quarta-feira, junho 12, 2013

Gato escondido com o rabo de fora ...



Faltam poucos dias para a realização da cimeira do G-8 na localidade de Fermanagh, na Irlanda do Norte.

Já se sabe que os protestos não vão faltar, como sempre acontece. Mas esta reunião dos "donos do mundo" tem uma particularidade. É que, para esconder os efeitos da crise que também se instalou por aqueles lados, as autoridades britânicas gastaram mais de 350 mil euros em fachadas falsas de lojas.

O objectivo, claro está, é criar a ilusão de que as lojas fechadas devido à crise estão abertas e em plena actividade e que, portanto, o país está a funcionar e continua a cheio de oportunidades para quem o visita e quer investir.

Porém, e apesar destas "boas intenções", parece que a mentira não agradou lá muito a grande parte da população que considera a medida um desperdício de dinheiro que esconde a real dimensão das dificuldades económicas vividas na região.

E são capazes de ter razão. A mentira costuma ter a perna curta e desta encenação bem se poderia dizer que se trata de "gato escondido com o rabo de fora ..."

terça-feira, junho 11, 2013

O raio da chuva deu cabo do investimento




Ainda há dias escrevi aqui sobre aquela rábula infeliz de Vítor Gaspar em que pedia simpatia pelas difíceis semanas que tinha vivido ... como adepto do Benfica. Percebeu-se que o homem quis fazer graça mas a graça saiu-lhe completamente ao lado. É o jeito de Gaspar, quiçá fruto de ter vivido lá fora muito tempo e ter "apanhado" o humor anglo-saxónico que tem qualquer coisa de "nonsense", que o torna tão peculiar, chamemos-lhe assim.

Agora, na discussão do Orçamento Rectificativo, teve uma tirada que arrepiou quem o ouviu: "a contracção do PIB português, que segundo o INE foi de 4% no primeiro trimestre, foi motivada, em parte, pela quebra do investimento na construção. O investimento foi adversamente influenciado pelas condições meteorológicas do primeiro trimestre que afectaram a actividade da construção.”

Ou seja, o Ministro das Finanças justificou a quebra na actividade económica com as más condições meteorológicas vividas na primeira metade do ano.

Mas Vítor Gaspar estava imparável naquele dia. É que o mesmo Orçamento Rectificativo revela que o Governo quer garantir mais um milhão e meio de euros com as infracções ao Código da Estrada. Por outras palavras, há que aumentar as receitas das infracções rodoviárias. Multar, multar, multar, é a palavra de ordem. Multar até, quem sabe, quem nunca foi multado.

O "humor de Vítor Gaspar" deixa-nos desconcertados. Ou será que ele fala mesmo a sério?

sexta-feira, junho 07, 2013

"Nevoeiro"



"Nevoeiro", de Fernando Pessoa



Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!


 

quinta-feira, junho 06, 2013

Ao ponto a que chegámos ...




Começamos a ficar fartos de leis mal feitas, injustas, inconstitucionais e desadequadas à realidade do país que somos. Salta à vista a incompetência do Governo. E, para cúmulo da pouca-vergonha, já temos também gestores de empresas públicas que não obedecem às determinações do Governo.

Como aconteceu com o caso dos falados "swaps tóxicos". Seis empresas públicas foram envolvidas neste processo, com perdas potenciais elevadas - Metro de Lisboa (1131,4 milhões), Metro do Porto (832,6 milhões), EGREP (174,5 milhões), CP (140,6 milhões), Carris (116,5 milhões) e STCP (107,2 milhões).

Pois bem, face a este enorme prejuízo para o Estado, o Governo decidiu - e anunciou-o publicamente - que ia demitir os gestores que aprovaram esses mecanismos financeiros considerados especulativos. E, pasmem-se, os gestores foram mesmo despedidos? Não!

É que o Governo ao decidir esta medida, por impulso ou por outro motivo qualquer, esqueceu-se de um pequeno pormenor: o Governo não tem poder para os afastar sem justa causa. E como do ponto de vista legal está longe de se saber quem são os responsáveis pelos actos de gestão negligentes, os gestores "não aceitaram" o convite para se demitirem. Ponto!

Portanto, e em resumo, o Governo ia demitir os gestores das seis empresas públicas e eles recusaram-se a sair. O mais curioso, porém, é que o Orçamento Rectificativo para este ano, apresentado no Parlamento pelo Executivo, prevê o reforço dos empréstimos e dotações de capital às empresas públicas que contam para o défice. Para pagar o quê? Justamente para permitir a liquidação dos contratos de swap subscritos nos últimos anos.

Ao ponto a que chegámos ... se não fosse triste era, ou não, motivo para uma gargalhada?

quarta-feira, junho 05, 2013

A porta da rua é a serventia da casa ...




A rápida deterioração da situação económica na Europa, sobretudo nos países do sul, com as graves consequências no desemprego e na falta de perspectivas para o futuro, leva a que muitos jovens emigrem. Mas não só os jovens ...

Factores de vária ordem levaram a esta situação desesperante que uma classe política, por incompetência, interesses inconfessados ou ideologia não soube responder devidamente.

Em Portugal a taxa de desemprego oficial é de 17,8% e o desemprego jovem situa-se nos 42,5%. e, em Itália, o desemprego está um pouco acima dos 12% e o desemprego jovem é superior a 40%. Mas enquanto, no nosso país, Passos Coelho e Vítor Gaspar incitam à debandada da rapaziada para outras bandas que por cá não se safam, o Chefe do Governo italiano, numa carta publicada no jornal La Stampa, pede desculpa aos jovens que foram "forçados a emigrar" e reafirma que a prioridade do Governo é travar a saída de jovens.

Embora em ambos os países se verifique uma emigração maciça de jovens, é interessante analisar como o mesmo problema é encarado de forma diversa pelos dois Executivos. Por lá, pedem-se desculpas e assegura-se que vão ser adoptadas medidas para livrar o mercado de trabalho dos seus pesos e injustiças, para conseguir emprego estável para os jovens e para apoiar a Itália que inova. Por cá, limitam-se a apontar a porta de saída ...
 
 

terça-feira, junho 04, 2013

Não há duas sem três ...




Depois de, por duas vezes, o Tribunal Constitucional ter considerado inconstitucionais leis do Governo de Passos Coelho, o TC declarou na semana passada inconstitucionais todas as normas respeitantes ao estatuto das comunidades intermunicipais e da transferência de competências do Estado para as autarquias locais. A proposta, um dos pilares da reforma administrativa local, que o ex-ministro Miguel Relvas pôs em curso e que foi, aliás, uma das suas principais bandeiras políticas enquanto integrou o Governo de Passos Coelho, caiu por terra. Mas, ao invés das anteriores, este parecer de inconstitucionalidade foi aprovado por unanimidade pelos juízes do TC.

Está-me cá a parecer que apesar de Passos ter admitido muita gente para o seu "pequeno governo", ainda estão a faltar uns quantos assessores que percebam alguma coisa de leis que não colidam com a Constituição. É que já começa a ser preocupante assistir-se, frequentemente, à rejeição por inconstitucionalidade, das leis aprovadas pelo actual executivo e pela maioria parlamentar que o apoia.

Para além do facto em si, fica a curiosidade de Relvas já ter saído do Governo mas o Governo ainda não se ter livrado dele.

segunda-feira, junho 03, 2013

O humor de Vítor Gaspar




A verdade é esta, há pessoas que têm graça e outras que não têm, por muito que se esforcem. Obama, por exemplo, faz humor e é engraçado. Já Cavaco Silva tenta fazer graça e riem-se dele.

Vítor Gaspar também não fugiu à tentação de fazer humor em público. Ainda esta semana, na forma peculiar que lhe conhecemos (embora desta vez com uma expressão bem mais risonha do que o habitual) disse:

"Quero pedir a vossa simpatia pelas difíceis semanas que tenho vivido ... como adepto do Benfica. Esta questão de perder sucessivamente por 2 a 1 , em alguns casos depois do tempo regulamentar é, de facto, uma provação que merece toda a simpatia".

Mesmo sendo Gaspar um benfiquista confesso, este género de "stand up" (sentido, porventura) não se encaixa no perfil do Ministro das Finanças. Constituiu, pois, uma rábula infeliz.

Ironias e humores à parte, o mínimo que se esperava de uma pessoa que tem ajudado o país a afundar-se com as suas políticas abstrusas e cálculos sistematicamente errados, é que ele pedisse aos portugueses alguma simpatia pelas difíceis semanas em que tem vivido ... ao tentar inverter, por exemplo, os cortes brutais que tem feito nos salários e pensões. Mas não, o problema de Gaspar, o seu mal-estar, deve-se não ao sofrimento e às agruras por que têm passado os cidadãos, mas ao facto do seu estômago não aguentar um final de época menos feliz do seu clube do coração.

Tenha dó!

 

sexta-feira, maio 31, 2013

No próximo fim-de-semana lá estaremos ...




Como de costume, nestas épocas de Campanhas do Banco Alimentar, cá estou eu a lembrar que no próximo fim-de-semana é tempo de mostrarmos a nossa solidariedade para com quem vive em situação de grave carência alimentar.


Em Dezembro de 2012, os Bancos Alimentares Contra a Fome recolheram em Portugal, 2.914 toneladas de géneros alimentares. Todos esses produtos foram distribuídos a 2.373 Instituições de Solidariedade Social, que os entregaram a cerca de 373 mil pessoas com carências alimentares comprovadas, sob a forma de cabazes ou de refeições confeccionadas


Um estudo do Banco Alimentar e da Universidade Católica confirma um aumento da pobreza e são cada vez mais os que pedem ajuda para comer.

Por isso lá estaremos de novo para, dentro das nossas possibilidades, mostrar que a solidariedade dos portugueses é ainda maior do que a crise que nos afecta a todos. E, por pouco que seja, esse pouco pode fazer toda a diferença.

Recordamos a forma como pode participar:

Campanha Saco (nos supermercados) – 1 e 2 de Junho

Campanha Ajuda Vale (também nos supermercados) – 1 a 9 de Junho

Campanha on-line BA - 17 de Maio a 9 de Junho

E lembrem-se que no próximo sábado se comemora "O Dia Mundial da Criança". Para além do afecto e de uma eventual lembrancinha, aquele pode ser o momento ideal para explicar aos mais miúdos o significado de "partilha" e de "solidariedade". Como se costuma dizer, "de pequenino é que ...

Contamos consigo. "Alimente esta ideia".
 
 

quinta-feira, maio 30, 2013

Afinal, em que ficamos?




Ontem, no mesmo dia e quase à mesma hora em que Vítor Gaspar garantia, na Comissão Eventual para Acompanhamento das Medidas do Programa de Assistência Financeira a Portugal, estarem corrigidos "os principais desequilíbrios macroeconómicos" e cantava aleluias por Portugal ter conseguido regressar aos mercados mais cedo do que o previsto, a OCDE publicou um relatório em que afirmava que o governo português dificilmente conseguirá cumprir as novas metas para o défice orçamental acordadas na sétima avaliação da troika.

Mais, a OCDE considerava que o fraco crescimento e as medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional tornarão improvável o cumprimento das recentemente revistas metas para 2013 e 2014.

Na verdade, prevê-se que economia contraia este ano -2,7% (face aos -2,3% previstos pelo governo e pela troika) e que a recuperação no próximo ano seja apenas de 0,2% (face aos 0,6% do governo e da troika). Na frente orçamental a instituição coloca em 6,4% do PIB a previsão para o défice orçamental este ano e em 5,6% em 2014, valores significativamente acima dos 5,5% e 4% definidos pela troika na sétima avaliação.

Por isso, tão preocupados que estamos com o (mau) estado em que o país se encontra, com todos os índices a derraparem - desemprego a subir, falências a crescerem, dívida externa a subir e mais todos os outros indicadores a descambarem - temos bastos motivos para nos interrogarmos. Afinal, em que ficamos? Gaspar, qual esfinge (repararam que ele perdeu a atitude serena de há uns tempos e já se mostra mais irritadiço?), garante que agora é que é ... agora é que vai ser, por já estarem corrigidos os principais desequilíbrios macroeconómicos. Mas, por outro lado, a OCDE e muitos analistas nacionais e estrangeiros dizem que isto vai de mal a pior.

Repito, afinal em que ficamos? Quando é que nós vamos sentir os efeitos dessa correcção (se a houver) ontem anunciada pelo Ministro das Finanças? E em que é que isso se vai traduzir no nosso dia-a-dia?
 
 

quarta-feira, maio 29, 2013

Mais um a rejeitar o novo acordo ortográfico




A coisa está a compor-se. É cada vez maior o número de pessoas que rejeitam as regras da "embrulhada" que ficou conhecida pelo "novo acordo ortográfico".

Ainda no ano passado, o Presidente do Centro Cultural de Belém, Vasco Graça Moura, considerou inconstitucional a resolução aprovada em Janeiro de 2011 pelo Conselho de Ministros, ordenando que o Acordo Ortográfico fosse adoptado por todos os serviços do Estado e entidades tuteladas pelo Governo. Disse na altura "o Acordo Ortográfico não está nem pode estar em vigor". Daí que ficou decidido que o CCB não ficaria obrigado ao cumprimento da nova ortografia.

Agora foi a vez do Juiz Rui Teixeira, aquele que conduziu a instrução do Processo Casa Pia, colocado no Tribunal de Torres Vedras, que não quer receber pareceres técnicos sociais escritos ao abrigo do novo acordo. O magistrado enviou, em Abril, uma nota à Direcção Geral de Reinserção Social onde se podia ler:

"fica advertida que deverá apresentar as peças em Língua Portuguesa e sem erros ortográficos decorrentes da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros 8/2011 (...) a qual apenas vincula o Governo e não os tribunais".

Perante um pedido de esclarecimento da DGRS, Rui Teixeira respondeu:

"'a Língua Portuguesa não é resultante de um tal «acordo ortográfico» que o Governo quis impor aos seus serviços ... nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso ... a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário"
Ah, valente! É que eu também achava que um cágado sem assento não era exactamente o animal que nós conhecíamos. Agora, um juiz pôr isso por escrito é obra. Tiro-lhe o meu chapéu!

terça-feira, maio 28, 2013

Nunca houve tão poucos Ministérios ... disse ele



Numa crónica publicada no Expresso há duas semanas o jornalista Fernando Madrinha recordou que o actual governo quando tomou posse anunciou, ufano, que este era o Governo mais pequeno de que há memória com, apenas, 11 ministros. Porém, o orgulho de há dois anos tem vindo a definhar. Agora, já são 12 Ministros que com o conjunto de Secretários de Estado perfaz o número de 51 governantes, apenas menos quatro do que o último Governo de Sócrates. Mas mais importante do que comparar o número de pessoas existentes neste e no anterior executivo, o que me parece relevante é saber que só a trabalhar directamente para os Ministros e Secretários de Estado existem 810 colaboradores. Muita gente, não é?

Mas o que ainda me chamou mais a atenção na crónica de Fernando Madrinha foi ele ter recordado uma reportagem da SIC - que muitos terão visto - em que uma Ministra dinamarquesa mostrava os seus colaboradores directos: apenas meia dúzia de pessoas e só uma, o assessor político, foi nomeada por si. As restantes eram residentes que fazem o seu trabalho independentemente do Governo que esteja no poder.

Mesmo tendo em conta que a população da Dinamarca é aproximadamente metade da portuguesa, mesmo assim, o número de pessoas afectas aos dois Governos é completamente desproporcionado. Basta comparar as seis que trabalham no Gabinete da Ministra dinamarquesa com, por exemplo (para só citar um caso), o número de trabalhadores que colaboram com o recém-nomeado Ministro-Adjunto e do Desenvolvimento Regional que levou para o Gabinete 13 pessoas e os seus 4 Secretários de Estado mais 30.

Não me atrevo a pôr em causa a necessidade de ter que haver tanta gente. Limito-me, tão-só, a constatar os números ...
 
 

segunda-feira, maio 27, 2013

Afinal, já nem do Presidente podemos falar mal ...




Toda a gente conhece aquele texto (originário do Brasil mas perfeitamente adaptável ao nosso país) que tem corrido pela net e que diz mais ou menos o seguinte:

"Na época da ditadura podíamos namorar dentro do carro sem o perigo de sermos mortos por bandidos. Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era o cidadão de bem, quem era o bandido e quem era o terrorista. Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos namorar a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por assédio sexual”. Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças, credos ou preferências sexuais e não éramos processados por discriminação. Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do dia de trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinquência, sendo preso por estar “alcoolizado”. Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos ir a um bar, em qualquer bairro da cidade, de carro, de autocarro, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados. Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje, em liberdade, a única coisa que podemos fazer … é falar mal do presidente!"

 

Afinal, parece que já nem do Presidente podemos falar mal ... que o diga Miguel Sousa Tavares que, numa entrevista ao Jornal de Negócios, se deixou levar pelo entusiasmo (e se calhar pela revolta) e afirmou:
"Beppe Grillo? 'Nós já temos um palhaço. Chama-se Cavaco Silva'".
 
Excedeu-se, como o próprio já reconheceu publicamente, em ofender a figura do Presidente da República ("Acho que o Presidente e o Ministério Público têm razão, reconheço que não devia ter dito aquilo. Fui atrás da pergunta", disse.

Entendo, por isso, que as suas palavras justifiquem a instauração de um processo. No entanto, muitos entenderão que o cidadão Cavaco Silva tem feito muito pouco para merecer o respeito que é devido ao Presidente da República. Até por que, neste caso, percebe-se claramente que o "insulto" de Sousa Tavares ao chamar-lhe palhaço, foi, naturalmente, proferido em "sentido político" e directamente à pessoa de Cavaco, não do Presidente.

O que espero é que nesta democracia que, às vezes, mostra tantas fragilidades, se torneie o artigo 328.º do Código Penal (prática do crime de Ofensa à honra do Presidente da República) e prevaleça o bom-senso. E que, já agora, se tenha em devida conta o equilíbrio necessário entre o direito da protecção do bom-nome defendida pelo Código Civil e a liberdade de expressão consignada na Constituição.
 
 

sexta-feira, maio 24, 2013

"Poema de Amor para Uso Tópico" de Nuno Júdice




Poeta, ensaísta e ficcionista português - Nuno Júdice (1949) - foi recentemente galardoado com o XXII Prémio Reina Sofia de Poesia Ibero-Americana, atribuído pelo Património Nacional espanhol e pela Universidade de Salamanca.

O prémio reconhece o conjunto da obra poética de um autor vivo que, pelo seu valor literário, constitua uma contribuição relevante para o património cultural partilhado pela comunidade ibero-americana.

 

 

"Poema de Amor para Uso Tópico"
de Nuno Júdice

 

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

 

quinta-feira, maio 23, 2013

Só p'ra inglês ver?




Devo confessar que simpatizo com o Ministro Álvaro Santos Pereira. Parece ser boa pessoa, embora um tanto ingénuo. Veio de um outro país que está a anos-luz da realidade portuguesa e quer - pelo menos dá a sensação disso - fazer coisas, quer mostrar obra. Só que, os problemas estruturais e os diversos lobys têm dificultado muito o seu trabalho. Ainda assim e apesar da economia (é bom recordar que ele é o Ministro da Economia) estar num caos, lá se tem aguentado sempre naquela posição de "remodável" mas cuja remodelação ainda não se concretizou. E já lá vão dois anos.

Pois o Álvaro lá vai andando, sempre de sorriso em riste, tentando "inventar" coisas que o Passos Coelho e o Gaspar teimam em não aprovar. Mas ele não desiste.

Assim, anunciou no Parlamento que vai haver cortes nos carros e nos motoristas em todos os Ministérios e em empresas, institutos e organismos tutelados por si. Só em 18 das empresas estão alocadas 72 viaturas para outros tantos administradores. Em média, cada um destes automóveis custou 42 mil euros aos cofres públicos e gastam, também em média cada um deles, 3700 euros anuais em combustível.

Há quem diga que a poupança conseguida com estas medidas nestas 18 empresas - menos de 3 milhões de euros - são coisa de pequena monta e que representa apenas, por exemplo, 0,1% do buraco criado pelos "swaps" nessas mesmas empresas tuteladas pelo Ministro. Mesmo assim (e dos swaps poderemos falar noutra ocasião) considero que esta iniciativa de Álvaro Santos Pereira é corajosa e que, de alguma forma, visa moralizar a gestão da coisa pública.

Pode-se até considerar que os cortes nos carros do Estado são só "p'ra inglês ver", mas os chamados consumos intermédios têm que ser reduzidos da forma mais drástica possível para que os contribuintes não sejam chamados - uma vez mais e sempre - a suportar novos impostos. Como afirmou o Ministro trata-se de uma questão de respeito pelo dinheiro dos contribuintes. E, digo eu, por respeito aos próprios contribuintes.
 
 

quarta-feira, maio 22, 2013

Uma outra forma de "ir aos mercados"




Quando ontem falava de empréstimos, não pude deixar de pensar no meu amigo Osvaldo. Conheci-o ainda na primária e desde sempre lhe observei uma característica: gostava de pedir emprestado. Melhor, "empresta ... dado". Começou em criança pelas sandes e bolachas e o seu rumo foi delineado sempre pela pedinchice.

Assim, fiquei banzado quando me disseram que ele se tinha mudado para um apartamento de um prédio de luxo, no centro da cidade. Devia estar bem de vida, de outro modo como é que poderia pagar tudo aquilo?

Com a franqueza de quem se conhece há muito, perguntei-lhe de chofre logo que o encontrei. "Então, pá, ganhaste o euromilhões? Ouvi dizer que moras num andar chiquérrimo ...

O Osvaldo, ajeitou o nó da gravata e com a mesma desfaçatez que sempre lhe conheci, respondeu-me de pronto:

"É verdade, moro num prédio lindíssimo de 20 andares com quatro fracções por piso e três estabelecimentos comerciais no r/c. Tudo gente rica, já se vê. E já lá estou a morar há quase três anos. Conheço-os a todos e são todos grandes amigalhaços meus".

Mas esperto como é, percebeu o que eu queria realmente saber e também não fugiu à resposta: "Como sou amigo de todos, organizei um plano para pedir dinheiro emprestado a uns e a outros, de modo a que eu possa pagar o que devo a quem já pedi e ainda ficar com umas boas massas para pagar os meus luxos. Só tenho que ter o cuidado de pedir, por exemplo, a vizinhos do 1º andar e, ao mesmo tempo, a uns do 5º e do 10º, de modo a que nenhum desconfie da coisa. Estás a perceber?".

Retorqui: "mas assim, vais-te endividando cada vez mais ..."

"É verdade" respondeu, "mas desde que eu cumpra os prazos de pagamento, quem é que se vai importar com isso. É pá, põe os olhos nos nossos governantes ..."
 

 

terça-feira, maio 21, 2013

Voltámos aos mercados


Há duas semanas voltámos aos mercados e foi um sucesso. E depois? Sei bem que ter acesso aos mercados permite-nos voltar a ganhar a liberdade financeira perdida e que sem a confiança dos investidores estaremos destinados a nunca mais ter dinheiro para o que quer que seja. Mas a "simples" emissão de dívida pública que correu tão bem e que até pode resolver os nossos problemas mais imediatos, seguramente não resolve os de médio e longo prazo. Enquanto não decidirmos que o caminho tem que passar - inevitavelmente - pelo crescimento, e para isso são necessárias medidas concretas que ainda ninguém viu, o mais certo é andarmos de emissão em emissão, empurrando os problemas (e os empréstimos) com a barriga para um dia, lá mais para a frente, alguém ter que, inevitavelmente, os pagar.

É que o regresso aos mercados é uma consequência e não a causa da crise.

 

segunda-feira, maio 20, 2013

Banif` - à "boa gestão", uma excelente recompensa ...





O caso que comento hoje é apenas um que veio nos jornais (muitos outros estarão no segredo dos deuses) e que representa bem a incompetência, a ligeireza e o despudor com que se tratam os dinheiros públicos.

Sabe-se que o Banif recorreu aos fundos públicos de recapitalização, tendo o Estado lá metido 1100 milhões de euros. Ou seja, como não detinha o dinheiro suficiente para cumprir os rácios a que era obrigado, pediu-nos - ao Estado, portanto, a nós cidadãos - que interviéssemos dando-lhes dinheiro. O Banif é pois um banco intervencionado e o Estado português passou a deter 99,2% do banco.

Independentemente de julgarmos oportuna (ou não) essa intervenção, o pior foi quando soubemos que - apesar da aflição em que se encontrava e de ainda estar vivo porque nós o salvámos - que uma administradora (Conceição Leal, na foto acima) que era a responsável da delegação no Brasil (de onde o Banif, apesar de ter uma operação muito pequena, vai sair porque a coisa correu bastante mal) recebeu, em 2012, um prémio de gestão de 533,7 mil euros, a que juntou 448,6 mil euros de salário, num total de 982,3 mil euros. O triplo do que ganhou o próprio presidente do banco e mais, muito mais, de qualquer outro banqueiro em Portugal.

Um banco em que metemos tanto do nosso dinheiro a pagar um prémio milionário a uma administradora cuja gestão é, no mínimo, questionável. Só podem estar a gozar connosco.

Percebem, agora, porque é que se têm que fazer "cortes" nos salários e pensões dos funcionários do Estado e dos pensionistas e reformados?
 
 

sexta-feira, maio 17, 2013

A "Inspiração Divina"




Diz-se que Cavaco Silva fala pouco mas, quando fala ...

Lembram-se de quando ele, numa visita aos Açores, disse:

“Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante”.

ou de quando desabafou sobre as suas reformas miseráveis?

ou, ainda, quando numa visita em que o "povão" reclamava as difíceis condições de vida e os seus baixos salários e pensões, puxou a mulher por um braço e disse: "Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou a vida toda e sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês ... portanto, depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda".

Brilhante, digo eu. Ainda que me esforçasse muito nunca conseguiria uma tirada destas ...

Pois bem, há dias, referindo-se aos efeitos positivos da aprovação da sétima avaliação da troika para Portugal, declarou que se tratou de “inspiração de Nossa Senhora de Fátima”. E confirmou: "Penso que foi uma inspiração da Nossa Senhora de Fátima. É o que a minha mulher diz”.

Já não nos chegavam as frases inspiradoras de Cavaco ... agora, até a primeira-dama já dá palpites ...
 
 
 

quarta-feira, maio 15, 2013

As "prioridades" do Conselho de Estado




Marques Mendes já tinha anunciado a convocação do Conselho de Estado. Marcelo Rebelo de Sousa também já tinha sugerido que tal iria acontecer. E sendo ambos Conselheiros de Estado e tendo informação privilegiada, sabia-se que a coisa estava para breve. Irá realizar-se na próxima segunda-feira dia 20 de Maio.

Uma convocatória original, sobretudo se pensarmos que:

- os citados conselheiros (e outros tantos que são mais próximos do Presidente) já sabiam desta reunião há algum tempo enquanto outros, nomeadamente Mário e Soares e Manuel Alegre, só foram avisados depois de toda a imprensa ter revelado o facto;

- o Conselho, ao contrário do que se poderia prever, irá debater as "Perspectivas da Economia Portuguesa no Pós-Troika, no Quadro de uma União Económica e Monetária Efectiva e Aprofundada". Isto é, a preocupação vai centrar-se nos eventuais cenários daqui a um ano como se, no momento, nada de anormal se passasse.

Julgava eu (e mal, pelos vistos) que a convocação de um Conselho de Estado só se fazia quando algo de muito grave acontecia no país. Mas Cavaco Silva, distraído como sempre, nem sonha que a coligação está moribunda e dificilmente sairá desse estado, que os reformados andam às aranhas sem saber o que vai acontecer às suas pensões, que a taxa de desemprego sobe todos os meses, que a economia está um caos, que diariamente há empresas que encerram portas e que toda esta crise que nos afecta está a pôr os cidadãos à beira não de um ataque de nervos mas de um enlouquecimento total.

Eu sei que no dia em que acabar o programa de ajustamento, acaba-se o financiamento oficial e teremos que nos voltar para os mercados para continuar a pedir mais dinheiro. Por isso temos que nos preparar (e com tempo) para essa situação. Mas, caramba, estamos a um ano de lá chegar. E que tal se arranjássemos soluções para os problemas gravíssimos que temos - AGORA - para resolver?. É que corremos o risco de não haver Portugal quando a troika se for embora...
 
 
 

terça-feira, maio 14, 2013

Terrorismo de Estado?




O funcionalismo público sempre foi uma garantia de emprego para sempre. E, durante décadas, um motivo de orgulho para quem servia o Estado.

Os tempos agora são outros e ser funcionário público, ao invés da segurança de outrora, começa a ser uma profissão de risco. Veja-se, por exemplo, o novo regime de "requalificação" dos funcionários, que substitui o ainda actual sistema de mobilidade. Quais as intenções do Governo já anunciadas?

Embora se insista que tudo se vai passar apenas se houver rescisões por mútuo acordo, o que de facto vai acontecer é que vão escolher uns quantos milhares de funcionários (não se sabe quantos, todos os dias é lançada uma nova versão sobre o número de funcionários públicos a despedir), nomeadamente os menos qualificados, metê-los na tal coisa chamada "requalificação" ou "mobilidade " (ou o que quiserem chamar-lhe ...) e mantê-los assim durante 18 meses. Nos primeiros 6 meses receberão dois terços do seu salário, 50% nos 6 meses seguintes e nos últimos 6 apenas 33,4%. No final do tempo ou serão recolocados no serviço público (e não vão ser seguramente) ou têm duas hipóteses, qual delas a melhor: ou ficam ligados ao Estado mas sem vencimento ou rescindem o seu contrato, recebem uma indemnização e não têm direito a subsídio de desemprego.

Se isto não configura a situação de despedimento, puro e duro, do que é que estamos a falar? De "terrorismo de Estado", conforme alguns já lhe chamam?
 
 

segunda-feira, maio 13, 2013

Medos e incertezas



A técnica é conhecida e utilizada há muito. Quando os Governos querem implementar qualquer coisa - sobretudo difícil - divulgam essas medidas através de vários meios para que possam avaliar como a população vai reagir. Se mal, recua-se um pouco e a medida (má) que vier, será saudada como "do mal o menos". Se com resignação ou indiferença, "paciência, podia ser pior". Ou seja, vão atirando o barro à parede a ver se pega.

O actual Executivo não só não fugiu à regra como a ampliou e recriou. Vai anunciando e desdizendo sucessivamente as medidas previstas através de Ministros e Secretários de Estado, a ponto de já não sabermos exactamente o que nos vai acontecer. Passos Coelho tira medidas da cartola, Paulo Portas jura que não está de acordo com algumas delas e Hélder Rosalino (o Secretário de Estado da Administração Pública) atira mais achas para uma fogueira que já ninguém controla. Tudo numa encenação maquiavélica de um plano para confundir e manipular a opinião pública. A confusão é geral. E de probabilidade em probabilidade vamos discutindo os casos, vamos tentando ler nas entrelinhas e descobrir inconstitucionalidades e incompetências e vamos ficando, cada vez mais, com medos e incertezas.
 
 

sexta-feira, maio 10, 2013

Um só beijo?



Se bem que eu continue a preferir um bom abraço a um bom beijo (beijo social e/ou de amizade, entenda-se) em matéria de beijos muito haveria para dizer. Acho mesmo que o assunto daria uma boa tese de mestrado.

Fui educado por uma família tradicional em que o cumprimento mais comum era a da troca de um par de beijos. Convenhamos que alguns eram muito mal dados. A maioria deles eram dados no ar e não na face, como seria de desejar. Mas havia os outros, os que senhoras (quase sempre as senhoras e, sobretudo, as mais idosas) adoravam: o beijo repenicado (o chamado chocho), ou o beijo lambuzado ou, pior do que todos os outros, aqueles em que "espetavam" os pelitos pontiagudos que se tinham esquecido de tirar. E isso chateava-me.

Mas o normal era, de facto, os dois beijos. Quando me comecei a relacionar com senhoras de um estrato social aparentemente superior ao meu comecei a verificar que a forma normal de cumprimento era apenas de um beijo. Quantas vezes fiquei de cara pendurada à espera do segundo beijo que nunca viria. É a etiqueta, é chique, pensei na altura. O facto é que muitas vezes fiquei extremamente desconfortável quando dava conta que o beijo solitário me deixava de cara à banda.

A tradição portuguesa sempre foi a de dar dois beijos. No entanto, sabe-se que depois da nobreza se ter refugiado em Inglaterra, no tempo das lutas liberais, de lá veio o comedimento saxónico do beijo único – mais simples, mais elegante, mais rápido.

Referia há pouco que um só beijo é uma questão de etiqueta, de ser chique. Mas o que dizer dos franceses (querem um povo mais chique que os franceses?) que se mimoseiam não com um, nem com dois mas com três beijos? Às vezes com quatro, um é que não. Mas também na Holanda onde o hábito é darem três beijos. Bem pode dizer-se que cada país e cada cultura tem gestos e costumes que lhe são próprios.

Certamente que também já passaram por isto, compreendem, portanto, a minha angústia. Angústia e desespero que aumentam quando, em certos casos, as mesmas pessoas distribuem beijos únicos a alguns e a outros dão generosamente dois beijos. É a confusão total na minha cabeça. Alguém merece isto?

A não ser que se adopte definitivamente pelo simples aperto de mão. Evitar-se-iam, assim, muitos embaraços ...


 

quinta-feira, maio 09, 2013

O "desenrasca"



Na vida nada é linear. Andamos constantemente a lamentar que a rapaziada já não tem valores morais e que - já vi isso escrito por aí - vivemos hoje cada vez mais “enjaulados” numa sociedade sem rosto. Conversa, digo eu, porque quando damos de caras com uma pessoa que se mostra (muito) "solidária" com os seus amigos, a tal sociedade - nós - castigamo-la sem dó nem piedade.

Foi o que aconteceu a Domingos Oliveira, ex-Presidente da Junta de Freguesia de Perelhal, em Barcelos, que confessou ter "desenrascado" amigos com dinheiro da Junta. Este homem, como se percebe, amigo do seu amigo, que esteve 33 anos na Junta, 30 dos quais como Presidente, confessou em tribunal ter utilizado dinheiros públicos para resolver problemas pessoais e para "desenrascar" amigos, mas garantiu que já devolveu tudo. Só que o Ministério Público, eterno desconfiado, acusa o ex-autarca dos crimes de falsificação de cheques e peculato e de, alegadamente, se ter apropriado de quase 115 mil euros.

Ora, o que sucedeu, segundo o Digníssimo ex-representante do povo, é que o dinheiro foi usado não só para ultrapassar "circunstâncias" da sua vida, nomeadamente relacionadas com o divórcio, mas também para "desenrascar" amigos. Contudo, como se sabe, a vida e as suas circunstâncias, por vezes, pregam-nos partidas. Tal como certos amigos a quem ele socorreu e que ficaram a dever, tendo que ser o ex-Presidente a repor a massa.

Para além do facto das contas da Junta terem sido manifestamente manipuladas (termo eufemístico para dizer falsificadas) em 2005, 2006 e 2007, ficam por esclarecer algumas dúvidas. Nomeadamente:

- Durante os 30 anos em que Domingos Oliveira foi Presidente da Junta, eleito pelo PSD, nunca ninguém suspeitou das "habilidades" do Sr. Presidente? Nem nunca foram feitas auditorias às contas da Junta de Freguesia?

- Poder-se-á - ou não - enquadrar o desvio do dinheiro dos cofres da Junta, especificamente aquele que serviu para "desenrascar" os tais amigos, como uma acção solidária? Não me parece.

Pelo que, a moral da história só pode ser: temos que ter um olho no burro e o outro no ... ladrão.


quarta-feira, maio 08, 2013

Esta noite dormi mal ...





É verdade, esta noite tive uma insónia daquelas. Não preguei olho a pensar numa frase que li algures:

"Governo fez em dois anos o que ninguém fez nos últimos 15"

Então eu que tanto critico o Governo por não fazerem as coisas (ou fazerem-nas mal), nunca me tinha apercebido que este Executivo só em dois anos conseguiu mais do que outros fizeram em quinze?

Dei voltas e voltas na cama mas a minha inquietação só sossegou quando me levantei e fui buscar o jornal de onde eu tirara aquela frase. As poucas linhas da notícia confirmavam o título. É que o número dos sem-abrigo e mendigos em Lisboa terá triplicado no último ano. Só na Estação do Oriente, há noites em que dormem dentro da gare, mais de cem pessoas.

E pelo andar da carruagem, os números poderão vir a ser bem piores em breve. Situação que, pela certa, não tirará o sono a algumas pessoas ...


 

terça-feira, maio 07, 2013

De costas voltadas ...



Fazendo ambos parte do mesmo Governo de coligação, o mínimo que se esperava é que as medidas saídas desse mesmo Governo fossem anunciadas apenas pelo Chefe do Executivo. Mas não, como somos um país cheio de originalidades, o Primeiro-Ministro (e Presidente do maior partido da coligação) fez a sua comunicação ao país na sexta-feira às oito da noite (uma declaração de guerra, como lhe chamaram alguns) e o Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros (e Presidente do partido minoritário da mesma coligação) deu uma conferência de imprensa no domingo. Dois porta-vozes do mesmo Executivo que ainda por cima mostraram que não estão de acordo em coisas fundamentais.

E a forma e o conteúdo dos dois discursos foram completamente diferentes. Passos Coelho foi frio e demasiado vago enquanto que Paulo Portas teve um discurso bem elaborado, consequente, claro e inteligente. Como disse no domingo Marcelo Rebelo de Sousa, um era um programa de televisão a preto e branco e outro era a cores.

Ambos tinham sobre si a necessidade de apresentar qualquer coisa que permita que a sétima avaliação da troika seja (finalmente) positiva. Só que Passos se limitou a debitar um mero conjunto de medidas transversais de limitação de custos que vão agravar ainda mais (se forem avante) a economia, o desemprego e a situação dos cidadãos. Já Portas assumiu que está contra a taxa sobre as pensões, anunciada pelo Primeiro-Ministro na sexta-feira. E sobre este novo imposto anunciado por Passos sobre os pensionistas (que será para sempre e que constitui o mais desumano de todos os impostos e uma quebra de solidariedade entre gerações), Paulo Portas comprometeu-se a procurar medidas alternativas que substituam a nova contribuição sobre as pensões, porque, afirmou, "Quero, queremos todos, uma sociedade que não descarte os mais velhos". E o líder do CDS foi mais longe: assumiu uma frontal divergência com o PSD e dirigiu palavras muito duras à troika.

Resta-nos, agora, aguardar se a intervenção de Portas terá alguma consequência prática, se os partidos de oposição e os parceiros sociais conseguem alterar o que quer que seja e de saber qual a opinião de Bruxelas sobre mais este pacote violentíssimo de austeridade. Para já fica-nos a tal originalidade dos dois discursos e a certeza que a vida da coligação navega em águas muito revoltas.


segunda-feira, maio 06, 2013

Os "ses" e a inconsistência governamental



 
 
Ainda se lembram dos tão falados 4 mil milhões que o Estado tinha absoluta necessidade de "cortar", só não se sabia bem onde? Pois bem, esqueçam esses 4 mil milhões que já não chegam para satisfazer os nossos compromissos. Com as desculpas do chumbo do Tribunal Constitucional e outras, o Governo anunciou na semana passada que vai avançar com medidas de consolidação orçamental que ascenderão pelo menos a 6,5 mil milhões de euros até final de 2016.

Notem que este "pelo menos" é relevante porque pode muito bem acontecer que ainda haja necessidade de que os "cortes" vão bastante mais além. Coisa que, aliás, não nos surpreende, já estamos tão habituados a que nenhuma previsão seja cumprida. Esta pode ser só mais uma.

Mas é igualmente relevante que este anúncio de um corte mais crescido, que consta no DEO - Documento de Estratégia Orçamental - tenha sido desenhado com base em "ses": se a procura externa subir, se o preço do petróleo baixar, se as taxas de juro de curto prazo estabilizarem, se o euro continuar a par do dólar, se as exportações aumentarem, se o consumo interno aumentar ... se, se, se ... incertezas atrás de incertezas.

Para além do documento ter por base tantas suposições e de ser um tanto ou quanto vago e de vigência superior à do actual Governo, achei estranho que fosse completamente contraditório com um outro documento - Estratégia de Crescimento Económico - apresentado pelo Ministro da Economia uns dias antes.

Uma inconsistência governamental que já vai sendo costumeira.


 

terça-feira, abril 30, 2013

Faz amanhã 39 anos ...



Lembro-me como se fosse hoje. No primeiro 1º de Maio em liberdade fiz parte da enorme multidão de portugueses que saíram às ruas para celebrar o fim da ditadura. A maior manifestação de sempre. Aquela em que houve mais alegria e esperança. Cravos vermelhos floriam por todo o lado nas mãos e nas lapelas de tanta gente feliz. Chico Buarque não poderia ter definido melhor o sentimento de um povo que tinha aderido espontaneamente à revolução do 25 de Abril: "Sei que estás em festa, pá".

Faz amanhã 39 anos e parece que foi ontem. Muitas das nossas ilusões foram-se perdendo pelo caminho. Por um caminho de altos e baixos que, nos últimos anos, tem-nos feito regredir em muitos aspectos. "A paz, o pão, a habitação" de Sérgio Godinho foram sendo esquecidos. Mas a fé inquebrantável dos portugueses, embora significativamente enfraquecida, mantém-se e, no espírito de muitos, ainda soam os versos de Ary dos Santos:

"O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos, isto vai"


segunda-feira, abril 29, 2013

Não há almoços grátis ...



Depois das ondas de juristas e economistas que encheram a Assembleia da República e o Governo, o actual executivo apontou agora baterias para a classe jornalística. De uma assentada, foram nomeados 10 jornalistas - todos do Diário de Notícias - para Secretários de Estado. De estranhar, porém, que a escolha tenha recaído em jornalistas todos pertencentes ao mesmo jornal. Mas como não conheço pessoalmente qualquer deles, dou o benefício da dúvida. Quiseram mudar de vida e arranjar um futuro mais risonho e têm todo o direito a isso.

Mas um deles tem merecido críticas muito violentas - Francisco Almeida Leite. Diz quem sabe que o ex-jornalista do DN, que ainda foi vogal no Instituto Camões e é agora o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, é um perito em intriga, nomeadamente dentro do PSD, onde "levou ao colo" Passos Coelho quando este ainda fazia oposição interna a Manuela Ferreira Leite. Um especialista em múltiplos fretes a Coelho, antes e depois de ele chefiar o Governo, um vulgar e ambicioso moço de recados que há muito deixou de ter o pudor de disfarçar. E diz ainda quem o conhece que, tirando estes "méritos", nada mais há para acrescentar sobre os eventuais atributos políticos e técnicos.

Pergunta-se, então, por que foi ele nomeado? Sabendo-se que não há almoços grátis, a resposta parece óbvia: "Pelo pagamento de favores a quem tanto ajudou o Primeiro-Ministro a lá chegar".

Antes dele, e pelos mesmos motivos, já tinha havido Miguel Relvas. Mas esse, felizmente, já saiu. E estando o actual Governo num estado tão periclitante, pode até acontecer que Francisco Almeida Leite não chegue sequer a aquecer o lugar e siga o mesmo rumo que Relvas.
 
 
 

quarta-feira, abril 24, 2013

Abril de Sim Abril de Não



De Manuel Alegre, "Abril de Sim Abril de Não"

 


Eu vi Abril por fora e Abril por dentro

vi o Abril que foi e Abril de agora
 
eu vi Abril em festa e Abril lamento 
Abril como quem ri como quem chora. 
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
 
Abril que já não é Abril por vir 
e como tudo o mais contradição. 
Vi o Abril que ganha e Abril que perde 
Abril que foi Abril e o que não foi 
eu vi Abril de ser e de não ser. 
Abril de Abril vestido (Abril tão verde) 
Abril de Abril despido (Abril que dói) 
Abril já feito. E ainda por fazer.


 

terça-feira, abril 23, 2013

O atestado médico



 
Na crónica de ontem falei-vos em mentiras e na capacidade de, quantas vezes, fingirmos que a mentira é verdade. E lembrei-me de um texto, que já tem 4 ou 5 anos, intitulado "O atestado médico", escrito por um professor de Filosofia - José Ricardo Costa - que escreve semanalmente para o Jornal “O Torrejano”. Dizia ele:
 
"Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância. Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa. Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
 
Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.

Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
 
O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
 
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente. Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente. Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.
 
Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados.
 
Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D. Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.

Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
 
Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas. Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.
 
Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio".
 
 

segunda-feira, abril 22, 2013

O país das mentiras ...


 
Na semana passada Passos Coelho convidou António José Seguro para um encontro que visava um possível entendimento político. Apesar do Primeiro-Ministro ter esquecido há muitos meses que Seguro existia e que até era o líder do principal partido da oposição, Seguro compareceu. Em nome de uma eventual reconciliação? Por querer assegurar o reforço da democracia?

À saída, Passos afirmou que a reunião tinha corrido bem e Seguro disse que estava tudo na mesma. Uma bela amostra de uma convergência impossível. É certo que ambos se mostraram disponíveis para o diálogo mas, como se esperava, ambos ficaram irredutíveis nas soluções que cada um defende para combater os verdadeiros problemas do país.

E, afinal, o que é que se ia discutir naquele encontro? Ao que dizem as más línguas, as decisões estavam já tomadas, pelo que, toda a encenação não passou disso mesmo. Um faz-de-conta para mostrar à troika que existe um consenso político em Portugal que assegura o cumprimento das nossas responsabilidades. Uma mentira pegada.

Aliás, uma mentira em que toda a gente fingiu acreditar. Alguns agentes políticos, os média que cobriram toda a história e as cidadãos que ainda tiveram uma réstia de esperança. Mas, repito, todos fingimos acreditar. Por ingenuidade, por boa-fé ou por desespero.
 
 

sexta-feira, abril 19, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa - I I I




Para terminar a semana e este tipo de reflexões sobre a língua portuguesa - voltaremos ao tema e não me chamem fundamentalista - queria só dizer-vos que numa conferência em que participei há dias, ouvi, em pouco mais de duas horas vários presentes desenvolverem teses proferindo (com frequência) palavras tão portuguesas como: "follow up", "downsize", "feedback", "meeting" ou "e-mail".

Mas o que mais me preocupa é que essas mesmas pessoas que empregam esses termos nas suas áreas profissionais – e isto diz respeito a uma panóplia imensa de actividades e não só aos informáticos - acabam por utilizá-los, também, na sua vida pessoal.

Vejam os seguintes exemplos:

- informação à agência de viagens de que se pretende fazer um “upgrade” do hotel inicialmente reservado;

- o Gerente/Chefe/Director/o que seja, convoca o seu “staff” para um "briefing" ao fim da tarde;

- proposta para ir fazer compras ao “shopping”;

- lista de vantagens ou inconvenientes das empresas de “outsourcing”?

Será que não podemos dizer as mesmíssimas coisas … em português?

Penso que devemos valorizar mais a nossa língua, que é tão rica. De certeza que existirão palavras e expressões portuguesas para utilizar em substituição dos tais termos estrangeiros.
Porém, há que ter cuidado. É que se falarmos (ou escrevermos) só em português, poderemos correr o risco de que quem nos ouve ou lê, chegue à conclusão de que nós, afinal, não dominamos lá muito bem o assunto que estamos a abordar. Ou, por outro lado, pode acontecer que se falarmos ou escrevermos apenas em português, poderemos dar a ideia a certos “iluminados” de que não estamos muito familiarizados com os termos mais “in” utilizados com frequência por "determinadas elites". Afinal, ninguém quer dar parte de fraco, não é?
 
 

quinta-feira, abril 18, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa - I I


A propósito da crónica de ontem sobre a língua portuguesa, não podia deixar de referir uma moda que se instalou por cá há uns anitos, de aulas dadas integralmente em inglês nas nossas Universidades. Parece mentira, não é? Estamos em Portugal, as Universidades são financiada basicamente pelo nosso Orçamento Geral do Estado, os professores são maioritariamente portugueses mas os cursos são dados em inglês.

Chegámos ao ponto de no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, quando numa turma há um aluno estrangeiro que não domina a nossa língua, as aulas passarem a ser dadas em inglês. A língua inglesa está, de facto, a invadir as universidades portuguesas. Nas licenciaturas, nos mestrados e nos doutoramentos. No Técnico, mas também na Nova, na Católica, na do Minho ou no ISEG, há cursos em que a língua nativa não entra.

Para além da captação de alunos (para aumentar as fontes de financiamento) provenientes do Erasmus e de países de mercados como o Médio Oriente, o que se pergunta é "Mas, para além disso, será, sobretudo uma questão de moda?

O assunto é polémico até porque nem toda a gente - mesmo no meio estudantil - está eufórica com a importação da língua de Shakespeare. Segundo li, há até estudantes que deixaram de ir às aulas porque não entendem bem o que lá se diz. E um bom exemplo a contrariar essa moda é o da Universidade de Coimbra que tem 1 000 alunos de outros países (70% dos inscritos são chineses) a frequentar cursos de língua portuguesa. Aliás, a Universidade de Coimbra tem estado empenhada em reforçar o uso da língua portuguesa na sua política de internacionalização.

Mesmo que o objectivo da maior parte das Universidades seja atrair mais alunos de outras paragens que venham compensar os cortes do financiamento público, estão-se a esquecer de milhares de outros estudantes - portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, etc. - que menos familiarizados com o inglês, acabam, muitas vezes, por desistir.

Concluindo: sem deixar de constatar como uma mais-valia a maior integração linguística dos formandos, sobretudo em mestrados e doutoramentos, penso que, de certa forma, "estamos a vender", em nome da sustentabilidade financeira das Universidades, a nossa língua e a nossa identidade. Tanto mais que o português é o 6º idioma mais falado no mundo. E já agora digam-me se acham possível que numa Universidade de Tóquio um curso fosse dado integralmente em português só porque um estudante luso tinha decidido ir para lá estudar. Acreditam nisso? E o japonês é apenas o 10º idioma mais falado.

 

quarta-feira, abril 17, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa




"... há qualquer coisa em nós de que não gostam
Trazem palavras de outra língua ..."

São duas linhas apenas do poema de Manuel Alegre, "Resgate" (já aqui publicado), que servem de mote para o assunto que ando, há tempos, para partilhar convosco.

Se eu lhes dissesse

"葡萄牙文是我們最大的資產之一,並是非賣品。所以珍惜它!";
ou,
"Португальский язык является одним из наших крупнейших активов и не для продажи. Поэтому хранить его!"

ou, ainda,

"the Portuguese language is one of our biggest assets and is not for sale. So cherish it!",

 
o que é que me respondiam?

Eu sei que tenho os melhores e os mais eruditos leitores do mundo, que dominam fluentemente línguas tão diferentes como o chinês tradicional, o russo ou o inglês. Mas, numa conversa coloquial entre amigos não seria mais natural dizer simplesmente "a língua portuguesa é um dos nossos maiores activos e não está à venda. Por isso, acarinhem-na!"?

Desde sempre que sou defensor que se aprendam várias línguas. É uma questão de valorização pessoal e de necessidade face à cada vez maior globalização que vivemos. Mas, meus Amigos, faz algum sentido que em documentos oficiais internos ou - pesadelo dos pesadelos - nas redes sociais, portugueses dialoguem em inglês? Será que estarão mais seguros nesse idioma ou será, tão-somente, por que acham que escrever em português é uma atitude bacoca? Ao contrário, eu penso que essa necessidade de mostrar os vastos conhecimentos de outras línguas é que demonstra uma parolice pura.

Estudem e pratiquem outras línguas mas não se esqueçam de privilegiar a nossa. É seguramente o nosso maior capital cultural.
 
 

terça-feira, abril 16, 2013

Reformados, pensionistas e jubilados de primeira e de segunda



Se alguém me pedisse para explicar qual a diferença entre um reformado e um jubilado, teria sérias dificuldades em responder. O que sei - e deixo de lado os aspectos etimológico e semântico das palavras - é que reformados, pensionistas e jubilados são pessoas que já deixaram a sua vida activa de trabalho.

Aparentemente, portanto, todos estarão nas mesmas condições. Mas há, pelo menos, uma diferença que faz toda a diferença. Os juízes e os diplomatas jubilados não vão pagar a polémica contribuição extraordinária de solidariedade (CES) que é aplicada aos restantes reformados. Pergunta-se, pois, porque escapam eles ao pagamento do CES? E a única resposta razoável parece ser (para além de uma norma do Orçamento de Estado que contempla esta excepção) que, também no que diz respeito aos reformados, pensionistas e jubilados, existem uns que são de primeira e outros de segunda.

segunda-feira, abril 15, 2013

Senhores, estamos a falar de gente!




Ao mesmo tempo que no Conselho Nacional do PSD, realizado nos últimos dias, se aprovava um voto de louvor ao ex-Ministro Miguel Relvas por "inexcedível lealdade à causa pública" (????????), Passos Coelho anunciava que, por causa do malfadado chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo decidira cortar 1 300 milhões de euros aos portugueses, a começar por aqueles que "têm uma vida mais desafogada": os doentes e os desempregados. A uma percentagem significativa da população que já enfrenta montes de problemas mas que, como dizia o outro, "ai aguentam, aguentam" com mais uns sacrifícios em cima. Financeiros, sociais e psicológicos.

Já em Dublin, na reunião dos Ministros das Finanças europeus, Vítor Gaspar tinha revelado que o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses para responder ao chumbo do Tribunal Constitucional (TC) incidiria sobre os desempregados e os doentes apoiados pelo Estado.
Sublinho, "o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses".

Mas factos são factos. Se os tipos do TC inviabilizaram um OE "tão bem feito" pelo Governo, havia que ir buscar a "massa" a outro lado. Onde? Ao sítio certo: aos quase 420 mil beneficiários do subsídio de desemprego e aos quase 95 mil que recebem subsídios por doença. Exactamente às pessoas que desesperam por não encontrar um emprego que lhes pague as contas e lhes devolva a auto-estima ou que estão fragilizadas pela doença.

Será que sensibilidade social diz alguma coisa a estes senhores?
 
 

sexta-feira, abril 12, 2013

"Esperança"

Costumo publicar aqui no Por Linhas Tortas poesia de autores mais ou menos conhecidos. Hoje trago-vos um poema de um grande Amigo meu, desconhecido do público em geral mas a quem eu quero homenagear, não só pela amizade mas pelo seu talento enquanto poeta.



Então, de António Carlos Asseiceiro, "Esperança"





"Esperança"

(Olhando os retratos deles ainda novos)

Todos tínhamos tanta esperança, eles, tu e eu…

Tanta da nossa esperança ficou p’lo caminho,

Tanta dessa nossa esperança se esfumou e ardeu,

                                  nada ficou nem um bocadinho,

                                  do que se quis, pensou e viveu,

Do mal casado ao que ficou sozinho

A esperança foi uma dança… mansa!


Que ora se perdeu ou quase morreu!
 
                               Ora não se alcança,
 
Ora nada se tem, ora se tem tudo,
 
                               até… a esperança!...   

quinta-feira, abril 11, 2013

Experiência para quê?



Recordo-me sempre da frase de Sócrates (do filósofo, não a do regressado ex-Primeiro-Ministro) - "Só sei que nada sei" - quando julgo conhecer bem determinado assunto e, depois, acabo por concluir que, afinal, não sabia a coisa tão bem como pensava. Como me aconteceu, há dias, quando soube que um membro do Governo tinha nomeado dois assessores (especialistas). E porquê?

Julgava eu que a grande diferença entre um técnico e um especialista se baseava fundamentalmente na experiência. A ambos é requerida, claro está, a formação académica adequada e a preparação específica para um cargo mas, uma vez alguém admitido, seria espectável que começasse por ser técnico e, depois, pelo menos para alguns deles, com o tempo e a experiência adquirida, pudessem ascender a especialistas. Seria natural que, até por uma questão de maturidade, assim acontecesse.

Mas vivemos numa era onde tudo se passa a uma velocidade estonteante. Daí que os especialistas (sejam lá do que forem) "nasçam" cada vez mais cedo.

Foi certamente por isso que o Secretário de Estado-Adjunto do Primeiro-Ministro, Carlos Moedas, nomeou dois "técnicos especialistas", de 21 e 22 anos, para integrar a equipa de "acompanhamento da execução de medidas do memorando". O Governo justificou as contratações com os "excelentes currículos académicos, o que "lhes confere alguma competência (?)".

Um deles, o de 21 anos, tem uma licenciatura em Economia e um brilhante percurso profissional: "um estágio profissional não remunerado no Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e Emprego, entre Setembro e Dezembro de 2012". Ah, e foi comentador algures e escreveu num blogue.

O outro, com uns tenros 22 aninhos, está a concluir um mestrado em Administração de Empresas e, como experiência profissional orgulha-se de ter também feito um estágio no mesmo Gabinete entre Junho e Agosto de 2011.

Apesar de já em Janeiro deste ano, uma auditoria do Tribunal de Contas aos gabinetes ministeriais questionar "o grau de experiência profissional" dos 164 especialistas até então contratados para os gabinetes ministeriais, já que 15,3% tinham entre 24 e 29 anos, o Governo continua a insistir nestes jovens que se transformam num abrir e fechar de olhos em especialistas, talvez lembrando o ditado "De pequenino é que se torce o pepino" (a letra da canção do Sérgio Godinho diz "De pequenino, de muito pequenino se torce o destino".

Pode até ser que não sejam ainda tão grandes especialistas como isso mas estarão, entretanto, a fazer currículo e a assegurar o futuro.

quarta-feira, abril 10, 2013

Isto é um país fantástico. E animado ...


Isto é um país fantástico. Mal nos ausentamos uns dias e logo acontecem uma série de coisas que nos levariam a escrever crónicas mais ou menos contundentes e que, assim, ficaram por fazer.

De qualquer modo, acompanhámos o chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional. Coisa que, de resto, toda a gente adivinhava que iria acontecer. Também aqui no Por Linhas Tortas nos tínhamos referido por diversas vezes a essa mais que provável decisão. E agora, o imbróglio que já era grande tornou-se ainda maior. Há que ir buscar dinheiro a outro lado (adivinhem onde) para colmatar aquele que viria do saque programado.
"Malandros", pensou o Primeiro-Ministro. Os juízes do TC foram os culpados por este problema adicional que não vem nada a jeito. A verdade, porém, é que foi o Governo que voltou a insistir em normas que eram claramente inconstitucionais, tal como fizera no ano anterior. Pela segunda vez consecutiva, um orçamento de Estado é considerado inconstitucional. Duas vezes seguidas? Se não é incompetência, é o quê?
Quanto ao TC só poderá ser acusado de ter prolongado por tempo exagerado a sua análise. Fica-nos, pelo menos, essa impressão.

Soubemos, também, da renúncia ("por não ter condições anímicas para continuar") de Miguel Relvas. Foi uma saída esperada mas demasiado tardia. Na sua última comunicação, enquanto Ministro, não deixou de sublinhar o seu esforçado trabalho para levar Passos Coelho à liderança do PSD e à chefia do Governo. Um discurso em que ficou claro que sem Relvas, a sua ajuda e o seu empenho, Coelho não iria longe. Mas mais do que isso, foi um tipo de afirmação deselegante e desnecessária, muito ao jeito das pessoas sem carácter.

No mesmo dia do anúncio de Relvas quem teve grande força anímica foi o Benfica que conseguiu uma vitória importante sobre os ingleses do Newcastle, por 3-1, que lhes abre a perspectiva de seguirem em frente na Liga Europa.

Tudo em poucos dias. Isto é um país fantástico. E animado ...
 
 
 

terça-feira, abril 02, 2013

Sabem as respostas ou ... não?


Se bem me recordo publiquei aqui, há muito tempo, uma poesia da Adriana Calcanhoto, "A idade dos porquês". Os versos reflectem a curiosidade natural das crianças que tudo perguntam, muito embora, nós adultos, nem sempre tenhamos a capacidade de lhes dar as melhores respostas.

Hoje, lembrei-me de algumas perguntas (parvas) que, provavelmente, também nós crescidos e cheios de experiência, temos dificuldade em responder. Por exemplo:

- Se depois do banho estamos limpos porque é que lavamos a toalha?

- Porque é que a palavra grande é menor do que a palavra pequeno?

- Porque é que separado se escreve tudo junto e tudo junto se escreve separado?

- Se o vinho é líquido, como pode existir vinho seco?

- Quando inventaram o relógio como sabiam que horas eram para poder acertá-lo?

- Como foi que a placa "É Proibido Pisar a Relva" foi lá colocada?

- Porque é que quando alguém nos pede que ajudemos a procurar um objecto perdido temos a mania de perguntar: 'Onde é que o perdeste?

- Porque é que há pessoas que acordam os outros para perguntar se estavam a dormir?


E, então, sabem as respostas ou ... não?

segunda-feira, abril 01, 2013

Quando a narrativa é falsa


 
Sei bem do que é que estavam à espera quando viram o título da crónica de hoje. Mas equivocaram-se. Embora eu continue a dizer que a narrativa é falsa.

Repetidamente, ao longo dos anos, sempre nos quiseram convencer que nas noites em que muda a hora (Março e Outubro), para as chamadas horas de Verão e de Inverno, nós dormimos menos uma hora ou mais uma hora, consoante a época. Nada mais falso.

Verifiquei isso mesmo na última noite de sábado para domingo. Em vários serviços informativos da rádio e da televisão disseram-nos que à uma da manhã deveríamos acertar os relógios, acrescentando 60 minutos à hora em vigor, passando, portanto, da uma para as duas horas. Razão pela qual dormiríamos menos uma hora nessa noite. Porém, ontem de manhã quando acordei, tinha dormido as mesmas sete horas de sempre.

Para quê este embuste? Um simples acertar de relógios (que, ainda por cima, nos dão um trabalho dos diabos) justifica tamanha mentira? Ainda se fosse no 1º de Abril ... o dia das mentiras ...

Não, meus senhores, não é isso que me faz dormir menos ou mais horas. Hoje não me apetece, mas poderia abrir aqui o saco das lamentações e, aí sim, eu vos diria o que me tira realmente o sono.