sexta-feira, abril 29, 2011

A verdade nua e crua



As estratégias políticas e as frases que lhes estão associadas são como as modas. Aparecem, resistem durante algum tempo e são substituídas por outras mais sonantes e convenientes logo que surge uma nova conjuntura. Ainda há pouco se ouvia até à exaustão “Cada partido assumirá as suas responsabilidades”, agora é a vez de “Todos têm que dizer a verdade aos portugueses”, frase que é proclamada patrioticamente como se essa – a verdade - fosse a coisa que os portugueses realmente mais necessitam.


Esta ânsia de saber a verdade lembra-me aquelas situações em que alguns doentes com graves enfermidades esperam ouvir do seu médico a verdade nua e crua, o veredicto final sobre o seu estado, enquanto que outros preferem a ilusão de uma mentira piedosa que lhes permita acalentar a esperança da cura.


Para aqueles que são adeptos da verdade verdadeira e que querem realmente saber aquilo que os espera enquanto cidadãos e enquanto famílias, como irão viver daqui para a frente, permito-me transcrever uma parte do artigo de Nicolau Santos, publicado no Expresso do último sábado. Dizia ele:

“… trocar de carro de quatro em quatro anos? Esqueça. Viagens a sítios exóticos nas férias? Esqueça. Jantar fora uma ou duas vezes por semana? Esqueça. Gastar em medicamentos não essenciais? Esqueça. Comprar livros, CD e DVD com regularidade? Esqueça. Ir ao cinema com frequência? Esqueça. Assinar a Sport TV, canais de filmes e outros pacotes televisivos? Esqueça. Pagar as quotas do seu clube do coração? Esqueça. Comprar com regularidade uns camarões, uns patés, uns bons vinhos lá para casa? Esqueça. Alugar uma casinha no campo ou na praia? Esqueça. Aumento de ordenado e das poupanças no banco? Esqueça. Um bom emprego para os filhos que tiraram um curso superior? Esqueça…”

Então, estão mais satisfeitos agora? Já ficaram com uma ideia de como vai ser a nossa vida, pelo menos, e segundo Nicolau Santos, durante 10 anos? Já tínhamos percebido que o país está numa situação gravíssima, que não há dinheiro, que não há emprego e que a riqueza gerada é escassa. Mas por muito que tenhamos consciência dessa situação e por muito que nos preparemos para enfrentar as dificuldades que nos batem à porta, nunca saberemos bem em que parte vamos ser mais atingidos e o que é que teremos de mudar, se ainda tivermos capacidade para tanto.


A verdade nua e crua é, na maioria das vezes, inimiga da esperança. E viver sem esperança, meus Amigos, não é viver.