quinta-feira, fevereiro 16, 2012

A obesidade física e mental



Percebo que a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil tenha ficado preocupada com o facto de apenas 2% das crianças até aos 10 anos consumirem fruta fresca diariamente. Mas já não entendo que dirijam a responsabilidade dessa lacuna exclusivamente ao consumo da chamada “fast-food”. Toda a gente sabe que as crianças e jovens têm um fascínio por esse tipo de comida e que têm dificuldade em resistir às batatas fritas, aos hambúrgueres e às pizas. Porém, o problema não se fica apenas pelo gosto da rapaziada.


Quanto a mim, existem duas outras questões, igualmente importantes, que têm que ser equacionadas. E ambas têm que ver com as famílias.


A primeira diz respeito ao dinheiro que se gasta com a compra da fruta. Não propriamente pelo preço da fruta em si, mas por que, depois de definidas as prioridades e tendo em conta os magros orçamentos, a fruta não é para muitas famílias um bem de primeiríssima necessidade.


A outra tem a ver com falta de informação de pais e educadores sobre o que deve ser uma alimentação saudável. Por mera desinformação, mas também por comodismo, é, para eles, muito mais fácil empurrar os seus meninos para os Mac’s que pululam por todo o lado do que confeccionar refeições simples, saudáveis e que até não são caras. Dar fruta aos miúdos – mesmo que eles estejam relutantes – nem é tão difícil assim. É só necessário ter imaginação e transformá-la em sumos, batidos, saladas, misturada nas sanduíches, nas espetadas, com queijo fresco, ou seja, devem explorar o consumo da fruta por forma a constituir um alimento mais variado e mais apetecível para as crianças.


E estes dois factores (falta de dinheiro e de informação), conjugados com o cansaço físico e mental e, muitas vezes, o desespero do dia-a-dia de quem tem a obrigação de orientar os jovens, fazem com que se chegue aos tais 2% de miúdos que comem fruta. E se a isto acrescentarmos as horas e horas que as crianças passam em frente dos televisores, dos computadores e das consolas, sem a assistência dos seus educadores, temos um quadro realmente preocupante de obesidade física mas também mental.



quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Talvez possamos fazer algo mais …



Mesmo sem vontade, lá voltamos de novo ao assunto: as notícias sobre a desgraça em que se encontra o nosso país não param. Só no último dia de Janeiro ficámos a saber, através do INE, que o investimento empresarial deverá ter caído 17% em 2011 e o mesmo poderá acontecer este ano. O mesmo INE informou que o índice de produção industrial diminuiu 8,7% em Dezembro em termos homólogos. Por sua vez o Eurostat, indica que Portugal chegou ao fim do ano passado com uma taxa de desemprego oficial de 13,6%, percentagem que é um novo recorde e que incluirá qualquer coisa como 800 mil desempregados. Como se vê, só boas notícias!


Mas se os políticos e as políticas não conseguem inverter esta descida aos infernos, por que não sermos nós um pouco mais intervenientes no dia-a-dia? Fazer pequenas coisas que talvez nos dessem resultados insignificantes mas que, mesmo assim, de alguma forma pudessem ajudar a criar ou a manter alguns postos de trabalho.


Do consumo de produtos portugueses já nem falo, a campanha está em marcha e espero bem que a nossa consciência cívica nos faça alinhar neste “proteccionismo” do que é nosso. Mas estou a lembrar-me, por exemplo, dos postos de portagens das auto-estradas que, para além das Via Verdes e dos meios de pagamento automáticos ainda têm um ou dois portageiros. Mesmo perdendo um pouco mais de tempo não será preferível utilizar aquele posto de trabalho … enquanto isso for possível?
E que tal não levantar os tabuleiros das mesas de algumas marcas conhecidas de restauração para ir arrumá-los nos carrinhos a eles destinados? Não por preguiça, já se vê, mas porque se todos se recusassem a isso, certamente que haveria necessidade de contratar umas tantas pessoas (mesmo a ganhar pouco) que, desta forma, poderiam assegurar o seu sustento. Ainda ontem almocei no H3 do Parque das Nações e vi muitos dos presentes a substituir os (eventuais) empregados destinados a essa função, mesmo sem que ninguém lhes tivesse pedido.
E por que não evitar as “caixas expresso” de certos hipermercados em que são os clientes a tratar de tudo sem intervenção de qualquer funcionário?


Dei apenas alguns exemplos de que me lembrei. Admito que os resultados não sejam por aí além. Se calhar, daqui a pouco, os portageiros acabarão, provavelmente os empregados dos restaurantes trabalharão ainda mais, dividindo-se entre a cozinha e o levantar das mesas e, nos hipers, o futuro passará pela presença única de caixas automáticas. Mas deixem-me ao menos sonhar que, através das nossas pequenas acções, possa existir um pouco mais de humanização (mais gente e menos tecnologia a substituí-la) e que seja possível ajudar quem, no momento, tem um emprego precário ou, simplesmente, está desempregado.


terça-feira, fevereiro 14, 2012

Sem … Paciência



Quando deveríamos estar muito preocupados com o que se está a passar na Grécia, quando um conhecido articulista do Financial Times escreveu um artigo de opinião que advoga que justamente a Grécia e, também, Portugal deveriam ir à falência, quando a gigantesca manifestação da CGTP do último fim-de-semana dever-nos-ia fazer reflectir, quando a montanha de preocupações não pára de aumentar e afecta cada vez mais as nossas vidas, o que é que abriu todos os noticiários de ontem das rádios e das televisões e foi o tema principal da internet? – A saída de Domingos Paciência de treinador do Sporting Club de Portugal.


Sabem bem que as minhas crónicas muito raramente abordam o tema futebol (embora eu goste de futebol) mas, hoje, não tive como fugir. Parece que o futebol é, de facto, a coisa mais importante que existe à face da terra. Ainda há dias os jornais (e não só os desportivos) comentavam os 208 mil euros que um jogador do FC Porto ganha mensalmente. Ontem foi a demissão de Domingos que deixou o país em transe. Chegado há meses ao clube, festejadíssimo, desejado como aquele que, finalmente, traria os títulos que têm andado fugidios, acaba por sair pelos maus resultados, dizem uns, por ter tido contactos com o FC do Porto para onde irá em breve, segundo outros.

Tirando a piada que correu célere “Primeiro o Governo tira-nos os feriados e agora o Sporting acaba com o(s) Domingos” digo-vos que não há “Paciência” para tanto. O país não é só isto, mas constato que muitos milhares de cidadãos andam total e sinceramente obcecados com a saída do treinador do clube leonino. Desnecessariamente, gastam tempo e energia. Porém, e ao mesmo tempo, erguem os olhos aos céus na esperança que o novo treinador que já foi designado - também ele, hoje, festejadíssimo e desejado - seja o Messias que lhes vai trazer os tais títulos.


segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Os lapsus linguae



Não, não é só por cá que tanto se fala na descontextualização do que dizem os políticos. Eles dizem coisas (eles vão dizendo sempre muitas coisas), toda a gente as ouve repetidas vezes mas, afinal, não foi bem isso que quiseram dizer. E, normalmente, a desculpa é que houve alguém que tirou as frases do contexto em que estavam inseridas. E lá vêm as notas do chefe de gabinete, dos líderes das bancadas parlamentares, dos assessores de imprensa e dos porta-vozes lestos a desmentir, a interpretar, a esclarecer e a desdizer.

Mas há também os lapsus linguae, provavelmente provocados pela falta de atenção de quem tinha a obrigação de ter um pouco mais cuidado com o que diz.

A senhora da fotografia é a secretária de Estado da saúde do governo francês, Nora Berra que, preocupada certamente pela vaga de frio que assola o seu país, sugeriu aos “mais vulneráveis”, incluindo os sem-abrigo, que evitassem sair de casa.

É que, às vezes, o frio enregela-nos as ideias.


sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Poema em Linha Recta

De Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), “Poema em Linha Recta”


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe. Todos eles príncipes na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos, mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Restos' Gourmet



Quem me conhece sabe da minha relutância em relação à chamada “nova cozinha” ou, “cozinha de autor”. Sem renegar a arte que lhe está subjacente e todo o trabalho, a cor e a organização do empratamento, as minhas desconfianças acabam por me fazer torcer o nariz sempre que aceito um novo desafio para ir a um restaurante que tem um “chef” a comandar a cozinha.


Vamos lá ver, já tenho tido surpresas. Já tenho apanhado manjares que fazem jus à fama com que os nomes dos restaurantes e dos “chefs” são anunciados. No entanto, mantenho as minhas dúvidas e sinto que não estou rendido a essas obras de arte, normalmente com nomes difíceis de pronunciar e que não fazemos a mínima ideia do que é que tratam.


Embora seja moderado no comer, continuo a gostar de pratos à antiga que dão por nomes plebeus como “cozido à portuguesa”, “arroz de cabidela”, feijoada à transmontana” ou carne do alguidar com migas”.


Mas afinal a moda dos “chefs” (e o que eles produzem) é uma mais-valia para a cozinha portuguesa? Será que a nossa cozinha tem um futuro promissor? Não sei. Mas sei que ouvi da boca de um “chef” muito conhecido na nossa praça a resposta à pergunta que formulei: “Não sei, tenho dúvidas. É que cada vez há mais “chefs” e menos cozinheiros”. Tirem as vossas conclusões.


Porém, para que não julguem que, apesar de tudo, eu não faço um esforço, reparem no prato que confeccionei há dias e que dediquei aos meus filhos. Tinha como restos do almoço, uns ovos mexidos e farinheira cozida, juntei-lhes umas rodelas de tomate, uma fatia de pão e umas bagas de uva e … VOILÁ!


Designação do Prato: RESTOS’ GOURMET
Composição:
Eggs em cama de cereais com bagas de uva, carpaccio de tomate e collis de farinheira
E o menu tinha assinatura: Chefs Responsáveis: PAIS’

É que a diferença está nos detalhes …


quarta-feira, fevereiro 08, 2012

A diskette que podia ter sido fatal …



Achei piada (e já vos conto porquê) a duas histórias que li recentemente na imprensa e que se resumem em poucas palavras. A primeira, tem a ver com o facto da Igreja Católica das Filipinas ter dado um endereço errado aos seus fiéis. A ideia era a de acompanhar, através da internet, a posse de um novo bispo. Mas o endereço que indicaram era a de um site pornográfico. Um engano de somenos…
A outra história aconteceu ao Comandante da Polícia Municipal de Coimbra que, cheio de boas intenções, enviou um e-mail de boas-festas aos colegas e a todos os funcionários da autarquia, cujo conteúdo, aparentemente inocente e normal, continha imagens de lindas meninas em trajes bastante reduzidos e algo desadequados ao espírito da quadra natalícia. Uma distracção que lhe custou um procedimento disciplinar.


E achei graça às histórias porque me lembrei de uma situação que me aconteceu há uns anos. Tinha finalizado durante a tarde a apresentação de uma acção de formação que iria dar nos dias seguintes no Porto a quadros directivos da minha empresa. Visionara várias vezes a diskette (ainda estávamos no tempo da pedra lascada) e quando acabei, arrumei-a na minha pasta. Tudo estava em ordem e saí do escritório.

Porém, e estas coisas acontecem, quando à noite, em casa, tive uma dúvida sobre os números que constavam num dos quadros da apresentação fui buscar a diskette e, surpresa das surpresas, o ficheiro que abri não tinha nada a ver com aquilo que tinha preparado. No ecrã só apareceram imagens que, no mínimo, eram muitíssimo ousadas.

Percebi, de imediato, que alguém tinha sabotado o meu trabalho. Não por malvadeza (acredito nisso) mas para me pregar uma partida, e de que tamanho. Calculem se eu só desse pela marosca quando estivesse na presença dos meus respeitáveis colegas, homens e senhoras.

Fiquei irritado, confesso. Mas a coisa foi descoberta a tempo, localizei o meu “divertido” (e irresponsável, neste caso) colega a quem mostrei cara feia e, hoje, recordo a situação como mais uma peripécia de percurso que agora me faz sorrir.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

A mão pesada da justiça



Ainda ontem aqui falei em fraudes sem castigo mas, para que não julguem que os nossos sistemas policial e de justiça andam adormecidos, reparem que nem sempre o crime compensa.

Pois é, um tribunal do Porto condenou um sem-abrigo a pagar 250 euros por - há dois anos - ter tentado roubar um polvo e um champô, produtos que não chegaram sequer a sair do supermercado onde se verificou a tentativa de furto. O homem foi apanhado pela segurança.
Ao que li, o acórdão refere explicitamente que produtos como polvos e champôs não são bens de primeira necessidade, pelo que, não houve outra alternativa que não fosse a condenação do sem-abrigo ao pagamento dos ditos 250 euros ou, em substituição, à pena de trabalho comunitário.

Longe de defender qualquer tipo de roubo, naturalmente, o que dá a sensação é que uma coisa é desbaratar o erário público, o dinheiro dos contribuintes e, para isso, sempre se arranja uma desculpa para não se aplicar uma sanção, outra, bem diferente, é roubar descaradamente um supermercado e levar produtos raros e caríssimos como um polvo ou um frasco de champô. E, para estes casos, a justiça tem – e bem – a mão pesada.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

"Lapsos" ou fraude?



Acho um tanto ou quanto exagerado tudo o que se escreveu e ouviu na comunicação social e nos blogues sobre uns eventuais “lapsos” de certas encomendas efectuadas pela Segurança Social. Parece, ao que dizem, que se encomendaram artigos a preços muito acima dos de mercado. E depois? Tanto barulho porque uns rolinhos de fita gomada que nas lojas estão à venda por três euros foram encomendados pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social por 29,6 euros? Ou porque outra entidade da Segurança Social encomendou um marcador preto por 54 euros e outro amarelo por 47,20?
Volto a perguntar: e depois? Afinal, com o que é que esta gente está preocupada? Com o simples facto dos objectos requisitados estarem a ser encomendados a preços muito acima do mercado e muitíssimo mais caros do que nós, comuns mortais sem poder negocial, compraríamos em qualquer hipermercado? Ou será por que se trata de dinheiro dos contribuintes que, uma vez mais, está a ser desbaratado?

Pois embora a Segurança Social tenha justificado o que aconteceu como um “lapso” o que eu acho é que não houve lapso algum. Sistematicamente, e ao longo dos tempos, o que se tem assistido é à falta de rigor na utilização dos dinheiros públicos, à incompetência (sem sanção) das pessoas que têm responsabilidades e à falta de controlo por parte de quem de direito. E eu chamo-lhe incompetência para não lhe chamar fraude.
Só no caso noticiado das fitas gomadas, pagou-se pelas 80 unidades 2 368,00 euros, mais 2 100,00 do que os preços normais. Multipliquem estas verbas por todas as encomendas de todos os serviços do Estado e pensem lá para onde vai o nosso dinheiro. Eu sei que tudo isto não passa de uma gota de água comparado com o que já “enterrámos” no BPN, mas mesmo assim.

Valerá a pena continuar a vociferar? Apesar de tudo acho que sim.


sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Comer pouco e devagar



Hoje trago-vos duas “receitas” que poderão ajudar a conseguir um espírito jovem até a uma idade avançada e a ter um peso corporal bastante mais saudável. E não se trata de mais uns estudos, dos muitos que nos chegam todos os dias. Então, quais as soluções propostas?

- Comer pouco poupa o celebro - Cientistas italianos descobriram que comer menos ajuda a manter a mente jovem. Uma dieta frugal pode preservar o celebro dos estragos da idade, já que desencadeia uma proteína que activa uma série de genes associados à longevidade, melhorando as capacidades cognitivas e de memória e diminuindo a agressividade e a tendência para ter Alzheimer;

- Comer devagar – Uma investigadora portuguesa, Júlia Galhardo, ganhou um prémio internacional ao descobrir que comer devagar faz diminuir significativamente o índice de massa corporal. Por outras palavras, comer devagar faz com que se fique saciado mais depressa e, portanto, não se ganhe peso.

Propositadamente não entrei em especificações técnicas de ambos os trabalhos. O que me pareceu mais relevante é que as conclusões a que chegaram são simples e do mais elementar bom senso. Terminada ainda há pouco uma época em que cometemos alguns excessos alimentares, é tempo de reatar (ou começar) as boas práticas, tendo em vista a nossa saúde. E seguindo um princípio básico: comer pouco e devagar.


quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Rodrigo Leão em concerto



Na última terça-feira assisti a um magnífico concerto de Rodrigo Leão no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Como de costume fiquei extasiado pela magia e sofisticação das suas composições. De resto, e para além da sua música de qualidade, Rodrigo Leão esteve muitíssimo bem acompanhado de um lote de músicos absolutamente excepcionais. E mesmo sendo todos eles muito bons, tenho que referir (porque os achei fantásticos) os nomes de Celina da Piedade (acordeão/metalofone e voz – e que voz), Viviena Tupikova (violino e teclado) e Carlos Tony Gomes no violoncelo.


Ao longo de hora e meia, Rodrigo Leão, os seus cinco músicos (já agora, e para que não cometa uma injustiça, indico o nome dos restantes dois músicos: Bruno Silva na viola de arco e João Eleutério na guitarra e metalofone) e ainda com a colaboração vocal de Lula Pena e de Miguel Filipe (em palco) e, em tela, o cantor australiano Scott Mathew e o novo talento brasileiro Thiago Petith encantaram os espectadores que encheram a sala do CCB.


Rodrigo Leão é um dos mais importantes compositores do nosso país. Acompanho-o desde “Os Sétima Legião” e os “Madredeus”. Desde sempre, em grupo ou na carreira a solo, sou admirador incondicional da música que compõe. Subscrevo o que vi escrito no programa de apresentação deste concerto: “uma música poderosamente evocativa, canções para as palavras que se trazem no pensamento e que só cada um de nós ouve”.


Uma nota final para vos dizer que, hoje, no meu blogue “Baú” http://www.bau.demascarenhas.blogspot.com/ publico um vídeo de Rodrigo Leão. Não percam.


quarta-feira, fevereiro 01, 2012

O sono



Há muitos anos que durmo mal. Pouco e mal. Deito-me tarde (muito tarde) e por regra acordo cedo. A minha média de horas de sono é bem inferior às oito horas recomendadas e não me queixo. Habituei-me de tal forma que acho que nem necessito de repousar mais, tanto mais que o corpo tem aguentado bem. Gosto de me deitar tarde e sempre achei que esse período em que quase todos repousam inspira-me à reflexão, à leitura e à escrita. Pelo menos enquanto o meu cérebro não reclama a almofada como aconchego.


Mas nunca imaginei que um estudo viesse a concluir que as pessoas que se deitam tarde têm tendência para ser mais inteligentes do que as outras.


Mas quem sou eu - um tipo normal, que nunca fui excepção para coisa alguma – para contrariar e me excluir dessa tese? Sim, provavelmente “os mais inteligentes deitam-se tarde”.


terça-feira, janeiro 31, 2012

O saneamento de um bom jornalista



Estava curioso para ver se os “Prós e Contras” da RTP 1 desta segunda-feira tinham já recuperado da (deprimente) emissão transmitida directamente de Luanda há duas semanas. O programa que tinha sido denominado “O Reencontro” foi, na minha opinião, demasiado mau e não sei se muitos tiveram estofo para aguentar até ao fim. Mas quem o conseguiu, assistiu a uma subserviência injustificável por parte dos portugueses convidados, por contrapartida de alguma sobranceria das personalidades angolanas presentes. Um programa em que as palavras dos portugueses foram convenientemente pensadas antes de serem proferidas não fosse o actual poder económico angolano pregar-nos alguma partida e ir assentar arraiais para outro lado.


Não gostei do que ouvi, não gostaram, porventura, muitos mais, mas isso não teve qualquer consequência. Quem também não gostou e teve a coragem de o dizer na crónica que assinava na Antena 1 foi o jornalista Pedro Rosa Mendes, um dos bons jornalistas que ainda existem em Portugal.


Mas as palavras que foram ditas por este jornalista (incómodo pela sua verticalidade, seriedade e talento) nessa sua (derradeira) crónica não devem ter agradado às elites portuguesa e angolana e o Pedro foi dispensado, ou melhor, foi saneado sem dó nem piedade ao jeito do autoritarismo de outros tempos, que a revolução ainda não conseguiu apagar.


Pode ter sido coincidência. Não acredito em bruxas, "pero que las hay..." .


segunda-feira, janeiro 30, 2012

A questão que mais nos preocupa neste momento: O que faz feliz uma galinha?



Antes que comecem a fazer juízos de valor, devo esclarecer que tenho o maior respeito pelos animais e penso – sinceramente – que os ditos têm todo o direito a terem as melhores condições de vida. Acho mesmo que devemos pugnar pelo bem-estar de todos os animais, mesmo por aqueles que servem apenas para serem abatidos para a alimentação humana.

Mas, às vezes, parece-me que se exagera um bocado. Não sei se sabiam mas desde o início do ano entrou em vigor uma directiva europeia que estabelece que cada galinha tem que ter, só para seu uso, um espaço mínimo de 750 cm² de superfície da gaiola, além de um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que lhes permitam satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais. Sem qualquer cinismo, digo que me parece bem tanta preocupação com o seu bem-estar. As galinhas precisam de espaço e de tranquilidade para pôr ovos.

Porém, e desculpem lá o meu desabafo, parece que não existem outras preocupações, se calhar bem mais graves, que afectam os cidadãos. Sei lá, estou a pensar, por exemplo, na forma como resolver o desemprego crescente, na fome que grassa por aí ou na degradação da vida das pessoas por essa Europa fora. E para o combate a estes flagelos não vejo que a Comissão Europeia tenha tantas preocupações como aconteceu agora em relação a estes desvalidos 47 milhões de galinhas europeias.

Como costumo dizer, uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa. O pior é que, a acrescer aos milhões de problemas que já tínhamos, com esta questão das galinhas-VIP, ficámos “debaixo de olho” da Comissão Europeia porque os galinheiros portugueses não oferecem as condições desejadas e estamos em risco de sofrer uma pesada multa.

Já sabíamos que os cidadãos nacionais andam aflitíssimos para se conseguirem aguentar, mas isso é um problema nosso. Agora, as galinhas portuguesas não andarem a ser bem tratadas, alto lá e pára o baile, Bruxelas apressou-se a manifestar a sua preocupação.

O que faz feliz uma galinha? Esta é a grande questão do momento.


sexta-feira, janeiro 27, 2012

E se Portugal pulasse por cima de dois anos?



Certamente que já ouviram falar da Samoa. Claro que sim, toda a gente sabe que a Samoa é um estado independente, um arquipélago que fica no Oceano Pacífico entre o Havai e a Nova Zelândia e que tem uma população à volta de 180 mil pessoas.


Mas o que talvez desconheçam é que há anos que os seus governantes andavam incomodados por causa das horas, por motivos meramente comerciais. Tinham as mesmas horas que a Costa Leste dos Estados Unidos mas estavam dessincronizados com o fuso horário da Austrália e da Nova Zelândia, os seus principais parceiros económicos. E vai daí, independente que é, fez uma coisa nunca vista: adiantou o calendário do dia 29 de Dezembro de 2011 para o dia 31. Ou seja, adiantou o relógio 24 horas e adormeceu numa quinta-feira para acordar directamente no sábado. Pura e simplesmente apagou do mapa a sexta-feira, dia 30 de Dezembro do ano que terminou há pouco.


E foi aí que me deu uma ideia. Lembrei-me que o Álvaro Santos Pereira, o Ministro da Economia, garantiu recentemente que “2012 marcará o fim da crise e será o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014”. E pensei, se a Samoa pulou 24 horas para ajustar o seu horário com o dos países com quem tem maior volume de negócios, por que não Portugal dar um pulo de dois anos para contornar a crise? Se conseguíssemos deixar para trás 2011 e acordássemos directamente em 2014, esquecendo “os anos horribiles” de 2012 e 2013, ficaríamos todos a ganhar, não é?


Bem, esqueçam, foi só uma ideia …


quinta-feira, janeiro 26, 2012

Poupem, Amigos



Têm-se ouvido ultimamente apelos para que os portugueses poupem mais. Dizem que é a única forma de assegurarem uma velhice tranquila pois, no futuro, as pensões de reforma não passarão de pensões de miséria. Mas, meus Amigos, esses apelos dirigem-se concretamente a quem? Os ricos não necessitam desse conselho. Para isso contam com consultores e gestores de conta e de fortunas, eles sabem sempre onde colocar o dinheiro e em que altura. Quanto aos pobres é melhor passar à frente, mal conseguem sobreviver às dificuldades crescentes e a palavra poupar é, para eles, um sonho longínquo, quando não uma provocação. Resta-nos a classe média, ou melhor, o que dela sobra. Desgastada por ser chamada a suportar sucessivos aumentos e insistentes impostos, mal se consegue aguentar à tona com o mínimo de dignidade e de esperança. E é com esses sentimentos que ainda vai conseguindo aforrar o pouco que lhe resta. E já lhe sobra muito pouco.


Ainda por cima, e para ajudar, o Estado não se cansa de aumentar os seus proventos sobre aquilo que conseguimos aforrar. Entre 2010 e 2011 a taxa liberatória sobre os depósitos a prazo e sobre outros produtos de poupança subiu de 20% para 21,5% e, mais recentemente, passou para os 25%. Por exemplo, quem constituiu um depósito a prazo em 2011 com vencimento este ano, terá que contar que um quarto do que possam render as suas poupanças será arrecadado pelo Estado.

Assim sendo, resta-me dizer-vos: vamos poupar Amigos. O Estado agradece.



quarta-feira, janeiro 25, 2012

“O penalty para a bancada”



Continua em marcha o movimento de indignação originado pelas palavras de Cavaco Silva sobre a “mísera” pensão de reforma que aufere. E a população irritou-se de tal maneira que muitos milhares de pessoas assinaram já uma petição online a pedir a demissão do Presidente da República uma vez que consideram as suas declarações como “uma falta de senso e de respeito para com os portugueses”.


Demissão? Penso que não será caso para tanto. Não é a primeira vez que Cavaco tem sido infeliz com os discursos que faz. E não será a última, por certo. Cavaco, sendo um político (que o é, embora insista que não) tem frequentemente comportamentos demasiado simplórios (não confundir com simples) e que muito têm a ver com as suas origens. Ele é, genuinamente, um provinciano (no pior dos sentidos) e, por isso, em muitas das coisas que diz, as ideias e a forma de se expressar não estão devidamente trabalhadas.


Perante a “revolta do povo”, Cavaco Silva veio a terreiro justificar-se. Diz que foi mal interpretado, que não quis dizer exactamente o que disse e que, de facto, o que pretendia era mostrar que está ao lado dos portugueses com quem compartilha as dificuldades. Pior a emenda do que o soneto. Por um lado, Cavaco disse rigorosamente aquilo que entendeu dizer e, por outro, ele não está (nem pode estar) ao lado dos portugueses porque os portugueses não têm o mesmo nível salarial do Presidente e as dificuldades duns e doutro são certamente muito diferentes. Até acredito que os dez mil euros que ele recebe não sejam suficientes para pagar as despesas e que, por isso, tenha que recorrer às suas poupanças, mas a verdade é que a esmagadora maioria dos cidadãos tem pensões de verdadeira miséria e quanto a poupanças, pura e simplesmente, elas não existem.


O Presidente Cavaco Silva foi, uma vez mais, inábil no discurso. Tal como quando se referiu às vacas que se sentiam deliciadas na ordenha ou quando afirmou que a sua mulher dependia dele porque só tinha 800 euros de reforma. Cavaco Silva esquece frequentemente de que é o Presidente da República e que, por isso, as suas palavras deveriam ser devidamente pensadas quando ditas. Se agora quis mostrar toda a solidariedade pelos portugueses afectados pelas medidas de austeridade e pelos sacrifícios, o certo é que não conseguiu atingir esse desiderato. Ficou-se pela intenção, quando muito. Foi aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa designou por “querer marcar um penalty para a baliza e a bola ter saído para a bancada”.


terça-feira, janeiro 24, 2012

As desigualdades acentuam-se



No passado dia 3 de Janeiro, o Jornal Económico On-line publicou uma notícia que dá conta que, de acordo com um estudo efectuado pela Comissão Europeia, entre os seis países da União Europeia mais afectados pela crise, Portugal foi aquele onde as medidas de austeridade exigiram um esforço financeiro aos pobres superior ao que foi pedido aos ricos. Mais, Portugal é também o país (deste lote de 6) que regista um dos maiores riscos de pobreza devido às medidas de consolidação orçamental, ultrapassando a barreira dos 20% da população em risco. E, sublinhe-se, este estudo não levou em consideração as medidas adoptadas pelo Governo PSD/CDS, pelo que a situação deverá ter-se agravado entretanto.


Esmiuçando mais os resultados das medidas de austeridade, chega-se à seguinte conclusão: Os 20% dos cidadãos mais pobres perderam 4,5% a 6% (até 9% para famílias com filhos) do rendimento, enquanto que os 20% com rendimentos mais elevados apenas perderam cerca de 3%. Isto são factos.


Perante a dureza e a injustiça de tamanha constatação, que dizer?


segunda-feira, janeiro 23, 2012

As falhas da nossa democracia



Quero crer que entre a questão suscitada em tempos pela Dra. Manuela Ferreira Leite – “não seria bom haver seis meses sem democracia?” – e a perda efectiva da democracia nada há em comum. Porém, a simples admissão da possibilidade de tal acontecer, assusta-me.


E se calhar tenho alguma razão para ficar apreensivo. É que, de acordo com a edição 2011 do Índice de Democracia da revista do “The Economist” – Portugal deixou de ser uma democracia plena. O nosso país baixou para o 27º lugar, numa lista liderada pela Noruega, seguida da Islândia, Dinamarca e Suécia e imediatamente atrás de Cabo Verde, a mais perfeita das Democracias com Falhas.


Seria bom reflectirmos seriamente sobre o assunto. É que as democracias e as suas regras têm que ser continuamente melhoradas e sustentadas para que não tenham que vir a ser suspensas e, muito menos, substituídas por outros regimes muitíssimo menos favoráveis ao povo. E nós temos memória de uma realidade ainda recente e do que isso representa.


quarta-feira, janeiro 18, 2012

Troque papel por alimentos



A marca “Banco Alimentar” é hoje reconhecida por todos pela sua credibilidade e pela acção sustentada que tem desenvolvido ao longo de mais de duas décadas a favor dos mais carenciados. Ainda na edição do Expresso de23 de Dezembro último, das personalidades conhecidas e respeitadas que constituem “O Conselho dos Doze”, à pergunta “Qual a instituição de Apoio Social a Apoiar”, cinco apontaram o Banco Alimentar e um a Entrajuda (Instituição da esfera do BA).


Mas para que tudo funcione bem é necessário que haja muito trabalho, dedicação e uma grande dose de criatividade. Assim, e face às grandes dificuldades que se prevêem para este ano, nomeadamente a escassez de alimentos doados ao BA, a Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome lançou mais uma campanha: a “troca de papel por alimentos”. A população em geral, a administração pública e local e as instituições de solidariedade são convidadas a entregar papel (jornais, revistas, folhetos, cartão, etc.) nos bancos alimentares. Por cada tonelada recebida, a Quima – empresa de recolha e recuperação de desperdícios – vai entregar ao Banco Alimentar 100 euros em alimentos indicados pela Federação dos Bancos Alimentares.


O slogan desta campanha é claro “O seu papel é essencial na luta contra a fome”. Vamos ajudar?