segunda-feira, março 09, 2015

Carta aos meus Filhos ...



Nem sempre a voz da experiência (embora ela seja lembrada amiúde como a da sabedoria suprema) se revela a mais correcta. Contudo, nós, como pais, tentámos ao longo dos tempos transmitir-vos valores que achámos serem fundamentais como a honestidade, a verticalidade e o respeito pelos outros. Anos e anos a dizer-vos das nossas convicções e como elas nos guiaram pela vida, lutando pela liberdade e por esse conjunto de valores. Uma educação dada não por cartilha mas pelo exemplo. E - por virtude nossa ou pela vossa inteligência - vimo-los crescer e tornarem-se pessoas de bem.
Porém, lamento dizê-lo, já não tenho tantas certezas. E digo-vos porquê.

Recordam-se quando ambos conseguiram trabalho (temporário e a recibos verdes), como foi difícil percebermos os tortuosos enredos das leis de então, nomeadamente as que à Segurança Social diziam respeito? Pois nunca nos deixámos esmorecer pela (defendida por muitos) ignorância ou má interpretação dessas leis, que nos levariam ao seu incumprimento e, mais tarde, às sanções nelas estabelecidas. Com muita persistência (e com muito cansaço também) calcorreámos os balcões da Segurança Social e das Repartições de Finanças onde fazíamos milhentas perguntas e procurávamos as explicações - tantas vezes contraditórias - para não falharmos. As leis (pese embora as diversas interpretações que delas se façam) são para se cumprir. E ninguém deveria ser excepção à regra.

Mas nem sempre é assim. O caso muito falado nos últimos dias de um cidadão que, por acaso, também é o actual Primeiro-Ministro do nosso país, demonstra inequivocamente como indivíduos que deviam estar bem informados sobre as obrigações que cabem a qualquer cidadão são com frequência incumpridas. Custa-me entender como é que certas pessoas desconhecem (?) que as contribuições para a Segurança Social são obrigatórias. Será que pensam um dia reformar-se sem ter que fazer descontos?

É verdade que Passos Coelho até veio a pagar uma dívida (que até já estava prescrita) depois de um jornalista "chato" ter começado a investigar o homem. É verdade que Passos já veio a público dizer (em tom aparentemente humilde que até dava dó ... ou raiva) que não é um cidadão perfeito, que teve algumas vezes falta de memória, outras, simplesmente, falta de dinheiro (coisa que dificilmente acontece a qualquer outro cidadão). É verdade que ele entregou declarações e pagamentos fora de prazo. E é quase certo que Passos ainda tem dívidas a regularizar com a Segurança Social.

Mas Passos Coelho não é um contribuinte qualquer, é Primeiro-Ministro e foi deputado. E o exemplo que deu aos seus concidadãos (a que se juntam outras trapalhadas ainda mal explicadas como os casos da Tecnoforma e do Centro Português para a Cooperação) são inadmissíveis, especialmente vindos de alguém que tem exigido tamanhos esforços aos portugueses. Dois pesos e duas medidas?

Apesar de tudo, e sabendo como é difícil manter uma coluna vertebral direita neste país de esquemas e habilidades, continuamos a acreditar que a ética, a seriedade e o trabalho valem a pena. E por sabermos que também pensam desta forma, queremos manifestar, queridos filhos, o nosso grande orgulho em vós.