sexta-feira, fevereiro 20, 2015

E agora, Passos?



No mínimo, o que qualquer português gostaria de saber é qual vai ser a reacção do Primeiro-Ministro depois do Presidente da Comissão Europeia ter admitido que a troika beliscou a dignidade dos portugueses.


"Pecámos contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, Portugal e, muitas vezes, da Irlanda também". As palavras Jean-Claude Juncker soaram como um trovão e puseram em causa não só a actuação da troika como a anterior Comissão Europeia, liderada por Durão Barroso, de confiar “cegamente” nela. Aliás Juncker admitiu que a troika nem sequer tem legitimidade democrática.

Já se adivinhava que depois da vitória do Syriza na Grécia a Europa jamais seria a mesma. E aí está o desabafo do Presidente da Comissão Europeia a confirmá-lo. Mas, claro está, o Governo português, através do seu porta-voz, o Ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares, Marques Guedes, já reagiu, afirmando que considera infelizes as declarações de Juncker: "Nunca a dignidade dos portugueses foi beliscada"". A sério?

Pois os cidadãos acham (e têm sentido na pele) que essa identidade (cumplicidade) estranha entre o Governo português e a troika e as "medidas virtuosas" que a troika quis implementar em Portugal e mais aquelas que o nosso obediente governo entendeu acrescentar lhes roubaram a possibilidade de viver com a dignidade que merecemos. Retirada, aliás, com uma receita (à base de "reformas" assentes em mais impostos e cortes) que muitos já adivinhavam não ir dar bons resultados.

O mea-culpa de Juncker veio tarde mas chegou. Mas nem mesmo assim o Governo português é capaz de reconhecer que as políticas europeias foram demasiado duras e injustas para os cidadãos. O PSD apenas se desculpou com "as metas e objectivos terem sido manifestamente desajustados porque tinham sido mal negociados de início (culpa exclusiva do PS, segundo dizem) e o CDS - de forma hipócrita, convenhamos - afirmou "Aquilo que o senhor Juncker disse foi aquilo que o CDS ao longo dos tempos, de uma forma mais ou menos explícita, foi alertando, um governo de protectorado é um vexame".

A declaração pública e clara de Jean-Claude Juncker não foi suficiente para o "bom aluno" dar o braço a torcer. Vá lá, Passos, a sério, o que é que tens para nos dizer?