terça-feira, dezembro 16, 2014

"Mexilhão à bulhão pato"



Juro que não me passou pela cabeça começar a dar-vos receitas culinárias. Se o tivesse tentado antes talvez hoje o "Por Linhas Tortas" fosse um dos blogues mais visitados do país. Mas não, os meus dotes culinários não são suficientemente fortes para trilhar esse caminho e as minhas habilidades gastronómicas (embora apreciadas pela família) situam-se ao nível do trivial, como se dizia dantes. O que até nem está mal de todo quando penso que há umas boas dezenas de anos quando saí da casa dos meus pais, eu de cozinha sabia nada, nem sequer fazer uns básicos ovos mexidos.

Tão-pouco pensei em sugerir-vos uma "nova tradição" para a Ceia de Natal. O que me levou a utilizar o título (gastronómico) desta crónica foi mesmo a palavra "Mexilhão", talvez a mais utilizada nas últimas semanas, em termos políticos. Foi Passos Coelho que, num seminário sobre Economia Social, considerou que "quem tinha mais tenha contribuído mais para o esforço de superação da crise, permitindo contrariar o adágio de "quem se lixa é o mexilhão"". Ou seja, pelas suas palavras, desta vez não foram apenas aqueles que costumam ser sacrificados e, portanto, "quem se lixou não foi o mexilhão".

Claro que a resposta não se fez esperar por parte da oposição que "pegaram" no mexilhão para dizerem ao Primeiro-Ministro que, de facto, quem se lixou - à séria - foi mesmo o mexilhão, isto é, os mesmos de sempre.

E seria bom que o PM tivesse bem a noção da realidade (que parece não ter) e dos números que foram anunciados por organismos oficiais. Por exemplo, segundo a OCDE, os mais ricos ganham dez vezes mais do que os mais pobres. Que 800 mil pessoas estão desempregadas (só as declaradas oficialmente) e que meio milhão de desempregados são de longa duração. Que 350 mil pessoas emigraram nos últimos três anos, que 1 em cada 4 crianças vive em situação de pobreza, que 2,8 milhões de pessoas está em risco de pobreza e que a desigualdade está cada vez mais desigual e que voltou a aumentar 1,5%.

E embora admita que muitos tenham contribuído para tentar superar a crise, a maior fatia do sacrifício voltou a ficar a cargo dos mesmos. Por outras palavras, uma vez mais se pode usar o adágio "quem se lixou foi o mexilhão".