segunda-feira, novembro 25, 2013

Dois consultórios ...




Há uma grande diferença entre os utentes dos consultórios da província e os dos consultórios das grandes cidades.

Na província - naquilo a que eu chamo a província propriamente dita, não às grandes cidades de província - a maior parte das pessoas entra na sala de espera, faz questão de dar os bons dias, as boas tardes, ou o que seja, a quem lá se encontra e uma boa parte dos presentes responde ao cumprimento. Depois, tudo é mais familiar. As pessoas, de uma forma geral, gostam de se inteirar sobre o tipo de doença que aflige quem está sentado mais próximo e, quase de seguida, não resistem à tentação de aconselhar o que acham mais adequado para combater esses males. Todos já tiveram um familiar ou um amigo que teve uma coisa parecida e, juram, que se não fossem aquelas inalações mentoladas e/ou uns determinados comprimidos de que, em regra, não recordam o nome, a doença não se teria ido embora tão depressa.

Não está ali em causa que cada caso é um caso nem que a dosagem dos tais comprimidos provavelmente não seria a indicada para aquela situação.

A simpatia e a boa fé, a sinceridade com que dão o conselho, é tocante. Tanto que a maioria desses conselhos já serão suficientes para dispensar a própria consulta ao médico, o que, afinal, os levara até ali.

Quando chega a vez de alguém ser chamado para a consulta, a pessoa que sai da sala, invariavelmente deseja “as melhoras a todos” e todos agradecem em uníssono.

Já nos consultórios das grandes cidades toda a gente está em silêncio. Enquanto que uns vão passando os olhos pelas revistas, outros, a maioria, vai observando disfarçadamente os seus companheiros de sala, na tentativa de perceber quem são eles e que é que fazem na vida. “Aquele engravatado ali deve ser um gajo importante, tem uns sapatos bonitos e bem engraxados e o fato é dos bons. Deve ser dos que manda …”.

Para além dos pensamentos mais ou menos enviesados, ninguém se incomoda em perguntar a quem está sentado ao lado do que é que se queixa. Ainda que esse alguém tenha um ar cansado e os olhos mortiços e meio fechados, quem é que se atreve a perguntar o que é que ele tem? Quem é que se arrisca a ter como resposta “Oh homem estou cansadíssimo e cheio de sono”?

Quando alguém entra na sala, não se lhe ouve um cumprimento que seja. Talvez porque vem distraído com os seus inúmeros problemas.

Às vezes, mas só se estivermos muito atentos, ainda se ouve um murmúrio que se pode assemelhar (levemente) a uma saudação. Mas a voz sai surda, imperceptível.

E o mesmo se passa quando alguém sai do consultório. Passa na sala pelos que esperam sentados a sua vez e, nem ai nem ui, vou à minha vida que tenho mais do que fazer.

A maioria de nós já passou por estas experiências. Mas, a menos que eu ande distraído, toda aquela gente – tanto nos consultórios da província como nos das cidades - são apenas pessoas. Só que, seguramente, são pessoas diferentes ...