Estrela do Mar

Depois de um dia de trabalho e de ter cumprido mais de cem quilómetros a ziguezaguear pelas estradas desenhadas aos esses, sabia-nos bem chegar, tomar um banho recuperador e sair para beber algo fresco antes do jantar.
Num belo dia assentámos arraiais numa pastelaria do sotavento algarvio. Tinha sido um dia de calor forte, de muito trabalho (aqui está mais um dos que diz que se farta de trabalhar, pensarão) mas, apesar de tudo, estávamos bem dispostos.
E de tão bem disposto que estava, encomendei ao empregado que nos atendera três imperiais e um Sinatra. O pedido, confesso, foi feito com uma certa ironia, talvez, reconheço-o hoje, com um tom de ironia excessiva, a rondar o gozo.
Eu tinha pedido um Sinatra mas o que eu queria, naturalmente, era ouvir o Frank Sinatra cantar naquele fim de tarde. E, com aquele pedido estranho, no mínimo, eu esperava que o empregado ficasse pelo menos em estado de choque e com uma tremenda cara de parvo, por não fazer ideia se eu estava a pedir uma bebida exótica ou uma outra coisa qualquer.
Palermices de um lisboeta que se julgava mais esperto do que os outros.
Pois a cara de parvo foi inteiramente a minha quando, ao mesmo tempo que nos serviram as imperiais, fez-se ouvir através da instalação sonora da casa, a voz melodiosa e inconfundível do Frank Sinatra, ainda por cima cantando “My Way”, um dos meus temas preferidos.
A história não passa de uma recordação de outros tempos. Hoje lembro-a, apenas, porque ela foi importante na minha formação futura, enquanto homem.
Tantos anos depois e também no Algarve (agora para os lados do Barlavento) dou de caras com uma pastelaria que se chamava “Estrela do Mar”.
Irresistivelmente entrei, sentei-me e pedi uma bebida à empregada que me atendeu, ao mesmo tempo que lhe dizia “Sabe, o seu estabelecimento tem o nome de uma canção do Jorge Palma”.
“De quem?” perguntou a moça, completamente a leste do que eu estava a dizer. Disfarcei e não lhe respondi. Mas não pude deixar de pensar que o mínimo que eu podia esperar numa pastelaria que se chamava “Estrela do Mar”, era ouvir, em fundo, a voz do Jorge cantar uma canção tão bela e tão inspirada como a que ele compora uns anos antes, com esse mesmo título, e de que agora recordo os seus versos.
“Estrela do Mar”
Mas, para que não fiquemos apenas pelos versos, convido-os a assistir a um vídeo (embora de fraca qualidade) de cerca de 4,13 m, onde podem ouvir o Jorge Palma a cantar ao vivo a “Estrela do Mar”
http://www.youtube.com/watch?v=f_GR8r9h7PQ&mode=related&search=






