sexta-feira, junho 20, 2014

"No meu tempo ..."




"Ah, no meu tempo é que ...". É uma expressão que não gosto de utilizar, tão-pouco de a ouvir. "Velhos saudosistas" têm tendência a usá-la para realçar as coisas boas que aconteciam quando eram crianças ou jovens, como que a querer dizer que aquelas é que eram realmente boas enquanto que as de agora não prestam.

É verdade que noutros tempos havia coisas de que hoje temos saudades. O respeito, por exemplo. Seguíamos um cardápio tradicional baseado na cozinha mediterrânea em que os produtos não tinham tantos pesticidas nem eram geneticamente modificados, por exemplo (embora nesta matéria possam ser aduzidos montes de argumentos contra). Havia mais tempo (e vontade) de nos darmos com a família e os amigos, por exemplo. A composição tradicional das famílias (muitas das actuais ainda nos fazem confusão, mas há todo um esforço de as compreender e aceitar), por exemplo. Mas também havia muitas coisas de que não gostávamos ou, simplesmente, não existiam.

Nas últimas décadas foram postas à nossa disposição (foram inventadas, foram criadas) tantas coisas tão boas e que nos dão tanto jeito. Os computadores e a internet, a televisão, os telemóveis (tirando a parte menos boa da questão), as diversas máquinas (frigorífico, de lavar roupa, café e tantas outras) de que já não conseguimos prescindir.

Daí que ache mais sensato não ter demasiadas saudade do "meu tempo" por que o "meu tempo" é também hoje, é agora. Tal como dizia Vinicius de Moraes:

"... Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
Meu tempo é quando ..."