quarta-feira, janeiro 07, 2015

Um "hino de esperança" chamado Francisco



Na primeira crónica deste ano não podia deixar de lembrar o discurso de Natal do Papa Francisco aos bispos e cardeais da Cúria, em que faltaram as tradicionais (e esperadas) palavras de felicitações natalícias. Se bem que o Papa Francisco já nos habituou a surpreender-nos com discursos e práticas não habituais e corajosas.

Francisco denunciou com severidade, uma por uma, as 15 doenças que afligem a hierarquia da Igreja, do carreirismo, à ganância e ao terrorismo da má-língua (“a doença dos cobardes, dos semeadores da discórdia e dos assassinos a sangue-frio da reputação dos seus irmãos"), deixando na esmagadora maioria dos presentes (que não estariam à espera de críticas tão fortes) um mal-estar bem visível nos rostos fechados e tensos.

No discurso duro, convidou os cardeais a fazerem um “verdadeiro exame de consciência, pedindo perdão a Deus” e fez o diagnóstico de 15 enfermidades, descreveu sintomas e apresentou remédios, de uma forma lúcida e conhecedora do que estava a falar. Criticou os que ficam demasiado presos à burocracia, os que recusando abandonar as suas tarefas se esquecem que o mais importante é sentar-se aos pés de Jesus, ou aqueles que, pelo cargo que atingiram, se julgam essenciais e a quem convidou a visitarem os cemitérios onde estão tantas pessoas que se consideravam indispensáveis. Foi ainda mais duro, quando denunciou o “Alzheimer espiritual” dos que se afastaram de Deus e vivem dependentes das suas paixões, caprichos ou obsessões, os que tentam preencher o seu vazio existencial arrebanhando bens materiais.

Os raros (e fracos) aplausos que se ouviram quando o Papa terminou não disfarçaram o ambiente pesado. Mas, para nós, simples mortais (crentes ou não nas doutrinas da Igreja) as suas palavras soaram como que um hino de esperança."Habemus Papam"!