quarta-feira, março 21, 2012

Retrato de uma princesa desconhecida

Hoje, dia 21 de Março, comemora-se o Dia Mundial da Poesia. Assim, nesta data, não poderia deixar de publicar um belo poema de uma grande poetisa.
De Sophia de Mello Breyner Andresen,

“Retrato de uma princesa desconhecida”


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

terça-feira, março 20, 2012

Um enorme logro

Por muito que se tenha feito nas últimas décadas pelas condições de vida dos mais idosos – e tem – continuam a verificar-se imensas carências, tanto mais que a nossa sociedade está cada vez mais envelhecida.

Foi, portanto, com satisfação, que ouvi o anúncio da boca do Ministro da Solidariedade e da Segurança Social que ia haver 10 mil novas vagas em lares. Mas o que Pedro Mota Soares não explicou é que essas vagas todas não resultarão da construção de novas estruturas. Não, o que vai acontecer é que, nas unidades já existentes, os quartos individuais passarão a ser duplos, os duplos serão triplos e assim sucessivamente. Ao fim e ao cabo, os mesmíssimos quartos que já existem albergarão mais 10 mil idosos mas – e é aqui que reside o enorme logro – em piores condições do que antes.

É que se as coisas fossem explicadas noutros termos … mas não, as jogadas, a falta de transparência, enfim, a forma como se faz política, continua a ser a de sempre.

segunda-feira, março 19, 2012

Uma obsessão?

Não creio que “preocupado” seja o termo mais adequado para expressar o que senti ao ler, na semana passada, que Otelo Saraiva de Carvalho defendia que “as forças armadas, em nome do povo, poderão resolver o problema da perda de soberania de Portugal, derrubando o Governo”.

Não é a primeira vez que o Coronel Otelo, um dos “Capitães de Abril” e peça fundamental do movimento militar que fez cair o regime anterior, sugere que é necessário que haja um novo 25 de Abril porque, segundo ele, “os limites de submissão em relação à Alemanha já foram ultrapassados e as Forças Armadas deveriam actuar, mesmo que contra um Governo eleito democraticamente”.

Compreendo que Otelo sinta alguma nostalgia dos tempos revolucionários em que foi um dos protagonistas, mas os tempos do “poder popular” já lá vão e uma acção (deste tipo) das forças militares em democracia não é a mais ajustada. Das suas palavras pode ficar a impressão que a força é a única solução para que as coisas mudem mas é bom recordar que em 1974 havia uma ditadura e em 2012, em democracia, os que lá estão são eleitos pelos cidadãos.

Por isso digo que as declarações de Otelo não me deixaram propriamente preocupado. Porém, em tempos que são muito difíceis e com tanta gente revoltada e desesperada, afirmações deste jaez podem ser perigosas. Nunca se sabe se alguém, em nome da resolução dos problemas que nos afectam, pode levar por diante algo que, mais tarde, se possa virar contra nós. E essa foi uma experiência que já vivi e não quero ver repetida.

sexta-feira, março 16, 2012

Mais férias para quê?

Realmente os suíços são um povo diferente. Vejam lá que ainda há pouco se detectou que cerca de um terço da população activa do país sofre de "ansiedade e fadiga", um problema que poderia ser combatido com um maior período de férias.
Os sindicatos propuseram, então, que os trabalhadores passassem a gozar seis semanas de férias em vez das actuais quatro.

E, diferentes como são, foram logo a correr fazer um referendo para saber qual era a opinião dos cidadãos. O resultado foi inesperado: Os eleitores suíços rejeitaram por uma maioria de dois terços o aumento das suas férias anuais.

Especialistas consideram que a população deu ouvidos aos alertas do Governo e dos empresários de que mais férias iriam aumentar os custos laborais e colocar em risco a economia e que o voto mostra claramente que a população continua a focar-se na liberdade individual e na responsabilidade dos cidadãos.

Ah, estes suíços! Está-me cá a parecer que se o referendo fosse feito cá no burgo, a resposta seria bem diferente…

quarta-feira, março 14, 2012

Um caixote do lixo dourado

Sempre achei que os lugares públicos são uma fonte inspiradora para escritores, jornalistas, bloguers e para todos os que necessitam de ideias para as suas escritas. Ali se ouvem as teorias mais expeditas para a resolução dos problemas mais complexos. Quais treinadores de bancada, as estratégias são delineadas com simplicidade e têm tudo para se obterem os melhores resultados. Muitas vezes são o “ovo de Colombo”. Tão simples como isso.

Já tenho ouvido de muitas bocas que as dificuldades que Portugal atravessa se resolveriam facilmente se vendessem o ouro que está guardado no Banco de Portugal. Mau, então por que é que não se tinha pensado nisso antes?

Aqui e ali saem outros bitaites a lembrar que deveria haver outro Salazar que tanto poupou e tanto ouro juntou. Ora, a história do ouro tem muito que se lhe diga. Para quem não sabe ou para aqueles que já esqueceram, recordo que muito desse ouro veio da Alemanha por contrapartida do volfrâmio que lhes vendíamos durante a II Grande Guerra, a coberto de uma alegada neutralidade de Portugal no conflito. O que nunca se chegou a apurar ao certo é se esse ouro era nazi ou judeu embora exista uma corrente muito consistente que defende que esse ouro seria, na sua maioria, proveniente dos judeus.

Mas proveniências e branqueamentos à parte o que muita gente desconhece, mesmo nesses lugares públicos apinhados de saberes profundos, é que nos últimos quinze anos Portugal vendeu parte das suas existências de ouro mas continua a ser a 14ª maior reserva do mundo, à frente do Reino Unido e da Arábia Saudita e a maior da Europa, tendo em conta a dimensão da economia. E o que também geralmente se ignora é que os paralelepípedos de ouro que têm apenas 99,5% de ouro (a restante percentagem diz respeito a impurezas) estão guardados no Carregado, em Londres e nos … Estados Unidos. Depois fornecer-vos-ei as moradas caso queiram lá ir buscar um lingote.

Perante tamanha riqueza, o que gostava de saber é se as agências de notação tomaram isso em consideração antes de nos classificarem como lixo. É que, com um caixote do lixo como este …

terça-feira, março 13, 2012

Quando se abre um precedente …

Lembram-se de uma canção da Mónica Sintra intitulada “Afinal, havia outra”? Pois neste caso, “afinal, havia outras”. Ou seja, afinal, para além do Governo ter aberto uma excepção para a TAP para que os salários não sofressem cortes, teve que abrir uma nova excepção para a Caixa Geral de Depósitos. E, aberto um precedente, aliás dois, outras empresas públicas – fala-se da ANA, da NAV, dos CTT entre outras - se preparam para pedir que também sejam consideradas no rol.

Bem pode agora o Governo “dourar a pílula” com o argumento que não houve excepções mas sim adaptações. Pode, mas é difícil que o cidadão comum perceba que quando são pedidos sacrifícios enormes à população, não atendendo ao princípio da equidade, deixe de fora desses mesmos sacrifícios milhares de outros cidadãos.

Até pode haver razões para não cortar os salários da TAP e da CGD (para já). Talvez por isso, os membros do Governo andam num corrupio a dar explicações e mais explicações, mas o argumento mais forte que consigo ouvir é que – para aquelas excepções – os trabalhadores não vão ter cortes de salários. Apenas vão sofrer adaptações, isto é, vão ter efectivamente cortes mas só nas remunerações complementares. Portanto, o desígnio de poupança na empresa vai ser o mesmo.

Mas eu pergunto: e os milhares de trabalhadores que só auferem o salário-base e não têm quaisquer alcavalas? Também vão ficar imunes ao corte dos salários?

segunda-feira, março 12, 2012

O duplo pagamento à Lusoponte

Tem dado muito que falar a questão do duplo pagamento à Lusoponte. E duplo porquê? Primeiro porque existe um contrato em que o Governo tem que pagar uma compensação de 4,4 milhões de euros à Lusoponte por não serem cobradas portagens em Agosto. Depois porque, no último ano, por decisão deste Governo, as portagens foram pagas pelos automobilistas. Ou seja, muito embora o contrato preveja a tal compensação, ela não devia ter tido lugar em 2011 porque não houve borlas em Agosto na Ponte 25 de Abril.

Houve, portanto, repito, um pagamento em duplicado e, espantosamente, uma tripla explicação para o caso: o Secretário de Estado dos Transportes disse que de facto tinha havido duplo pagamento, o Primeiro Ministro disse que não tinha havido e, finalmente, a Lusoponte disse que tinha havido mas que não devolve o dinheiro. Espantoso!

Porém, o que me pareceu perfeitamente extraordinário foi a absoluta impreparação de Passos Coelho que deveria ter antecipado que o assunto iria ser colocado no Parlamento (aliás, dois dias antes, já muita gente falava na “marosca”) e como baqueou de forma humilhante perante os argumentos bem sustentados de Francisco Louçã.

Em resumo: Em 2011, os automobilistas perderam o benefício de anos anteriores e tiveram que pagar portagens na Ponte 25 de Abril. Logo, a Lusoponte não teria que ser ressarcida como compensação da falta de receitas. Mas, vá lá saber-se porquê, o pagamento foi realizado e a empresa aceitou-o sem hesitar. Aqui para nós que ninguém nos lê, não sei bem como chamar ao comportamento de uma empresa que recebe uma importância indevida e não procede à regularização logo de seguida. E também não sei se irá haver alguma consequência política deste caso. Temo que não.

Mas o que verdadeiramente me preocupa, isso sim, é que os 4,4 milhões de euros que pertencem ao erário público ainda não foram devolvidos ao Estado.

sexta-feira, março 09, 2012

Então, porquê?

Sempre me fizeram impressão as pessoas que persistem em cometer os mesmos erros apesar de saberem que isso acaba, inevitavelmente, por as magoar. Então, e as experiências anteriores mal-sucedidas e o sofrimento que tiveram não servem para arrepiar caminho, para alterar o que antes não resultou?

O mesmo acontece com a importância que se continua a dar às agências de rating, apesar dos estragos que elas têm provocado. Por acaso alguém esqueceu os sucessivos erros cometidos por essas entidades? Lembro-lhes alguns: A Fitch, a Moody’s e a Standard & Poor’s falharam, por exemplo, na avaliação da Enron (com um rating de “BBB+”, faliram seis meses depois) ou com a bancarrota da Islândia (com um confortável “A” e que pouco depois também faliu).

Para já não falar no gigantesco erro de avaliação do famoso (pelo que aconteceu depois) banco norte-americano Lehman Brothers que abriu falência quando uns meses antes as três agências o tinham premiado com um rating de “A+”.

Dizem que Fitch, a Moody's e a Standard & Poor's controlam 95% do Mercado e dizem também que são agentes indispensáveis para o equilíbrio do mesmo. Pode ser que sim. Mas continua a fazer-me muita impressão o facto de – face aos casos conhecidos de falta de ética profissional e dos clamorosos erros de avaliação – se continuar a dar demasiada importância ao que pensam estas companhias, cujos palpites fazem reagir de imediato os mercados e penalizam fortemente os Estados e os seus cidadãos. E a interrogação para qual não tenho resposta é a de sempre: Por que carga de água continuamos a dar ouvidos às empresas de rating?

quinta-feira, março 08, 2012

Conflito de gerações

Já ontem tinha aqui referido que é perigoso comentar ou aceitar como verdadeiras todas as histórias que são veiculadas pela net. Por isso, também não garanto que a história que hoje vos trago tenha alguma vez acontecido mas … conta-se que o médico inglês Ronald Gibson (ao que parece existe mesmo e é o senhor da fotografia), dissertando sobre conflitos de gerações, começou uma conferência citando quatro frases:

1 – A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, troça da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Hoje, os nossos filhos são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos seus pais e são simplesmente maus.

2 – Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.

3 – O nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.

4 – Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.

Depois de ter lido as quatro citações e perante a aprovação silenciosa dos espectadores, decidiu revelar a origem delas:

A primeira é de Sócrates – o filósofo grego - (470 - 399 a.C.).
A segunda é de Hesíodo – poeta grego - (720 a.C.).
A terceira é de um sacerdote (do ano 2000 a.C.).
E a quarta está escrita num vaso de argila com mais de 4000 anos que foi descoberto nas ruínas da Babilónia.

E o Dr. Ronald Gibson terminou esta curta palestra exclamando: “Fantástico! Não mudou nada! Pais e Mães acalmem-se, o mundo sempre foi assim.

Gerou-se, então, um profundo silêncio na sala.

quarta-feira, março 07, 2012

Se não há outro jeito …

Reproduzir textos que circulam pela net ou tecer comentários sobre os mesmos é altamente perigoso. Ainda assim, de quando vez, não consigo fugir à tentação de o fazer, sobretudo quando julgo descortinar alguma veracidade no que dizem. Sempre, no entanto, com a devida reserva.

Pois calculem que li há dias o desabafo de Mário Araújo Ribeiro, um conhecido Juiz-Conselheiro (jubilado) que dizia isto:

“Concluí que a minha filha desempregada e o meu filho dentista com falta de clientes - ambos divorciados - têm de intentar acções judiciais contra mim, para eu ser CONDENADO a pagar "alimentos (no sentido legal do termo) aos meus netos.
Porque, com uma sentença judicial, eu posso descontar essas despesas no IRS e, se ajudar voluntariamente, não posso”.

A ser verdade, dá que pensar.

terça-feira, março 06, 2012

A beleza de um edifício soterrado

Em finais do ano passado soube-se que o arquitecto português Eduardo Souto Moura foi contratado para conceber a central hidroeléctrica da barragem da Foz do rio Tua. O desafio será harmonizar a edificação com a paisagem do Douro Património da Humanidade. E esta é a primeira vez na história das barragens portuguesas que uma central de produção de energia terá a assinatura de um profissional de renome, contratado propositadamente para o efeito.

O que não se sabia, e eu li a notícia em vários jornais, é que o tal edifício vai ficar completamente debaixo de terra com oliveiras em cima. Isto é, soterrado.

A ser assim, e sem que se consiga admirar a beleza das formas do edifício (porque não se vê), acho que ninguém perceberá qual a razão que levou a EDP a contratar o Prémio Nobel da Arquitectura. Nem que, por causa desse “luxo”, a barragem custe mais 2 milhões de euros. Ou haverá?

sexta-feira, março 02, 2012

Poema de agradecimento à corja

Joaquim Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Iniciou a sua carreira no Suplemento Literário Juvenil do Diário de Lisboa. O primeiro livro de Joaquim Pessoa foi editado em 1975 e, até hoje, publicou mais de vinte obras incluindo duas antologias. Foram lhe atribuídos os prémios literários da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura (Prémio de Poesia de 1981), o Prémio de Literatura António Nobre e o Prémio Cidade de Almada.
Poeta, publicitário e pintor, é uma das vozes mais destacadas da poesia portuguesa do pós 25 de Abril, sendo considerado um "renovador" nesta área. O amor e a denúncia social são uma constante nas suas obras, e segundo David Mourão Ferreira, é um dos poetas progressistas de hoje mais naturalmente de capazes de comunicar com um vasto público.

De Joaquim Pessoa um poema desgraçadamente intemporal:
“Poema de agradecimento à corja”


Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

quinta-feira, março 01, 2012

Germinal

Há poucos dias tive a oportunidade de ver uns minutos de um dos programas da manhã que passam na televisão e assisti a uma entrevista com o ex-secretário-geral da CGTP-Intersindical, Manuel Carvalho da Silva. Foi um excelente momento em que se percebeu que, para além de sindicalista empenhado, Carvalho da Silva é um homem culto.
Quando lhe perguntaram o que é que ele pensava da greve dos transportes (que estava a decorrer naquele dia) em que os trabalhadores grevistas impediam outros trabalhadores dos demais sectores de actividade de se deslocarem para os seus locais de trabalho, Carvalho da Silva respondeu que as lutas dos trabalhadores geram sempre problemas aos outros e, muitas vezes, aos próprios. E, a propósito, recordou o livro Germinal do consagrado escritor francês Émile Zola.

Germinal é tida como a principal obra de Zola e foi publicada em 1881. Baseia-se em factos reais e para escrever o livro o autor trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Germinal é, aliás, o primeiro romance a pôr em foco a luta de classes no momento de sua eclosão e descreve as condições de vida sub-humana dos trabalhadores, numa época em que apenas havia salários de subsistência.

Quando a obra foi adaptada ao cinema, o realizador quis mostrar as angústias e os sofrimentos que muitas vezes geram sentimentos contraditórios. Neste caso, um trabalhador queria fazer greve ao lado dos seus camaradas (porque achava justas as suas reivindicações) mas, por outro lado, sabia que se não levasse para casa o dinheiro da jorna, um dos seus dois filhos morreria de fome nessa mesma noite. O filme espelha as dúvidas e o desespero que atormentavam esse homem e, embora a película não indique claramente qual foi a sua decisão, vê-se uma imagem final que o mostra de braço dado com os outros mineiros festejando a vitória da sua luta. Adivinha-se, pois, qual tenha sido a sua escolha.

Como bem disse Carvalho da Silva, as lutas dos trabalhadores geram sempre problemas aos outros e, muitas vezes, aos próprios.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

O Panturras

Num destes dias “embarquei” numa aventura para a qual há muito me andavam a desafiar. Tinham-me falado de um restaurante, um tal “Panturras” que ficava algures ali para os lados de Santarém. Um sítio, no meio do nada, numa aldeia com um nome castiço – Advagar - um local onde se comia bem, o chamado tudo incluído, tipo farta-brutos. Lá fui, então, num dia de um radioso céu azul e com múltiplos tapetes de florinhas amarelas e brancas a salpicarem os campos.

Apesar de termos a morada e de o Google constituir uma preciosa ajuda, o certo é que nos enredados por caminhos que não conhecíamos e andámos às voltas vezes sem conta. Foram horas a mais para um trajecto que, se calhar, nem era de todo demorado. Chegámos tarde para o almoço mas ainda a tempo de disfrutar em pleno o que nos levara até ali.

Entrámos no Restaurante Panturras” pelo café (!?) e demos com uma sala ampla, com mesas corridas a lembrar as velhas tascas e várias dezenas de comensais a justificar a qualidade dos petiscos. Como a hora de almoço já ia adiantada, dos pratos principais só havia cozido à portuguesa e cabrito assado no forno. Éramos cinco mas as travessas abundantemente servidas dariam para mais alguns. Mesmo assim, disseram-nos que sempre que os chamássemos trariam mais comida. E chamámos para mais uma dose de batatas fritas que estavam de se lhe tirar o chapéu. O vinho era o da casa, servido em jarro, e bebia-se bem. As sobremesas nem as escolhemos, puseram-nos em cima da mesa duas bandejas redondas com todos os doces que ainda havia. Mousse de chocolate, arroz doce, pudim flã e doce da casa, várias unidades de cada, para tirar a gulodice de misérias. A rematar, cafés para todos e todos repetimos a dose. Toda esta comezaina por 9 euros por pessoa. Os requintes deixámo-los para outras ocasiões. Porém, encontrámos ali um atendimento simpático e eficiente e uma amabilidade genuína que noutros locais mais renomados nem sempre encontramos.

E valeu a pena ir tão longe para aquela refeição? Valeu! Estivemos descontraídos num ambiente despretensioso e não fora aquele “rally paper” inicial que nos fez parecer que estávamos do outro lado do mundo, ainda teria sido melhor. Mesmo assim, um dos elementos do grupo deixou escapar “Há coisas que só se fazem uma vez na vida: vir ao Panturras e ir ao Taj Mahal”, embora, a este último, se chegue mais depressa.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Mais mulheres na gestão das empresas

No último Conselho de Ministros foi aprovada uma resolução que obriga as Empresas do Sector Empresarial do Estado a terem mulheres nos Conselhos de Administração e Fiscalização. É certo que não fixaram a percentagem entre homens e mulheres (o Primeiro-Ministro parece que é contra as quotas) mas a vontade do Executivo é clara: tem que haver igualdade de sexos nos órgãos dirigentes.
Mas o Governo vai mais longe, quer que as empresas privadas onde o Estado é acionista e, também, as empresas do sector privado adoptem medidas similares.

Desculpem-me a franqueza mas parece-me um perfeito disparate colocar a questão deste modo. Relativamente ao Estado e ao seu sector empresarial, tudo bem (embora muito discutível). É uma decisão política mas é o Estado (através do Governo) a mandar no próprio Estado.
Agora nas outras empresas, quer onde o Estado tem acções mas não é maioritário, quer nas privadas, o Governo esquece que existem patrões e accionistas? É que quem manda nessas empresas, quem determina as suas linhas estratégicas e quem escolhe as suas equipas dirigentes são justamente os patrões ou os accionistas. E a intromissão do Estado não faz qualquer sentido.

E depois há a velha questão. Porquê mais mulheres nas Administrações? Só por razões de igualdade? A escolha dos respectivos elementos não deveria ter em conta apenas a competência, independentemente do sexo dos Administradores? No limite, a Administração poderia ser constituída só por mulheres ou só por homens, desde que o critério fosse justamente o da competência.

Os iluminados governantes deveriam saber que, por enquanto, a competência não se determina pelo sexo nem por decreto.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Gestores de carreira para desempregados


Nestes tempos esquisitos que vivemos, em que se tropeça a cada esquina com ditos infelizes e irreflectidos, proferidos por quem tem a obrigação de medir as palavras antes de as dizer, verifica-se que muitos (cansados e desiludidos) já interiorizaram que é melhor desculpar esses deslizes. E, pior ainda, constata-se que existe um certo acomodamento em relação às medidas tomadas por órgãos responsáveis pelo poder político e legislativo, mesmo as mais impensadas.

Daí que não tenha ficado muito surpreendido quando soube que o Governo ia criar gestores de carreira para desempregados. Ainda assim, achei a ideia uma enormidade. Gestores de carreira para … desempregados? O que é que eles queriam dizer com aquilo? Que raio de carreiras seriam essas destinadas a quem já não tem emprego?

Verifiquei depois que, afinal, o que se pretende é que sejam sempre os mesmos técnicos do IEFP a acompanhar (e orientar, presumo) as mesmas pessoas em situação de desemprego, para que estes não andem de departamento em departamento, de funcionário em funcionário, repetindo vezes sem conta a sua história. Assim sendo, a criação desta nova figura justifica-se. Faz até algum sentido, embora não resolva a situação de fundo, que é, não cria qualquer emprego.

O que parece completamente despropositado é o nome que arranjaram para a função. É que dizer a um desempregado, se calhar já há muito nessa situação, que o seu gestor de carreira o vai atender em seguida, é capaz de não cair lá muito bem …

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A função essencial das mulheres?

Foi nomeado no último fim-de-semana o 3º. Cardeal português, D. Manuel Monteiro de Castro. É a primeira vez que Portugal tem 3 Cardeais e isso encheu de orgulho a comunidade católica portuguesa. O que não “caíram” tão bem foram as palavras do seu primeiro discurso público, nomeadamente quando afirmou: “a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”.

Eu sei que o novo Cardeal tem 73 anos e é de uma geração em que o papel das mulheres era outro bem diferente do que têm hoje na sociedade. Mas isso não desculpa, de forma alguma, essa aberrante visão funcional das mulheres que, ao que li, nem corresponde, à posição oficial da Igreja Católica.

É inadmissível que, no século XXI, ainda se apele às mulheres para que abdiquem do seu direito legítimo de optar sobre o que querem fazer da sua vida. Poder escolher, em igualdade com os homens, se querem, ou não, ter uma profissão, uma carreira, uma vida paralela à sua função de mãe. É que educar é uma tarefa da mãe e também do pai e não apenas de um só.

Quero acreditar que D. Manuel não mediu bem as suas palavras, ou que, porventura, as suas palavras não traduziram adequadamente o seu pensamento.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Em que ficamos?

A notícia foi publicada num jornal da nossa praça. Miguel Relvas revelou que “os ministros vão deixar de ter direito a cartão de crédito para despesas de representação e a impossibilidade de andarem com o carro do Estado aos fins-de-semana e em deslocações que não sejam oficiais”. Medidas essas que o Governo pretende que constituam um exemplo. Porém, quanto às despesas, é melhor explicar que o facto dos senhores Ministros (e Secretários de Estado) não terem direito a cartão de crédito não significa que suportem do seu bolso as despesas que fazem em nome do Ministério. Não, claro que não, eles fazem as despesas na mesma e, mais tarde, serão naturalmente ressarcidos. Para além do “valor simbólico”, a medida pouco acrescentará. Com ou sem cartões de crédito o que é necessário é que haja um rigoroso controlo das despesas efectuadas. Mais nada.

Mas, se por um lado, o Governo se mostrou tão preocupado em anunciar esta medida de transparência destinada a dizer aos contribuintes “olhem para nós e vejam que também sofremos com os cortes”, por outro, como entender que o Gabinete do mesmo Ministro Miguel Relvas tenha gasto 12 mil euros na edição de um livro – Compromisso para uma Nação Forte – com uma tiragem de 100 exemplares e no qual está incluído o programa de governo (que nós poderíamos ir consultar a outras fontes) e um balanço dos primeiros 100 dias do executivo? Tal como fizeram todos os outros governos anteriores quando havia dinheiro a rodos.

Afinal, em que ficamos? “Poupa-se” de um lado e gasta-se estupidamente do outro? Onde é que está a tal poupança, o tal corte das gorduras do Estado que tanto se apregoa?

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

O pesadelo das palavras escritas



Fez precisamente um ano na última segunda-feira, dia 20, ainda Sócrates era primeiro-ministro, que a jornalista Maria de Lurdes Vale escrevia no Diário de Notícias uma crónica a que chamou: “Contra os que sempre passaram à frente”. Dizia nomeadamente:

”Terá de haver uma mudança de vida profunda, e já ninguém terá paciência para ser cúmplice de um regime que premeia os amigos e os conhecidos em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa. Ao contrário do que muitos pensam, esta revolta dos jovens de hoje talvez seja a primeira depois do 25 de Abril que tem pés e cabeça”

Como muitos não saberão quem é a estimada jornalista, sempre lhes digo que Maria de Lurdes Vale, depois de ter estado no Diário de Notícias, foi nomeada assessora de imprensa do Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira (com vencimento equiparado a Director-Geral: 3900 euros por mês, acrescidos de ajudas de custo e subsídios de alimentação, Natal e férias) e está agora na Administração do Turismo de Portugal, um Instituto Público.

Dado que não conheço a senhora, não me atrevo a fazer juízos de valor sobre as suas capacidades e competências. Porém, não posso deixar de realçar a subida meteórica e incomum, que conseguiu em tão curto espaço de tempo. Quando há um ano se revoltava - “já ninguém terá paciência para ser cúmplice de um regime que premeia os amigos e os conhecidos em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa” - provavelmente estava a fazer futurologia sobre o seu próprio trajecto. Se calhar também ela foi premiada por ser amiga ou conhecida de alguém e, quem sabe, em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa.

É o pesadelo das palavras escritas. E não há como fugir a elas.



sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Vergonha é roubar e ser apanhado



Uma cadeia de hotéis australiana lançou uma proposta ousada aos seus clientes. Num dos seus hotéis está escondida uma obra de arte avaliada em 11 500 euros e o desafio consiste em incitar os clientes a descobri-la e a roubá-la sem serem apanhados. Caso o consigam, podem ficar com ela.


Fiquei deveras confuso. Mas isto não é um estímulo ao roubo? Ou será que estou a interpretar mal tão genial ideia? E eu a pensar que a promoção das empresas era feita pelo apelo aos valores universais, às boas práticas que demonstrem o melhor que elas têm, à qualidade dos seus produtos e serviços. Pura ingenuidade …


A não ser que a iniciativa apenas tenha por objectivo confirmar a afirmação tantas vezes ouvida “Vergonha é roubar e ser apanhado”.