segunda-feira, dezembro 05, 2011

Preocupante



A recente recolha de alimentos do Banco Alimentar, embora não tivesse atingido os mesmos números da campanha de Novembro de 2010, ainda assim, mostrou bem como os portugueses continuam a ser solidários e não esqueceram os mais carenciados.


Apesar de todas as dificuldades, nomeadamente a falta ou a precariedade do emprego, os cortes dos subsídios de Natal e os problemas sempre crescentes que todos sentimos, muitos milhares de pessoas aderiram – uma vez mais e de forma generosa - à campanha do BA. Mesmo sabendo que vêm aí dias ainda mais difíceis.


E, neste momento, os números apontam já para um milhão de idosos a viver com menos de 280 euros por mês. Preocupante, na verdade.


quarta-feira, novembro 30, 2011

Expliquem-me lá por que é que o IMI vai aumentar em 2012?



A decisão está tomada pela coligação PSD/CDS. No próximo ano vai aumentar o IMI depois da reavaliação geral de imóveis que começará a ser feita ainda em 2011. Ou seja, o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) entrou em vigor em 2003 e os prédios que não foram transaccionados desde então (dado que não foram reavaliados entretanto) verão o seu valor patrimonial aumentar e, consequentemente, os contribuintes vão pagar mais.

Sinceramente não percebo por que razão, tendo o mercado da habitação desvalorizado (e muito), o valor patrimonial dos prédios vai continuar a aumentar. Dou um exemplo: se comprei uma casa em 2005 por 200 mil euros e ela hoje, em termos de mercado, vale apenas 170 mil, porquê, agora, uma actualização do valor patrimonial? Só se for para descerem esse valor e começar a pagar menos IMI. Será? Não me parece …


terça-feira, novembro 29, 2011

Oito ou oitenta



Não viram neste blogue qualquer comentário aos milhões que a Madeira vai gastar em fogo-de-artifício nas festividades natalícias e na passagem de ano. Achei que era muito dinheiro, é verdade, mas que, feitas as contas, tanto gasto justificar-se-á pelas receitas obtidas pelo turismo.


Mas – e a acreditar no que a imprensa noticiou ontem - não há contas que cheguem para fundamentar o custo do novo automóvel do Ministro Mota Soares. É que custou 86 mil euros! Não acham demasiado? Pedem-se tantos sacrifícios aos cidadãos e há pagamentos a fornecedores que o Estado não consegue cumprir por falta de dinheiro mas, para tamanho luxo, sempre se arranjam alguns trocos.


Logo Mota Soares que, até há pouco, andava de Vespa. Ou seja, o oito e o oitenta. Bem podem agora argumentar que a viatura foi uma herança do Governo anterior. Pode até ser, mas há sempre forma de dar a volta às coisas e é escandaloso gastar tanto quando as dificuldades são muitas. Até por uma questão de exemplo. E, se calhar, a própria Audi poderia fornecer – pelo preço acordado com o “despesista Governo anterior” - em vez de uma viatura de estadão, três outros carros mais baratos mas igualmente dignos.


Não chocaria tanto. Não concordam?


segunda-feira, novembro 28, 2011

Ah fadista!



Mais do que a vitória do último sábado, em que o Benfica cilindrou o Sporting por … um a zero, fiquei bem mais feliz ao saber que o Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) decidiu promover o fado a Património Imaterial da Humanidade.


Fiquei satisfeito, já se vê, mas arrepiei-me todo quando me lembrei que um amigo me disse, a semana passada, que “imaterial” mesmo era o seu ordenado depois do corte do subsídio de Natal deste ano e dos próximos. Porém, depois de consultar a wikipédia fiquei mais descansado ao saber que esse tal Património Imaterial da Humanidade é uma distinção mundial criada em 1997 para a protecção e o reconhecimento de expressões culturais e tradições, tendo em vista as gerações futuras. Pretende-se que permaneçam vivas coisas como os saberes, as formas de expressão, as celebrações, as festas e danças populares, as lendas, as músicas, os costumes e outras tradições. E fiquei a saber também que desde o início até ontem já existiam 90 bens imateriais registados.

Confesso que, como lisboeta e português, fiquei muito contente com o galardão. O fado canta a vida e a “sorte” do nosso povo há cerca de dois séculos. O fado é o destino e é a nossa canção tradicional, a mais urbana das canções portuguesas, um ícone nacional que fala de amor e saudade, que é desgraçado, vadio, aristocrata, que tem amores e ciúme e que tem divulgado os versos dos nossos melhores poetas.


O prémio da UNESCO deixa-nos, pois, orgulhosos e alegres (curiosa contradição de um estilo de música que é associada à tristeza) e, parafraseando o Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, o Fado dá aos portugueses “alegria […] numa altura em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas”. Apesar de, daqui para a frente, o Fado deixar de ser só nosso para ser de todos, da Humanidade.


Então, silêncio que se vai cantar o FADO! Não aqui mas no “Baú”, cujo endereço é http://www.bau-demascarenhas.blogspot.com/


sexta-feira, novembro 25, 2011

Duas sugestões solidárias para o próximo fim-de-semana



A próxima Campanha do Banco Alimentar Contra a Fome para Recolha de Alimentos em supermercados realiza-se em 26 e 27 de Novembro de 2011, ou seja, já no próximo fim-de-semana.

Como de costume, conto com todos os meus Amigos.


E, já agora, uma sugestão para quando fizer a sua doação aos voluntários do Banco Alimentar. Ao encher o seu saquinho de compras inclua produtos enlatados da marca Sicasal, uma empresa portuguesa que sofreu recentemente um incêndio nas suas instalações e que, apesar dos prejuízos avultados, assegurou que a sua laboração vai continuar e ninguém vai ser despedido. Os trabalhadores da Sicasal têm trabalhado arduamente na recuperação e limpeza das suas instalações e bem merecem este acto de solidariedade. E a empresa também.

É o chamado dois em um. Podemos ajudar quem bem o merece entregando os produtos a quem bem o necessita.

Por favor, alimentem esta ideia!


quarta-feira, novembro 23, 2011

Os sem-abrigo



Em algumas das minhas crónicas tenho abordado o problema dos que sofrem por carência alimentar. Mas o desemprego (ou outras circunstâncias adversas da vida) que, em muitos casos, atinge um ou vários elementos dos agregados familiares, causam outros tipos de carências e de pobreza. Nomeadamente, viver na rua.


Sabe-se que existe um número crescente de sem-abrigo – uma situação que não escolhe idade, género, grau académico ou profissão – e, simultaneamente, os centros de acolhimento estão esgotados e o aumento de pedidos às equipas que distribuem alimentos e agasalhos são um desafio cada vez maior para as instituições, algumas já sem capacidade de resposta.


O perfil dos sem-abrigo mudou. Actualmente quem vive na rua já não é apenas o “desgraçado” com um historial de exclusão social. As equipas de apoio já registaram casos de pessoas que estiveram muito bem na vida e que agora passam por momentos terríveis. E têm encontrado também pessoas que trabalham, têm casa, mas não possuem os recursos suficientes para pagar as despesas, recorrendo, por isso, às carrinhas para conseguir alimentos e a outras instituições para receberem roupa.


Portugal tem dois milhões de pobres há três décadas mas a crise veio agudizar as situações de pobreza extrema. E, infelizmente, os próximos anos não vão ser nada fáceis.


terça-feira, novembro 22, 2011

“Curto mas … educado”



Ontem tive a pachorra de ouvir algumas horas de debate (na especialidade) da proposta do Orçamento de Estado para 2012. Foi enfadonho, foi … chato! E devo confessar que fiquei sem perceber qual vai ser o rumo do país no próximo ano. De resto, as frequentes contradições e a pouca habilidade política e oratória de alguns dos intervenientes (mais do Executivo que da Oposição) também não ajudaram.


Como aconteceu com o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, cujo tom de voz é reconhecidamente monocórdico. Não altera um decibel que seja no registo do seu discurso que se mantém igual do princípio ao fim. Monótono e parco de palavras mas muito directo quando envia a mensagem.


Conta-se a propósito que, numa reunião do Conselho de Ministros, o Ministro da Economia apresentava as suas propostas para promover o crescimento económico quando, de forma seca, o seu colega das Finanças comentou “não há dinheiro!”. Perante a insistência de Álvaro Santos Pereira em prosseguir com a apresentação das suas opiniões o ministro das Finanças interrompeu-o de novo perguntando-lhe “Qual das três palavras é que não percebeu?”.

Nestes casos costuma-se dizer que foi “curto e grosso”. Quanto a Vítor Gaspar foi simplesmente “curto mas … educado”.


segunda-feira, novembro 21, 2011

Os Direitos Adquiridos



Há muito que estamos habituados às contradições dos políticos. É confrangedor (e cansativo) ler ou ouvir o que eles dizem em determinado momento e muitas vezes o contrário logo a seguir, um pouco ao sabor dos seus interesses. E são raros os que escapam a este “fado”. Ângelo Correia, esse “magnífico vulto”da nossa história política não foge à regra e aí está o que ele pensa sobre a velha questão dos “direitos adquiridos”.


Em Novembro de 2010, no programa Plano Inclinado da SIC Notícias, Ângelo Correia afirmou que “adquiridos são apenas os direitos como o direito à vida, o direito à liberdade, etc.”. Defendeu que “todos os outros direitos, ou seja, aqueles que custam dinheiro ao Estado, são direitos que não existem, que estão dependentes da solidez da economia”. E concluiu o raciocínio dizendo que “a ideia de direitos adquiridos se trata de uma "burla".


Porém, menos de um ano depois, a 23 de Outubro de 2011, quando questionado por uma jornalista da Antena 1 sobre a possibilidade de, em função do momento difícil que o país atravessa, abdicar da sua subvenção vitalícia de ex-titular de cargo público (quando, ainda por cima, trabalha no sector privado), Ângelo Correia afirmou “não estar disponível, por se tratar de um "direito adquirido" legalmente”.


Em que ficamos senhor engenheiro? Tamanha incoerência deve-se a quê? A lapsos de memória, a falta de ideias firmes sobre o assunto ou a pura desonestidade intelectual?


sexta-feira, novembro 18, 2011

De novo em causa o tormentoso problema da água que se bebe no Parlamento



Em 19 de Janeiro deste ano escrevi aqui que havia a possibilidade dos nossos Deputados virem a beber água da torneira em vez da água engarrafada que lhes era servida no Parlamento. Dava-vos, então, conta que o argumento mais forte para terem chumbado essa proposta foi a pequena dimensão da poupança, que se cifraria, em 2011, nuns reles 7 500 euros.


Pois bem, passados estes meses, o assunto voltou à baila e a Comissão Parlamentar do Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local chumbou agora a proposta do PS para que a água consumida na Assembleia da República fosse da torneira. No entanto, a questão não está ainda encerrada. Foi aprovado um projecto do PSD que encarrega o Conselho de Administração do Parlamento de apresentar um estudo sobre os custos e benefícios da medida (financeiros e ambientais), no prazo máximo de 30 dias.


E a coisa não vai ser fácil. Se quanto à parte financeira, já na anterior legislatura se tinham apurado ganhos de uns escassos (?) 7 500 euros, quanto às eventuais vantagens ambientais, os objectivos não podem ser muito ambiciosos. Ficar-se-iam, tão-somente (!), pela redução de resíduos de embalagens das garrafas ou garrafões de plástico e pela diminuição das emissões poluentes na produção e transporte da água engarrafada. Estão a ver a complexidade do problema?


Por isso é que para se resolver esta questão bicuda (mesmo transcendental) terá que se proceder à elaboração de um estudo aprofundado (capaz de avaliar todos os impactos) que torne possível a tomada de uma decisão que se nos afigura … tão simples.


O que nos deixa uma interrogação. Será que os Deputados encarregues desse estudo não terão para resolver outros assuntos bem mais importantes para o país e para os cidadãos? Eis uma pergunta para a qual todos nós teremos resposta.


quinta-feira, novembro 17, 2011

Corrigiu-se um erro a tempo



Quando no passado dia 19 de Outubro eu escrevia aqui sobre a possibilidade de Portugal vir a receber no próximo ano só uma pequena parte daquilo que o “Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados – PCAAC” nos costuma atribuir, fazia-o deveras preocupado. Por um lado, porque aumentou muito o número de pessoas que recorrem às Instituições de Solidariedade Social para matar a fome e, por outro, porque a quantidade dos alimentos doados tem sido significativamente menor. Pensava-se, na altura, que essa medida poderia vir a afectar mais de 400 mil portugueses.


Felizmente, a minoria de bloqueio formada pela Alemanha (sempre ela), Reino Unido, Suécia, Dinamarca, Holanda e República Checa recuaram na sua intenção de reduzir drasticamente o apoio a milhões de pessoas sem capacidade para satisfazer uma das mais básicas necessidades – a de comer.

O PCAAC vai continuar nos dois próximos anos (para já) e vai abranger 18 milhões de europeus. Corrigiu-se um erro a tempo. Ainda bem.


quarta-feira, novembro 16, 2011

Afinal o mundo não acabou …



Até há poucas horas, os portugueses andavam num desespero. E nem era propriamente por causa da crise, nem sequer pelo desemprego ter subido para os 12,5%. Tão-pouco pelo facto de ficarmos sem os subsídios de férias e de Natal nos próximos anos. O que atormentava mesmo a rapaziada era a possibilidade da nossa selecção não ser apurada para o Europeu de Futebol de 2012. Só isso.


O treinador Paulo Bento bem tinha afirmado na véspera que, caso a equipa não conseguisse estar presente na fase final da prova, a disputar na Ucrânia e na Polónia, a vida iria continuar e ele manter-se-ia casado e com duas filhas. Mesmo assim os portugueses estavam ansiosos e à beira de um ataque de nervos.


Só por volta das onze da noite os corações sossegaram. A nossa equipa ganhou e goleou a Bósnia e Ronaldo, o CR7, voltou a ser o maior. A Selecção Nacional de Futebol tinha-se apurado para o Euro 2012 e reconciliara-se com os adeptos e com o país. A auto-estima do povo subiu em flecha e, apesar das preocupações do dia-a-dia, a vitória por 6 a 2 tornou-nos mais fortes e mais orgulhosos. Afinal o mundo não tinha acabado …


terça-feira, novembro 15, 2011

Engenharia financeira ou embuste?



A propósito do corte (e da supressão nos próximos anos) do 13º mês lembrei-me de um texto que tem sido veiculado pela net e que, mesmo que não corresponda (por inteiro) à verdade, está bem montado e matematicamente certo. E conta-se mais ou menos assim:


O subsídio de Natal, o chamado 13º mês, foi criado em Portugal logo depois do 25 de Abril de 1974. Mas o 13º mês é uma das mais escandalosas mentiras dos donos do poder, quer se intitulem "capitalistas" ou "socialistas", e é justamente aquela em que os trabalhadores mais acreditam.


Eis uma simples demonstração aritmética de como tem sido fácil enganar os trabalhadores.


Suponhamos que alguém ganha € 700,00 por mês. Multiplicando-se esse salário por 12 meses, o total anual é de € 8 400,00. Ou seja, 700,00 x 12 = € 8 400,00.


Mas o Governo, generoso como é, decidiu criar um 13º mês. Um bónus, um suplemento, uma gentileza, um carinho, se quiserem. Aos 8 400,00 auferidos no ano dá ao trabalhador mais um vencimento (700,00). Isto é, 8 400,00 + 700,00 = € 9 100,00.


Só que qualquer trabalhador, habituado a fazer contas para estender o seu magro orçamento até ao fim de cada mês, pode chegar rapidamente à seguinte conclusão: Se ganha 700,00 euros por mês e o mês tem quatro semanas, significa que ganha 175,00 € por semana. Como o ano tem 52 semanas, quer dizer que são 175,00 x 52, o que dá os mesmos 9 100,00 euros.


Oh Diabo! Mas afinal onde é que está o bendito subsídio de Natal que esperamos o ano inteiro? É que até parece que alguém nos anda a enganar. E isto sem falar, claro está, que há meses que têm 30 dias mas outros 31 e que uns meses têm 4 semanas e outros 5.


Resumindo, não existe qualquer pagamento adicional, o que há é a reposição de um dinheiro já ganho e que não foi entregue na altura própria. Tão simples como isso. E não é por acaso que em certos países os trabalhadores recebem semanalmente.


Como classificar, então, esta forma de pagamento? Será um caso de engenharia financeira ou, simplesmente, um embuste?


segunda-feira, novembro 14, 2011

E as comissões? Ainda faltavam as comissões …



Foram muitos os que defenderam que sem a “ajuda” da troika, Portugal rapidamente entraria em banca rota. E, tanto fizeram, que ela foi-nos concedida.

Assim, o plano de ajuda externa ao nosso país, negociado entre o Governo e a troika (CE/FMI/BCE), estabeleceu um empréstimo de 78 mil milhões de euros durante três anos. Portanto, para nos aguentarmos, teremos que suportar sacrifícios inauditos para poder pagar o capital emprestado mais os respectivos juros. Sim, porque os empréstimos não são de borla.


Só que, e este pormenor parece ter passado despercebido a muita gente, para além desse enorme esforço – só em 2012 teremos que pagar em juros 8,8 mil milhões de euros – vão sair dos cofres do Estado até 2014 mais 655 milhões de euros para comissões devidas à troika. Ah, pois é, este ano serão 335 milhões, para o ano 211 milhões, 84 milhões em 2013 e os restantes 25 milhões em 2014. Como vêm, as “ajudas” pagam-se … e bem. E a verdade é que a informação sobre estas comissões – de 655 milhões de euros, repito – passou por entre os pingos da chuva e poucos terão sentido o espanto de saber em quanto é que nos fica a tal “ajudinha”. Agora é esperar que, ao menos, ela sirva para aproveitarmos a oportunidade para se fazerem as tais reformas de que tanto falamos (e necessitamos) há anos. Isto, se conseguirmos sobreviver.


sexta-feira, novembro 11, 2011

Eça, de novo – a intemporalidade do escritor e político



Como sabem, não me canso de manifestar a minha admiração por Eça de Queiroz. Sobretudo pela sua escrita fácil e pela contemporaneidade da sua obra. O que, de resto, sentimos facilmente quando espreitamos os seus escritos com mais de 100 anos. Há ideias e frases que permanecem actuais.


Recentemente têm “navegado” na internet excertos de textos que nos fazem recordar a intemporalidade de Eça. Como quando, em 1872, escreveu nas “Farpas”:


"Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito".


Então, já Eça “criticava as elites e as suas debilidades, a incapacidade total de sermos respeitados internacionalmente, um desprestígio internacional que só perde para a Grécia". Mais ou menos como acontece agora.


Entre o tempo em que Eça de Queiroz viveu e os dias de hoje quase tudo mudou e poucas coisas são comparáveis. O mundo de Eça era a de um país com profundos atrasos e, hoje, Portugal, mesmo com uma crise financeira e social preocupante, é um país completamente diferente. Contudo …


Contudo, convém recordar as palavras do escritor e político num artigo publicado no “Distrito de Évora”, em 1867, em que dizia “Hoje, que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução".


Era uma mensagem que adivinhava um futuro sem futuro. Porém, cento e tal anos depois, continuamos – melhor ou pior - a sobreviver. E, quem sabe, se durante muitos anos mais.


quarta-feira, novembro 09, 2011

Um exemplo a seguir?



Veio há dias na imprensa que na Eslováquia, um país da União Europeia e do Euro, o salário dos políticos está indexado ao salário médio nacional e ao défice. Se o salário médio dos eslovacos subir, o salário dos políticos também sobe, se a meta do défice não for atingida, o salário dos políticos desce.


Obviamente que não estava a pensar em nada em concreto. Mas …


terça-feira, novembro 08, 2011

Com todo o respeito

Pelo título desta crónica devem ter pensado que ia escrever sobre o novo disco de originais do Jorge Palma. Não, não vou. Já estou como a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que disse de forma clara - quando a Europa, para resolver os problemas europeus, mostrou a intenção de mendigar dinheiro aos países emergentes - “se os europeus não põem lá o dinheiro deles, por que é que nós havemos de lá pôr o nosso?”. Tal qual, comprem o disco do Jorge, ouçam-no e (agora digo eu) apreciem-no.

A minha reflexão de hoje tem a ver com a falta de líderes de qualidade na Europa. Que saudades tenho de Willy Brandt, de Helmut Kohl, de François Mitterrand ou do nosso Mário Soares. Políticos que tinham uma ideologia, um caminho, um sonho. Dos actuais dirigentes, porém, apenas se vislumbra a sua insensatez e a incapacidade para levar por diante a consolidação de um projecto Europeu que se pretendia forte.

Por cá, Passos Coelho quis mostrar ao mundo que podíamos ser ainda melhores do que aquilo a que os nossos credores nos obrigam. E vá de arranjar medidas drásticas, sufocantes e desesperantes para as pessoas (ainda é capaz de haver por aí quem se lembre que, no meio disto tudo, existe gente?). Medidas que foram, de resto, incluídas na proposta de Orçamento de Estado para 2012 onde, entre tanta tragédia, sobressai o corte dos subsídios de férias e de Natal.

Afinal, e ao que veio agora dizer o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, um dos subsídios talvez possa ser mantido, como o Partido Socialista pretende. No que é que ficamos? Havia ou ainda há margem de manobra para não castigar demasiado os portugueses? Se havia porque é que o OE foi tão severo? Para experimentar a rapaziada, para fazer um teste à nossa reacção? Cuidado que essas experiências às vezes dão maus resultados.

Ouvindo Passos Coelho defender que Portugal só conseguirá sair da actual crise "empobrecendo" e o Ministro da Juventude e do Desporto incitar os jovens a emigrar dá a ideia que o nosso Governo já desistiu de Portugal. É o que sente um número crescente de portugueses. E eu também penso assim. Com todo o respeito.


sexta-feira, novembro 04, 2011

Não sei onde é que ele vai buscar estas ideias!



Com o fim-de-semana à vista e enquanto as leis laborais continuam a ser discutidas e não nos obrigam a ir trabalhar aos sábados, vamos fazer um esforço adicional para ultrapassar as dificuldades. COM HUMOR! Nesse sentido, (só não sei se é mesmo humor ou …) transcrevo, com a devida (e divertida) vénia um excerto de uma crónica publicada recentemente por Ricardo Araújo Pereira. Dizia assim:


“… Ufa! Que sorte. Portugal livrou-se de um primeiro-ministro que dava o dito por não dito, faltava às promessas e impunha sucessivas medidas de austeridade, cada uma mais dura que a anterior. É bom olhar para trás, recordar esses tempos longínquos e suspirar de alívio. Para o substituir, os portugueses escolheram um primeiro-ministro que dá o dito por não dito, falta às promessas e impõe sucessivas medidas de austeridade, cada uma mais dura que a anterior. Trata-se de um conceito de governação tão diferente que, por vezes, parece que estamos a viver num país novo.
Quem vive em democracia tem de estar preparado para estas mudanças radicais”.


Não sei onde é que o Ricardo foi buscar estas ideias!


quinta-feira, novembro 03, 2011

As boas e as más notícias


Enquanto esperamos pelos resultados do anunciado referendo na Grécia se, entretanto, não cair o Governo, e já que no fim-de-semana passado mudou a hora e o relógio atrasou 60 minutos, é altura de colocarmos as “nossas realidades” em perspectiva.

E o cartoonista Henrique Monteiro definiu bem, e com humor, esse espírito



quarta-feira, novembro 02, 2011

Boquiaberto



A crise tem servido para justificar tudo, as muitas dificuldades mas também as enormes incompetências. E eu, na minha boa-fé (que já começa a ser burrice), pensava que quem governa tem que (pelo menos) procurar alternativas para ultrapassar os obstáculos. Tentar de uma forma inteligente, isto é, pôr em prática estratégias adequadas e mais os planos A ou B, ou o abecedário todo. Mas parece que não é bem assim.


Pelo que li, o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, um senhor que eu não conhecia e que dá pelo nome de Alexandre Miguel Mestre, disse, em São Paulo, que “o jovem português desempregado em vez de ficar na "zona de conforto" deve emigrar”. E disse mais “o país não pode olhar a emigração apenas com a visão negativista da fuga de cérebros. Se o jovem optar por permanecer no país que escolheu para emigrar, poderá dignificar o nome de Portugal e levar know-how daquilo que Portugal sabe fazer bem".


Pois foi, fiquei boquiaberto. Então, em vez do governo aliciar os jovens para saírem para o exterior, não era a sua obrigação tentar a todo custo promover mais trabalho no nosso país? Não deveria aproveitar ao máximo todo o conhecimento que os jovens adquiriram em Portugal e que foi pago, na maior parte dos casos, com o dinheiro dos contribuintes? E depois, sair para onde, se a taxa de desemprego lá por fora também já é alta? E, já agora, que raio de “zona de conforto” é que os jovens desempregados têm? Estaria o senhor secretário de Estado a pensar no subsídio de desemprego que dura enquanto dura?


Compreendo que por falta de alternativas muitos jovens (e não só) tentem a sua sorte no Estrangeiro, mas ouvir um membro do governo apelar para que se vão embora, parece-me completamente descabido. Fez-me lembrar a velha frase “se o povo não está satisfeito com o governo, então que se mude o povo”.


segunda-feira, outubro 31, 2011

A noite de Halloween



Estamos em 31 de Outubro. Esta vai ser a noite do Halloween. E o que é que é isso ao certo, perguntarão alguns dos meus Amigos. Dei-me ao trabalho de ir à Wikipédia e lá diz que “O Dia das Bruxas (Halloween é o nome original na língua inglesa de um evento tradicional e cultural, que ocorre nos países anglo-saxónicos, com especial relevância nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações dos antigos povos. Não existem referências de onde surgiram essas celebrações)”.


Apesar de Portugal não se encaixar nos países anglo-saxónicos, o que temos constatado é que parece haver uma certa adesão à noite do Halloween. Mas, digam-me lá, se não é uma tradição portuguesa por que carga de água é que se comemora? Digamos que – e esta é a minha opinião - por moda e, especialmente, por razões comerciais, como que um aquecimento para outra época também ela muito comercial que é o Natal. Ou seja, antes das árvores de Natal, dos pais natais, das estrelinhas, brinquedos e doces vários, vá de começar a “época de caça às bolsas” com abóboras, morcegos e máscaras. Ao fim e ao cabo, o 31 de Outubro é o ponto de partida para os 55 dias de uma época marcadamente comercial.


O que nos leva a reflectir se não deveríamos, sobretudo em tempos tão difíceis como os que vivemos, pensar nos dias 31 de Outubro como sendo o Dia Mundial da Poupança. Deu para entender?


sexta-feira, outubro 28, 2011

Ser Poeta

Da poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930)

“Ser Poeta”


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

quinta-feira, outubro 27, 2011

Havaianas, sandálias & Cª. Lda.



Desculpem-me a franqueza mas tenho que dizer que já estava farto de ver tanto pé (des)calçado com havaianas, sandálias & Cª. Lda. Felizmente o tempo está mais frio, já chove e as havaianazitas vão ter que ficar arrumadas até à próxima primavera.

Provavelmente a culpa nem será das próprias havaianas ou de quem as inventou, mas a verdade é que eu tenho um sério problema com a fixação do olhar em certos pontos-chave das pessoas que passam por mim. Saltam-me imediatamente aos olhos, os olhos, os lábios, as mãos e, desnecessariamente, os pés.

Quanto aos olhos, lábios e mãos eles são como um cartão-de-visita e definem muitas vezes que tipo de pessoa é que temos pela frente. E o calçado também. Os pés não, olhar para esses desgraçados não dará seguramente para penetrar no íntimo das pessoas. Mas, na minha modesta opinião, dará para avaliar o grau de estética e elegância de uma criatura.

Se os pés são bonitos e bem-feitos todas as sandálias, havaianas e “pés descalços” ficam bem. Dá gosto olhar para eles.

O pior é quando eles são feios, deformados, com dedos encarquilhados e sobrepostos e tortos, as unhas demasiado compridas ou curtas ou sujas ou com o verniz a cair ou negras de pisadas, os joanetes e as calosidades nos dedos e nos calcanhares, a sujidade espalhada por tudo quanto é sítio. E quando o barulho incessante e incomodativo do bater das chinelas aperta, então, é o descalabro total.

E se em tempo de praia, enfim, são desculpáveis os maus gostos de cada um, noutras estações e nas cidades as chineladas são perfeitamente intoleráveis. Chegou-se mesmo ao ponto em que se usam havaianas com smoking ou fato de noite. Vejam só!

Eu sei que a comodidade do pé à-vontade supera em muito a estética da coisa. Mas, que querem? Um pé mal-amanhado completamente à mostra faz-me lembrar um corpo anafado vestido de lycra em que as gorduras teimam em fazer pregas.

Perguntarão, mas o que é que os outros têm a ver com o que cada um veste ou calça? Os outros não sei mas, no que me diz respeito, não gosto e não acho elegante, apesar de considerar que as pessoas que os usam (e que têm os pés feios) têm todo o direito de o fazer.

Nestas modas de Verão, eu já não gostava das “mules” e dos “shocks”. Começou-se a usar e zás, poucos escaparam à tentação de entrar também na procissão. Mas ficavam-lhes bem, condiziam com o seu tipo de corpo e de pé? Não, usavam por que era moda e isso bastava-lhes.

Felizmente a chuva e o frio trouxeram de volta os sapatos fechados e as botas, o calçado mais elegante e democrático que servem, igualmente, os pés bonitos e os outros. Como vêm o mau tempo não nos trás apenas desconforto.


quarta-feira, outubro 26, 2011

“Isto só acontece em Portugal”



Não sei se alguma vez vos falei do Sr. Rodrigues, um dos donos de um café que frequentei durante vários anos. O Sr. Rodrigues, um homem a atirar para o obeso e de bigode farfalhudo, é o típico português do bota a baixo, um ás do queixume, que sempre acaba qualquer tentativa de conversa com um “isto só acontece em Portugal”. Mais um cidadão que fundamenta as suas doutas opiniões na ignorância do que se passa lá fora.


Não vejo o Sr. Rodrigues há algum tempo mas, certo de que não terá mudado, quase podia jurar que o corte dos subsídios de férias e de Natal dos próximos dois anos lhe poderia sugerir o tal “isto só acontece em Portugal”, dito de forma inflamada e absolutamente inquestionável.


Enganar-se-ia, porém, mais uma vez.


De facto, nem todos os países têm essa prática. Se é verdade que países como a Espanha, a Itália, a França e a Holanda têm esses subsídios, se bem que os valores não sejam em todos os casos do mesmo montante dos ordenados mensais, outros há que esse tipo de benesses não existem. É o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da Irlanda. Já na Alemanha existe uma gratificação - que não é um direito – cujos montantes não são fixos. Ainda há casos como a Hungria, em que nunca houve um 14º mês mas o 13º já existiu e foi retirado em 2009, precisamente quando o país foi “ajudado” pelo FMI. Isto para já não falar dos inúmeros países que nunca ouviram falar em vencimentos adicionais.


Esta é a realidade do que se passa lá fora e que mostra que, afinal, não estamos tão mal como isso. O que não invalida que sintamos um mal-estar pelo corte parcial do subsídio de Natal deste ano e com o corte dos dois, nos dois próximos anos (pelo menos). Mal-estar, desolação, incomodidade, o que lhe queiram chamar. Mas o fundamental da questão nem é, na minha perspectiva, retirarem-nos dois meses de salário em cada ano. O que nos deve preocupar mesmo é o baixo nível salarial da maioria dos portugueses e o desemprego. Mas isso levar-nos-ia a outras reflexões …


terça-feira, outubro 25, 2011

Tolerâncias

Uma das (más) características dos portugueses é a de raramente cumprirem horários. Ao contrário do que acontece com outros povos, para nós existe sempre uma margem para o atraso. A prova disso está – recordam-se? – na tolerância oficial de quinze minutos que antigamente (penso que hoje já não é assim) era uma prática dos funcionários públicos. Em vez de entrarem às 9 horas, chegavam até às nove e um quarto.

Aliás, ainda é frequente marcarem-se encontros, para as dez, dez e meia. Ora, isso não é uma combinação, ou se marca para as dez, ou para as dez e um quarto ou para as dez e meia. Entre as e as, é que não é nada. Ou antes, é falta de organização.

Há uns anos, quando a minha empresa foi reprivatizada, o presidente, homem do mundo e com outros hábitos, marcou a primeira reunião com todos os Directores para as oito da manhã. Claro que ficou esperando que as pessoas convocadas chegassem … a pouco e pouco e para além da hora agendada. Aqueles senhores estavam tão habituados às tais tolerâncias que não gostaram mesmo nada quando o presidente lhes disse, de uma forma firme e definitiva que, a partir daquele momento, as horas deveriam ser respeitadas. Segundo sei, nunca mais alguém chegou atrasado.

O mesmo se passou recentemente no dia da apresentação do Orçamento de Estado para 2012. O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, no seu estilo pausado e rigoroso, começou a falar à hora aprazada. Quem não achou piada a esse “excesso de rigor” foram alguns jornalistas que iam cobrir o acontecimento e chegaram mais tarde.

Dir-me-ão: “Nem tanto ao mar nem tanto à terra”. Pois sim, mas a condescendência para com os atrasados também tem limites.


segunda-feira, outubro 24, 2011

Precaução



Sigo com interesse as crónicas do jornalista/escritor/viajante Gonçalo Cadilhe. Especialmente aquelas que transmitem outras vivências e “cheiros” das regiões mais desconhecidas ou exóticas.

Numa que ouvi na rádio na semana passada, Gonçalo falava sobre a Indonésia, a sua dispersão geográfica e as suas religiões e companhias de aéreas.

A República da Indonésia é um grande país localizado entre o Sudoeste Asiático e a Austrália, composto pelo maior arquipélago do mundo, qualquer coisa como 18 mil ilhas. Daí que as deslocações inter-ilhas tenham que ser feitas por aviões pertencentes a uma das muitas companhias aéreas existentes. Porém, como quase todas são de tão má qualidade, os acidentes são constantes e quase sempre fatais para quem viaja. Aliás, quase todas essas companhias estão proibidas de operar no espaço europeu. Mas, internamente, e sem alternativas, a única solução é embarcar e ter fé em Deus.

E já que falamos em Deus, diga-se que a Indonésia, para além de grande, tem um leque de religiões bastante diverso. Mais de 80% do povo é muçulmano, 10% são cristãos e há uma miríade de outras religiões entre as quais o Budismo e o Hinduísmo.

Mas houve uma coisa que achei muito curiosa nesta crónica do Gonçalo Cadilhe. Devido à falta de segurança da maior parte dos aviões, as operadoras aéreas decidiram distribuir folhetos com orações (das várias religiões) aos passageiros.

Precaução? Talvez! À cautela, porém, os viajantes sempre vão lendo as orações enquanto não chegam ao seu destino.

Sintomático e preocupante, não acham?


sexta-feira, outubro 21, 2011

Discretamente ...



Sempre gostei de pessoas discretas. Admiro aqueles que, sendo bons naquilo que fazem, não se põem em bicos de pés, à espera dos aplausos. Como acontece com a Elvira Fortunato, a cientista portuguesa de micro-electrónica, uma das melhores do mundo. Ou com o arquitecto Souto Moura que recebeu há pouco o “Nobel” da Arquitectura. Percebem o quero dizer? Vêm de mansinho e são verdadeiras sumidades.

Mas também há dos outros. Os que – discretamente – tentam driblar as leis esquecendo-se que ainda existem auditorias independentes que, mais dia, menos dia, vão pôr a nu as irregularidades que cometeram.

Foi o que sucedeu com o Director-Nacional da PSP, três Directores-Adjuntos e o Inspector Nacional que decidiram aumentar as suas próprias remunerações. No ano passado estes directores de topo da PSP passaram a vencer pelo novo regime remuneratório da corporação enquanto que a esmagadora maioria dos efectivos desta força de segurança, passado mais de um ano, ainda não conseguiu transitar para a nova tabela. E, em segredo (não existe forma mais discreta), autorizaram a sua “promoção” que custou ao Estado mais uns míseros 24 mil euros.

A auditoria da Inspecção Geral de Finanças apurou ainda, para além destas apressadas promoções, outros procedimentos irregulares e ilegalidades relacionados com abonos salariais e contratações.

Não sei se, neste caso, podemos falar de desonestidade pura e dura. Mas houve, claramente, falta de ética. A não ser que estes quadros superiores da PSP tivessem querido demonstrar aos seus subordinados que as promoções – tal como os exemplos - começam por cima.


quinta-feira, outubro 20, 2011

O cavalo do inglês



Conta-se que dois amigos britânicos conversavam sobre a “experiência científica” que um deles estava a fazer com o seu cavalo, a quem, a cada dia, dava um pouco menos de ração, sem que se reflectisse no seu desempenho. Porém, um dia, ao lhe perguntarem como estavam os resultados da experiência, o dono do animal, lamentou-se: “Aconteceu uma infelicidade, justamente quando o cavalo já quase não comia, caiu pró lado e... morreu”!!!

Temo que ao país venha a acontecer o mesmo que ao cavalo. É que continuo sem perceber, com as medidas de austeridade que têm sido anunciadas, como vamos conseguir gerar riqueza. De uma forma muito simplista, pode-se dizer que os cortes dos rendimentos (de salários, subsídios, etc.) provocam dois efeitos: um, as pessoas não conseguem poupar, dois, há retracção no consumo. Ora se não se gasta nas lojas, nos restaurantes, se não compram equipamentos, se não vão a espectáculos, enfim, se não há consumo, esses estabelecimentos começam por reduzir o pessoal e, muitos deles, acabam por encerrar portas. Com mais falências e mais desempregados o Estado fica com dois problemas nas mãos: por um lado deixa de receber as receitas provenientes dos impostos (IVA, IRS, IRC) e os descontos dos trabalhadores e, por outro, fica com um acréscimo de encargos, nomeadamente com mais subsídios de desemprego.

Ou seja, o Estado vê a sua economia a definhar. As receitas caem drasticamente enquanto as despesas tendem a subir por via dos encargos sociais. A não ser que estes últimos venham, também, a ser progressivamente retirados.

Outra coisa que me faz confusão, e também ainda não vi isso explicado, é porque é que os bancos não querem recorrer aos 12 mil milhões de euros que faz parte do programa de assistência a Portugal. Em princípio, essa verba destinar-se-ia ao financiamento das empresas e, dessa forma, a dinamizar a economia. Que motivo será esse?

Por isso digo que a recessão que o Ministro das Finanças prevê que possa alcançar 2,8% no próximo ano faz lembrar a história do cavalo do inglês. De tanta austeridade, o mais provável é que o país – sem a economia a funcionar – enfraqueça gradualmente e venha a morrer.


quarta-feira, outubro 19, 2011

Preocupação e Desespero

Na passada segunda-feira assinalou-se o dia mundial contra a pobreza extrema e foram divulgados pelo Eurostat os seguintes dados: só na Europa existem cerca de 43 milhões de pessoas que não têm meios para pagar uma refeição diária, 79 milhões que vivem abaixo do limiar da pobreza e 30 milhões que sofrem de subnutrição.


Com o trabalho empenhado dos 240 Bancos Alimentares em 21 países europeus conseguiu-se distribuir no ano passado 360 mil toneladas de produtos alimentares a Instituições de Solidariedade Social. Mais de metade do total dos alimentos entregues vieram do Programa Europeu de Apoio Alimentar a Carenciados (PCAAC) que ajudou 18 milhões de pessoas consideradas mais necessitadas.


Mas a crise e os consequentes cortes de verbas estão a pôr em risco a continuidade do Programa e, assim, Portugal pode deixar de receber as 18 toneladas de alimentos que todos os anos nos chegam, ou seja, um quinto do que tem recebido. O que quer dizer que mais de 400 mil portugueses podem vir a ser afectados. Cidadãos que, na maioria dos casos, só sobrevivem porque têm este apoio alimentar.


Sabemos que a preocupação e desespero – de utentes e instituições - tem vindo a crescer e vai-se agravar nos próximos tempos. O número de pessoas carenciadas continua a aumentar e as soluções tardam em aparecer.


terça-feira, outubro 18, 2011

Provisórios



As coisas têm vindo a piorar. Todos os dias vamos sabendo de novos impostos, de perdas (que dizem ser temporárias mas que sabemos se irão prolongar sei lá até onde), algumas que julgávamos há muito serem um direito adquirido. As condições de vida estão a deteriorar-se significativamente e a angústia e o desespero está a atingir proporções preocupantes. A vida de todos nós está a ficar insuportável.


Nos últimos meses, então, sempre que alguém anuncia uma nova medida de austeridade, acrescenta-lhe que será provisória durante ou até uma data qualquer.


Este ano vamos ficar sem cerca de 50% do 13º mês. Um corte provisório. Já depois de termos digerido este anúncio, fizeram-nos saber que em 2012 e 2013 os nossos subsídios de férias e de Natal irão à vida. Mais um corte provisório que pode, no entanto, “eternizar-se” durante mais uns anos (embora o Ministro das Finanças tenha dito ontem, em entrevista à RTP, que estas medidas não poderão perpetuar-se por motivos legais. Só que as leis mudam). E temo (fico arrepiado só de imaginar) que a partir de dois mil e qualquer coisa, algum Governante pense na possibilidade de começarmos a pagar – não sei se de forma provisória ou já definitiva – ao Estado o correspondente aos subsídios que agora nos foram esbulhados. Entenderam bem, não é não irmos receber, é sermos nós a pagar. E certamente que o faremos sentindo, palavra por palavra, os versos do Sérgio Godinho “com uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes”.


É que, para mim, os “Provisórios” eram, até há uns anos, apenas uma marca de tabaco.


Bem que os pacotinhos de açúcar do Café Nicola já andavam a mentalizar-nos: “Um dia ficamos sem subsídios de férias e de Natal”. E não é que tinham razão?


segunda-feira, outubro 17, 2011

Afogar as mágoas



Na última sexta-feira o meu filho espantava-se comigo porque que estava à espera de encontrar aqui no blogue um texto que disparasse em todas as direcções por causa do corte dos subsídios de férias e de Natal do próximo ano. Segundo ele, dava a ideia de que eu – ao escrever sobre a Fada do Dente, coisa que neste momento não interessa a ninguém – estava-me perfeitamente nas tintas para o que se tinha passado.


Expliquei-lhe que não tinha sido bem assim. Na verdade, depois de ouvir a comunicação de Passos Coelho ao país, sobre as novas (e duríssimas) medidas de austeridade e enquanto todos nós lá em casa tentávamos assimilar e digerir tudo aquilo - calados, revoltados e assustados - eis que, em vez de espernear, fui ao frigorífico e surgi na sala (aparentemente com uma expressão descontraída) com uma garrafa de espumante acabada de abrir e umas quantas flutes.


Percebi a confusão que se instalara naquelas cabecinhas e a certeza de que as medidas anunciadas tinham conseguido acabar comigo de vez. E percebi, também, que se questionavam sobre o que iríamos comemorar se estávamos à beira de saltar para o precipício.


Nada mais simples. É que, penso eu, para além de se dever beber na comemoração das vitórias é importante que também o façamos quando queremos afogar as mágoas. E, perante a hecatombe …


sexta-feira, outubro 14, 2011

A Fada do Dente



Já que nos últimos dias tenho “viajado” um pouco pelo mundo da fantasia, do encantamento e das “modas”, aqui vai mais uma opinião pessoal (já começo a jogar à defesa) sobre uma moda que, nos últimos anos, tem tido mais visibilidade. Refiro-me à “Fada do Dente”, a tal que troca “dentes de leite” colocados por debaixo dos travesseiros das criancinhas por moedas ou presentes.

Embora ninguém saiba a data em que se descobriu que existia uma Fada tão boa, consta que a coisa já vem do tempo dos vikings, um povo nórdico que invadiu e colonizou grandes áreas do que é hoje a Europa, entre os séculos VIII e o XI. No entanto, são muitas as histórias que circulam desde o início do século XX e que criaram raízes – tradições – primeiro, curiosamente, nos Estados Unidos e no Canadá e, mais tarde, no Reino Unido e até em Portugal.

Mas se é uma tradição já tão antiga porque é que digo que virou moda? Apenas porque eu, já nascido em meados do século XX, nunca ouvi falar em “Fadas do Dente” nem, muito menos, tive qualquer presente quando os primeiros dentes começaram a cair. Fiquei apenas desdentado, acho que guardei por uns tempos “o primeiro” e esperei pacientemente a chegada dos dentes que estavam prontos a despontar.

Os tempos eram bem diferentes então. Para além da Fada do Dente, calculem que nem sequer sabíamos da existência do Pai Natal. Os presentes, para os que tinham a ventura de os receber, eram, tão-somente, uma graça do Menino Jesus. Outros tempos em que uma geração ficava realmente “à rasca” quando sofria com dores de ouvidos e nem tínhamos a mínima noção de que o nosso problema era uma otite.


quinta-feira, outubro 13, 2011

Olá Princesa – 2ª parte



A crónica de ontem suscitou alguma polémica entre muitas Amigas minhas que são mães de lindas princesinhas. Não creio, porém, que haja motivo para tanto. Escrevi apenas aquilo que sinto, ou seja, que esse tratamento mais não é que uma moda. E, acreditem, não estava a pensar em alguém em especial quando me referi às princesinhas e às suas reais mãezinhas. Ficamos, portanto, assim, a questão “das princesinhas” é, para mim, tão-somente, uma questão de moda, uma das tantas que sempre aparecem em cada geração. Mais nada.


Porém, não posso deixar de pensar nos perigos que, em minha opinião, podem surgir provocados por esse tratamento. A sua utilização continuada em detrimento de um nome próprio pode trazer às crianças uma espécie de trauma (chamemos-lhe assim), embora lhe reconheçamos toda a ternura que contém. Num nome há uma identidade própria, uma personalidade, sinais distintivos que qualquer outro tratamento – ainda que afectuoso e da moda - não possui.


Uma Amiga minha (eu sei que me estás a ler) confidenciou-me, certa vez, que muito raramente ouviu o seu pai tratá-la pelo nome. Ou era a “miúda”, ou a “pequena” ou a “minha filha”. E isto, como compreenderão, deixou-lhe pelo menos recordações (continuo a não querer chamar-lhe trauma) que permaneceram até hoje.


quarta-feira, outubro 12, 2011

Olá Princesa



Certamente que quando Clara Pinto Correia escreveu o “Adeus Princesa” e abordou os problemas vividos num Alentejo rural envolvido em conflitos políticos, económicos e sociais, não poderia supor que uns anos mais tarde, não no Alentejo mas em Portugal, iria nascer uma moda que alastrou, e de que maneira.


Tornou-se costume ouvir mãezinhas com filhas pequenas tratar os seus rebentos docemente por “Princesas”. Em cada sítio em que há meninas é um coro de chamamentos “Oh, Princesa, traz-me isto”, “Oh Princesa, vem aqui à mamã”, “Oh Princesa, dá um beijinho à tia”.


Mas, mais do que pensar que se trata apenas de uma moda, embora afectuosa, o que me preocupa – pela omissão – é a forma como os pais tratam os seus filhos homens. Será que lhes dizem simplesmente “Oh puto, anda cá” ou, projectando o seu maravilhoso futuro, chamam-lhes “Oh Cristiano (Ronaldo) vai dizer à tua mãe …”.


E é em coisas tão simples e tão vulgares como estas que se nota, desde cedo, a discriminação nas sociedades.


terça-feira, outubro 11, 2011

Uma excepção que se saúda



Fiel ao que prometeu nas eleições de 2008, Carlos César, Presidente do Governo Regional dos Açores, anunciou que não será candidato nas eleições que se realizarão no próximo ano. Assumiu em 2008 que não concorreria novamente e, portanto, vai cumprir. Tudo em nome da palavra política dada, em nome da ética.


Bem podem agora argumentar, como já vi escrito, que o número de eleitores dos Açores é “um pouco maiorzito do que a cidade do Cacém”. Para mim, o que conta é a credibilidade que se atribui à palavra dos políticos e isso é coisa que anda um pouco arredada da nossa vida democrática.


César é, portanto, uma excepção que se saúda.


segunda-feira, outubro 10, 2011

O apelo de Cavaco Silva aos portugueses: poupem mais e evitem gastos desmesurados



Na linha de muitos outros que já lhe ouvimos, Cavaco Silva no discurso do 5 de Outubro disse um conjunto de coisas já sabidas mas que, na prática, nada significam para os cidadãos. No entanto, houve passagens em que ele quis mesmo direccionar o discurso à maioria dos contribuintes e, aí, foi simplesmente lamentável. Como neste pequeno trecho:


"... Portugueses, vivemos tempos muito difíceis… Agora, estamos confrontados com uma situação que irá exigir grandes sacrifícios aos Portugueses, provavelmente os maiores sacrifícios que esta geração conheceu.

… A crise que atravessamos é uma oportunidade para que os Portugueses abandonem hábitos instalados de despesa supérflua, para que redescubram o valor republicano da austeridade digna, para que cultivem estilos de vida baseados na poupança e na contenção de gastos desmesurados…”

Hábitos instalados de despesa supérflua? A que população é que Cavaco se estava a dirigir? Em Portugal o salário mínimo não chega aos 500 euros e o médio anda na casa dos 700 euros. Seria nestes trabalhadores que o Presidente estava a pensar? Ou seria nos cerca de 3,5 milhões de pensionistas (6 em cada 10 trabalhadores no activo), a maior parte deles com débeis com pensões de reforma que mal dão para sobreviver?


Recuso-me a acreditar que a mensagem de Cavaco Silva se destinasse aos portugueses que, com muito sacrifício, conseguiram comprar casa própria e mudar de automóvel durante os últimos 30 anos, uma vez que a maioria estará, por causa disso, endividada até à raiz dos cabelos.


E, a não ser que ele estivesse a falar para uns quantos que puderam comprar carros de luxo (a compra de carros de luxo aumentou 50% em Portugal em 2010. A Porsche liderou com um crescimento de 88%) ou para aqueles que acumulam boas pensões de reforma – como ele próprio – parece-me completamente desajustado o apelo que fez à “poupança e à contenção de gastos desmesurados”. Só se estava a pensar em outros cidadãos de um outro país.


sexta-feira, outubro 07, 2011

Novo imposto?



Se calhar sou eu que tenho razões para desconfiar que algumas iniciativas governamentais são apresentadas sob a capa de uma boa causa e, ao fim e ao cabo, nem são assim tanto. O povo diz que “gato escaldado de água fria tem medo” e a verdade é que, muitas dessas boas intenções a favor de causas nobres, encobrem o verdadeiro propósito: arrecadar mais umas receitas para os cofres do Estado. E isso acontece em Portugal como na maioria dos outros países.


Não acredito, porém, que isso se verifique num país civilizado como a Dinamarca que acabou de se tornar o segundo país do mundo (a Hungria foi o primeiro) a introduzir uma taxa especial sobre a gordura. Ou seja, todos os alimentos que tenham mais de 2,3% de gordura saturada por quilo terão, a partir de Outubro, de pagar uma taxa adicional de 16 coroas (2,15 euros). Para dar um exemplo, um pacote de 250 gramas de manteiga passa a custar mais 25 cêntimos. Num país que tem menos de 10% de obesos clínicos, portanto abaixo da média europeia, esta pode ser apenas mais uma taxa. Só que os cidadãos dinamarqueses confiam que este dinheiro vai ser bem gerido.


A questão é que o aumento da carga fiscal sobre os alimentos menos saudáveis está a ganhar força por toda a Europa e não tarda que por cá o exemplo venha a ser seguido. E, perguntar-se-á, “isso é para defender a saúde pública?” Sim, também, mas, de imediato será, sobretudo, para obter mais receitas de que o Estado tanto necessita.


E a criatividade pode nunca mais parar, tudo em nome de razões perfeitamente entendíveis. Como por exemplo inventarem um imposto para quem tenha menos de dois filhos, ou um imposto para quem deixe as luzes acesas depois das duas da manhã ou, ainda, um imposto a aplicar a quem tenha mais de 60 anos.


Como também diz o povo, “No comer e no coçar o mal está em começar” …


quinta-feira, outubro 06, 2011

Porreiros, Pá



Poucos terão ouvido falar em George Potamianos. Pois digo-vos que o Sr. Potamianos é um armador grego que ficou tão apaixonado pelo paquete português “Funchal”, quando o viu em 1975, então fundeado no Mar da Palha e esquecido há anos pelo Governo, que decidiu fretá-lo e, mais tarde, conseguiu comprá-lo. Por causa deste navio o armador fixou-se em Portugal para onde transferiu a sede da sua companhia de cruzeiros.


Mas o que achei mais curioso nesta história é que quando ele quis fretar o Funchal em 1975, em plena época revolucionária em Portugal, necessitou da ajuda dos seus parceiros suecos. E a resposta foi, provavelmente, a mais lógica de quem nos olhava de fora: “Estás maluco? O país está em revolução”. A resposta do grego foi exemplar: “Venham ver como fazem a revolução aqui. As pessoas protestam na rua com tambores e bandeiras, às 2 horas da tarde param para almoçar e voltam depois. Se têm medo desta gente civilizada, estão errados”. Resultado: os suecos alinharam no negócio.


É a tradicional bonomia dos portugueses ou, simplesmente, “Portugueses? Porreiros, Pá!”


terça-feira, outubro 04, 2011

O que é a Finança?



Provavelmente a história que hoje vos trago já será conhecida de muitos de vós. No entanto, não resisti a publicá-la, especialmente numa altura em que o mundo se interroga sobre como sair do gravíssimo problema económico/financeiro em que se encontra. Tem que haver uma solução, só que tarda em chegar.


A história é esta:


“Imaginem que um casal chega a um hotel da vossa terra e pergunta quanto custa um quarto para o fim-de-semana.
O recepcionista responde: 100 euros pelos 2 dias.
Muito bem. Responde o cavalheiro. Mas gostaríamos de conhecer as vossas instalações antes de reservarmos. Os quartos, a piscina, o restaurante...
- Não há problema, responde o recepcionista. Os srs deixam uma caução de 100 euros e podem visitar as nossas instalações à vontade. Se não gostarem nós devolvemos o dinheiro.
- Combinado, disse o casal.
Deixaram os 100 euros e foram visitar o hotel.
Acontece que:
O recepcionista devia 100 euros à mercearia do lado e foi a correr pagar a dívida.
O merceeiro devia 100 euros na sapataria e foi a correr pagar a dívida.
O sapateiro devia 100 euros no talho e foi a correr pagar a dívida.
O talhante devia 100 euros à agência de viagens e foi a correr pagar a dívida.
O dono da agência devia 100 euros ao hotel e foi a correr pagar a dívida.
Nisto o casal completou a visita e informou que afinal não vão ficar no hotel.
- Não há problema. Tal como lhe disse, aqui tem o seu dinheiro, devolveu o recepcionista.
Conclusão:
Toda a gente pagou a quem devia... sem dinheiro nenhum.
O casal levou os 100 euros que pagaram todas as 5 dívidas no valor total de 500 euros.
Ponham aqui os olhos e percebam que todo o sistema financeiro, desde que inventaram os números negativos, se tornou uma fraude.
Zero euros pagaram 500 em dívida.
E podíamos continuar indefinidamente”.

A história parece dar razão ao Nobel da Economia de 1976, Milton Friedman, a quem se atribui a frase:
"Não perguntem onde está o dinheiro porque ele não está em lado nenhum!"


segunda-feira, outubro 03, 2011

No sítio errado



Considero que o programa da SIC, o “Peso Pesado”, que ontem começou a sua segunda série, para além de um concurso e do entretenimento que o mesmo suscita, constitui uma chamada de atenção para todos aqueles que têm consciência de ter excesso de peso e demasiado sedentarismo. Programas como este podem ser o alerta que pode fazer mudar alguma coisa na vida de cada um e da sociedade. Neste caso, poderá ser o sinónimo de mais saúde e melhor qualidade de vida.


Ficamos, agora, à espera que apareçam outros programas que “ensinem/transmitam” novas atitudes para uma melhor cidadania. Que levem as pessoas a que, por exemplo, não coloquem o lixo num bebedouro em vez de utilizarem um recipiente próprio. Porque, claro está, cada objecto urbano tem a sua função. O caixote do lixo para o lixo e o bebedouro para nos dar água.


É que na foto que se vê em cima, a rapaziada para não dar mais uns passinhos para pôr o lixo “em su sítio” (ao fundo, não muito longe, está um caixote do lixo) puseram-no mesmo na parte superior do bebedouro. Calculo que tivesse sido muito mais prático mas é extremamente inestético e, obviamente, muitíssimo menos higiénico.


Cidadania precisa-se. Já!



sexta-feira, setembro 30, 2011

Adeus

Voltamos hoje à poesia.



De Eugénio de Andrade “Adeus”



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti

quinta-feira, setembro 29, 2011

Isto é que é um país de Capitais …



Há uns anos dizia-se por graça que os Estados Unidos, por ser um país enorme, tinha não uma mas três capitais: Washington (a capital propriamente dita), Nova York (a capital do mundo, a cidade que nunca dorme) e … Hollywood (a capital do cinema).


Com o passar dos anos os portugueses acharam que não deviam ficar atrás dos norte-americanos. E, mesmo atendendo a que somos um país pequeno e periférico, enchemo-nos de brios e vá de arranjar capitais do que quer que fosse. Não as contámos (para não corrermos o risco de nos enganarmos) mas vejam, por vós próprios, a miríade de capitais que encontrámos num território com pouco mais de 92 mil quilómetros quadrados e cerca de dez milhões de habitantes. Os americanos que se cuidem.


Então vejamos. Só de comidas, bebidas e afins temos capitais:


do moscatel (Favaios), do fumeiro (Vinhais), do folar (Valpaços), da alheira (Mirandela), da cereja (Resende), da maçã de montanha (Armamar), do queijo da serra (Celorico da Beira), do leitão (Mealhada), do caracol (Póvoa da Lomba), do espumante (Anadia), da lampreia (Penacova), do arroz (Montemor-o-Velho), da cereja (Fundão), do chícharo (Alvaiázere), do ovo (Ferreira do Zêzere), do chocolate (Óbidos), da pêra rocha (Bombarral), do vinho (Cartaxo), da sopa da pedra (Almeirim), da castanha (Marvão), do azeite alentejano (Moura), do presunto (Barrancos), da batata doce (Rogil), da sardinha (Portimão), do polvo (Santa Luzia), do marisco (Olhão), do cozido à portuguesa (Canal Caveira), do porco (Montijo), do porco alentejano (Ourique), do vinho verde (Ponte de Lima), do calçado e do vinho verde (Felgueiras) , do vinho verde (Penafiel) - reparem como, ricos que somos, já temos três capitais do vinho verde - a capital universal da chanfana e capital nacional do artesanato e da gastronomia (Vila Nova de Poiares) (três em um), da chanfana (Miranda do Corvo) (outra da chanfana), do arinto (Bucelas) e de outras especialidades que haverá por aí.


Mas temos mais capitais:


do automóvel antigo (Vila Nova de Famalicão), do móvel (Paços de Ferreira), do design (Paredes), da cutelaria (Caldas das Taipas), do granito (Vila Pouca de Aguiar), do barroco (Braga), das águas bravas (Castelo de Paiva), a capital ibérica do rafting (Melgaço), do calçado (São João da Madeira e Ponte de Lima, duas, sendo que esta última também é do vinho verde), do parapente (Linhares da Beira), do saber português (Coimbra), do papel e do livro (Lousã), do vidro (Marinha Grande), da onda (Peniche), da cerâmica e do comércio tradicional (Caldas da Rainha), do comboio (Entroncamento), do cavalo (Golegã), do Gótico (Santarém), do mármore (Estremoz), da cortiça (São Brás de Alportel), do circo (Vila do Conde) e outras que não me vieram à memória.


Curioso o facto de possuirmos tantas capitais (algumas ibéricas e universais) enquanto que Lisboa, a capital política e administrativa do país ainda não mereceu ser reconhecida como a capital de qualquer coisa. Apelo, por isso, para que sejam generosos e façam o favor de reconhecer que pelo menos, pelo menos, poderia ser-lhe concedido o título da capital dos Pastéis de Belém, dos pipis, do fado, dos pastéis de bacalhau ou do … Glorioso.


quarta-feira, setembro 28, 2011

Agora é que vou emigrar …



Este fim-de-semana cheguei ao limite. E, desta vez, não foi só por causa de Alberto João Jardim. A minha vontade era bater em alguém, nos políticos preferencialmente. Mas para não desgraçar a minha vida, preferi tomar a decisão de emigrar. Não sei ainda bem para onde mas estou a pensar em países como o Qatar ou, talvez, o Luxemburgo, que sempre fica um pouco mais à mão.


A vida está difícil e cansei-me de perder, continuadamente, o poder de compra. Quando penso que, no início da última década, Portugal era um país que estava no 34º posto do PIB per capita mais alto do mundo, que em 2010 desceu para a 40ª posição e que, segundo as projecções do FMI, iremos por água abaixo até à 45º lugar em 2016 – dentro de 5 anos apenas – atrás de países como a Estónia ou Antigua & Barbados, que ninguém sabe onde ficam, dá-me vontade de arrancar os poucos cabelos que me restam. Fico como se estivéssemos a jogar uma partida de futebol com o Liechtenstein e eles nos dessem uma cabazada. Uma humilhação de todo o tamanho.


A concretizarem-se as tais previsões, teremos descido 11 lugares em poucos anos, o que significa que nós portugueses, teremos que viver com um rendimento médio de uns modestíssimos 25,8 mil dólares enquanto que os habitantes do Quatar vão conseguir “sobreviver” com uns parcos 103 mil dólares. Quase quatro vezes mais, coitados.


Portanto, Amigos, adios, aufiderzin, goodbye . Depois mando postais. Até ao meu regresso …


terça-feira, setembro 27, 2011

Se houvesse burocracia



Um dos motivos que, ao que dizem, “ajudaram” a Grécia a cair na situação em que está foi a falta de registo de todos os terrenos existentes no país. Não se sabia a quem pertenciam, portanto, nunca foram cobrados impostos, portanto, uma total inexistência de receitas desde sempre. Fez-me impressão pensar que um Estado, ainda por cima pertencente à União Europeia, não estava suficientemente organizado.


Mas, quanto a (des)organização, nem sequer é preciso sairmos deste nosso rincão. A comunicação social noticiou que, até agora, os Governos nunca souberam ao certo quantas Fundações existem em Portugal, quanto custam ao Estado e para que servem. Incrível, não acham? Segundo o Tribunal de Contas serão umas 817 mas a Direcção-Geral do Orçamento afirma que não passarão de seis. Certamente que serão muitas mais que a meia dúzia entre as Fundações nacionais e estrangeiras, de direito público ou privado. E obviamente que, há muito, se deveria saber onde é gasto o nosso dinheiro e de que forma.


Quando se fala em burocracia atribuímos ao termo unicamente a sua pior face, a pejorativa. Mas burocracia é outra coisa. É, para usar uma definição da Wikipédia, “a organização ou estrutura organizativa caracterizada por regras e procedimentos explícitos e regularizados …”. Em suma, a burocracia é organização.


Pena foi que este desconhecimento das Fundações que pululam por todo o país – por desorganização, por falta de burocracia – só agora tenha sido descoberto … pela troika.
É mais uma humilhação que dispensávamos, mas que merecemos.


segunda-feira, setembro 26, 2011

Se calhar o melhor é fazer-lhe a vontade



Estou muito preocupado pelo que está a acontecer na Madeira. O Paraíso do Jardim parece querer desmoronar-se à medida que se vão levantando as pontas do tapete e estão a aparecer as dívidas até agora escondidas. E dívidas que foram sendo contraídas apesar dos vários perdões concedidos pelos Governos da República.


Mas a minha preocupação cresce por ter ouvido Jardim dizer, num primeiro momento, que a Madeira não tinha dívida alguma, para depois admitir que a dívida da região poderá situar-se nos cinco mil e tal milhões de euros. Porém, o CDS-Madeira já afirmou que o “buraco” é superior a 7 mil milhões sem contar com as dívidas das Câmaras e das empresas municipais. Isto para já. Um buraco colossal que irá, inevitavelmente, agravar a já periclitante situação do nosso país.


Claro que Jardim desvalorizou o facto e argumentou - de forma despudorada - que o montante da sua dívida é idêntico ao passivo do Metro do Porto e que, já que tanto se fala dos perdões de dívida da Madeira, gostaria de saber quanto é que foi perdoado aos PALOPS. Argumentos deselegantes e desadequados que pretendem apenas esconder a verdadeira questão: para além da dívida, o que está em causa é o facto de a terem ocultado. E isso constitui um crime previsto no nosso ordenamento jurídico.


Para nós portugueses não basta que a Moody’s já tenha cortado o rating da Região e que mantenha as perspectivas de um novo corte para breve. Não, queremos também exigir que aos sacrifícios que nos têm sido pedidos não se venham juntar os outros decorrentes da megalomania irresponsável de Alberto João Jardim.


Mas porque, como já aqui afirmei, é possível que tudo continue mais ou menos na mesma depois das eleições Regionais do próximo dia 9 de Outubro, se Alberto João, para se ver livre dos “gajos do continente”, quer mesmo a independência do Arquipélago, como afirmou de forma inflamada num comício de campanha nos últimos dias, porque não fazer-lhe a vontade? DÊ-SE A INDEPENDÊNCIA À MADEIRA. JÁ! Depois de 30 anos de lhe estendermos a mão – subservientes e temerosos – é tempo dos portugueses do Continente, dos Açores e muitos da própria Madeira, dizerem bem alto – ESTAMOS FARTOS! BASTA!

sexta-feira, setembro 23, 2011

O jogo do prego



Acabo a semana com um toque de saudosismo. Recordo tempos em que miúdos e graúdos gostavam de se entreter na praia com uma coisa a que chamavam o “jogo do prego”. É verdade, outras épocas em que pais, filhos e amigos, para além da bola, gostavam, também, de jogar ao prego. Muitos de vós, possivelmente, nunca terão ouvido falar em tal. “Pregos”, quando muito, serão para comer ou para “pregar” na madeira.


Pois é, os criativos de então pensaram que com um simples prego grande de cerca de 15 a 20 centímetros (conhecido tecnicamente por cavilha) a família poderia divertir-se em conjunto com um jogo que era barato e democrático e que tinha regras muito simples, apenas exigindo alguma habilidade.


E em que é consistia tão rudimentar e primitivo divertimento? Basicamente, cada jogador (aqui havia várias versões, os mais abastados tinham um prego para cada jogador enquanto que os pobrezinhos utilizavam todos o mesmo prego), tentava, à vez e com movimentos pré-estabelecidos, espetar o prego na areia seca ou molhada. Pelo que era necessário ter técnica, imaginação e treino para que cada um somasse mais pontos do que os adversários. Até à vitória final.


Era assim que, durante horas, familiares e amigos se entretinham pacatamente e – isto é muito importante – sem incomodar quem estivesse nas redondezas. Não havia o perigo, como agora acontece, de sermos atropelados por talentosos e irresponsáveis futebolistas de praia nem se ouvia aquele irritante barulho das raquetas a jogar bolas, antes que elas – fatalmente – nos venham atingir.


Enfim, eram outros tempos.