quarta-feira, abril 17, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa




"... há qualquer coisa em nós de que não gostam
Trazem palavras de outra língua ..."

São duas linhas apenas do poema de Manuel Alegre, "Resgate" (já aqui publicado), que servem de mote para o assunto que ando, há tempos, para partilhar convosco.

Se eu lhes dissesse

"葡萄牙文是我們最大的資產之一,並是非賣品。所以珍惜它!";
ou,
"Португальский язык является одним из наших крупнейших активов и не для продажи. Поэтому хранить его!"

ou, ainda,

"the Portuguese language is one of our biggest assets and is not for sale. So cherish it!",

 
o que é que me respondiam?

Eu sei que tenho os melhores e os mais eruditos leitores do mundo, que dominam fluentemente línguas tão diferentes como o chinês tradicional, o russo ou o inglês. Mas, numa conversa coloquial entre amigos não seria mais natural dizer simplesmente "a língua portuguesa é um dos nossos maiores activos e não está à venda. Por isso, acarinhem-na!"?

Desde sempre que sou defensor que se aprendam várias línguas. É uma questão de valorização pessoal e de necessidade face à cada vez maior globalização que vivemos. Mas, meus Amigos, faz algum sentido que em documentos oficiais internos ou - pesadelo dos pesadelos - nas redes sociais, portugueses dialoguem em inglês? Será que estarão mais seguros nesse idioma ou será, tão-somente, por que acham que escrever em português é uma atitude bacoca? Ao contrário, eu penso que essa necessidade de mostrar os vastos conhecimentos de outras línguas é que demonstra uma parolice pura.

Estudem e pratiquem outras línguas mas não se esqueçam de privilegiar a nossa. É seguramente o nosso maior capital cultural.
 
 

terça-feira, abril 16, 2013

Reformados, pensionistas e jubilados de primeira e de segunda



Se alguém me pedisse para explicar qual a diferença entre um reformado e um jubilado, teria sérias dificuldades em responder. O que sei - e deixo de lado os aspectos etimológico e semântico das palavras - é que reformados, pensionistas e jubilados são pessoas que já deixaram a sua vida activa de trabalho.

Aparentemente, portanto, todos estarão nas mesmas condições. Mas há, pelo menos, uma diferença que faz toda a diferença. Os juízes e os diplomatas jubilados não vão pagar a polémica contribuição extraordinária de solidariedade (CES) que é aplicada aos restantes reformados. Pergunta-se, pois, porque escapam eles ao pagamento do CES? E a única resposta razoável parece ser (para além de uma norma do Orçamento de Estado que contempla esta excepção) que, também no que diz respeito aos reformados, pensionistas e jubilados, existem uns que são de primeira e outros de segunda.

segunda-feira, abril 15, 2013

Senhores, estamos a falar de gente!




Ao mesmo tempo que no Conselho Nacional do PSD, realizado nos últimos dias, se aprovava um voto de louvor ao ex-Ministro Miguel Relvas por "inexcedível lealdade à causa pública" (????????), Passos Coelho anunciava que, por causa do malfadado chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo decidira cortar 1 300 milhões de euros aos portugueses, a começar por aqueles que "têm uma vida mais desafogada": os doentes e os desempregados. A uma percentagem significativa da população que já enfrenta montes de problemas mas que, como dizia o outro, "ai aguentam, aguentam" com mais uns sacrifícios em cima. Financeiros, sociais e psicológicos.

Já em Dublin, na reunião dos Ministros das Finanças europeus, Vítor Gaspar tinha revelado que o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses para responder ao chumbo do Tribunal Constitucional (TC) incidiria sobre os desempregados e os doentes apoiados pelo Estado.
Sublinho, "o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses".

Mas factos são factos. Se os tipos do TC inviabilizaram um OE "tão bem feito" pelo Governo, havia que ir buscar a "massa" a outro lado. Onde? Ao sítio certo: aos quase 420 mil beneficiários do subsídio de desemprego e aos quase 95 mil que recebem subsídios por doença. Exactamente às pessoas que desesperam por não encontrar um emprego que lhes pague as contas e lhes devolva a auto-estima ou que estão fragilizadas pela doença.

Será que sensibilidade social diz alguma coisa a estes senhores?
 
 

sexta-feira, abril 12, 2013

"Esperança"

Costumo publicar aqui no Por Linhas Tortas poesia de autores mais ou menos conhecidos. Hoje trago-vos um poema de um grande Amigo meu, desconhecido do público em geral mas a quem eu quero homenagear, não só pela amizade mas pelo seu talento enquanto poeta.



Então, de António Carlos Asseiceiro, "Esperança"





"Esperança"

(Olhando os retratos deles ainda novos)

Todos tínhamos tanta esperança, eles, tu e eu…

Tanta da nossa esperança ficou p’lo caminho,

Tanta dessa nossa esperança se esfumou e ardeu,

                                  nada ficou nem um bocadinho,

                                  do que se quis, pensou e viveu,

Do mal casado ao que ficou sozinho

A esperança foi uma dança… mansa!


Que ora se perdeu ou quase morreu!
 
                               Ora não se alcança,
 
Ora nada se tem, ora se tem tudo,
 
                               até… a esperança!...   

quinta-feira, abril 11, 2013

Experiência para quê?



Recordo-me sempre da frase de Sócrates (do filósofo, não a do regressado ex-Primeiro-Ministro) - "Só sei que nada sei" - quando julgo conhecer bem determinado assunto e, depois, acabo por concluir que, afinal, não sabia a coisa tão bem como pensava. Como me aconteceu, há dias, quando soube que um membro do Governo tinha nomeado dois assessores (especialistas). E porquê?

Julgava eu que a grande diferença entre um técnico e um especialista se baseava fundamentalmente na experiência. A ambos é requerida, claro está, a formação académica adequada e a preparação específica para um cargo mas, uma vez alguém admitido, seria espectável que começasse por ser técnico e, depois, pelo menos para alguns deles, com o tempo e a experiência adquirida, pudessem ascender a especialistas. Seria natural que, até por uma questão de maturidade, assim acontecesse.

Mas vivemos numa era onde tudo se passa a uma velocidade estonteante. Daí que os especialistas (sejam lá do que forem) "nasçam" cada vez mais cedo.

Foi certamente por isso que o Secretário de Estado-Adjunto do Primeiro-Ministro, Carlos Moedas, nomeou dois "técnicos especialistas", de 21 e 22 anos, para integrar a equipa de "acompanhamento da execução de medidas do memorando". O Governo justificou as contratações com os "excelentes currículos académicos, o que "lhes confere alguma competência (?)".

Um deles, o de 21 anos, tem uma licenciatura em Economia e um brilhante percurso profissional: "um estágio profissional não remunerado no Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e Emprego, entre Setembro e Dezembro de 2012". Ah, e foi comentador algures e escreveu num blogue.

O outro, com uns tenros 22 aninhos, está a concluir um mestrado em Administração de Empresas e, como experiência profissional orgulha-se de ter também feito um estágio no mesmo Gabinete entre Junho e Agosto de 2011.

Apesar de já em Janeiro deste ano, uma auditoria do Tribunal de Contas aos gabinetes ministeriais questionar "o grau de experiência profissional" dos 164 especialistas até então contratados para os gabinetes ministeriais, já que 15,3% tinham entre 24 e 29 anos, o Governo continua a insistir nestes jovens que se transformam num abrir e fechar de olhos em especialistas, talvez lembrando o ditado "De pequenino é que se torce o pepino" (a letra da canção do Sérgio Godinho diz "De pequenino, de muito pequenino se torce o destino".

Pode até ser que não sejam ainda tão grandes especialistas como isso mas estarão, entretanto, a fazer currículo e a assegurar o futuro.

quarta-feira, abril 10, 2013

Isto é um país fantástico. E animado ...


Isto é um país fantástico. Mal nos ausentamos uns dias e logo acontecem uma série de coisas que nos levariam a escrever crónicas mais ou menos contundentes e que, assim, ficaram por fazer.

De qualquer modo, acompanhámos o chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional. Coisa que, de resto, toda a gente adivinhava que iria acontecer. Também aqui no Por Linhas Tortas nos tínhamos referido por diversas vezes a essa mais que provável decisão. E agora, o imbróglio que já era grande tornou-se ainda maior. Há que ir buscar dinheiro a outro lado (adivinhem onde) para colmatar aquele que viria do saque programado.
"Malandros", pensou o Primeiro-Ministro. Os juízes do TC foram os culpados por este problema adicional que não vem nada a jeito. A verdade, porém, é que foi o Governo que voltou a insistir em normas que eram claramente inconstitucionais, tal como fizera no ano anterior. Pela segunda vez consecutiva, um orçamento de Estado é considerado inconstitucional. Duas vezes seguidas? Se não é incompetência, é o quê?
Quanto ao TC só poderá ser acusado de ter prolongado por tempo exagerado a sua análise. Fica-nos, pelo menos, essa impressão.

Soubemos, também, da renúncia ("por não ter condições anímicas para continuar") de Miguel Relvas. Foi uma saída esperada mas demasiado tardia. Na sua última comunicação, enquanto Ministro, não deixou de sublinhar o seu esforçado trabalho para levar Passos Coelho à liderança do PSD e à chefia do Governo. Um discurso em que ficou claro que sem Relvas, a sua ajuda e o seu empenho, Coelho não iria longe. Mas mais do que isso, foi um tipo de afirmação deselegante e desnecessária, muito ao jeito das pessoas sem carácter.

No mesmo dia do anúncio de Relvas quem teve grande força anímica foi o Benfica que conseguiu uma vitória importante sobre os ingleses do Newcastle, por 3-1, que lhes abre a perspectiva de seguirem em frente na Liga Europa.

Tudo em poucos dias. Isto é um país fantástico. E animado ...
 
 
 

terça-feira, abril 02, 2013

Sabem as respostas ou ... não?


Se bem me recordo publiquei aqui, há muito tempo, uma poesia da Adriana Calcanhoto, "A idade dos porquês". Os versos reflectem a curiosidade natural das crianças que tudo perguntam, muito embora, nós adultos, nem sempre tenhamos a capacidade de lhes dar as melhores respostas.

Hoje, lembrei-me de algumas perguntas (parvas) que, provavelmente, também nós crescidos e cheios de experiência, temos dificuldade em responder. Por exemplo:

- Se depois do banho estamos limpos porque é que lavamos a toalha?

- Porque é que a palavra grande é menor do que a palavra pequeno?

- Porque é que separado se escreve tudo junto e tudo junto se escreve separado?

- Se o vinho é líquido, como pode existir vinho seco?

- Quando inventaram o relógio como sabiam que horas eram para poder acertá-lo?

- Como foi que a placa "É Proibido Pisar a Relva" foi lá colocada?

- Porque é que quando alguém nos pede que ajudemos a procurar um objecto perdido temos a mania de perguntar: 'Onde é que o perdeste?

- Porque é que há pessoas que acordam os outros para perguntar se estavam a dormir?


E, então, sabem as respostas ou ... não?

segunda-feira, abril 01, 2013

Quando a narrativa é falsa


 
Sei bem do que é que estavam à espera quando viram o título da crónica de hoje. Mas equivocaram-se. Embora eu continue a dizer que a narrativa é falsa.

Repetidamente, ao longo dos anos, sempre nos quiseram convencer que nas noites em que muda a hora (Março e Outubro), para as chamadas horas de Verão e de Inverno, nós dormimos menos uma hora ou mais uma hora, consoante a época. Nada mais falso.

Verifiquei isso mesmo na última noite de sábado para domingo. Em vários serviços informativos da rádio e da televisão disseram-nos que à uma da manhã deveríamos acertar os relógios, acrescentando 60 minutos à hora em vigor, passando, portanto, da uma para as duas horas. Razão pela qual dormiríamos menos uma hora nessa noite. Porém, ontem de manhã quando acordei, tinha dormido as mesmas sete horas de sempre.

Para quê este embuste? Um simples acertar de relógios (que, ainda por cima, nos dão um trabalho dos diabos) justifica tamanha mentira? Ainda se fosse no 1º de Abril ... o dia das mentiras ...

Não, meus senhores, não é isso que me faz dormir menos ou mais horas. Hoje não me apetece, mas poderia abrir aqui o saco das lamentações e, aí sim, eu vos diria o que me tira realmente o sono.
 
 

quarta-feira, março 27, 2013

Os juízes decidiram, está decidido!


Provavelmente muitos já se terão esquecido da questão que opunha, desde 2007, o Estado à empresa organizadora do III Salão Internacional Erótico de Lisboa e da Feira Sex07. Recordo que nessa altura os espectáculos, as provas desportivas e outros divertimentos públicos - incluindo os de carácter pornográfico - tinham o IVA à taxa reduzida. Porém, o Estado, por razões de puro decoro ou simplesmente porque achou que poderia sacar mais umas massas nos eventos erótico/pornográficos, que são muito concorridos, resolveu reclamar 76 mil euros por considerar que este tipo de espectáculos não se encaixava bem junto dos outros. Claro que diferendo teve que ser resolvido pela justiça.

O Tribunal de Primeira Instância deu razão à empresa e a Relação confirmou a sentença anterior. Sem prejuízo do que vier a ser decidido num eventual recurso para o Supremo, temos que, para já, o Estado tem que aceitar que este tipo de actividade - em termos fiscais - está no mesmo patamar dos demais.

Goste-se ou não (destes espectáculos e das decisões proferidas), os juízes decidiram, está decidido! Mas o que achei mais interessante no acórdão foi a justificação do Tribunal para a sentença:

"As actividades de feira são apenas uma forma de atrair público para a verdadeira finalidade do evento: a venda de bens e serviços pelos expositores. Situação que, independente da temática do evento, pode ser sexo ou um salão automóvel".
 
 

terça-feira, março 26, 2013

Condescendência para com os políticos? Porquê?



Lembram-se de ler há pouco tempo uma notícia em que mais de metade dos pilotos (portugueses e não só) admite ter adormecido, por fadiga, durante o voo? Então, toda a gente ficou preocupada. Daí que se começasse imediatamente a discutir a uniformização da legislação sobre horas de voo pela Agência Europeia de Segurança Aérea.

Os pilotos não podem dormir enquanto comandam ... mas às vezes ...

E quando sabemos que, por negligência, um cirurgião, deixou morrer um paciente ou esqueceu qualquer material cirúrgico dentro do doente após terminada a cirurgia? Não ficamos revoltados e não tentamos que aquele médico seja imediatamente afastado da sua actividade?

Os médicos enganam-se mas ... não podem.

Curiosamente com os políticos somos muitíssimo mais transigentes. Dizemos mal deles nas conversas entre amigos nos cafés e zangamo-nos com as medidas que tomam porque as achamos desajustadas e injustas. Mas pouco mais fazemos. E quando questionamos, por exemplo, porque é que o actual Governo não acerta uma previsão, uma meta que seja, obtemos (como eu li) uma resposta vinda de um Professor Catedrático de Economia: "Porque somos humanos, não somos deuses".

É a resposta mais abstrusa que já vi e que não pode desculpar os políticos da incompetência e da impreparação que muitas vezes demonstram. Se não aceitamos os erros de aviadores e de médicos (só para citar estas duas profissões), que são humanos como os demais, porque somos tão condescendentes para com os políticos que dão cabo da vida de cidadãos e países? Só porque os seus erros não matam? Não matam mas vão corroendo a paciência e a saúde das pessoas.
 

 

segunda-feira, março 25, 2013

No país das petições


Nunca como agora, com a utilização da internet e das redes sociais, as petições tiveram tão ampla divulgação. Por dá cá aquela palha "inventa-se" uma petição a favor disto ou contra aquilo. Há mesmo sítios específicos na net onde se podem criar ou consultar petições.

As (várias) que na última semana fizeram mais ruído foram as petições sobre a contratação do ex-primeiro-ministro José Sócrates pela televisão pública.

Os que não o querem ver nem pintado na televisão do Estado, acusam-no de gestão danosa, dizem que ele é o principal arquitecto do descalabro político/económico (e o verdadeiro ladrão) do país. Já os seus indefectíveis, sustentam que Sócrates foi um dos melhores políticos de Portugal e que ele tem todo o direito de ser comentador político da RTP.

Não sei se será boa ideia pôr os políticos encartados na pele de analistas políticos. Por definição um analista analisa e um político marca a sua agenda e faz propaganda. Genericamente é assim. E isto aplica-se a Sócrates bem como a todos os ex-governantes e ex-líderes partidários que já hoje têm lugar cativo nas televisões como comentadores.

Para mim, esta história das petições cheira-me a folclore. O balanço das governações depende da avaliação de cada um. Há em todas elas pontos fortes e pontos fracos e num estado democrático as contas são acertadas ou em eleições ou na dissolução de um Governo pelo Presidente da República, de acordo com a Constituição. Petições ou quejandas pouco acrescentam. E, porque respeito a liberdade de expressão e de escolha, acho que há sempre lugar para quem queira aparecer, gostemos nós deles ou não. E, depois, há sempre a possibilidade de mudar de canal ou desligar a televisão.
 
 

sexta-feira, março 22, 2013

Ser pessimista é ...


 
Os primeiros versos do poema de Florbela Espanca, "Ser Poeta", começa exactamente por:

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!"

Da mesma forma (embora sem o sentido poético de Florbela), bem se poderia afirmar que ser pessimista é (ou pode ser) a chave da longevidade. E isto porquê? Porque, num estudo alemão agora publicado se conclui que "os mais pessimistas sobre as perspectivas de felicidade futura vivem mais tempo e em melhor estado de saúde do que aquelas que são optimistas. As pessoas mais velhas que esperam um nível de satisfação limitado sobre a sua futura situação pessoal vivem mais tempo do que aquelas que imaginam um futuro cor-de-rosa".

Claro que são vários os pressupostos que sustentam a tese destes investigadores da Universidade Friedrich-Alexander de Nuremberg, mas dá-nos um certo alento pensar que o pessimismo generalizado dos cidadãos, pode ser a chave para uma maior longevidade. Quanto a mim, como estou muito pessimista quanto ao futuro terei, certamente, mais uns bons anos de vida pela frente. Haja força para resistir.

 

quinta-feira, março 21, 2013

A corrida aos Bancos no Chipre



Pela primeira vez na história do Euro o resgate financeiro de uma nação impôs como garantia uma taxa dos depósitos nos bancos, que oscila entre os 6,75% para depósitos inferiores a 100.000 euros e 9,9% aplicável aos restantes. Porém, o Parlamento cipriota não aceitou essa decisão, mesmo correndo o risco de lançar o país na bancarrota e, eventualmente, ter que sair do euro.

Aconteceu no Chipre e sobressaltou todos os países do euro. Sossegados que estávamos com os discursos sobre a protecção das poupanças dos depositantes dos sistemas bancários, ficámos em transe quando assistimos aos cipriotas correram em desespero para os multibancos para tentar salvar algum do seu dinheiro. Uma acção capaz de ter réplicas noutros países. E andámos nós tão preocupados com os "riscos sistémicos" que poderiam resultar de uma eventual falência do BPN. Tanto que o nacionalizámos, com todos os prejuízos que daí resultaram.

A medida (como contrapartida da aprovação do resgate) não foi decidida pelo Governo de Nicósia (foi imposta pelo Eurogrupo) e põe a nu que, para os eurocratas de Bruxelas (indiferentes às regras democráticas), vale tudo e que não há qualquer respeito pelos direitos das pessoas.

E agora, que confiança podemos ter nos sistemas bancários/financeiros? Qual a sua estabilidade, que riscos e perigos podem advir de tais sistemas? A confiança, a pouca que ainda restava, parece ter sido definitivamente quebrada.

Segundo li, muitos economistas pensam que taxar os depósitos que os cidadãos europeus confiaram aos seus bancos não é uma carta fora do baralho nos programas de assistência financeira das economias do euro. Portugal incluído.

Embora sabendo que o Chipre, tem um sistema bancário maior do que a própria economia (ainda por cima com um ingrediente suplementar: a lavagem de dinheiro da máfia russa), a partir de agora não sei se teremos que repensar qual será a melhor maneira de guardar as nossas parcas poupanças.

 

quarta-feira, março 20, 2013

Chega!



Estamos fartos da hipocrisia destes Governantes que têm posto de pantanas este pobre país. Chega! E já não pegam as desculpas com os erros do passado e, especificamente, com a desastrosa governação dos governos socialistas. É que desde que este executivo tomou posse tudo tem desabado rapidamente como um castelo de cartas e não se vêem medidas que possam inverter a situação, a curto ou a médio prazo.

Depois dos incitamentos à emigração (de jovens e menos jovens) e de afirmar insistentemente que as crises podem ser uma janela de oportunidades, Passos Coelho diz agora que na reforma do Estado as rescisões com funcionários públicos são "uma oportunidade e não uma ameaça para uma requalificação da administração". E tão certo está do que pretende fazer, que foi já definido por onde vai começar: os trabalhadores das categorias de assistente operacional e de assistente técnico serão os primeiros alvos das rescisões. Precisamente aqueles que ganham menos e que sustentam o funcionamento do Estado.

Tretas! O que percebemos, afinal, é que a refundação e o redimensionamento da administração pública mais não são que puro despedimento de funcionários.

E o desemprego sobe, sobe, sobe. Até onde?

Como escreveu Lobo Antunes "As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa (nós, os cidadãos) somos incapazes de enxergar a capacidade purificadora destas medidas".

terça-feira, março 19, 2013

O verdadeiro défice ...



Ainda sobre Vítor Gaspar (de quem os cronistas e humoristas tanto gostam, calcula-se porquê), ao ouvi-lo no discurso que aqui referi ontem, lembrei-me dos "relatórios e contas" de muitas empresas: o relatório para as Finanças (por causa dos impostos a pagar), o relatório para a Banca (por causa dos investimentos) e o relatório da empresa (em princípio, o que espelhava a verdade das suas contas).

E recordei-me disto porque Vítor Gaspar revelou no tal discurso que houve três valores de défice em 2012: 4,9% (para a troika), 6,6% (para INE/Eurostat) e 6% (saldo orçamental sem efeitos pontuais).

A verdade, porém, é que o Ministro das Finanças apenas nos quis confundir. Ele sabe bem, e nós sabemos também, que o que conta verdadeiramente é o défice em contabilidade nacional que foi, como se viu, de 6,6%, bem longe dos 4,5% previstos.

Para quê estas habilidades? Ainda por cima vindas de uma pessoa que era vista como rigorosa e competente e que, portanto, merecia toda a credibilidade. Será que ainda merece?

 

segunda-feira, março 18, 2013

No bom caminho? Que raio de conversa é essa?



Na conferência de imprensa em que comunicou os resultados da sétima avaliação da troika, o ministro das Finanças anunciou (e agravou) as perspectivas para a economia portuguesa para este ano. O PIB cairá 2,3%, muito acima das previsões de 1% definidas no Orçamento do Estado, o desemprego (oficial) deverá chegar aos 18,2%, atingindo nos últimos meses a barreira dos 19% e o défice público para este ano passará de 4,5% para 5,5%.

Perante tantas previsões falhadas, Vítor Gaspar continua a dizer-se preocupado mas que "continuamos no bom caminho". No bom caminho? Mas que raio de conversa é essa se tudo está a desabar em cima de nós? Os sacrifícios para os portugueses são cada vez maiores e os resultados pioram a olhos vistos. Perante mais este "falhanço colossal" da receita aplicada, Vítor Gaspar deveria ter terminado o seu discurso com uma simples frase: "Por tudo isto, obviamente, apresento a minha demissão do Governo".

Recordo que, há uns tempos (em 2010), Passos Coelho dizia: “Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos e pelas suas acções”.

De facto, ele disse isso mas ... já esqueceu!
 
 

sexta-feira, março 15, 2013

Ouvindo Beethoven


De José Saramago, "Ouvindo Beethoven"

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a presa de registro, o verso acta.


Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

quinta-feira, março 14, 2013

Cuidemos da saúde ... façamos férias



Noutras épocas, quando ainda nos era permitido sonhar, em Março, mais coisa menos coisa, começava-se a pensar em férias. Projectavam-se destinos ou ansiava-se, simplesmente, por tempos de lazer, que passavam muitas vezes por umas semanas de praia. Hoje as coisas estão mais difíceis, a falta de dinheiro obriga-nos a outras prioridades e as férias foram secundarizadas, quando não esquecidas.

Mas o Mundo não pára e, recentemente, realizou-se a Feira de Turismo na FIL e, em breve, será a vez da Abreu mostrar o seu pacote turístico para 2013/2014. Temos que voltar a sonhar em fazer de férias até porque, para além do lazer e da cultura, ir de férias faz bem à saúde.

É isso mesmo que conclui um estudo britânico que comparou a saúde das pessoas que fizeram férias com a daqueles que ficaram em casa e continuaram a trabalhar.

Segundo o estudo, "ir de férias é benéfico porque contribui para a redução da pressão arterial, alivia o stress, melhora a qualidade do sono e, em última instância, rejuvenesce o nosso corpo". Esmiuçando, a pressão arterial daqueles que foram de férias diminuiu 6%, ao passo que a dos trabalhadores que se mantiveram nos seus escritórios subiu 2% durante o mesmo período. A qualidade do sono das pessoas que descansaram num país estrangeiro melhorou 17%, ao contrário do que aconteceu com a outra metade do grupo, na qual se observou uma diminuição na ordem dos 14%. A capacidade de recuperar do stress aumentou 29% naqueles que foram de férias mas registou-se uma quebra de 71% nos que ficaram em casa. As férias contribuíram, ainda, para que o grupo que viajou assinalasse uma diminuição significativa nos níveis de glicose no sangue, o que contribuiu para a redução do risco da diabetes e obesidade e melhoria do humor e dos níveis de energia.

E então, o que é que estamos à espera para melhorar a saúde e voltar a sonhar?

quarta-feira, março 13, 2013

Descobri-te, La Féria ... foste tu!




Li recentemente uma entrevista concedida por Filipe La Féria ao "Económico", já em Novembro do ano passado e descobri que foi ele o verdadeiro culpado por termos Passos Coelho à frente do actual Governo.

A certa altura perguntava o jornalista: "Preferia ter Passos Coelho a cantar numa das suas peças ou no Governo?"

E a resposta de La Féria foi: "Acho que ele era mais feliz se fosse cantor. Ele é um bom cantor. Eu fui o culpado, de facto, de ele agora ser primeiro-ministro (risos). Ele concorreu para fazer o "My Fair Lady" e eu escolhi outro. Porque ele é barítono e o outro era tenor. Mas Pedro Passos Coelho teve dúvidas sobre que carreira devia seguir... contou-me que havia um congresso do PSD no Coliseu. E em vez de ir para o Coliseu, foi para a audição.

Bingo, finalmente sei quem tu és, La Féria. "A partir de agora, doravante e pró futuro" nunca mais porei os pés num espectáculo teu. O homem (o Passos) pode até ter uma boa voz mas a "cantiga" dele não me convence. E tu sabes do que é que eu estou a falar. Afinal, também tu te queixas das más políticas (especificamente as da cultura) ...

 

terça-feira, março 12, 2013

É uma pena ... uma padaria histórica em risco de destruição


 
Já aqui escrevi diversas vezes que me sinto muito mais tranquilo desde que existe a ASAE. Apesar das recentes notícias sobre as aldrabices dos compostos alimentares à base de carne, as regras que, nas últimas décadas, foram implementadas para a melhoria das condições sanitárias dos alimentos que consumimos, só podem deixar-nos mais descansados.

Porém, não exageremos na fórmula. Como costumo dizer, regras em demasia fazem-me azia e, em nome de tanta segurança, podem destruir-se, pelo exagero, outras coisas igualmente importantes.

É o caso de uma padaria Art Déco - uma autêntica raridade - que existe em Lisboa desde 1933, cujo balcão, intacto e em óptimas condições, em pedra lioz e mármore, pode ter de ser destruído por não ser refrigerado.

A padaria, da autoria do engenheiro Pedro Nunes, está intacta e é revestida de azulejos da famosa Fábrica Lusitânia, com motivos Art Déco, incluindo dois painéis ovalados retratando o fabrico de pão e criados especificamente para este estabelecimento. Os mosaicos do pavimento, os estuques do tecto e a frente de loja com montras em caixilharias de ferro são outros elementos decorativos que representam o período Art Déco.

Modernidade sim, mas com conta, peso e medida. Por isso se pede bom-senso e que as novas leis da Segurança Alimentar não sejam cegas e indiferentes a esta delapidação artística da, muito provavelmente, única Padaria Art Déco que resta na capital, com este nível de autenticidade e qualidade artística.
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, março 11, 2013

Descer o salário mínimo? Só podem estar a gozar ...


 
Ainda na quarta-feira passada eu escrevia aqui que Passos Coelho se mantém "firme e hirto" na linha que traçou quando se tornou Primeiro-Ministro e não se desvia um milímetro que seja dessa linha, mesmo estando a coisa a correr mal.

Certamente por isso é que no último debate quinzenal que se realizou na Assembleia da República, afirmou que "aumentar o salário mínimo nem pensar". Pelo contrário: "Quando um país enfrenta um nível elevado de desemprego, a medida mais sensata que se pode tomar é exactamente a oposta", concluiu. Ao ouvir isto pensei ter percebido mal. Estaria ele a insinuar que se deveria baixar o já baixo salário mínimo? Estava, porque logo a seguir afirmou: " ... foi isso que a Irlanda fez, ou seja, baixou o salário mínimo nacional".

O que ele não disse, mas toda a gente sabe, é que o salário mínimo em Portugal é de 485,00 euros (embora pago 14 vezes por ano corresponda a 565,63 €) e o da Irlanda é de 1 462 euros (mesmo depois de já terem feito a tal redução), portanto, bem mais alto do que o nosso. A não ser que Passos Coelho queira comparar o nosso salário mínimo aos que são praticados na Roménia (157 euros) ou na Letónia (287 euros).

Passos justifica a sua recusa em considerar qualquer aumento, no facto de uma eventual subida poder provocar mais desemprego. Contrárias, porém, são as opiniões de todos os parceiros sociais, incluindo os patrões (CIP e CCP) que admitem discutir o assunto.

É bem visível a linha ideológica defendida pelo actual Governo. E os seus gurus de serviço, à cabeça dos quais figura sempre o inefável António Borges, opinam, claro está, que o valor actual do salário mínimo (os "imensos" 485 euros) deve ser mantido como está, mas - acentuando a posição - refere que o combate ao desemprego podia ser mais eficaz se os vencimentos fossem reduzidos. A mesmíssima coisa que defende o Primeiro-Ministro.

Borges, o consultor do Governo pago generosamente pelos contribuintes, acaba por habilidosamente "dourar a pílula" ao dizer que "ninguém quer um país de gente pobre". Não sei é se ele não estará a pensar apenas em si próprio.


quinta-feira, março 07, 2013

O "entroikado"



Sempre achei ridículas as iniciativas que têm por objectivo único fazerem parte do Guiness ou aquelas "invenções" que não servem rigorosamente para nada.

Tal como achei desnecessária aquela votação recente organizada pela Porto Editora, em que foi escolhido o adjectivo "entroikado" como a palavra que melhor representa o ano de 2012. Bem, e o que é que ganharam com isso a nossa língua e os portugueses? Nada!

Mas foi essa a palavra escolhida (que nem sequer consta no nosso dicionário), superando os vocábulos “desemprego” e “solidariedade”, essas sim, já existentes na nossa língua. Com o "entroikado" a rapaziada pretende transmitir que foi "obrigada a viver sob as condições impostas pela troika" ou "que está numa situação difícil". Enfim, "que está tramada, que está lixada".

Segundo li, há especialistas que destacam a musicalidade da palavra, a sua força e expressividade. Não acho nada disso e, para mim, a sua utilização é apenas mais uma moda que passará com o tempo. Admito que traduza o sentimento geral que se vive no país, mas não me parece que seja suficiente para que tenha sido tão utilizada em textos escritos e em publicações periódicas, impressas e digitais, em 2012. Tão-pouco que tivesse tão grande impacto na utilização quotidiana dos portugueses que a leve à integração no nosso vocabulário. Pelo menos, aqui, no "Por Linhas Tortas" não me recordo de o ter utilizado uma vez que fosse. Desculpem lá!

quarta-feira, março 06, 2013

Quando um Nobel da Economia não entende certas opções ...



Tantas vezes citado por políticos (quando as suas teses lhes eram convenientes), Paul Krugman, Prémio Nobel de Economia em 2008, parece ter sido esquecido quando, recentemente, disse "não entender a paixão europeia pela austeridade", acrescentando até que "defensores da austeridade estão a parecer cada vez mais insolentes e delirantes".

E nós que temos sofrido na pele essa insolência delirante traduzida em medidas de austeridade severas, sempre revistas e aumentadas, já há muito que tínhamos percebido - até pelos resultados que são anunciados - que esta obsessão pela redução do défice não nos tem conduzido a lugar algum. Ou antes, tem. À recessão e ao desemprego - que são cada vez maiores - e à debilidade da economia.

Mesmo assim, mesmo depois do próprio FMI ter feito um impressionante "mea culpa" quando admitiu ter subestimado os danos infligidos pela austeridade, o Governo de Passos Coelho segue "firme e hirto" com os propósitos traçados desde que tomou posse, caminhando cegamente na direcção do abismo.

E nem sequer é necessário ter ganho um Nobel de Economia para se compreender que aquilo que Paul Krugman afirmou: "As nações que impuseram políticas de austeridade severas sofreram crises económicas profundas; quanto mais severa a austeridade, mais profunda foi a recessão" é uma verdade absoluta.

terça-feira, março 05, 2013

APRE! sem-vergonha tem limites


 
Vai ser hoje apresentado em Lisboa o "Movimento dos Reformados Indignados - (MRI)" que se propõe "tomar posição face à situação de profunda crise social vivida pelo país e aos ataques que o Governo está a fazer aos reformados". O MRI está, também, "contra a famigerada taxa CES (Contribuição Extraordinária de Solidariedade), que constitui um instrumento de espoliação dos reformados e pensionistas". Mais, o movimento adianta, ainda, que "os ataques que estão a ser feitos aos reformados bancários, retiram-lhes diariamente os instrumentos sociais de sobrevivência, fustigando-os com taxas e impostos incomportáveis para a classe".

Até aqui tudo bem. É mais um movimento de defesa dos reformados (grupo que vai crescendo velozmente) a juntar-se ao APRe - Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados, que já vai fazendo o seu caminho.

Porém, fiquei extremamente chocado quando li que o MRI vai ser presidido pelo ex-presidente do Banco Comercial Português (BCP), Filipe Pinhal, em conjunto com o Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários.

Qualquer reformado, bancário ou não, tem bastas razões para se sentir revoltado com os cortes que está a sofrer mas, Filipe Pinhal não é um reformado qualquer. Foi afastado do BCP depois do escândalo das "offshores" do próprio banco (foi condenado e está a ser julgado o recurso) e, ao que se sabe, recebe uma reforma milionária.

Filipe Pinhal pode até sentir-se indignado por ter sofrido cortes na sua reforma, mas aconselharia o bom-senso que, atendendo ao seu passado e à pensão privilegiada que aufere, o melhor teria sido ficar calado. É que há reformados e ... reformados.

APRE! foi o que me apeteceu exclamar. APRE como expressão designativa de espanto, irritação, impaciência ou repulsa e não o da sigla da Associação de Reformados, que essa termina com "e" pequeno.

 

segunda-feira, março 04, 2013

"Tava" tanta gente ...




Era uma multidão imensa quando cheguei. E continuou a engrossar com gente vinda de todo o lado, numa alegria tensa que mostrava determinação, revolta, raiva, desespero e vontade de mudança.

Não gosto muito do nome do principal movimento que promoveu a manifestação: "Que se lixe a troika". Questão de pormenor, talvez, e que não invalida que a dita se lixe mesmo. Mas preferia um nome mais sonante, mais criativo. E porque não "Que se lixe o Governo"? Ou que se lixe alguém que não sejam sempre os mesmos?

Mas, dizia, era de facto uma manifestação "colossal". Cerca de meio milhão (há quem jure que seriam oitocentos mil) de almas só na manifestação de Lisboa (um milhão e meio em todo o país). Uma "maré cheia" de gente, como li algures. E, por serem tantos, não estranhei não encontrar nem o Passos Coelho nem o Miguel Relvas, nem qualquer outro elemento do executivo. Certamente que estariam por lá, mergulhados na multidão, se calhar com o Passos empunhando um cartaz a dizer mal do Relvas e, este, envolto numa faixa que deitava abaixo o Passos. Mas vi muitos dirigentes políticos da oposição e dos movimentos sindicais e, até, um dos militares de Abril. Mas, à minha volta vi, sobretudo, muitos jovens e outros bem menos jovens para quem o presente é extremamente difícil o futuro uma incógnita. Passei por uma pessoa que segurava um cartaz onde se lia "Sem Presente e Sem Futuro" e que me fez pensar que eu bem poderia levantar um cartaz onde se lesse a minha própria vivência "Com Um Passado Sofrido, Sem Presente e Sem Futuro". Vi muitos desempregados, vi e ouvi famílias inteiras a clamar por mudanças, por melhor saúde, por mais oportunidades de emprego (sem que seja necessário procurá-lo noutros países), por melhor justiça, por menos impostos, por menos austeridade. Vi pessoas desfilando pelas ruas, convictas dos apelos que faziam e dos cartazes que levantavam, enquanto, aqui e ali, se juntavam às palavras de ordem ou entoavam os versos, sempre exaltantes, de "Grândola, Vila Morena".

E todas estas pessoas percorreram ordeiramente as ruas, dando sinais ao Governo, à troika e à Europa que alguma coisa tem que mudar e rapidamente. E se quem nos governa ainda necessitava de sentir o pulsar dos cidadãos, a resposta dada foi clara. Passos Coelho tinha desvalorizado a iniciativa, mas tenho esperança que o mote "O Povo é quem Mais Ordena", cantado vezes sem conta durante a manifestação, o tenha feito reflectir.

 

sexta-feira, março 01, 2013

Um exemplo de político



Eu sei que o escândalo de corrupção que rebentou em cima do Primeiro-Ministro espanhol Mariano Rajoy não passa, por enquanto, disso mesmo, de um escândalo. Mas confirmando-se, ou não, essas suspeitas o certo é que são muitos os políticos que entram (ou que se põem a jeito) em certos esquemas e, daí, acreditar-se cada vez menos em quem entregamos a condução dos nossos destinos.

Por isso, quando há uns tempos li no El Mundo um artigo sobre José “Pepe” Mujica, de 77 anos e Presidente do Uruguai, onde se considerava que era o Presidente mais pobre do mundo, torci o nariz cheio de dúvidas. Logo num país de uma região onde os níveis de corrupção tomam proporções gigantescas? Mas não quis tirar conclusões precipitadas e “googlei” (como agora se diz) para tirar isso a limpo.

De facto o Presidente do Uruguai parece ser uma excepção. Vai para o trabalho todos os dias a guiar o seu modesto automóvel de 1300 c.c. de cilindrada (que vale mil dólares), fazendo o trajecto desde a sua pequena habitação (o seu único património para além do carro), localizada nos arredores de Montevideu, onde vive com a mulher. Recebe um salário de 12,5 mil dólares como Presidente, fica apenas 1,25 mil para os seus gastos e doa o restante, cerca de 90%, a pequenas empresas e a Organizações Não-Governamentais. E isso dá-lhe para viver? “Este dinheiro chega-me, tem que chegar porque há outros uruguaios que vivem com menos – costuma dizer”. De referir, ainda, que a sua mulher, senadora da República, também doa uma boa parte do seu salário.

Apesar de ser Presidente de um dos países mais importantes da América do Sul, José “Pepe” Mujica e a esposa levam uma vida espantosamente simples. Aliás, ele é um homem simples. Nunca usa gravata (sempre casaco e camisa branca), convive com os amigos de sempre e não tem contas bancárias nem dívidas. Um homem de sólida formação, de convicções fortes, que lutou pela democracia contra a ditadura, foi preso e é hoje presidente eleito do país.

A sua residência presidencial, o Palácio Suarez Reyes, onde se realizam as reuniões do Governo, já deu guarida a pessoas sem-abrigo e a residência de Verão do Governo, em Punta del Este, foi vendida ao Banco Estatal que o transformará em escritórios e espaço de cultura. O dinheiro da venda será, por decisão de Mujica, integralmente aplicado na construção de moradias populares e de uma escola agrária.

Costuma dizer-se que “ao serem eleitos, os Presidentes fazem uma espécie de renúncia pública da sua liberdade”. No caso de Mujica isso não aconteceu. Embora sujeito a fanatismos ou ódios políticos, continua a andar sem segurança. Também por isso, admiro a sua coragem e as suas convicções. Afinal, ele lutou toda a vida e sempre arriscou a sua segurança e a da própria família por elas. Porquê mudar agora?

São pessoas como esta que nos transmitem alguma esperança no futuro. E certamente que o mundo seria um lugar bem melhor se outros políticos tivessem a grandeza e a seriedade de José “Pepe”Mujica.
 
 

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A insensibilidade do fisco


 
Sempre defendi que as leis devem ser aplicadas a toda a gente. "Dura lex, sed lex" não é o que diz a expressão latina? Pois é, mas também há um provérbio que refere "Não há regra sem excepção". Portanto, em certos casos, admito que a lei não seja escrupulosamente cumprida.

Porém, há muito que se lhe diga quanto às leis e a quem faz a sua interpretação. O fisco, por exemplo, é completamente cego quanto a eventuais excepções e corta a direito. Não lhes interessa os quês nem os porquês e se a lei diz que é assim, cumpre-se e mais nada.

Vejam o que aconteceu com um forcado que, numa corrida, teve a infelicidade de ser colhido e ficou tetraplégico. Amigos e aficionados em geral quiseram homenageá-lo e oferecer-lhe uma cadeira de rodas eléctrica. O espectáculo realizado recentemente no Campo Pequeno rendeu 115 mil euros que lhe foram entregues a título de doação. Só que, lá está, insensível à situação de verdadeira excepção - o dinheiro destinava-se a comprar uma cadeira de rodas e a tratamentos (e reabilitação) do forcado Nuno de Carvalho - o fisco arrecadou as verbas que lhe eram devidas por lei.
Note-se que todos os intervenientes actuaram graciosamente e os novilhos/toiros foram cedidos, também gratuitamente, por várias ganadarias. O fisco, porém, foi extremamente profissional e teve a mão pesada. Ficou com os 11 500 euros de imposto de selo e mais os 15 mil euros de IVA a 13% . Portanto, dos 115 mil, mais de 26 mil euros foram directos para o Estado.

Foi justo? Desculpem mas, para mim, isto foi apenas injustiça fiscal.
 

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Afinal, o que é que andamos a comer?



Mesmo que se pense "longe da vista longe do coração" a verdade é que nunca andamos descansados com o que comemos, tantas são as aldrabices que se vão sabendo, para não falar das que ainda não foram descobertas. E, reparem, nem estou assim tão preocupado com aquelas refeições pré-cozinhadas que dizem ter 100% de carne de vaca e, afinal, também têm carne de cavalo. Isso é uma fraude fiscal mas não está em causa a saúde pública.

O que já me deixa de sobreaviso são todas aquelas mistelas (sulfitos - uma substância que dá uma cor de carne fresca, mesmo que esta não o esteja - e bactérias várias) encontradas pela ASAE na carne picada vendida em talhos das zonas da Grande Lisboa e do Grande Porto. E isso sim, já é uma questão de saúde pública.

Dir-me-ão que é preciso escolher os sítios onde se compra ou se consome esses alimentos. Estarão a pensar, digo eu, em estabelecimentos de vão de escada onde os preços são mais baratinhos e, por isso, estamos dispostos a correr alguns riscos.

O pior é que já nem nos melhores equipamentos estamos a salvo de consumir porcarias. Há dias, vários produtos "contaminados" estavam a ser vendidos no "El Corte Inglês", no Jumbo e no Continente, por exemplo. E vejam o caso que aconteceu no Hotel Copacabana Palace, um dos mais tradicionais e luxuosos do Rio de Janeiro e da América do Sul, onde, na semana passada, foram encontradas nas suas três cozinhas mais de 100 quilos de alimentos fora da data de validade e até mesmo em decomposição.

O perigo espreita e temos poucas possibilidades de o evitar. Se em alguns casos são "meras" fraudes fiscais e andamos a comer "gato por lebre", noutras - bem mais preocupantes - corremos sérios riscos de saúde.

Daí a pergunta: afinal, o que é que andamos a comer?

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Lei de Limitação de Mandatos - A diferença que faz uma troca de preposições


 
Vejam só que sorte. Sete anos e meio depois - MAIS DE SETE ANOS DEPOIS - de ter sido promulgada, os serviços da Presidência da República identificaram um erro no texto publicado em 2005 em Diário da República sobre a controversa Lei da Limitação de Mandatos.


Trocando por miúdos, a Lei 46 2005, aprovada pela Assembleia da República, estabelece limites à renovação sucessiva de mandatos dos presidentes dos órgãos executivos das Autarquias Locais. O decreto que foi enviado pelo Parlamento para promulgação do Presidente da República, e assim promulgado, contém sempre nos seus artigos as expressões ‘Presidente da Câmara Municipal’ e ‘Presidente da Junta de Freguesia’. Porém, a lei publicada no Diário da República refere "Presidente de Câmara Municipal’ e ‘Presidente de Junta de Freguesia". O que não é exactamente o mesmo.

 
Aliás, é curioso como uma "simples" troca de uma preposição, o "da" por um "de" pode fazer tanta diferença. Mas faz! A diferença está na delimitação geográfica que a expressão encerra: se for "Presidente de Câmara", faz-se referência à função, mas se for "Presidente da Câmara" pode entender-se que se refere apenas à autarquia específica em que existe a acumulação de mandatos. E essa é precisamente a questão que está a ser colocada politicamente e nos tribunais: pode um autarca que cumpriu três mandatos numa autarquia vir a candidatar-se a uma outra nas eleições seguintes?

 
Relembro que a lei se fez para evitar que os políticos se perpetuem na "profissão de Presidente de Câmara ou de Freguesia" o que, de resto, nem sequer é uma profissão, porque são, tão-somente, quadros eleitos. Ora, tal como está no Diário da República, um "Presidente de Câmara ou de Freguesia" pode saltitar de autarquia em autarquia quase indefinidamente, o que fere o espírito da Lei.

 
Segundo alguns, a lei sobre o limite de mandatos autárquicos foi deixada ambígua de propósito, o que dá azo às mais diferentes interpretações. Quanto à sua leitura política parece não haver dúvidas. O mais complicado, no entanto, diz respeito à leitura jurídica e, essa, em ano de autárquicas, obrigatoriamente terá que ter desenvolvimentos nos próximos meses.
 

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

O café era o mesmo mas … faltava o ambiente

 
Não sei se já lhes contei que, ainda bebé, vivi em Viana do Castelo. Os meus pais moravam num prédio pequeno, perto do centro da cidade e tinham por vizinhos pessoas muito simpáticas. Segundo me contaram, um desses vizinhos tinha uma mania peculiar, um ritual, se assim lhe podemos chamar. Todos os dias depois do jantar tinha que ir beber um café ao estabelecimento que ficava no mesmo prédio.
 
A despeito da mulher lhe dizer que o café que ela fazia era tão bom como o outro, o marido insistia e todos os dias, acabada a janta, lá descia a escada para ir beber o tal cafezinho.

Um dia a mulher, minhota dos sete costados, esperta, decidiu ir ao café buscar “o café” tão especial que o marido não dispensava. Nessa noite ele não iria dizer mal do café, o mesmíssimo que ele costumava beber no r/c do prédio.

Ao jantar, contou-lhe que, naquele dia, ela tinha feito o café de uma maneira especial e que ele iria gostar. Esperou que o marido terminasse e perguntou: “E então, hoje está ou não está muito bom?”
O marido remexeu-se na cadeira, pigarreou um pouco, ponderou na resposta que lhe custava a sair e, por fim, articulou: “Sim, está bom, mas …”
 
Mas o quê?, atirou furiosa a mulher. Acabei de ir lá abaixo busca-lo. É igual ao que tomas todos os dias”.
 
“Uhmmmm ... sim, ele está mesmo muito bom mas, sabes, falta-lhe o … ambiente!”
 

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Quantos seremos?


De Miguel Torga, "Quantos seremos?"


Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.


quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Xanax para Passos Coelho e Miguel Relvas


Os números do desemprego em Portugal são assustadores. Os que são oficiais (os que correspondem aos inscritos nos Centros de Emprego) dão conta de cerca de 740 mil desempregados. Mas a verdade é que temos 1 milhão e 200 mil desempregados, dos quais 260 mil já desistiram de procurar emprego, por cansaço ou por achar que não vale a pena procurar trabalho. E nesta quantidade imensa de pessoas que vêm ferida, talvez para sempre, a sua dignidade, não estão incluídos todos aqueles que trabalham a tempo parcial e os que são forçados a emigrar por falta de alternativas.


E o que tem dito o Governo sobre esta matéria? Pouco ou nada. Apenas vai referindo que os números "estão praticamente em linha com as previsões". Apreciaríamos mais que em vez de previsões (todas elas falhadas) o Governo se preocupasse verdadeiramente com a implementação de verdadeiras políticas para a criação de emprego. Recorde-se que, só em Janeiro deste ano, o número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego aumentou 16,1% em comparação com o mesmo mês de 2012.


Resta-me o consolo de saber que a obscenidade destes números não retira o sono (embora durma pouco) a Passos Coelho. Já Miguel Relvas (contestadíssimo em todos os lados em que aparece, inclusive, foi ontem forçado a abandonar uma sala, numa saída apressada e atribulada, perante a pressão dos estudantes perseguidores), fez saber que o desemprego e o desemprego jovem lhe tiram o sono.


Aos dois governantes o que lhes posso sugerir é que tomem um Xanax um pouco antes de se deitarem. E, já agora (depois de um bom descanso), que façam qualquer coisa para criarem mais emprego.
 

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Quando o povo canta na Assembleia da República


Os cidadãos manifestam os seus protestos e descontentamentos do modo mais diverso. O povo é sereno (diz-se) mas quando a revolta se solta vem, às vezes, em forma de cânticos. E foi muito reconfortante ver e ouvir nas galerias da Assembleia da República o entoar de "Grândola Vila Morena" (uma das senhas para a nossa liberdade), quando Passos Coelho discursava durante o debate quinzenal. A força das palavras cantadas sobrepôs-se ao discurso político. Passos ouviu, de cabeça baixa, engasgou-se e passou à frente, enquanto o povo cantava de cabeça erguida. Ao ouvir a canção do Zeca, entoada daquela forma vibrante, voltei a sentir esperança.

 
Pena foi que, naquele momento tão lindo, a Presidente da AR tivesse dito que "as pessoas não se podem manifestar, sobretudo nestas condições" (!!!). Uma "nota desafinada" naquela ocasião tão cheia de significado.
 

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

A "Peste Parlamentar"


"Os portugueses estão a desaparecer. O envelhecimento da população portuguesa é uma evidência incontornável.
Portugal é o país da União Europeia que mais sofre com esta tragédia social. Segundo estimativa do INE, em 2050 cerca de 80% da população do país apresentar-se-á envelhecida e dependente e a idade média pode situar-se perto dos 50 anos. A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha..."

Foi "brilhante" a forma engendrada pelo advogado e deputado do PSD, Carlos Peixoto, para dissertar, na Assembleia da República, sobre o problema real e preocupante do envelhecimento da população portuguesa. Depois de debitar os números que todos conhecem, terminou o seu discurso fazendo alusão à "praga" (que aumenta todos os anos) dos velhos, cujas pensões representam uma boa percentagem dos custos do Estado.

E o modo como a coisa foi dita - fria e insensível - foi mais uma demonstração da "qualidade" da classe política que temos. Neste caso, a dos nossos representantes na Assembleia da República. A "peste parlamentar", para usar a lógica deste deputado é um rapazola (como alguém já lhe chamou) que é reincidente em declarações deste tipo.

Mas cuidado, senhor deputado, a menos que morra cedo (o que não lhe desejo), não tardará o dia em que terá que engolir as palavras que proferiu porque, também o senhor, fará parte desse imparável "infortúnio", a peste grisalha como agora lhe chamou. A não ser que pinte o cabelo para disfarçar.


 

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Multado por não ter factura? Era só o que me faltava ...

 

A lei obriga a que, em todas as transacções, seja obrigatório a emissão de factura, independentemente da qualidade do sujeito passivo que a emite (pessoas individuais ou empresas), do montante envolvido ou da qualidade do serviço. Todos os que vendem ou que prestam um serviço têm que "passar factura". Uma medida justificada pelo combate à economia paralela, à evasão fiscal e às situações de subfacturação. Pelo que, por um simples café ou pela compra de um jornal, os comerciantes terão mesmo que emitir a respectiva factura.

Mas, pergunta-se: a quem cabe fiscalizar o cumprimento da lei? Para além das inspecções tributárias, o Estado obriga os consumidores finais a exigir a emissão da factura, sob pena de serem passados processos de contra-ordenação com coimas que se situam entre os 75 e os 2 000 euros. Ou seja, em vez de serem multados os infractores são os consumidores - quais fiscais - que têm que zelar pelo cumprimento fiscal dos comerciantes e prestadores de serviços e pagar se houver infracção. Uma completa inversão das responsabilidades, digo eu. E, desde o início do ano já foram abertos pelo Fisco diversos processos de contra-ordenação" a consumidores por falta de factura.

Tenho esperança, porém, que esta seja apenas mais uma lei, daquelas que existem mas que não são aplicadas. Tanto mais que, segundo o Bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas "multar os consumidores que não exijam facturas só é possível na realização da venda, porque o comprador não é obrigado a preservar a prova".

Por também discordar desta lei abstrusa registo, ainda, o título "No Estado, o absurdo não paga imposto?" de um "post" publicado no blogue "A Origem das Espécies" do ex-secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

Resta-me acrescentar o meu desabafo indignado "Multado por não ter factura? Era só o que me faltava ..."



quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Altura de mudar?

 

Não sou filiado em qualquer partido. Por isso me sinto à-vontade para dizer que me faz muita impressão que as querelas internas dos partidos provoquem (ou possam vir a provocar) dificuldades ao país.

Apesar de aparentemente haver, agora, uma trégua, vejam o que aconteceu recentemente no Partido Socialista. A “guerrinha” entre António José Seguro e António Costa certamente condicionará, num futuro não muito distante, a figura do próximo Primeiro-Ministro do nosso país. Pelo que se sabe, os militantes do PS desejam Seguro para líder enquanto que os eleitores (na generalidade) gostariam de ver Costa como candidato a Primeiro-Ministro.
Fará isto algum sentido? Se é certo que o líder de um Partido deve ser forte (dá jeito que assim seja), para os cidadãos em geral o que interessa verdadeiramente é que quem está à frente do Governo seja capaz de dirigir os destinos de todos nós. Daí que eu defenda que talvez fosse mais inteligente envolver a vontade dos portugueses (os eleitores de uma forma geral) nas estruturas dos partidos e, de uma vez, eleger quem deva estar à frente do Partido e do Governo, ainda que sejam duas pessoas diferentes.

Sei que é uma questão complexa - a "partidarite" está muito entranhada no nosso sistema - mas é demasiado importante para não pensarmos nela.
 
 




sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Soneto de Carnaval



De Vinicius de Moraes, "Soneto de Carnaval"

 

Distante o meu amor, se me afigura

 O amor como um patético tormento

 Pensar nele é morrer de desventura

 Não pensar é matar meu pensamento.
 

Seu mais doce desejo se amargura

 Todo o instante perdido é um sofrimento

 Cada beijo lembrado é uma tortura

 Um ciúme do próprio ciumento.

 
E vivemos partindo, ela de mim

 E eu dela, enquanto breves vão-se os anos

 Para a grande partida que há no fim

 
De toda a vida e todo o amor humanos:

 Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo

 Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

A gozar com o Carnaval? ... Não, a gozar connosco!

 
Estamos quase no Carnaval. À beira dos festejos animados e dos desfiles de entrudo, uns mais tradicionais do que outros, mas que fazem parte do nosso calendário, ultimam-se os trabalhos das comissões de festas e das autarquias para que tudo esteja pronto a na hora certa.

Mas, partindo do princípio que tudo irá estar em ordem e que o estado do tempo até irá ajudar, coloca-se o problema dos que vão ou gostariam de ir às localidades onde, tradicionalmente, a festa é mais animada. Já se sabe que a crise dificulta os gastos não essenciais mas, caramba, dias não são dias e há que animar a malta. Como se costuma dizer "a vida são dois dias ... e o Carnaval são três". O problema, mesmo, é não concessão de tolerância para os serviços públicos anunciada pelo Governo. Portanto, em princípio, menos pessoas terão a possibilidade de assistir às festas.
E é aqui que está o busílis. O Governo, inflexível, determina que, tal como no ano passado, não haverá tolerância de ponto na terça-feira gorda. Porém, vários organismos com autonomia administrativa e várias autarquias já anunciaram que vão dar a tolerância, em clara desobediência às decisões do Executivo. Infractores como o ISCTE, a Universidade de Aveiro e as câmaras municipais de Lisboa, Carregal do Sal, Figueira da Foz, Sesimbra, Estarreja, Torres Vedras, Loulé e Funchal.

E questiono: que raio de país é este em que serviços públicos contrariam Governo, numa clivagem bem patente entre os diferentes serviços da Função Pública?

O que ressalta aos olhos do cidadão é que isto não é um país a sério. Num Estado de Direito, fazem-se leis para que se cumpram. Agora deixar que essas leis se apliquem conforme os diferentes critérios ...

Não seria melhor que a Lei - ainda que discutível - referisse concretamente que seriam autorizadas excepções, atendendo às especificidades de cada organismo/autarquia? Não foi assim que se fez quando houve aquela questão polémica dos touros de morte em Barrancos?

 

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Vamos voltar à "TV Rural"?

 
Muitos se lembrarão da figura simpática do engenheiro Sousa Veloso e da sua frase (uma imagem de marca) "Srs. espectadores, despeço-me com amizade até ao próximo programa".

Só que esse programa tão popular terminou em 1990. Outros tempos vieram, deu-se cabo da agricultura (entre outras coisas) e hoje da "TV Rural" só resta, para os mais velhos, a lembrança de um programa sobre agricultura que durou 30 anos, ininterruptamente, mesmo para além da própria agricultura ter desaparecido.

Há dias, porém, regressámos um pouco ao passado quando ouvimos os partidos do Governo porem à discussão no Parlamento uma recomendação à RTP, para que insira na grelha de serviço público de televisão um TV Rural do século XXI. Isto porque, diz-se, a agricultura voltou a crescer.

Se calhar ninguém lhes contou mas a verdade é que não cabe aos senhores Deputados da Assembleia da República decidirem sobre a grelha de programas da televisão pública. Pode até ser que em 1960 essa fosse uma das funções da então Assembleia Nacional mas, hoje, não é mais. É o próprio canal que tem que decidir que programas quer apresentar.

Com tanta "nabice" junta, parece que a desastrosa gestão do dossier da RTP está para continuar.



terça-feira, fevereiro 05, 2013

Está a ficar insuportável ...

 
Para os cidadãos comuns pouco interessa se o nosso país conseguiu mais credibilidade junto dos nossos credores internacionais. O que sabem é que a o dia-a-dia está a ficar cada vez mais insuportável e não chega o pouco dinheiro que ganham com os seus ordenados, pensões ou subsídios. Esta é a realidade, estas são as pessoas que sofrem e que se angustiam por falta de esperança .

Depois de quase dois anos de enormes sacrifícios pedidos aos portugueses, aquilo que sentimos não é a alegria de termos (ainda que devagarinho) regressado aos mercados. O que nos aflige - e ainda agora a procissão vai no adro - é a constatação que a nossa vida está cada vez pior e, usando uma frase popular, "aquilo com que se compram os melões", não estica nem para comprar os melões, nem os remédios, nem a comida, nem os produtos mais básicos para a subsistência.

72% dos cidadãos portugueses têm dificuldade em pagar as suas contas no final do mês. Na União Europeia, pior do que nós só mesmo a Bulgária e a Grécia, embora isso não nos sirva de consolo.

E como se não chegasse tamanha "tragédia" ainda temos que ouvir pessoas como Fernando Ulrich, o Presidente do BPI, dizer alarvidades como: "... se os sem-abrigo aguentam, porque é que nós não aguentamos?". Justamente o Presidente de um Banco que recebeu uma injecção de capital do Estado e que, em 2012, apresentou lucros de 249,1 milhões de euros. Não é a primeira vez que Ulrich (certamente bem longe de ser um sem-abrigo) manifesta uma tão clara falta de consciência social. A nossa paciência esgota-se com este tipo de gente e não sei até quando conseguiremos "aguentar". De facto, isto está a ficar insuportável ...

 


sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Quando a música era outra ...

 
Entre 1992 e 2003 o maestro Miguel Graça Moura presidiu à Associação de Música, Educação e Cultura (AMEC), que geria a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a qual, de resto, foi fundada e dirigida pelo próprio maestro.

Só que o percurso de Miguel Graça Moura na instituição foi algo tumultuoso e as esperadas notas musicais tiveram, sobretudo nos anos 90, interferências de outras "notas" e o maestro foi acusado de ter gasto cerca de 720 mil euros de dinheiro público em viagens, gravadores, aparelhagens de áudio, vinhos, charutos, jóias, mobiliário, artigos de lingerie masculina e feminina, livros e CD's, obras de arte e supermercados.

E estas tropelias - que, segundo o coletivo de juízes que o julgou e condenou a cinco anos de prisão, com pena suspensa, pelos crimes de peculato e falsificação de documentos - foram feitas pelo músico de forma consciente, usando dinheiros públicos para proveito pessoal. Aliás, segundo o Ministério Público, Miguel Graça Moura não fazia distinção entre despesas da AMEC e pessoais, utilizando indistintamente cartões da instituição (que integra a Orquestra Metropolitana), e de contas de que era titular.

Para além da condenação dos 5 anos (ainda teremos que esperar pelo resultado do recurso para a Relação), o maestro terá de pagar indemnizações de 30 mil euros à Câmara Municipal de Lisboa e 690 mil euros à AMEC, dos quais 200.000 euros terão de ser pagos no prazo de um ano. Em caso de incumprimento destes pagamentos, o maestro será preso. Só não sabemos qual foi a decisão do Tribunal relativamente ao pagamento de juros, que devem ser muitos.

Ao que parece Graça Moura tem (ou teve) algum prestígio como músico. E como músico de gabarito até percebo alguns dos gastos imputados à Associação que geria a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Como viajar, por exemplo, coisa que ele fez abundantemente pelos Estados Unidos, Argentina, México, Tailândia, Singapura e outros destinos exóticos, muitos deles, certamente, de onde não trouxe quaisquer mais-valias nem para a AMEC nem para a Metropolitana. Nem percebo como é que o erário público suportou despesas com vinhos, charutos, jóias e "lingerie masculina e feminina", artigos que nada têm a ver com actividade que era exercida.

O que também me faz confusão é que, durante todo o período em que se registaram estes abusos, não houve quem - pessoa ou organismo - questionasse o tipo de despesas efectuadas e terminasse com o regabofe. Mas isso são outras músicas.