sexta-feira, março 09, 2012

Então, porquê?

Sempre me fizeram impressão as pessoas que persistem em cometer os mesmos erros apesar de saberem que isso acaba, inevitavelmente, por as magoar. Então, e as experiências anteriores mal-sucedidas e o sofrimento que tiveram não servem para arrepiar caminho, para alterar o que antes não resultou?

O mesmo acontece com a importância que se continua a dar às agências de rating, apesar dos estragos que elas têm provocado. Por acaso alguém esqueceu os sucessivos erros cometidos por essas entidades? Lembro-lhes alguns: A Fitch, a Moody’s e a Standard & Poor’s falharam, por exemplo, na avaliação da Enron (com um rating de “BBB+”, faliram seis meses depois) ou com a bancarrota da Islândia (com um confortável “A” e que pouco depois também faliu).

Para já não falar no gigantesco erro de avaliação do famoso (pelo que aconteceu depois) banco norte-americano Lehman Brothers que abriu falência quando uns meses antes as três agências o tinham premiado com um rating de “A+”.

Dizem que Fitch, a Moody's e a Standard & Poor's controlam 95% do Mercado e dizem também que são agentes indispensáveis para o equilíbrio do mesmo. Pode ser que sim. Mas continua a fazer-me muita impressão o facto de – face aos casos conhecidos de falta de ética profissional e dos clamorosos erros de avaliação – se continuar a dar demasiada importância ao que pensam estas companhias, cujos palpites fazem reagir de imediato os mercados e penalizam fortemente os Estados e os seus cidadãos. E a interrogação para qual não tenho resposta é a de sempre: Por que carga de água continuamos a dar ouvidos às empresas de rating?

quinta-feira, março 08, 2012

Conflito de gerações

Já ontem tinha aqui referido que é perigoso comentar ou aceitar como verdadeiras todas as histórias que são veiculadas pela net. Por isso, também não garanto que a história que hoje vos trago tenha alguma vez acontecido mas … conta-se que o médico inglês Ronald Gibson (ao que parece existe mesmo e é o senhor da fotografia), dissertando sobre conflitos de gerações, começou uma conferência citando quatro frases:

1 – A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, troça da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Hoje, os nossos filhos são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos seus pais e são simplesmente maus.

2 – Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.

3 – O nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.

4 – Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.

Depois de ter lido as quatro citações e perante a aprovação silenciosa dos espectadores, decidiu revelar a origem delas:

A primeira é de Sócrates – o filósofo grego - (470 - 399 a.C.).
A segunda é de Hesíodo – poeta grego - (720 a.C.).
A terceira é de um sacerdote (do ano 2000 a.C.).
E a quarta está escrita num vaso de argila com mais de 4000 anos que foi descoberto nas ruínas da Babilónia.

E o Dr. Ronald Gibson terminou esta curta palestra exclamando: “Fantástico! Não mudou nada! Pais e Mães acalmem-se, o mundo sempre foi assim.

Gerou-se, então, um profundo silêncio na sala.

quarta-feira, março 07, 2012

Se não há outro jeito …

Reproduzir textos que circulam pela net ou tecer comentários sobre os mesmos é altamente perigoso. Ainda assim, de quando vez, não consigo fugir à tentação de o fazer, sobretudo quando julgo descortinar alguma veracidade no que dizem. Sempre, no entanto, com a devida reserva.

Pois calculem que li há dias o desabafo de Mário Araújo Ribeiro, um conhecido Juiz-Conselheiro (jubilado) que dizia isto:

“Concluí que a minha filha desempregada e o meu filho dentista com falta de clientes - ambos divorciados - têm de intentar acções judiciais contra mim, para eu ser CONDENADO a pagar "alimentos (no sentido legal do termo) aos meus netos.
Porque, com uma sentença judicial, eu posso descontar essas despesas no IRS e, se ajudar voluntariamente, não posso”.

A ser verdade, dá que pensar.

terça-feira, março 06, 2012

A beleza de um edifício soterrado

Em finais do ano passado soube-se que o arquitecto português Eduardo Souto Moura foi contratado para conceber a central hidroeléctrica da barragem da Foz do rio Tua. O desafio será harmonizar a edificação com a paisagem do Douro Património da Humanidade. E esta é a primeira vez na história das barragens portuguesas que uma central de produção de energia terá a assinatura de um profissional de renome, contratado propositadamente para o efeito.

O que não se sabia, e eu li a notícia em vários jornais, é que o tal edifício vai ficar completamente debaixo de terra com oliveiras em cima. Isto é, soterrado.

A ser assim, e sem que se consiga admirar a beleza das formas do edifício (porque não se vê), acho que ninguém perceberá qual a razão que levou a EDP a contratar o Prémio Nobel da Arquitectura. Nem que, por causa desse “luxo”, a barragem custe mais 2 milhões de euros. Ou haverá?

sexta-feira, março 02, 2012

Poema de agradecimento à corja

Joaquim Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Iniciou a sua carreira no Suplemento Literário Juvenil do Diário de Lisboa. O primeiro livro de Joaquim Pessoa foi editado em 1975 e, até hoje, publicou mais de vinte obras incluindo duas antologias. Foram lhe atribuídos os prémios literários da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura (Prémio de Poesia de 1981), o Prémio de Literatura António Nobre e o Prémio Cidade de Almada.
Poeta, publicitário e pintor, é uma das vozes mais destacadas da poesia portuguesa do pós 25 de Abril, sendo considerado um "renovador" nesta área. O amor e a denúncia social são uma constante nas suas obras, e segundo David Mourão Ferreira, é um dos poetas progressistas de hoje mais naturalmente de capazes de comunicar com um vasto público.

De Joaquim Pessoa um poema desgraçadamente intemporal:
“Poema de agradecimento à corja”


Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

quinta-feira, março 01, 2012

Germinal

Há poucos dias tive a oportunidade de ver uns minutos de um dos programas da manhã que passam na televisão e assisti a uma entrevista com o ex-secretário-geral da CGTP-Intersindical, Manuel Carvalho da Silva. Foi um excelente momento em que se percebeu que, para além de sindicalista empenhado, Carvalho da Silva é um homem culto.
Quando lhe perguntaram o que é que ele pensava da greve dos transportes (que estava a decorrer naquele dia) em que os trabalhadores grevistas impediam outros trabalhadores dos demais sectores de actividade de se deslocarem para os seus locais de trabalho, Carvalho da Silva respondeu que as lutas dos trabalhadores geram sempre problemas aos outros e, muitas vezes, aos próprios. E, a propósito, recordou o livro Germinal do consagrado escritor francês Émile Zola.

Germinal é tida como a principal obra de Zola e foi publicada em 1881. Baseia-se em factos reais e para escrever o livro o autor trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Germinal é, aliás, o primeiro romance a pôr em foco a luta de classes no momento de sua eclosão e descreve as condições de vida sub-humana dos trabalhadores, numa época em que apenas havia salários de subsistência.

Quando a obra foi adaptada ao cinema, o realizador quis mostrar as angústias e os sofrimentos que muitas vezes geram sentimentos contraditórios. Neste caso, um trabalhador queria fazer greve ao lado dos seus camaradas (porque achava justas as suas reivindicações) mas, por outro lado, sabia que se não levasse para casa o dinheiro da jorna, um dos seus dois filhos morreria de fome nessa mesma noite. O filme espelha as dúvidas e o desespero que atormentavam esse homem e, embora a película não indique claramente qual foi a sua decisão, vê-se uma imagem final que o mostra de braço dado com os outros mineiros festejando a vitória da sua luta. Adivinha-se, pois, qual tenha sido a sua escolha.

Como bem disse Carvalho da Silva, as lutas dos trabalhadores geram sempre problemas aos outros e, muitas vezes, aos próprios.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

O Panturras

Num destes dias “embarquei” numa aventura para a qual há muito me andavam a desafiar. Tinham-me falado de um restaurante, um tal “Panturras” que ficava algures ali para os lados de Santarém. Um sítio, no meio do nada, numa aldeia com um nome castiço – Advagar - um local onde se comia bem, o chamado tudo incluído, tipo farta-brutos. Lá fui, então, num dia de um radioso céu azul e com múltiplos tapetes de florinhas amarelas e brancas a salpicarem os campos.

Apesar de termos a morada e de o Google constituir uma preciosa ajuda, o certo é que nos enredados por caminhos que não conhecíamos e andámos às voltas vezes sem conta. Foram horas a mais para um trajecto que, se calhar, nem era de todo demorado. Chegámos tarde para o almoço mas ainda a tempo de disfrutar em pleno o que nos levara até ali.

Entrámos no Restaurante Panturras” pelo café (!?) e demos com uma sala ampla, com mesas corridas a lembrar as velhas tascas e várias dezenas de comensais a justificar a qualidade dos petiscos. Como a hora de almoço já ia adiantada, dos pratos principais só havia cozido à portuguesa e cabrito assado no forno. Éramos cinco mas as travessas abundantemente servidas dariam para mais alguns. Mesmo assim, disseram-nos que sempre que os chamássemos trariam mais comida. E chamámos para mais uma dose de batatas fritas que estavam de se lhe tirar o chapéu. O vinho era o da casa, servido em jarro, e bebia-se bem. As sobremesas nem as escolhemos, puseram-nos em cima da mesa duas bandejas redondas com todos os doces que ainda havia. Mousse de chocolate, arroz doce, pudim flã e doce da casa, várias unidades de cada, para tirar a gulodice de misérias. A rematar, cafés para todos e todos repetimos a dose. Toda esta comezaina por 9 euros por pessoa. Os requintes deixámo-los para outras ocasiões. Porém, encontrámos ali um atendimento simpático e eficiente e uma amabilidade genuína que noutros locais mais renomados nem sempre encontramos.

E valeu a pena ir tão longe para aquela refeição? Valeu! Estivemos descontraídos num ambiente despretensioso e não fora aquele “rally paper” inicial que nos fez parecer que estávamos do outro lado do mundo, ainda teria sido melhor. Mesmo assim, um dos elementos do grupo deixou escapar “Há coisas que só se fazem uma vez na vida: vir ao Panturras e ir ao Taj Mahal”, embora, a este último, se chegue mais depressa.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Mais mulheres na gestão das empresas

No último Conselho de Ministros foi aprovada uma resolução que obriga as Empresas do Sector Empresarial do Estado a terem mulheres nos Conselhos de Administração e Fiscalização. É certo que não fixaram a percentagem entre homens e mulheres (o Primeiro-Ministro parece que é contra as quotas) mas a vontade do Executivo é clara: tem que haver igualdade de sexos nos órgãos dirigentes.
Mas o Governo vai mais longe, quer que as empresas privadas onde o Estado é acionista e, também, as empresas do sector privado adoptem medidas similares.

Desculpem-me a franqueza mas parece-me um perfeito disparate colocar a questão deste modo. Relativamente ao Estado e ao seu sector empresarial, tudo bem (embora muito discutível). É uma decisão política mas é o Estado (através do Governo) a mandar no próprio Estado.
Agora nas outras empresas, quer onde o Estado tem acções mas não é maioritário, quer nas privadas, o Governo esquece que existem patrões e accionistas? É que quem manda nessas empresas, quem determina as suas linhas estratégicas e quem escolhe as suas equipas dirigentes são justamente os patrões ou os accionistas. E a intromissão do Estado não faz qualquer sentido.

E depois há a velha questão. Porquê mais mulheres nas Administrações? Só por razões de igualdade? A escolha dos respectivos elementos não deveria ter em conta apenas a competência, independentemente do sexo dos Administradores? No limite, a Administração poderia ser constituída só por mulheres ou só por homens, desde que o critério fosse justamente o da competência.

Os iluminados governantes deveriam saber que, por enquanto, a competência não se determina pelo sexo nem por decreto.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Gestores de carreira para desempregados


Nestes tempos esquisitos que vivemos, em que se tropeça a cada esquina com ditos infelizes e irreflectidos, proferidos por quem tem a obrigação de medir as palavras antes de as dizer, verifica-se que muitos (cansados e desiludidos) já interiorizaram que é melhor desculpar esses deslizes. E, pior ainda, constata-se que existe um certo acomodamento em relação às medidas tomadas por órgãos responsáveis pelo poder político e legislativo, mesmo as mais impensadas.

Daí que não tenha ficado muito surpreendido quando soube que o Governo ia criar gestores de carreira para desempregados. Ainda assim, achei a ideia uma enormidade. Gestores de carreira para … desempregados? O que é que eles queriam dizer com aquilo? Que raio de carreiras seriam essas destinadas a quem já não tem emprego?

Verifiquei depois que, afinal, o que se pretende é que sejam sempre os mesmos técnicos do IEFP a acompanhar (e orientar, presumo) as mesmas pessoas em situação de desemprego, para que estes não andem de departamento em departamento, de funcionário em funcionário, repetindo vezes sem conta a sua história. Assim sendo, a criação desta nova figura justifica-se. Faz até algum sentido, embora não resolva a situação de fundo, que é, não cria qualquer emprego.

O que parece completamente despropositado é o nome que arranjaram para a função. É que dizer a um desempregado, se calhar já há muito nessa situação, que o seu gestor de carreira o vai atender em seguida, é capaz de não cair lá muito bem …

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A função essencial das mulheres?

Foi nomeado no último fim-de-semana o 3º. Cardeal português, D. Manuel Monteiro de Castro. É a primeira vez que Portugal tem 3 Cardeais e isso encheu de orgulho a comunidade católica portuguesa. O que não “caíram” tão bem foram as palavras do seu primeiro discurso público, nomeadamente quando afirmou: “a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”.

Eu sei que o novo Cardeal tem 73 anos e é de uma geração em que o papel das mulheres era outro bem diferente do que têm hoje na sociedade. Mas isso não desculpa, de forma alguma, essa aberrante visão funcional das mulheres que, ao que li, nem corresponde, à posição oficial da Igreja Católica.

É inadmissível que, no século XXI, ainda se apele às mulheres para que abdiquem do seu direito legítimo de optar sobre o que querem fazer da sua vida. Poder escolher, em igualdade com os homens, se querem, ou não, ter uma profissão, uma carreira, uma vida paralela à sua função de mãe. É que educar é uma tarefa da mãe e também do pai e não apenas de um só.

Quero acreditar que D. Manuel não mediu bem as suas palavras, ou que, porventura, as suas palavras não traduziram adequadamente o seu pensamento.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Em que ficamos?

A notícia foi publicada num jornal da nossa praça. Miguel Relvas revelou que “os ministros vão deixar de ter direito a cartão de crédito para despesas de representação e a impossibilidade de andarem com o carro do Estado aos fins-de-semana e em deslocações que não sejam oficiais”. Medidas essas que o Governo pretende que constituam um exemplo. Porém, quanto às despesas, é melhor explicar que o facto dos senhores Ministros (e Secretários de Estado) não terem direito a cartão de crédito não significa que suportem do seu bolso as despesas que fazem em nome do Ministério. Não, claro que não, eles fazem as despesas na mesma e, mais tarde, serão naturalmente ressarcidos. Para além do “valor simbólico”, a medida pouco acrescentará. Com ou sem cartões de crédito o que é necessário é que haja um rigoroso controlo das despesas efectuadas. Mais nada.

Mas, se por um lado, o Governo se mostrou tão preocupado em anunciar esta medida de transparência destinada a dizer aos contribuintes “olhem para nós e vejam que também sofremos com os cortes”, por outro, como entender que o Gabinete do mesmo Ministro Miguel Relvas tenha gasto 12 mil euros na edição de um livro – Compromisso para uma Nação Forte – com uma tiragem de 100 exemplares e no qual está incluído o programa de governo (que nós poderíamos ir consultar a outras fontes) e um balanço dos primeiros 100 dias do executivo? Tal como fizeram todos os outros governos anteriores quando havia dinheiro a rodos.

Afinal, em que ficamos? “Poupa-se” de um lado e gasta-se estupidamente do outro? Onde é que está a tal poupança, o tal corte das gorduras do Estado que tanto se apregoa?

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

O pesadelo das palavras escritas



Fez precisamente um ano na última segunda-feira, dia 20, ainda Sócrates era primeiro-ministro, que a jornalista Maria de Lurdes Vale escrevia no Diário de Notícias uma crónica a que chamou: “Contra os que sempre passaram à frente”. Dizia nomeadamente:

”Terá de haver uma mudança de vida profunda, e já ninguém terá paciência para ser cúmplice de um regime que premeia os amigos e os conhecidos em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa. Ao contrário do que muitos pensam, esta revolta dos jovens de hoje talvez seja a primeira depois do 25 de Abril que tem pés e cabeça”

Como muitos não saberão quem é a estimada jornalista, sempre lhes digo que Maria de Lurdes Vale, depois de ter estado no Diário de Notícias, foi nomeada assessora de imprensa do Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira (com vencimento equiparado a Director-Geral: 3900 euros por mês, acrescidos de ajudas de custo e subsídios de alimentação, Natal e férias) e está agora na Administração do Turismo de Portugal, um Instituto Público.

Dado que não conheço a senhora, não me atrevo a fazer juízos de valor sobre as suas capacidades e competências. Porém, não posso deixar de realçar a subida meteórica e incomum, que conseguiu em tão curto espaço de tempo. Quando há um ano se revoltava - “já ninguém terá paciência para ser cúmplice de um regime que premeia os amigos e os conhecidos em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa” - provavelmente estava a fazer futurologia sobre o seu próprio trajecto. Se calhar também ela foi premiada por ser amiga ou conhecida de alguém e, quem sabe, em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa.

É o pesadelo das palavras escritas. E não há como fugir a elas.



sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Vergonha é roubar e ser apanhado



Uma cadeia de hotéis australiana lançou uma proposta ousada aos seus clientes. Num dos seus hotéis está escondida uma obra de arte avaliada em 11 500 euros e o desafio consiste em incitar os clientes a descobri-la e a roubá-la sem serem apanhados. Caso o consigam, podem ficar com ela.


Fiquei deveras confuso. Mas isto não é um estímulo ao roubo? Ou será que estou a interpretar mal tão genial ideia? E eu a pensar que a promoção das empresas era feita pelo apelo aos valores universais, às boas práticas que demonstrem o melhor que elas têm, à qualidade dos seus produtos e serviços. Pura ingenuidade …


A não ser que a iniciativa apenas tenha por objectivo confirmar a afirmação tantas vezes ouvida “Vergonha é roubar e ser apanhado”.


quinta-feira, fevereiro 16, 2012

A obesidade física e mental



Percebo que a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil tenha ficado preocupada com o facto de apenas 2% das crianças até aos 10 anos consumirem fruta fresca diariamente. Mas já não entendo que dirijam a responsabilidade dessa lacuna exclusivamente ao consumo da chamada “fast-food”. Toda a gente sabe que as crianças e jovens têm um fascínio por esse tipo de comida e que têm dificuldade em resistir às batatas fritas, aos hambúrgueres e às pizas. Porém, o problema não se fica apenas pelo gosto da rapaziada.


Quanto a mim, existem duas outras questões, igualmente importantes, que têm que ser equacionadas. E ambas têm que ver com as famílias.


A primeira diz respeito ao dinheiro que se gasta com a compra da fruta. Não propriamente pelo preço da fruta em si, mas por que, depois de definidas as prioridades e tendo em conta os magros orçamentos, a fruta não é para muitas famílias um bem de primeiríssima necessidade.


A outra tem a ver com falta de informação de pais e educadores sobre o que deve ser uma alimentação saudável. Por mera desinformação, mas também por comodismo, é, para eles, muito mais fácil empurrar os seus meninos para os Mac’s que pululam por todo o lado do que confeccionar refeições simples, saudáveis e que até não são caras. Dar fruta aos miúdos – mesmo que eles estejam relutantes – nem é tão difícil assim. É só necessário ter imaginação e transformá-la em sumos, batidos, saladas, misturada nas sanduíches, nas espetadas, com queijo fresco, ou seja, devem explorar o consumo da fruta por forma a constituir um alimento mais variado e mais apetecível para as crianças.


E estes dois factores (falta de dinheiro e de informação), conjugados com o cansaço físico e mental e, muitas vezes, o desespero do dia-a-dia de quem tem a obrigação de orientar os jovens, fazem com que se chegue aos tais 2% de miúdos que comem fruta. E se a isto acrescentarmos as horas e horas que as crianças passam em frente dos televisores, dos computadores e das consolas, sem a assistência dos seus educadores, temos um quadro realmente preocupante de obesidade física mas também mental.



quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Talvez possamos fazer algo mais …



Mesmo sem vontade, lá voltamos de novo ao assunto: as notícias sobre a desgraça em que se encontra o nosso país não param. Só no último dia de Janeiro ficámos a saber, através do INE, que o investimento empresarial deverá ter caído 17% em 2011 e o mesmo poderá acontecer este ano. O mesmo INE informou que o índice de produção industrial diminuiu 8,7% em Dezembro em termos homólogos. Por sua vez o Eurostat, indica que Portugal chegou ao fim do ano passado com uma taxa de desemprego oficial de 13,6%, percentagem que é um novo recorde e que incluirá qualquer coisa como 800 mil desempregados. Como se vê, só boas notícias!


Mas se os políticos e as políticas não conseguem inverter esta descida aos infernos, por que não sermos nós um pouco mais intervenientes no dia-a-dia? Fazer pequenas coisas que talvez nos dessem resultados insignificantes mas que, mesmo assim, de alguma forma pudessem ajudar a criar ou a manter alguns postos de trabalho.


Do consumo de produtos portugueses já nem falo, a campanha está em marcha e espero bem que a nossa consciência cívica nos faça alinhar neste “proteccionismo” do que é nosso. Mas estou a lembrar-me, por exemplo, dos postos de portagens das auto-estradas que, para além das Via Verdes e dos meios de pagamento automáticos ainda têm um ou dois portageiros. Mesmo perdendo um pouco mais de tempo não será preferível utilizar aquele posto de trabalho … enquanto isso for possível?
E que tal não levantar os tabuleiros das mesas de algumas marcas conhecidas de restauração para ir arrumá-los nos carrinhos a eles destinados? Não por preguiça, já se vê, mas porque se todos se recusassem a isso, certamente que haveria necessidade de contratar umas tantas pessoas (mesmo a ganhar pouco) que, desta forma, poderiam assegurar o seu sustento. Ainda ontem almocei no H3 do Parque das Nações e vi muitos dos presentes a substituir os (eventuais) empregados destinados a essa função, mesmo sem que ninguém lhes tivesse pedido.
E por que não evitar as “caixas expresso” de certos hipermercados em que são os clientes a tratar de tudo sem intervenção de qualquer funcionário?


Dei apenas alguns exemplos de que me lembrei. Admito que os resultados não sejam por aí além. Se calhar, daqui a pouco, os portageiros acabarão, provavelmente os empregados dos restaurantes trabalharão ainda mais, dividindo-se entre a cozinha e o levantar das mesas e, nos hipers, o futuro passará pela presença única de caixas automáticas. Mas deixem-me ao menos sonhar que, através das nossas pequenas acções, possa existir um pouco mais de humanização (mais gente e menos tecnologia a substituí-la) e que seja possível ajudar quem, no momento, tem um emprego precário ou, simplesmente, está desempregado.


terça-feira, fevereiro 14, 2012

Sem … Paciência



Quando deveríamos estar muito preocupados com o que se está a passar na Grécia, quando um conhecido articulista do Financial Times escreveu um artigo de opinião que advoga que justamente a Grécia e, também, Portugal deveriam ir à falência, quando a gigantesca manifestação da CGTP do último fim-de-semana dever-nos-ia fazer reflectir, quando a montanha de preocupações não pára de aumentar e afecta cada vez mais as nossas vidas, o que é que abriu todos os noticiários de ontem das rádios e das televisões e foi o tema principal da internet? – A saída de Domingos Paciência de treinador do Sporting Club de Portugal.


Sabem bem que as minhas crónicas muito raramente abordam o tema futebol (embora eu goste de futebol) mas, hoje, não tive como fugir. Parece que o futebol é, de facto, a coisa mais importante que existe à face da terra. Ainda há dias os jornais (e não só os desportivos) comentavam os 208 mil euros que um jogador do FC Porto ganha mensalmente. Ontem foi a demissão de Domingos que deixou o país em transe. Chegado há meses ao clube, festejadíssimo, desejado como aquele que, finalmente, traria os títulos que têm andado fugidios, acaba por sair pelos maus resultados, dizem uns, por ter tido contactos com o FC do Porto para onde irá em breve, segundo outros.

Tirando a piada que correu célere “Primeiro o Governo tira-nos os feriados e agora o Sporting acaba com o(s) Domingos” digo-vos que não há “Paciência” para tanto. O país não é só isto, mas constato que muitos milhares de cidadãos andam total e sinceramente obcecados com a saída do treinador do clube leonino. Desnecessariamente, gastam tempo e energia. Porém, e ao mesmo tempo, erguem os olhos aos céus na esperança que o novo treinador que já foi designado - também ele, hoje, festejadíssimo e desejado - seja o Messias que lhes vai trazer os tais títulos.


segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Os lapsus linguae



Não, não é só por cá que tanto se fala na descontextualização do que dizem os políticos. Eles dizem coisas (eles vão dizendo sempre muitas coisas), toda a gente as ouve repetidas vezes mas, afinal, não foi bem isso que quiseram dizer. E, normalmente, a desculpa é que houve alguém que tirou as frases do contexto em que estavam inseridas. E lá vêm as notas do chefe de gabinete, dos líderes das bancadas parlamentares, dos assessores de imprensa e dos porta-vozes lestos a desmentir, a interpretar, a esclarecer e a desdizer.

Mas há também os lapsus linguae, provavelmente provocados pela falta de atenção de quem tinha a obrigação de ter um pouco mais cuidado com o que diz.

A senhora da fotografia é a secretária de Estado da saúde do governo francês, Nora Berra que, preocupada certamente pela vaga de frio que assola o seu país, sugeriu aos “mais vulneráveis”, incluindo os sem-abrigo, que evitassem sair de casa.

É que, às vezes, o frio enregela-nos as ideias.


sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Poema em Linha Recta

De Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), “Poema em Linha Recta”


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe. Todos eles príncipes na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos, mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Restos' Gourmet



Quem me conhece sabe da minha relutância em relação à chamada “nova cozinha” ou, “cozinha de autor”. Sem renegar a arte que lhe está subjacente e todo o trabalho, a cor e a organização do empratamento, as minhas desconfianças acabam por me fazer torcer o nariz sempre que aceito um novo desafio para ir a um restaurante que tem um “chef” a comandar a cozinha.


Vamos lá ver, já tenho tido surpresas. Já tenho apanhado manjares que fazem jus à fama com que os nomes dos restaurantes e dos “chefs” são anunciados. No entanto, mantenho as minhas dúvidas e sinto que não estou rendido a essas obras de arte, normalmente com nomes difíceis de pronunciar e que não fazemos a mínima ideia do que é que tratam.


Embora seja moderado no comer, continuo a gostar de pratos à antiga que dão por nomes plebeus como “cozido à portuguesa”, “arroz de cabidela”, feijoada à transmontana” ou carne do alguidar com migas”.


Mas afinal a moda dos “chefs” (e o que eles produzem) é uma mais-valia para a cozinha portuguesa? Será que a nossa cozinha tem um futuro promissor? Não sei. Mas sei que ouvi da boca de um “chef” muito conhecido na nossa praça a resposta à pergunta que formulei: “Não sei, tenho dúvidas. É que cada vez há mais “chefs” e menos cozinheiros”. Tirem as vossas conclusões.


Porém, para que não julguem que, apesar de tudo, eu não faço um esforço, reparem no prato que confeccionei há dias e que dediquei aos meus filhos. Tinha como restos do almoço, uns ovos mexidos e farinheira cozida, juntei-lhes umas rodelas de tomate, uma fatia de pão e umas bagas de uva e … VOILÁ!


Designação do Prato: RESTOS’ GOURMET
Composição:
Eggs em cama de cereais com bagas de uva, carpaccio de tomate e collis de farinheira
E o menu tinha assinatura: Chefs Responsáveis: PAIS’

É que a diferença está nos detalhes …


quarta-feira, fevereiro 08, 2012

A diskette que podia ter sido fatal …



Achei piada (e já vos conto porquê) a duas histórias que li recentemente na imprensa e que se resumem em poucas palavras. A primeira, tem a ver com o facto da Igreja Católica das Filipinas ter dado um endereço errado aos seus fiéis. A ideia era a de acompanhar, através da internet, a posse de um novo bispo. Mas o endereço que indicaram era a de um site pornográfico. Um engano de somenos…
A outra história aconteceu ao Comandante da Polícia Municipal de Coimbra que, cheio de boas intenções, enviou um e-mail de boas-festas aos colegas e a todos os funcionários da autarquia, cujo conteúdo, aparentemente inocente e normal, continha imagens de lindas meninas em trajes bastante reduzidos e algo desadequados ao espírito da quadra natalícia. Uma distracção que lhe custou um procedimento disciplinar.


E achei graça às histórias porque me lembrei de uma situação que me aconteceu há uns anos. Tinha finalizado durante a tarde a apresentação de uma acção de formação que iria dar nos dias seguintes no Porto a quadros directivos da minha empresa. Visionara várias vezes a diskette (ainda estávamos no tempo da pedra lascada) e quando acabei, arrumei-a na minha pasta. Tudo estava em ordem e saí do escritório.

Porém, e estas coisas acontecem, quando à noite, em casa, tive uma dúvida sobre os números que constavam num dos quadros da apresentação fui buscar a diskette e, surpresa das surpresas, o ficheiro que abri não tinha nada a ver com aquilo que tinha preparado. No ecrã só apareceram imagens que, no mínimo, eram muitíssimo ousadas.

Percebi, de imediato, que alguém tinha sabotado o meu trabalho. Não por malvadeza (acredito nisso) mas para me pregar uma partida, e de que tamanho. Calculem se eu só desse pela marosca quando estivesse na presença dos meus respeitáveis colegas, homens e senhoras.

Fiquei irritado, confesso. Mas a coisa foi descoberta a tempo, localizei o meu “divertido” (e irresponsável, neste caso) colega a quem mostrei cara feia e, hoje, recordo a situação como mais uma peripécia de percurso que agora me faz sorrir.