quarta-feira, setembro 10, 2014

Não há almoços grátis ...



A situação é já antiga mas só agora se soube através de uma notícia do jornal Público. Em Outubro de 2007 o embaixador Pedro Catarino, então presidente da Comissão Permanente das Contrapartidas (CPC) - a estrutura estatal criada no âmbito dos ministérios da Defesa e da Economia, para acompanhar o desenvolvimento dos contratos que prometiam injectar várias centenas de milhões de euros, e resultavam de negociações entre o Estado e os vendedores de veículos e armamento para as Forças Armadas - foi convidado pelo seu velho conhecido, o advogado Bernardo Ayala, sócio da Sérvulo Correia & Associados, para um almoço em que também estiveram presentes duas outras advogadas daquele escritório. Foram duas horas de “amena cavaqueira”, na descrição do embaixador. Convém recordar que a Sérvulo Correia & Associados prestava assessoria à CPC desde 2003. Enfim, um almoço de amigos!

A história não passaria disso mesmo, não fosse o facto de dois meses depois desse almoço a Sérvulo Correia & Associados ter enviado a conta do almoço à CPC. No meio de centenas de horas de trabalho cobradas pela sociedade de advogados estava uma factura de “duas horas” vezes “três juristas”, com um valor de 1080 euros mais IVA.

Dessa vez, e dada a indignação do embaixador Pedro Catarino, o pagamento foi recusado. Na carta endereçada pelo embaixador a um alto responsável militar pode ler-se: "Um abuso e deontologicamente reprovável que a Sérvulo Correia venha pedir honorários pelas duas horas que os três juristas passaram comigo em amena cavaqueira". Mas o que terá acontecido ao longo dos anos com "almocinhos" deste tipo? Presumo eu que tenhamos (nós, quem haveria de ser?) pago a grande maioria dos repastos. A tão badalada promiscuidade entre políticos, banqueiros e sociedade de advogados ...

Só que o melhor da história ainda estava para vir. O escritório de advogados, por carta, reconheceu o erro. O problema é que a missiva enviada também teve um preço: “quarenta e cinco minutos” de honorários pela sua escrita. "Tempo é dinheiro", não é o que dizem?