segunda-feira, maio 09, 2011

As vítimas de sempre


Neste início de semana tinha pensado escrever sobre a relutância colocada pelo Reino Unido em ajudar Portugal. Aquele mesmo país que é nosso parceiro na aliança diplomática mais antiga do mundo (1373) e que continua ainda em vigor, vá lá saber-se porquê. Ou escrever sobre a Finlândia que já mostrou idêntica resistência. Justamente esse país a quem nós, povo atrasado e periférico, não negámos solidariedade quando em 1940 fizemos uma das maiores campanhas voluntárias de sempre para oferecer aos também (nessa altura) pobres e periféricos finlandeses toneladas de roupas e cereais. Mas não, não é sobre esses países e sobre as suas opções solidárias que eu me vou debruçar hoje.


Hoje gostaria de me referir, ainda que brevemente, à comunicação ao país do Presidente da República. Mais uma comunicação anunciada com solenidade e que a maioria dos portugueses julgava ser sobre o acordo estabelecido entre o Governo e a troika de instituições internacionais. E foi, mas, uma vez mais, Cavaco Silva nada disse de novo. Pelo menos, nada que não soubéssemos já.


Houve, porém, um ponto do seu discurso que valeria a pena salientar. Foi quando disse:


“… Não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades, a gastar mais do que aquilo que produzimos e a endividar-nos permanentemente perante o estrangeiro.
Tem de haver um aumento significativo da poupança interna. Muitos portugueses terão de alterar os seus padrões de consumo, evitando gastos supérfluos …”.


Cavaco falou em “muitos portugueses” mas não se sabe, em concreto, a que franja da população ele se estava a referir. Acredito que não se estivesse a dirigir à maioria dos portugueses que ganha menos de mil euros e que não aufere o suficiente para poupar. Portugueses que nem necessitam de pensar em evitar os tais gastos supérfluos uma vez que o dinheiro apenas chega para o essencial.


O que todos temos como certo, isso sim, é que existe pela frente um caminho árduo a percorrer, onde vamos ter que assumir um “espírito patriótico e de unidade”, de acordo com as palavras do Presidente. Isto é, um caminho cheio de sacrifícios onde, não custa adivinhar, as vítimas vão continuar a ser as de sempre.