quarta-feira, maio 15, 2013

As "prioridades" do Conselho de Estado




Marques Mendes já tinha anunciado a convocação do Conselho de Estado. Marcelo Rebelo de Sousa também já tinha sugerido que tal iria acontecer. E sendo ambos Conselheiros de Estado e tendo informação privilegiada, sabia-se que a coisa estava para breve. Irá realizar-se na próxima segunda-feira dia 20 de Maio.

Uma convocatória original, sobretudo se pensarmos que:

- os citados conselheiros (e outros tantos que são mais próximos do Presidente) já sabiam desta reunião há algum tempo enquanto outros, nomeadamente Mário e Soares e Manuel Alegre, só foram avisados depois de toda a imprensa ter revelado o facto;

- o Conselho, ao contrário do que se poderia prever, irá debater as "Perspectivas da Economia Portuguesa no Pós-Troika, no Quadro de uma União Económica e Monetária Efectiva e Aprofundada". Isto é, a preocupação vai centrar-se nos eventuais cenários daqui a um ano como se, no momento, nada de anormal se passasse.

Julgava eu (e mal, pelos vistos) que a convocação de um Conselho de Estado só se fazia quando algo de muito grave acontecia no país. Mas Cavaco Silva, distraído como sempre, nem sonha que a coligação está moribunda e dificilmente sairá desse estado, que os reformados andam às aranhas sem saber o que vai acontecer às suas pensões, que a taxa de desemprego sobe todos os meses, que a economia está um caos, que diariamente há empresas que encerram portas e que toda esta crise que nos afecta está a pôr os cidadãos à beira não de um ataque de nervos mas de um enlouquecimento total.

Eu sei que no dia em que acabar o programa de ajustamento, acaba-se o financiamento oficial e teremos que nos voltar para os mercados para continuar a pedir mais dinheiro. Por isso temos que nos preparar (e com tempo) para essa situação. Mas, caramba, estamos a um ano de lá chegar. E que tal se arranjássemos soluções para os problemas gravíssimos que temos - AGORA - para resolver?. É que corremos o risco de não haver Portugal quando a troika se for embora...
 
 
 

terça-feira, maio 14, 2013

Terrorismo de Estado?




O funcionalismo público sempre foi uma garantia de emprego para sempre. E, durante décadas, um motivo de orgulho para quem servia o Estado.

Os tempos agora são outros e ser funcionário público, ao invés da segurança de outrora, começa a ser uma profissão de risco. Veja-se, por exemplo, o novo regime de "requalificação" dos funcionários, que substitui o ainda actual sistema de mobilidade. Quais as intenções do Governo já anunciadas?

Embora se insista que tudo se vai passar apenas se houver rescisões por mútuo acordo, o que de facto vai acontecer é que vão escolher uns quantos milhares de funcionários (não se sabe quantos, todos os dias é lançada uma nova versão sobre o número de funcionários públicos a despedir), nomeadamente os menos qualificados, metê-los na tal coisa chamada "requalificação" ou "mobilidade " (ou o que quiserem chamar-lhe ...) e mantê-los assim durante 18 meses. Nos primeiros 6 meses receberão dois terços do seu salário, 50% nos 6 meses seguintes e nos últimos 6 apenas 33,4%. No final do tempo ou serão recolocados no serviço público (e não vão ser seguramente) ou têm duas hipóteses, qual delas a melhor: ou ficam ligados ao Estado mas sem vencimento ou rescindem o seu contrato, recebem uma indemnização e não têm direito a subsídio de desemprego.

Se isto não configura a situação de despedimento, puro e duro, do que é que estamos a falar? De "terrorismo de Estado", conforme alguns já lhe chamam?
 
 

segunda-feira, maio 13, 2013

Medos e incertezas



A técnica é conhecida e utilizada há muito. Quando os Governos querem implementar qualquer coisa - sobretudo difícil - divulgam essas medidas através de vários meios para que possam avaliar como a população vai reagir. Se mal, recua-se um pouco e a medida (má) que vier, será saudada como "do mal o menos". Se com resignação ou indiferença, "paciência, podia ser pior". Ou seja, vão atirando o barro à parede a ver se pega.

O actual Executivo não só não fugiu à regra como a ampliou e recriou. Vai anunciando e desdizendo sucessivamente as medidas previstas através de Ministros e Secretários de Estado, a ponto de já não sabermos exactamente o que nos vai acontecer. Passos Coelho tira medidas da cartola, Paulo Portas jura que não está de acordo com algumas delas e Hélder Rosalino (o Secretário de Estado da Administração Pública) atira mais achas para uma fogueira que já ninguém controla. Tudo numa encenação maquiavélica de um plano para confundir e manipular a opinião pública. A confusão é geral. E de probabilidade em probabilidade vamos discutindo os casos, vamos tentando ler nas entrelinhas e descobrir inconstitucionalidades e incompetências e vamos ficando, cada vez mais, com medos e incertezas.
 
 

sexta-feira, maio 10, 2013

Um só beijo?



Se bem que eu continue a preferir um bom abraço a um bom beijo (beijo social e/ou de amizade, entenda-se) em matéria de beijos muito haveria para dizer. Acho mesmo que o assunto daria uma boa tese de mestrado.

Fui educado por uma família tradicional em que o cumprimento mais comum era a da troca de um par de beijos. Convenhamos que alguns eram muito mal dados. A maioria deles eram dados no ar e não na face, como seria de desejar. Mas havia os outros, os que senhoras (quase sempre as senhoras e, sobretudo, as mais idosas) adoravam: o beijo repenicado (o chamado chocho), ou o beijo lambuzado ou, pior do que todos os outros, aqueles em que "espetavam" os pelitos pontiagudos que se tinham esquecido de tirar. E isso chateava-me.

Mas o normal era, de facto, os dois beijos. Quando me comecei a relacionar com senhoras de um estrato social aparentemente superior ao meu comecei a verificar que a forma normal de cumprimento era apenas de um beijo. Quantas vezes fiquei de cara pendurada à espera do segundo beijo que nunca viria. É a etiqueta, é chique, pensei na altura. O facto é que muitas vezes fiquei extremamente desconfortável quando dava conta que o beijo solitário me deixava de cara à banda.

A tradição portuguesa sempre foi a de dar dois beijos. No entanto, sabe-se que depois da nobreza se ter refugiado em Inglaterra, no tempo das lutas liberais, de lá veio o comedimento saxónico do beijo único – mais simples, mais elegante, mais rápido.

Referia há pouco que um só beijo é uma questão de etiqueta, de ser chique. Mas o que dizer dos franceses (querem um povo mais chique que os franceses?) que se mimoseiam não com um, nem com dois mas com três beijos? Às vezes com quatro, um é que não. Mas também na Holanda onde o hábito é darem três beijos. Bem pode dizer-se que cada país e cada cultura tem gestos e costumes que lhe são próprios.

Certamente que também já passaram por isto, compreendem, portanto, a minha angústia. Angústia e desespero que aumentam quando, em certos casos, as mesmas pessoas distribuem beijos únicos a alguns e a outros dão generosamente dois beijos. É a confusão total na minha cabeça. Alguém merece isto?

A não ser que se adopte definitivamente pelo simples aperto de mão. Evitar-se-iam, assim, muitos embaraços ...


 

quinta-feira, maio 09, 2013

O "desenrasca"



Na vida nada é linear. Andamos constantemente a lamentar que a rapaziada já não tem valores morais e que - já vi isso escrito por aí - vivemos hoje cada vez mais “enjaulados” numa sociedade sem rosto. Conversa, digo eu, porque quando damos de caras com uma pessoa que se mostra (muito) "solidária" com os seus amigos, a tal sociedade - nós - castigamo-la sem dó nem piedade.

Foi o que aconteceu a Domingos Oliveira, ex-Presidente da Junta de Freguesia de Perelhal, em Barcelos, que confessou ter "desenrascado" amigos com dinheiro da Junta. Este homem, como se percebe, amigo do seu amigo, que esteve 33 anos na Junta, 30 dos quais como Presidente, confessou em tribunal ter utilizado dinheiros públicos para resolver problemas pessoais e para "desenrascar" amigos, mas garantiu que já devolveu tudo. Só que o Ministério Público, eterno desconfiado, acusa o ex-autarca dos crimes de falsificação de cheques e peculato e de, alegadamente, se ter apropriado de quase 115 mil euros.

Ora, o que sucedeu, segundo o Digníssimo ex-representante do povo, é que o dinheiro foi usado não só para ultrapassar "circunstâncias" da sua vida, nomeadamente relacionadas com o divórcio, mas também para "desenrascar" amigos. Contudo, como se sabe, a vida e as suas circunstâncias, por vezes, pregam-nos partidas. Tal como certos amigos a quem ele socorreu e que ficaram a dever, tendo que ser o ex-Presidente a repor a massa.

Para além do facto das contas da Junta terem sido manifestamente manipuladas (termo eufemístico para dizer falsificadas) em 2005, 2006 e 2007, ficam por esclarecer algumas dúvidas. Nomeadamente:

- Durante os 30 anos em que Domingos Oliveira foi Presidente da Junta, eleito pelo PSD, nunca ninguém suspeitou das "habilidades" do Sr. Presidente? Nem nunca foram feitas auditorias às contas da Junta de Freguesia?

- Poder-se-á - ou não - enquadrar o desvio do dinheiro dos cofres da Junta, especificamente aquele que serviu para "desenrascar" os tais amigos, como uma acção solidária? Não me parece.

Pelo que, a moral da história só pode ser: temos que ter um olho no burro e o outro no ... ladrão.


quarta-feira, maio 08, 2013

Esta noite dormi mal ...





É verdade, esta noite tive uma insónia daquelas. Não preguei olho a pensar numa frase que li algures:

"Governo fez em dois anos o que ninguém fez nos últimos 15"

Então eu que tanto critico o Governo por não fazerem as coisas (ou fazerem-nas mal), nunca me tinha apercebido que este Executivo só em dois anos conseguiu mais do que outros fizeram em quinze?

Dei voltas e voltas na cama mas a minha inquietação só sossegou quando me levantei e fui buscar o jornal de onde eu tirara aquela frase. As poucas linhas da notícia confirmavam o título. É que o número dos sem-abrigo e mendigos em Lisboa terá triplicado no último ano. Só na Estação do Oriente, há noites em que dormem dentro da gare, mais de cem pessoas.

E pelo andar da carruagem, os números poderão vir a ser bem piores em breve. Situação que, pela certa, não tirará o sono a algumas pessoas ...


 

terça-feira, maio 07, 2013

De costas voltadas ...



Fazendo ambos parte do mesmo Governo de coligação, o mínimo que se esperava é que as medidas saídas desse mesmo Governo fossem anunciadas apenas pelo Chefe do Executivo. Mas não, como somos um país cheio de originalidades, o Primeiro-Ministro (e Presidente do maior partido da coligação) fez a sua comunicação ao país na sexta-feira às oito da noite (uma declaração de guerra, como lhe chamaram alguns) e o Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros (e Presidente do partido minoritário da mesma coligação) deu uma conferência de imprensa no domingo. Dois porta-vozes do mesmo Executivo que ainda por cima mostraram que não estão de acordo em coisas fundamentais.

E a forma e o conteúdo dos dois discursos foram completamente diferentes. Passos Coelho foi frio e demasiado vago enquanto que Paulo Portas teve um discurso bem elaborado, consequente, claro e inteligente. Como disse no domingo Marcelo Rebelo de Sousa, um era um programa de televisão a preto e branco e outro era a cores.

Ambos tinham sobre si a necessidade de apresentar qualquer coisa que permita que a sétima avaliação da troika seja (finalmente) positiva. Só que Passos se limitou a debitar um mero conjunto de medidas transversais de limitação de custos que vão agravar ainda mais (se forem avante) a economia, o desemprego e a situação dos cidadãos. Já Portas assumiu que está contra a taxa sobre as pensões, anunciada pelo Primeiro-Ministro na sexta-feira. E sobre este novo imposto anunciado por Passos sobre os pensionistas (que será para sempre e que constitui o mais desumano de todos os impostos e uma quebra de solidariedade entre gerações), Paulo Portas comprometeu-se a procurar medidas alternativas que substituam a nova contribuição sobre as pensões, porque, afirmou, "Quero, queremos todos, uma sociedade que não descarte os mais velhos". E o líder do CDS foi mais longe: assumiu uma frontal divergência com o PSD e dirigiu palavras muito duras à troika.

Resta-nos, agora, aguardar se a intervenção de Portas terá alguma consequência prática, se os partidos de oposição e os parceiros sociais conseguem alterar o que quer que seja e de saber qual a opinião de Bruxelas sobre mais este pacote violentíssimo de austeridade. Para já fica-nos a tal originalidade dos dois discursos e a certeza que a vida da coligação navega em águas muito revoltas.


segunda-feira, maio 06, 2013

Os "ses" e a inconsistência governamental



 
 
Ainda se lembram dos tão falados 4 mil milhões que o Estado tinha absoluta necessidade de "cortar", só não se sabia bem onde? Pois bem, esqueçam esses 4 mil milhões que já não chegam para satisfazer os nossos compromissos. Com as desculpas do chumbo do Tribunal Constitucional e outras, o Governo anunciou na semana passada que vai avançar com medidas de consolidação orçamental que ascenderão pelo menos a 6,5 mil milhões de euros até final de 2016.

Notem que este "pelo menos" é relevante porque pode muito bem acontecer que ainda haja necessidade de que os "cortes" vão bastante mais além. Coisa que, aliás, não nos surpreende, já estamos tão habituados a que nenhuma previsão seja cumprida. Esta pode ser só mais uma.

Mas é igualmente relevante que este anúncio de um corte mais crescido, que consta no DEO - Documento de Estratégia Orçamental - tenha sido desenhado com base em "ses": se a procura externa subir, se o preço do petróleo baixar, se as taxas de juro de curto prazo estabilizarem, se o euro continuar a par do dólar, se as exportações aumentarem, se o consumo interno aumentar ... se, se, se ... incertezas atrás de incertezas.

Para além do documento ter por base tantas suposições e de ser um tanto ou quanto vago e de vigência superior à do actual Governo, achei estranho que fosse completamente contraditório com um outro documento - Estratégia de Crescimento Económico - apresentado pelo Ministro da Economia uns dias antes.

Uma inconsistência governamental que já vai sendo costumeira.


 

terça-feira, abril 30, 2013

Faz amanhã 39 anos ...



Lembro-me como se fosse hoje. No primeiro 1º de Maio em liberdade fiz parte da enorme multidão de portugueses que saíram às ruas para celebrar o fim da ditadura. A maior manifestação de sempre. Aquela em que houve mais alegria e esperança. Cravos vermelhos floriam por todo o lado nas mãos e nas lapelas de tanta gente feliz. Chico Buarque não poderia ter definido melhor o sentimento de um povo que tinha aderido espontaneamente à revolução do 25 de Abril: "Sei que estás em festa, pá".

Faz amanhã 39 anos e parece que foi ontem. Muitas das nossas ilusões foram-se perdendo pelo caminho. Por um caminho de altos e baixos que, nos últimos anos, tem-nos feito regredir em muitos aspectos. "A paz, o pão, a habitação" de Sérgio Godinho foram sendo esquecidos. Mas a fé inquebrantável dos portugueses, embora significativamente enfraquecida, mantém-se e, no espírito de muitos, ainda soam os versos de Ary dos Santos:

"O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos, isto vai"


segunda-feira, abril 29, 2013

Não há almoços grátis ...



Depois das ondas de juristas e economistas que encheram a Assembleia da República e o Governo, o actual executivo apontou agora baterias para a classe jornalística. De uma assentada, foram nomeados 10 jornalistas - todos do Diário de Notícias - para Secretários de Estado. De estranhar, porém, que a escolha tenha recaído em jornalistas todos pertencentes ao mesmo jornal. Mas como não conheço pessoalmente qualquer deles, dou o benefício da dúvida. Quiseram mudar de vida e arranjar um futuro mais risonho e têm todo o direito a isso.

Mas um deles tem merecido críticas muito violentas - Francisco Almeida Leite. Diz quem sabe que o ex-jornalista do DN, que ainda foi vogal no Instituto Camões e é agora o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, é um perito em intriga, nomeadamente dentro do PSD, onde "levou ao colo" Passos Coelho quando este ainda fazia oposição interna a Manuela Ferreira Leite. Um especialista em múltiplos fretes a Coelho, antes e depois de ele chefiar o Governo, um vulgar e ambicioso moço de recados que há muito deixou de ter o pudor de disfarçar. E diz ainda quem o conhece que, tirando estes "méritos", nada mais há para acrescentar sobre os eventuais atributos políticos e técnicos.

Pergunta-se, então, por que foi ele nomeado? Sabendo-se que não há almoços grátis, a resposta parece óbvia: "Pelo pagamento de favores a quem tanto ajudou o Primeiro-Ministro a lá chegar".

Antes dele, e pelos mesmos motivos, já tinha havido Miguel Relvas. Mas esse, felizmente, já saiu. E estando o actual Governo num estado tão periclitante, pode até acontecer que Francisco Almeida Leite não chegue sequer a aquecer o lugar e siga o mesmo rumo que Relvas.
 
 
 

quarta-feira, abril 24, 2013

Abril de Sim Abril de Não



De Manuel Alegre, "Abril de Sim Abril de Não"

 


Eu vi Abril por fora e Abril por dentro

vi o Abril que foi e Abril de agora
 
eu vi Abril em festa e Abril lamento 
Abril como quem ri como quem chora. 
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
 
Abril que já não é Abril por vir 
e como tudo o mais contradição. 
Vi o Abril que ganha e Abril que perde 
Abril que foi Abril e o que não foi 
eu vi Abril de ser e de não ser. 
Abril de Abril vestido (Abril tão verde) 
Abril de Abril despido (Abril que dói) 
Abril já feito. E ainda por fazer.


 

terça-feira, abril 23, 2013

O atestado médico



 
Na crónica de ontem falei-vos em mentiras e na capacidade de, quantas vezes, fingirmos que a mentira é verdade. E lembrei-me de um texto, que já tem 4 ou 5 anos, intitulado "O atestado médico", escrito por um professor de Filosofia - José Ricardo Costa - que escreve semanalmente para o Jornal “O Torrejano”. Dizia ele:
 
"Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância. Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa. Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
 
Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.

Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
 
O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
 
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente. Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente. Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.
 
Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados.
 
Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D. Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.

Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
 
Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas. Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.
 
Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio".
 
 

segunda-feira, abril 22, 2013

O país das mentiras ...


 
Na semana passada Passos Coelho convidou António José Seguro para um encontro que visava um possível entendimento político. Apesar do Primeiro-Ministro ter esquecido há muitos meses que Seguro existia e que até era o líder do principal partido da oposição, Seguro compareceu. Em nome de uma eventual reconciliação? Por querer assegurar o reforço da democracia?

À saída, Passos afirmou que a reunião tinha corrido bem e Seguro disse que estava tudo na mesma. Uma bela amostra de uma convergência impossível. É certo que ambos se mostraram disponíveis para o diálogo mas, como se esperava, ambos ficaram irredutíveis nas soluções que cada um defende para combater os verdadeiros problemas do país.

E, afinal, o que é que se ia discutir naquele encontro? Ao que dizem as más línguas, as decisões estavam já tomadas, pelo que, toda a encenação não passou disso mesmo. Um faz-de-conta para mostrar à troika que existe um consenso político em Portugal que assegura o cumprimento das nossas responsabilidades. Uma mentira pegada.

Aliás, uma mentira em que toda a gente fingiu acreditar. Alguns agentes políticos, os média que cobriram toda a história e as cidadãos que ainda tiveram uma réstia de esperança. Mas, repito, todos fingimos acreditar. Por ingenuidade, por boa-fé ou por desespero.
 
 

sexta-feira, abril 19, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa - I I I




Para terminar a semana e este tipo de reflexões sobre a língua portuguesa - voltaremos ao tema e não me chamem fundamentalista - queria só dizer-vos que numa conferência em que participei há dias, ouvi, em pouco mais de duas horas vários presentes desenvolverem teses proferindo (com frequência) palavras tão portuguesas como: "follow up", "downsize", "feedback", "meeting" ou "e-mail".

Mas o que mais me preocupa é que essas mesmas pessoas que empregam esses termos nas suas áreas profissionais – e isto diz respeito a uma panóplia imensa de actividades e não só aos informáticos - acabam por utilizá-los, também, na sua vida pessoal.

Vejam os seguintes exemplos:

- informação à agência de viagens de que se pretende fazer um “upgrade” do hotel inicialmente reservado;

- o Gerente/Chefe/Director/o que seja, convoca o seu “staff” para um "briefing" ao fim da tarde;

- proposta para ir fazer compras ao “shopping”;

- lista de vantagens ou inconvenientes das empresas de “outsourcing”?

Será que não podemos dizer as mesmíssimas coisas … em português?

Penso que devemos valorizar mais a nossa língua, que é tão rica. De certeza que existirão palavras e expressões portuguesas para utilizar em substituição dos tais termos estrangeiros.
Porém, há que ter cuidado. É que se falarmos (ou escrevermos) só em português, poderemos correr o risco de que quem nos ouve ou lê, chegue à conclusão de que nós, afinal, não dominamos lá muito bem o assunto que estamos a abordar. Ou, por outro lado, pode acontecer que se falarmos ou escrevermos apenas em português, poderemos dar a ideia a certos “iluminados” de que não estamos muito familiarizados com os termos mais “in” utilizados com frequência por "determinadas elites". Afinal, ninguém quer dar parte de fraco, não é?
 
 

quinta-feira, abril 18, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa - I I


A propósito da crónica de ontem sobre a língua portuguesa, não podia deixar de referir uma moda que se instalou por cá há uns anitos, de aulas dadas integralmente em inglês nas nossas Universidades. Parece mentira, não é? Estamos em Portugal, as Universidades são financiada basicamente pelo nosso Orçamento Geral do Estado, os professores são maioritariamente portugueses mas os cursos são dados em inglês.

Chegámos ao ponto de no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, quando numa turma há um aluno estrangeiro que não domina a nossa língua, as aulas passarem a ser dadas em inglês. A língua inglesa está, de facto, a invadir as universidades portuguesas. Nas licenciaturas, nos mestrados e nos doutoramentos. No Técnico, mas também na Nova, na Católica, na do Minho ou no ISEG, há cursos em que a língua nativa não entra.

Para além da captação de alunos (para aumentar as fontes de financiamento) provenientes do Erasmus e de países de mercados como o Médio Oriente, o que se pergunta é "Mas, para além disso, será, sobretudo uma questão de moda?

O assunto é polémico até porque nem toda a gente - mesmo no meio estudantil - está eufórica com a importação da língua de Shakespeare. Segundo li, há até estudantes que deixaram de ir às aulas porque não entendem bem o que lá se diz. E um bom exemplo a contrariar essa moda é o da Universidade de Coimbra que tem 1 000 alunos de outros países (70% dos inscritos são chineses) a frequentar cursos de língua portuguesa. Aliás, a Universidade de Coimbra tem estado empenhada em reforçar o uso da língua portuguesa na sua política de internacionalização.

Mesmo que o objectivo da maior parte das Universidades seja atrair mais alunos de outras paragens que venham compensar os cortes do financiamento público, estão-se a esquecer de milhares de outros estudantes - portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, etc. - que menos familiarizados com o inglês, acabam, muitas vezes, por desistir.

Concluindo: sem deixar de constatar como uma mais-valia a maior integração linguística dos formandos, sobretudo em mestrados e doutoramentos, penso que, de certa forma, "estamos a vender", em nome da sustentabilidade financeira das Universidades, a nossa língua e a nossa identidade. Tanto mais que o português é o 6º idioma mais falado no mundo. E já agora digam-me se acham possível que numa Universidade de Tóquio um curso fosse dado integralmente em português só porque um estudante luso tinha decidido ir para lá estudar. Acreditam nisso? E o japonês é apenas o 10º idioma mais falado.

 

quarta-feira, abril 17, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa




"... há qualquer coisa em nós de que não gostam
Trazem palavras de outra língua ..."

São duas linhas apenas do poema de Manuel Alegre, "Resgate" (já aqui publicado), que servem de mote para o assunto que ando, há tempos, para partilhar convosco.

Se eu lhes dissesse

"葡萄牙文是我們最大的資產之一,並是非賣品。所以珍惜它!";
ou,
"Португальский язык является одним из наших крупнейших активов и не для продажи. Поэтому хранить его!"

ou, ainda,

"the Portuguese language is one of our biggest assets and is not for sale. So cherish it!",

 
o que é que me respondiam?

Eu sei que tenho os melhores e os mais eruditos leitores do mundo, que dominam fluentemente línguas tão diferentes como o chinês tradicional, o russo ou o inglês. Mas, numa conversa coloquial entre amigos não seria mais natural dizer simplesmente "a língua portuguesa é um dos nossos maiores activos e não está à venda. Por isso, acarinhem-na!"?

Desde sempre que sou defensor que se aprendam várias línguas. É uma questão de valorização pessoal e de necessidade face à cada vez maior globalização que vivemos. Mas, meus Amigos, faz algum sentido que em documentos oficiais internos ou - pesadelo dos pesadelos - nas redes sociais, portugueses dialoguem em inglês? Será que estarão mais seguros nesse idioma ou será, tão-somente, por que acham que escrever em português é uma atitude bacoca? Ao contrário, eu penso que essa necessidade de mostrar os vastos conhecimentos de outras línguas é que demonstra uma parolice pura.

Estudem e pratiquem outras línguas mas não se esqueçam de privilegiar a nossa. É seguramente o nosso maior capital cultural.
 
 

terça-feira, abril 16, 2013

Reformados, pensionistas e jubilados de primeira e de segunda



Se alguém me pedisse para explicar qual a diferença entre um reformado e um jubilado, teria sérias dificuldades em responder. O que sei - e deixo de lado os aspectos etimológico e semântico das palavras - é que reformados, pensionistas e jubilados são pessoas que já deixaram a sua vida activa de trabalho.

Aparentemente, portanto, todos estarão nas mesmas condições. Mas há, pelo menos, uma diferença que faz toda a diferença. Os juízes e os diplomatas jubilados não vão pagar a polémica contribuição extraordinária de solidariedade (CES) que é aplicada aos restantes reformados. Pergunta-se, pois, porque escapam eles ao pagamento do CES? E a única resposta razoável parece ser (para além de uma norma do Orçamento de Estado que contempla esta excepção) que, também no que diz respeito aos reformados, pensionistas e jubilados, existem uns que são de primeira e outros de segunda.

segunda-feira, abril 15, 2013

Senhores, estamos a falar de gente!




Ao mesmo tempo que no Conselho Nacional do PSD, realizado nos últimos dias, se aprovava um voto de louvor ao ex-Ministro Miguel Relvas por "inexcedível lealdade à causa pública" (????????), Passos Coelho anunciava que, por causa do malfadado chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo decidira cortar 1 300 milhões de euros aos portugueses, a começar por aqueles que "têm uma vida mais desafogada": os doentes e os desempregados. A uma percentagem significativa da população que já enfrenta montes de problemas mas que, como dizia o outro, "ai aguentam, aguentam" com mais uns sacrifícios em cima. Financeiros, sociais e psicológicos.

Já em Dublin, na reunião dos Ministros das Finanças europeus, Vítor Gaspar tinha revelado que o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses para responder ao chumbo do Tribunal Constitucional (TC) incidiria sobre os desempregados e os doentes apoiados pelo Estado.
Sublinho, "o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses".

Mas factos são factos. Se os tipos do TC inviabilizaram um OE "tão bem feito" pelo Governo, havia que ir buscar a "massa" a outro lado. Onde? Ao sítio certo: aos quase 420 mil beneficiários do subsídio de desemprego e aos quase 95 mil que recebem subsídios por doença. Exactamente às pessoas que desesperam por não encontrar um emprego que lhes pague as contas e lhes devolva a auto-estima ou que estão fragilizadas pela doença.

Será que sensibilidade social diz alguma coisa a estes senhores?
 
 

sexta-feira, abril 12, 2013

"Esperança"

Costumo publicar aqui no Por Linhas Tortas poesia de autores mais ou menos conhecidos. Hoje trago-vos um poema de um grande Amigo meu, desconhecido do público em geral mas a quem eu quero homenagear, não só pela amizade mas pelo seu talento enquanto poeta.



Então, de António Carlos Asseiceiro, "Esperança"





"Esperança"

(Olhando os retratos deles ainda novos)

Todos tínhamos tanta esperança, eles, tu e eu…

Tanta da nossa esperança ficou p’lo caminho,

Tanta dessa nossa esperança se esfumou e ardeu,

                                  nada ficou nem um bocadinho,

                                  do que se quis, pensou e viveu,

Do mal casado ao que ficou sozinho

A esperança foi uma dança… mansa!


Que ora se perdeu ou quase morreu!
 
                               Ora não se alcança,
 
Ora nada se tem, ora se tem tudo,
 
                               até… a esperança!...   

quinta-feira, abril 11, 2013

Experiência para quê?



Recordo-me sempre da frase de Sócrates (do filósofo, não a do regressado ex-Primeiro-Ministro) - "Só sei que nada sei" - quando julgo conhecer bem determinado assunto e, depois, acabo por concluir que, afinal, não sabia a coisa tão bem como pensava. Como me aconteceu, há dias, quando soube que um membro do Governo tinha nomeado dois assessores (especialistas). E porquê?

Julgava eu que a grande diferença entre um técnico e um especialista se baseava fundamentalmente na experiência. A ambos é requerida, claro está, a formação académica adequada e a preparação específica para um cargo mas, uma vez alguém admitido, seria espectável que começasse por ser técnico e, depois, pelo menos para alguns deles, com o tempo e a experiência adquirida, pudessem ascender a especialistas. Seria natural que, até por uma questão de maturidade, assim acontecesse.

Mas vivemos numa era onde tudo se passa a uma velocidade estonteante. Daí que os especialistas (sejam lá do que forem) "nasçam" cada vez mais cedo.

Foi certamente por isso que o Secretário de Estado-Adjunto do Primeiro-Ministro, Carlos Moedas, nomeou dois "técnicos especialistas", de 21 e 22 anos, para integrar a equipa de "acompanhamento da execução de medidas do memorando". O Governo justificou as contratações com os "excelentes currículos académicos, o que "lhes confere alguma competência (?)".

Um deles, o de 21 anos, tem uma licenciatura em Economia e um brilhante percurso profissional: "um estágio profissional não remunerado no Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e Emprego, entre Setembro e Dezembro de 2012". Ah, e foi comentador algures e escreveu num blogue.

O outro, com uns tenros 22 aninhos, está a concluir um mestrado em Administração de Empresas e, como experiência profissional orgulha-se de ter também feito um estágio no mesmo Gabinete entre Junho e Agosto de 2011.

Apesar de já em Janeiro deste ano, uma auditoria do Tribunal de Contas aos gabinetes ministeriais questionar "o grau de experiência profissional" dos 164 especialistas até então contratados para os gabinetes ministeriais, já que 15,3% tinham entre 24 e 29 anos, o Governo continua a insistir nestes jovens que se transformam num abrir e fechar de olhos em especialistas, talvez lembrando o ditado "De pequenino é que se torce o pepino" (a letra da canção do Sérgio Godinho diz "De pequenino, de muito pequenino se torce o destino".

Pode até ser que não sejam ainda tão grandes especialistas como isso mas estarão, entretanto, a fazer currículo e a assegurar o futuro.

quarta-feira, abril 10, 2013

Isto é um país fantástico. E animado ...


Isto é um país fantástico. Mal nos ausentamos uns dias e logo acontecem uma série de coisas que nos levariam a escrever crónicas mais ou menos contundentes e que, assim, ficaram por fazer.

De qualquer modo, acompanhámos o chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional. Coisa que, de resto, toda a gente adivinhava que iria acontecer. Também aqui no Por Linhas Tortas nos tínhamos referido por diversas vezes a essa mais que provável decisão. E agora, o imbróglio que já era grande tornou-se ainda maior. Há que ir buscar dinheiro a outro lado (adivinhem onde) para colmatar aquele que viria do saque programado.
"Malandros", pensou o Primeiro-Ministro. Os juízes do TC foram os culpados por este problema adicional que não vem nada a jeito. A verdade, porém, é que foi o Governo que voltou a insistir em normas que eram claramente inconstitucionais, tal como fizera no ano anterior. Pela segunda vez consecutiva, um orçamento de Estado é considerado inconstitucional. Duas vezes seguidas? Se não é incompetência, é o quê?
Quanto ao TC só poderá ser acusado de ter prolongado por tempo exagerado a sua análise. Fica-nos, pelo menos, essa impressão.

Soubemos, também, da renúncia ("por não ter condições anímicas para continuar") de Miguel Relvas. Foi uma saída esperada mas demasiado tardia. Na sua última comunicação, enquanto Ministro, não deixou de sublinhar o seu esforçado trabalho para levar Passos Coelho à liderança do PSD e à chefia do Governo. Um discurso em que ficou claro que sem Relvas, a sua ajuda e o seu empenho, Coelho não iria longe. Mas mais do que isso, foi um tipo de afirmação deselegante e desnecessária, muito ao jeito das pessoas sem carácter.

No mesmo dia do anúncio de Relvas quem teve grande força anímica foi o Benfica que conseguiu uma vitória importante sobre os ingleses do Newcastle, por 3-1, que lhes abre a perspectiva de seguirem em frente na Liga Europa.

Tudo em poucos dias. Isto é um país fantástico. E animado ...
 
 
 

terça-feira, abril 02, 2013

Sabem as respostas ou ... não?


Se bem me recordo publiquei aqui, há muito tempo, uma poesia da Adriana Calcanhoto, "A idade dos porquês". Os versos reflectem a curiosidade natural das crianças que tudo perguntam, muito embora, nós adultos, nem sempre tenhamos a capacidade de lhes dar as melhores respostas.

Hoje, lembrei-me de algumas perguntas (parvas) que, provavelmente, também nós crescidos e cheios de experiência, temos dificuldade em responder. Por exemplo:

- Se depois do banho estamos limpos porque é que lavamos a toalha?

- Porque é que a palavra grande é menor do que a palavra pequeno?

- Porque é que separado se escreve tudo junto e tudo junto se escreve separado?

- Se o vinho é líquido, como pode existir vinho seco?

- Quando inventaram o relógio como sabiam que horas eram para poder acertá-lo?

- Como foi que a placa "É Proibido Pisar a Relva" foi lá colocada?

- Porque é que quando alguém nos pede que ajudemos a procurar um objecto perdido temos a mania de perguntar: 'Onde é que o perdeste?

- Porque é que há pessoas que acordam os outros para perguntar se estavam a dormir?


E, então, sabem as respostas ou ... não?

segunda-feira, abril 01, 2013

Quando a narrativa é falsa


 
Sei bem do que é que estavam à espera quando viram o título da crónica de hoje. Mas equivocaram-se. Embora eu continue a dizer que a narrativa é falsa.

Repetidamente, ao longo dos anos, sempre nos quiseram convencer que nas noites em que muda a hora (Março e Outubro), para as chamadas horas de Verão e de Inverno, nós dormimos menos uma hora ou mais uma hora, consoante a época. Nada mais falso.

Verifiquei isso mesmo na última noite de sábado para domingo. Em vários serviços informativos da rádio e da televisão disseram-nos que à uma da manhã deveríamos acertar os relógios, acrescentando 60 minutos à hora em vigor, passando, portanto, da uma para as duas horas. Razão pela qual dormiríamos menos uma hora nessa noite. Porém, ontem de manhã quando acordei, tinha dormido as mesmas sete horas de sempre.

Para quê este embuste? Um simples acertar de relógios (que, ainda por cima, nos dão um trabalho dos diabos) justifica tamanha mentira? Ainda se fosse no 1º de Abril ... o dia das mentiras ...

Não, meus senhores, não é isso que me faz dormir menos ou mais horas. Hoje não me apetece, mas poderia abrir aqui o saco das lamentações e, aí sim, eu vos diria o que me tira realmente o sono.
 
 

quarta-feira, março 27, 2013

Os juízes decidiram, está decidido!


Provavelmente muitos já se terão esquecido da questão que opunha, desde 2007, o Estado à empresa organizadora do III Salão Internacional Erótico de Lisboa e da Feira Sex07. Recordo que nessa altura os espectáculos, as provas desportivas e outros divertimentos públicos - incluindo os de carácter pornográfico - tinham o IVA à taxa reduzida. Porém, o Estado, por razões de puro decoro ou simplesmente porque achou que poderia sacar mais umas massas nos eventos erótico/pornográficos, que são muito concorridos, resolveu reclamar 76 mil euros por considerar que este tipo de espectáculos não se encaixava bem junto dos outros. Claro que diferendo teve que ser resolvido pela justiça.

O Tribunal de Primeira Instância deu razão à empresa e a Relação confirmou a sentença anterior. Sem prejuízo do que vier a ser decidido num eventual recurso para o Supremo, temos que, para já, o Estado tem que aceitar que este tipo de actividade - em termos fiscais - está no mesmo patamar dos demais.

Goste-se ou não (destes espectáculos e das decisões proferidas), os juízes decidiram, está decidido! Mas o que achei mais interessante no acórdão foi a justificação do Tribunal para a sentença:

"As actividades de feira são apenas uma forma de atrair público para a verdadeira finalidade do evento: a venda de bens e serviços pelos expositores. Situação que, independente da temática do evento, pode ser sexo ou um salão automóvel".
 
 

terça-feira, março 26, 2013

Condescendência para com os políticos? Porquê?



Lembram-se de ler há pouco tempo uma notícia em que mais de metade dos pilotos (portugueses e não só) admite ter adormecido, por fadiga, durante o voo? Então, toda a gente ficou preocupada. Daí que se começasse imediatamente a discutir a uniformização da legislação sobre horas de voo pela Agência Europeia de Segurança Aérea.

Os pilotos não podem dormir enquanto comandam ... mas às vezes ...

E quando sabemos que, por negligência, um cirurgião, deixou morrer um paciente ou esqueceu qualquer material cirúrgico dentro do doente após terminada a cirurgia? Não ficamos revoltados e não tentamos que aquele médico seja imediatamente afastado da sua actividade?

Os médicos enganam-se mas ... não podem.

Curiosamente com os políticos somos muitíssimo mais transigentes. Dizemos mal deles nas conversas entre amigos nos cafés e zangamo-nos com as medidas que tomam porque as achamos desajustadas e injustas. Mas pouco mais fazemos. E quando questionamos, por exemplo, porque é que o actual Governo não acerta uma previsão, uma meta que seja, obtemos (como eu li) uma resposta vinda de um Professor Catedrático de Economia: "Porque somos humanos, não somos deuses".

É a resposta mais abstrusa que já vi e que não pode desculpar os políticos da incompetência e da impreparação que muitas vezes demonstram. Se não aceitamos os erros de aviadores e de médicos (só para citar estas duas profissões), que são humanos como os demais, porque somos tão condescendentes para com os políticos que dão cabo da vida de cidadãos e países? Só porque os seus erros não matam? Não matam mas vão corroendo a paciência e a saúde das pessoas.
 

 

segunda-feira, março 25, 2013

No país das petições


Nunca como agora, com a utilização da internet e das redes sociais, as petições tiveram tão ampla divulgação. Por dá cá aquela palha "inventa-se" uma petição a favor disto ou contra aquilo. Há mesmo sítios específicos na net onde se podem criar ou consultar petições.

As (várias) que na última semana fizeram mais ruído foram as petições sobre a contratação do ex-primeiro-ministro José Sócrates pela televisão pública.

Os que não o querem ver nem pintado na televisão do Estado, acusam-no de gestão danosa, dizem que ele é o principal arquitecto do descalabro político/económico (e o verdadeiro ladrão) do país. Já os seus indefectíveis, sustentam que Sócrates foi um dos melhores políticos de Portugal e que ele tem todo o direito de ser comentador político da RTP.

Não sei se será boa ideia pôr os políticos encartados na pele de analistas políticos. Por definição um analista analisa e um político marca a sua agenda e faz propaganda. Genericamente é assim. E isto aplica-se a Sócrates bem como a todos os ex-governantes e ex-líderes partidários que já hoje têm lugar cativo nas televisões como comentadores.

Para mim, esta história das petições cheira-me a folclore. O balanço das governações depende da avaliação de cada um. Há em todas elas pontos fortes e pontos fracos e num estado democrático as contas são acertadas ou em eleições ou na dissolução de um Governo pelo Presidente da República, de acordo com a Constituição. Petições ou quejandas pouco acrescentam. E, porque respeito a liberdade de expressão e de escolha, acho que há sempre lugar para quem queira aparecer, gostemos nós deles ou não. E, depois, há sempre a possibilidade de mudar de canal ou desligar a televisão.
 
 

sexta-feira, março 22, 2013

Ser pessimista é ...


 
Os primeiros versos do poema de Florbela Espanca, "Ser Poeta", começa exactamente por:

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!"

Da mesma forma (embora sem o sentido poético de Florbela), bem se poderia afirmar que ser pessimista é (ou pode ser) a chave da longevidade. E isto porquê? Porque, num estudo alemão agora publicado se conclui que "os mais pessimistas sobre as perspectivas de felicidade futura vivem mais tempo e em melhor estado de saúde do que aquelas que são optimistas. As pessoas mais velhas que esperam um nível de satisfação limitado sobre a sua futura situação pessoal vivem mais tempo do que aquelas que imaginam um futuro cor-de-rosa".

Claro que são vários os pressupostos que sustentam a tese destes investigadores da Universidade Friedrich-Alexander de Nuremberg, mas dá-nos um certo alento pensar que o pessimismo generalizado dos cidadãos, pode ser a chave para uma maior longevidade. Quanto a mim, como estou muito pessimista quanto ao futuro terei, certamente, mais uns bons anos de vida pela frente. Haja força para resistir.

 

quinta-feira, março 21, 2013

A corrida aos Bancos no Chipre



Pela primeira vez na história do Euro o resgate financeiro de uma nação impôs como garantia uma taxa dos depósitos nos bancos, que oscila entre os 6,75% para depósitos inferiores a 100.000 euros e 9,9% aplicável aos restantes. Porém, o Parlamento cipriota não aceitou essa decisão, mesmo correndo o risco de lançar o país na bancarrota e, eventualmente, ter que sair do euro.

Aconteceu no Chipre e sobressaltou todos os países do euro. Sossegados que estávamos com os discursos sobre a protecção das poupanças dos depositantes dos sistemas bancários, ficámos em transe quando assistimos aos cipriotas correram em desespero para os multibancos para tentar salvar algum do seu dinheiro. Uma acção capaz de ter réplicas noutros países. E andámos nós tão preocupados com os "riscos sistémicos" que poderiam resultar de uma eventual falência do BPN. Tanto que o nacionalizámos, com todos os prejuízos que daí resultaram.

A medida (como contrapartida da aprovação do resgate) não foi decidida pelo Governo de Nicósia (foi imposta pelo Eurogrupo) e põe a nu que, para os eurocratas de Bruxelas (indiferentes às regras democráticas), vale tudo e que não há qualquer respeito pelos direitos das pessoas.

E agora, que confiança podemos ter nos sistemas bancários/financeiros? Qual a sua estabilidade, que riscos e perigos podem advir de tais sistemas? A confiança, a pouca que ainda restava, parece ter sido definitivamente quebrada.

Segundo li, muitos economistas pensam que taxar os depósitos que os cidadãos europeus confiaram aos seus bancos não é uma carta fora do baralho nos programas de assistência financeira das economias do euro. Portugal incluído.

Embora sabendo que o Chipre, tem um sistema bancário maior do que a própria economia (ainda por cima com um ingrediente suplementar: a lavagem de dinheiro da máfia russa), a partir de agora não sei se teremos que repensar qual será a melhor maneira de guardar as nossas parcas poupanças.

 

quarta-feira, março 20, 2013

Chega!



Estamos fartos da hipocrisia destes Governantes que têm posto de pantanas este pobre país. Chega! E já não pegam as desculpas com os erros do passado e, especificamente, com a desastrosa governação dos governos socialistas. É que desde que este executivo tomou posse tudo tem desabado rapidamente como um castelo de cartas e não se vêem medidas que possam inverter a situação, a curto ou a médio prazo.

Depois dos incitamentos à emigração (de jovens e menos jovens) e de afirmar insistentemente que as crises podem ser uma janela de oportunidades, Passos Coelho diz agora que na reforma do Estado as rescisões com funcionários públicos são "uma oportunidade e não uma ameaça para uma requalificação da administração". E tão certo está do que pretende fazer, que foi já definido por onde vai começar: os trabalhadores das categorias de assistente operacional e de assistente técnico serão os primeiros alvos das rescisões. Precisamente aqueles que ganham menos e que sustentam o funcionamento do Estado.

Tretas! O que percebemos, afinal, é que a refundação e o redimensionamento da administração pública mais não são que puro despedimento de funcionários.

E o desemprego sobe, sobe, sobe. Até onde?

Como escreveu Lobo Antunes "As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa (nós, os cidadãos) somos incapazes de enxergar a capacidade purificadora destas medidas".

terça-feira, março 19, 2013

O verdadeiro défice ...



Ainda sobre Vítor Gaspar (de quem os cronistas e humoristas tanto gostam, calcula-se porquê), ao ouvi-lo no discurso que aqui referi ontem, lembrei-me dos "relatórios e contas" de muitas empresas: o relatório para as Finanças (por causa dos impostos a pagar), o relatório para a Banca (por causa dos investimentos) e o relatório da empresa (em princípio, o que espelhava a verdade das suas contas).

E recordei-me disto porque Vítor Gaspar revelou no tal discurso que houve três valores de défice em 2012: 4,9% (para a troika), 6,6% (para INE/Eurostat) e 6% (saldo orçamental sem efeitos pontuais).

A verdade, porém, é que o Ministro das Finanças apenas nos quis confundir. Ele sabe bem, e nós sabemos também, que o que conta verdadeiramente é o défice em contabilidade nacional que foi, como se viu, de 6,6%, bem longe dos 4,5% previstos.

Para quê estas habilidades? Ainda por cima vindas de uma pessoa que era vista como rigorosa e competente e que, portanto, merecia toda a credibilidade. Será que ainda merece?

 

segunda-feira, março 18, 2013

No bom caminho? Que raio de conversa é essa?



Na conferência de imprensa em que comunicou os resultados da sétima avaliação da troika, o ministro das Finanças anunciou (e agravou) as perspectivas para a economia portuguesa para este ano. O PIB cairá 2,3%, muito acima das previsões de 1% definidas no Orçamento do Estado, o desemprego (oficial) deverá chegar aos 18,2%, atingindo nos últimos meses a barreira dos 19% e o défice público para este ano passará de 4,5% para 5,5%.

Perante tantas previsões falhadas, Vítor Gaspar continua a dizer-se preocupado mas que "continuamos no bom caminho". No bom caminho? Mas que raio de conversa é essa se tudo está a desabar em cima de nós? Os sacrifícios para os portugueses são cada vez maiores e os resultados pioram a olhos vistos. Perante mais este "falhanço colossal" da receita aplicada, Vítor Gaspar deveria ter terminado o seu discurso com uma simples frase: "Por tudo isto, obviamente, apresento a minha demissão do Governo".

Recordo que, há uns tempos (em 2010), Passos Coelho dizia: “Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos e pelas suas acções”.

De facto, ele disse isso mas ... já esqueceu!
 
 

sexta-feira, março 15, 2013

Ouvindo Beethoven


De José Saramago, "Ouvindo Beethoven"

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a presa de registro, o verso acta.


Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

quinta-feira, março 14, 2013

Cuidemos da saúde ... façamos férias



Noutras épocas, quando ainda nos era permitido sonhar, em Março, mais coisa menos coisa, começava-se a pensar em férias. Projectavam-se destinos ou ansiava-se, simplesmente, por tempos de lazer, que passavam muitas vezes por umas semanas de praia. Hoje as coisas estão mais difíceis, a falta de dinheiro obriga-nos a outras prioridades e as férias foram secundarizadas, quando não esquecidas.

Mas o Mundo não pára e, recentemente, realizou-se a Feira de Turismo na FIL e, em breve, será a vez da Abreu mostrar o seu pacote turístico para 2013/2014. Temos que voltar a sonhar em fazer de férias até porque, para além do lazer e da cultura, ir de férias faz bem à saúde.

É isso mesmo que conclui um estudo britânico que comparou a saúde das pessoas que fizeram férias com a daqueles que ficaram em casa e continuaram a trabalhar.

Segundo o estudo, "ir de férias é benéfico porque contribui para a redução da pressão arterial, alivia o stress, melhora a qualidade do sono e, em última instância, rejuvenesce o nosso corpo". Esmiuçando, a pressão arterial daqueles que foram de férias diminuiu 6%, ao passo que a dos trabalhadores que se mantiveram nos seus escritórios subiu 2% durante o mesmo período. A qualidade do sono das pessoas que descansaram num país estrangeiro melhorou 17%, ao contrário do que aconteceu com a outra metade do grupo, na qual se observou uma diminuição na ordem dos 14%. A capacidade de recuperar do stress aumentou 29% naqueles que foram de férias mas registou-se uma quebra de 71% nos que ficaram em casa. As férias contribuíram, ainda, para que o grupo que viajou assinalasse uma diminuição significativa nos níveis de glicose no sangue, o que contribuiu para a redução do risco da diabetes e obesidade e melhoria do humor e dos níveis de energia.

E então, o que é que estamos à espera para melhorar a saúde e voltar a sonhar?

quarta-feira, março 13, 2013

Descobri-te, La Féria ... foste tu!




Li recentemente uma entrevista concedida por Filipe La Féria ao "Económico", já em Novembro do ano passado e descobri que foi ele o verdadeiro culpado por termos Passos Coelho à frente do actual Governo.

A certa altura perguntava o jornalista: "Preferia ter Passos Coelho a cantar numa das suas peças ou no Governo?"

E a resposta de La Féria foi: "Acho que ele era mais feliz se fosse cantor. Ele é um bom cantor. Eu fui o culpado, de facto, de ele agora ser primeiro-ministro (risos). Ele concorreu para fazer o "My Fair Lady" e eu escolhi outro. Porque ele é barítono e o outro era tenor. Mas Pedro Passos Coelho teve dúvidas sobre que carreira devia seguir... contou-me que havia um congresso do PSD no Coliseu. E em vez de ir para o Coliseu, foi para a audição.

Bingo, finalmente sei quem tu és, La Féria. "A partir de agora, doravante e pró futuro" nunca mais porei os pés num espectáculo teu. O homem (o Passos) pode até ter uma boa voz mas a "cantiga" dele não me convence. E tu sabes do que é que eu estou a falar. Afinal, também tu te queixas das más políticas (especificamente as da cultura) ...

 

terça-feira, março 12, 2013

É uma pena ... uma padaria histórica em risco de destruição


 
Já aqui escrevi diversas vezes que me sinto muito mais tranquilo desde que existe a ASAE. Apesar das recentes notícias sobre as aldrabices dos compostos alimentares à base de carne, as regras que, nas últimas décadas, foram implementadas para a melhoria das condições sanitárias dos alimentos que consumimos, só podem deixar-nos mais descansados.

Porém, não exageremos na fórmula. Como costumo dizer, regras em demasia fazem-me azia e, em nome de tanta segurança, podem destruir-se, pelo exagero, outras coisas igualmente importantes.

É o caso de uma padaria Art Déco - uma autêntica raridade - que existe em Lisboa desde 1933, cujo balcão, intacto e em óptimas condições, em pedra lioz e mármore, pode ter de ser destruído por não ser refrigerado.

A padaria, da autoria do engenheiro Pedro Nunes, está intacta e é revestida de azulejos da famosa Fábrica Lusitânia, com motivos Art Déco, incluindo dois painéis ovalados retratando o fabrico de pão e criados especificamente para este estabelecimento. Os mosaicos do pavimento, os estuques do tecto e a frente de loja com montras em caixilharias de ferro são outros elementos decorativos que representam o período Art Déco.

Modernidade sim, mas com conta, peso e medida. Por isso se pede bom-senso e que as novas leis da Segurança Alimentar não sejam cegas e indiferentes a esta delapidação artística da, muito provavelmente, única Padaria Art Déco que resta na capital, com este nível de autenticidade e qualidade artística.
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, março 11, 2013

Descer o salário mínimo? Só podem estar a gozar ...


 
Ainda na quarta-feira passada eu escrevia aqui que Passos Coelho se mantém "firme e hirto" na linha que traçou quando se tornou Primeiro-Ministro e não se desvia um milímetro que seja dessa linha, mesmo estando a coisa a correr mal.

Certamente por isso é que no último debate quinzenal que se realizou na Assembleia da República, afirmou que "aumentar o salário mínimo nem pensar". Pelo contrário: "Quando um país enfrenta um nível elevado de desemprego, a medida mais sensata que se pode tomar é exactamente a oposta", concluiu. Ao ouvir isto pensei ter percebido mal. Estaria ele a insinuar que se deveria baixar o já baixo salário mínimo? Estava, porque logo a seguir afirmou: " ... foi isso que a Irlanda fez, ou seja, baixou o salário mínimo nacional".

O que ele não disse, mas toda a gente sabe, é que o salário mínimo em Portugal é de 485,00 euros (embora pago 14 vezes por ano corresponda a 565,63 €) e o da Irlanda é de 1 462 euros (mesmo depois de já terem feito a tal redução), portanto, bem mais alto do que o nosso. A não ser que Passos Coelho queira comparar o nosso salário mínimo aos que são praticados na Roménia (157 euros) ou na Letónia (287 euros).

Passos justifica a sua recusa em considerar qualquer aumento, no facto de uma eventual subida poder provocar mais desemprego. Contrárias, porém, são as opiniões de todos os parceiros sociais, incluindo os patrões (CIP e CCP) que admitem discutir o assunto.

É bem visível a linha ideológica defendida pelo actual Governo. E os seus gurus de serviço, à cabeça dos quais figura sempre o inefável António Borges, opinam, claro está, que o valor actual do salário mínimo (os "imensos" 485 euros) deve ser mantido como está, mas - acentuando a posição - refere que o combate ao desemprego podia ser mais eficaz se os vencimentos fossem reduzidos. A mesmíssima coisa que defende o Primeiro-Ministro.

Borges, o consultor do Governo pago generosamente pelos contribuintes, acaba por habilidosamente "dourar a pílula" ao dizer que "ninguém quer um país de gente pobre". Não sei é se ele não estará a pensar apenas em si próprio.


quinta-feira, março 07, 2013

O "entroikado"



Sempre achei ridículas as iniciativas que têm por objectivo único fazerem parte do Guiness ou aquelas "invenções" que não servem rigorosamente para nada.

Tal como achei desnecessária aquela votação recente organizada pela Porto Editora, em que foi escolhido o adjectivo "entroikado" como a palavra que melhor representa o ano de 2012. Bem, e o que é que ganharam com isso a nossa língua e os portugueses? Nada!

Mas foi essa a palavra escolhida (que nem sequer consta no nosso dicionário), superando os vocábulos “desemprego” e “solidariedade”, essas sim, já existentes na nossa língua. Com o "entroikado" a rapaziada pretende transmitir que foi "obrigada a viver sob as condições impostas pela troika" ou "que está numa situação difícil". Enfim, "que está tramada, que está lixada".

Segundo li, há especialistas que destacam a musicalidade da palavra, a sua força e expressividade. Não acho nada disso e, para mim, a sua utilização é apenas mais uma moda que passará com o tempo. Admito que traduza o sentimento geral que se vive no país, mas não me parece que seja suficiente para que tenha sido tão utilizada em textos escritos e em publicações periódicas, impressas e digitais, em 2012. Tão-pouco que tivesse tão grande impacto na utilização quotidiana dos portugueses que a leve à integração no nosso vocabulário. Pelo menos, aqui, no "Por Linhas Tortas" não me recordo de o ter utilizado uma vez que fosse. Desculpem lá!

quarta-feira, março 06, 2013

Quando um Nobel da Economia não entende certas opções ...



Tantas vezes citado por políticos (quando as suas teses lhes eram convenientes), Paul Krugman, Prémio Nobel de Economia em 2008, parece ter sido esquecido quando, recentemente, disse "não entender a paixão europeia pela austeridade", acrescentando até que "defensores da austeridade estão a parecer cada vez mais insolentes e delirantes".

E nós que temos sofrido na pele essa insolência delirante traduzida em medidas de austeridade severas, sempre revistas e aumentadas, já há muito que tínhamos percebido - até pelos resultados que são anunciados - que esta obsessão pela redução do défice não nos tem conduzido a lugar algum. Ou antes, tem. À recessão e ao desemprego - que são cada vez maiores - e à debilidade da economia.

Mesmo assim, mesmo depois do próprio FMI ter feito um impressionante "mea culpa" quando admitiu ter subestimado os danos infligidos pela austeridade, o Governo de Passos Coelho segue "firme e hirto" com os propósitos traçados desde que tomou posse, caminhando cegamente na direcção do abismo.

E nem sequer é necessário ter ganho um Nobel de Economia para se compreender que aquilo que Paul Krugman afirmou: "As nações que impuseram políticas de austeridade severas sofreram crises económicas profundas; quanto mais severa a austeridade, mais profunda foi a recessão" é uma verdade absoluta.

terça-feira, março 05, 2013

APRE! sem-vergonha tem limites


 
Vai ser hoje apresentado em Lisboa o "Movimento dos Reformados Indignados - (MRI)" que se propõe "tomar posição face à situação de profunda crise social vivida pelo país e aos ataques que o Governo está a fazer aos reformados". O MRI está, também, "contra a famigerada taxa CES (Contribuição Extraordinária de Solidariedade), que constitui um instrumento de espoliação dos reformados e pensionistas". Mais, o movimento adianta, ainda, que "os ataques que estão a ser feitos aos reformados bancários, retiram-lhes diariamente os instrumentos sociais de sobrevivência, fustigando-os com taxas e impostos incomportáveis para a classe".

Até aqui tudo bem. É mais um movimento de defesa dos reformados (grupo que vai crescendo velozmente) a juntar-se ao APRe - Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados, que já vai fazendo o seu caminho.

Porém, fiquei extremamente chocado quando li que o MRI vai ser presidido pelo ex-presidente do Banco Comercial Português (BCP), Filipe Pinhal, em conjunto com o Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários.

Qualquer reformado, bancário ou não, tem bastas razões para se sentir revoltado com os cortes que está a sofrer mas, Filipe Pinhal não é um reformado qualquer. Foi afastado do BCP depois do escândalo das "offshores" do próprio banco (foi condenado e está a ser julgado o recurso) e, ao que se sabe, recebe uma reforma milionária.

Filipe Pinhal pode até sentir-se indignado por ter sofrido cortes na sua reforma, mas aconselharia o bom-senso que, atendendo ao seu passado e à pensão privilegiada que aufere, o melhor teria sido ficar calado. É que há reformados e ... reformados.

APRE! foi o que me apeteceu exclamar. APRE como expressão designativa de espanto, irritação, impaciência ou repulsa e não o da sigla da Associação de Reformados, que essa termina com "e" pequeno.

 

segunda-feira, março 04, 2013

"Tava" tanta gente ...




Era uma multidão imensa quando cheguei. E continuou a engrossar com gente vinda de todo o lado, numa alegria tensa que mostrava determinação, revolta, raiva, desespero e vontade de mudança.

Não gosto muito do nome do principal movimento que promoveu a manifestação: "Que se lixe a troika". Questão de pormenor, talvez, e que não invalida que a dita se lixe mesmo. Mas preferia um nome mais sonante, mais criativo. E porque não "Que se lixe o Governo"? Ou que se lixe alguém que não sejam sempre os mesmos?

Mas, dizia, era de facto uma manifestação "colossal". Cerca de meio milhão (há quem jure que seriam oitocentos mil) de almas só na manifestação de Lisboa (um milhão e meio em todo o país). Uma "maré cheia" de gente, como li algures. E, por serem tantos, não estranhei não encontrar nem o Passos Coelho nem o Miguel Relvas, nem qualquer outro elemento do executivo. Certamente que estariam por lá, mergulhados na multidão, se calhar com o Passos empunhando um cartaz a dizer mal do Relvas e, este, envolto numa faixa que deitava abaixo o Passos. Mas vi muitos dirigentes políticos da oposição e dos movimentos sindicais e, até, um dos militares de Abril. Mas, à minha volta vi, sobretudo, muitos jovens e outros bem menos jovens para quem o presente é extremamente difícil o futuro uma incógnita. Passei por uma pessoa que segurava um cartaz onde se lia "Sem Presente e Sem Futuro" e que me fez pensar que eu bem poderia levantar um cartaz onde se lesse a minha própria vivência "Com Um Passado Sofrido, Sem Presente e Sem Futuro". Vi muitos desempregados, vi e ouvi famílias inteiras a clamar por mudanças, por melhor saúde, por mais oportunidades de emprego (sem que seja necessário procurá-lo noutros países), por melhor justiça, por menos impostos, por menos austeridade. Vi pessoas desfilando pelas ruas, convictas dos apelos que faziam e dos cartazes que levantavam, enquanto, aqui e ali, se juntavam às palavras de ordem ou entoavam os versos, sempre exaltantes, de "Grândola, Vila Morena".

E todas estas pessoas percorreram ordeiramente as ruas, dando sinais ao Governo, à troika e à Europa que alguma coisa tem que mudar e rapidamente. E se quem nos governa ainda necessitava de sentir o pulsar dos cidadãos, a resposta dada foi clara. Passos Coelho tinha desvalorizado a iniciativa, mas tenho esperança que o mote "O Povo é quem Mais Ordena", cantado vezes sem conta durante a manifestação, o tenha feito reflectir.

 

sexta-feira, março 01, 2013

Um exemplo de político



Eu sei que o escândalo de corrupção que rebentou em cima do Primeiro-Ministro espanhol Mariano Rajoy não passa, por enquanto, disso mesmo, de um escândalo. Mas confirmando-se, ou não, essas suspeitas o certo é que são muitos os políticos que entram (ou que se põem a jeito) em certos esquemas e, daí, acreditar-se cada vez menos em quem entregamos a condução dos nossos destinos.

Por isso, quando há uns tempos li no El Mundo um artigo sobre José “Pepe” Mujica, de 77 anos e Presidente do Uruguai, onde se considerava que era o Presidente mais pobre do mundo, torci o nariz cheio de dúvidas. Logo num país de uma região onde os níveis de corrupção tomam proporções gigantescas? Mas não quis tirar conclusões precipitadas e “googlei” (como agora se diz) para tirar isso a limpo.

De facto o Presidente do Uruguai parece ser uma excepção. Vai para o trabalho todos os dias a guiar o seu modesto automóvel de 1300 c.c. de cilindrada (que vale mil dólares), fazendo o trajecto desde a sua pequena habitação (o seu único património para além do carro), localizada nos arredores de Montevideu, onde vive com a mulher. Recebe um salário de 12,5 mil dólares como Presidente, fica apenas 1,25 mil para os seus gastos e doa o restante, cerca de 90%, a pequenas empresas e a Organizações Não-Governamentais. E isso dá-lhe para viver? “Este dinheiro chega-me, tem que chegar porque há outros uruguaios que vivem com menos – costuma dizer”. De referir, ainda, que a sua mulher, senadora da República, também doa uma boa parte do seu salário.

Apesar de ser Presidente de um dos países mais importantes da América do Sul, José “Pepe” Mujica e a esposa levam uma vida espantosamente simples. Aliás, ele é um homem simples. Nunca usa gravata (sempre casaco e camisa branca), convive com os amigos de sempre e não tem contas bancárias nem dívidas. Um homem de sólida formação, de convicções fortes, que lutou pela democracia contra a ditadura, foi preso e é hoje presidente eleito do país.

A sua residência presidencial, o Palácio Suarez Reyes, onde se realizam as reuniões do Governo, já deu guarida a pessoas sem-abrigo e a residência de Verão do Governo, em Punta del Este, foi vendida ao Banco Estatal que o transformará em escritórios e espaço de cultura. O dinheiro da venda será, por decisão de Mujica, integralmente aplicado na construção de moradias populares e de uma escola agrária.

Costuma dizer-se que “ao serem eleitos, os Presidentes fazem uma espécie de renúncia pública da sua liberdade”. No caso de Mujica isso não aconteceu. Embora sujeito a fanatismos ou ódios políticos, continua a andar sem segurança. Também por isso, admiro a sua coragem e as suas convicções. Afinal, ele lutou toda a vida e sempre arriscou a sua segurança e a da própria família por elas. Porquê mudar agora?

São pessoas como esta que nos transmitem alguma esperança no futuro. E certamente que o mundo seria um lugar bem melhor se outros políticos tivessem a grandeza e a seriedade de José “Pepe”Mujica.