segunda-feira, janeiro 23, 2012

As falhas da nossa democracia



Quero crer que entre a questão suscitada em tempos pela Dra. Manuela Ferreira Leite – “não seria bom haver seis meses sem democracia?” – e a perda efectiva da democracia nada há em comum. Porém, a simples admissão da possibilidade de tal acontecer, assusta-me.


E se calhar tenho alguma razão para ficar apreensivo. É que, de acordo com a edição 2011 do Índice de Democracia da revista do “The Economist” – Portugal deixou de ser uma democracia plena. O nosso país baixou para o 27º lugar, numa lista liderada pela Noruega, seguida da Islândia, Dinamarca e Suécia e imediatamente atrás de Cabo Verde, a mais perfeita das Democracias com Falhas.


Seria bom reflectirmos seriamente sobre o assunto. É que as democracias e as suas regras têm que ser continuamente melhoradas e sustentadas para que não tenham que vir a ser suspensas e, muito menos, substituídas por outros regimes muitíssimo menos favoráveis ao povo. E nós temos memória de uma realidade ainda recente e do que isso representa.


quarta-feira, janeiro 18, 2012

Troque papel por alimentos



A marca “Banco Alimentar” é hoje reconhecida por todos pela sua credibilidade e pela acção sustentada que tem desenvolvido ao longo de mais de duas décadas a favor dos mais carenciados. Ainda na edição do Expresso de23 de Dezembro último, das personalidades conhecidas e respeitadas que constituem “O Conselho dos Doze”, à pergunta “Qual a instituição de Apoio Social a Apoiar”, cinco apontaram o Banco Alimentar e um a Entrajuda (Instituição da esfera do BA).


Mas para que tudo funcione bem é necessário que haja muito trabalho, dedicação e uma grande dose de criatividade. Assim, e face às grandes dificuldades que se prevêem para este ano, nomeadamente a escassez de alimentos doados ao BA, a Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome lançou mais uma campanha: a “troca de papel por alimentos”. A população em geral, a administração pública e local e as instituições de solidariedade são convidadas a entregar papel (jornais, revistas, folhetos, cartão, etc.) nos bancos alimentares. Por cada tonelada recebida, a Quima – empresa de recolha e recuperação de desperdícios – vai entregar ao Banco Alimentar 100 euros em alimentos indicados pela Federação dos Bancos Alimentares.


O slogan desta campanha é claro “O seu papel é essencial na luta contra a fome”. Vamos ajudar?


terça-feira, janeiro 17, 2012

Os Pastéis (de Belém) do Álvaro



A ideia do Ministro da Economia foi brilhante. Finalmente apareceu alguém que pensou “mas que raio de coisa é que nós podemos fazer para vender lá fora e que toda a rapaziada goste?” E a resposta foi: “Pastéis de Belém”.
E vai daí, como bom exemplo da internacionalização da economia nacional, Álvaro Santos Pereira logo afirmou que o Pastel de Belém poderia ser a salvação do país. Só não referiu, mas o “Por Linhas Tortas” sabe, que para eliminar o défice externo, a fábrica de Belém teria que exportar só este ano 2,6 mil milhões de pastéis.

Bem, a ideia foi lançada (o que já é um começo) mas conhece-se já a reacção da Fábrica dos Pastéis de Belém à ideia do Ministro. Não, por ora não está para aí virada. Pensa em expandir-se mas lá mais para a frente. Portanto, e para já, o país não vai ser salvo por esta via.

Quem adorou esta decisão foi a minha sogra. É que com tanta produção que teria que levar a cabo para enviar os pastéis para o estrangeiro, ela receou que a Fábrica não conseguisse assegurar a venda por cá e eles começassem a faltar. Não sei se lhes disse, a minha sogra gosta tanto de pastéis de Belém que até os seus olhos sorriem quando se fala neles.



segunda-feira, janeiro 16, 2012

“As acções ficam com quem as pratica”













Se calhar vão achar que estou a embirrar outra vez com o Dr. Eduardo Catroga mas não é, de todo, verdade. É certo que na última quarta-feira disse aqui que a proposta da sua nomeação para Presidente do Conselho Geral de Supervisão da EDP me pareceu o “pagamento” da sua dedicação ao PSD (ele que nem é filiado no partido), uma espécie de prémio de carreira. Mas o que me incomodou mesmo neste processo foi o facto de ele ir ganhar um ordenado mensal superior a 45 mil euros que acumula com uma pensão de mais de 9600 euros. E incomodou-me também – e principalmente - a arrogância que evidenciou ao defender que isso se deve ao seu valor de mercado e que, ganhando mais, pagará mais impostos. Conversa! Foi uma cena grotesca e triste.


Ao invés de Catroga, o banqueiro português António Horta Osório, presidente do colosso britânico Lloyds Bank, não quis ganhar ainda mais ao muito que já factura. Invocando a ausência a que foi obrigado por dois meses de doença, abdicou do bónus de 2,3 milhões de euros a que tinha direito. E podem até dizer que a Horta Osório nem lhe fazem falta aqueles trocos de 2,3 milhões e que não foi grande o sacrifício. Pois é, mas podia perfeitamente embolsá-los que ninguém lhe atiraria pedras.


As comparações são inevitáveis e, inevitavelmente, acabamos por pensar no velho adágio “as acções ficam com quem as pratica”. O pior, porém, é continuarmos a assistir ao despudor e ao clientelismo a que, infelizmente, os vários governos nos habituaram.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Para além dos aventais da Maçonaria

Acho ridículo que os políticos tenham que declarar se pertencem ou não à Maçonaria. Aliás, a discussão dos últimos dias sobre esta matéria apenas serviu, na minha opinião, para nos distrair dos assuntos que são verdadeiramente importantes para a vida do país e de todos nós.


Não se tratando de uma actividade ilegal nem, supostamente, de uma organização onde se traficam influências, não percebo porque carga de água é que os maçons têm que apresentar uma declaração de interesses da sua qualidade de maçons. E o que dizer em relação aos membros do Lions, aos sócios do Benfica, aos possuidores do Cartão Continente e aos dadores de sangue, entre outros? Os políticos também vão ser obrigados a declarar tais preferências e adesões?


Tirando as piadas que circulam por aí sobre a Maçonaria – os rituais, os aventais e outros que tais - acho completamente despropositada tanta agitação. E, sobre essa suposta obrigatoriedade, concordo em absoluto com o comentário que ouvi a Manuel Alegre: "Acho isso um atentado à Constituição e acho uma recidiva salazarenta muito triste para a nossa democracia".


E concordo com esta afirmação numa dupla qualidade: não sou maçom e, como cidadão, é-me absolutamente indiferente saber se determinada personagem faz ou não faz parte da Maçonaria. Preocupa-me muito mais que a Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, tenha dado a entender que pode vir a haver legislação que exija às pessoas a indicação da sua filiação maçónica. Legislação, aliás, que é bem capaz de vir a ser considerada inconstitucional por ferir o espírito do artigo 41 da Constituição Portuguesa.


E sabem o que essa eventual obrigatoriedade me lembra? A célebre “Declaração 27003”, nascida em 1936, que obrigava os candidatos à função pública a jurar: “Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933 com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”. Ainda que os mesmos aspirantes a um emprego no Estado, fossem os comunistas mais convictos.


quinta-feira, janeiro 12, 2012

Acabe-se a hemodiálise para os septuagenários que não tenham dinheiro



Quando no programa “Contra Corrente”, transmitido na SIC Notícias da última terça-feira, Manuela Ferreira Leite defendeu que um doente com mais de 70 anos deve ter direito à hemodiálise “se pagar”, tenho a certeza que a maioria das pessoas ficou chocada.


No entanto, e tendo em conta que a Dr.ª. Manuela nem sempre é feliz quando fala, quero acreditar que o que ela queria realmente dizer é que os doentes com mais de 70 anos e que tenham rendimentos acima de um montante a determinar vão ter que pagar o tratamento de hemodiálise.


Ideologias e “economicisses” à parte, acho que ninguém pretende que os septuagenários (ou sexagenários ou quaisquer outros “genários”) com poucos recursos tenham que abdicar do tratamento de que necessitam. É que, recordo, um doente renal sem tratamento morre em poucos dias.


Não era isso que queria dizer, pois não Dr.ª?


quarta-feira, janeiro 11, 2012

Catroga e Cª.

É penoso voltar, ciclicamente, a factos que já vimos noutros ciclos políticos. É desinteressante, é cansativo e é injusto para as pessoas que, como eu, cidadãos comuns, estamos longe dos jogos de poder e não temos capacidade de intervir, a não ser pelo comentário de café ou pela crónica escrita num blogue. Resta-nos a resignação de poder exprimir as nossas razões de quatro em quatro anos, aquilo a que vulgarmente chamamos o charme da liberdade de opinião. Em suma, pode-se reclamar à vontade que ninguém vai preso, mas não serve rigorosamente para nada.

Desta vez, refiro-me à notícia veiculada por toda a imprensa sobre os nomes de Eduardo Catroga, Celeste Cardona, Paulo Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo e Ilídio Pinho, propostos à Assembleia-Geral de accionistas para integrar o Conselho Geral de Supervisão da EDP. Todos estes nomes estão ligados aos partidos que estão neste momento no poder. Exactamente da mesma maneira como no passado outros, de outros quadrantes fizeram.


Embora saiba que este Conselho Geral da EDP é um órgão que, desde que foi criado, sempre se destinou à colocação dos “boys”, porque razão é que esta proposta me incomodou tanto, agora que a parte da EDP que era do Estado foi vendida? E a resposta é simples. A falta de ética mexe sempre comigo.


Acho inaceitável esta contínua dança de cadeiras. Pois é, dirão, mas são os accionistas que decidem a gestão da sua empresa e os nomes que querem ver nomeados para os representar. Têm toda a razão. Mas, mesmo assim, existem aspectos que não consigo admitir. Nomeadamente o facto de Eduardo Catroga que até já era conselheiro e que vai ser promovido a conselheiro-mor, ir auferir um ordenado mensal superior a 45 mil euros que irá acumular com uma pensão de mais de 9600 euros. É escandaloso! Sobretudo neste país em risco de ir ao fundo e onde a esmagadora maioria dos portugueses mal consegue sobreviver. Parece uma afronta.


Mas se são os accionistas que devem tomar essas decisões, seria bom não esquecer que somos nós, consumidores, que pagamos – e de que maneira – a factura da Companhia. O que nos leva a questionar se – tirando o valor do consumo da electricidade propriamente dita – não estaremos também a contribuir para tantos vencimentos milionários.


Mas há ainda um pequeno detalhe que me incomodou muito. É que Catroga – e é aqui que a ética entra em acção – esteve envolvido nas negociações com a troika, de que resultou a venda da participação do Estado na EDP aos chineses. Portanto …


Pensava eu que os clientelismos partidários nestas matérias se tinham quedado pelos tempos de Ferreira do Amaral e de Jorge Coelho. Puro engano. Acho que tive mais um ataque de ingenuidade.

terça-feira, janeiro 10, 2012

As Iluminações de Natal



Para quem escreve regularmente, as férias, por pequenas que sejam, fazem com que, muitas vezes, haja a necessidade de voltarmos a assuntos que deveríamos ter tratado justamente nesses dias de férias. Pois bem, acabados que estão os votos de Feliz Natal mas não os de Bom Ano (que continuam por mais uns dias), gostaria, ainda, de abordar o tema da polémica falta de iluminação de Natal em Lisboa, mas não só. Sobretudo para constatar o facto de que algumas autarquias decidiram não gastar o dinheirão que habitualmente alimenta as iluminações da quadra natalícia, coisa que não agradou a toda a gente. Na capital, houve pessoas que reclamaram, por exemplo, que para pouparem uns míseros 700 mil euros acabaram com a única alegria que era acessível aos mais pobres. Para eles, sem iluminação não havia Natal.

Lembram-se da história do velho, do rapaz e do burro? Pois é, faça-se o que se fizer, há-de sempre haver quem critique.

E se é verdade que o colorido das luzes alegra a alma de muita gente, também é verdade que a crise impõe cortes nas despesas, a começar naquelas que não são de todo fundamentais. Cortes que foram parciais nalguns casos mas totais noutros, sendo as verbas poupadas deslocalizadas para suprir necessidades mais urgentes e dar apoio aos mais necessitados. Câmaras como as de Évora ou Portalegre, por exemplo, canalizaram as verbas destinadas às luzes para ajudar famílias carenciadas. E há mais autarquias a fazer o mesmo.

Faltaram as iluminações, é verdade, e pôde até parecer que nem estávamos no Natal. Mas a poupança foi significativa e, acho eu, necessária. Enquanto em 2010 as 18 capitais de Distrito do Continente gastaram cerca de milhão e meio de euros nas luzinhas, em 2011 os enfeites natalícios custaram “apenas” 466 mil euros. Só o Município de Lisboa poupou à volta de 80% relativamente ao ano anterior.

Hoje vivem-se novos tempos e os hábitos enraizados tendem a alterar-se. Mas isso não é um drama. Como dizia o António Vitorino “Habituem-se …”


segunda-feira, janeiro 09, 2012

Indignação



Volto ao trabalho da pior forma - REVOLTADO. E não há nada que me aborreça mais do que começar um novo ano com este sentimento. Para que conste, o caso de tamanha revolta nem sequer me atinge, nem aos meus mais chegados. Mesmo assim, quero manifestar publicamente a minha indignação.


Vai haver corte nas pensões. A ser verdade (e parece que é) e a ir para a frente (e parece que vai) esta medida aprovada pelo Governo vai penalizar seriamente os cerca de 15 mil pensionistas que receberam carta da Segurança Social a informá-los que vão cortar parte das suas pensões já a partir deste mês. Trata-se de pessoas que acumulam pensões da Caixa Geral de Aposentações e da Segurança Social ou provenientes de trabalho realizado no Estrangeiro, mas cuja soma, em muitos casos, não chega aos 600 euros.


Repito e sublinho que se trata de pessoas e que estas pessoas, mesmo acumulando várias reformas, não conseguem ganhar mais de 600 euros mensais. E, já agora, acrescento que para conseguirem estas “reformas milionárias” ao fim de muitos anos de trabalho, estes pensionistas fizeram descontos nos (magros) salários que foram auferindo.


Ouvi há dias o Ministro Pedro Mota Soares explicar que só agora conseguiram cruzar os dados dos vários sistemas e que, por isso, só agora podem aplicar uma lei que foi aprovada em 2007. Claro que não me convenceu. Se a lei aprovada na Assembleia da República por uma maioria absoluta é, agora, considerada injusta porque vai atingir milhares de desfavorecidos, precisamente aqueles que não têm possibilidade de reivindicar o que quer que seja, a maioria absoluta agora no poder tem toda a legitimidade para voltar atrás e fazer justiça.


A desculpa de que apenas estão a dar cumprimento a uma lei já aprovada é demasiado simplória. A ser assim, teríamos que pensar em iniciar rapidamente as obras do TGV e do novo aeroporto de Lisboa. E ninguém acredita que isso aconteça.


O mais certo é que na base desta decisão haja critérios justificadíssimos que desconheço e que não foram explicados. Mas ainda que a eles assista alguma razão de natureza financeira (ou outra), continuo a estar indignado por saber que, uma vez mais, o castigo vai desabar em cima desta franja da população que já está tão debilitada.


sábado, dezembro 31, 2011

Bom Ano Novo



Dentro de poucas horas passaremos de 2011 para 2012. O engraçado é que, teoricamente, tudo continuará igual. A diferença, a pequena e subtil diferença é que quando o relógio nos avisar que é meia-noite do dia 31 de Dezembro de 2011 teremos, a partir daí, um outro ano - INTEIRO - pela frente! Um ano novinho em folha!


E vai ser um ano e tanto, em que tudo vai aumentar: o desemprego, as taxas moderadoras, a água, a luz, as comunicações, os transportes públicos, as portagens, as rendas, o IVA, eu sei lá que mais, e, também, o próprio ano aumenta porque tem mais um dia. É verdade, 2012 vai ser um ano bissexto.


Mas vai ser um bom ano. Provavelmente quando chegarmos a 31 de Dezembro de 2012 – daqui a um ano – vamos ter saudades dele porque em 2013 os sacrifícios pedidos provavelmente ainda vão ser maiores.


A terminar, e a propósito da compra de parte de capital da EDP pelos chineses, um toque de bom humor, como sinal de esperança para os próximos 366 dias:


“A paltil de Janeilo pala sua maiol comodidade pague as fatulas da EDP - ELETLECIDADE DE POLTUGAL num dos muitos milhales de postos de coblança existentes no Pais ... A LOJA DO CHINÊS MAIS PLÓXIMA!!!”

BOM ANO NOVO!


quarta-feira, dezembro 28, 2011

Hoje faço anos



Interrompo as férias natalícias, no dia do meu aniversário, para partilhar convosco um excerto de um pensamento do Nobel da Literatura, o alemão (naturalizado suíço) Hermann Hesse, que acho sábia e adequada:


“… para mim, a noção de pessoa velha ou nova só se aplica às pessoas vulgares. Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados são ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora são tristes ora alegres… A idade só perde valor quando quer fingir ser juventude…”


quarta-feira, dezembro 21, 2011

Boas Festas

Nesta época de festas,


Desejo-vos SAÚDE, PAZ e AMOR

... e que 2012 vos traga tudo de bom

BOAS FESTAS!

BOM ANO NOVO!


terça-feira, dezembro 20, 2011

O Natal não é ornamento

Mesmo em vésperas de Natal, nada melhor do que uma reflexão em forma de poema do poeta José Tolentino de Mendonça

"O Natal não é ornamento"

"O Natal não é ornamento: é fermento

É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará
O Natal não é ornamento"

segunda-feira, dezembro 19, 2011

“Ou se põem finos ou …”



Quando vi na televisão a notícia de que um vice-presidente da bancada do PS, Pedro Nuno Santos, afirmou que “Portugal devia marimbar-se para os credores”, julguei não ter percebido. Só depois de ter ouvido a repetição é que fiquei com a certeza que as palavras daquele senhor tinham sido exactamente aquelas. E mais disse, ”que o país deve suspender o pagamento da sua dívida para deixar as pernas dos banqueiros alemães a tremer”.


Inacreditável. É que este dirigente partidário pertence a um país que tem as suas contas descontroladas e que deve muito dinheiro ao exterior. Um país que teve que pedir a "ajuda" internacional e está, por isso, a ser fiscalizado ao pormenor e em permanência. Para cúmulo, trata-se de um dirigente de um partido que assinou o memorando de entendimento justamente com quem nos financiou e está a controlar-nos. Será que ele enlouqueceu?


Percebo que as declarações do dirigente socialista foram feitas durante um jantar com militantes do partido e que o calor partidário leva muitas vezes a dizer aquilo que não se quer ou não se pode. Mas há um limite que é ditado pelo bom senso. Fica-lhe bem dizer que “os interesses dos portugueses estão à frente do dos credores”. Pode até pensar, e isso é legítimo, que deveríamos, juntamente com outros países em dificuldades, tentar renegociar a dívida mas, convenhamos, o homem excedeu-se. Frases como “Estou a marimbar-me que nos chamem irresponsáveis. Temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e franceses. Essa bomba atómica é simplesmente não pagarmos”, ou “ os senhores ou se põem finos ou nós não pagamos” são, no mínimo, desajustadas.


Imagino como os banqueiros alemães terão ficado com as pernas a tremer ao saber da ameaça do deputado português: “ Ou se põem finos ou …”. Deu-me até um certo gozo pensar na aflição que sentiram e no movimento que, de imediato, se terá gerado.


Mas, perante o ridículo da situação (que não passa disso mesmo), o que se espera é que àquele dirigente lhe seja indicada a porta de saída. Porque, tal como ele mencionou, isto é como um jogo de póquer em que o bluff é uma arma. Mas nos jogos ganha-se e perde-se e ele, manifestamente, exagerou e perdeu esta jogada.


sexta-feira, dezembro 16, 2011

“A Secreta Viagem”

David Mourão-Ferreira (1927 – 1996) foi um escritor e poeta português. É considerado como um dos grandes poetas contemporâneos do século XX.

De David Mourão-Ferreira,
“A Secreta Viagem”



No barco sem ninguém, anónimo e vazio,

ficámos nós os dois, parados, de mão dada...

Como podem só dois governar um navio?

Melhor é desistir e não fazermos nada!


Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,

tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...

Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...

Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...


Aparentes senhores de um barco abandonado,

nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...

Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,

se justifica, enflora, a secreta viagem!


Agora sei que és tu quem me fora indicada.

O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.

— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,

a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!


quinta-feira, dezembro 15, 2011

Caricaturas à parte …


Na entrevista que concedeu ao programa Sociedade das Nações, da SIC Notícias, Pedro Passos Coelho afirmou “só o tempo pode mostrar se o acordo que saiu do último Conselho Europeu vai servir para aliviar a pressão dos mercados contra países com problemas de défice público ... não é com cimeiras que se resolvem os problemas da Europa …”


E é capaz de ter razão. Se calhar não vão ser as cimeiras que irão resolver os problemas. Seja como for, o que me preocupa mesmo é que o nosso presente (e provavelmente o futuro) está cada vez mais a parecer-se – ainda que de forma caricatural – com o desenho que a seguir publicamos. Infelizmente.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

“Óqueijo”



Sabendo, embora, que muitas das expressões que empregamos no nosso quotidiano são incorrectas ou inexistentes o facto é que continuamos a usá-las.

Como foi o caso de, nos tempos em que aprendi francês, sempre que deveria perguntar “moi?” ter-me habituado (na tentativa de ser espirituoso) a dizer “je?”. Até que na prova oral do exame do último ano do secundário, ter caído no mesmo erro (desta feita não quis ser engraçado) e respondi exactamente da mesma forma – “je?”. Perante o espanto do examinador, ainda por cima um francês de gema, consegui dizer-lhe, no melhor francês que sabia, que a minha resposta tinha sido uma “blague” e tudo acabou da melhor maneira. Para quem, perguntam? – a “je”, respondo!


Foi também o que aconteceu aquando de uma série televisiva dos tempos famosos do Herman, em que uma das personagens – interpretada por Lídia Franco - uma suposta condessa, afirmava sistematicamente “não me chame condensa que me põe tensa”. Então não é que, toda a minha gente apanhou o ar nasalado da Lídia Franco, que tinha uma graça incrível, e começou-se a dizer o condensa, como se fosse um bordão?


Já o OK entrou na nossa linguagem corrente provavelmente por via dos filmes norte-americanos. A partir de certa altura a utilização daquele termo tornou-se tão vulgar que quase não havia uma frase que se prezasse que não incorporasse o OK como elemento, sem o qual a frase não teria sentido. Pelo menos o sentido devido. Mas nós portugueses, quero dizer, alguns de nós, achámos que deveríamos aportuguesar o termo e, quer nas interrogações quer nas afirmações, começámos a utilizar não o conhecido OK, mas a versão lusitana de “óqueijo”. “Então, as coisas estão todas em ordem?”. “Tudo em cima, está tudo “óqueijo”.


Embora conscientes dos erros que vamos dizendo – sim porque este tipo de asneiras só muito raramente as cometemos na escrita – de vez em quanto lá saem. Fruto de alguma história que conhecemos, por que lhes achamos piada ou, simplesmente, por que sim.



terça-feira, dezembro 13, 2011

Ele há coisas que não lembram nem ao diabo …



É claro que as coisas acontecem. Mas há limites, caramba.


Calculem que, no Reino Unido, um português foi contratado para dirigir um sector de uma fábrica e, passado pouco tempo, foi despedido. Porquê? perguntarão. Por ser incompetente ou por não dominar bem a língua inglesa? Nada disso, o homem tinha as competências necessárias e até fala bem quatro línguas, incluindo a de Shakespeare. Então qual teria sido o motivo?


Ele foi dispensado “apenas” porque os 18 trabalhadores polacos que tinha a seu cargo não sabiam falar inglês nem mostraram a mínima vontade de aprender.


Vai daí, a direcção da fábrica inspirada, porventura, em Bertolt Brecht - "mude-se o povo se não se pode mudar o governo" (neste caso, mude-se o chefe se não se consegue convencer os operários) - decidiu afastar o português que dominava, como referi, fluentemente o inglês mas que, por razões que nem consigo imaginar, não falava uma língua tão óbvia e universal como o polaco.


Vejam de que tamanho seria o falatório se isto tivesse acontecido no nosso país?


segunda-feira, dezembro 12, 2011

A Cimeira que deixou tudo mais ou menos na mesma



Embora houvesse uma moderada esperança a verdade é que da cimeira da União Europeia, realizada nestes últimos dias, não saíram conclusões que esclarecessem qual virá a ser o futuro da zona euro e da própria Europa. Mesmo tendo em conta que existe interesse de todos os 27 membros em que a União Europeia continue, o facto é que “as vontades” de alguns estão a abalar a confiança na manutenção desta bonita ideia de uma Europa unida.


Quanto ao euro, tal como hoje existe, parece caminhar para o fim. Como escrevia a semana passada a The Economist, “depois dos países periféricos, os estragos da crise chegam ao epicentro da moeda única, com a Itália e a Espanha a darem os primeiros sinais”. E não ficará por aí, digo eu. É por isso que aquela revista dá apenas algumas semanas de vida ao euro. O que nos faz interrogar: e se o euro acabar? Afinal, há países que não estão no clube e continuam a pertencer à UE. Só que se o euro desaparecer os efeitos catastróficos, sobretudo para as economias mais débeis como a nossa, não se farão esperar.


Voltando à cimeira, apesar das esperanças de alguns, penso que no fundo, no fundo, ninguém acredita que a cimeira tenha resolvido qualquer problema estrutural do euro. E, por isso, todos os países do eurogrupo, a começar pelos mais frágeis, estão derrotados e condenados a optar entre as más e as péssimas soluções para gerirem as suas crises.

De concreto apenas se sabe qual foi a ementa que foi servida na quinta-feira quando se sentaram à mesa para o jantar de trabalho: sopa, bacalhau, bolo de chocolate e gelado. Petisco que, a julgar pelos resultados da cimeira, não foi suficientemente apreciado por todos os membros dos 27 países: um grupo de 17 “tinha ganho” uma nova "união de estabilidade orçamental" (mais uma expressão da nova linguagem), 9 vão ter que consultar os seus parlamentos e 1 (o Reino Unido) – o de sempre - ficou definitivamente de fora.

Curioso, porém, é notar que apesar das dúvidas sobre o futuro do euro e da Europa, há mais um país a aderir à União Europeia. A Croácia assinou agora em Bruxelas, o tratado de adesão e entrará em Julho de 2013. Isto se a Europa ainda existir.


quarta-feira, dezembro 07, 2011

Uma cena única e profundamente emocionante



Fiquei emocionado ao ver e ouvir a Ministra italiana do Trabalho a chorar em público, anunciando, com voz embargada, os sacrifícios que vão ser pedidos aos pensionistas.


Elsa Fornero, uma economista e académica, agora Ministra do Governo de Mário Monti, não conseguiu conter as lágrimas quando revelava as medidas neoliberais que vão tomar para tentar salvar a terceira maior economia da União Europeia. Emocionou-se e chorou. Provavelmente por pensar no que está para vir e como isso vai afectar os cidadãos. Mas sobretudo por saber que poderemos estar perante o princípio do fim de um estado social por que tanto lutámos e que constitui uma das maiores conquistas geracionais das últimas décadas. É que o estado social como nós conhecemos e nos habituámos está-se a desmoronar como um castelo de cartas.


Mesmo percebendo como esta Ministra está distante da política (daquela que os políticos dos últimos anos têm vindo a fazer, sem estratégias, sem ideologias e, principalmente, sem ética), aqueles minutos sofridos denotam uma sensibilidade que não pode deixar de nos tocar. É uma cena única e profundamente emocionante.


Para quem não assistiu, convido-os a aceder a


http://www.youtube.com/watch?v=cLN5tWK2v9w