sexta-feira, setembro 26, 2014

Desculpem qualquer coisinha ...



Era muito pequeno mas lembro-me dos meus pais me ensinarem a dizer "obrigado", "por favor" ou "desculpe". Famílias e educadores promoviam e incutiam nos miúdos as então chamadas "boas maneiras". E recordo com saudade como muitas das minhas travessuras de criança terminavam com um pedido de desculpas que a minha mãe, com um coração do tamanho do mundo, aceitava em troca de um beijo e de um abraço.

Cresci a ouvir que "as desculpas não se pedem, evitam-se". Compreendendo, embora, sempre acreditei que quando se erra, junto ao pedido de desculpas, deve haver uma assunção de responsabilidades.

Se assim era noutros tempos, parece que o deixou de ser. As regras comportamentais foram-se alterando e durante muito tempo quem errava não se justificava e, muito menos, era responsabilizado. Julgo que agora entrámos numa nova fase em que ao erro se junta um pedido de desculpa mas depois nada acontece.

Ainda na semana passada dois Ministros do actual Governo pediram publicamente desculpas por erros crassos dos serviços de que deles dependem. E houve alguma consequência disso? Não! Dir-me-ão que não são os Ministros que têm culpa dos erros cometidos pelos técnicos dos seus Ministérios. É verdade, mas tratando-se de governantes, há que retirar consequências políticas desses erros. Nuno Crato pediu desculpas no Parlamento (por erros gravíssimos na colocação de professores) mas o que aconteceu é que foi o Director-Geral responsável a pedir a demissão e o Ministro regressou ao gabinete. De Paula Teixeira da Cruz, que também pediu desculpas públicas (pelo caso da falhada implementação da plataforma informática do Citius), nem demissões houve e a Ministra ficou em paz.

Numa democracia madura como a nossa, parece-me insuficiente que, em casos como os referidos, os responsáveis se fiquem por meros pedidos de desculpa e por declarações de assunção de responsabilidades para depois, na prática, nada acontecer. Nem consequências pessoais nem políticas. Recordo que em 2001, o Ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, demitiu-se após a queda da Ponte de Entre-os-Rios, em Castelo de Paiva, que provocou dezenas de mortos. E, seguramente, não foi ele que construiu a ponte nem foi ele o responsável pelas inspecções que tinham que ser feitas. Jorge Coelho era "apenas" o Ministro que tutelava aquele tipo de estruturas e, portanto, ele era tão-somente o responsável político por essa área. Pediu desculpas e demitiu-se. Outros tempos!