Eu também quero … se ainda for a tempo
Passados tantos anos, e já em pleno regime democrático há mais de 30, sabe-se agora que a atribuição de casas (não estou a referir-me às habitações destinadas à reinserção de pessoas despejadas das barracas) pela Câmara Municipal de Lisboa continua a fazer-se sem regras e sem critérios conhecidos. Prosseguem as irregularidades, ilegalidades, cunhas, favoritismo, falta de transparência e corrupção, de mãos dadas com o sentimento de total impunidade e onde a ética e a pouca vergonha campeiam.
Mais do que uma gestão incompetente existe uma clara falta de transparência na tomada de decisões, uma ausência de controlo por parte das estruturas adequadas e um assumido abuso de poder.
Aliás, como poderia haver um controlo adequado, e necessário, se o universo do chamado “Património Disperso da Câmara” nem sequer é do conhecimento da própria Câmara. Parece mentira mas o proprietário de milhares de casas espalhadas pela cidade (a CML) não faz ideia do seu património.
E os casos, os muitos que foram sucedendo durante décadas, estão a saltar agora para os jornais e para as televisões para espanto e indignação de muita gente.
O Expresso do passado sábado dava conta da entrega de casas camarárias a vários funcionários, jornalistas, artistas e autarcas.
Por exemplo, a um Director de Departamento do Município que tem um T1 em Telheiras desde 1989, onde o seu filho agora habita. Paga 95 euros de renda.
Por exemplo, a uma Chefe de Gabinete do actual Vice-Presidente, antiga administradora da Gebalis (uma empresa municipal) a quem foi atribuído um T1 em Telheiras. Agora mora lá o seu filho e há uns anos propôs a compra do apartamento por 10 mil euros, transacção que não se chegou a concretizar por um triz.
Por exemplo, a uma responsável da Segurança Social de Lisboa e Vale do Tejo que teve direito a uma casa na Quinta dos Barros e que paga uma “renda técnica”.
Por exemplo, a um jornalista muito conhecido que, por causa das “dificuldades” que estaria a passar, foi-lhe atribuído um andar na Estrada da Luz, em Benfica, mas que fazia do restaurante “Solar dos Presuntos” o seu local de almoço.
Por exemplo, a um funcionário da Câmara (hoje Director de Departamento da CML) que, por estar em processo de divórcio, foi-lhe concedido um apartamento em Telheiras. Dezoito anos depois, esse senhor voltou a casar, comprou outra casa e na de Telheiras mora o filho. Justificação: não tem dinheiro para comprar casa ao filho e além disso aquela é a casa de reserva. Nunca se sabe se voltará a divorciar-se.
Os exemplos não acabam e a “sem-vergonhisse” também não.
E chegam ao ponto de proclamar que “não há nada de extraordinário nisto ... é uma realidade histórica”, como afirmou o eterno vereador (que está na Câmara desde o 25 de Abril), Pedro Feist.
Realidade histórica? Devem estar a gozar com o pagode! Então não sabem quantas habitações lhes pertencem e onde estão situadas, não definem regras claras, transparentes e públicas para a atribuição das casas, fazem o que querem, não são controlados e ainda acham que não há nada para questionar?
É verdade que em Portugal, o “favorzinho” e o “jeitinho” nunca foram crime. E, por isso mesmo, estas pessoas dormem descansadas, de consciência tranquila, sem que sejam responsabilizadas por tais desmandos
E só agora, e em virtude das denúncias feitas e da exposição dos casos na comunicação social, o actual Presidente da Câmara de Lisboa sai a terreiro para dizer que a coisa vai mudar e que vão ser avaliadas todas as mercês dadas até agora.
Só espero ir, ainda, a tempo de pedir ao senhor Presidente uma casita para o meu filho. Pode ser também em Telheiras. É que não tenho dinheiro para lhe comprar uma e ele já está em idade de morar sozinho.



