segunda-feira, maio 05, 2014

Futebol ... mas não só ...



Já não posso ouvir a estafada lengalenga de que os povos do sul são mandriões e que lhes falta a disciplina, a organização e a vontade de trabalhar. Teoria, de resto, recorrentemente repetida pelos povos do centro e do norte da Europa. Mas, caramba, algumas coisas teremos de bom ...

E a prova disso é que nas duas principais competições europeias de futebol as duas finais vão ser disputadas por equipas que pertencem aos "calaceiros" países do sul. Na final da "Champions" estarão duas equipas de Espanha e na final da Liga Europa, uma espanhola e uma portuguesa. É certo que nem todos os jogadores daqueles clubes são naturais desses países (aqui o meu argumento escuda-se, naturalmente, na globalização) mas todas as quatro equipas são fruto da disciplina, da organização e do muito trabalho feitos nestes países. Às vezes até com integração de jogadores provenientes desses outros países (assim de repente, recordei-me de alguns que jogaram no Benfica: o alemão Robert Enke, o belga Michel Preud'homme, os suecos Schwarz e Mats Magnusson e o dinamarquês Manniche, p.e.) países, sociedades e pessoas muito certinhos e arrumadinhos que tanto desfazem em nós.

Mas só por má fé ou sectarismo primário é que podem apontar o dedo para dizer cobras e lagartos dos países do sul. No que nos diz respeito - Portugal - e para além do futebol (que não é coisa menor) e do sol, e das praias, e da gastronomia, e dos vinhos, e da hospitalidade das nossas gentes, e da monumentalidade e da História do nosso país, temos muitas áreas em que provámos exactamente o contrário de que nos acusam. A não ser assim porque carga de água é que grandes multinacionais (estou a lembrar-me da Siemens e da Auto-Europa, por exemplo) insistem em trabalhar em Portugal, com operários, técnicos e gestores portugueses?

E já nem quero puxar pelos galões, porque se assim fosse, teria que recordar que este pequeno país de malandros (e descansem que não vou até ao tempo dos descobrimentos), tem um Nobel da Medicina e um Nobel da Literatura, cientistas reconhecidos internacionalmente e campeões europeus, mundiais e olímpicos em várias modalidades desportivas. "Coisitas menores" que muitos dos grandes países não se podem orgulhar.



quarta-feira, abril 30, 2014

O problema de não haver estratégias para o país ...



Sou um dos que defende há muito que os principais partidos políticos se deveriam entender em matérias consideradas fundamentais para o país. Chamem-lhe consenso, como diz Cavaco Silva, chamem-lhe pacto de regime ou chamem-lhe simplesmente bom-senso, que é mais fácil. Esqueçam os resultados eleitorais, esqueçam o poder e os tachos e escolham meia dúzia de matérias estruturantes em que, independentemente de quem estiver no poder, as políticas a seguir sejam as que foram previamente acordadas. Já cansa a repetitiva lamúria do bota-a baixo em que os partidos que governam desdizem e maldizem tudo o que foi feito pelo Governo anterior.

Vejam o caso do "carro eléctrico" que o então Primeiro-Ministro José Sócrates apadrinhou e adquiriu 17 unidades para as deslocações citadinas dos seus Ministros e que, com a chegada do actual Governo ficaram parados nas garagens. Três anos depois, o actual Ministro do Ambiente e Energia, Jorge Moreira da Silva, reviu as prioridades, retomou o projecto da mobilidade eléctrica e garante que ele veio para ficar. Mais, Moreira da Silva quer mesmo que, para além dos governantes, a generalidade da Administração Pública passe a circular em veículos não poluentes.

Este é um episódio que retrata bem as fragilidades das políticas públicas nacionais. Não me interessa quem é que "descobriu" a ideia nem quem a pôs de lado, nem tão-pouco, saber por que motivos. O que acho é que foram três anos perdidos. E tudo porque não há uma ideia para o país, não há uma estratégia, um rumo que seja seguido independentemente de quem nos governe. E é assim nos transportes/mobilidade, na educação e por aí fora, e por aí fora ...

terça-feira, abril 29, 2014

Soneto do amor e da morte



De Vasco Graça Moura


"Soneto do amor e da morte"

 

 

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

segunda-feira, abril 28, 2014

Os kiwis e a Revolução de Abril de 1974



No twiter alguém afirmava "a SIC diz que antes de 74 não havia kiwis em Portugal. Obrigado Otelo!". Não sei se isso é verdade mas, de facto, não me recordo de, antes da Revolução, ter comido (ou sequer visto) kiwis. O que não quer dizer que passados 40 anos, a minha memória esteja completamente fragilizada. E a provar o que digo, posso afiançar-vos que me lembro (e bem), por exemplo, que antes do 25 de Abril vivíamos em ditadura e as nossas vidas eram constantemente sobressaltadas por uma polícia política que prendia e torturava só porque as pessoas tinham ideias políticas diferentes. Lembro-me (e bem) que travámos uma guerra sem sentido para onde eram arrastados milhares de jovens que não percebiam porque estavam ali, e que morriam e/ou ficavam estropiados física e mentalmente. Lembro-me (e bem) da censura que decidia o que poderia ser escrito e publicado nos jornais e na televisão e apresentado nos teatros e cinemas. Lembro-me (e bem) dos "bufos" que não conhecíamos e que nos cercavam, que poderiam estar tão perto que um simples espirro poderia ser denunciado como uma tremenda conspiração contra o regime. Lembro-me (e bem) que um encontro entre duas pessoas era considerada como uma manifestação conspirativa e, como tal, proibida. Lembro-me (e bem) como as mulheres eram menorizadas e como a mortalidade infantil era elevadíssima. Lembro-me (e bem) das muitas famílias que viviam em habitações sem luz, sem água e sem casa de banho, da alta taxa de analfabetos e da educação superior que só era acessível às classes mais favorecidas. Enfim, lembro-me (e bem) de um dia, há 40 anos. em que uns corajosos militares arriscaram as suas vidas e devolveram a Portugal a liberdade e a esperança tão ansiadas.

Mas se, de facto, para além de todas as outras coisas, a revolução também nos trouxe os kiwis, então, ainda estou muito mais agradecido a esses militares de Abril.

quinta-feira, abril 24, 2014

"25 de Abril"



De Sophia de Mello Breyner Andresen



"25 de Abril"

 

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


quarta-feira, abril 23, 2014

Vem aí mais uma taxa ... a pensar na nossa saúde!



Para mal dos nossos pecados já nos habituámos às trapalhadas dos membros do Governo. É um corrupio constante do "diz que disse" entre Secretários de Estado e Ministros que produzem as afirmações mais díspares ou juram a pés juntos que o que tinham anunciado, afinal, não era bem assim. Criou-se uma rotina de expectativas (adivinhar quem é que diz a verdade e quando) idêntica à dos furinhos das caixas de chocolates da Regina quanto à tablete que vai sair.

Desta vez esperamos com ansiedade a nova medida anunciada pela Ministra das Finanças (eu ouvi esse anúncio) sobre a criação de uma taxa adicional sobre produtos que tenham impacto nocivo na saúde, nomeadamente os que contêm altos teores de açúcar e de sal. E já se vai falando também no tabaco e no álcool.

Ao certo, ao certo, ainda não temos qualquer certeza que isso vá acontecer. Pires de Lima, o Ministro da Economia, já manifestou que não está de acordo (será mais um joguinho do Governo?), os produtores dos hipotéticos produtos constantes na lista também se mostraram preocupados com a quebra das vendas e com o consequente aumento do desemprego. O Presidente da Confederação Empresarial Portuguesa (CIP) - António Saraiva - criticou a medida, e pediu sensatez ao Governo.

Mas a grande incógnita está em saber-se quais os produtos que podem ser considerados nocivos para a saúde. Serão os alimentos que conhecemos como a “comida de plástico”, que podem provocar aumentos excessivos de peso? Serão também os doces de uma forma geral, chocolates, gelados, refrigerantes, aperitivos salgados, bebidas com álcool? É que, para mim, todos eles podem de facto fazer mal à saúde se ... ingeridos em excesso. Contudo, repugna-me a ideia de ser lançada a denominada "fat tax", movimento que tem ganho alguns seguidores por essa Europa, não tanto pela preocupação única de proteger a saúde dos cidadãos mas, fundamentalmente - sejamos sinceros - para conseguirem gerar mais receitas e, eventualmente, haver alguma poupança nos gastos com os cuidados médicos resultantes dos tais excessos a que me referi.

E é verdadeiramente controversa esta medida. Tanto mais que, sendo generalizada, pode tornar-se perigosa. Por exemplo, acham mesmo que quem beber um copo de vinho tinto a cada refeição corre algum risco de saúde? Ainda por cima sabendo-se que o vinho tinto - se bebido com moderação - faz bem ao coração, à libido, à dieta e ainda combate o envelhecimento precoce. Então por que carga de água é que o vinho poderá vir a ser penalizado com mais esta taxa?



terça-feira, abril 22, 2014

A relação desconfortável



Ainda não passaram três anos após a eleição de Assunção Esteves para a Presidência da Assembleia da República e o PSD, que a promoveu ao segundo lugar da hierarquia do Estado, já se mexe e remexe, desconfortável com as sucessivas gafes que a senhora vai coleccionando. Há quem diga que Assunção Esteves é "imprevisível" e que, provavelmente, não sabe gerir situações de tensão. Será, mas exige-se bastante mais de um Presidente da Assembleia da República. Não basta que seja imparcial, é necessário que tenha bom-senso, mostre equilíbrio e saiba dialogar em português que todos entendam, sem "inconseguimentos" e histerismos. E à senhora presidente não lhe chega ser diferente (pensar, falar e agir de maneira diferente) dos Presidentes que a antecederam, todos eles muito competentes e que dignificaram a sua função. Uma coisa é uma questão de estilo, outra é esta "irreverência saltitante" que não nos transmite grande segurança. E já figuras bem conhecidas dos portugueses criticam, em tom menos abonatório, a Presidente. Como o fez o empresário Henrique Neto na Revista do Expresso da passada sexta-feira ao afirmar "Assunção Esteves nunca foi tida como muito sã da cabeça ...".

Woody Allen disse: "Há casamentos que acabam bem, há outros que duram para sempre". Parece-me que no caso do "casamento" entre Assunção Esteves e o PSD ele está destinado a acabar bem e ... em breve.

segunda-feira, abril 21, 2014

Só boas notícias. Em 2015 não haverá aumento de impostos ...



Lembram-se do que disse o Governo na última terça-feira? "Para se conseguir cumprir a meta de 2,5% do PIB para o próximo ano, tomar-se-ão as medidas necessárias mas não haverá aumento de impostos para 2015, nem outras medidas que impliquem um adicional esforço sobre salários e pensões". Boa notícia esta! Os ministros decidiram, então, "cortar 1.400 milhões no próximo ano sem sacrifícios adicionais para contribuintes". Muito Boa Notícia"! Só não concretizaram como. Ou antes, sugeriram que poderiam poupar 730 milhões de euros com a redução de custos nos ministérios, 180 milhões com rescisões amigáveis e aposentações na função pública e, quantos aos restantes 490 milhões, aí é que se fecharam em copas. Não deixaram, no entanto, de sublinhar que "algumas medidas de carácter extraordinário vão ser mantidas". Mas não disseram quais ...

Claro que essas boas notícias só são possíveis porque vai haver eleições em breve. Depois, presumo eu, a más notícias aparecerão. De qualquer jeito o que já foi anunciado prende-se com a dita "reforma do Estado" (ou lá o que é ...), e incluem, sobretudo, cortes e reorganizações em ministérios e outros serviços do Estado, fusões, diminuição dos custos com o número de funcionários públicos (portanto, mais alguns vão ser mandados embora) e redução de custos com consultorias.
 
Mas, para além das sugestões sugeridas e da diminuição das despesas com a saúde (admitida pela Ministra das Finanças), o que eu acho preocupante, o que eu não consigo entender é a razão que levou o actual Executivo a demorar 3 anos para começar a reduzir naquilo que ele próprio considerava serem as "gorduras do Estado". Só agora, porquê? Certamente porque foi muito mais fácil começarem pelos cortes dos salários e pensões. É que, segundo dizem, "A corda rebenta sempre pela parte mais fraca".



terça-feira, abril 15, 2014

Quando se atiram foguetes antes da festa ...



Mostrar demasiado entusiasmo perante vitórias previamente anunciadas (no desporto como na política) pode ser muito perigoso. "Cantar de galo" antecipadamente não costuma dar muito bons resultados.

Vejam a recente euforia patenteada pelo Governo quando há poucas semanas erguia cartazes a dizer que "há sinais de recuperação que não podem ser ignorados e que nos indicam que estamos a ir pelo caminho certo. Até porque os mercados voltaram a confiar em nós. Os portugueses estão quase a senti-lo no seu próprio bolso".

Aconselharia o mais elementar bom-senso que os resultados obtidos com a subida das exportações, a redução das importações, as taxas de juro a cair e a descida do desemprego - embora todos esses indicadores sejam encorajadores - fossem geridos de forma cautelosa porque tamanha "festança" corre o risco de acabar de repente e deitar abaixo as expectativas entretanto geradas. Até por que os dados positivos anunciados, não se fazem sentir na vida concreta das pessoas. O empolamento da tal euforia pode, portanto, tornar-se perigoso.

E já esta semana se soube que houve um abrandamento do crescimento das exportações e uma aceleração das importações (portanto, um recuo na balança comercial que se quer equilibrar) e o desemprego que parece ter estabilizado, poderá crescer, segundo a previsão do FMI. Mas, mais importante que os resultados da recuperação (que sobem e descem), o que me parece fundamental é perceber-se que eles são fruto de circunstâncias (a que nós quase sempre somos alheios) e não de uma alteração estrutural, de uma modernização da nossa capacidade produtiva, a qual, efectivamente, não se verificou. Daí a continuação do nosso empobrecimento.

É o que dá atirar os foguetes antes da festa!

segunda-feira, abril 14, 2014

Afinal, o problema não é deles, é meu, é nosso, é do país ...



Assunção Esteves pertence a um certo grupo de pessoas que vai dizendo, aqui e ali, umas coisas que caem mal junto dos portugueses. E o pior é que não se trata de inabilidade política, ela diz (eles dizem) o que realmente sentem. E, no caso da Presidente da Assembleia da República, ela tem o hábito, naquele seu esquema de "toca e foge", de responder aos jornalistas sorrindo e a correr, deixando frases isoladas que, porém, querem dizer tudo.

A propósito da próxima comemoração dos 40 anos do 25 de Abril, Assunção Esteves confirmou que os militares da Associação 25 de Abril foram convidados para assistir à cerimónia mas que não poderiam fazer qualquer discurso. E se eles não aceitarem, perguntou um jornalista? Nesse caso, respondeu, "o problema é deles". Uma resposta do tipo "temos pena", digna de um adolescente mal-educado. E, como se não chegasse, a Presidente da Assembleia da República foi mais longe e classificou as reivindicações dos militares a usarem da palavra na cerimónia como algo "que não existe".
 
Só que - enorme equívoco - o problema não é "deles" (dos militares). O problema é da senhora Presidente da Assembleia da República que não quer ser incomodada com um discurso que, provavelmente, sairia do "alinhamento normal" do discurso parlamentar, nomeadamente os vindos das bancadas da maioria. Ainda por cima numa comemoração de uma data redonda, em que os "velhos" capitães de Abril poderiam ser incómodos ao lembrarem as ambições e o espírito de Abril que, à força, nos têm querido fazer esquecer. É, digo eu, a mania dos Capitães de Abril de quererem o protagonismo no 25 de Abril, só por que (coisa pouca) derrubaram uma ditadura de 48 anos.
 
Por isso digo, o problema não é da Presidente da Assembleia da República, o problema é meu, é do país que tem como segunda figura do Estado a Dra. Assunção Esteves que já demonstrou por várias vezes não ter um pingo de bom senso. E, seguramente, que essa teria que ser uma das qualidades exigidas para se ser a segunda figura do Estado português.



sexta-feira, abril 11, 2014

A verdadeira explicação sobre o novo acordo ortográfico



Há muito que se sabia que o “novo acordo ortográfico” iria trazer vantagens para alguém. E não era, certamente, a uniformização da escrita portuguesa que motivava os mentores de todo este processo. Ainda por cima para obrigar países que, embora tenham o português como língua oficial, são habitados por milhares de pessoas que não sabem escrever nem falar o português. Então quais os verdadeiros interesses? O conhecido escritor brasileiro Charles Kiefer avança com uma explicação:

"... No entanto, no campo estratégico, nos movimentos de longo prazo, o Brasil terá grandes vantagens, tanto que os outros países da CPLP resistiram por mais de uma década ao acordo. Mas quais são essas vantagens estratégicas? A primeira delas, e talvez a mais importante, é a possibilidade de o Brasil conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Em que sentido, indagarão os céticos? O que a unificação científica tem a ver com o CS? Ocorre que, com a unificação, os falantes de língua portuguesa serão aumentados bastante, já que se somarão os habitantes de todos os oitos países. Hoje, na hora de se produzirem documentos, há uma torre de babel entre os nossos países. São clássicas, e cómicas, as situações na ONU na hora das atas, dos documentos, das produções de acordos comerciais em que o funcionário do órgão pergunta: Escreveremos em português de Portugal ou do Brasil? Após o acordo, toda a documentação será exarada num mesmo sistema ortográfico. Isto, para efeitos práticos e legais, significará que o português unificado representará mais de 250 milhões. Como o Brasil é o país económica e populacionalmente mais poderoso do conjunto da CPLP, nossas chances de ingressar no CS aumentam exponencialmente. Se algum brasileiro supõe que ombrear com EUA, Rússia, França e Inglaterra não tem importância política, económica, social e histórica deveria fazer, urgentemente, um cursinho de Direito Internacional. Fazer parte do Conselho Permanente da ONU ajudará até ao vendedor de pipocas da esquina, ao plantador de laranjas, ao professor universitário, à empregada doméstica. Até os grevistas do Cpergs terão melhores argumentos ao defenderem melhorias salariais aos que professores que ensinam uma das mais importantes línguas do planeta. A segunda vantagem estratégica do Acordo Ortográfico é que ele torna o Brasil o maior fornecedor de bens e serviços ligados aos setores de comunicação, educação e informática dos oitos países. Dados preliminares anunciam algo em torno de 400 milhões de dólares por ano em ganhos diretos para o avançado parque editorial brasileiro, por exemplo. Dos oito países, o Brasil tem as editoras mais poderosas, as maiores e mais avançadas gráficas, o melhor e mais competente parque industrial na área dos produtos informatizados. Se eu fosse um escritor moçambicano ou português, faria passeata contra o acordo! Mas sou brasileiro e por isso não me filio ao partido dos descontentes, dos críticos e de todos que acreditam que língua e poder não são coisas que se conjugam".

Para quem ainda tinha dúvidas, acho que este texto é suficientemente esclarecedor.



quinta-feira, abril 10, 2014

O novo acordo ortográfico foi um passo em falso?



Ao contrário do que li em alguns artigos de opinião, acho perfeitamente legítimo que muitos se batam pela não aplicação do acordo ortográfico que alguns querem impor. Recentemente houve um debate parlamentar que, claro está, terminou sem conclusões. E isto reflecte bem a opinião de muitos portugueses que não vêem qualquer lógica na sua aplicação. Então, por que não aceitar que o Acordo Ortográfico foi um passo em falso em que não há vencedores nem vencidos?
 
A ortografia é a representação do idioma e, porque está em constante evolução, se diz dinâmica. Embora haja quem defenda que a forma como escrevemos não altera o modo como dizemos as palavras, tenho para mim, que falamos como escrevemos. Com as devidas excepções e tendo em conta - lá está - as introduções que vão sendo adaptáveis.

O que nunca aceitei foi a cedência pura e simples aos interesses do Brasil só por que tem muito mais gente e há interesses a respeitar. Brasil que, curiosamente, ainda não aprovou formalmente o acordo. E, sejamos realistas, o A.O. não aproximou Portugal e Brasil, como nos quiseram impingir, nem facilitou o intercâmbio cultural e o interesse literário. Nada!
 
Ainda que o acordo só mude 2% das palavras que, nós portugueses, normalmente usamos, há uma questão de princípio que eu continuo a defender.

Mas sobre os tais interesses a que eu me referia, amanhã cá estaremos para abordar o assunto.

quarta-feira, abril 09, 2014

De facto, as torneiras estavam lá ...





Conheci o Sr. Rocha por mero acaso. Tinha acabado de comprar torneiras para a casa-de-banho e cozinha e perguntei à senhora que me atendia se conhecia um canalizador que mas pudesse colocar. Quase ao mesmo tempo que recebi a resposta negativa da funcionária um senhor que estava atrás de mim disse:


"Boa tarde, sou o Rocha, se quiser posso fazer esse serviço".

Na ausência de outra alternativa mostrei-me interessado mas ainda questionei se ele daria conta do recado uma vez que o modelo daquelas torneiras era muito recente ...

"Não há problema, sou canalizador da Câmara e vai ver que vai ficar contente ..."

Acertámos a data e o preço (que foi extremamente alto mas, como referi, não conhecia mais especialistas) e fiquei à espera. Entretanto, e por causa das coisas, telefonei para os serviços da Câmara e indaguei se havia por lá um tal Rocha, canalizador. Havia, de facto, um Rocha que era canalizador, e mais, era fiscal de canalizadores. Fiquei mais descansado.
No dia aprazado, mas quase uma hora depois do combinado, o homem apareceu mas estranhei que não trouxesse qualquer material de trabalho. O meu olhar fê-lo responder:

"Hoje só venho ver o local da montagem das torneiras". Indiquei os locais e o Rocha saiu prometendo voltar dois dias depois.

Na nova data, voltou a chegar muito atrasado e, por indicação minha começou por colocar a torneira da cozinha. A operação foi rápida e passou de imediato à misturadora da banheira. Até aqui não houve problema e as duas foram postas "en su sítio" antes do meio-dia. Quando eu pensava que a manhã "ainda era uma criança", o bem-dito do Rocha disse-me que ia almoçar. E foi aí que começou o calvário. Tempo para um almoço de estadão, durante a tarde pausa para uma cervejola, pausa para um café e com tantas pausas o dia foi passando e o serviço não ficou concluído. Teria que voltar uns dias depois para a conclusão do trabalho.

Voltou, é certo (até porque ainda não tinha recebido o pagamento) e colocou as duas misturadoras que faltavam, a do lavatório e a do bidé. Só que - e isto é um pequeno pormenor - elas estavam de facto colocadas mas não deitavam água. Pior, a água saía por debaixo das loiças, sítios por onde, supostamente, ela não deveria sair.

E ali ficámos, eu a olhar (cada vez mais nervoso) e ele, o canalizador (o técnico), a olhar também como se um problema daqueles fosse impossível de resolver. Até que lhe perguntei "Então, Sr. Rocha, não consegue arranjar uma solução?" Ao que ele respondeu "As torneiras estão colocadas". "Sim", retorqui, "elas estão lá realmente mas a água não sai. E a casa de banho está inundada". Depois de um pequeno silêncio, ouvi de novo a frase "mas as torneiras estão colocadas". Foi então que me passei de vez. Tínhamos entrado num impasse. Cada vez mais nervoso, peguei-lhe num braço e disse para sair da minha casa. Ainda lhe dei umas notas (pela montagem das misturadoras da cozinha e da banheira, aquilo que eu achei justo), acompanhei-o à porta e disse para não voltar.

Só que fiquei com outro "pequeno problema" para resolver. Impedir que a água saísse por onde não devia e fazê-la correr pelo caminho certo, nas tais torneiras que o Sr. Rocha tinha realmente colocado. Comecei a fazer experiências, fui observando os resultados, e gastei um ror de tempo até chegar a bom termo. Afinal, mesmo sem ser especialista na matéria, tinha conseguido chegar lá.

Já passaram alguns anos mas ainda hoje me recordo bem quer da cara "do cara" dizendo num tom monocordicamente descontraído "mas as torneiras estão colocadas" quer da forma irritada como corri com ele. Ainda me lembro (depois de tudo estar a funcionar como devia e da calma ter voltado) como me ri por ter chegado à conclusão que o "faça você mesmo" às vezes até resulta ...





















segunda-feira, abril 07, 2014

Ah, as malditas generalizações ...



Tenho aqui escrito repetidamente que é perigoso fazerem-se generalizações. Perigoso e injusto em certos casos. Ainda há dias Paulo Portas, no Parlamento, afirmou que as pessoas que deixaram de ter direito a rendimento social de inserção (RSI), ficaram excluídas dessa prestação social porque tinham mais de 100 mil euros na conta bancária. Diga-se, a propósito, que com as alterações que se têm verificado na Lei nos últimos anos, 32 mil famílias perderam o direito ao RSI, qualquer coisa como mais de 100 mil pessoas.
Sem excluir a possibilidade de haver uns quantos "habilidosos" que, apesar de terem bastante dinheiro ainda sacam (de forma fraudulenta) mais algum ao Estado, custa-me a crer que com 88 euros por pessoa (em média) de RSI alguém possa ter contas bancárias chorudas. Aliás, julga-se que os "espertalhões" não chegarão à dezena. Por isso mesmo, gostaria que fossem divulgados esses números porque acho muito difícil que os sistemas de controlo que certamente foram implementados não tenham conseguido detectar contas bancárias confortáveis pertencentes a cidadãos que se candidataram ao RSI.
Em resumo, Paulo Portas, chamou, de forma demagógica e injusta, vigaristas a cento e tal mil pessoas, cuja esmagadora maioria vive com enormíssimas dificuldades e para as quais o dinheiro do RSI constitui uma preciosa ajuda. Quanto aos infractores, procedam à sua identificação, obriguem a devolver o dinheiro ao Estado e prendam, se for caso disso. Para já o que se ouviu foi um Paulo Portas que, demagogicamente repito, foi ao encontro daqueles que em conversa de café (sem conhecerem a realidade nem situações concretas) afirmam que todos os tipos que recebem o RSI são uns calões que não querem trabalhar. E, simultaneamente, ele conseguiu reduzir uns milhões na despesa, o que é capaz de dar um certo jeito ...


sexta-feira, abril 04, 2014

"Epitáfio"



De Pedro Malaquias


"Epitáfio"




eu não deixo nada feito
fica tudo por fazer
que eu passei parte da vida
a tentar sobreviver
a outra parte a dormir
e outra parte a comer
ou então a fazer coisas
que não vou aqui dizer
mas não deixo nada feito
fica tudo por fazer

eu não deixo nada escrito
fica tudo por escrever
que eu passei parte da vida
a aprender a saber ler
seria muita arrogância
eu pôr-me agora a escrever
e em verdade se diga
que tive mais que fazer
mas não deixo nada escrito
fica tudo por escrever


e até o que foi dito
do que se diz por dizer
às coisas mais delicadas
que põem um tipo a pensar
duvido que alguma coisa
fosse assim tão singular
ou que um dia ainda se diga
sim senhor gostei de ouvir
por isso, p'ra resumir
digo-te sem cortesias
aqui jaz o Malaquias

viesses mais cedo e ainda o vias


quinta-feira, abril 03, 2014

A "Ginjinha Sem Rival"



Lamentavelmente, a "Ginjinha Sem Rival" corre o risco de fechar portas. Trata-se de um estabelecimento que tem 120 anos e constitui um ex-libris da Baixa de Lisboa, “uma instituição e um emblema da cidade” visitada por muitos nacionais e estrangeiros.


E tudo por conta da nova lei do arrendamento urbano, aprovada em 2012, em que os senhorios podem despejar os inquilinos sem necessidade de grandes justificações. Para o conseguirem basta que a denúncia do contrato seja comunicada com seis meses de antecedência e tenha por fundamento a demolição ou realização de obra de remodelação ou restauro profundos que obriguem à desocupação do espaço arrendado. E, neste caso, os proprietários nem sequer pediram qualquer aumento de renda, uma vez que a ideia é construírem um hotel naquele local.


Embora, inicialmente, a aprovação do projecto previsse a manutenção de “ocupação e função” do pequeno espaço de 10 metros quadrados onde a "Ginjinha Sem Rival" está instalada, agora já ninguém acredita que a loja venha a resistir aos novos tempos da modernidade.


Mais do que uma tradição lisboeta, a "Ginjinha Sem Rival" é um património cultural da cidade que vai desaparecer. São comércios como este que fazem a diferença, que atraem os turistas e põem Lisboa nos roteiros internacionais.


Afinal, a "Ginjinha Sem Rival" encontrou um rival que a vai vencer. E sem dó nem piedade!



terça-feira, abril 01, 2014

Quando o telefone toca ...



O título da crónica de hoje poderá ter sugerido a muitos leitores a recordação de um conhecido programa radiofónico - "Quando o telefone toca" - muito popular durante décadas a partir do final dos anos 60 do século passado. Um programa que consistia basicamente em telefonar para uma estação de rádio, dizer-se uma frase publicitária previamente anunciada e, em troca, era passada a música pedida pelo ouvinte. Isto quando o ouvinte não dizia simplesmente que queria ouvir um determinado cantor numa música à escolha do radialista. E o modelo durou, durou, durou (como certas pilhas ...) sempre com grande agrado do público.

Porém, a tecnologia veio dar uma nova dimensão ao "Quando o telefone toca". Com o aparecimento dos telemóveis ficámos a estar permanentemente contactáveis, dia e noite. E já nem me refiro à "banalíssima" (e desagradável) situação do telefone que toca quando estamos a assistir a um espectáculo, a uma aula ou uma reunião. Nesses casos, digo eu, mandaria o bom-senso e a civilidade que desligássemos o aparelho ou, pelo menos, o puséssemos em modo de silêncio. Estava a pensar quando o telefone "se lembra" de tocar quando estamos a milhares de quilómetros dos nossos locais habituais de residência ou de trabalho. E os diálogos (inesperados) acabam por ter a sua piada.

A primeira vez que isso me aconteceu, lembro-me bem, estava em Cuba (a do Fidel Castro) e o telemóvel acordou-me ainda de madrugada. Devido à diferença de horas (era manhã em Lisboa), uma colega minha ligou-me para marcar uma reunião. "Isabel, eu estou em Cuba e só regresso daqui a uns dias", disse-lhe ensonado. Pouco tempo depois de ter ouvido as desculpas pelo incómodo, o aparelho tocou de novo e ouvi novamente a minha colega (com a voz mais fresca do mundo) dizer que, em princípio, a tal reunião realizar-se-ia em tal data. Como já estaria em Portugal no dia indicado, despachei-a rapidamente dizendo-lhe que estaria presente enquanto me amaldiçoava por não lhe ter explicado que a Cuba em que eu estava não era a do Alentejo.

Recentemente, preparava-me para assistir a um espectáculo em Istambul (bebia, então, mais um chá, um dos muitos que já tinha ingerido nesse dia) quando o telefone tocou e do outro lado ouvi a voz do meu amigo António Carlos que me atirou de rompante "Eh pá, ligue para a RTP2 que está a dar um programa que você vai gostar". Respondi-lhe que não podia, que estava na Turquia e que não tinha à mão a televisão portuguesa. Do outro lado o silêncio antecedeu a explosão "Está a gozar comigo? Você está mesmo em Istambul, de verdade? Eh pá, então e quem é que vai pagar esta chamada? Adeus, falamos depois".

A globalização tem destas coisas. Podemos estar longe (mesmo muito longe) mas, ao mesmo tempo, tão perto. À distância de um telemóvel.



segunda-feira, março 31, 2014

A água não se pode recusar a ninguém ...



Senti uma grande indignação quando soube que a EPAL cortou a água a quase 12 mil famílias em 2013 por falta de pagamento. Uma subida de 15,41% em relação ao ano anterior, precisamente quando a austeridade mais afectou os portugueses.


Eu sei que o assunto é polémico e que, logo no primeiro parágrafo deste texto, poderão ter pensado "então, se não pagam do que é que estão à espera?" ou, porventura, "então nós temos que pagar para ter água e há gente que quer a água de borla? Que raio de justiça é essa?". E não sabendo como responder a estas questões não posso, contudo, deixar de lembrar uma frase que ouvi tantas vezes à minha mãe: "Um copo de água não se recusa a ninguém", muito embora a quantidade de água que se cortou a tantas famílias não se resumisse apenas à que encheria um simples copo.


Só que a água é um bem essencial, muito mais do que a electricidade ou o gás, e que é absolutamente necessária para beber, cozinhar ou para a higiene.


Como referi, não sei como se resolve uma situação como esta. Mas sei que nunca responderia como os responsáveis da EPAL: "... ninguém morrerá de sede porque há por aí muitos chafarizes e fontes". Resposta completamente abstrusa que manifesta uma total falta de sensibilidade social e que me fez lembrar aquela outra da Imperatriz Maria Antonieta perante as dificuldades dos seus súbditos: "Se não têm pão comam brioches". A verdade é que a água não se pode (não se deveria poder) recusar a ninguém, ainda que as autarquias tenham que "inventar" as rubricas de onde tirar o dinheiro, provavelmente em detrimento de obras com menos interesse para as populações.

sexta-feira, março 21, 2014

As pequenas alegrias ...



Têm tentado tudo para nos fazer acreditar que o país está melhor. Porém, o que sentimos é que estamos a viver pior, com menos vencimentos e pensões e com enormes dificuldades em gerir os parcos orçamentos familiares.


Apesar de todas as medidas de austeridade que foram exigidas pela troika (e mais as outras que foram acrescentadas pelo Governo) que têm sido altamente penalizadoras para a generalidade da população - recordemos que 660 mil famílias deixaram de pagar os seus créditos à banca, há mais de 2,5 milhões de concidadãos que vivem no limiar da pobreza e mais de 700 mil pessoas não têm trabalho - ainda assim, para alguns, a crise foi-lhes favorável e conseguiram que a sua riqueza aumentasse.


De outra forma não se entenderia como é que a venda de automóveis de luxo em Portugal tem crescido significativamente. Com efeito, no ano passado houve 300 cidadãos que compraram carros de topo de gama (só para terem uma ideia, um conjunto de pneus novos para esses popós custa mais que o salário mínimo acumulado num ano): três Bentley, um Lamborghini, nove Ferraris, 14 Aston Martin e 273 Porsches. E, só nos dois primeiros meses do ano, a Porsche já vendeu 43 carros, mais 53,6% que no mesmo período do ano anterior.


Enfim, num país de gente triste, desiludida e preocupada com o futuro que se prevê incerto, alguns afortunados ainda vão podendo comprar as tais "bombas". Uma elite a quem, provavelmente, os sacrifícios não estão a ser totalmente exigidos.


E porque a maioria dos cidadãos vai tentando (lutando para) sobreviver e as políticas nacionais e europeias não auguram nada de bom, a nossa pequena alegria - leia-se esperança - acaba por se fixar no facto da Assembleia-Geral das Nações Unidas ter aprovado que o dia 20 de Março passa a ser o "Dia Internacional da Felicidade". Resolução que a ONU sublinhou como "a procura da felicidade é um dos objectivos fundamentais do ser humano".


Subscrevo o sublinhado mas, só isso (haver um dia da felicidade), é capaz de não chegar para dar a volta à situação. Precisamos mais.



quarta-feira, março 19, 2014

Hoje é o dia do PAI!



Diz-se que na origem do Dia do Pai terão estado dois factos. O primeiro remonta ao ano 2000 a.C., na Babilónia, quando um jovem de nome Elmesu escreveu numa placa de argila uma mensagem para o seu pai, desejando-lhe saúde, felicidade e muitos anos de vida. O segundo, já em 1909, nos Estados Unidos da América, quando Sonora Luise, filha de um militar, resolveu criar o Dia dos Pais devido à admiração que sentia pelo seu pai, William Jackson Smart. A festa foi ficando conhecida em todo o país e em 1972, o presidente americano Richard Nixon oficializou o Dia dos Pais.


Embora mais ou menos por todo o mundo - e já há muito - se celebre o dia do pai, a verdade é que no meu tempo de criança e de adolescente nem se falava disso. O dia da mãe, esse sim. Só bastante depois, e suspeito que por motivos meramente comerciais, um dia tão especial dedicado ao progenitor começou a ter o merecido destaque que hoje se verifica.


O Dia do Pai, em Portugal, é comemorado no dia 19 de Março, no dia de São José, Santo popular da Igreja Católica (marido de Maria, mãe de Jesus Cristo). Mas países como Espanha, Itália, Andorra, Bolívia, Honduras ou Liechstenstein, por exemplo, também comemoram o dia em 19 de Março. Noutros, porém, a comemoração é feita noutras datas. No terceiro domingo de Junho nos Estados Unidos, na África do Sul, Reino Unido ou Turquia, por exemplo, no Brasil no segundo domingo de Agosto ou na Austrália no primeiro domingo de Setembro. E a lista de países e as datas poderiam continuar ...

E por que se trata de uma justa homenagem, pensei nesta prenda lindíssima que eu dedico a todos os Pais:

"Senta-te aí", interpretado por Jorge Palma e João Gil




terça-feira, março 18, 2014

Quando pensar pode ser um perigo ...



Todos nós somos confrontados diariamente com informação oriunda de diversas fontes: das oficiais, da comunicação social ou proveniente dos inúmeros comentadores que existem por aí. Mas - e esse é que é o verdadeiro problema - o que se retira dessa informação (contraditória, tantas vezes) suscita montanhas de dúvidas ao pacato cidadão que continua a ter a mania de pensar.


Como aconteceu há pouco com o tão badalado manifesto dos 70, que afinal eram 74, de que fizeram parte (por cidadania ou num "assomo de liberdade" como declarou um deles) dois consultores do Presidente da República, documento esse que tanto irritou quer Passos Coelho quer Cavaco Silva. De tal forma, que os dois consultores (Vítor Martins e Sevinate Pinto) foram exonerados.


E a suspeição foi inevitável. De acordo com alguma imprensa, a exoneração verificou-se a pedido dos dois consultores, por não terem comunicado o facto ao PR. Porém, outras fontes, revelam que os dois foram, pura e simplesmente, afastados por deslealdade para com Cavaco. E, a acreditar nesta última hipótese (verosímil à luz das reacções - exageradas e a roçar a boçalidade - a que assistimos, sobretudo por parte do Primeiro-Ministro, nós (os tais cidadãos comuns que temos a mania de pensar) não podemos deixar de questionar se Mário Soares (ainda que por uma outra circunstância) não terá alguma razão quando afirmou há tempos que "Portugal está a caminho de uma nova ditadura". Afinal, como se dizia noutros tempos, "quem não está comigo está contra mim".



segunda-feira, março 17, 2014

Terminou o quê?



Quando, em Setembro de 2012, numa visita ao Estabelecimento Prisional de Caxias, a Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, afirmou - a propósito de um inquérito crime às PPP's - que "ninguém está acima da lei e que terminou o tempo de impunidade", muitos portugueses tiveram a esperança que isso se viesse a acontecer. Provavelmente não acreditaram mas, pelo menos, tiveram essa esperança.


Pois bem, menos de dois anos depois sobre a declaração da Ministra, eis como as esperanças dos cidadãos foram atiradas às ortigas. Soube-se a semana passada que o processo de contra-ordenação contra Jardim Gonçalves prescreveu e os outros administradores do BCP (Filipe Pinhal, Christopher de Beck, António Rodrigues e Castro Henriques) também beneficiaram de prescrição parcial e caminham a passos largos para uma prescrição generalizada. João Rendeiro, presidente-executivo do BPP prepara-se para beneficiar do mesmo tipo de prescrição. E, agora, até Oliveira e Costa, o fundador e presidente do BPN também quer tratamento semelhante. Onde é que vamos parar?


E, pasme-se, tanta prescrição está assegurada por uma lei que permite todos os expedientes "imaginados" por advogados habilidosos. Enquanto isso, a sociedade, incrédula, sente-se completamente desamparada, descrente na justiça que temos e nos órgãos que deviam supervisionar (e não o fazem) as entidades financeiras e estar atentas (e não estão) às manobras que elas inventam.


Como já vi escrito algures "até na pequenez somos incompetentes. Não condenamos nem absolvemos, Prescrevemos". Pelo que apetece perguntar: Impuni ...quê? Afinal, em que momento é que foi esquecida a intenção: "ninguém está acima da lei e terminou o tempo de impunidade"?



sexta-feira, março 14, 2014

"A Torpe Sociedade onde Nasci ! "



De António Aleixo

 


"A Torpe Sociedade onde Nasci ! "

Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

II

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

III

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
— De ser vítima humilde ou ser algoz...

IV

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom — como não é!

V

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...



quinta-feira, março 13, 2014

Renegociar a dívida? Nem pensar!



Ainda ontem eu mencionava aqui o chamado "Manifesto dos 70", subscrito por individualidades de várias tendências e hoje tenho que voltar ao tema para comentar a afirmação de Passos Coelho no discurso de abertura de uma conferência organizada pelo Jornal de Negócios e pela Rádio Renascença:


"Renegociar a dívida? Nem pensar! Isso está totalmente fora de questão".


Embora com outro estilo, percebi a mesma "segurança" e a mesma teimosia que já tinha ouvido a Sócrates e que Passos tanto criticou enquanto líder da oposição. E, confesso, tenho dificuldade em entender as pessoas que se julgam detentoras da verdade absoluta e não ouvem (não querem ouvir) os argumentos de quem não concorda com elas. Como ficou claro nesta conferência quando o Primeiro-Ministro manifestou espanto por personalidades tão bem informadas estarem a levantar a questão quando Portugal está regressar aos mercados e ao crescimento.


É que uma coisa é defender convicções, outra é o autismo que roça a arrogância e que subestima quem deles discorda.


Posso até questionar se este foi o momento próprio para a apresentação do documento. Não posso, porém, admitir que Portugal fique eternamente refém da vontade dos nossos credores e dos mercados. Temos feito um esforço enorme para cumprir mas, certamente, teremos que fazer mais e melhor. Mas temos necessidade de mais tempo. Não foi, afinal, o que aconteceu com a Alemanha após a II Grande Guerra? Convém lembrar que 50% da enorme dívida contraída pelos alemães foi perdoada e o restante valor foi reescalonado para ser pago em 30 anos e, mesmo para uma parte desse montante, o período foi ainda mais alongado. E convém recordar também que o acordo entre os credores dos alemães teve em consideração três princípios:


1. Perdão/redução substancial da dívida;


2. Reescalonamento para um prazo longo;


3. Prestações adequadas ao poder de pagamento do devedor.


Bem sei que outras foram as circunstâncias e outros os intervenientes. Contudo, seria bom que pelo menos os dois últimos requisitos fossem também assegurados aos países agora em dificuldades. Tanto mais que, no que nos diz respeito, o "Manifesto dos 70" é bastante claro ao afirmar que não se pretende redução da dívida. Queremos apenas honrar os nossos compromissos mas ... com um prazo mais razoável.


quarta-feira, março 12, 2014

Livres da troika? Se calhar não ...



Está para breve a saída da troika do nosso país. Paulo Portas no Congresso da Juventude Popular até inaugurou, com pompa e circunstância, um relógio que faz a contagem decrescente do tempo que falta para esse momento. Só que tanto alarido e tanto foguetório foram afinal em vão. A troika vai realmente sair mas continuaremos em observação até lá para 2037.


É que transmitiram-nos a ilusão de que a saída da troika seria assim uma espécie de um novo 1640, em que haveria uma outra restauração da independência de Portugal, e que, a partir daí, voltaríamos a ser donos do nosso destino e continuaríamos a pedir dinheiro emprestado mas ... livres. Mas - oh, destino ingrato - Portugal vai continuar a ser controlado, agora por Bruxelas, numa fiscalização que poderá ir até 2037 ou até que paguemos pelo menos 75% do montante recebido.


E, claro está, toda esta humilhação não cessará enquanto a nossa economia não crescer de forma sustentada. O que não parece que venha a acontecer tão cedo. Por isso, muitos afirmam que não temos condições de pagar o que devemos. Ontem soube-se de um manifesto subscrito por 70 economistas de vários quadrantes a favor da reestruturação da dívida que contemple, nomeadamente, juros mais baixos e mais tempo para pagar o remanescente da dívida acima do limiar de 60% do PIB.


A coisa está difícil. E nós a julgar que dentro de pouco tempo nos veríamos aliviados da canga que nos tem feito passar por tantos sacrifícios. Livres, enfim, da troika? Se calhar não ...



terça-feira, março 11, 2014

E Jardim Gonçalves passou pelos pingos da chuva ...



A Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, pode até estar satisfeita porque conseguiu - segundo parece - cumprir, na área que tutela, todas as condições impostas pela troika. Mas, certamente, sentirá algum incómodo com a prescrição do processo interposto pelo Banco de Portugal a Jardim Gonçalves, em que o banqueiro teria que pagar um milhão de euros em coimas e de ficar inibido durante nove anos de exercer actividade na banca.


Na verdade, nem a Ministra e, principalmente, nenhum dos portugueses entenderá a razão pela qual o juiz António da Hora decidiu declarar extintos todos os procedimentos contra-ordenacionais que visavam o fundador do BCP. Custa muito a aceitar que a decisão se baseie exactamente no facto de terem passado oito anos, prazo máximo de prescrição para contra-ordenações. DEIXARAM PASSAR OITO ANOS, aparentemente sem terem feito o que deviam, num processo em que o principal envolvido era uma das figuras mais importantes e ricas do país.


E, das duas, três. Ou houve incompetência do juiz, ou as leis estão mal feitas (e não adianta pensar em alterar dos oito anos para outro prazo qualquer por que o resultado iria ser o mesmo) ou as habilidades dos advogados de Jardim, pagos a peso de ouro, impediram, complicaram e baralharam todo o processo para que a decisão agora tomada - ainda por cima não passível de recurso - não pudesse ser outra.


Ficámos sem saber (embora desconfiemos) se Jardim Gonçalves é ou não culpado. Mas sabemos, isso sim, que a lei não actuou e não se fez justiça. E sentimos, uma vez mais, que existe uma justiça para os que mais podem e outra para ... os outros.



segunda-feira, março 10, 2014

A vida são dois dias e o Carnaval são três ...



O facto de ainda estarmos a viver em clima de Carnaval (realizou-se ontem em Vale de Cambra o desfile carnavalesco que substituiu o do passado domingo que não saiu à rua por causa do mau tempo) e, também, o de ter estado ausente uns dias, leva-me a escrever hoje sobre aquela inexplicável teimosia do Governo em não dar a tolerância de ponto aos funcionários públicos na terça-feira de Carnaval.

Nem sabem como "adoro" viver num país bem-disposto, com marionetas e fantoches, cabeçudos e gigantones que, numa época como o Carnaval, vêm mesmo a calhar. Um país bem organizado, que tem leis que supostamente regulam mas ... que não são para cumprir. Não passam de meras referências que "informam" os cidadãos que essas leis existem mas que, na prática não são para ser levadas a sério.

Pois em nome de uma alegada produtividade para convencer os nossos credores, os mercados ou lá quem quer que seja, o Governo não concedeu - pelo terceiro ano consecutivo - a tradicional tolerância de ponto carnavalesca aos funcionários públicos. Mas, como estamos neste arremedo de país, muitas das autarquias decidiram conceder aos seus funcionários (empregados da administração local, funcionários públicos, portanto) a tal tolerância.

E foi um prazer deambular por Lisboa na terça-feira gorda. A actividade privada esteve de portas fechadas, encerradas estavam as autarquias e as empresas municipais e os transportes (a Carris que é do Estado) a adoptarem um horário de fim-de-semana. Enfim, todos a gozar a tradição carnavalesca e os funcionários do Estado também a gozar com a decisão do executivo.

Eu sei que as autarquias têm poder de decisão autónomo nesta matéria e, em muitas delas, organizam-se há muitos anos desfiles que promovem as regiões e dinamizam a economia local. E nem que fosse só por causa disso, não seria a altura do Governo reconhecer que não faz sentido tamanha medida? Pelos vistos não.



quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Fernando Tordo, mais um emigrante



Só o tempo o dirá se Fernando Tordo, aos 65 anos, fez bem em emigrar. Disse o cantor e autor que já não tem condições para trabalhar no nosso país. Tal como muitas centenas de jovens e menos jovens que não veem outra solução do que se fazer à vida noutras paragens, Tordo partiu desiludido.


Sou grande admirador de Fernando Tordo enquanto artista e acho que ele é um homem inteligente. Mas, preocupado como estava, é capaz de se ter precipitado. Pelo menos é aquilo que eu deduzo quando nos últimos dias ouvi os nossos governantes regozijarem-se com a retoma da economia, com o "milagre económico" como lhe chamaram.


Alegria provavelmente sustentada pelo insuspeito Financial Times que apontou Portugal como o "herói-surpresa" da zona euro. O que deixou surpresos os portugueses que estavam a milhas de imaginar tamanhos sucessos. Suspeitávamos inclusive que os enormes esforços que temos vindo a fazer nos três últimos anos não tinham servido para nada. Até por que, apesar da anunciada recuperação da economia, da esperada saída da troika "à irlandesa", nós comuns cidadãos - quais profetas da desgraça - continuamos com os bolsos vazios e sem saber o que fazer à vida.


Talvez por isso Miguel Sousa Tavares na última 2ª feira no telejornal da SIC tenha sugerido que os jornalistas do Financial Times tenham escrito a matéria sem saírem do aeroporto. Não viram, não sentiram a realidade dos portugueses, o seu dia-a-dia. Se calhar nem se aperceberam, isto agora digo eu, a quantidade de portugueses, novos emigrantes, que estavam à espera de apanhar um avião apenas com um bilhete de ida.


Admiro a coragem de Fernando Tordo e desejo-lhe as maiores felicidades. Mas tenho a esperança de que no avião que o levou até ao Brasil tenha tido a oportunidade de ler o Financial Times a opinar como Portugal é o "herói-surpresa" da Europa. Pode ser que, assim, volte depressa para nós, com uma mala na mão e uma guitarra debaixo do braço. Tal como partiu.



segunda-feira, fevereiro 17, 2014

A Criatividade de Assunção Esteves




Recordo, amiúde, a frase de Eça de Queiroz "Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão". E lembro-me dela tantas vezes porque os políticos, de uma forma geral, dão bons motivos para isso.


Já aqui tenho demonstrado a minha perplexidade perante algumas intervenções de Assunção Esteves, Presidente da Assembleia da República e segunda figura do Estado. Dignas, a maior parte delas, de políticos menos capazes ou em início de carreira. Ainda não há muito, quando Eusébio faleceu, Assunção Esteves mostrou grande inabilidade nas palavras que proferiu. Agora foi a vez de manifestar a sua veia criativa, mas desadequada, ao sugerir não uma mas duas "ideias geniais" para a comemoração do 40º aniversário do 25 de Abril.


A primeira foi quando propôs que os custos com a dita comemoração fossem suportados por empresas, ao abrigo da lei do mecenato. Claro que a proposta criou mal-estar nas bancadas que rejeitaram a possibilidade de empresas privadas financiarem comemorações estatais.


A outra ideia brilhante foi a de ornamentar chaimites com cravos criados por Joana Vasconcelos. Obviamente que também não teve acolhimento por parte dos deputados, tanto mais que a despesa sairá do orçamento da Assembleia da República e cada cravo vermelho (em crochet) da artista custaria cinco mil euros.


Mais uma vez Assunção Esteves não foi feliz nas palavras e nas ideias. Mas, convenhamos, com ideias destas ...



sexta-feira, fevereiro 14, 2014

E os sacrifícios são suportados por quem?



Na sequência do texto que aqui publiquei ontem, recordo o recente relatório do Banco de Portugal que afirma, inequivocamente, que "no combate ao despesismo e ao excesso de dívida iniciado em 2010, apenas as famílias apertaram verdadeiramente o cinto".

Esta é a verdade nua e crua. Enquanto o Estado e as empresas aumentaram a dívida - a Administração Pública aumentou a dívida em 99,5 mil milhões de euros e as empresas em 7,4 mil milhões - os particulares cortaram 19,4 mil milhões de euros, dos quais 11,7 mil milhões em crédito ao consumo e outros fins que não habitação.

E é incrível como o tão falado "ajustamento" - certamente necessário num país onde (diziam) se vivia muito acima das possibilidades - se tenha feito por via do esforço das pessoas, das famílias e, também, de muitas empresas, enquanto que a contribuição do Estado foi nula, apesar do brutal aumento de impostos e das medidas altamente penalizadoras para os cidadãos, sobretudo com o corte de salários e pensões.

Todos sabemos isto mas não é demais lembrá-lo.



quinta-feira, fevereiro 13, 2014

O pessoal não chegava para tanta trabalheira ...



Nem queria acreditar quando li no jornal "i"a notícia: "Passos Coelho contratou uma empresa, em regime de outsourcing, para assegurar o atendimento telefónico na residência oficial do Primeiro-Ministro por 25,1 mil euros. Isto apesar de ter no seu gabinete dez secretárias pessoais, nove auxiliares, e 12 pessoas a prestar apoio técnico-administrativo em São Bento.


O contrato, assinado no dia 6 de Dezembro com a empresa We Promote - Outsourcing e Serviços, Lda. mas só publicado no dia 5 de Fevereiro no portal Base dos contratos públicos, inclui "designadamente as funções de atendimento telefónico, gestão, registo e encaminhamento de chamadas".

E este já é o terceiro contrato celebrado pelo gabinete do Primeiro-Ministro com a empresa. O primeiro foi assinado no dia 4 de Fevereiro de 2012 por 10,4 mil euros e o segundo foi celebrado a 15 de Janeiro de 2013 por 12,5 mil euros. A justificação para adjudicar directamente com esta empresa foi sempre a mesma: "ausência de recursos próprios".


Assim se percebe melhor como é árduo o trabalho do Primeiro-Ministro. Apesar das dez secretárias, dos nove auxiliares e dos 12 administrativos a trabalhar na residência oficial, ainda assim os telefones não param de tocar em São Bento. Só não sei - e aqui é minha costela maledicente a questionar - é se tanto tráfego é resultante do pedido de "jobs para os "boys"" ou se há para aí muita gente a não estar contente com as políticas aprovadas por este governo.


Mas, a confirmar-se que era absolutamente necessário arranjar mais gente para atender os telefones, gostava que me explicassem por que não aproveitaram os funcionários "colocados" (e desaproveitados) no grupo da mobilidade especial e tiveram que recorrer a uma empresa externa.

Enfim, lá teremos que pagar mais 25 mil euros. É a vida! 



quarta-feira, fevereiro 12, 2014

"Espatifam-se" mas não aprendem ...



Fico com uma urticária dos diabos quando vejo que certos erros que se cometem no passado se repetem mais tarde sem que deles se tenham tirado as devidas ilações. Costuma dizer-se, sobretudo em relação aos mais jovens, que é preciso baterem com a cabeça na parede para aprenderem. Se calhar não! Também é comum apregoar-se que o tempo dá a experiência e, esta, o ensinamento. Se calhar também não!


E a provar que não, vejam os esquemas que prometem às pessoas ganhos enormes de dinheiro sem que, para isso, elas tenham que fazer grande esforço. Como acontece, por exemplo, nos golpes de "pirâmide" que têm aparecido muito nos últimos anos, todos eles a seduzir milhares de pessoas que se propõem ganhar dinheiro fácil. Basta recordar o caso da "D. Branca". O que é que aconteceu? Os primeiros a entrarem claro que se safaram, recuperaram o que investiram e ainda ganharam muito mais mas, para os que só apanharam o comboio em andamento, esses perderam o dinheiro que lá puseram. E aprenderam a lição? Acho que não, pois na "pirâmide" seguinte eles lá estavam de novo.


Agora o que está a dar é o TelexFree. Na Madeira, por onde a marosca entrou cá em Portugal, há já milhares de pessoas convertidas ao negócio, incluindo funcionários públicos, professores, políticos, advogados, militares e polícias. Na ânsia de ganhar no mínimo de 20 a 100 dólares por semana, a rapaziada atirou-se de cabeça - alguns a tempo inteiro e a ganhar milhares de euros por mês - e sonham com um futuro promissor que não acabará nunca.


A Deco e Polícia Judiciária aconselham prudência. Em países da América do Sul já há investigações judiciais. Eu limito-me a recordar o que disse um "insuspeito banqueiro", ex-Presidente do BPP, João Rendeiro - um fulano que foi acusado de burla qualificada, sobre os seus clientes de um esquema que montou - "os lesados sabiam do risco que corriam e são o exemplo acabado da cupidez". Para bom entendedor ...



segunda-feira, fevereiro 10, 2014

A "Factura da Sorte" ou a suprema ironia



Esta última semana não se ouviu falar de outra coisa que não fosse o mau tempo que tem assolado o país. Do que tem estado e do que nos vai afectar nos próximos dias. Também se falou, e muito, das praxes universitárias e dos quadros do Miró que o Governo teima em vender e que a oposição insiste em que fiquem por cá. Quanto a este último tema, que ainda vai fazer correr muita tinta, fiquei com a ideia de que, afinal, quem vivia acima das possibilidades eram o Oliveira e Costa e o BPN que compraram aquela colecção do pintor. Mas isso são contas de outro rosário ...


Também se falou muito nesta última semana, e com grande excitação, no sorteio que dá pelo nome de "Factura da Sorte". Sobretudo por parte do Governo que julga ter encontrado a forma de acabar com a fuga aos impostos. Já aqui manifestei a minha opinião sobre essa esperteza saloia de pôr os contribuintes a fazer conta que são fiscais do Fisco. É a maneira mais fácil, eu sei, mas não concordo com isso e acho mesmo que o Estado fica mal na fotografia.


Mas o que hoje quero salientar nesta medida do Governo que alicia os cidadãos a pedir facturas, nem que seja de 1 cêntimo, é que o prémio é um valente automóvel de gama média/alta. E aqui o meu desacordo não podia ser maior. Se querem mesmo "dar" uns popós (porque deve haver outras razões para além da caça à economia paralela) então, em vez de um carrão, por que não sorteiam dois ou três carros mais baratos? Por um lado, mais contribuintes seriam premiados e, por outro, a manter-se o esquema previsto, estou a imaginar que o sortudo que vai receber um BMW ou outro do género, vai arranhar-se todo a pensar como vai pagar seguros, selo do carro e revisões que são, obviamente, muito mais caros.


Porém, só a ideia do Estado promover tais sorteios já me deixa arrepiado. É como que uma versão moderna do Major Valentim Loureiro a dar electrodomésticos para as pessoas votarem nele. Se pretendem mesmo que os contribuintes peçam facturas para que a receita fiscal cresça, não seria mais avisado que o valor do IVA das facturas fosse dedutível no IRS?


E depois, não acredito que, passada a euforia dos concursos fiscais, os portugueses continuem a pedir facturazinhas por dá cá aquela palha.


Mas quanto ao anunciado concurso, acho muito curioso que o mesmo Governo que condenou o povo por excesso de consumo - de viver acima das suas possibilidades, lembram-se? - venha agora sortear carros de luxo. É a suprema ironia, não acham?



sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Autodefinição de Óscar Niemeyer



Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho (1907 - 2012) foi um arquitecto brasileiro, uma das principais figuras da arquitectura moderna e um dos maiores da sua geração.

Niemeyer destacou-se pelo uso das formas abstractas e pelas curvas que caracterizam a maioria das suas obras. Daí ter escrito nas suas memórias:

"Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.

Mas, para além de génio da arquitectura, Oscar Niemeyer era também um poeta.



de Óscar Niemeyer


Autodefinição




Na folha branca de papel faço o meu risco.

Rectas e curvas entrelaçadas.

E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.

São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.

Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,

os encantos da mulher.

Deixo de lado o sonho que sonhava.

A miséria do mundo me revolta.

Quero pouco, muito pouco, quase nada.

A arquitectura que faço não importa.

O que eu quero é a pobreza superada,

a vida mais feliz, a pátria mais amada.





quinta-feira, fevereiro 06, 2014

“Não consigo criticar nada em Portugal" ... disse a jornalista



É bom ouvir alguém contrariar as más notícias com que os telejornais nos invadem as casas durante o tempo todo. Reconforta a alma ouvir dizer que "Portugal é o maior e que não encontra uma coisinha sequer que seja passível de crítica". Pelo menos é isso que pensa Fiona Dunlop, jornalista da CNN, muito embora ela só estivesse em Lisboa e falasse sobre Portugal. Um deslize que não ensombra a mensagem ...


Eu sei que Lisboa está na moda, foi até eleita recentemente como uma das cidades mais “cool” da Europa, a melhor para se passar umas mini-férias. Mas destacar só as vistas fantásticas da capital, o rio Tejo, a arquitectura, o magnífico peixe que por cá comeu e um treinador (Mourinho) que é muito famoso, parece uma análise um pouco redutora para uma jornalista que devia ter dado igualmente atenção a outros factores. Mas Fiona realçou também o optimismo dos portugueses que, face às dificuldades por que têm passado, esperava ver deprimidos o que, afinal, não aconteceu. Na entrevista à Renascença, a jornalista concluiu: "não consigo criticar nada em Portugal”. Ainda bem. É uma querida.


Porém, falou sobre o Mourinho mas esqueceu-se do Ronaldo e não se referiu à espantosa luminosidade alfacinha nem - e isso é crime de lesa-majestade - aos pastéis de Belém ou ao Benfica. Para uma jornalista é imperdoável ter esquecido estes "detalhes".


Mas Fiona também não viu os muitos buracos "plantados" nas ruas da cidade. Ruas em linha recta que se percorrem em ziguezagues para os carros não caírem neles. Também não deu pelos jardins públicos mal frequentados ou pelos passeios cheios de cocós de cães que os donos se esqueceram de apanhar. Não reparou nas casas fechadas, inabitadas e a cair e nas lojas que estão encerradas, umas a seguir às outras, num cenário desolador. Não ligou igualmente aos muitos carros estacionados em cima dos passeios que impedem os cidadãos de circular livremente. E, inexplicavelmente, não falou nos inúmeros grafites que sujam tudo o que é parede ou paragem de transporte público (há, felizmente, muitas excepções), rabiscos sem qualquer cariz artístico, que são apenas meros actos de vandalismo público. E ela também não se apercebeu dos sem-abrigo que vagueiam pela cidade e que, à noite, se estendem por onde podem.


Não acredito que a jornalista não se tenha apercebido desses pormenores, acho é que ela quis ser gentil connosco. Contudo, numa coisa Fiona Dunlop esteve certíssima: Lisboa é mesmo linda!



terça-feira, fevereiro 04, 2014

A colecção de Miró "herdada" do BPN



Já foi há uns anos. Lembro-me que parámos um pouco junto à Catedral de Barcelona e, ao olhar para uma banca de venda de serigrafias de artistas conhecidos, centrámos a nossa atenção sobre um quadro de Miró. A minha filha, então adolescente mas desde sempre virada para as artes, falava entusiasmada da obra do artista perante a minha manifesta insensibilidade que apenas conseguia visualizar nos quadros do pintor surrealista catalão riscos que poderiam ter sido feitos por crianças de uma pré-primária.


A "discussão" arrastou-se pelo dia inteiro e, apesar da argumentação da filha, não me deixei seduzir pelo traço de um pintor e escultor que foi mundialmente famoso.


Porém, de repente, Joan Miró fez-me despertar. Não que eu tivesse começado a apreciar o seu traço, mas por que, como cidadão, acho questionável a venda das 85 obras do artista, uma das coisas que nos ficaram daquele elefante branco chamado BPN. Venda que, em princípio, vai acontecer hoje e amanhã num leilão promovido pela Christie's, em Londres.


Eu sei que a arte não é um mero activo financeiro mas sei também que o Estado precisa de dinheiro como de pão para a boca e, como habitualmente, dispara em qualquer direcção para sacá-lo. E como viu uma boa oportunidade de vender umas pinturas, desenhos, colagens e guaches de um artista que não sendo de topo é, em todo o caso, reconhecido internacionalmente, vá de pô-los a jeito dos coleccionadores mais endinheirados. Na perspectiva, claro está, de vir a embolsar entre 35,9 e 80 milhões de euros.


Ao que parece esta manobra "atropela" a Lei de Bases do Património Cultural mas, para além disso, a colecção tem, efectivamente, um valor apreciável do ponto de vista artístico e cultural. E é aqui que está o busílis. Será aceitável esta venda para recuperar algum dinheiro do muito que, nós contribuintes, enterrámos na nacionalização (e, depois, na privatização) do BPN? Ou, será mais ajuizado mantermos a colecção de Miró em Portugal como uma mais-valia para a nossa cultura e como pólo de atracção turística, muito embora a indemnização que teríamos que pagar à Christie's (por transportes e seguros) ainda fosse de alguns milhões de euros? Terrível dúvida esta.


Que saudades daquele dia longínquo em que, junto à Catedral de Barcelona, eu e a minha filha discutíamos a arte de Joan Miró.


segunda-feira, fevereiro 03, 2014

"E o burro sou eu?" - onde se divaga sobre o perdão fiscal do Governo




Confesso publicamente que, de há muito, não me tenho em grande conta. E a "culpa", provavelmente, devo-a aos meus pais que me transmitiram valores como a honradez que diziam ser fundamentais numa pessoa de bem. Talvez por isso insisto em pagar a tempo e horas as contas da luz, da água, do gás, dos seguros, do condomínio, do IMI e de tudo o resto que um qualquer cidadão tem a obrigação de pagar. Assim como deve ter sido por causa desses valores que sempre cumpri todas as minhas responsabilidades fiscais mesmo antes do fim dos prazos. Enfim, de uma forma estranhamente parva, nunca fiquei a dever a quem quer fosse. Podia refilar, insurgir-me, dizer mal da vida mas pagava.


Por isso, quando soube que o nosso querido Governo decidiu fazer uma coisa a que chamou "perdão fiscal", senti-me completamente abazurdido. Por outras palavras, achei-me uma completa besta quadrada.


E senti-me dessa forma por ter dificuldade em perceber que àqueles que não pagaram os seus impostos nas datas indicadas, tão-pouco os juros de mora pela falta de pagamento, o Estado os tenha ajudado, arranjando-lhes um modo suave de pagamento (prestações baixinhas, com juros simbólicos e em muitos anos) ou, simplesmente, os tenha incluído no lote dos que beneficiaram do tal perdão fiscal. Então e eu? Então e nós que temos a mania de que as responsabilidades são para serem levadas a sério, o que é ganhámos com isso? Onde ficou a igualdade de tratamento entre cidadãos? É que não ouvi ninguém reclamar contra isso, nem sequer ouvi uma palavra do Tribunal Constitucional.


Claro que os devedores - perdão, os espertos - ganharam com isto. Mas, ao que parece, o Estado também encaixou 1,3 mil milhões de euros. Afinal, antes receber esse dinheiro do que correr o risco de não receber nenhum. Mas, ainda assim, gostaria de saber, tal como o líder do maior partido da oposição, quanto dinheiro foi perdoado aos contribuintes no processo de regularização de dívidas ao fisco. Quanta massa é que, se tivéssemos num país a sério, o Estado teria ido buscar se obrigasse os cidadãos a pagar a que realmente deviam? Como sublinhou António José Seguro "o perdão aplicou-se não apenas aos contribuintes com dívida, mas também aos que, tendo já pago a dívida, tinham ainda em falta apenas os juros. "Há um perdão de juros para quem pagou mas também houve um perdão de 100% para quem só tinha como dívida juros de dívidas anteriores" .


Perante tudo isto, não pude deixar de pensar que se tivesse que responder à célebre pergunta de Scolari "E o burro sou eu?" diria: sim, eu sou o burro. Confesso!