quinta-feira, setembro 27, 2012

Angola – para além das desigualdades, os abusos



Ontem, dia 26, José Eduardo dos Santos tomou posse como Presidente de Angola. No seu discurso, o Chefe de Estado prometeu mais atenção para a juventude e uma melhoria da qualidade de vida dos angolanos.
Angola é um país rico. Porém, os benefícios do crescimento económico do país não são distribuídos por toda a população. Enquanto que muitos, ligados aos sectores político, administrativo e militar enriquecem rapidamente, a maioria da população é pobre e regista-se uma grande desigualdade social, que se tem agravado nos últimos anos.
Se, por um lado, nos habituámos, desde há um tempo, a ver as elites angolanas a frequentar as melhores lojas de marca de Lisboa (salvando-as, em alguns casos, da falência), por outro, não podemos ficar indiferentes aos abusos que vão sendo conhecidos, cometidos por altos funcionários angolanos que utilizam os dinheiros públicos para alimentar os seus vícios privados.
É o caso de Manuel Vicente, putativo sucessor de Eduardo dos Santos como Presidente da República. Sabe-se de há muito que Manuel Vicente tem um gosto refinado por vinhos e conhaques caríssimos. Daí enviar periodicamente a França e a Portugal, um avião executivo (o luxuoso Falcon-900 ou o sofisticado Falcon X-7), como cargueiro para o transporte exclusivo dos seus vinhos e conhaques. Os voos são operados pela VipAir, uma empresa comparticipada pela Sonangol, e não são permitidos passageiros durante as referidas viagens.
Algumas das garrafas de vinho Petrus, adquiridas em Paris, são reservadas apenas a multimilionários. O Petrus 1989 Magnum custa cerca de 9,700 euros, enquanto o Petrus 1990 Magnum atinge os 11,000 euros por garrafa. Já o conhaque habitual de Manuel Vicente, o Rémy Martin Louis XIII, custa em média 2,500 euros, enquanto as garrafas especiais, da mesma marca e também ao gosto do dirigente angolano, custam acima dos 8,000 euros.
É revoltante, temos que convir. Manuel Vicente, que já foi o todo-poderoso Presidente da Sonangol (na qual, ao que consta, constituiu uma fortuna pessoal incalculável e de forma ilícita) mostra-se indiferente às condições de vida da maioria dos cidadãos angolanos. O uso exclusivo de um avião de luxo adquirido com fundos da Sonangol, logo propriedade do Estado, para o transporte de vinhos e conhaque para satisfazer os seus caprichos etílicos é um acto inqualificável de corrupção e esbanjamento de fundos do Estado.
Manuel Vicente nasceu e cresceu pobre mas parece ter esquecido rapidamente as suas origens. Talvez seguindo as pisadas do seu ideólogo – o Presidente José Eduardo dos Santos – que afirmou em público que, quando nasceu filho de um pedreiro e de uma lavadeira, “já havia pobreza em Angola” e a culpa não era nem é sua.
 
Perante isto … resta esperar que as palavras proferidas pelo Presidente - mais atenção para a juventude e uma melhoria da qualidade de vida dos angolanos - se venham a concretizar. Os Angolanos merecem.