quarta-feira, março 12, 2014

Livres da troika? Se calhar não ...



Está para breve a saída da troika do nosso país. Paulo Portas no Congresso da Juventude Popular até inaugurou, com pompa e circunstância, um relógio que faz a contagem decrescente do tempo que falta para esse momento. Só que tanto alarido e tanto foguetório foram afinal em vão. A troika vai realmente sair mas continuaremos em observação até lá para 2037.


É que transmitiram-nos a ilusão de que a saída da troika seria assim uma espécie de um novo 1640, em que haveria uma outra restauração da independência de Portugal, e que, a partir daí, voltaríamos a ser donos do nosso destino e continuaríamos a pedir dinheiro emprestado mas ... livres. Mas - oh, destino ingrato - Portugal vai continuar a ser controlado, agora por Bruxelas, numa fiscalização que poderá ir até 2037 ou até que paguemos pelo menos 75% do montante recebido.


E, claro está, toda esta humilhação não cessará enquanto a nossa economia não crescer de forma sustentada. O que não parece que venha a acontecer tão cedo. Por isso, muitos afirmam que não temos condições de pagar o que devemos. Ontem soube-se de um manifesto subscrito por 70 economistas de vários quadrantes a favor da reestruturação da dívida que contemple, nomeadamente, juros mais baixos e mais tempo para pagar o remanescente da dívida acima do limiar de 60% do PIB.


A coisa está difícil. E nós a julgar que dentro de pouco tempo nos veríamos aliviados da canga que nos tem feito passar por tantos sacrifícios. Livres, enfim, da troika? Se calhar não ...



terça-feira, março 11, 2014

E Jardim Gonçalves passou pelos pingos da chuva ...



A Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, pode até estar satisfeita porque conseguiu - segundo parece - cumprir, na área que tutela, todas as condições impostas pela troika. Mas, certamente, sentirá algum incómodo com a prescrição do processo interposto pelo Banco de Portugal a Jardim Gonçalves, em que o banqueiro teria que pagar um milhão de euros em coimas e de ficar inibido durante nove anos de exercer actividade na banca.


Na verdade, nem a Ministra e, principalmente, nenhum dos portugueses entenderá a razão pela qual o juiz António da Hora decidiu declarar extintos todos os procedimentos contra-ordenacionais que visavam o fundador do BCP. Custa muito a aceitar que a decisão se baseie exactamente no facto de terem passado oito anos, prazo máximo de prescrição para contra-ordenações. DEIXARAM PASSAR OITO ANOS, aparentemente sem terem feito o que deviam, num processo em que o principal envolvido era uma das figuras mais importantes e ricas do país.


E, das duas, três. Ou houve incompetência do juiz, ou as leis estão mal feitas (e não adianta pensar em alterar dos oito anos para outro prazo qualquer por que o resultado iria ser o mesmo) ou as habilidades dos advogados de Jardim, pagos a peso de ouro, impediram, complicaram e baralharam todo o processo para que a decisão agora tomada - ainda por cima não passível de recurso - não pudesse ser outra.


Ficámos sem saber (embora desconfiemos) se Jardim Gonçalves é ou não culpado. Mas sabemos, isso sim, que a lei não actuou e não se fez justiça. E sentimos, uma vez mais, que existe uma justiça para os que mais podem e outra para ... os outros.



segunda-feira, março 10, 2014

A vida são dois dias e o Carnaval são três ...



O facto de ainda estarmos a viver em clima de Carnaval (realizou-se ontem em Vale de Cambra o desfile carnavalesco que substituiu o do passado domingo que não saiu à rua por causa do mau tempo) e, também, o de ter estado ausente uns dias, leva-me a escrever hoje sobre aquela inexplicável teimosia do Governo em não dar a tolerância de ponto aos funcionários públicos na terça-feira de Carnaval.

Nem sabem como "adoro" viver num país bem-disposto, com marionetas e fantoches, cabeçudos e gigantones que, numa época como o Carnaval, vêm mesmo a calhar. Um país bem organizado, que tem leis que supostamente regulam mas ... que não são para cumprir. Não passam de meras referências que "informam" os cidadãos que essas leis existem mas que, na prática não são para ser levadas a sério.

Pois em nome de uma alegada produtividade para convencer os nossos credores, os mercados ou lá quem quer que seja, o Governo não concedeu - pelo terceiro ano consecutivo - a tradicional tolerância de ponto carnavalesca aos funcionários públicos. Mas, como estamos neste arremedo de país, muitas das autarquias decidiram conceder aos seus funcionários (empregados da administração local, funcionários públicos, portanto) a tal tolerância.

E foi um prazer deambular por Lisboa na terça-feira gorda. A actividade privada esteve de portas fechadas, encerradas estavam as autarquias e as empresas municipais e os transportes (a Carris que é do Estado) a adoptarem um horário de fim-de-semana. Enfim, todos a gozar a tradição carnavalesca e os funcionários do Estado também a gozar com a decisão do executivo.

Eu sei que as autarquias têm poder de decisão autónomo nesta matéria e, em muitas delas, organizam-se há muitos anos desfiles que promovem as regiões e dinamizam a economia local. E nem que fosse só por causa disso, não seria a altura do Governo reconhecer que não faz sentido tamanha medida? Pelos vistos não.



quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Fernando Tordo, mais um emigrante



Só o tempo o dirá se Fernando Tordo, aos 65 anos, fez bem em emigrar. Disse o cantor e autor que já não tem condições para trabalhar no nosso país. Tal como muitas centenas de jovens e menos jovens que não veem outra solução do que se fazer à vida noutras paragens, Tordo partiu desiludido.


Sou grande admirador de Fernando Tordo enquanto artista e acho que ele é um homem inteligente. Mas, preocupado como estava, é capaz de se ter precipitado. Pelo menos é aquilo que eu deduzo quando nos últimos dias ouvi os nossos governantes regozijarem-se com a retoma da economia, com o "milagre económico" como lhe chamaram.


Alegria provavelmente sustentada pelo insuspeito Financial Times que apontou Portugal como o "herói-surpresa" da zona euro. O que deixou surpresos os portugueses que estavam a milhas de imaginar tamanhos sucessos. Suspeitávamos inclusive que os enormes esforços que temos vindo a fazer nos três últimos anos não tinham servido para nada. Até por que, apesar da anunciada recuperação da economia, da esperada saída da troika "à irlandesa", nós comuns cidadãos - quais profetas da desgraça - continuamos com os bolsos vazios e sem saber o que fazer à vida.


Talvez por isso Miguel Sousa Tavares na última 2ª feira no telejornal da SIC tenha sugerido que os jornalistas do Financial Times tenham escrito a matéria sem saírem do aeroporto. Não viram, não sentiram a realidade dos portugueses, o seu dia-a-dia. Se calhar nem se aperceberam, isto agora digo eu, a quantidade de portugueses, novos emigrantes, que estavam à espera de apanhar um avião apenas com um bilhete de ida.


Admiro a coragem de Fernando Tordo e desejo-lhe as maiores felicidades. Mas tenho a esperança de que no avião que o levou até ao Brasil tenha tido a oportunidade de ler o Financial Times a opinar como Portugal é o "herói-surpresa" da Europa. Pode ser que, assim, volte depressa para nós, com uma mala na mão e uma guitarra debaixo do braço. Tal como partiu.



segunda-feira, fevereiro 17, 2014

A Criatividade de Assunção Esteves




Recordo, amiúde, a frase de Eça de Queiroz "Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão". E lembro-me dela tantas vezes porque os políticos, de uma forma geral, dão bons motivos para isso.


Já aqui tenho demonstrado a minha perplexidade perante algumas intervenções de Assunção Esteves, Presidente da Assembleia da República e segunda figura do Estado. Dignas, a maior parte delas, de políticos menos capazes ou em início de carreira. Ainda não há muito, quando Eusébio faleceu, Assunção Esteves mostrou grande inabilidade nas palavras que proferiu. Agora foi a vez de manifestar a sua veia criativa, mas desadequada, ao sugerir não uma mas duas "ideias geniais" para a comemoração do 40º aniversário do 25 de Abril.


A primeira foi quando propôs que os custos com a dita comemoração fossem suportados por empresas, ao abrigo da lei do mecenato. Claro que a proposta criou mal-estar nas bancadas que rejeitaram a possibilidade de empresas privadas financiarem comemorações estatais.


A outra ideia brilhante foi a de ornamentar chaimites com cravos criados por Joana Vasconcelos. Obviamente que também não teve acolhimento por parte dos deputados, tanto mais que a despesa sairá do orçamento da Assembleia da República e cada cravo vermelho (em crochet) da artista custaria cinco mil euros.


Mais uma vez Assunção Esteves não foi feliz nas palavras e nas ideias. Mas, convenhamos, com ideias destas ...



sexta-feira, fevereiro 14, 2014

E os sacrifícios são suportados por quem?



Na sequência do texto que aqui publiquei ontem, recordo o recente relatório do Banco de Portugal que afirma, inequivocamente, que "no combate ao despesismo e ao excesso de dívida iniciado em 2010, apenas as famílias apertaram verdadeiramente o cinto".

Esta é a verdade nua e crua. Enquanto o Estado e as empresas aumentaram a dívida - a Administração Pública aumentou a dívida em 99,5 mil milhões de euros e as empresas em 7,4 mil milhões - os particulares cortaram 19,4 mil milhões de euros, dos quais 11,7 mil milhões em crédito ao consumo e outros fins que não habitação.

E é incrível como o tão falado "ajustamento" - certamente necessário num país onde (diziam) se vivia muito acima das possibilidades - se tenha feito por via do esforço das pessoas, das famílias e, também, de muitas empresas, enquanto que a contribuição do Estado foi nula, apesar do brutal aumento de impostos e das medidas altamente penalizadoras para os cidadãos, sobretudo com o corte de salários e pensões.

Todos sabemos isto mas não é demais lembrá-lo.



quinta-feira, fevereiro 13, 2014

O pessoal não chegava para tanta trabalheira ...



Nem queria acreditar quando li no jornal "i"a notícia: "Passos Coelho contratou uma empresa, em regime de outsourcing, para assegurar o atendimento telefónico na residência oficial do Primeiro-Ministro por 25,1 mil euros. Isto apesar de ter no seu gabinete dez secretárias pessoais, nove auxiliares, e 12 pessoas a prestar apoio técnico-administrativo em São Bento.


O contrato, assinado no dia 6 de Dezembro com a empresa We Promote - Outsourcing e Serviços, Lda. mas só publicado no dia 5 de Fevereiro no portal Base dos contratos públicos, inclui "designadamente as funções de atendimento telefónico, gestão, registo e encaminhamento de chamadas".

E este já é o terceiro contrato celebrado pelo gabinete do Primeiro-Ministro com a empresa. O primeiro foi assinado no dia 4 de Fevereiro de 2012 por 10,4 mil euros e o segundo foi celebrado a 15 de Janeiro de 2013 por 12,5 mil euros. A justificação para adjudicar directamente com esta empresa foi sempre a mesma: "ausência de recursos próprios".


Assim se percebe melhor como é árduo o trabalho do Primeiro-Ministro. Apesar das dez secretárias, dos nove auxiliares e dos 12 administrativos a trabalhar na residência oficial, ainda assim os telefones não param de tocar em São Bento. Só não sei - e aqui é minha costela maledicente a questionar - é se tanto tráfego é resultante do pedido de "jobs para os "boys"" ou se há para aí muita gente a não estar contente com as políticas aprovadas por este governo.


Mas, a confirmar-se que era absolutamente necessário arranjar mais gente para atender os telefones, gostava que me explicassem por que não aproveitaram os funcionários "colocados" (e desaproveitados) no grupo da mobilidade especial e tiveram que recorrer a uma empresa externa.

Enfim, lá teremos que pagar mais 25 mil euros. É a vida! 



quarta-feira, fevereiro 12, 2014

"Espatifam-se" mas não aprendem ...



Fico com uma urticária dos diabos quando vejo que certos erros que se cometem no passado se repetem mais tarde sem que deles se tenham tirado as devidas ilações. Costuma dizer-se, sobretudo em relação aos mais jovens, que é preciso baterem com a cabeça na parede para aprenderem. Se calhar não! Também é comum apregoar-se que o tempo dá a experiência e, esta, o ensinamento. Se calhar também não!


E a provar que não, vejam os esquemas que prometem às pessoas ganhos enormes de dinheiro sem que, para isso, elas tenham que fazer grande esforço. Como acontece, por exemplo, nos golpes de "pirâmide" que têm aparecido muito nos últimos anos, todos eles a seduzir milhares de pessoas que se propõem ganhar dinheiro fácil. Basta recordar o caso da "D. Branca". O que é que aconteceu? Os primeiros a entrarem claro que se safaram, recuperaram o que investiram e ainda ganharam muito mais mas, para os que só apanharam o comboio em andamento, esses perderam o dinheiro que lá puseram. E aprenderam a lição? Acho que não, pois na "pirâmide" seguinte eles lá estavam de novo.


Agora o que está a dar é o TelexFree. Na Madeira, por onde a marosca entrou cá em Portugal, há já milhares de pessoas convertidas ao negócio, incluindo funcionários públicos, professores, políticos, advogados, militares e polícias. Na ânsia de ganhar no mínimo de 20 a 100 dólares por semana, a rapaziada atirou-se de cabeça - alguns a tempo inteiro e a ganhar milhares de euros por mês - e sonham com um futuro promissor que não acabará nunca.


A Deco e Polícia Judiciária aconselham prudência. Em países da América do Sul já há investigações judiciais. Eu limito-me a recordar o que disse um "insuspeito banqueiro", ex-Presidente do BPP, João Rendeiro - um fulano que foi acusado de burla qualificada, sobre os seus clientes de um esquema que montou - "os lesados sabiam do risco que corriam e são o exemplo acabado da cupidez". Para bom entendedor ...



segunda-feira, fevereiro 10, 2014

A "Factura da Sorte" ou a suprema ironia



Esta última semana não se ouviu falar de outra coisa que não fosse o mau tempo que tem assolado o país. Do que tem estado e do que nos vai afectar nos próximos dias. Também se falou, e muito, das praxes universitárias e dos quadros do Miró que o Governo teima em vender e que a oposição insiste em que fiquem por cá. Quanto a este último tema, que ainda vai fazer correr muita tinta, fiquei com a ideia de que, afinal, quem vivia acima das possibilidades eram o Oliveira e Costa e o BPN que compraram aquela colecção do pintor. Mas isso são contas de outro rosário ...


Também se falou muito nesta última semana, e com grande excitação, no sorteio que dá pelo nome de "Factura da Sorte". Sobretudo por parte do Governo que julga ter encontrado a forma de acabar com a fuga aos impostos. Já aqui manifestei a minha opinião sobre essa esperteza saloia de pôr os contribuintes a fazer conta que são fiscais do Fisco. É a maneira mais fácil, eu sei, mas não concordo com isso e acho mesmo que o Estado fica mal na fotografia.


Mas o que hoje quero salientar nesta medida do Governo que alicia os cidadãos a pedir facturas, nem que seja de 1 cêntimo, é que o prémio é um valente automóvel de gama média/alta. E aqui o meu desacordo não podia ser maior. Se querem mesmo "dar" uns popós (porque deve haver outras razões para além da caça à economia paralela) então, em vez de um carrão, por que não sorteiam dois ou três carros mais baratos? Por um lado, mais contribuintes seriam premiados e, por outro, a manter-se o esquema previsto, estou a imaginar que o sortudo que vai receber um BMW ou outro do género, vai arranhar-se todo a pensar como vai pagar seguros, selo do carro e revisões que são, obviamente, muito mais caros.


Porém, só a ideia do Estado promover tais sorteios já me deixa arrepiado. É como que uma versão moderna do Major Valentim Loureiro a dar electrodomésticos para as pessoas votarem nele. Se pretendem mesmo que os contribuintes peçam facturas para que a receita fiscal cresça, não seria mais avisado que o valor do IVA das facturas fosse dedutível no IRS?


E depois, não acredito que, passada a euforia dos concursos fiscais, os portugueses continuem a pedir facturazinhas por dá cá aquela palha.


Mas quanto ao anunciado concurso, acho muito curioso que o mesmo Governo que condenou o povo por excesso de consumo - de viver acima das suas possibilidades, lembram-se? - venha agora sortear carros de luxo. É a suprema ironia, não acham?



sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Autodefinição de Óscar Niemeyer



Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho (1907 - 2012) foi um arquitecto brasileiro, uma das principais figuras da arquitectura moderna e um dos maiores da sua geração.

Niemeyer destacou-se pelo uso das formas abstractas e pelas curvas que caracterizam a maioria das suas obras. Daí ter escrito nas suas memórias:

"Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.

Mas, para além de génio da arquitectura, Oscar Niemeyer era também um poeta.



de Óscar Niemeyer


Autodefinição




Na folha branca de papel faço o meu risco.

Rectas e curvas entrelaçadas.

E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.

São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.

Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,

os encantos da mulher.

Deixo de lado o sonho que sonhava.

A miséria do mundo me revolta.

Quero pouco, muito pouco, quase nada.

A arquitectura que faço não importa.

O que eu quero é a pobreza superada,

a vida mais feliz, a pátria mais amada.





quinta-feira, fevereiro 06, 2014

“Não consigo criticar nada em Portugal" ... disse a jornalista



É bom ouvir alguém contrariar as más notícias com que os telejornais nos invadem as casas durante o tempo todo. Reconforta a alma ouvir dizer que "Portugal é o maior e que não encontra uma coisinha sequer que seja passível de crítica". Pelo menos é isso que pensa Fiona Dunlop, jornalista da CNN, muito embora ela só estivesse em Lisboa e falasse sobre Portugal. Um deslize que não ensombra a mensagem ...


Eu sei que Lisboa está na moda, foi até eleita recentemente como uma das cidades mais “cool” da Europa, a melhor para se passar umas mini-férias. Mas destacar só as vistas fantásticas da capital, o rio Tejo, a arquitectura, o magnífico peixe que por cá comeu e um treinador (Mourinho) que é muito famoso, parece uma análise um pouco redutora para uma jornalista que devia ter dado igualmente atenção a outros factores. Mas Fiona realçou também o optimismo dos portugueses que, face às dificuldades por que têm passado, esperava ver deprimidos o que, afinal, não aconteceu. Na entrevista à Renascença, a jornalista concluiu: "não consigo criticar nada em Portugal”. Ainda bem. É uma querida.


Porém, falou sobre o Mourinho mas esqueceu-se do Ronaldo e não se referiu à espantosa luminosidade alfacinha nem - e isso é crime de lesa-majestade - aos pastéis de Belém ou ao Benfica. Para uma jornalista é imperdoável ter esquecido estes "detalhes".


Mas Fiona também não viu os muitos buracos "plantados" nas ruas da cidade. Ruas em linha recta que se percorrem em ziguezagues para os carros não caírem neles. Também não deu pelos jardins públicos mal frequentados ou pelos passeios cheios de cocós de cães que os donos se esqueceram de apanhar. Não reparou nas casas fechadas, inabitadas e a cair e nas lojas que estão encerradas, umas a seguir às outras, num cenário desolador. Não ligou igualmente aos muitos carros estacionados em cima dos passeios que impedem os cidadãos de circular livremente. E, inexplicavelmente, não falou nos inúmeros grafites que sujam tudo o que é parede ou paragem de transporte público (há, felizmente, muitas excepções), rabiscos sem qualquer cariz artístico, que são apenas meros actos de vandalismo público. E ela também não se apercebeu dos sem-abrigo que vagueiam pela cidade e que, à noite, se estendem por onde podem.


Não acredito que a jornalista não se tenha apercebido desses pormenores, acho é que ela quis ser gentil connosco. Contudo, numa coisa Fiona Dunlop esteve certíssima: Lisboa é mesmo linda!



terça-feira, fevereiro 04, 2014

A colecção de Miró "herdada" do BPN



Já foi há uns anos. Lembro-me que parámos um pouco junto à Catedral de Barcelona e, ao olhar para uma banca de venda de serigrafias de artistas conhecidos, centrámos a nossa atenção sobre um quadro de Miró. A minha filha, então adolescente mas desde sempre virada para as artes, falava entusiasmada da obra do artista perante a minha manifesta insensibilidade que apenas conseguia visualizar nos quadros do pintor surrealista catalão riscos que poderiam ter sido feitos por crianças de uma pré-primária.


A "discussão" arrastou-se pelo dia inteiro e, apesar da argumentação da filha, não me deixei seduzir pelo traço de um pintor e escultor que foi mundialmente famoso.


Porém, de repente, Joan Miró fez-me despertar. Não que eu tivesse começado a apreciar o seu traço, mas por que, como cidadão, acho questionável a venda das 85 obras do artista, uma das coisas que nos ficaram daquele elefante branco chamado BPN. Venda que, em princípio, vai acontecer hoje e amanhã num leilão promovido pela Christie's, em Londres.


Eu sei que a arte não é um mero activo financeiro mas sei também que o Estado precisa de dinheiro como de pão para a boca e, como habitualmente, dispara em qualquer direcção para sacá-lo. E como viu uma boa oportunidade de vender umas pinturas, desenhos, colagens e guaches de um artista que não sendo de topo é, em todo o caso, reconhecido internacionalmente, vá de pô-los a jeito dos coleccionadores mais endinheirados. Na perspectiva, claro está, de vir a embolsar entre 35,9 e 80 milhões de euros.


Ao que parece esta manobra "atropela" a Lei de Bases do Património Cultural mas, para além disso, a colecção tem, efectivamente, um valor apreciável do ponto de vista artístico e cultural. E é aqui que está o busílis. Será aceitável esta venda para recuperar algum dinheiro do muito que, nós contribuintes, enterrámos na nacionalização (e, depois, na privatização) do BPN? Ou, será mais ajuizado mantermos a colecção de Miró em Portugal como uma mais-valia para a nossa cultura e como pólo de atracção turística, muito embora a indemnização que teríamos que pagar à Christie's (por transportes e seguros) ainda fosse de alguns milhões de euros? Terrível dúvida esta.


Que saudades daquele dia longínquo em que, junto à Catedral de Barcelona, eu e a minha filha discutíamos a arte de Joan Miró.


segunda-feira, fevereiro 03, 2014

"E o burro sou eu?" - onde se divaga sobre o perdão fiscal do Governo




Confesso publicamente que, de há muito, não me tenho em grande conta. E a "culpa", provavelmente, devo-a aos meus pais que me transmitiram valores como a honradez que diziam ser fundamentais numa pessoa de bem. Talvez por isso insisto em pagar a tempo e horas as contas da luz, da água, do gás, dos seguros, do condomínio, do IMI e de tudo o resto que um qualquer cidadão tem a obrigação de pagar. Assim como deve ter sido por causa desses valores que sempre cumpri todas as minhas responsabilidades fiscais mesmo antes do fim dos prazos. Enfim, de uma forma estranhamente parva, nunca fiquei a dever a quem quer fosse. Podia refilar, insurgir-me, dizer mal da vida mas pagava.


Por isso, quando soube que o nosso querido Governo decidiu fazer uma coisa a que chamou "perdão fiscal", senti-me completamente abazurdido. Por outras palavras, achei-me uma completa besta quadrada.


E senti-me dessa forma por ter dificuldade em perceber que àqueles que não pagaram os seus impostos nas datas indicadas, tão-pouco os juros de mora pela falta de pagamento, o Estado os tenha ajudado, arranjando-lhes um modo suave de pagamento (prestações baixinhas, com juros simbólicos e em muitos anos) ou, simplesmente, os tenha incluído no lote dos que beneficiaram do tal perdão fiscal. Então e eu? Então e nós que temos a mania de que as responsabilidades são para serem levadas a sério, o que é ganhámos com isso? Onde ficou a igualdade de tratamento entre cidadãos? É que não ouvi ninguém reclamar contra isso, nem sequer ouvi uma palavra do Tribunal Constitucional.


Claro que os devedores - perdão, os espertos - ganharam com isto. Mas, ao que parece, o Estado também encaixou 1,3 mil milhões de euros. Afinal, antes receber esse dinheiro do que correr o risco de não receber nenhum. Mas, ainda assim, gostaria de saber, tal como o líder do maior partido da oposição, quanto dinheiro foi perdoado aos contribuintes no processo de regularização de dívidas ao fisco. Quanta massa é que, se tivéssemos num país a sério, o Estado teria ido buscar se obrigasse os cidadãos a pagar a que realmente deviam? Como sublinhou António José Seguro "o perdão aplicou-se não apenas aos contribuintes com dívida, mas também aos que, tendo já pago a dívida, tinham ainda em falta apenas os juros. "Há um perdão de juros para quem pagou mas também houve um perdão de 100% para quem só tinha como dívida juros de dívidas anteriores" .


Perante tudo isto, não pude deixar de pensar que se tivesse que responder à célebre pergunta de Scolari "E o burro sou eu?" diria: sim, eu sou o burro. Confesso!

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Casamento de professoras ...





A nossa forma de viver alterou-se profundamente nas últimas décadas . A tecnologia trouxe-nos novos mundos e as mentalidades mudaram, e de que maneira. Globalmente e, em particular, no nosso país. Os que não viveram (e sofreram) os ditames do Estado Novo nem se aperceberão das muitas transformações da sociedade e, da forma (mais ou menos) livre em que vivemos hoje.

Por acaso, alguém se recordará que na década de 30 do século passado a lei impunha às professoras que queriam casar determinadas regras? Quais? Por exemplo, estas:



"O casamento das professoras não poderá realizar-se sem autorização do Ministério da Educação Nacional, que só deverá concedê-la nos termos seguintes:

1º. Ter o pretendente bom comportamento moral e civil;

2º. Ter o pretendente vencimentos ou rendimentos, documentalmente comprovados, em harmonia com os vencimentos da professora. (artº. 9. do dec. nº. 27.279, de 24-11-936).

As interessadas devem requerer a Sua Excelência o Ministro com fundamento no artigo citado, e juntar ao requerimento documentos comprovativos da idoneidade moral e civil, bem como dos vencimentos ou rendimentos do seu noivo.

Os processos respeitantes a pedidos de autorização para casamento de professoras de ensino primário devem ser acompanhados de parecer dos directores dos distritos escolares.

Também é condição indispensável ao deferimento que os pretendentes comprovem a data desde a qual se encontram na situação económica que torna possível a autorização do casamento, bem como a estabilidade que a mesma pode oferecer".


Estávamos, então, em 1937. E este é apenas um exemplo da sociedade de então.



quarta-feira, janeiro 29, 2014

As bizarrias autárquicas do Major Valentim Loureiro




A ser a verdade o que vem publicado na "Visão" on-line (que transcrevo), o major terá muito que explicar. Vejam só:

"Quando Marco Martins tomou posse, o difícil foi não esbarrar em situações insólitas. Primeiro, o gabinete de Valentim Loureiro estava transformado num bunker, onde poucos alguma vez haviam entrado. Em quase duas décadas, o anterior presidente só por duas vezes se terá deslocado ao bar do edifício camarário e "para reclamar com os funcionários ", conta-se. Valentim tinha um elevador secreto e exclusivo cujo código de acesso era a sua data de nascimento que ligava directamente a um parque de estacionamento para os automóveis do presidente e da filha, ex-vereadora. Para trás, Valentim deixara também o fax com a respectiva lista de contactos, que iam de dirigentes do mundo da bola a pessoas com quem tinha negócios. Mas o filme apenas começara. Ao longo das semanas que já leva de mandato, Marco Martins descobriu viaturas velhas da autarquia por abater, "nas quais já haviam nascido pinheiros", uma frota automóvel com uma idade média de 22 anos e gastos de milhares de euros em aplicações informáticas que nunca foram instaladas ou usadas. Soube, também, que umas moradias em banda, vandalizadas e destruídas, afinal pertenciam à Câmara, e que o erário público também continuava a pagar o arrendamento de um mercado provisório, num terreno onde, desde 2011, já não existia nada. Um heliporto, orçado em 92 mil euros, foi também construído junto do IC29 e de um hospital, mesmo depois do pedido de licenciamento ter sido chumbado pelo Instituto Nacional de Aviação Civil. "Processos judiciais em que a autarquia é ré, são cerca de 400, mas ainda não estão quantificados os valores", refere o autarca, que herdou uma dívida de 145 milhões de euros, contas ainda por baixo, "pois espero mais surpresas". Não fosse Marco Martins bombeiro voluntário e dir-se-ia que Gondomar tem demasiados fogos para apagar. "O que me salva é ter subido degrau a degrau, na vida autárquica e ganho experiência a partir de uma freguesia. Caso contrário, estava tramado."

"Gabriel O pensador" dizia "É pra rir ou pra chorar?". Eu já nem preocupo com isso. É que a ser verdade - repito - Valentim Loureiro deveria ser accionado judicialmente por má (criminosa) gestão da coisa pública.



segunda-feira, janeiro 27, 2014

E, pacientemente, os chineses vão-se instalando ...


Quem não se recorda dos anos da euforia das lojas dos 300 e dos restaurantes chineses de comida exótica que foi novidade para época? Passada essa fase dos pequenos negócios familiares, os chineses em Portugal estão cada vez mais pujantes, com lojas que ocupam tudo o que é sítio e nem sempre nos melhores lugares. Ainda não há muito, fiquei chocado por ver na baixa de Portalegre - num edifício de traça antiga, em pedra, uma casa tradicional certamente brasonada e com história - um armazém chinoca com bandeirinhas e balões vermelhos à porta e toda uma espécie de artigos para venda a esparramar-se no exterior pela calçada. Não sei como a autarquia permitiu uma coisa dessas, embora adivinhe.


Pé ante pé, e depois do comércio tradicional, a presença do gigante asiático, está a alastrar no nosso país, por várias razões mas, sobretudo, porque Portugal é uma excelente porta de entrada na Europa, que eles também querem conquistar.


Por cá, já dominaram as privatizações (o nosso Governo está mais interessado no dinheiro do que no perfil dos investidores) e com dois nomes de peso, a China Three Gorges e State Grid, colossos estatais chineses que protagonizaram grandes investimentos de capital na EDP e na REN. Depois veio a armada financeira, os bancos ICBC e o Bank of China e, mais recentemente, o fundo Fosun comprou os seguros da Caixa Geral de Depósitos. Paralelamente vão comprando casas bem localizadas e, ávidos de luxo, percorrem a Avenida da Liberdade e os centros comerciais em busca de marcas conceituadas e caras.


Acredita-se que o número de chineses em Portugal possa chegar aos 20 mil cidadãos e o seu peso económico é já significativo. O "império" vai-se instalando a pouco e pouco. Pacientemente.


Será que é a isto que se costuma chamar a "paciência do chinês"?



sexta-feira, janeiro 24, 2014

Suécia: Jogos Olímpicos? Não, obrigado!





Os grandes acontecimentos desportivos costumam ser uma montra fantástica para os países que os organizam. Tanta visibilidade, em todo o mundo, pode, na verdade, potenciar mais e melhores negócios e um aumento significativo das receitas com o turismo. Mesmo que o tremendo esforço financeiro não seja, muitas vezes, recuperado.

Foi assim em Portugal com o Europeu de Futebol de 2004. O país engalanou-se de bandeiras nacionais e quase ganhou o título de campeão europeu. Só que, passados dez anos, ainda não recuperámos das dívidas contraídas para a construção e manutenção de tantos estádios, equipamentos esses que, nalguns casos, estão quase ao abandono.

O mesmo está a acontecer no Brasil que este ano vai acolher o Mundial de Futebol e em 2016 vai organizar os Jogos Olímpicos. À euforia por ter conquistado a honra de organizar tão importantes eventos, passou-se à construção e remodelação de estádios e de infra-estruturas que estão a custar rios de dinheiro aos cofres do Estado. E num país em que a má qualidade dos serviços públicos e os sistemas de educação e de saúde estão longe de ser satisfatórios, a indignação popular tem vindo a aumentar perante os custos astronómicos que estão a ser alocados para a "Copa" e "Jogos Olímpicos".

Mas o deslumbramento que ocorreu em Portugal e no Brasil não se verifica em todo o lado. O exemplo da Suécia é paradigmático. Ao invés dos dois países de língua portuguesa, a capital sueca rejeitou organizar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Apesar dos eventuais ganhos, Estocolmo não aprovou a organização da competição, decisão que teve o apoio do próprio governo. E porquê? Porque na lista das prioridades daquela autarquia havia outras necessidades como, por exemplo, construir mais casas na cidade. Em vez de gastar muitos milhões de euros com os Jogos, os custos com a construção das novas casas andarão pelos 1,13 milhões de euros. Uma verba bem mais reduzida, uma poupança que os contribuintes suecos agradecem. Não é por acaso que a Suécia é considerada como um dos países mais justos socialmente e com mais baixos níveis de desigualdade.



quarta-feira, janeiro 22, 2014

Ouvindo Beethoven



De José Saramago





 


Ouvindo Beethoven


Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a presa de registro, o verso acta.



Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.



terça-feira, janeiro 21, 2014

Falácias e mentiras sobre pensões





Vale a pena ler o artigo de opinião escrito por Bagão Félix no Público do último dia 13, com o mesmo título desta crónica. Como sempre, Bagão Félix é claro, é sensato e põe o dedo na "ferida certa".


Só para espicaçar a vossa curiosidade, transcrevo um excerto:


"... no Governo há “assessores de aviário”, jovens promissores de 20 e poucos anos a vencer 3.000€ mensais. Expliquem-nos a razão por que um pensionista paga CES e IRS e estes jovens só pagam IRS!

Ética social da austeridade?”


Uma pergunta bem pertinente mas a que ninguém do Governo estará interessado em responder.



segunda-feira, janeiro 20, 2014

O referendo sobre a co-adopção ... e as crianças, senhor?





A verdade é que não deveríamos ficar admirados pelos resultados obtidos quando se deixam certos assuntos nas mãos de rapazolas que, por iniciativa própria ou a mando de alguém, tomam decisões que vão contra o mais elementar bom-senso. Como esta de querer fazer um referendo sobre a co-adopção de miúdos por casais do mesmo sexo.


Aliás, esta aberração do referendo que se quer fazer vai um pouco mais longe. Não se pretende apenas saber a opinião dos portugueses sobre a questão da co-adopção (uma lei que já tinha sido aprovada em Maio no Parlamento, embora na generalidade) como, no mesmo documento, também pretendem saber o que pensamos sobre a adopção de crianças por casais do mesmo sexo (coisa que não é permitida por Lei). Enfim!


Mas a proposta para a realização do referendo foi mesmo aprovada. Foi uma votação tão complicada que até muitos dos deputados do PSD ou não "alinharam" ou, fazendo-o, apresentaram declarações de voto. Isto é, votaram sim mas não estavam nada de acordo com aquilo a que deram o seu aval. Uma coisa que é difícil de entender mas que se percebe bem quando se pensa que defender o "tacho" é mais importante que manter a verticalidade da sua coluna vertebral ... se a tiverem.


Podemos estar, ou não, preparados para as "novas famílias" constituídas por casais do mesmo sexo. A sociedade tomou este rumo e, goste-se ou não, é o que temos e as crianças naturais ou adoptadas não podem ser prejudicadas por isso. E a realização deste referendo (a acontecer) em nada vai beneficiar os "superiores interesses das crianças". O preconceito continuará a esquecer as mais de 17 mil crianças que estão institucionalizadas e que esperam ansiosamente por um lar. Quer tenham dois pais ou duas mães, tanto faz. Tenho grande dificuldade em compreender que se prefira o internamento de uma criança numa instituição social em vez de lhes dar o calor afectivo de uma família, seja ela de que natureza for. Uma família que acolha, eduque e dê amor.


Estou em crer que toda esta lamentável encenação - esta Golpada Política, como lhe chamou Marques Mendes - dê em nada. Cavaco Silva já disse que está contra o referendo e o Tribunal Constitucional, se o assunto lá chegar, terá certamente o bom-senso de o chumbar. Mas houve uma coisa que foi conseguida. É que durante uns dias ninguém falou das medidas muito gravosas que resultam do Orçamento de Estado para 2014 (e já aí vem um rectificativo a caminho). Entretanto, as famílias e as crianças continuam à espera de uma resolução.



sexta-feira, janeiro 17, 2014

A costumada "confusão entre a política e os negócios"





O assunto não é novo mas voltou agora à ribalta quando se soube que o super-Ministro de Passos Coelho, Vítor Gaspar, quer ir (e seguramente irá com o apoio do nosso Governo e da Chanceler Merkel e do seu Ministro Schauble) para o FMI e que o simpático ex-Ministro da Economia Álvaro Santos Pereira será o economista número 2 da OCDE. É um filme que já vimos, protagonizado por outros intérpretes, que depois de prestações duvidosas ao serviço do nosso país, deram o salto para cargos importantes lá fora. E estou a lembrar-me, vá lá saber-se porquê, de Vítor Constâncio e de Durão Barroso, só para citar dois deles.

Mas a "promoção" que mais me chocou e, certamente a muitos portugueses, foi a de José Luís Arnaut. O advogado e político, que foi Ministro no executivo de Santana Lopes, foi convidado para um alto cargo no banco norte-americano Goldman Sachs, o mesmo banco que detém, após privatização, a maior participação accionista nos CTT e em que Arnaut trabalhou, simultaneamente, como consultor do Banco e do Estado Português.

De resto, José Luís Arnaut está intimamente ligado a um conjunto de privatizações levadas a cabo pelo actual Governo, nomeadamente a ANA, a REN e os CTT. E esteve também presente (embora não se tivesse concretizado) na pretendida privatização da TAP. Umas vezes trabalhando para o Estado, outras para as empresas vendidas, outras ainda para as empresas compradoras. Um verdadeiro super-homem!

É a costumada confusão entre a política e os negócios, o habitual jogo de influências, em que uns quantos se saem muito bem (à custa de operações pouco transparentes), e em que os interesses de Portugal e dos portugueses saem invariavelmente lesados.



quinta-feira, janeiro 16, 2014

Não sei, não ... o melhor é não confiar demasiado ...





Nos últimos tempos tem-se ouvido com uma certa frequência que "Portugal é um país de brandos costumes" e que "a austeridade trará inevitavelmente confrontos sociais".

No primeiro caso, a frase já vem de longe, dos tempos da propaganda salazarista, mas a nossa História desmente-a. Basta lembrar que só nos séculos XIX e XX, contam-se por milhares os mortos em guerras civis e revoluções. No fim da monarquia, o penúltimo rei de Portugal, D. Carlos e o príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, foram assassinados e já na República, o Presidente Sidónio Pais teve o mesmo fim. Face a estes factos será que Portugal poderá ser mesmo considerado um país de brandos costumes?

Quanto aos confrontos sociais que muitos anunciam, teremos mesmo motivos para nos preocuparmos? Ainda não há muito Mário Soares descreveu a situação do país como “de grande risco”, “a caminho da ditadura" e que “a violência está à porta”. Dois dias depois O Papa Francisco alertou para o perigo de violência devido à actual situação económico-social.


E isto são alertas que têm que ser tomados em devida conta. Não são ameaças, não são incentivos à violência, são, na minha perspectiva, olhares lúcidos sobre o que se pode passar em Portugal e no mundo com as crescentes desigualdades sociais e com as dificuldades por que passam os povos.


Poderemos vir a ter, então, a exemplo do que temos visto noutros países, violência nas ruas? A sensatez que os portugueses têm mostrado apesar do desespero do desemprego, dos aumentos de impostos, da falta de medidas que nos levem para níveis de vida mais dignos não afasta totalmente a ideia de que a desordem, quiçá o caos, poderão chegar. É que "os brandos costumes" poderão não ser eternos.


Para já, e a confiar no que vi expresso nas redes sociais, podemos ficar descansados. Para 2014 a generalidade dos votos dos portugueses vão no sentido de esperar um novo ano com saúde, alegria, amizade, muito amor, menos crise e pouca troika e um jackpot no euromilhões. Até por que, como se costuma dizer, a esperança continua a ser a última a morrer.




quarta-feira, janeiro 15, 2014

Afinal, este país é para quem?







Mau, ainda no último dia me referi aos "velhos" reformados que, pelos vistos, pouca serventia têm, e já estou hoje, de novo, a bater na mesma tecla. E tenho razões para isso porque tenho observado, para meu desprazer, que existe uma obsessão com os reformados e com os velhos de uma forma geral, um certo instigar à luta entre gerações, muitas das vezes, oriunda da parte de quem nos Governa.


Mas hoje a história tem a ver com um artigo escrito há duas semanas pelo sub-director do "Expresso", João Vieira Pereira, com o título "Este país é velho, de velhos, e para velhos", todo ele um bota abaixo, desde logo para com os velhos mas também com o Tribunal Constitucional e com a própria Constituição.

É perigoso fazer extrapolações de um texto, ainda por cima longo. Corre-se o risco de especular em ideias "tiradas do contexto" que, por junto, quereriam (eventualmente) dizer outra coisa. Ainda assim, as palavras estão lá, com as letrinhas todas e as citações que se seguem não terão, a meu ver, interpretações que possam suscitar dúvidas por aí além. Como por exemplo:

"os velhos querem manter aquilo que dizem ter conquistado. E muitos dos novos ambicionam apenas ter o que os velhos têm. Injusto? Para quem? É mais injusto reduzir os pretensos direitos adquiridos (expressão que me causa calafrios) ou hipotecar o futuro dos jovens?


Se pudesse escolher entre cortar pensões e reduzir o emprego jovem que está nos 44% qual escolheria? ... as gerações mais velhas estão a matar a esperança dos mais novos".


Se compreendo que uma boa parte do Orçamento do Estado vai para salários, pensões e prestações sociais e que a sustentabilidade das contas públicas está gravemente ameaçada, repudio totalmente esta guerra aberta contra os velhos.


Durante anos a fio eles trabalharam, em muitos casos sem as condições mínimas exigíveis, em muitíssimos casos sendo explorados por número excessivo de horas de trabalho e baixas remunerações e cumprindo as suas obrigações fiscais. Que culpa lhes podem agora ser imputadas sobre as dificuldades do país?

Que culpa têm eles de que um dos problemas estruturais mais graves deste País seja a sua baixíssima taxa de natalidade? E sobre insustentabilidade da nossa segurança social também foram eles que falharam? Eles a quem muitas vezes lhes fizeram descontos nos salários, descontos esses que nunca foram entregues pelos patrões.


São os velhos que têm culpa que a economia esteja num tal estado que obrigue os jovens a emigrar e que, deste modo, não possam contribuir com os seus descontos para o pagamento dos que já estão reformados?


São ainda estes velhos sem préstimo que têm a culpa dos cortes na educação e na investigação e das taxas de desemprego?


Para além de uma completa insensibilidade social, esta gente é incapaz de pensar para além do orçamento de cada ano. E têm o despudor de considerar os "direitos adquiridos" (leia-se, as justas expectativas criadas por pensionistas e reformados a uma reforma - para a qual descontaram - tranquila e com dignidade) um privilégio. E afirmar que "as gerações mais velhas estão a matar a esperança dos mais novos", é uma perfeita afronta a quem tanto lutou e sofreu durante anos e anos.


Portugal não é definitivamente um país para os velhos, tão-pouco para os jovens que não têm futuro. Afinal, este país é para quem?





segunda-feira, janeiro 13, 2014

Prontos a "bater as botas"?

                                                             



19 de Dezembro de 2013. O dia em que foi anunciado o chumbo do Tribunal Constitucional à proposta do Governo sobre a Convergência das Pensões. Uma decisão, recorde-se, que foi tomada por unanimidade pelos juízes e uma derrota em toda a linha para o Governo que mais uma vez quis desafiar a Constituição ...

Pouco depois, na SIC Notícias, José Gomes Ferreira, António José Teixeira e Tiago Duarte comentavam o assunto abordando as diversas perspectivas: económica, política e constitucional. Todos eles admitiam que este era mais um chumbo a juntar a uma já longa lista e, mais uma vez, resultante de uma grande incompetência legislativa e/ou de uma matriz ideológica que não concede desvios.

Às tantas, Tiago Duarte, constitucionalista, dizia que o Tribunal tinha levado em consideração que as pessoas que iam ser afectadas pelos cortes propostos (os pensionistas e reformados da Caixa Geral de Aposentações) "eram pessoas frágeis, em fim de vida". Juro que me apeteceu bater-lhe. Verdade ... Só porque são pensionistas e reformados, só porque são mais velhos estão, como dizer, prontos a "bater as botas"? É assim que são vistas as pessoas que já não estão no mercado de trabalho mas que ajudaram, cada um à sua maneira, a construir e a desenvolver as empresas e o país?

Achei um tremendo mau gosto. Tiago, cuidado, já não estás muito longe de lá chegar. É que o tempo passa muito rapidamente.




sexta-feira, janeiro 10, 2014

As decisões emocionais podem ser precipitadas ...



Compreendo que a emoção tenha influenciado o espírito de muitos portugueses e daí tivesse surgido um sentimento que rapidamente ganhou força: os restos mortais de Eusébio deveriam ser trasladados para o Panteão Nacional. E o coro dessa vontade foi de tal modo forte, que a decisão política tomada após conferência de líderes parlamentares não podia ser outra. De forma unânime, e com uma celeridade pouco habitual noutras matérias, os partidos com assento parlamentar apoiaram a iniciativa.


Alberto Martins, do PS, disse : “Esta é uma deliberação política de grande relevo, é uma exigência democrática, há um consenso unânime entre todos os grupos parlamentar de reconhecimento do Eusébio como uma grande figura nacional, um atleta ímpar, genial que foi uma referência de Portugal e da lusofonia”.

Nada de mais verdadeiro. E o Panteão Nacional é o lugar onde repousam muitos dos vultos da história portuguesa. Mas se me permitem a opinião, onde os restos mortais do "Pantera Negra" deveriam descansar era mesmo no Estádio da Luz. Ainda que Eusébio seja uma figura transversal a todos os clubes, era ali na Luz - porventura naquele estádio que poderia ostentar o seu nome e que já tem uma estátua glorificando-o - que Eusébio deveria ser homenageado para sempre. Nunca ninguém como ele representou a alma, a raça e o amor benfiquista. O Panteão Nacional, apesar da imponência e da solenidade, parece ser demasiado austero e frio para o "Rei Eusébio".





quinta-feira, janeiro 09, 2014

O vocabulário político não pára de surpreender ...



Ainda ontem aqui me referi às dificuldades de comunicação de Assunção Esteves e volto agora a escrever sobre a Presidente da Assembleia da República para, desta vez, reconhecer publicamente a minha incapacidade em perceber muitas das coisas que diz.


Como no caso de uma declaração à Renascença sobre os seus desejos e receios para 2014, em que Assunção Esteves afirmou:


"Temos sempre um receio humano de não conseguir. O meu medo é o do inconseguimento, em muitos planos: o do inconseguimento de não ter possibilidade de fazer no Parlamento as reformas que quero fazer, de as fazer todas, algumas estão no caminho; o inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustacional derivado da crise."


ao que acrescentou:


que o seu maior receio é de “um não conseguimento ainda mais perverso: o de a ..."

Conseguimento, inconseguimento e frustacional ... disse ela!


De facto, não estou preparado para tanto. É um vocabulário demasiado elaborado para mim ...





quarta-feira, janeiro 08, 2014

Assunção Esteves não acerta uma!



É certo que havia demasiado emoção. A morte do Rei Eusébio provocou uma incontrolável onda de dor e de união pela perda de um dos símbolos mais queridos dos portugueses. Dos que o viram jogar e o acompanharam pela vida e daqueles que tinham apenas uma vaga ideia daquilo que ele representava. E o funeral foi uma coisa nunca vista, um "funeral de Estado" como raramente se terá assistido no nosso país, a que assistiram muitos milhares de pessoas. Sobretudo o povo, a que Eusébio sempre pertenceu e de que nunca se quis afastar, apesar de ser uma vedeta interplanetária.


Os políticos, claro está, não faltaram. Pareceria mal. Nem os repórteres da comunicação social que cobriram, ao milímetro, todos os movimentos desta cerimónia fúnebre e que a propósito de tudo (e muitas vezes de nada) tentavam sacar desabafos e estados de alma de quem estava presente.


Ouvi depoimentos sentidos, ouvi palavras de circunstância e ouvi também - quando questionada sobre a possibilidade dos restos mortais de Eusébio serem trasladados para o Panteão Nacional (o desejo de muitos portugueses) - a Presidente da Nossa Assembleia da República pronunciar-se sobre os custos elevados que essa operação acarretaria. Realmente Assunção Esteves tem dificuldades de comunicação. No próprio local onde decorria o velório, falar em dinheiro demonstra uma grande insensibilidade. E também desconhecimento do que estava a dizer. Segundo ela essa eventual transladação poderia custar aos cofres do Parlamento centenas de milhares de euros o que, mais tarde, o próprio Gabinete da Presidente veio esclarecer que essa operação andaria à volta de 50 mil euros. Assunção Esteves não acerta uma!





segunda-feira, janeiro 06, 2014

"Recomeçar"




Neste início de 2014, um lindo poema.

De Miguel Torga,

 

"Recomeçar"


Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Boas Festas




                                                                       Nesta época de festas,

                                                              Desejo-vos SAÚDE, PAZ e AMOR

                                                          ... e que 2014 vos traga tudo de bom


                                                                              BOAS FESTAS!

                                                                           BOM ANO NOVO!



 

quarta-feira, dezembro 18, 2013

O Benvindo



A história do Benvindo cruza-se com a minha própria história dos tempos de infância e juventude. Conheci-o ainda miúdo na aldeia da minha mãe para onde eu ia todos os anos passar o Verão. Corríamos, jogávamos a bola, brincávamos com a despreocupação própria dos nossos tenros anos.

Benvindo era filho de uma família muito humilde. No entanto, e apesar da falta de perspectivas que, nesse tempo, era comum à maioria dos miúdos das aldeias, notava-se nele uma ambição que mal conseguia disfarçar. De facto, era notória a atitude que transparecia na forma como jogava o futebol ou nas corridas que fazíamos rua acima rua abaixo, sobretudo pela mais íngreme da terra, a Rua Direita, que por acaso era a que, de todas, mais curvas tinha.
 
Já adolescente, essa ambição fazia-se sentir ainda mais fortemente, sobretudo no modo como tentava impressionar as raparigas, quase todas estudantes na capital e que viam nele um pobre coitado, sem dinheiro e sem estudos e, que desdenhavam por ser desengonçado e de fraca beleza, pelo menos aquela que correspondia aos cânones exigidos na época.

Estivemos muitos anos sem nos vermos. Ele ficou por lá e eu andei um pouco pelo mundo, levado pelos acasos e necessidades da vida.

Quando regressei à aldeia, quis rever esses amigos da minha juventude, aqueles poucos que tinham fugido à emigração para a Europa, para a América ou para Lisboa.

Estive, então, com o Benvindo. O olhar continuava vivo, mas agora algo perdido num corpo desgastado pelas azáfamas da vida do campo. Falámos durante boa parte da noite enquanto empurrávamos a broa e os pedaços de chouriço acompanhados do vinho carrascão oriundo de um dos lagares da aldeia.

 
Benvindo fez pela vida. Sempre andou no amanho das poucas terras da família e, mais tarde, foi regedor da aldeia e presidente da junta de freguesia. Era considerado pelas pessoas da povoação e dos burgos vizinhos.

Importante, considerado e muito narcisista. A tal ponto que, levado mais pelo culto de si próprio do que pela falta de estudo, mandou colocar nas duas entradas da aldeia placas bem grandes que diziam:

“Benvindo a Santa Maria”

Quando lhe disse, meio a brincar já se vê, que tinha que mandar rectificar as tais placas, porque em português, a saudação escreve-se “bem-vindo” ele sorriu e respondeu-me de imediato:

E tu julgas que eu não sei isso? É que assim o meu nome fica para sempre na História da aldeia, percebes?"

Claro que tinha percebido. E continuámos tagarelando e petiscando alegremente.

terça-feira, dezembro 17, 2013

Afinal (e até ver) o chocolate não engorda ...



Até que enfim, uma boa notícia. Infelizmente não tem a ver com a melhoria da situação do país ou dos portugueses mas diz respeito a um alimento que, para a maioria e de alguma forma, nos consola e nos "aconchega" nos piores dias (e nos melhores também). Estou a falar do chocolate.

Mas, até agora, havia um porém. A sombra de que a ingestão de chocolate fazia engordar travava o nosso entusiasmo e, quantas vezes, o nosso desejo transformado em necessidade era imediatamente sustido. Era até costume ouvir-se que "o chocolate não engorda, quem engorda é quem o come". Até que, há pouco, ouviu-se falar de um estudo desenvolvido em adultos por cientistas da Universidade da Califórnia que concluíra que uma maior frequência no consumo de chocolate também se associa com um menor índice de massa corporal. Mas era mais estudo feito pelos americanos e, muitos de nós continuámos com dúvidas sobre se, afinal, o chocolate engorda ou não.

Pois bem, um outro estudo agora apresentado mas, desta vez, levado a cabo por investigadores da Universidade de Granada demonstra cientificamente que um alto consumo de chocolate está associado a níveis mais baixos de gordura total e abdominal. Portanto, e agora de forma científica - até ver - o chocolate não engorda.

Para aqueles que não acreditam no que vem das Américas ou que repetem que "de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos", para os que, na verdade, são cépticos em relação a tudo, sugiro - nesta época propícia a alguns excessos alimentares - o consumo moderado de chocolate e, sobretudo, chocolate preto. Vão ver que tanto o vosso corpo como o vosso espírito vão-vos agradecer.


segunda-feira, dezembro 16, 2013

Multibanco: mais uma tentativa para taxar as operações ...



A questão já é velha e remonta ao início das ATM (a rede Multibanco) em Portugal. Lembro-me bem de quando apareceram as primeiras máquinas nas agências bancárias, nos primeiros anos da década de 80 do século passado. Embora Portugal fosse um dos últimos países da Europa ocidental a instalá-las, o equipamento era o que havia de mais avançado na época. Ainda assim, e por verem nos funcionários do seu Banco os amigos em quem podiam confiar, os clientes fugiam delas a sete pés. Foi necessário formar equipas de bancários que, devidamente preparados, foram "ajudá-los" a conhecer as máquinas, a fazer as transacções que pretendessem e a evitar as malfadadas filas que, nessa altura, eram imensas.

Foi o princípio. A clientela estranhou a inovação mas a verdade é que, rapidamente, aderiu de alma e coração. Foi então que para incentivar ainda mais a utilização das máquinas, as instituições bancárias lançaram uma taxa (alta) para cobrar a quem quisesse levantar dinheiro aos balcões em vez de ir às máquinas. Percebia-se bem o interesse dos Bancos: queriam fazer dos seus clientes empregados bancários não remunerados e, por já não serem necessários tantos, reduzir os seus funcionários de Balcão. Isto é, haveria uma significativa redução de custos.

E o facto é que o sucesso da utilização era tal (praticamente toda a gente já tinha aderido ao serviço Multibanco) que, anos passados, a Banca tentou cobrar uma taxa por cada operação realizada. Não resultou porque foi muita a indignação vinda de vários sectores. De tal jeito que até se legislou para impedir a cobrança dessa nova taxa.

Agora, volvidos mais alguns anos, a Banca está de novo ao ataque, a influenciar o poder (como sempre faz) para que a lei seja revogada e que, enfim, possam obrigar os clientes a pagar para poderem mexer no seu próprio dinheiro, efectuar pagamentos e consultar as suas contas. Uma verdadeira vergonha.

Ou seja, aliciaram-nos para utilizarmos as máquinas e depois de nos habituarmos já não podemos passar sem elas. Bem podemos dizer que "primeiro estranhámos e depois entranhou-se a necessidade". E agora querem obrigar-nos a pagar todas as transacções que efectuarmos. É imoral! Tanto mais que se sabe que o sector poupa 300 milhões por ano pelo facto dos clientes utilizarem a rede ATM.

Que iremos pagar parece não haver dúvidas. Resta saber é quando?


sexta-feira, dezembro 13, 2013

E agora quem é que nos reembolsa?




O Governo de Passos Coelho sempre fez ouvidos de mercador a quem se opôs às medidas drásticas impostas pela troika e, nomeadamente, à possibilidade de renegociar os prazos de pagamento da dívida. Vários entendidos na matéria, alguns deles da cor dos próprios partidos da coligação governamental, defenderam essa renegociação do programa, afirmando que austeridade em cima de austeridade só podia ter um resultado: a economia iria definhar e, consequentemente, o desemprego subiria e a falência das empresas e das famílias seria inevitável. Mas o Governo manteve-se firme e hirto, irredutível na submissão aos mercados e à Alemanha, sem querer perceber o rumo que o país seguia.

Ainda não há muito, o FMI já tinha admitido que, se calhar, tinha errado em tantas políticas de austeridade impostas aos países com programa. Até Olli Rehn, comissário europeu para os Assuntos Económicos afirmou que Portugal já empobreceu demasiado e que não vivemos acima das nossas possibilidades. Faltava a toda poderosa Directora-Geral do FMI, Christine Lagarde, fazer o "mea culpa". Reconheceu, enfim, que o "erro" em relação aos efeitos da austeridade obrigou Portugal e Grécia a aplicarem programas de ajustamento num espaço de tempo demasiado curto.

Levou tempo a estes "iluminados" reverterem a sua posição e considerarem que "é preciso dar tempo ao tempo". E de reconhecerem, também, os seus erros, nomeadamente que alguns temas não foram suficientemente abordados e explorados a fundo.

Mas o que fazer com tanto arrependimento? Sentimento que, ao que parece, não é assumido pelos técnicos da troika que estão no nosso país a efectuar mais uma avaliação. O que nós gostaríamos mesmo de saber é de que forma vamos ser ressarcidos dos efeitos provocados pelas medidas cegas que têm destruído o tecido económico e dado cabo - a todos os níveis - dos portugueses? Quem é que nos reembolsa?


quinta-feira, dezembro 12, 2013

Para além de um jogo de futebol ...



Na última terça-feira o meu filho convidou-me a ir à "Catedral" ver um jogo do meu Glorioso para a "Champions". Há muito que não assistia ao vivo a uma partida de futebol, logo eu que em miúdo tanto ia ao velho Estádio da Luz com o meu pai e com o meu avô. Claro que não estou a contar com o último jogo europeu na Luz (com os gregos do Olympiakos) porque, nessa noite, nem sequer fiquei para a segunda parte, tanta era a chuva.

Desta vez a noite estava boa e o Benfica até ganhou, embora isso não lhe tivesse servido de muito em termos de qualificação. Mas isso são outras contas.

O que achei extraordinário é que passado tantos anos, e tendo havido uma notável melhoria na educação e na formação das sucessivas gerações, tivesse ouvido imensos palavrões (dos fortes), frases inteiras em "português vernáculo" dirigidas aos árbitros (trajados de amarelo), aos jogadores, ao treinador e, admito eu sem ter certezas, a terceiros por serem culpados de irregularidades cometidas ou adivinhadas. Longe vão os tempos em que se atacavam apenas os árbitros (estes, então, vestidos de negro) e as suas mães ou que se dizia em tom de comentário coisas como "aquele jogador não estava a carbonizar bem" quando o que realmente pretendiam expressar é que o visado ainda não estava a carburar totalmente.

Agora, porém, os impropérios vinham de bocas aparentemente insuspeitas. Por exemplo, um rapaz com bom aspecto, duas filas à minha frente, ainda o jogo não tinha começado e já tinha despejado um rol de insultos dirigido ao árbitro assistente que estava mais perto de nós. Um amigo fez-lhe notar precisamente que o jogo ainda nem começara e a resposta veio de pronto: "pois é, mas é para ele se ir habituando, o cabr.....".

Na minha fila havia uma senhora (?) que, de quando em vez, lançava, furibunda, umas quantas injúrias que fariam corar de vergonha um guarda-republicano. Uma outra, com o filho pequeno sentado ao colo, gritava igualmente chorrilhos de insultos. Tenho a certeza que o filho nem precisará de muito esforço para aprender o vocabulário da sua mamã.

Melhor estavam duas jovens sentadas mesmo na minha frente a quem o Pai Natal já lhes tinha entregue a prendinha. Certamente tinham-se portado bem durante o ano e, logo no dia 10 de Dezembro, o "Papai Noel" tinha-lhes dado um "tablet" com que se entretiveram durante todo o jogo, de que viram praticamente nada. E vai aquela gente a um estádio. Não há pachorra.

Bem podem dizer que o futebol é um jogo de emoções. Será, se bem jogado. O que não tenho dúvidas é que, para além do jogo, há todo um conjunto de emoções, muitas delas "vestidas" de um vocabulário "rico" e ordinário, com ou sem novo acordo ortográfico.

terça-feira, dezembro 10, 2013

Ai, as dívidas!



Continuam as manifestações de alegria pelo (relativo) sucesso conseguido por Portugal na "ida aos mercados" na semana passada. É certo que não se tratou propriamente de uma ida aos mercados mas Maria Luís Albuquerque, tal como já o fizera Vítor Gaspar no ano passado, conseguiu convencer uns quantos investidores em dívida pública portuguesa a só receberem em 2017 e 2018 o que deveriam receber em 2014 e 2015. Tratou-se, pois, de uma renegociação da dívida, de um empurrar das nossas responsabilidades lá mais para a frente, para termos alguma folga durante algum tempo. Fez-se, portanto, e bem, aquilo que normalmente é conhecido por gestão da dívida.

Só que as mesmas coisas ditas ou feitas por pessoas diferentes têm, muitas vezes, interpretações diversas. Como aconteceu, e eu lembro-me bem, de quando, há cerca de um ano, José Sócrates disse numa conferência em Paris que "a dívida dos Estados não é para pagar, mas para ir pagando". Caíram-lhe logo em cima, o coitado. E ele só estava a falar na tal gestão da dívida, exactamente o que foi feito agora.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Porque continuamos a não consumir Cultura?



A pergunta é pertinente mas a resposta não é nada fácil. Porque continuamos a não consumir Cultura? É um facto que as verbas para a cultura são cada vez mais reduzidas e, por isso, quem cria tem cada vez menos possibilidades para fazer arte, mas também é verdade que os portugueses consomem muito pouca cultura. Vão pouco ao cinema e ao teatro, muito pouco aos museus e lêem quase nada. Porquê, é a grande questão. Por falta de educação ou por falta de dinheiro?

Costuma-se dizer que primeiro temos que pôr a comida na mesa e só depois se pode pensar em alimentar o espírito. Mas pode não ser bem assim. As duas "necessidades" são fundamentais para a vida e, às vezes, é uma questão de gestão dos orçamentos. Coisa que, para as famílias, vai sendo cada vez mais difícil.

Mas números são números e segundo o relatório do Eurobarómetro, os portugueses são dos cidadãos da União Europeia, ao lado de países como a Roménia ou a Bulgária, com menores taxas de participação em actividades culturais. Só 6% dos inquiridos, em Portugal, tem uma actividade cultural frequente enquanto que, por exemplo, na Suécia (43%), Dinamarca (36%) e Países Baixos (34%) os cidadãos são muito mais participativos. Mesmo os espanhóis têm uma taxa de 19%.

Mas, por outro lado, vemos e ouvimos muita televisão - é cómodo, entra pela casa adentro e podemos ver filmes e séries à-vontade. Temos muitos iPads, iPhones, Tablets e Facebook que já nos distraem bastante. Para quê gastar mais em cultura se temos tanto entretenimento à mão?

Portanto, a crise económica pode explicar grande parte dos números (embora haja uma muitos eventos culturais gratuitos, há sítios na internet que os anunciam) mas tenho a convicção que é também uma questão de educação. Desde há muito que nos habituaram ao que é mais imediato. Para quê esperar pelo final de um livro que leva tanto tempo a ler? O que nos leva à falta de estímulo no ensino cultural nas escolas. Coisa que a sociedade em geral não tem considerado um bem essencial mas que, na verdade, é um importante investimento.

E o desinvestimento na educação e na cultura verificado nestes três últimos anos estão a destruir o muito que foi feito em tempos não muito longínquos. É preocupante, é uma vergonha e vamos pagar caro por isso.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Invictus




"Invictus", o poema do britânico William Ernest Henley


que inspirou Nelson Mandela


 

Invictus


Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.


quinta-feira, dezembro 05, 2013

Se o Estado fosse mais solidário ...



Gostei de ouvir, como sempre gosto, Eugénio Fonseca, Presidente da Cáritas Portuguesa, na entrevista que concedeu à SIC Notícias. É um homem inteligente, sensato e conhecedor da realidade social no nosso país.

E gostei nomeadamente quando, referindo-se à campanha deste último fim-de-semana do Banco Alimentar Contra a Fome e à solidariedade dos portugueses que doaram 2 800 toneladas de produtos alimentares, afirmou que "o Estado arrecadou milhões com a campanha do Banco Alimentar". E acrescentou "o Estado também devia ser solidário, que é preciso não esquecer que destas ajudas, destas toneladas imensas, o Estado arrecada em IVA uma percentagem desta solidariedade. Interessante seria se o Estado fosse capaz de renunciar a este IVA e possibilitar que as pessoas ainda dessem mais”. Com essa atitude, sublinha, “acrescentávamos a estas toneladas mais 23%”.

Felizmente que Eugénio Fonseca tem um tempo de antena (que eu não disponho) que lhe permite "dar recados". Ando há anos a pregar esta "ideia absurda" que o IVA sobre os bens doados não deveriam constituir uma receita fiscal mas ser reinvestido em mais bens (alimentares ou outros) que seriam entregues às pessoas que mais necessitam. Afinal, uma tarefa que é da responsabilidade do Estado mas que ele não consegue cumprir e daí a necessidade de um trabalho imenso por parte das Instituições de Solidariedade Social.

Mas defendo igualmente que uma parte do lucro auferido pelas superfícies comerciais com as vendas neste tipo de campanhas também deveria ser entregue aos promotores dessas mesmas campanhas. Ao fim e ao cabo, nestes dias, as vendas sobem exponencialmente.

Se o problema é de ordem organizacional e, neste momento, não é possível saber-se qual a parte da factura que vai para a solidariedade ou a que se destina ao consumo próprio, então mudem-se as normas e ajustem-se as aplicações informáticas. Reorganizar é possível ... se houver vontade. E se assim fosse, poderiam, com toda a propriedade, dar sentido mais amplo à chamada "Responsabilidade Social" que tanto gostam de apregoar mas que nem sempre é tão eficaz como se pretende.

Utopia? Talvez ... mas bastava querer.

terça-feira, dezembro 03, 2013

A hipocrisia de Passos Coelho



Depois de, por duas ocasiões, membros do Governo incentivarem os portugueses a emigrar - a primeira, através do Secretário de Estado da Juventude, direccionada aos jovens em geral e, a segunda, por intermédio do próprio Primeiro-Ministro, dirigida aos professores - Passos Coelho considerou há dias que, afinal, "os jovens portugueses são uma grande esperança para a transformação da economia portuguesa e que a sua qualificação será crítica para o fim da actual crise e para evitar novas crises".

Porém, Passos não disse se incluía nestes jovens de que falava agora os professores a quem ele tinha indicado a porta de saída. Limitou-se, de forma hipócrita, a afirmar que deposita a maior esperança nesta geração tão qualificada.

Só há um pequeno problema. É que têm que dar a esta rapaziada a oportunidade de trabalharem, de produzirem, de se realizarem, de não se sentirem descartáveis e indesejados no seu próprio país. É, portanto, indispensável pôr a economia a funcionar. E, em Portugal, o desemprego jovem atingiu quase os 43%. Um número assustador. Uma tremenda tragédia.

Mensagens de esperança não bastam. É preciso mais.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

À procura de emprego ...




Em vez do envio de montanhas de currículos, um casal decidiu publicar um anúncio no Expresso a pedir emprego. Um texto bem escrito, elegante e com carradas de desespero irónico.

Rezava assim:



CASEIROS

EDUCADOS, CULTOS, POLIVALENTES


Portugueses, 50 anos, sem filhos. Pré-falidos (mas sem dívidas), elegantes e com muito boa presença. Procuramos trabalho com alojamento (não fumadores). Senhora com formação musical e desportiva (podendo ajudar com as crianças), carta de marinheiro (podendo cuidar de barco ou navegar), bons conhecimentos de cozinha. Ele atleta, ex-relações públicas e empresário. Ambos com formação pré-universitária e fluentes em inglês, francês, castelhano. Ambos carta de condução. Moramos (ainda) Cascais (Bicuda). Melhor nível Moral, com elevadíssima educação e "saber estar" inquestionável. Ambos com experiência de chefia. Aceitamos deslocar qualquer parte do país (ou mesmo estrangeiro).

Nota: Apesar de possuirmos a HUMILDADE suficiente para SERVIR, queremos informar que não possuímos mais-valias rurais ou similares.

Contactar: ...........

 
Fiquei curioso. Será que este casal educado, culto e polivalente vai arranjar emprego com facilidade?