sexta-feira, dezembro 20, 2013

Boas Festas




                                                                       Nesta época de festas,

                                                              Desejo-vos SAÚDE, PAZ e AMOR

                                                          ... e que 2014 vos traga tudo de bom


                                                                              BOAS FESTAS!

                                                                           BOM ANO NOVO!



 

quarta-feira, dezembro 18, 2013

O Benvindo



A história do Benvindo cruza-se com a minha própria história dos tempos de infância e juventude. Conheci-o ainda miúdo na aldeia da minha mãe para onde eu ia todos os anos passar o Verão. Corríamos, jogávamos a bola, brincávamos com a despreocupação própria dos nossos tenros anos.

Benvindo era filho de uma família muito humilde. No entanto, e apesar da falta de perspectivas que, nesse tempo, era comum à maioria dos miúdos das aldeias, notava-se nele uma ambição que mal conseguia disfarçar. De facto, era notória a atitude que transparecia na forma como jogava o futebol ou nas corridas que fazíamos rua acima rua abaixo, sobretudo pela mais íngreme da terra, a Rua Direita, que por acaso era a que, de todas, mais curvas tinha.
 
Já adolescente, essa ambição fazia-se sentir ainda mais fortemente, sobretudo no modo como tentava impressionar as raparigas, quase todas estudantes na capital e que viam nele um pobre coitado, sem dinheiro e sem estudos e, que desdenhavam por ser desengonçado e de fraca beleza, pelo menos aquela que correspondia aos cânones exigidos na época.

Estivemos muitos anos sem nos vermos. Ele ficou por lá e eu andei um pouco pelo mundo, levado pelos acasos e necessidades da vida.

Quando regressei à aldeia, quis rever esses amigos da minha juventude, aqueles poucos que tinham fugido à emigração para a Europa, para a América ou para Lisboa.

Estive, então, com o Benvindo. O olhar continuava vivo, mas agora algo perdido num corpo desgastado pelas azáfamas da vida do campo. Falámos durante boa parte da noite enquanto empurrávamos a broa e os pedaços de chouriço acompanhados do vinho carrascão oriundo de um dos lagares da aldeia.

 
Benvindo fez pela vida. Sempre andou no amanho das poucas terras da família e, mais tarde, foi regedor da aldeia e presidente da junta de freguesia. Era considerado pelas pessoas da povoação e dos burgos vizinhos.

Importante, considerado e muito narcisista. A tal ponto que, levado mais pelo culto de si próprio do que pela falta de estudo, mandou colocar nas duas entradas da aldeia placas bem grandes que diziam:

“Benvindo a Santa Maria”

Quando lhe disse, meio a brincar já se vê, que tinha que mandar rectificar as tais placas, porque em português, a saudação escreve-se “bem-vindo” ele sorriu e respondeu-me de imediato:

E tu julgas que eu não sei isso? É que assim o meu nome fica para sempre na História da aldeia, percebes?"

Claro que tinha percebido. E continuámos tagarelando e petiscando alegremente.

terça-feira, dezembro 17, 2013

Afinal (e até ver) o chocolate não engorda ...



Até que enfim, uma boa notícia. Infelizmente não tem a ver com a melhoria da situação do país ou dos portugueses mas diz respeito a um alimento que, para a maioria e de alguma forma, nos consola e nos "aconchega" nos piores dias (e nos melhores também). Estou a falar do chocolate.

Mas, até agora, havia um porém. A sombra de que a ingestão de chocolate fazia engordar travava o nosso entusiasmo e, quantas vezes, o nosso desejo transformado em necessidade era imediatamente sustido. Era até costume ouvir-se que "o chocolate não engorda, quem engorda é quem o come". Até que, há pouco, ouviu-se falar de um estudo desenvolvido em adultos por cientistas da Universidade da Califórnia que concluíra que uma maior frequência no consumo de chocolate também se associa com um menor índice de massa corporal. Mas era mais estudo feito pelos americanos e, muitos de nós continuámos com dúvidas sobre se, afinal, o chocolate engorda ou não.

Pois bem, um outro estudo agora apresentado mas, desta vez, levado a cabo por investigadores da Universidade de Granada demonstra cientificamente que um alto consumo de chocolate está associado a níveis mais baixos de gordura total e abdominal. Portanto, e agora de forma científica - até ver - o chocolate não engorda.

Para aqueles que não acreditam no que vem das Américas ou que repetem que "de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos", para os que, na verdade, são cépticos em relação a tudo, sugiro - nesta época propícia a alguns excessos alimentares - o consumo moderado de chocolate e, sobretudo, chocolate preto. Vão ver que tanto o vosso corpo como o vosso espírito vão-vos agradecer.


segunda-feira, dezembro 16, 2013

Multibanco: mais uma tentativa para taxar as operações ...



A questão já é velha e remonta ao início das ATM (a rede Multibanco) em Portugal. Lembro-me bem de quando apareceram as primeiras máquinas nas agências bancárias, nos primeiros anos da década de 80 do século passado. Embora Portugal fosse um dos últimos países da Europa ocidental a instalá-las, o equipamento era o que havia de mais avançado na época. Ainda assim, e por verem nos funcionários do seu Banco os amigos em quem podiam confiar, os clientes fugiam delas a sete pés. Foi necessário formar equipas de bancários que, devidamente preparados, foram "ajudá-los" a conhecer as máquinas, a fazer as transacções que pretendessem e a evitar as malfadadas filas que, nessa altura, eram imensas.

Foi o princípio. A clientela estranhou a inovação mas a verdade é que, rapidamente, aderiu de alma e coração. Foi então que para incentivar ainda mais a utilização das máquinas, as instituições bancárias lançaram uma taxa (alta) para cobrar a quem quisesse levantar dinheiro aos balcões em vez de ir às máquinas. Percebia-se bem o interesse dos Bancos: queriam fazer dos seus clientes empregados bancários não remunerados e, por já não serem necessários tantos, reduzir os seus funcionários de Balcão. Isto é, haveria uma significativa redução de custos.

E o facto é que o sucesso da utilização era tal (praticamente toda a gente já tinha aderido ao serviço Multibanco) que, anos passados, a Banca tentou cobrar uma taxa por cada operação realizada. Não resultou porque foi muita a indignação vinda de vários sectores. De tal jeito que até se legislou para impedir a cobrança dessa nova taxa.

Agora, volvidos mais alguns anos, a Banca está de novo ao ataque, a influenciar o poder (como sempre faz) para que a lei seja revogada e que, enfim, possam obrigar os clientes a pagar para poderem mexer no seu próprio dinheiro, efectuar pagamentos e consultar as suas contas. Uma verdadeira vergonha.

Ou seja, aliciaram-nos para utilizarmos as máquinas e depois de nos habituarmos já não podemos passar sem elas. Bem podemos dizer que "primeiro estranhámos e depois entranhou-se a necessidade". E agora querem obrigar-nos a pagar todas as transacções que efectuarmos. É imoral! Tanto mais que se sabe que o sector poupa 300 milhões por ano pelo facto dos clientes utilizarem a rede ATM.

Que iremos pagar parece não haver dúvidas. Resta saber é quando?


sexta-feira, dezembro 13, 2013

E agora quem é que nos reembolsa?




O Governo de Passos Coelho sempre fez ouvidos de mercador a quem se opôs às medidas drásticas impostas pela troika e, nomeadamente, à possibilidade de renegociar os prazos de pagamento da dívida. Vários entendidos na matéria, alguns deles da cor dos próprios partidos da coligação governamental, defenderam essa renegociação do programa, afirmando que austeridade em cima de austeridade só podia ter um resultado: a economia iria definhar e, consequentemente, o desemprego subiria e a falência das empresas e das famílias seria inevitável. Mas o Governo manteve-se firme e hirto, irredutível na submissão aos mercados e à Alemanha, sem querer perceber o rumo que o país seguia.

Ainda não há muito, o FMI já tinha admitido que, se calhar, tinha errado em tantas políticas de austeridade impostas aos países com programa. Até Olli Rehn, comissário europeu para os Assuntos Económicos afirmou que Portugal já empobreceu demasiado e que não vivemos acima das nossas possibilidades. Faltava a toda poderosa Directora-Geral do FMI, Christine Lagarde, fazer o "mea culpa". Reconheceu, enfim, que o "erro" em relação aos efeitos da austeridade obrigou Portugal e Grécia a aplicarem programas de ajustamento num espaço de tempo demasiado curto.

Levou tempo a estes "iluminados" reverterem a sua posição e considerarem que "é preciso dar tempo ao tempo". E de reconhecerem, também, os seus erros, nomeadamente que alguns temas não foram suficientemente abordados e explorados a fundo.

Mas o que fazer com tanto arrependimento? Sentimento que, ao que parece, não é assumido pelos técnicos da troika que estão no nosso país a efectuar mais uma avaliação. O que nós gostaríamos mesmo de saber é de que forma vamos ser ressarcidos dos efeitos provocados pelas medidas cegas que têm destruído o tecido económico e dado cabo - a todos os níveis - dos portugueses? Quem é que nos reembolsa?


quinta-feira, dezembro 12, 2013

Para além de um jogo de futebol ...



Na última terça-feira o meu filho convidou-me a ir à "Catedral" ver um jogo do meu Glorioso para a "Champions". Há muito que não assistia ao vivo a uma partida de futebol, logo eu que em miúdo tanto ia ao velho Estádio da Luz com o meu pai e com o meu avô. Claro que não estou a contar com o último jogo europeu na Luz (com os gregos do Olympiakos) porque, nessa noite, nem sequer fiquei para a segunda parte, tanta era a chuva.

Desta vez a noite estava boa e o Benfica até ganhou, embora isso não lhe tivesse servido de muito em termos de qualificação. Mas isso são outras contas.

O que achei extraordinário é que passado tantos anos, e tendo havido uma notável melhoria na educação e na formação das sucessivas gerações, tivesse ouvido imensos palavrões (dos fortes), frases inteiras em "português vernáculo" dirigidas aos árbitros (trajados de amarelo), aos jogadores, ao treinador e, admito eu sem ter certezas, a terceiros por serem culpados de irregularidades cometidas ou adivinhadas. Longe vão os tempos em que se atacavam apenas os árbitros (estes, então, vestidos de negro) e as suas mães ou que se dizia em tom de comentário coisas como "aquele jogador não estava a carbonizar bem" quando o que realmente pretendiam expressar é que o visado ainda não estava a carburar totalmente.

Agora, porém, os impropérios vinham de bocas aparentemente insuspeitas. Por exemplo, um rapaz com bom aspecto, duas filas à minha frente, ainda o jogo não tinha começado e já tinha despejado um rol de insultos dirigido ao árbitro assistente que estava mais perto de nós. Um amigo fez-lhe notar precisamente que o jogo ainda nem começara e a resposta veio de pronto: "pois é, mas é para ele se ir habituando, o cabr.....".

Na minha fila havia uma senhora (?) que, de quando em vez, lançava, furibunda, umas quantas injúrias que fariam corar de vergonha um guarda-republicano. Uma outra, com o filho pequeno sentado ao colo, gritava igualmente chorrilhos de insultos. Tenho a certeza que o filho nem precisará de muito esforço para aprender o vocabulário da sua mamã.

Melhor estavam duas jovens sentadas mesmo na minha frente a quem o Pai Natal já lhes tinha entregue a prendinha. Certamente tinham-se portado bem durante o ano e, logo no dia 10 de Dezembro, o "Papai Noel" tinha-lhes dado um "tablet" com que se entretiveram durante todo o jogo, de que viram praticamente nada. E vai aquela gente a um estádio. Não há pachorra.

Bem podem dizer que o futebol é um jogo de emoções. Será, se bem jogado. O que não tenho dúvidas é que, para além do jogo, há todo um conjunto de emoções, muitas delas "vestidas" de um vocabulário "rico" e ordinário, com ou sem novo acordo ortográfico.

terça-feira, dezembro 10, 2013

Ai, as dívidas!



Continuam as manifestações de alegria pelo (relativo) sucesso conseguido por Portugal na "ida aos mercados" na semana passada. É certo que não se tratou propriamente de uma ida aos mercados mas Maria Luís Albuquerque, tal como já o fizera Vítor Gaspar no ano passado, conseguiu convencer uns quantos investidores em dívida pública portuguesa a só receberem em 2017 e 2018 o que deveriam receber em 2014 e 2015. Tratou-se, pois, de uma renegociação da dívida, de um empurrar das nossas responsabilidades lá mais para a frente, para termos alguma folga durante algum tempo. Fez-se, portanto, e bem, aquilo que normalmente é conhecido por gestão da dívida.

Só que as mesmas coisas ditas ou feitas por pessoas diferentes têm, muitas vezes, interpretações diversas. Como aconteceu, e eu lembro-me bem, de quando, há cerca de um ano, José Sócrates disse numa conferência em Paris que "a dívida dos Estados não é para pagar, mas para ir pagando". Caíram-lhe logo em cima, o coitado. E ele só estava a falar na tal gestão da dívida, exactamente o que foi feito agora.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Porque continuamos a não consumir Cultura?



A pergunta é pertinente mas a resposta não é nada fácil. Porque continuamos a não consumir Cultura? É um facto que as verbas para a cultura são cada vez mais reduzidas e, por isso, quem cria tem cada vez menos possibilidades para fazer arte, mas também é verdade que os portugueses consomem muito pouca cultura. Vão pouco ao cinema e ao teatro, muito pouco aos museus e lêem quase nada. Porquê, é a grande questão. Por falta de educação ou por falta de dinheiro?

Costuma-se dizer que primeiro temos que pôr a comida na mesa e só depois se pode pensar em alimentar o espírito. Mas pode não ser bem assim. As duas "necessidades" são fundamentais para a vida e, às vezes, é uma questão de gestão dos orçamentos. Coisa que, para as famílias, vai sendo cada vez mais difícil.

Mas números são números e segundo o relatório do Eurobarómetro, os portugueses são dos cidadãos da União Europeia, ao lado de países como a Roménia ou a Bulgária, com menores taxas de participação em actividades culturais. Só 6% dos inquiridos, em Portugal, tem uma actividade cultural frequente enquanto que, por exemplo, na Suécia (43%), Dinamarca (36%) e Países Baixos (34%) os cidadãos são muito mais participativos. Mesmo os espanhóis têm uma taxa de 19%.

Mas, por outro lado, vemos e ouvimos muita televisão - é cómodo, entra pela casa adentro e podemos ver filmes e séries à-vontade. Temos muitos iPads, iPhones, Tablets e Facebook que já nos distraem bastante. Para quê gastar mais em cultura se temos tanto entretenimento à mão?

Portanto, a crise económica pode explicar grande parte dos números (embora haja uma muitos eventos culturais gratuitos, há sítios na internet que os anunciam) mas tenho a convicção que é também uma questão de educação. Desde há muito que nos habituaram ao que é mais imediato. Para quê esperar pelo final de um livro que leva tanto tempo a ler? O que nos leva à falta de estímulo no ensino cultural nas escolas. Coisa que a sociedade em geral não tem considerado um bem essencial mas que, na verdade, é um importante investimento.

E o desinvestimento na educação e na cultura verificado nestes três últimos anos estão a destruir o muito que foi feito em tempos não muito longínquos. É preocupante, é uma vergonha e vamos pagar caro por isso.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Invictus




"Invictus", o poema do britânico William Ernest Henley


que inspirou Nelson Mandela


 

Invictus


Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.


quinta-feira, dezembro 05, 2013

Se o Estado fosse mais solidário ...



Gostei de ouvir, como sempre gosto, Eugénio Fonseca, Presidente da Cáritas Portuguesa, na entrevista que concedeu à SIC Notícias. É um homem inteligente, sensato e conhecedor da realidade social no nosso país.

E gostei nomeadamente quando, referindo-se à campanha deste último fim-de-semana do Banco Alimentar Contra a Fome e à solidariedade dos portugueses que doaram 2 800 toneladas de produtos alimentares, afirmou que "o Estado arrecadou milhões com a campanha do Banco Alimentar". E acrescentou "o Estado também devia ser solidário, que é preciso não esquecer que destas ajudas, destas toneladas imensas, o Estado arrecada em IVA uma percentagem desta solidariedade. Interessante seria se o Estado fosse capaz de renunciar a este IVA e possibilitar que as pessoas ainda dessem mais”. Com essa atitude, sublinha, “acrescentávamos a estas toneladas mais 23%”.

Felizmente que Eugénio Fonseca tem um tempo de antena (que eu não disponho) que lhe permite "dar recados". Ando há anos a pregar esta "ideia absurda" que o IVA sobre os bens doados não deveriam constituir uma receita fiscal mas ser reinvestido em mais bens (alimentares ou outros) que seriam entregues às pessoas que mais necessitam. Afinal, uma tarefa que é da responsabilidade do Estado mas que ele não consegue cumprir e daí a necessidade de um trabalho imenso por parte das Instituições de Solidariedade Social.

Mas defendo igualmente que uma parte do lucro auferido pelas superfícies comerciais com as vendas neste tipo de campanhas também deveria ser entregue aos promotores dessas mesmas campanhas. Ao fim e ao cabo, nestes dias, as vendas sobem exponencialmente.

Se o problema é de ordem organizacional e, neste momento, não é possível saber-se qual a parte da factura que vai para a solidariedade ou a que se destina ao consumo próprio, então mudem-se as normas e ajustem-se as aplicações informáticas. Reorganizar é possível ... se houver vontade. E se assim fosse, poderiam, com toda a propriedade, dar sentido mais amplo à chamada "Responsabilidade Social" que tanto gostam de apregoar mas que nem sempre é tão eficaz como se pretende.

Utopia? Talvez ... mas bastava querer.

terça-feira, dezembro 03, 2013

A hipocrisia de Passos Coelho



Depois de, por duas ocasiões, membros do Governo incentivarem os portugueses a emigrar - a primeira, através do Secretário de Estado da Juventude, direccionada aos jovens em geral e, a segunda, por intermédio do próprio Primeiro-Ministro, dirigida aos professores - Passos Coelho considerou há dias que, afinal, "os jovens portugueses são uma grande esperança para a transformação da economia portuguesa e que a sua qualificação será crítica para o fim da actual crise e para evitar novas crises".

Porém, Passos não disse se incluía nestes jovens de que falava agora os professores a quem ele tinha indicado a porta de saída. Limitou-se, de forma hipócrita, a afirmar que deposita a maior esperança nesta geração tão qualificada.

Só há um pequeno problema. É que têm que dar a esta rapaziada a oportunidade de trabalharem, de produzirem, de se realizarem, de não se sentirem descartáveis e indesejados no seu próprio país. É, portanto, indispensável pôr a economia a funcionar. E, em Portugal, o desemprego jovem atingiu quase os 43%. Um número assustador. Uma tremenda tragédia.

Mensagens de esperança não bastam. É preciso mais.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

À procura de emprego ...




Em vez do envio de montanhas de currículos, um casal decidiu publicar um anúncio no Expresso a pedir emprego. Um texto bem escrito, elegante e com carradas de desespero irónico.

Rezava assim:



CASEIROS

EDUCADOS, CULTOS, POLIVALENTES


Portugueses, 50 anos, sem filhos. Pré-falidos (mas sem dívidas), elegantes e com muito boa presença. Procuramos trabalho com alojamento (não fumadores). Senhora com formação musical e desportiva (podendo ajudar com as crianças), carta de marinheiro (podendo cuidar de barco ou navegar), bons conhecimentos de cozinha. Ele atleta, ex-relações públicas e empresário. Ambos com formação pré-universitária e fluentes em inglês, francês, castelhano. Ambos carta de condução. Moramos (ainda) Cascais (Bicuda). Melhor nível Moral, com elevadíssima educação e "saber estar" inquestionável. Ambos com experiência de chefia. Aceitamos deslocar qualquer parte do país (ou mesmo estrangeiro).

Nota: Apesar de possuirmos a HUMILDADE suficiente para SERVIR, queremos informar que não possuímos mais-valias rurais ou similares.

Contactar: ...........

 
Fiquei curioso. Será que este casal educado, culto e polivalente vai arranjar emprego com facilidade?


sexta-feira, novembro 29, 2013

Hungria, a "Democracia no vermelho"



Em Junho de 2012, já lá vai mais de um ano, escrevi neste espaço um texto sobre a Hungria em que dizia, entre outras coisas:


"... a Hungria, que faz parte da União Europeia desde 2004, é um país muito bonito e Budapeste, a sua capital, que se estende por ambas as margens do Rio Danúbio, possui um património cultural e histórico muito rico. Para além disso, a Hungria é um país com grande tradição musical. A sua música popular serviu de inspiração a grandes compositores, desde Liszt a Bartók.

Mas nem a música nem a grandeza das belas pontes (a mais conhecida das quais é a magnífica Ponte das Correntes), nem os edifícios como o Castelo de Buda e o Parlamento e todos os demais cartões postais da capital magiar conseguem “apagar” aquilo em que a Hungria se está a transformar. Num Estado absolutista que tem como pano de fundo uma crise e a negociação de um resgate com o FMI, e a tornar-se num país onde a liberdade de imprensa, a liberdade religiosa e política, a independência judicial e os direitos das minorias estão a ser varridos. A crise e as ameaças dos credores são, como sempre acontece, um terreno fértil para o populismo de políticos como o Primeiro-Ministro e líder do Fidesz, o partido conservador de centro-direita, Viktor Orbán"
 
Aquilo que já era verdade há ano e meio piorou de tal forma que foi agora aprovado pela Comissão Europeia um relatório elaborado pelo euro deputado português Rui Tavares em que a CE suspendeu todas as negociações com a Hungria até que o país reponha o Estado de Direito.

Pela primeira vez na história da União Europeia (UE), um Estado-membro é acusado de violar os valores europeus. Na verdade, o Governo húngaro impôs limitações à liberdade de expressão, nomeadamente na Comunicação Social, afastou juízes incómodos e enfraqueceu o Tribunal Constitucional. Criminalizou os sem-abrigo, que retirou das ruas mais frequentadas da Capital Húngara, e permite que organizações de extrema direita persigam, matem e destruam bens de judeus e ciganos. Acções iguais às que tiveram lugar no tempo de Hitler, a quem a Hungria se juntou.

E os horrores desses tempos levados a cabo pelos nazis húngaros são recordados, por exemplo, no "Monumento dos Sapatos" (foto acima), localizado na margem do rio Danúbio, em homenagem às vítimas do Holocausto judeu. Os sapatos eram um bem escasso e caro, e por isso antes de assassinarem os judeus e jogá-los no rio, os seus algozes tiravam os seus sapatos. Às vezes, amarravam casais de judeus e disparavam contra um deles, fazendo que o baleado acabasse por arrastar o outro para o fundo do rio, como uma âncora.

A Hungria, os seus cidadãos e a Europa não necessitavam, nem mereciam, a actual política húngara.


quinta-feira, novembro 28, 2013

Violências ...



Quando, na semana passada, na Aula Magna, Mário Soares, sem meias palavras, pediu a demissão do Governo e do Presidente da República, ele "avisou" também que “a violência está à porta”. Foi um "Deus que me acuda", com muita gente a gritar que o homem não estava bem, que andava a incitar à violência e que este tipo de incitamento é anti democrático.

Pois bem, esta terça-feira, o Papa Francisco disse que "a exclusão e a desigualdade social provocarão a explosão da violência".

Mário Soares e o Papa Francisco disseram exactamente o mesmo: “a violência está aí”. E eu creio que tanto um como o outro não estão certamente a incitar à violência. É que o desespero dos cidadãos perante as revoltantes desigualdades sociais e o avolumar da crise que nos está a "matar", podem suscitar reacções mais perigosas.

E, como sabemos, a violência gera violência.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Dois consultórios ...




Há uma grande diferença entre os utentes dos consultórios da província e os dos consultórios das grandes cidades.

Na província - naquilo a que eu chamo a província propriamente dita, não às grandes cidades de província - a maior parte das pessoas entra na sala de espera, faz questão de dar os bons dias, as boas tardes, ou o que seja, a quem lá se encontra e uma boa parte dos presentes responde ao cumprimento. Depois, tudo é mais familiar. As pessoas, de uma forma geral, gostam de se inteirar sobre o tipo de doença que aflige quem está sentado mais próximo e, quase de seguida, não resistem à tentação de aconselhar o que acham mais adequado para combater esses males. Todos já tiveram um familiar ou um amigo que teve uma coisa parecida e, juram, que se não fossem aquelas inalações mentoladas e/ou uns determinados comprimidos de que, em regra, não recordam o nome, a doença não se teria ido embora tão depressa.

Não está ali em causa que cada caso é um caso nem que a dosagem dos tais comprimidos provavelmente não seria a indicada para aquela situação.

A simpatia e a boa fé, a sinceridade com que dão o conselho, é tocante. Tanto que a maioria desses conselhos já serão suficientes para dispensar a própria consulta ao médico, o que, afinal, os levara até ali.

Quando chega a vez de alguém ser chamado para a consulta, a pessoa que sai da sala, invariavelmente deseja “as melhoras a todos” e todos agradecem em uníssono.

Já nos consultórios das grandes cidades toda a gente está em silêncio. Enquanto que uns vão passando os olhos pelas revistas, outros, a maioria, vai observando disfarçadamente os seus companheiros de sala, na tentativa de perceber quem são eles e que é que fazem na vida. “Aquele engravatado ali deve ser um gajo importante, tem uns sapatos bonitos e bem engraxados e o fato é dos bons. Deve ser dos que manda …”.

Para além dos pensamentos mais ou menos enviesados, ninguém se incomoda em perguntar a quem está sentado ao lado do que é que se queixa. Ainda que esse alguém tenha um ar cansado e os olhos mortiços e meio fechados, quem é que se atreve a perguntar o que é que ele tem? Quem é que se arrisca a ter como resposta “Oh homem estou cansadíssimo e cheio de sono”?

Quando alguém entra na sala, não se lhe ouve um cumprimento que seja. Talvez porque vem distraído com os seus inúmeros problemas.

Às vezes, mas só se estivermos muito atentos, ainda se ouve um murmúrio que se pode assemelhar (levemente) a uma saudação. Mas a voz sai surda, imperceptível.

E o mesmo se passa quando alguém sai do consultório. Passa na sala pelos que esperam sentados a sua vez e, nem ai nem ui, vou à minha vida que tenho mais do que fazer.

A maioria de nós já passou por estas experiências. Mas, a menos que eu ande distraído, toda aquela gente – tanto nos consultórios da província como nos das cidades - são apenas pessoas. Só que, seguramente, são pessoas diferentes ...


sexta-feira, novembro 22, 2013

Poeminha Tentando Justificar Minha Incultura



De Millor Fernandes

"Poeminha Tentando Justificar Minha Incultura"


Ler na cama
É uma difícil operação
Me viro e reviro
E não encontro posição.
Mas se, afinal,
Consigo um cómodo abandono,
Pego no sono.


 

quinta-feira, novembro 21, 2013

Compromissos ...



Quando Passos Coelho pede aos parceiros sociais um compromisso mas, ele próprio, não se quer comprometer com coisa alguma ou quando pede um acordo urgente com o Partido Socialista depois de meses a fio ter ignorado ostensivamente o principal partido da oposição, porque carga de água é que, agora, eu devia ficar admirado com o facto do PSD estar a preparar o seu próprio guião da reforma do Estado?

Não foi já apresentado um guião pelo CDS, partido da coligação que suporta o Governo, para reformar o Estado ? O que fizeram ao "papel", perdão, ao documento que foi elaborado pelo Vice-Primeiro Ministro, Paulo Portas, líder do CDS?

Diz o porta-voz dos sociais-democratas, Marco António Costa, que o PSD está a recolher contributos dos parceiros sociais para elaborar um documento próprio sobre a reforma do Estado.

Já nem os partidos de coligação conseguem chegar a acordo.

Depois de tantos compromissos jogados fora, o PSD chegou finalmente à conclusão que, agora sim, está na hora de reunir "o máximo consenso possível e fará seguramente do ano de 2014 um ano crucial no diálogo social e no diálogo inter-partidário". Será que ainda vai a tempo? Será que ainda haverá interlocutores capazes de esquecer que, num passado recente, viram rasgados compromissos assumidos?

A não ser que a língua portuguesa não seja o forte dos partidos da coligação. Depois de manifestarem total desconhecimento do que quer dizer a palavra IRREVOGÁVEL, provavelmente também não sabem o que é um COMPROMISSO.

quarta-feira, novembro 20, 2013

Vergonha é o que não falta ...




O título do texto de hoje "roubei-o" a uma crónica escrita pelo jornalista Henrique Monteiro. Mas não lhe "roubei" a indignação que ele sentiu quando soube de mais uma pantominice vinda de um membro do Governo, porque eu (e provavelmente muitos mais portugueses) ficámos igualmente varados de indignação.

Então não é que Jorge Barreto Xavier, secretário de Estado da Cultura, contratou um jovem do PSD para o seu gabinete a quem vai pagar, como adjunto, mais de três mil euros mensais. Logo num Departamento que vai cortar nas verbas da cultura no próximo ano e vai reduzir 15 milhões de euros em custos com o pessoal?

Porém, ao ler-se o currículo do jovem adjunto de 24 anos - João Filipe Vintém Póvoas - compreende-se logo a mais-valia que vai acrescentar à Secretaria de Estado porque a sua qualificação esmaga qualquer um: três workshops no Centro de Formação de Jornalistas (Cenjor), um de Edição de Vídeo e Áudio Digital, outro em Apresentação de Directos em Televisão e o terceiro em Atelier de Programas Televisivos. A sua experiência profissional é igualmente relevante: fez o estágio de jornalismo na Rádio Renascença onde trabalhou oito meses e foi durante cinco meses consultor de comunicação do ... PSD!
 
 
Mais do que justa - e necessária (pela qualidade atrás descrita) - esta escolha do novo adjunto que se irá juntar à equipa da Secretaria de Estado da Cultura composta por mais três adjuntos, sete técnicos especialistas, duas secretárias pessoais, chefe de gabinete, dez técnicos administrativos, três técnicos auxiliares e três motoristas. Um mar de gente para administrar uma área que irá ter uma actividade muito mais reduzida no próximo ano pela redução do orçamento.

É obra, digo eu. Escasseia o dinheiro para a cultura e há que fazer cortes. No entanto, para a rapaziada amiga, faz-se um sacrifício. O rapaz promete e só vai ganhar três mil euros por mês. Mais do que ganha um director de serviços, mais que um juiz, o mesmo que um coronel, o dobro de um professor.

Falta o dinheiro mas vergonha é o que não falta ...


terça-feira, novembro 19, 2013

Imbecilidades ... com todo o respeito



Tentei não dar qualquer importância à entrevista que João César das Neves concedeu à TSF/DN. Da mesma forma que fugi à tentação de escrever sobre Margarida Rebelo Pinto que na outra semana também se lembrou de dizer umas palermices ...

Mas César das Neves tirou-me do sério. Apeteceu-me imediatamente chamar-lhe nomes, tal como já fizeram muitos milhares de frequentadores das redes sociais. Mas, porque sou educado, vou apenas destacar dois ou três aspectos que me incomodaram mais.

Os temas que ele escolheu para o debate foram a crise demográfica, o corporativismo e a orientação económica para Portugal num mundo em mudança. E não pondo em causa as suas convicções - são apenas e só as suas convicções - o que questiono é a sua falta de sensibilidade e a crueza de algumas afirmações que mostram bem a distância enorme que existe entre a classe social a que pertence e o comum dos cidadãos.

Afirma, por exemplo, que a quebra da natalidade deriva de razões culturais e não das financeiras ou económicas. "A ignorância é muito atrevida", como dizia o meu pai. O que leva a que a maioria dos casais não tenha filhos são justamente as dificuldades económicas. A falta ou a precariedade do emprego e os baixos salários são motivos mais do que suficientes para que se pense seriamente antes de ter filhos. Se para dois não dá, para mais um - em condições mínimas de conforto e dignidade - não dá mesmo.

Quando ele diz que o Tribunal Constitucional não tem estado a funcionar em termos jurídicos, mas políticos, não percebi se quem estava a falar era o economista vestido de político ou se o político de direita conservadora disfarçado de economista.

Mas onde as suas palavras me chocaram mais foi quando afirmou que a maior parte dos pobres não são pobres e estão a fingir que são pobres (embora não se saiba qual o seu critério de pobreza), que a maior parte dos pensionistas estão a fingir que são pobres (embora se ignore se se está a referir aos que auferem pensões milionárias, e que, obviamente, não são a maioria) ou que aumentar o salário mínimo é estragar a vida aos pobres (embora também não se conheça se ele estará a pensar que a um aumento de pensão possa corresponder um aumento de mais comida, de obesidade e falta de saúde).

João César das Neves não conhece as condições de vida da maioria dos portugueses. Vê que os bons restaurantes que frequenta estão cheios, que os carros continuam a circular em grande número pelas ruas e estradas e afere o bem-estar dos cidadãos apenas pelas pessoas que "habitam" à sua volta. César das Neves só vê metas e gráficos e por eles julga (mal) a corja que se diz pobre mas que não o é, e que ganha salários que são exagerados e deviam ser reduzidos.

Insensibilidade pura. Imbecilidades ... com todo o respeito

segunda-feira, novembro 18, 2013

O direito a viver com dignidade ...


Entendo os que defendem que é impossível continuar a sustentar todos os direitos sociais que fomos "ganhando" desde 1974. Compreendo e aceito os argumentos e, se formos honestos, admitimos claramente que a riqueza que produzimos não chega para cobrir todas as despesas inerentes ao universo gigantesco daquilo a que chamamos o "Estado Social". E os argumentos nada têm de ideológico. Dou três exemplos: hoje as pessoas vivem mais tempo do que antigamente, por isso se pagam durante bastante mais anos pensões de reforma; há menos gente a trabalhar e, daí, haver menos pessoas a descontar; as empresas são cada vez em menor número, donde, também não pagam impostos. Enfim, as ideologias não cabem nesta discussão. É uma questão matemática que só diz respeito ao "deve e haver".

Claro que neste ponto da narrativa invariavelmente se olha para as PPP e para as respectivas rendas. É verdade que se podia ir muito mais longe, seria infinitamente mais justo, mas isso não altera, por aí além, a realidade dos factos. E é aqui que nos viramos para o papel fundamental que nós achamos caber ao Estado: o da correcção das injustiças e o da protecção a quem, completamente desvalido, tem o direito de viver com dignidade. E também é para isso que pagamos impostos.

As palavras de D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa, vêm ao encontro exactamente desta perspectiva da protecção do factor humano: "Precisamos que as pessoas sejam justamente remuneradas". E diz que "não concorda com a sugestão do Fundo Monetário Internacional, para se baixar salários. Na actual situação de crise, o Governo deve apostar na promoção do trabalho".

Ao que eu acrescento, o que de facto está em causa são as pessoas. E, pelo seu trabalho, a possibilidade da economia poder reanimar.