisas sérias e formais de sempre, uma graça, um aparte bem-disposto. É que a muita gente não parecerá bem que políticos tão distintos tenham sentido de humor, não vá essa boa disposição afectar os seus desempenhos políticos ou profissionais.


Mas o Álvaro (não sei se ainda faz questão que o tratem assim) mostrou uma outra faceta. A de ser corajoso. A tal ponto que não se importou nada que a sua chefe de gabinete - ao que dizem - competentíssima, ganhe tanto ou mais (não consegui apurar) que o próprio chefe. Como disse o titular da pasta da Economia “a qualidade tem de ser paga”. E em política, essa característica – a coragem – também é uma prova de inteligência.


terça-feira, setembro 06, 2011

O vil metal



Quando ontem me referia às afirmações do multimilionário americano Warren Buffet que diz pretender pagar mais impostos para ajudar o seu país, a história fez-me recordar (embora com contornos bem diferentes) aquele caso, acontecido há uns anos, de um industrial da Lousã que quis oferecer – pagando do seu bolso – um jipe a cada um dos seus 160 trabalhadores e a mais 27 funcionários de uma firma associada. Uma operação que lhe custaria qualquer coisa como 2,5 milhões de euros.


Jorge Carvalho, de seu nome, solteiro e sem filhos, homem que gostava de ajudar o próximo – por diversas vezes apoiou financeiramente diversas instituições locais, desportivas, humanitárias, culturais e de solidariedade social – achava que se tinha tido sucesso era justo que compensasse quem o tinha ajudado a lá chegar. Só que os sobrinhos assim não o entenderam e trataram de arranjar maneira de não concretizar a sua vontade. E conseguiram-no.


O vil metal, uma vez mais. Perante esta aparente “inevitabilidade”, regressamos à dúvida de sempre: que é feito de valores como a “humildade”, o “reconhecimento” e a “generosidade”?


segunda-feira, setembro 05, 2011

A fúria de pagar



Acho que toda gente se admirou quando o terceiro homem mais rico do mundo, o americano Warren Buffet, declarou:
“… os nossos dirigentes pediram ‘sacrifícios partilhados’. Mas eu fui poupado a esse pedido. Falei com os meus amigos megarricos para saber quais as aflições de que estavam à espera. Também eles tinham escapado … no ano passado paguei cerca de 17,4% em impostos mas para quem trabalha nos meus escritórios a carga fiscal pagou uma média de 36% … os legisladores parecem sentir-se na obrigação de proteger os super-ricos … Os meus amigos e eu já fomos suficientemente mimados por um Congresso que favorece os multimilionários. Chegou a altura de o Governo levar a sério a partilha dos sacrifícios”.


Espantoso, não é? E, perante isto, a maioria dos portugueses ter-se-á questionado “mas o que é que se está a passar? Então os ricos dizem agora que querem pagar mais?”


Claro que no nosso país nenhum dos poderosos (com excepção de Joe Berardo e mais alguns … poucos) mostraram disponibilidade para pagar mais impostos para ajudar o país a recuperar da crise. Aliás, o homem mais rico de Portugal – Américo Amorim - chegou mesmo a afirmar "Não me considero rico, mas sim trabalhador". Um trabalhador rico, digo eu. E se Amorim não se considera rico, neste país de pobres, nada há para acrescentar. Sim, há. Há falta de decência.


sexta-feira, setembro 02, 2011

Quando os tubarões atacam



Estava de férias no Algarve quando o telemóvel tocou e vi no visor que era o meu amigo Víctor. Admirei-me com a chamada porque quando estamos de férias não costumamos falar e mais admirado fiquei quando lhe percebi o tom de voz alterado, coisa que não é muito comum.


“Então, já encontraste por aí os Tubarões? …” perguntou-me a abrir.


Quando lhe ia responder, atirou a matar “não lhes chegava terem cortado no subsídio de Natal, aumentado brutalmente os transportes públicos e agora vá de aumentar o IVA na electricidade e no gás natural já a partir de Outubro. Ouviste o Professor Marcelo dizer que ‘isto é uma pantufada monumental na classe média’?…”


Tentei falar mas o bombardeamento continuava …


“Impostos, mais impostos e mais impostos, Malandros é que eles são”. A zanga do Víctor era bem perceptível e o tom agreste ia subindo. “Esses tubarões estão a abocanhar tudo e pouco falta para acabar com o que resta da classe média e do estado social. Razão tinha o Zeca quando cantava ‘Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada...’”.


Ainda consegui responder “mas olha que só foram vistos uns quantos tubarões e …” mas senti que a chamada tinha sido cortada.


Não tive sequer tempo de lhe explicar que os tubarões a que eu me referia eram aqueles que apareceram a uma milha da costa algarvia, uns do tipo "cabeça de martelo" que são inofensivos e que este ano vieram em número maior do que o costume. Desconfio, porém, que não era destes tubarões que o meu amigo falava.


quinta-feira, setembro 01, 2011

Confirmação: Alberto João Jardim continua a ter dedo médio



Confesso que estou sempre à espera que alguma coisa aconteça durante a festa anual do PSD Madeira, no Chão da Lagoa, nomeadamente quando “essas novas” têm como protagonista Alberto João Jardim.


Pois este ano Jardim não querendo fugir à tradição da vulgaridade a que nos habituou, brindou os jornalistas com o dedo médio da mão bem levantado, num gesto impróprio conhecido de todos.


Igual a si próprio, continua a ser notícia pelas piores razões. E de uma pessoa com tamanhas responsabilidades e que é o Presidente de um Governo Regional só se pode pensar que o homem endoidou de vez. A não ser assim – e para além do tal gesto - como explicar que, sob sua orientação, as verbas postas à disposição pelo Governo da República para a reconstrução da Madeira aquando do temporal de Fevereiro de 2010 estejam a ser aplicadas em despesas de funcionamento em vez daquilo para que foram destinadas?


Uma coisa é certa, Alberto João Jardim continua a ter dedo médio e continua também a fazer gala de atitudes completamente despropositadas e ordinárias. E, como em outras ocasiões, pergunto: “E não há quem ponha cobro a isto?”


quarta-feira, agosto 31, 2011

Estamos de volta



“E mal nascemos já fizemos sessenta anos” como cantava José Viana. O “Por Linhas Tortas” começou em 31 de Agosto de 2005 e hoje já estamos a comemorar o início do sétimo ano de vida. O tempo voa.


Estamos felizes mas, contudo, tivemos algumas dúvidas em prosseguir esta caminhada. Por isso, reuniu-se a equipa que está por detrás de tudo isto para analisar se as condições eram propícias a continuar. Assim, juntámos o pesquisador dos temas da actualidade (eu próprio), o responsável pela ficção (eu), o analista dos blogues da concorrência e de referência (eu), o elemento que tem a seu cargo a procura e a escolha das fotografias e grafismos publicados (eu), o coordenador da interacção entre o blogue e as redes sociais (eu), o revisor dos textos para que o português escrito contenha o menor número de erros ortográficos e as frases façam sentido do ponto de vista da sintaxe (eu), um supervisor geral (eu) e, finalmente, o escrevinhador de serviço (também eu).


Então, esta vasta equipa discutiu o futuro do “Por Linhas Tortas”, séria e profundamente como se impunha, equacionando as vertentes mais susceptíveis de poder fazer travar a publicação deste blogue, porventura dos mais influentes no país, ainda que os meus amigos não tenham consciência disso. Levámos em conta a crise internacional (e a portuguesa), foi tida em consideração de que a suspensão do blogue iria acrescentar mais uns quantos desempregados ao número considerável que já temos e, por último, mas não menos importante, achámos que seria injusto privar os nossos amigos que nos acompanham, dos textos que fielmente vêm procurar e onde encontram os nossos estados de alma, os desabafos, os comentários, a ironia ou a ficção. Onde cada post é uma espécie daqueles rebuçados que se vendiam dantes nos comboios e que o vendedor apregoava “cada cor seu paladar”. Assuntos tanto ou quanto possível diferentes e actuais. Mas atenção, não tenham a ilusão de que este é um espaço de debate político ou onde os temas são tratados de uma forma imensamente séria (e chata) à procura de soluções. Não, a linha editorial do “Por Linhas Tortas” é bem clara e nunca pretendemos enganar os nossos leitores. Aqui podem encontrar, isso sim, uma diversidade de matérias que tentamos trabalhar de forma despretensiosa e séria. Apenas isso.


E foi exactamente pelos nossos amigos que insistem em aceder a esta página, certamente por falta de outras soluções bem mais interessantes, que decidimos cantar hoje os “Parabéns a Você” e estar presentes no primeiro dia (e nos que se seguem) deste sétimo ano.


Vamos, portanto, em frente enquanto tivermos força e enquanto os manda-chuvas do novo acordo ortográfico não nos impedirem de escrever de acordo com a antiga ortografia.


Tenham a certeza que vamos gostar muito da vossa companhia.


quinta-feira, julho 28, 2011

Uns dias de férias



Como é habitual, fazemos aqui a nossa pausa para férias.
O blogue volta em 31 de Agosto, dia em que o “Por Linhas Tortas” faz anos. Estaremos aqui para festejar a data.
Fiquem bem.
Té já!


quarta-feira, julho 27, 2011

Até que enfim!



Não é todos os dias (aliás, é raríssimo) que um Ministro se disponha a ir a um aeroporto para receber uns quantos portugueses que se destacaram numa competição lá fora. A exemplo, aliás, do que acontece com a maioria da população que, de uma forma geral, se está nas tintas para aqueles que, nas várias actividades, conseguem atingir a excelência fora (e dentro) de fronteiras. A excepção resume-se aos adeptos do futebol que raramente deixam os seus créditos por mãos alheias, isto é, enchem as zonas de chegada dos aeroportos para saudar os seus clubes, nomeadamente a rapaziada do norte que tem tido muito mais razões para festejar do que os do sul.


Como referi, não é normal que um Ministro vá receber uma equipa (ou uma personalidade) vencedora numa competição internacional. Mas às vezes o improvável acontece. Há dias o novo Ministro da Educação e Ciência – Nuno Crato - recebeu no aeroporto de Lisboa a comitiva que concorreu às Olimpíadas Internacionais de Matemática. Uma equipa fantástica que conseguiu uma medalha de ouro e duas de bronze. Feito inédito e valoroso de que nos devemos orgulhar.


E devemos, também, aplaudir, a presença do Ministro. Se para alguns a sua atitude é considerada populista, para mim, ela representa o reconhecimento oficial de um governante que quis publicamente dar o devido relevo ao mérito daqueles jovens. É um estímulo que lhes deve ter sabido bem e que demonstra que, cá no burgo, ainda há quem se preocupe com outras coisas para além do futebol. Até que enfim!


terça-feira, julho 26, 2011

Vivó luxo



Fiquei embasbacado quando ouvi no último domingo na sua habitual crónica da TVI, Marcelo Rebelo de Sousa denunciar que o Ministério da Cultura tinha um apartamento em Veneza para albergar convidados do Estado. Sobretudo, adiantou, aquando da Bienal de Veneza.


O que só prova que o facto de andarmos literalmente de mão estendida à caridade internacional e de, nós contribuintes, sermos sistematicamente sobrecarregados de impostos, não impede, ainda assim, que apresentemos uma fachada de alguma prosperidade. Ou seja, “Está-se bem”, na versão mais moderna ou “Pobretes mas alegretes” como se dizia dantes.


Com que então, um apartamento na maravilhosa Veneza para acolher as distintas personalidades que vão visitar a Bienal de Veneza, a exposição internacional de arte que se realiza desde 1895, de dois em dois anos. Perante isto só me ocorre dizer “Vivó luxo”.


segunda-feira, julho 25, 2011

Poupar? Perante isto continuam a pedir-nos para poupar?



Claro que não se pode confiar em tudo o que é veiculado pela net e, por isso, tenho sempre o maior cuidado em reencaminhar os mails que recebo e abstenho-me de tecer grandes comentários a certos assuntos, sobretudo aqueles que nos causam mais admiração ou maior revolta.
Porém, às vezes, a coisa é mesmo a sério, como aquele que agora veio a público e está a ser amplamente divulgado nas redes sociais, nos blogues e através de mails. A presidente da Assembleia da República - Assunção Esteves – atribuiu a Mota Amaral, na qualidade de ex-presidente do Parlamento, um gabinete, uma secretária, um BMW 320 e um motorista.
Diz o despacho publicado no Diário da República, II Série-E – Número 1, de 24 de Junho de 2011:


“Ao abrigo do disposto no artigo 13.º da Lei de Organização e Funcionamento dos Serviços da Assembleia da República (LOFAR), publicada em anexo à Lei n.º 28/2003, de 30 de Julho, e do n.º 8, alínea a), do artigo 1.º da Resolução da Assembleia da República n.º 57/2004, de 6 de Agosto, alterada pela Resolução da Assembleia da República n.º 12/2007, de 20 de Março, determino o seguinte:
a) Atribuir ao Sr. Deputado João Bosco Mota Amaral, que foi Presidente da Assembleia da República na IX Legislatura, gabinete próprio no andar nobre do Palácio de São Bento;

b) Afectar a tal gabinete as salas n.º 5001, para o ex-Presidente da Assembleia da República, e n.º 5003, para a sua secretária;

c) Destacar para o desempenho desta função a funcionária do quadro da Assembleia da República, com a categoria de assessora parlamentar, Dr.a Anabela Fernandes Simão;

d) Atribuir a viatura BMW, modelo 320, com a matrícula 86-GU-77, para uso pessoal do ex-Presidente da Assembleia da República;

e) Encarregar da mesma viatura o funcionário do quadro de pessoal da Assembleia da República, com a qualificação de motorista, Sr. João Jorge Lopes Gueidão;

Palácio de São Bento, 21de Junho de 2011
A Presidente da Assembleia da República, Maria da Assunção Esteves”


Assim, tal e qual. Esta é a prova provada de que a nossa Assembleia da República, não aplica a si própria a contenção que o governo tem vindo a impor aos portugueses. E o que os portugueses não conseguem entender - e ainda que as leis permitam que as benesses atribuídas às 2ªs figuras do Estado (mesmo quando deixam o cargo) - é que essas leis não sejam imediatamente revogadas, dado o estado actual do país. Tanto mais que é o erário público que suporta esses custos.


Apesar dos “sinais”, como aqui comentávamos há dias, isto não vai lá só com viagens em turística e com a possibilidade de se trabalhar sem gravata. Não, é preciso mais …


sexta-feira, julho 22, 2011

Anomalias do Amor



Eugénio de Castro (1869 – 1944), foi considerado, na sua época, pela crítica em geral como um poeta modesto. No entanto, teve um grande contributo na renovação da literatura em Portugal, aproximando-a das modernas concepções europeias.


De Eugénio de Castro “Anomalias do Amor”


Velhinhos há de coração ardente,
Como há mancebos de alma encanecida;
Cedo anoitece para uns a vida
E para outros não tem fim o poente.


O moço para o amor indiferente
É campa de si mesmo, arrefecida,
E o velho, que ama com paixão dorida,
Dentro do peito um prisioneiro sente.


Um leva o coração, de neve cheio,
Arde o outro em chamas rútilas, inquietas,
E ambos, descalços, vão pisando as brasas…


Qual merece mais dó? Sábios, dizei-o:
O moço que só anda de muletas,
Ou o velho que ainda quer ter asas?



quinta-feira, julho 21, 2011

Uma coisa é a corrupção e outra o amor pelo Glorioso


Há muito que se sabe das “ligações perigosas” entre a indústria farmacêutica e a classe médica, onde a tão badalada corrupção se materializa através de viagens e fins-de-semana em estâncias turísticas (algumas em lugares distantes e paradisíacos e muitas vezes a pretexto de congressos científicos ou acções de formação), cheques-prenda, consolas ou até mesmo “dinheiro vivo” entregue em sobrescritos. Tudo isso e muito mais oferecido a médicos como contrapartida da prescrição dos medicamentos oriundos dos vários laboratórios. Quanto mais embalagens forem receitadas, maior será o valor da contrapartida. E, assim, neste esquema em que não há culpados, lá se tem vivido, com alegria e impunidade. Mas isso já nós sabíamos e condenávamos, e embora seja crime, parece que nos habituámos à ideia.


Agora a novidade é que foram apanhados alguns clínicos que em troca das tais prescrições aceitaram bilhetes para jogos internacionais do Benfica e as respectivas estadas em Lisboa. E este facto – o de virem assistir aos jogos do Glorioso - altera tudo. É que o favorzito, neste caso, nunca poderá ser considerado um crime mas antes a manifestação mais forte de fervor nacional. Provavelmente os senhores doutores pensarão “Ah, é pr’a ir ver o Benfica, então vou receitar uma caterva dos vossos medicamentos”. E, por esta ser uma boa razão, constitui uma atenuante de peso, caso algum mal intencionado advogado se lembre de colocar uma acção contra esse distinto médico benfiquista. Não concordam? É que uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa.

quarta-feira, julho 20, 2011

E se Portugal vendesse o ouro?



Com a escalada do preço do ouro nos mercados internacionais nos últimos dias, logo se equacionou a hipótese de Portugal vender as suas reservas de ouro para amortizar a dívida que tem. Uns (cá de dentro), por pura ignorância dos acordos entre o Banco Central Europeu e os Bancos Centrais dos vários países, outros (os de lá de fora e, sobretudo, os alemães), a colocarem mais lenha na fogueira e a defender que deveríamos vender mesmo o nosso ouro antes de pensar em receber o empréstimo (a ajuda) já combinada com as instâncias internacionais.


E a verdade é que tendo o nosso país uma quantidade apreciável de ouro (382,5 toneladas que faz de nós a sétima nação do mundo com maior reserva de ouro) parece da mais elementar sensatez desfazermo-nos das barras de ouro para liquidarmos as nossas dívidas e acabar com os nossos problemas. Parece mas não é.


E não é por duas razões básicas. A primeira, porque o ouro é propriedade do Banco de Portugal e não do Estado e, portanto, se fosse vendido, o lucro era do BdP que, quando muito, distribuiria, mais tarde, os dividendos ao patrão-Estado. A segunda é que, mesmo que o nosso ouro valha agora 11,6 mil milhões de euros não chega nem de longe para cobrir a nossa dívida pública que é de 159,6 mil milhões de euros e um défice de 14,9 mil milhões.


Daí que, mesmo que isso fosse possível, para quê alienar uma reserva que não iria resolver coisíssima nenhuma? O que faz sentido, isso sim, é que o Estado mude de atitude e promova o necessário para reactivar o seu tecido produtivo a fim de gerar riqueza. Enquanto isso, irá agindo pelo lado da receita fácil, isto é, vai continuar a lançar mais impostos sobre os cidadãos.


Portanto, vão-se preparando para mais impostos que, fatalmente, chegarão e esqueçam a pergunta “e se Portugal vendesse o ouro?”. Como se disse, além de não poder, isso não resolveria os nossos problemas. E, já agora, esqueçam também a velha frase “vão-se os anéis mas fiquem os dedos” porque mesmo que se vendessem os anéis (o ouro), ficaríamos com os dedos (neste caso, as dívidas) ligados a um futuro nada risonho.


terça-feira, julho 19, 2011

“Souvenir de Portugal”



Para ser franco não me impressionou por aí além o facto de uma fabriqueta nacional comprar produtos lá fora para, depois, os vender aos turistas como “Produto de Portugal”. Fiquei indignado, isso sim, quando há uns anos se soube que alguns países andavam a produzir o nosso “vinho do Porto” de uvas que nasciam lá nas suas terras quando o verdadeiro “Porto” é legitimamente um vinho natural e fortificado, produzido exclusivamente a partir de uvas provenientes da região demarcada do Douro, em Portugal. E não é despiciente a forma como é utilizada a palavra “exclusivamente”.


O que se passa com este “produto algarvio” é que a empresa da zona de Torres Vedras que vai comprar a granel os figos secos à Turquia e o miolo de amêndoa aos Estados Unidos (por serem mais baratinhos) embala-os, depois, da mesmíssima forma como sempre se fez no Algarve e vende o produto final como um “Souvenir de Portugal”. Só não se sabe em que parte do mundo foram comprar os cestos e os celofanes.


Poder-se-á dizer que se está a vender gato por lebre. É verdade que sim, mas a verdade também é que o produto (a sua criação) é tradicional cá da terra e provavelmente dá trabalho a alguns portugueses que trabalham na tal fabriqueta. E não deixa de ser também uma lembrança de Portugal, o país onde os estrangeiros (e se calhar os nacionais) adquiriram a mercadoria. Ainda assim, e para aqueles que se mostram mais indignados com a “marosca”, apetece-me perguntar se nunca compraram uma peça de roupa ou de artesanato num determinado país que, mais tarde e depois do regresso a casa, verificaram ter sido feita na China ou na Índia?


O que se questiona verdadeiramente é se em vez de irem comprar a matéria-prima lá fora não o poderiam ter feito cá dentro, no próprio Algarve … terra de maravilhosas praias e de figueiras e amendoeiras. Quanto mais não fosse por uma questão de nacionalismo, num tempo em que o país tanto necessita da ajuda de todos nós.

segunda-feira, julho 18, 2011

Poupanças imprescindíveis?

Quando os Governos tomam posse os cidadãos costumam mostrar alguma condescendência para com quem chega, o período de tempo a que normalmente se chama o “estado de graça”. Com isso, dá-se alguma folga aos novos governantes para que tenham tempo para conhecer os dossiers e os cantos à casa para, só depois, começarem a actuar. Porém, devido à situação em que se encontra o país, este Governo não tem direito ao tal “estado de graça”. As soluções têm que aparecer e já. Mas que soluções, e a que preço? Vejamos duas delas:

1 - Assunção Cristas, responsável pelo super Ministério da Agricultura, Mar e Ordenamento do Território entrou a matar. Para conseguir reduzir as despesas do Ministério, direccionou a sua atenção para o ar condicionado. Assim, e para manter frescos e operacionais os funcionários sem gastar demasiada energia, decidiu que os homens poderão trabalhar sem gravata enquanto que as senhoras poderão envergar trajes um pouco mais ligeiros. O ar condicionado vai continuar ligado mas não poderá estar acima dos 25º. Contudo, para além do aspecto ambiental da medida, fica por saber que ganhos significativos se irão conseguir? Ao que confessou a Ministra, nem ela tem noção disso, pelo que se prevê que, nos próximos meses, para que se registe ainda maior poupança, os homens possam vir a vestir camisolas de alças à camionista e elas bikinis e, claro está, todos eles devem calçar havaianas. Tudo em prol duma factura de energia com valores mais baixos.


2 – Como foi anunciado o Governo encolheu, tem menos Ministérios e um dos que desapareceu e foi substituído por uma Secretaria de Estado foi o da Cultura. Mau sinal, digo eu. Embora os dinheiros devam ser canalizados para sectores considerados prioritários (e a cultura não é seguramente um deles) é pelo menos preocupante que venha ser dada menor atenção às várias iniciativas culturais do país. Preocupação que se tornou ainda maior quando ficámos a saber que o Secretário de Estado da Cultura – Francisco José Viegas – é o único dos três Secretários de Estado que dependem do Primeiro-Ministro que não tem direito a assistir às reuniões do Conselho de Ministros. Não sendo uma desconsideração pelo Secretário de Estado (e acredito que não seja) por que é que a Cultura está impedida de se sentar na mesa do poder? Terão medo que ele fale mesmo sobre cultura ou será apenas para poupar o custo de uma cadeira?


sexta-feira, julho 15, 2011

“Derrapagens”

A notícia já nem surpreende mas, de qualquer forma, regista-se. Então não é que, em dois anos, quatro administradores dos Correios de Portugal (CTT) percorreram, nos carros que lhes estão atribuídos (três Audi e um Mercedes), o número total de quilómetros previstos para quatro anos?

Claro que não se põe em causa as necessidades absolutas de se deslocarem – em serviço – mais do que tinham previsto, tanto mais que a empresa (ou parte dela) faz parte do plano de privatizações anunciadas e, por isso, há muitas voltas a dar. Quando muito pode-se é questionar se o planeamento foi bem pensado.

E questiona-se, também, a razão que leva a empresa a suportar os 12 900 euros adicionais de combustível quando o regulamento interno dos CTT estabelece que os demais funcionários são obrigados a pagar do seu bolso sempre que a quilometragem permitida do seu carro de serviço é excedida.

E a pergunta parece óbvia, porque é que a aplicação das regras relativas a “derrapagens” (já que falamos de carros) é diferente quando se trata de administradores ou de outros empregados?


quinta-feira, julho 14, 2011

Sinais

Sempre achei que as palavras têm uma grande força, um significado próprio, que podem dar, se bem aplicadas, maior realce ao que se pretende transmitir. Quer as palavras ditas quer as escritas. Da mesma forma que em política os sinais dados pelos diversos agentes (no governo ou fora dele) constituem indícios, linhas de orientação daquilo que se propõem fazer. Bem ou mal.


Vem isto a propósito do recente anúncio do Primeiro-Ministro em reduzir ou terminar com certos privilégios que os membros do Governo têm tido até agora. Passos Coelho determinou, por exemplo, que os Ministros deixem de ter direito a carro para uso pessoal (fins-de-semana ou deslocações privadas) e que acabem os cartões de crédito para despesas de representação. Como já tinha decidido, também, que os membros do Governo iam começar a utilizar a classe económica em viagens aéreas dentro da Europa.


Para muitos, medidas como estas não passam de pura demagogia. Para outros, elas são perfeitamente inúteis já que não nos vão tirar da situação difícil em que nos encontramos. Mas, lá está, são os tais sinais (espero que estes sejam bons), que vêm ao encontro de uma vontade que a todos nós assiste há muito. Que o exemplo venha de cima, como que a transmitir que não são apenas os do costume a suportar todos os sacrifícios.


terça-feira, julho 12, 2011

Palíndromo, Tautologia e Cª. Lda.



Ah pois é. A língua portuguesa é tão complexa que, às vezes (muitas vezes), nos deixa completamente boquiabertos.


Eu que sei quase tudo, confesso que não fazia a mínima ideia que houvesse um palíndromo nem, tão-pouco, uma tautologia, termos que, à primeira vista, parecem-me coisas do período paleolítico ou quejando.


De qualquer forma e por via das dúvidas consultei o dicionário e lá estavam as duas palavras - altaneiras, vivas e resplandecentes - como que a troçar da minha cara à banda por tamanha ignorância. Especificando …


Palíndromo – Adjectivo – Diz-se da palavra ou da frase em que o sentido é o mesmo, quer se leia da esquerda para a direita quer da direita para a esquerda.
Exemplos de palavras:
OVO – OSSO – RADAR
De frases:
A DROGA DA GORDA
A TORRE DA DERROTA
O GALO AMA O LAGO
Resumindo um palíndromo é uma palavra ou uma frase que se lê da mesma maneira da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda.

Já a Tautologia é um substantivo feminino que significa a repetição inútil da mesma ideia.
Exemplos:
Subir para cima
Acabamento final
Todos foram unânimes
Criação nova
Ou seja, repetições que são perfeitamente dispensáveis.

Bem, por hoje o caldo de cultura está dado. Fiquemo-nos, então, por aqui antes que haja uma “surpresa inesperada”.
Ohps!!! Será que existirá alguma surpresa esperada?


segunda-feira, julho 11, 2011

Somos LIXO ?????????????????


Bem sei que o comentário feito pelo José ao post publicado na última sexta-feira se integrava num outro contexto, mas à sua pergunta “Unanimidade é coisa que exista?” quase que sou obrigado a responder que sim, que existe, pelo menos em relação à reacção portuguesa e europeia à descida do rating de Portugal para uma categoria considerada "lixo". Classificação essa que nos deixou muito abalados. Ninguém gostou que nos considerassem LIXO! Aliás, esta foi, indiscutivelmente, a palavra mais utilizada na semana passada e, quem sabe, se não será a que mais peso terá nos próximos tempos em Portugal e lá fora.

Na verdade, foi violenta a reacção da maioria dos políticos, dos economistas e da generalidade das pessoas ao considerarem que se tratou de uma medida injustificada face aos compromissos que assumimos com a troika e face às medidas duras já anunciadas pelo recém-empossado governo com maioria parlamentar. Para a maioria dos cidadãos, houve arrogância e análise superficial e ignorante por parte da agência de notação.

Pode até ter havido todas essas coisas mas o que, quanto a mim, está por detrás de tudo isto são os interesses (os ganhos) dos clientes destas agências (e delas próprias) que assentam num princípio bem definido “quanto mais um país e as suas grandes empresas correrem o risco de não pagar, mais estes senhores ganham”. Como disse José Gomes Ferreira num comentário recente “só os ingénuos é que podem pensar que estas descidas de rating têm a ver com critérios puramente técnicos”. Portanto, e sejamos claros, existe especulação pura e dura. Isto, claro está, para além da guerra suja entre o euro e o dólar, em que o primeiro se valoriza consistentemente em relação à moeda americana e, portanto, há que, de uma vez por todas, dar cabo do euro através da liquidação dos alvos mais fáceis, para já a Grécia, a Irlanda e Portugal. E não julguem que estou para aqui a magicar uma teoria da conspiração, porque ela – a conspiração - existe mesmo.

No meio da tormenta, em que parece que toda a gente anda enjoada mas onde ninguém toma medidas, houve uma acção levada a cabo pela agência de publicidade BBDO Portugal a que achei imensa piada. Em protesto contra o corte de notação que nos classificou em “lixo”, os criativos da BBDO encheram um saco de lixo verdadeiro e enviaram-no pelos correios para a sede da Moody’s, nos Estados Unidos. Todo o processo foi gravado em vídeo que está disponível no YouTube - http://www.youtube.com/watch?v=Y3hnH1ezHzY – que é acompanhado pela música 'Fuck You', de Cee Lo Green. Uma nota final para a última imagem do vídeo. Uma frase, uma mensagem bem conseguida, em minha opinião:

“Working to improve our rating

Assinada: Portugal”

sexta-feira, julho 08, 2011

Nada me faltará

Penso que todos, e de todos os quadrantes políticos, são unânimes na admiração que tinham por Maria José Nogueira Pinto. Sempre a considerei uma mulher íntegra e de convicções que, independentemente das ideologias, lutava por aquilo em que acreditava. Ela morreu. Presto-lhe uma singela homenagem transcrevendo a última crónica que escreveu, publicada no Diário de Notícias. Uma crónica de grande dignidade e coragem:


“Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.”


quinta-feira, julho 07, 2011

Uma idosa teve direito a um acréscimo de 1 euro por mês na sua pensão

A história que vos recordo hoje, está na ordem do dia e só prova, a quem dúvidas tivesse, que o Estado é pessoa de bem. Conta-se em duas palavras.


Joana Sampaio é uma senhora de 88 anos que vive na freguesia de Delães, perto da Marinha Grande. Por ter toda a vida trabalhado na agricultura recebe agora uma merecida e generosa pensão de … 299 euros. Mas a Segurança Social, sempre atenta, informou a senhora que teria direito a receber o chamado Complemento Solidário de Reforma, bastando para isso que iniciasse um processo de candidatura que devia incluir as declarações de IRS dos seus seis filhos. Nada mais fácil, pois, para poder acrescentar aos seus rendimentos o simpático montante de 1 (um) euro. Leram bem, a D. Joana poderia assim, de um momento para o outro, receber de mão beijada e sob sugestão da própria Segurança Social, mais 1 euro todos os meses. Mas …


Como em outras histórias, esta também tem um lamentável mas. Como se não fosse, já de si, ridícula a verba atribuída, a Segurança Social só efectuará o pagamento quando o valor atingir um mínimo de cinco euros. Quer dizer, de cinco em cinco meses vai ser enviado um chorudo cheque de 5 euros. Uma fortuna. Se bem que, após ter iniciado o processo de candidatura, em Fevereiro de 2008, ainda não tivesse recebido qualquer cheque. Quer dizer, regras são regras mas o raio das burocracias às vezes tem destes imponderáveis.


De qualquer forma, apraz-me registar duas coisas: a primeira é que, como já referi, o Estado, mesmo em contenção, não esquece os seus cidadãos e, a outra, é que o mesmo Estado está atento aos exageros que os cidadãos cometem quando o dinheiro abunda. Daí que dê mas parcimoniosamente. Como neste caso, em que algum responsável de pacotilha deve ter pensado: “D . Joana tome lá mais um euro por mês mas cuidado, não se alambaze”.


quarta-feira, julho 06, 2011

As falsas receitas médicas

Há dias quando conversava com um médico amigo falei-lhe, à laia de provocação, no caso das falsas receitas médicas, do crime de milhões de euros que está ainda a ser investigado. Ele não me deu grande saída, disse que em relação às vinhetas elas são facilmente falsificáveis mas percebi que a situação não lhe era confortável porque toda a classe médica estava sob suspeita, ele incluído.

Sobre a fraude em si mesma espero que os peritos consigam chegar a conclusões mas, como cidadão, não posso deixar de me espantar com a inexistência de controlos ou, a existirem com a sua falta de eficácia que permite que aconteçam coisas absolutamente extraordinárias, como por exemplo, a de um só médico ter passado 2400 receitas por mês, ou seja, 120 por cada dia útil, num total de 32 mil por ano.

Falha de controlo essa que admite também que médicos partilhem o mesmo número de cédula profissional, ou que médicos tenham 3 cédulas profissionais com números diferentes ou, ainda, que médicos que já morreram continuem a passar receitas. E o que dizer das vendas de medicamentos fictícias a doentes já falecidos?

Um conjunto de ilegalidades que levam a que, só em 2010, a fraude tenha atingido nada menos do que 40% da despesa do Estado com medicamentos. É obra.

Mas se não pretendo usar a ironia para realçar a magnífica performance de um médico que, só à sua conta, consegue prescrever 120 receitas por dia nem para me dizer perfeitamente atónito com a capacidade de clínicos já falecidos que continuam a passar receitas, quero, todavia, manifestar a minha mais profunda indignação por constatar que este tipo de fraudes continua a verificar-se apesar da existência de sistemas informáticos sofisticados. Até quando?

terça-feira, julho 05, 2011

Uma alforreca chamada Passos



Acredito que todos saibam o que é uma alforreca. O que não sei é se saberão quem é João Gonçalves, o actual adjunto político de Miguel Relvas, o Ministro dos Assuntos Parlamentares. Eu não sabia, confesso.

Pois João Gonçalves é o autor de um blogue muito conhecido que escreve umas coisas um tanto ou quanto “inconvenientes” e que lhe poderiam causar alguns amargos de boca. Neste caso, porém, não se deu mal.

Vejamos, então, alguns dos comentários (que transcrevo do Expresso desta semana) que fez sobre o actual Primeiro-Ministro:

Quando há nove meses Passos Coelho apresentou uma proposta de revisão constitucional, João Gonçalves escreveu: “Insensível ao curso da realidade, tal qual uma alforreca perdida com a mudança das marés e das correntes. Passos deu à costa com um tema perfeitamente escusado, mal explicado e sem o menor interesse. Passos já vai na terceira ou quarta oportunidade e ainda não conseguiu uma primeira boa impressão. Palpita-me que tem um lindo futuro atrás dele”.
Em 2010, depois de ver uma entrevista de Passos Coelho à RTP, Gonçalves desabafava: “dói-me a tola. Passos provoca enxaqueca porque aquilo é Sócrates sem os anos de palco que Sócrates leva … oscila entre o velho cacique da jota e o antigo candidato à Câmara da Amadora, numa gravitas que cheira a falso”.
Numa outra entrevista em Dezembro de 2009, comentou: “Reparem na clareza dos lugares-comuns facilmente parafraseáveis por um qualquer Secretário de Estado da nomenclatura de Sócrates. Reparem na subtileza digna de um mediano treinador de futebol”.

Ao longo dos tempos, João Gonçalves foi bastante agressivo com Pedro Passos Coelho e com o próprio Miguel Relvas, de quem agora depende. Mas a verdade é que a vida dá muitas voltas e os “encontrões” que Passos Coelho levou do bloguista parecem não o ter ofendido, nem sequer quando lhe chamou alforreca. Afinal as alforrecas vivem no mar e Portugal é um país de marinheiros …