quinta-feira, abril 18, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa - I I


A propósito da crónica de ontem sobre a língua portuguesa, não podia deixar de referir uma moda que se instalou por cá há uns anitos, de aulas dadas integralmente em inglês nas nossas Universidades. Parece mentira, não é? Estamos em Portugal, as Universidades são financiada basicamente pelo nosso Orçamento Geral do Estado, os professores são maioritariamente portugueses mas os cursos são dados em inglês.

Chegámos ao ponto de no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, quando numa turma há um aluno estrangeiro que não domina a nossa língua, as aulas passarem a ser dadas em inglês. A língua inglesa está, de facto, a invadir as universidades portuguesas. Nas licenciaturas, nos mestrados e nos doutoramentos. No Técnico, mas também na Nova, na Católica, na do Minho ou no ISEG, há cursos em que a língua nativa não entra.

Para além da captação de alunos (para aumentar as fontes de financiamento) provenientes do Erasmus e de países de mercados como o Médio Oriente, o que se pergunta é "Mas, para além disso, será, sobretudo uma questão de moda?

O assunto é polémico até porque nem toda a gente - mesmo no meio estudantil - está eufórica com a importação da língua de Shakespeare. Segundo li, há até estudantes que deixaram de ir às aulas porque não entendem bem o que lá se diz. E um bom exemplo a contrariar essa moda é o da Universidade de Coimbra que tem 1 000 alunos de outros países (70% dos inscritos são chineses) a frequentar cursos de língua portuguesa. Aliás, a Universidade de Coimbra tem estado empenhada em reforçar o uso da língua portuguesa na sua política de internacionalização.

Mesmo que o objectivo da maior parte das Universidades seja atrair mais alunos de outras paragens que venham compensar os cortes do financiamento público, estão-se a esquecer de milhares de outros estudantes - portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, etc. - que menos familiarizados com o inglês, acabam, muitas vezes, por desistir.

Concluindo: sem deixar de constatar como uma mais-valia a maior integração linguística dos formandos, sobretudo em mestrados e doutoramentos, penso que, de certa forma, "estamos a vender", em nome da sustentabilidade financeira das Universidades, a nossa língua e a nossa identidade. Tanto mais que o português é o 6º idioma mais falado no mundo. E já agora digam-me se acham possível que numa Universidade de Tóquio um curso fosse dado integralmente em português só porque um estudante luso tinha decidido ir para lá estudar. Acreditam nisso? E o japonês é apenas o 10º idioma mais falado.