sexta-feira, junho 20, 2014

"No meu tempo ..."




"Ah, no meu tempo é que ...". É uma expressão que não gosto de utilizar, tão-pouco de a ouvir. "Velhos saudosistas" têm tendência a usá-la para realçar as coisas boas que aconteciam quando eram crianças ou jovens, como que a querer dizer que aquelas é que eram realmente boas enquanto que as de agora não prestam.

É verdade que noutros tempos havia coisas de que hoje temos saudades. O respeito, por exemplo. Seguíamos um cardápio tradicional baseado na cozinha mediterrânea em que os produtos não tinham tantos pesticidas nem eram geneticamente modificados, por exemplo (embora nesta matéria possam ser aduzidos montes de argumentos contra). Havia mais tempo (e vontade) de nos darmos com a família e os amigos, por exemplo. A composição tradicional das famílias (muitas das actuais ainda nos fazem confusão, mas há todo um esforço de as compreender e aceitar), por exemplo. Mas também havia muitas coisas de que não gostávamos ou, simplesmente, não existiam.

Nas últimas décadas foram postas à nossa disposição (foram inventadas, foram criadas) tantas coisas tão boas e que nos dão tanto jeito. Os computadores e a internet, a televisão, os telemóveis (tirando a parte menos boa da questão), as diversas máquinas (frigorífico, de lavar roupa, café e tantas outras) de que já não conseguimos prescindir.

Daí que ache mais sensato não ter demasiadas saudade do "meu tempo" por que o "meu tempo" é também hoje, é agora. Tal como dizia Vinicius de Moraes:

"... Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
Meu tempo é quando ..."


quinta-feira, junho 19, 2014

Quando "dignidade" soa a uma palavra menor ...



Há dias falei ao telefone com um grande Amigo (que foi meu chefe e com quem aprendi muito) que se mostrava desolado com o facto de auferir uma parca pensão de mil e poucos euros, depois de ter oferecido à empresa onde trabalhou 40 anos, com total dedicação e disponibilidade (reconhecidas aliás na época) e que o guindaram a alto quadro da organização. Ele foi, de facto, um profissional competente e totalmente dedicado.

O desabafo que ouvi da sua boca deixou-me a pensar como é injusto que depois de tanto esforço e durante tanto tempo, a empresa não lhe tenha atribuído, como reconhecimento devido, uma pensão mais digna. Estou a falar-vos deste meu Amigo mas esta posição contempla, naturalmente, todos aqueles que se encontram na mesma situação. E serão muitos.

Por outro lado, soube-se a semana passada que o ex-Ministro da Economia de José Sócrates, Manuel Pinho, de 60 anos, está a negociar com Ricardo Salgado a sua reforma antecipada, vinte anos depois de ter entrado no grupo BES. Uma negociação que passa por reclamar mais de 3,5 milhões de euros de compensação até à idade da reforma (65 anos). Fonte do Grupo Espírito Santo afirmou que Pinho tem direito a uma reforma desde os 55 anos, não como administrador do BES África (onde aufere cerca de 50 mil euros mensais), mas como administrador executivo que foi, durante cerca de 10 anos, no BES.

Não disse, mas decerto entenderam, que o meu Amigo também trabalhou no BES. Mas, como em tantas outras coisas, também aqui se verificam tratamentos diferenciados. Não pretendendo questionar sequer quem "deu" mais à Instituição. O que sublinho é que um - quadro superior do Banco - esteve lá mais de 40 anos e tem mil e poucos euros de pensão, enquanto que o outro - Director e mais tarde Administrador - esteve metade desse tempo e, sabendo como o BES teve durante ano a fio, uma política generosa de remuneração dos seus quadros de gestão, está a negociar mais de três milhões e meio de euros, o que dará uma reforma substancialmente maior.


A vida é injusta, já dizia o Calimero. Mas podia ser um bocado menos quando o que está em causa é a dignidade das pessoas.

segunda-feira, junho 16, 2014

Ainda sobre o Tribunal Constitucional ...



A última crónica que aqui publiquei suscitou viva discussão com vários Amigos sobre as funções do Tribunal Constitucional. Alguns deles questionavam mesmo se os juízes não estariam a ultrapassar as suas competências e, pura e simplesmente, não estariam a fazer política. E essa é exactamente a questão. Quanto a mim, a função de um Tribunal Constitucional é interpretar e defender a Constituição e isso faz-se através do julgamento político das leis que lhes são propostas. Ou seja, os juízes devem interpretar essas leis no sentido que as mesmas não firam os princípios constitucionais.

Mas há quem defenda também - Fernando Ulrich, por exemplo - que para além dos juízes (os tais que analisam politicamente as leis) os economistas também deveriam ter assento no TC. Como se a confiança que possamos ter nos juízes fosse menor do que nos economistas.

Durante a tarde também discutimos isso e, claro está, não deixámos de falar nos efeitos dos chumbos do TC que se estimam na casa dos 600 milhões de euros. O que não chegámos a comentar - porque só se soube à noite - é que, de mansinho, Alberto João Jardim veio a Lisboa pedir mais 950 milhões e que o Governo se prepara para injectar nas empresas públicas de transportes mais uns parcos 1 300 milhões de euros.

O que vale é que, nós contribuintes, cá estaremos firmes e hirtos preparados para mais uns sacrifícios que entendam aplicar-nos. Chamem-lhes impostos ou outra coisa qualquer ...

quinta-feira, junho 12, 2014

O que os juízes do Tribunal Constitucional não devem ou não podem mesmo fazer ...



Fiquei completamente "abazurdido" quando li no jornal "Público", a entrevista onde a Vice do PSD, Teresa Leal Coelho, defende limites à acção dos juízes do Tribunal Constitucional quando "extravasem" as suas competências. Dito de outra maneira, o TC deve ser alvo de "sanções jurídicas" por parte dos tribunais europeus, caso os poderes que lhe são atribuídos sejam "extravasados". Ou, ainda, dito de uma outra maneira, o TC "não pode ter um poder absoluto" e os juízes devem estar sujeitos à "legalidade da União Europeia".

Eu até percebo que aos partidos que estão no Governo lhes custe muito ver as medidas que "tão arduamente elaboram" serem vetadas, umas atrás das outras, pelos juízes do Tribunal Constitucional. Porém, pretender que as leis portuguesas tenham menos força do que as leis comunitárias ou que o Tratado Orçamental se sobreponha a qualquer norma da nossa Constituição, já me parece demasiado. Pelo menos até ver ...

Há aqui uma clara questão de incompatibilidade. Parece que a denominada "legalidade europeia" não é compatível com a nossa norma fundamental - a Constituição. E é exactamente por isso que a deputada insiste "se os tribunais tomarem decisões incompatíveis com a legalidade da União Europeia, o Tribunal de Justiça da UE tem competência para condenar o Estado" português por "incumprimento". Só que, como recordou o constitucionalista Vital Moreira, "quando um país não pode cumprir uma obrigação perante a União por causa de uma decisão do TC, os responsáveis pela eventual sanção pecuniária aplicada pela União não são os juízes do Constitucional mas sim o país". Isto é, a factura recairia fatalmente sobre os contribuintes. Se é isto que a maioria quer ...

Recordo as linhas finais de um artigo de Nicolau Santos no Expresso do último sábado: "... preferem um país sem uma Constituição? Ou uma Constituição sem um Tribunal Constitucional que a faça respeitar? E como se chama a um regime político assim?


quarta-feira, junho 11, 2014

A indisposição do Presidente



A indisposição do Presidente da República quando discursava ontem na Guarda nas cerimónias do Dia de Portugal não mereceriam um comentário, ainda que breve, não fossem certas circunstâncias. Cavaco Silva teve um desfalecimento, coisa que acontece a qualquer ser humano mas, logo que recuperado, o PR recuperou também o discurso no justo momento em que o tinha interrompido. Nada de anormal, portanto.

O que me pareceu mais esquisito - as tais "certas circunstâncias" a que me referi - foi, por um lado, alguns jornalistas terem atribuído o mal estar do Presidente ao coro de protestos que vinha de um local onde se aglomeravam alguns manifestantes - um puro disparate, na minha opinião - e, por outro lado, à investida da segurança do PR a mandar (ou a tentar mandar) os fotógrafos apagarem as imagens que tinham feito do desfalecimento de Cavaco. Este último facto, um acto politicamente grave e democraticamente reprovável.

sexta-feira, junho 06, 2014

Charadas ...



Gosto de charadas, de enigmas, de problemas mais ou menos difíceis de resolver. De algumas charadas, diga-se. Contudo, nas que à política dizem respeito, as charadas soam-me a mentiras, a esquemas para baralhar a rapaziada. E as coisas obscuras difíceis de compreender passam a manobras dilatórias (palavra muito ouvida ultimamente) e mentirosas que só confundem e provocam as mentes medianamente inteligentes.

Vem isto a propósito do chumbo do Tribunal Constitucional a três normas do Orçamento de Estado, supostamente por estarem feridas de inconstitucionalidade. Como o Governo achou que o TC está a impedir a sua "boa governação" (ainda que, aqui e ali, as suas práticas sejam ilegais/inconstitucionais), decidiu pedir uma "aclaração" (que palavra maravilhosa, na linha de outras como "inconseguimento" e quejandas) do Acórdão.

E aqui é que está o busílis. Ao que ouvi a um jurista e um juiz do Tribunal da Relação de Lisboa, o Código do Processo Civil, revisto em 2013 pela actual Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, deixou de admitir os pedidos de aclaração.

Ou seja, o Governo quer fazer uma coisa que já não é possível fazer porque o próprio Governo decidiu que iria deixar de ser possível fazê-lo. Portanto, e para não lhe chamar mais uma vez incompetente, diria (da forma mais simpática possível) que se trata apenas de uma charada.

Mas a minha "simpatia" esgotou-se quando ouvi o Primeiro-Ministro proferir: "tem de se escolher melhores juízes para o Tribunal Constitucional". Era só o que nos faltava! Um Governo que reiteradamente viola a Constituição da República e sistematicamente desfere ataques a um outro órgão de soberania. Cavaco Silva e os portugueses têm uma palavra (de repúdio) a dizer ...

quinta-feira, junho 05, 2014

O futebol e os meus descontentamentos ...




Já aqui tenho manifestado o meu desagrado pela histeria televisiva a que assistimos quando a nossa selecção de futebol vai participar nalgum campeonato da Europa ou do Mundo. E eu que até gosto de futebol não suporto mais o relato e as imagens dos mais ínfimos detalhes: os jogadores a sairem do hotel ou a entrarem no autocarro e o acompanhamento do dito autocarro (de mota, de automóvel ou até mesmo de helicóptero) que se desloca para aqui ou para acolá. Isto para já não falar de Cristiano Ronaldo que é mencionado a cada minuto, mesmo sabendo que ele é o melhor do mundo. Tudo nas televisões generalistas (e não só) em simultâneo. É, francamente, demais. Não há pachorra ...

E o que dizer quando a selecção é recebida pelo Presidente da República, das palavras de incentivo e de circunstância antes de irem todos almoçar nos salões do Palácio de Belém? É que não vejo a mesma atenção para outros atletas, de outras modalidades. Mesmo que esses atletas não se preparem apenas para partir mas já tenham regressado vitoriosos das suas competições.

Como foi o caso do canoista Fernando Pimenta que conquistou no último domingo a medalha de ouro na prova de K1 1.000 metros das Universíadas de Verão realizadas na Rússia. Ou dos atletas que conquistaram quatro medalhas (uma delas de ouro) na Taça do Mundo de Ginástica Artística Masculina e Feminina que terminou também no passado domingo no Centro de Alto Rendimento de Anadia, em Aveiro.

Por acaso, assistiram à recepção desses atletas em Belém? Ou será que já viram nas redes sociais uma "selfie" desses atletas tiradas com Cavaco Silva?



terça-feira, junho 03, 2014

O lamento de Olli Rehn



Se consigo entender as razões do porta-voz do PSD, Marco António Costa, perante o chumbo a três normas do Orçamento do Estado para 2014, em que acusa o Tribunal Constitucional de querer arrastar o país para o passado e de atropelar as competências do Parlamento, já me é difícil "engolir" que o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos, Olli Rehn, considere muito frustrante ser recorrentemente confrontado com questões sobre decisões do Tribunal Constitucional (TC) que "forçam" o Governo português a encontrar medidas orçamentais alternativas.

Forçam? É que, mesmo correndo o risco de ser deselegante para o Governo Português, o mais elementar bom-senso impunha que Olli Rehn equacionasse a questão de uma outra forma: afinal, porque carga de água é que o Tribunal Constitucional considera inconstitucionais todos os Orçamentos e todos os Rectificativos apresentados pelo Executivo Português? Se se interrogasse nestes termos, provavelmente poderia ser levado a pensar ou que o Governo Português é incompetente ou, simplesmente, se está nas tintas para a Constituição Portuguesa e, daí, "fabricarem" sucessivos orçamentos que não respeitam a Lei Fundamental do País.

Antecipando que as medidas propostas nada tinham de ideológico, haveria, ainda, uma terceira hipótese de escolha para o Comissário Europeu. Inteligente como deve ser, poderia, quem sabe, imaginar que o Governo Português era simultaneamente incompetente e se estava nas tintas para a Constituição. Mas isto sou eu a dizer, que tenho mau feitio.



sexta-feira, maio 30, 2014

"Sorriso Audível das Folhas"



De Fernando Pessoa, o "Sorriso Audível das Folhas"



Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

quinta-feira, maio 29, 2014

Será desta?



Depois de algumas vezes ser putativo candidato a candidato à liderança do PS sem que chegasse a avançar definitivamente, nesta quarta-feira António Costa anunciou a sua decisão firme de ser candidato à chefia do PS e, eventualmente, de ser Primeiro-Ministro. E porquê só agora, perguntar-se-á? Talvez porque Costa como muitos outros socialistas (e não só socialistas) mostrou-se insatisfeito com a vitória curta do partido nas eleições europeias.

Mas para alcançar esse desiderato, vai ter que derrubar muitas barreiras e, desde logo, as condições estabelecidas no estatuto do partido que determinam que um congresso extraordinário tem de ser convocado pela comissão nacional do partido, pela maioria das federações socialistas ou pelo secretário-geral. E não me parece que António José Seguro esteja para aí virado nem que as federações estejam todas ao lado de Costa. Resta a decisão da comissão nacional do partido que está marcada para o próximo sábado.

A "guerra" começou nas hostes socialistas. Depois das eleições de domingo é bom para a saúde do Partido Socialista e da nossa democracia que alguma coisa aconteça no PS. A vida política não é um concurso de vaidades, a vida política é um sentido de serviço em torno de ideias políticas. O Partido Socialista e o país necessitam urgentemente de uma personalidade forte a comandá-los e de um outro rumo. E não me parece que isso se conseguisse se Seguro ganhasse as próximas legislativas.



quinta-feira, maio 22, 2014

O despotismo no seu melhor ...



A Nigéria é o maior produtor de petróleo de África. E tal como acontece noutros países (em África e não só), o país é rico (quero dizer, as elites são muito ricas) e o povo vive miseravelmente. Embora a Nigéria seja considerado um país emergente pelo Banco Mundial (será em 2050 uma das 20 maiores economias do mundo), a corrupção e o despotismo grassam, impossibilitam o desenvolvimento e a população em geral vive em pobreza extrema. Enquanto isso, a tal elite exibe, despudoradamente, as suas riquezas.

Como foi o caso recente do casamento da filha do presidente da Nigéria marcado por um detalhe que caracteriza bem o regime: todos os convidados receberam, como lembrança do casamento, um iPhone de ouro de 24 quilates, personalizados com o nome dos noivos. Nem mais.

E não é a primeira vez que o presidente fez isso. No ano passado ele encomendou, pagos pelo Governo, claro está, 53 iPhones de ouro para comemorar os 53 anos da independência do país.

Chocante, na verdade ...

quarta-feira, maio 21, 2014

Prestidigitadores



Em tempos idos, com o auge nas décadas de 40 a 60 mas que continuaram, ainda, por muitos anos, o rei dos ilusionistas portugueses, também reconhecido internacionalmente, dava pelo magnífico nome de Conde d'Aguilar. Recordo-o bem, tinha uma figura muito característica. Apresentava-se sempre de casaca, faixa verde e vermelha ao peito, e muitas medalhas. Logo na sua entrada em palco se notava um toque de antipatia, talvez um excesso de altivez. Porém, os seus truques eram feitos com extrema elegância e transportavam-nos ao fascinante mundo da ilusão. O Conde d'Aguilar foi, de facto, um grande mágico que marcou uma época em Portugal.

Agora já não se tiram coelhos da cartola como dantes. Agora é a vez do (Passos) Coelho e a sua gente se dedicarem à prestidigitação, à mágica não tradicional, à habilidade manhosa e à trapaça para confundir os portugueses. Vejam, por exemplo, como a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) se transformou na Contribuição de Sustentabilidade ou como transformou a CES de imposto transitório em definitivo com a nova designação.

Foi-se o deslumbramento e a ilusão de outrora. Dos actuais "mágicos" só esperamos as duras penas que teimam em continuar a infligir-nos.



terça-feira, maio 20, 2014

17 de Maio - um novo feriado nacional?



Este 17 de Maio, o dia em que voltámos a ser senhores do nosso destino (?) por nos termos livrados da troika deu-nos uma certeza e, também, uma esperança. A certeza de que o tal relógio digital do Largo do Caldas estava certo quanto à data e hora da saída da troika de Portugal e a esperança que a data seja reconhecida como feriado nacional. Afinal, Paulo Portas fartou-se de dizer que o fim do programa de ajustamento seria como um novo 1º. de Dezembro, igual ao que em 1640 libertou os portugueses do jugo dos castelhanos.

Mas não nos iludamos e sejamos prudentes com o foguetório. A troika saiu mas pouco ou nada vai mudar na vida dos portugueses porque a política de austeridade e empobrecimento vai-se manter. Com este Governo e certamente com o próximo, mesmo que as cores governamentais se alterem. Por muitos e bons anos, pelo menos até que o bom-senso dos políticos e das políticas europeias e nacionais assente arraiais.

E digo que a nossa vida se irá manter porque quero ser optimista. Para além de todos os problemas da Europa e dos nossos próprios problemas estruturais que já vêm de longe (e parece que não há reforma de Estado que lhes ponha cobro), temo que a irracionalidade dos mercados, a eventual queda dos juros dos empréstimos e a descida das exportações não tornem, uma vez mais, o país ainda mais insustentável. E aí, tudo poderá recomeçar com um novo resgate. E aí, é melhor esquecer o eventual e desejado feriado do 17 de Maio, da mesma forma que já esquecemos o do 1º. de Dezembro.



sexta-feira, maio 16, 2014

E que tal apanhar um banho de sol?


Acreditem que pior do que a derrota do Benfica na final da Liga Europa, o que mais me aborrece - e preocupa - são os dados anunciados pelo INE de que o PIB português contraiu 0,7% entre Janeiro e Março, interrompendo assim o ciclo de crescimento dos três trimestres anteriores. A economia portuguesa contraiu inesperadamente (????) no primeiro trimestre do ano. E diziam que tudo estava a correr tão bem ...

Enfim, para tentar salvar a nossa mente sem a ajuda de ansiolíticos, sugiro que tomem um copo de um bom vinho tinto ou "peguem" um solzinho que, por enquanto, ainda é de borla por generosidade do Governo, se bem que a troika tenha chegado a pensar em aplicar uma taxa a quem apresentasse sinais de um ténue bronzeado que fosse.

E a propósito, e para descanso de quem receia a exposição ao sol por causa do cancro de pele - sobretudo as senhoras - aqui está uma boa notícia. Segundo investigadores suecos que estudaram o assunto durante 20 anos, o risco de cancro de pele e a mortalidade são maiores entre as mulheres que evitam a exposição ao sol por falta de vitamina D. Como vêem, não há que ter medo. Aproveitem bem o sol mas ... com conta, peso e medida, claro.


quinta-feira, maio 15, 2014

A maldição continua ...



Não vou comentar a final da Liga Europa de Futebol que terminou há poucas horas, em que o meu Benfica não foi capaz de levar de vencida a equipa do Sevilha. Uma vez mais, de forma perdulária e com alguma falta de sorte, perdemos a 8ª final europeia depois de, no ano passado, nos ter acontecido o mesmo frente ao Chelsea. A maldição de Béla Guttmann continua a pairar sobre a Luz.

E é exactamente sobre "maldição" de que todos falam, mas de que poucos sabem o que foi, que gostaria de recordar esse episódio. Pois bem, Béla Guttmann, o "feiticeiro húngaro", foi treinador de vários clubes, em vários continentes e, na maioria dos casos, fez desses clubes campeões. Também no Benfica isso aconteceu. Para além de títulos nacionais, em 1961 e 1962 o Benfica foi campeão europeu de clubes, vencendo dois colossos da época (que continuam a ser). Em 61 ganhou ao Barcelona e no ano seguinte ao poderoso Real Madrid. Só que o técnico estava em fim de contrato e, para renová-lo, pediu um aumento salarial para continuar no clube. A direcção não aceitou e o treinador saiu, não sem antes ter proferido a tal praga: “Sem mim, nem daqui a cem anos o Benfica conquistará uma taça continental”. Dito e feito, desde então a nuvem negra sempre pairou sobre o Benfica que disputou oito finais e perdeu-as todas. E eu "não acredito em bruxas, pero que las ay, las ay"!

Ainda que oficialmente ninguém queira assumir que haja um certo mau olhado, em Fevereiro deste ano, o Sport Lisboa e Benfica inaugurou no seu estádio uma estátua de bronze em homenagem a Béla Guttmann. O monumento representa Guttmann em pé, segurando em cada braço um dos troféus de campeão europeu que conquistou pelos encarnados. Ao pé da estátua está uma das mais emblemáticas frases ditas pelo treinador ao longo de sua passagem pelo clube: Só quem está aqui dentro, no Benfica, é que pode saber o que é mística. Não há nenhum clube do mundo com a mística igual à do Benfica.”

Há quem diga que o objectivo simbólico da estátua era o de "quebrar a maldição" lançada pelo ex-treinador húngaro. Porém, como se viu agora, o Benfica (e a sua mística) continua sem conseguir vencer uma final europeia. Se não me falham as contas, a cumprir-se a maldição na íntegra, ainda faltam 48 anos para conseguirmos ser novamente campeões da Europa. É muito, pelo menos para mim é demasiado ...



terça-feira, maio 13, 2014

Podem tentar, mas os portugueses já não acreditam ...


Com base em alguns indicadores favoráveis, bem podem tentar convencer-nos que, após três anos de "medidas" duras impostas pela troika e pelo Governo de Passos Coelho, o sufoco acabou e que "a partir de agora, doravante e pró futuro" a vida vai ser um mar de rosas. Podem tentar mas, infelizmente, todos sabemos que não vai ser assim. Se é verdade que a publicidade voltou a crescer, que o turismo interno aumentou e que a venda de carros novos disparou, fruto, quem sabe, de uma ilusória retoma da confiança, como é que nos vamos esquecer que salários e pensões foram cortados para sempre, que os impostos aumentaram brutalmente (e em breve haverá mais alguns), que o número de desempregados e emigrados é enorme e que a dívida do Estado não pára de crescer? Podem tentar, mas os portugueses já não acreditam ...

terça-feira, maio 06, 2014

É uma casa portuguesa, com certeza!



Depois de uma ausência de muitos anos, fui há dias jantar a uma casa de fados. Devo dizer que, tanto quanto me lembro, não senti grandes alterações desde a última vez que lá estive. A comida é mais ou menos do mesmo tipo, o ambiente idem e os fados, apesar dos novos tempos, continuam a ser os de sempre. Desgraçadinhos, muitos deles de faca e alguidar.

Mas, por que se tratava de um clássico, prestei especial atenção à letra de "Uma Casa Portuguesa", fado celebrizado por Amália Rodrigues nos idos anos 50 do século passado.

Durante décadas foi um fado emblemático que passou muito na rádio. Para além da voz inconfundível de Amália, o Estado Novo utilizou a letra do fado para sugerir ao povo como devia aceitar a pobreza em que se vivia. De uma maneira subliminar fazia-se a apologia da alegria da pobreza e da existência singela para a qual bastava "pão e vinho e um caldo verde, verdinho a fumegar na tigela".

O que nunca me passaria pela cabeça é que tantos anos depois, em liberdade há décadas, a mensagem (actual, de novo) lá estivesse outra vez, embora na voz de outras fadistas. Novamente a ideia de que temos que empobrecer. Novamente o discurso da alegria da pobreza e da existência singela. E, realmente, o que podemos querer mais do que "no conforto pobrezinho do meu lar, há fartura de carinho"? Agradeçam, pois, a sopa e a peçazita de fruta do jantar. E agradeçam, também, o sol, que nos dá ânimo e que, por enquanto, ainda é de borla ...


Para quem já não se lembra aqui estão, na íntegra, os versos de "Uma Casa Portuguesa"



Numa casa portuguesa fica bem,
pão e vinho sobre a mesa.
e se à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem esta franqueza, fica bem,
que o povo nunca desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.


Quatro paredes caiadas,
um cheirinho à alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo,
mais o sol da primavera...
uma promessa de beijos...
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!



No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
e a cortina da janela é o luar,
mais o sol que bate nela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existência singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tigela.


Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
São José de azulejo
mais um sol de primavera...
uma promessa de beijos...
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!




É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!


segunda-feira, maio 05, 2014

Futebol ... mas não só ...



Já não posso ouvir a estafada lengalenga de que os povos do sul são mandriões e que lhes falta a disciplina, a organização e a vontade de trabalhar. Teoria, de resto, recorrentemente repetida pelos povos do centro e do norte da Europa. Mas, caramba, algumas coisas teremos de bom ...

E a prova disso é que nas duas principais competições europeias de futebol as duas finais vão ser disputadas por equipas que pertencem aos "calaceiros" países do sul. Na final da "Champions" estarão duas equipas de Espanha e na final da Liga Europa, uma espanhola e uma portuguesa. É certo que nem todos os jogadores daqueles clubes são naturais desses países (aqui o meu argumento escuda-se, naturalmente, na globalização) mas todas as quatro equipas são fruto da disciplina, da organização e do muito trabalho feitos nestes países. Às vezes até com integração de jogadores provenientes desses outros países (assim de repente, recordei-me de alguns que jogaram no Benfica: o alemão Robert Enke, o belga Michel Preud'homme, os suecos Schwarz e Mats Magnusson e o dinamarquês Manniche, p.e.) países, sociedades e pessoas muito certinhos e arrumadinhos que tanto desfazem em nós.

Mas só por má fé ou sectarismo primário é que podem apontar o dedo para dizer cobras e lagartos dos países do sul. No que nos diz respeito - Portugal - e para além do futebol (que não é coisa menor) e do sol, e das praias, e da gastronomia, e dos vinhos, e da hospitalidade das nossas gentes, e da monumentalidade e da História do nosso país, temos muitas áreas em que provámos exactamente o contrário de que nos acusam. A não ser assim porque carga de água é que grandes multinacionais (estou a lembrar-me da Siemens e da Auto-Europa, por exemplo) insistem em trabalhar em Portugal, com operários, técnicos e gestores portugueses?

E já nem quero puxar pelos galões, porque se assim fosse, teria que recordar que este pequeno país de malandros (e descansem que não vou até ao tempo dos descobrimentos), tem um Nobel da Medicina e um Nobel da Literatura, cientistas reconhecidos internacionalmente e campeões europeus, mundiais e olímpicos em várias modalidades desportivas. "Coisitas menores" que muitos dos grandes países não se podem orgulhar.



quarta-feira, abril 30, 2014

O problema de não haver estratégias para o país ...



Sou um dos que defende há muito que os principais partidos políticos se deveriam entender em matérias consideradas fundamentais para o país. Chamem-lhe consenso, como diz Cavaco Silva, chamem-lhe pacto de regime ou chamem-lhe simplesmente bom-senso, que é mais fácil. Esqueçam os resultados eleitorais, esqueçam o poder e os tachos e escolham meia dúzia de matérias estruturantes em que, independentemente de quem estiver no poder, as políticas a seguir sejam as que foram previamente acordadas. Já cansa a repetitiva lamúria do bota-a baixo em que os partidos que governam desdizem e maldizem tudo o que foi feito pelo Governo anterior.

Vejam o caso do "carro eléctrico" que o então Primeiro-Ministro José Sócrates apadrinhou e adquiriu 17 unidades para as deslocações citadinas dos seus Ministros e que, com a chegada do actual Governo ficaram parados nas garagens. Três anos depois, o actual Ministro do Ambiente e Energia, Jorge Moreira da Silva, reviu as prioridades, retomou o projecto da mobilidade eléctrica e garante que ele veio para ficar. Mais, Moreira da Silva quer mesmo que, para além dos governantes, a generalidade da Administração Pública passe a circular em veículos não poluentes.

Este é um episódio que retrata bem as fragilidades das políticas públicas nacionais. Não me interessa quem é que "descobriu" a ideia nem quem a pôs de lado, nem tão-pouco, saber por que motivos. O que acho é que foram três anos perdidos. E tudo porque não há uma ideia para o país, não há uma estratégia, um rumo que seja seguido independentemente de quem nos governe. E é assim nos transportes/mobilidade, na educação e por aí fora, e por aí fora ...

terça-feira, abril 29, 2014

Soneto do amor e da morte



De Vasco Graça Moura


"Soneto do amor e da morte"

 

 

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

segunda-feira, abril 28, 2014

Os kiwis e a Revolução de Abril de 1974



No twiter alguém afirmava "a SIC diz que antes de 74 não havia kiwis em Portugal. Obrigado Otelo!". Não sei se isso é verdade mas, de facto, não me recordo de, antes da Revolução, ter comido (ou sequer visto) kiwis. O que não quer dizer que passados 40 anos, a minha memória esteja completamente fragilizada. E a provar o que digo, posso afiançar-vos que me lembro (e bem), por exemplo, que antes do 25 de Abril vivíamos em ditadura e as nossas vidas eram constantemente sobressaltadas por uma polícia política que prendia e torturava só porque as pessoas tinham ideias políticas diferentes. Lembro-me (e bem) que travámos uma guerra sem sentido para onde eram arrastados milhares de jovens que não percebiam porque estavam ali, e que morriam e/ou ficavam estropiados física e mentalmente. Lembro-me (e bem) da censura que decidia o que poderia ser escrito e publicado nos jornais e na televisão e apresentado nos teatros e cinemas. Lembro-me (e bem) dos "bufos" que não conhecíamos e que nos cercavam, que poderiam estar tão perto que um simples espirro poderia ser denunciado como uma tremenda conspiração contra o regime. Lembro-me (e bem) que um encontro entre duas pessoas era considerada como uma manifestação conspirativa e, como tal, proibida. Lembro-me (e bem) como as mulheres eram menorizadas e como a mortalidade infantil era elevadíssima. Lembro-me (e bem) das muitas famílias que viviam em habitações sem luz, sem água e sem casa de banho, da alta taxa de analfabetos e da educação superior que só era acessível às classes mais favorecidas. Enfim, lembro-me (e bem) de um dia, há 40 anos. em que uns corajosos militares arriscaram as suas vidas e devolveram a Portugal a liberdade e a esperança tão ansiadas.

Mas se, de facto, para além de todas as outras coisas, a revolução também nos trouxe os kiwis, então, ainda estou muito mais agradecido a esses militares de Abril.

quinta-feira, abril 24, 2014

"25 de Abril"



De Sophia de Mello Breyner Andresen



"25 de Abril"

 

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


quarta-feira, abril 23, 2014

Vem aí mais uma taxa ... a pensar na nossa saúde!



Para mal dos nossos pecados já nos habituámos às trapalhadas dos membros do Governo. É um corrupio constante do "diz que disse" entre Secretários de Estado e Ministros que produzem as afirmações mais díspares ou juram a pés juntos que o que tinham anunciado, afinal, não era bem assim. Criou-se uma rotina de expectativas (adivinhar quem é que diz a verdade e quando) idêntica à dos furinhos das caixas de chocolates da Regina quanto à tablete que vai sair.

Desta vez esperamos com ansiedade a nova medida anunciada pela Ministra das Finanças (eu ouvi esse anúncio) sobre a criação de uma taxa adicional sobre produtos que tenham impacto nocivo na saúde, nomeadamente os que contêm altos teores de açúcar e de sal. E já se vai falando também no tabaco e no álcool.

Ao certo, ao certo, ainda não temos qualquer certeza que isso vá acontecer. Pires de Lima, o Ministro da Economia, já manifestou que não está de acordo (será mais um joguinho do Governo?), os produtores dos hipotéticos produtos constantes na lista também se mostraram preocupados com a quebra das vendas e com o consequente aumento do desemprego. O Presidente da Confederação Empresarial Portuguesa (CIP) - António Saraiva - criticou a medida, e pediu sensatez ao Governo.

Mas a grande incógnita está em saber-se quais os produtos que podem ser considerados nocivos para a saúde. Serão os alimentos que conhecemos como a “comida de plástico”, que podem provocar aumentos excessivos de peso? Serão também os doces de uma forma geral, chocolates, gelados, refrigerantes, aperitivos salgados, bebidas com álcool? É que, para mim, todos eles podem de facto fazer mal à saúde se ... ingeridos em excesso. Contudo, repugna-me a ideia de ser lançada a denominada "fat tax", movimento que tem ganho alguns seguidores por essa Europa, não tanto pela preocupação única de proteger a saúde dos cidadãos mas, fundamentalmente - sejamos sinceros - para conseguirem gerar mais receitas e, eventualmente, haver alguma poupança nos gastos com os cuidados médicos resultantes dos tais excessos a que me referi.

E é verdadeiramente controversa esta medida. Tanto mais que, sendo generalizada, pode tornar-se perigosa. Por exemplo, acham mesmo que quem beber um copo de vinho tinto a cada refeição corre algum risco de saúde? Ainda por cima sabendo-se que o vinho tinto - se bebido com moderação - faz bem ao coração, à libido, à dieta e ainda combate o envelhecimento precoce. Então por que carga de água é que o vinho poderá vir a ser penalizado com mais esta taxa?



terça-feira, abril 22, 2014

A relação desconfortável



Ainda não passaram três anos após a eleição de Assunção Esteves para a Presidência da Assembleia da República e o PSD, que a promoveu ao segundo lugar da hierarquia do Estado, já se mexe e remexe, desconfortável com as sucessivas gafes que a senhora vai coleccionando. Há quem diga que Assunção Esteves é "imprevisível" e que, provavelmente, não sabe gerir situações de tensão. Será, mas exige-se bastante mais de um Presidente da Assembleia da República. Não basta que seja imparcial, é necessário que tenha bom-senso, mostre equilíbrio e saiba dialogar em português que todos entendam, sem "inconseguimentos" e histerismos. E à senhora presidente não lhe chega ser diferente (pensar, falar e agir de maneira diferente) dos Presidentes que a antecederam, todos eles muito competentes e que dignificaram a sua função. Uma coisa é uma questão de estilo, outra é esta "irreverência saltitante" que não nos transmite grande segurança. E já figuras bem conhecidas dos portugueses criticam, em tom menos abonatório, a Presidente. Como o fez o empresário Henrique Neto na Revista do Expresso da passada sexta-feira ao afirmar "Assunção Esteves nunca foi tida como muito sã da cabeça ...".

Woody Allen disse: "Há casamentos que acabam bem, há outros que duram para sempre". Parece-me que no caso do "casamento" entre Assunção Esteves e o PSD ele está destinado a acabar bem e ... em breve.

segunda-feira, abril 21, 2014

Só boas notícias. Em 2015 não haverá aumento de impostos ...



Lembram-se do que disse o Governo na última terça-feira? "Para se conseguir cumprir a meta de 2,5% do PIB para o próximo ano, tomar-se-ão as medidas necessárias mas não haverá aumento de impostos para 2015, nem outras medidas que impliquem um adicional esforço sobre salários e pensões". Boa notícia esta! Os ministros decidiram, então, "cortar 1.400 milhões no próximo ano sem sacrifícios adicionais para contribuintes". Muito Boa Notícia"! Só não concretizaram como. Ou antes, sugeriram que poderiam poupar 730 milhões de euros com a redução de custos nos ministérios, 180 milhões com rescisões amigáveis e aposentações na função pública e, quantos aos restantes 490 milhões, aí é que se fecharam em copas. Não deixaram, no entanto, de sublinhar que "algumas medidas de carácter extraordinário vão ser mantidas". Mas não disseram quais ...

Claro que essas boas notícias só são possíveis porque vai haver eleições em breve. Depois, presumo eu, a más notícias aparecerão. De qualquer jeito o que já foi anunciado prende-se com a dita "reforma do Estado" (ou lá o que é ...), e incluem, sobretudo, cortes e reorganizações em ministérios e outros serviços do Estado, fusões, diminuição dos custos com o número de funcionários públicos (portanto, mais alguns vão ser mandados embora) e redução de custos com consultorias.
 
Mas, para além das sugestões sugeridas e da diminuição das despesas com a saúde (admitida pela Ministra das Finanças), o que eu acho preocupante, o que eu não consigo entender é a razão que levou o actual Executivo a demorar 3 anos para começar a reduzir naquilo que ele próprio considerava serem as "gorduras do Estado". Só agora, porquê? Certamente porque foi muito mais fácil começarem pelos cortes dos salários e pensões. É que, segundo dizem, "A corda rebenta sempre pela parte mais fraca".



terça-feira, abril 15, 2014

Quando se atiram foguetes antes da festa ...



Mostrar demasiado entusiasmo perante vitórias previamente anunciadas (no desporto como na política) pode ser muito perigoso. "Cantar de galo" antecipadamente não costuma dar muito bons resultados.

Vejam a recente euforia patenteada pelo Governo quando há poucas semanas erguia cartazes a dizer que "há sinais de recuperação que não podem ser ignorados e que nos indicam que estamos a ir pelo caminho certo. Até porque os mercados voltaram a confiar em nós. Os portugueses estão quase a senti-lo no seu próprio bolso".

Aconselharia o mais elementar bom-senso que os resultados obtidos com a subida das exportações, a redução das importações, as taxas de juro a cair e a descida do desemprego - embora todos esses indicadores sejam encorajadores - fossem geridos de forma cautelosa porque tamanha "festança" corre o risco de acabar de repente e deitar abaixo as expectativas entretanto geradas. Até por que os dados positivos anunciados, não se fazem sentir na vida concreta das pessoas. O empolamento da tal euforia pode, portanto, tornar-se perigoso.

E já esta semana se soube que houve um abrandamento do crescimento das exportações e uma aceleração das importações (portanto, um recuo na balança comercial que se quer equilibrar) e o desemprego que parece ter estabilizado, poderá crescer, segundo a previsão do FMI. Mas, mais importante que os resultados da recuperação (que sobem e descem), o que me parece fundamental é perceber-se que eles são fruto de circunstâncias (a que nós quase sempre somos alheios) e não de uma alteração estrutural, de uma modernização da nossa capacidade produtiva, a qual, efectivamente, não se verificou. Daí a continuação do nosso empobrecimento.

É o que dá atirar os foguetes antes da festa!

segunda-feira, abril 14, 2014

Afinal, o problema não é deles, é meu, é nosso, é do país ...



Assunção Esteves pertence a um certo grupo de pessoas que vai dizendo, aqui e ali, umas coisas que caem mal junto dos portugueses. E o pior é que não se trata de inabilidade política, ela diz (eles dizem) o que realmente sentem. E, no caso da Presidente da Assembleia da República, ela tem o hábito, naquele seu esquema de "toca e foge", de responder aos jornalistas sorrindo e a correr, deixando frases isoladas que, porém, querem dizer tudo.

A propósito da próxima comemoração dos 40 anos do 25 de Abril, Assunção Esteves confirmou que os militares da Associação 25 de Abril foram convidados para assistir à cerimónia mas que não poderiam fazer qualquer discurso. E se eles não aceitarem, perguntou um jornalista? Nesse caso, respondeu, "o problema é deles". Uma resposta do tipo "temos pena", digna de um adolescente mal-educado. E, como se não chegasse, a Presidente da Assembleia da República foi mais longe e classificou as reivindicações dos militares a usarem da palavra na cerimónia como algo "que não existe".
 
Só que - enorme equívoco - o problema não é "deles" (dos militares). O problema é da senhora Presidente da Assembleia da República que não quer ser incomodada com um discurso que, provavelmente, sairia do "alinhamento normal" do discurso parlamentar, nomeadamente os vindos das bancadas da maioria. Ainda por cima numa comemoração de uma data redonda, em que os "velhos" capitães de Abril poderiam ser incómodos ao lembrarem as ambições e o espírito de Abril que, à força, nos têm querido fazer esquecer. É, digo eu, a mania dos Capitães de Abril de quererem o protagonismo no 25 de Abril, só por que (coisa pouca) derrubaram uma ditadura de 48 anos.
 
Por isso digo, o problema não é da Presidente da Assembleia da República, o problema é meu, é do país que tem como segunda figura do Estado a Dra. Assunção Esteves que já demonstrou por várias vezes não ter um pingo de bom senso. E, seguramente, que essa teria que ser uma das qualidades exigidas para se ser a segunda figura do Estado português.



sexta-feira, abril 11, 2014

A verdadeira explicação sobre o novo acordo ortográfico



Há muito que se sabia que o “novo acordo ortográfico” iria trazer vantagens para alguém. E não era, certamente, a uniformização da escrita portuguesa que motivava os mentores de todo este processo. Ainda por cima para obrigar países que, embora tenham o português como língua oficial, são habitados por milhares de pessoas que não sabem escrever nem falar o português. Então quais os verdadeiros interesses? O conhecido escritor brasileiro Charles Kiefer avança com uma explicação:

"... No entanto, no campo estratégico, nos movimentos de longo prazo, o Brasil terá grandes vantagens, tanto que os outros países da CPLP resistiram por mais de uma década ao acordo. Mas quais são essas vantagens estratégicas? A primeira delas, e talvez a mais importante, é a possibilidade de o Brasil conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Em que sentido, indagarão os céticos? O que a unificação científica tem a ver com o CS? Ocorre que, com a unificação, os falantes de língua portuguesa serão aumentados bastante, já que se somarão os habitantes de todos os oitos países. Hoje, na hora de se produzirem documentos, há uma torre de babel entre os nossos países. São clássicas, e cómicas, as situações na ONU na hora das atas, dos documentos, das produções de acordos comerciais em que o funcionário do órgão pergunta: Escreveremos em português de Portugal ou do Brasil? Após o acordo, toda a documentação será exarada num mesmo sistema ortográfico. Isto, para efeitos práticos e legais, significará que o português unificado representará mais de 250 milhões. Como o Brasil é o país económica e populacionalmente mais poderoso do conjunto da CPLP, nossas chances de ingressar no CS aumentam exponencialmente. Se algum brasileiro supõe que ombrear com EUA, Rússia, França e Inglaterra não tem importância política, económica, social e histórica deveria fazer, urgentemente, um cursinho de Direito Internacional. Fazer parte do Conselho Permanente da ONU ajudará até ao vendedor de pipocas da esquina, ao plantador de laranjas, ao professor universitário, à empregada doméstica. Até os grevistas do Cpergs terão melhores argumentos ao defenderem melhorias salariais aos que professores que ensinam uma das mais importantes línguas do planeta. A segunda vantagem estratégica do Acordo Ortográfico é que ele torna o Brasil o maior fornecedor de bens e serviços ligados aos setores de comunicação, educação e informática dos oitos países. Dados preliminares anunciam algo em torno de 400 milhões de dólares por ano em ganhos diretos para o avançado parque editorial brasileiro, por exemplo. Dos oito países, o Brasil tem as editoras mais poderosas, as maiores e mais avançadas gráficas, o melhor e mais competente parque industrial na área dos produtos informatizados. Se eu fosse um escritor moçambicano ou português, faria passeata contra o acordo! Mas sou brasileiro e por isso não me filio ao partido dos descontentes, dos críticos e de todos que acreditam que língua e poder não são coisas que se conjugam".

Para quem ainda tinha dúvidas, acho que este texto é suficientemente esclarecedor.



quinta-feira, abril 10, 2014

O novo acordo ortográfico foi um passo em falso?



Ao contrário do que li em alguns artigos de opinião, acho perfeitamente legítimo que muitos se batam pela não aplicação do acordo ortográfico que alguns querem impor. Recentemente houve um debate parlamentar que, claro está, terminou sem conclusões. E isto reflecte bem a opinião de muitos portugueses que não vêem qualquer lógica na sua aplicação. Então, por que não aceitar que o Acordo Ortográfico foi um passo em falso em que não há vencedores nem vencidos?
 
A ortografia é a representação do idioma e, porque está em constante evolução, se diz dinâmica. Embora haja quem defenda que a forma como escrevemos não altera o modo como dizemos as palavras, tenho para mim, que falamos como escrevemos. Com as devidas excepções e tendo em conta - lá está - as introduções que vão sendo adaptáveis.

O que nunca aceitei foi a cedência pura e simples aos interesses do Brasil só por que tem muito mais gente e há interesses a respeitar. Brasil que, curiosamente, ainda não aprovou formalmente o acordo. E, sejamos realistas, o A.O. não aproximou Portugal e Brasil, como nos quiseram impingir, nem facilitou o intercâmbio cultural e o interesse literário. Nada!
 
Ainda que o acordo só mude 2% das palavras que, nós portugueses, normalmente usamos, há uma questão de princípio que eu continuo a defender.

Mas sobre os tais interesses a que eu me referia, amanhã cá estaremos para abordar o assunto.

quarta-feira, abril 09, 2014

De facto, as torneiras estavam lá ...





Conheci o Sr. Rocha por mero acaso. Tinha acabado de comprar torneiras para a casa-de-banho e cozinha e perguntei à senhora que me atendia se conhecia um canalizador que mas pudesse colocar. Quase ao mesmo tempo que recebi a resposta negativa da funcionária um senhor que estava atrás de mim disse:


"Boa tarde, sou o Rocha, se quiser posso fazer esse serviço".

Na ausência de outra alternativa mostrei-me interessado mas ainda questionei se ele daria conta do recado uma vez que o modelo daquelas torneiras era muito recente ...

"Não há problema, sou canalizador da Câmara e vai ver que vai ficar contente ..."

Acertámos a data e o preço (que foi extremamente alto mas, como referi, não conhecia mais especialistas) e fiquei à espera. Entretanto, e por causa das coisas, telefonei para os serviços da Câmara e indaguei se havia por lá um tal Rocha, canalizador. Havia, de facto, um Rocha que era canalizador, e mais, era fiscal de canalizadores. Fiquei mais descansado.
No dia aprazado, mas quase uma hora depois do combinado, o homem apareceu mas estranhei que não trouxesse qualquer material de trabalho. O meu olhar fê-lo responder:

"Hoje só venho ver o local da montagem das torneiras". Indiquei os locais e o Rocha saiu prometendo voltar dois dias depois.

Na nova data, voltou a chegar muito atrasado e, por indicação minha começou por colocar a torneira da cozinha. A operação foi rápida e passou de imediato à misturadora da banheira. Até aqui não houve problema e as duas foram postas "en su sítio" antes do meio-dia. Quando eu pensava que a manhã "ainda era uma criança", o bem-dito do Rocha disse-me que ia almoçar. E foi aí que começou o calvário. Tempo para um almoço de estadão, durante a tarde pausa para uma cervejola, pausa para um café e com tantas pausas o dia foi passando e o serviço não ficou concluído. Teria que voltar uns dias depois para a conclusão do trabalho.

Voltou, é certo (até porque ainda não tinha recebido o pagamento) e colocou as duas misturadoras que faltavam, a do lavatório e a do bidé. Só que - e isto é um pequeno pormenor - elas estavam de facto colocadas mas não deitavam água. Pior, a água saía por debaixo das loiças, sítios por onde, supostamente, ela não deveria sair.

E ali ficámos, eu a olhar (cada vez mais nervoso) e ele, o canalizador (o técnico), a olhar também como se um problema daqueles fosse impossível de resolver. Até que lhe perguntei "Então, Sr. Rocha, não consegue arranjar uma solução?" Ao que ele respondeu "As torneiras estão colocadas". "Sim", retorqui, "elas estão lá realmente mas a água não sai. E a casa de banho está inundada". Depois de um pequeno silêncio, ouvi de novo a frase "mas as torneiras estão colocadas". Foi então que me passei de vez. Tínhamos entrado num impasse. Cada vez mais nervoso, peguei-lhe num braço e disse para sair da minha casa. Ainda lhe dei umas notas (pela montagem das misturadoras da cozinha e da banheira, aquilo que eu achei justo), acompanhei-o à porta e disse para não voltar.

Só que fiquei com outro "pequeno problema" para resolver. Impedir que a água saísse por onde não devia e fazê-la correr pelo caminho certo, nas tais torneiras que o Sr. Rocha tinha realmente colocado. Comecei a fazer experiências, fui observando os resultados, e gastei um ror de tempo até chegar a bom termo. Afinal, mesmo sem ser especialista na matéria, tinha conseguido chegar lá.

Já passaram alguns anos mas ainda hoje me recordo bem quer da cara "do cara" dizendo num tom monocordicamente descontraído "mas as torneiras estão colocadas" quer da forma irritada como corri com ele. Ainda me lembro (depois de tudo estar a funcionar como devia e da calma ter voltado) como me ri por ter chegado à conclusão que o "faça você mesmo" às vezes até resulta ...





















segunda-feira, abril 07, 2014

Ah, as malditas generalizações ...



Tenho aqui escrito repetidamente que é perigoso fazerem-se generalizações. Perigoso e injusto em certos casos. Ainda há dias Paulo Portas, no Parlamento, afirmou que as pessoas que deixaram de ter direito a rendimento social de inserção (RSI), ficaram excluídas dessa prestação social porque tinham mais de 100 mil euros na conta bancária. Diga-se, a propósito, que com as alterações que se têm verificado na Lei nos últimos anos, 32 mil famílias perderam o direito ao RSI, qualquer coisa como mais de 100 mil pessoas.
Sem excluir a possibilidade de haver uns quantos "habilidosos" que, apesar de terem bastante dinheiro ainda sacam (de forma fraudulenta) mais algum ao Estado, custa-me a crer que com 88 euros por pessoa (em média) de RSI alguém possa ter contas bancárias chorudas. Aliás, julga-se que os "espertalhões" não chegarão à dezena. Por isso mesmo, gostaria que fossem divulgados esses números porque acho muito difícil que os sistemas de controlo que certamente foram implementados não tenham conseguido detectar contas bancárias confortáveis pertencentes a cidadãos que se candidataram ao RSI.
Em resumo, Paulo Portas, chamou, de forma demagógica e injusta, vigaristas a cento e tal mil pessoas, cuja esmagadora maioria vive com enormíssimas dificuldades e para as quais o dinheiro do RSI constitui uma preciosa ajuda. Quanto aos infractores, procedam à sua identificação, obriguem a devolver o dinheiro ao Estado e prendam, se for caso disso. Para já o que se ouviu foi um Paulo Portas que, demagogicamente repito, foi ao encontro daqueles que em conversa de café (sem conhecerem a realidade nem situações concretas) afirmam que todos os tipos que recebem o RSI são uns calões que não querem trabalhar. E, simultaneamente, ele conseguiu reduzir uns milhões na despesa, o que é capaz de dar um certo jeito ...


sexta-feira, abril 04, 2014

"Epitáfio"



De Pedro Malaquias


"Epitáfio"




eu não deixo nada feito
fica tudo por fazer
que eu passei parte da vida
a tentar sobreviver
a outra parte a dormir
e outra parte a comer
ou então a fazer coisas
que não vou aqui dizer
mas não deixo nada feito
fica tudo por fazer

eu não deixo nada escrito
fica tudo por escrever
que eu passei parte da vida
a aprender a saber ler
seria muita arrogância
eu pôr-me agora a escrever
e em verdade se diga
que tive mais que fazer
mas não deixo nada escrito
fica tudo por escrever


e até o que foi dito
do que se diz por dizer
às coisas mais delicadas
que põem um tipo a pensar
duvido que alguma coisa
fosse assim tão singular
ou que um dia ainda se diga
sim senhor gostei de ouvir
por isso, p'ra resumir
digo-te sem cortesias
aqui jaz o Malaquias

viesses mais cedo e ainda o vias


quinta-feira, abril 03, 2014

A "Ginjinha Sem Rival"



Lamentavelmente, a "Ginjinha Sem Rival" corre o risco de fechar portas. Trata-se de um estabelecimento que tem 120 anos e constitui um ex-libris da Baixa de Lisboa, “uma instituição e um emblema da cidade” visitada por muitos nacionais e estrangeiros.


E tudo por conta da nova lei do arrendamento urbano, aprovada em 2012, em que os senhorios podem despejar os inquilinos sem necessidade de grandes justificações. Para o conseguirem basta que a denúncia do contrato seja comunicada com seis meses de antecedência e tenha por fundamento a demolição ou realização de obra de remodelação ou restauro profundos que obriguem à desocupação do espaço arrendado. E, neste caso, os proprietários nem sequer pediram qualquer aumento de renda, uma vez que a ideia é construírem um hotel naquele local.


Embora, inicialmente, a aprovação do projecto previsse a manutenção de “ocupação e função” do pequeno espaço de 10 metros quadrados onde a "Ginjinha Sem Rival" está instalada, agora já ninguém acredita que a loja venha a resistir aos novos tempos da modernidade.


Mais do que uma tradição lisboeta, a "Ginjinha Sem Rival" é um património cultural da cidade que vai desaparecer. São comércios como este que fazem a diferença, que atraem os turistas e põem Lisboa nos roteiros internacionais.


Afinal, a "Ginjinha Sem Rival" encontrou um rival que a vai vencer. E sem dó nem piedade!



terça-feira, abril 01, 2014

Quando o telefone toca ...



O título da crónica de hoje poderá ter sugerido a muitos leitores a recordação de um conhecido programa radiofónico - "Quando o telefone toca" - muito popular durante décadas a partir do final dos anos 60 do século passado. Um programa que consistia basicamente em telefonar para uma estação de rádio, dizer-se uma frase publicitária previamente anunciada e, em troca, era passada a música pedida pelo ouvinte. Isto quando o ouvinte não dizia simplesmente que queria ouvir um determinado cantor numa música à escolha do radialista. E o modelo durou, durou, durou (como certas pilhas ...) sempre com grande agrado do público.

Porém, a tecnologia veio dar uma nova dimensão ao "Quando o telefone toca". Com o aparecimento dos telemóveis ficámos a estar permanentemente contactáveis, dia e noite. E já nem me refiro à "banalíssima" (e desagradável) situação do telefone que toca quando estamos a assistir a um espectáculo, a uma aula ou uma reunião. Nesses casos, digo eu, mandaria o bom-senso e a civilidade que desligássemos o aparelho ou, pelo menos, o puséssemos em modo de silêncio. Estava a pensar quando o telefone "se lembra" de tocar quando estamos a milhares de quilómetros dos nossos locais habituais de residência ou de trabalho. E os diálogos (inesperados) acabam por ter a sua piada.

A primeira vez que isso me aconteceu, lembro-me bem, estava em Cuba (a do Fidel Castro) e o telemóvel acordou-me ainda de madrugada. Devido à diferença de horas (era manhã em Lisboa), uma colega minha ligou-me para marcar uma reunião. "Isabel, eu estou em Cuba e só regresso daqui a uns dias", disse-lhe ensonado. Pouco tempo depois de ter ouvido as desculpas pelo incómodo, o aparelho tocou de novo e ouvi novamente a minha colega (com a voz mais fresca do mundo) dizer que, em princípio, a tal reunião realizar-se-ia em tal data. Como já estaria em Portugal no dia indicado, despachei-a rapidamente dizendo-lhe que estaria presente enquanto me amaldiçoava por não lhe ter explicado que a Cuba em que eu estava não era a do Alentejo.

Recentemente, preparava-me para assistir a um espectáculo em Istambul (bebia, então, mais um chá, um dos muitos que já tinha ingerido nesse dia) quando o telefone tocou e do outro lado ouvi a voz do meu amigo António Carlos que me atirou de rompante "Eh pá, ligue para a RTP2 que está a dar um programa que você vai gostar". Respondi-lhe que não podia, que estava na Turquia e que não tinha à mão a televisão portuguesa. Do outro lado o silêncio antecedeu a explosão "Está a gozar comigo? Você está mesmo em Istambul, de verdade? Eh pá, então e quem é que vai pagar esta chamada? Adeus, falamos depois".

A globalização tem destas coisas. Podemos estar longe (mesmo muito longe) mas, ao mesmo tempo, tão perto. À distância de um telemóvel.